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segunda-feira, 4 de agosto de 2014

As razões (omitidas) do passado para se entender o “presente”

“Se eu fosse um líder árabe, nunca assinaria um acordo com Israel. É normal: nós tomamos o país deles. É verdade que era uma promessa de Deus, mas o que têm eles a ver com isso? O nosso Deus não é o deles. Houve o antissemitismo, Hitler, os nazis, mas o que isso lhes diz respeito? Para eles, existe uma única coisa: nós viemos e roubamos o país deles. Por que aceitariam isso?”: Esta espantosa declaração de David Ben Gurion, fundador do Estado de Israel e o seu 1.º primeiro-ministro, na época, nunca foi publicada nos media.
Eu vou todos os anos para Israel. É um país incrível. Tem a 25ª mais alta renda per capita do mundo, com 36.000 dólares ao ano, à frente da média da União Europeia e mais de 3 vezes superior à brasileira (11.000 dólares ao ano). Já ganhou 12 prémios Nobel - tem mais prémios Nobel por habitante do que a Alemanha, Estados Unidos e França. Israel tem excelentes museus, uma das melhores orquestras filarmónicas do mundo, grandes cineastas (Amos Gitai, Dror Moreh, Ari Folman), escritores magistrais (Amos Oz, David Grossman, S.Y. Agnon, A.B. Yehoshua...), músicos fantásticos. Apesar do seu tamanho minúsculo, é o 3.º país com mais empresas listadas na Nasdaq, a bolsa de empresas de tecnologia, atrás apenas dos EUA e da China. O primeiro serviço de instant messaging, ICQ, é de uma empresa israelita. O Waze também. A Teva, a maior empresa do mundo de medicamentos genéricos, é de lá. O país tem grandes restaurantes, um Parlamento vibrante, uma vida noturna intensa. Tel Aviv poderia ser colocada em qualquer país europeu e o turista não saberia a diferença.
Que tudo isso tenha sido gerado por um país de 20.000 quilómetros quadrados (um pouco menor que Sergipe) fundado em 1948 já seria surpreendente; tendo acontecido sob constantes ataques em guerras e atentados terroristas e acolhendo milhões de imigrantes ao longo de décadas, é algo que aqueles com pendores religiosos poderiam chamar de milagre. Cercado por todas estas opulentas vitórias e conquistas, é perdoável que os visitantes estrangeiros e os próprios israelitas não consigam fazer o esforço sobre-humano de notar que, mantido o atual caminho, o país ruma para o suicídio.
Conflito - A atual campanha de Gaza apenas reforça alguns pontos nos quais acredito há muitos anos. Primeiro: Israel não pode vencer o conflito com os palestinianos militarmente sem que se torne um pária entre as nações. Porque a única maneira militar de acabar com o terrorismo dos radicais do Hamas seria dizimar todo o povo palestiniano. Algo inconcebível. Enquanto houver palestinianos vivos, vão querer ter um Estado – uma aspiração que o povo judeu, apátrida durante 2 milénios, certamente entende bem, e cuja legitimidade é inquestionável.
Eu acompanho este conflito com lupa há pelo menos 20 anos. Já nem me recordo mais a quantidade de vezes que os comentaristas militares israelitas e os seus apoiantes disseram que uma certa ação militar ou o assassinato de um líder do Hamas (Yehia Ayash, Ahmed Yassin, Abdel Aziz al-Rantissi, Salah Shahade, Ahmed Jaabari) daria o “golpe definitivo”. Mas o enredo é sempre o mesmo: centenas ou milhares de palestinianos inocentes são assassinados, casas são destruídas, mísseis explodidos, soldados e civis israelitas morrem e, assim que as operações acabam, a preparação para o próximo conflito começa. Com um saldo sempre negativo para Israel. A operação ‘Chumbo Fundido’, de 2008-09, matou entre 1.166 e 1.417 palestinianos e 13 israelitas.
A operação atual, no momento em que escrevo estas linhas, já custou a vida de 1.492 palestinianos e 66 israelitas, além de um soldado sequestrado (entretanto reconhecido como morto em combate) A imagem internacional do país deteriorou-se sensivelmente de lá pra cá. Chama a atenção que os defensores desta operação não percebam a sua inutilidade: Israel está a usar todo o aparato bélico de que o século XXI dispõe para...enterrar túneis (?!). Túneis que podem ser feitos com pás e um pouco de cimento e que certamente começarão a ser cavados novamente assim que o conflito terminar. É óbvio que Israel precisa de se defender dos foguetes e não permitir túneis adentrando o seu território, como é óbvio não ser possível eliminá-los militarmente.
Guerrilha - Muito se tem escrito, nos últimos dias, sobre a indecência do comportamento do Hamas, que estaria vitimando os seus concidadãos de propósito para danificar a imagem de Israel. Do outro lado, há aqueles que acusam Israel de “genocídio” e imaginam que o objetivo da ação é matar o maior número possível de palestinianos. Não pretendo ater-me a teorias e gostaria de ficar no terreno do que considero obviedades. A primeira é que, se os palestinianos não podem ter Exército e não conseguem obter concessões pela via da negociação, a sua arma será o terrorismo, por não terem outra. A segunda é que terroristas são o que de pior a humanidade produz, e os militantes do Hamas, e a sua ideologia, são asquerosos, racistas, desumanos, torpes. A terceira, derivada das duas acima, é que um Exército nacional não pode lutar contra e vencer uma milícia terrorista sem que adote as suas táticas, coisa que um Exército nacional não pode fazer. É por isso que os americanos não ganharam no Vietnam nem os franceses na Argélia, e é por isso que o exército israelita não ganhará em Gaza, se por “vitória” entendermos uma ação militar que gere uma paz duradoura.
Não entendo as pessoas que ficam a apontar as atrocidades do Hamas. Ninguém, em sã consciência, acha que é uma organização digna e honrada. O que esperam essas pessoas? Que ao denunciar as vilezas do Hamas os seus militantes comecem a guerrear de acordo com as Convenções de Genebra?! Não vai acontecer. Que a população de Gaza se insurja contra o Hamas e entenda as razões israelitas para matar centenas de mulheres e crianças, e aceitem o bloqueio marítimo, terrestre e aéreo que Israel impõe a Gaza de maneira resignada? Não vai acontecer. Que a comunidade internacional aceite a morte de centenas de inocentes porque os militantes do Hamas estão a lançar foguetes contra cidades israelitas? Não vai acontecer.
O segundo facto, portanto, que essa operação deixa claro, é que o problema israelo-palestiniano precisa ser resolvido na mesa de negociações. Essa, aliás, é a única forma de derrotar o Hamas: mostrar aos palestinianos que o terrorismo não leva a nada e que o caminho dos moderados traz resultados. Aqui os defensores de Israel repetem mais uma frase sem sentido, que vem dos partidos da direita israelita: a de que não há parceiro para a paz, de que os palestinianos não reconhecem a existência de Israel, de que todos os árabes – ou todo o mundo, dependendo do nível de paranoia do interlocutor – quer jogar os judeus ao mar. Assim sendo, não há nada a fazer, além daquilo que os militares israelitas chamam de “aparar a rellva”: ações militares periódicas que causam bastantes mortes e destruição e retardam em alguns anos o fortalecimento das milícias palestinas. (Esse linguajar desumano, inaceitável, já é um indício de uma brutalização da sociedade israelita e de grande parte da comunidade judaica, que comento a seguir).
Para ser sincero, acho essa visão equivocada. Ela emana do pecado original do sionismo: a ideia, difundida nos primórdios do movimento, de que a criação do Estado judeu na Palestina histórica era dar “um povo sem terra para uma terra sem povo”. Ocorre que a segunda metade da frase é falsa: havia milhares de palestinianos a morar, há séculos, nas terras sagradas do judaísmo. Eu entendo perfeitamente que um povo perseguido durante milénios e tendo recentemente saído do Holocausto não tenha podido demonstrar empatia para com o sofrimento dos palestinianos naquela época - mas não hoje. Também entendo que os palestinianos não tenham aceitado a presença judaica em terras que percebiam como suas. Como bem disse David Ben-Gurion, 1.º primeiro-ministro israelita: “Se eu fosse um líder árabe, jamais assinaria um acordo de paz com Israel. É normal, nós tomamos o país deles. É verdade que Deus prometeu-o a nós, mas o que têm eles a ver com isso? O nosso Deus não é o deles. A única coisa que eles veem é: nós viemos aqui e roubamos o seu país. Por que deveriam aceitar isto?”
História - Os palestinianos e os vizinhos árabes cometeram um erro histórico ao não aceitar o plano de partilha da ONU em 1947 e declarar guerra a Israel em 1948. Pagaram por esse erro com uma derrota fragorosa, exílio e morte, naquilo que chamam de “Naqba” (“Catástrofe”), e continuam a pagar até hoje. Em 1947 lutavam por 100% da terra. Agora lutam por apenas 22%, a área correspondente à Cisjordânia e à Faixa de Gaza. A ideia de que não há parceiro do outro lado deriva da ideia de que os palestinianos rejeitaram ofertas “generosas” de Israel, que previam a devolução de até 95% dos territórios ocupados. Mas mesmo para os palestinianos moderados, qualquer coisa que não seja a totalidade dos 22% que lhes restaram é um insulto. Não haverá paz enquanto todos os territórios não forem devolvidos.
Há várias propostas na mesa que chegam muito perto do fim do conflito, como o que foi negociado em Taba em 2001, a Iniciativa de Genebra de 2003, a proposta da Liga Árabe de 2002. Creio que um governo israelita com respaldo popular para chegar a um acordo conseguiria concluí-lo em poucos meses de negociação. A questão que parece mais espinhosa é provavelmente o direito de retorno dos refugiados palestinianos, mas ao contrário do que os radicais israelitas espalham, 90% dentre eles não querem voltar para o Estado judeu, e sim para um eventual Estado palestiniano. Se tem dúvida sobre a confiabilidade da informação, vale dizer que ela foi auferida por um pesquisador palestiniano que, ao divulgá-la, teve o seu escritório depredado pelos seus conterrâneos radicais (esse dado, assim como todos os outros mencionados ao longo deste artigo, estão disponíveis em twitter.com/gioschpe).
Cenário - Creio que a maior oposição a um acordo justo e duradouro venha do atual governo israelita, que acredita na manutenção do status quo, talvez desejando que em algum momento os palestinianos desistam das suas aspirações ou que alguma mudança radical aconteça no Médio Oriente (muitos ainda imaginam que algum dia será possível fazer um Estado palestiniano na Jordânia...). Creio que quem analisa os dados friamente, e não através do prisma do pensamento mágico, haverá de concluir que a passagem do tempo é altamente contrária ao interesse israelita. Por 4 motivos: demográfico, geopolítico, sociológico e de relações internacionais.
Demográfico: em Israel, hoje, aproximadamente 75% da população é judia e 21% é árabe. Dentro da população judia, os ortodoxos representam 10% do total. Mas, devido ao diferencial de fertilidade – 7 filhos por mulher ortodoxa versus 2,3 para as judias não-ortodoxas – hoje os religiosos são 20% da população judia com menos de 20 anos. Em 2050, a projeção demográfica é de que os religiosos representem 30% da população judia. Os árabes israelitas também têm fertilidade mais alta do que os judeus não-religiosos: 3,5 filhos por mulher, versus 3,0 para a população judia como um todo. Ou seja, a proporção de árabes e ortodoxos aumenta e a de judeus não-religiosos diminui. Se já é difícil chegar a um consenso hoje, imagine quando talvez a maioria da população for composta de judeus ortodoxos e árabes. Além disso, há a população palestiniana nos territórios ocupados. Se a incluirmos, hoje temos aproximadamente 12.000.000 de pessoas a viver entre o rio Jordão e o Mediterrâneo. 52% são judeus e 45% árabes. Segundo o demógrafo Sergio Della Pergola, da Universidade Hebraica de Jerusalém, essa proporção inverte-se em poucos anos; em 2030 os palestinianos representarão 56% da população. Imagine se a Autoridade Palestina dissolver-se e Israel voltar a ter controlo legal sobre toda essa população...
Geopolítico: hoje Israel consegue manter o status quo porque os Estados Unidos oferecem apoio diplomático – vetando sanções no Conselho de Segurança da ONU, por exemplo – e militar. Com o fim da Guerra Fria, caiu a razão estratégica para o apoio americano. Com a descoberta do gás de xisto americano e a reduzida dependência deste país do petróleo do Médio Oriente, a razão económica também se enfraqueceu. Resta a motivação da política interna, com a pressão da comunidade judaica e, em menor escala, evangélica em favor de Israel. Mas, como mostram críticos como Peter Beinart, o apoio da juventude judaica americana a Israel é menor do que a da geração dos seus pais. Mas mesmo que, apesar de todos esses fatores, o apoio americano continue firme e forte (o que me parece improvável), é difícil que seja suficiente num mundo que caminha para a bipolaridade, com a China ocupando o posto de maior economia mundial. A China não tem, nem nunca teve, uma comunidade judaica expressiva. Não é, nem nunca foi, uma democracia. Com 69 carros por 1.000 habitantes (vs. 786 nos EUA) e poucas reservas de petróleo, é difícil imaginar-se que a China irá alinhar com Israel e não os países árabes. No próprio Médio Oriente, a Primavera Árabe foi mais um sinal de alerta. Quando as populações árabes depuseram os seus ditadores militares, em alguns casos escolheram movimentos radicais islâmicos nos seus lugares. Quando o Egito foi governado pela Irmandade Muçulmana, houve grande cumplicidade entre o presidente Mursi e o Hamas, incluindo o tráfico de armas. Se a situação de hoje é difícil, o que acontecerá se o Egito voltar a ser governado pela Irmandade, o Líbano pelo Hezbollah, a Síria e o Iraque pelo Isis?
Sociológico: a ocupação militar de outro povo corrói uma nação democrática. É difícil imaginar-se que um jovem israelita passe 3 anos (o período do serviço militar obrigatório para os judeus israelitas; as mulheres servem 2 anos) suprimindo a liberdade alheia e depois se transforme num democrata exemplar. O filósofo israelita Yeshayahu Leibowitz escreveu estas palavras proféticas num ensaio de 1968, enquanto a população israelita ainda estava embevecida com as conquistas territoriais do ano anterior: “Um Estado dominando uma população hostil de [à época] 1.500.000 a 2.000.000 de estrangeiros necessariamente se tornará um Estado “policialesco”, com todas as consequências que isso traz para a educação, liberdade de expressão e instituições democráticas. A degeneração característica de todos os regimes coloniais também prevalecerá no Estado de Israel.” Assim está a ser. Atualmente, manifestantes contrários à campanha de Gaza têm sido espancados por militantes de direita e até presos pela polícia. Os apoiantes da ação militar vão às ruas cantando, abertamente, “Morte aos árabes!” e “Morte aos esquerdistas!”. Não é preciso um Ph.D. em Ciência Política para saber que esse ódio e sectarismo são sinais de uma profunda falência democrática, normalmente vista apenas em períodos pré-convulsão civil.
Comunidade internacional: Por último, e talvez mais importante, Israel está a tornar-se um pária aos olhos da comunidade internacional. É o único país que domina outra população, e é a única democracia ocidental que desrespeita leis internacionais, impõe bloqueios a outro povo, causando enormes dificuldades e sofrimento desde 1967. Muitos judeus veem nesses ataques da opinião internacional o espectro do antissemitismo e até do nazismo, como se criticar o governo israelita fosse sempre uma versão sublimada de ódio antissemita. Discordo, mas não vou entrar nessa discussão. Atenho-me ao facto: a perceção de Israel na comunidade internacional está em queda livre desde a 2.ª intifada. Já há vários países, ONGs, universidades e igrejas que boicotam o país e incentivam os seus membros a não comprar produtos ou ações de companhias israelitas.
Para um país minúsculo em estado de conflagração com quase todos os seus vizinhos, é impossível para Israel manter o seu nível de desenvolvimento caso as sanções da comunidade internacional evoluam para um boicote do estilo imposto à África do Sul na época do apartheid. Pode ser que os esforços propagandísticos do governo israelita surtam efeito, mas eu duvido fortemente que – por mais que o Hamas seja odiado – a comunidade internacional tolere a morte e as privações que as ações israelitas vêm impondo aos civis palestinianos.
Israel - Quero concluir com uma experiência muito pessoal. Nestas férias de julho, a minha mulher, israelita, foi com os nossos filhos visitar a sua família, perto de Tel Aviv. Eu não pude ir, por motivos de trabalho. Eles chegaram lá no 2.º dia da operação em Gaza e ficaram 2 semanas. Como os que me leem devem saber, considero-me um racionalista, humanista e pacifista. Desde a adolescência. Pois quando minha mulher me contou que teve de ir, junto com os nossos filhos, para um abrigo antiaéreo para se proteger dos foguetes do Hamas, durante algumas horas eu pensei com o fígado, e tive vontade de que o exército israelita despejasse sobre Gaza todo o tipo de armamentos, nas quantidades que fossem necessárias, para que os foguetes parassem de cair e eu pudesse ter os meus de volta e em segurança.
Comecei a sair desse estupor ao ver o indescritível sofrimento de pais e familiares que tiveram os seus filhos destroçados pelos mísseis que eu desejara que caíssem sobre eles. Antes de ser um judeu sionista, sou um ser humano, e por ser humano e pai consigo sentir a dor que acomete um pai que precisa viver como realidade aquilo que, como um mero temor, já me causara tamanha angústia. Se eu tive esse um acesso de bílis mesmo morando a milhares de quilômetros de distância e tendo familiares no conflito durante 2 semanas, posso imaginar como se sentem os israelitas que passam por isso, constantemente, há anos. E, ainda mais, o que passa pela cabeça dos habitantes de Gaza, cujo sofrimento é infinitamente maior. Consolidou-se em mim a crença de que esses 2 povos, sozinhos, não conseguirão superar os seus ódios e medos e chegar a um acordo de paz justo e duradouro.
Caminhos - Hoje, acredito que Israel tem apenas 3 alternativas. A primeira é seguir o caminho atual, e confiar na sua supremacia militar e na aliança com o poder hegemónico. Esse é um caminho que, no curto prazo, vai levar apenas a mais conflito, mais mortes, mais isolamento externo e ruturas internas. No longo prazo, tende a levar a um 2.º Holocausto. Quem conhece a História sabe que o atual atraso económico e militar do mundo árabe é uma aberração. Enquanto as potências ocidentais de hoje chafurdavam nas trevas da Idade Média, os povos árabes representavam a vanguarda do conhecimento e da riqueza. Voltemos mais alguns milénios no tempo e veremos os judeus como escravos do faraó egípcio. Em algum momento esse pêndulo há-de fazer o movimento inverso; se a vida dos israelitas depende apenas da supremacia tecnológica, o fim desta trará a extinção daquela.
Os outros 2 caminhos envolvem um acordo de paz sendo imposto pela comunidade internacional. A minha única dúvida é se essa imposição virá dos amigos de Israel ou dos seus inimigos. Se vier dos inimigos significará que o país foi subjugado pela pressão/boicote internacional. Para chegar a esse ponto, significará que Israel perdeu todo o seu apoio internacional. O conflito interno será tremendo, e os termos de um acordo com os palestinianos e demais países árabes serão francamente desfavoráveis aos israelitas, talvez exigindo reparações financeiras exorbitantes, perda de território, incorporação de refugiados. Talvez nesse cenário o país sobreviva, mas duvido que como uma democracia plena, com pujança económica.
O 3.º cenário é aquele em que um acordo de paz é estimulado pelos amigos de Israel, notadamente os Estados Unidos e a comunidade judaica internacional. Esse seria um acordo numa posição de força, que permitiria um entendimento justo e o fim das hostilidades, e libertaria Israel para continuar o seu caminho de desenvolvimento económico e social. Entendo que muitos judeus e sionistas não-judeus acham que o melhor que podem fazer por Israel é dar apoio incondicional a qualquer ação de qualquer governo. Respeito essa opinião, apesar de saber que aqueles que a professam provavelmente não respeitam a minha. Mas gostaria de, respeitosamente, discordar. Pessoas tomam péssimas decisões sobre as suas vidas, e países, mesmo democráticos, também escolhem líderes errados e políticas ineptas. Algumas pessoas acham que os verdadeiros amigos apoiam qualquer sandice e são só elogios. Já eu acredito que os verdadeiros amigos são aqueles que criticam quando acreditam que a crítica é necessária, que falam as verdades duras. Hoje eu acredito que aqueles que apoiam uma política cujo resultado é a inércia diplomática e o crescimento exponencial de cadáveres de inocentes são os que, inadvertidamente, enterram a paz e levam Israel e os palestinianos a um beco sem saída.
Para terminar, preciso confessar que não tenho certezas. Talvez já tenhamos atravessado o Rubicão. Talvez os ódios já sejam insuperáveis. O que significa dizer que talvez, mesmo depois de concluído um acordo de paz justo, os foguetes continuem a cair em Israel. Talvez esse conflito seja sobre mais do que terra, como quer a direita israelita. Pode ser. Mas prefiro tentar o caminho do entendimento e da justiça, que tem alguma hipótese de fracasso, do que persistir no caminho atual, cuja hipótese de sucesso é zero. E prefiro que os foguetes venham agora, quando Israel e o povo judeu têm uma capacidade de reação que nunca tiveram em toda a sua milenar história, do que num momento em que já não nos restará mais nenhum cartucho, nem nenhum aliado.

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