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sábado, 6 de setembro de 2014

A diplomacia da guerra no combate aos hominídeos do “EI”

Mais atentados localizados, como o do museu judaico em Bruxelas, não são descartados. "Estado Islâmico" (EI) deve substituir Al Qaeda como grupo terrorista mais perigoso.
"O objetivo é claro", declarou o presidente dos EUA, Barack Obama, na sua visita à Estónia nesta quarta-feira (03/09). "Enfraquecer e destruir o Estado Islâmico, para que ele deixe de representar perigo", complementou o líder americano. O vice-presidente dos EUA, Joe Biden, escolheu palavras ainda mais drásticas. Afirmou que os Estados Unidos perseguirão os assassinos dos 2 jornalistas norte-americanos "até aos portões do inferno".
Os americanos temem que os combatentes do EI originários da Europa e dos EUA possam, com os seus passaportes ocidentais, retornar facilmente aos seus países de origem e neles realizar ataques terroristas. "Sabemos que, nos últimos 3 anos, mais de 12.000 combatentes estrangeiros viajaram para a Síria", disse o especialista Matthew G. Olsen, do Centro Nacional de Contraterrorismo dos EUA. Entre eles estariam mais de 100 americanos e cerca de 1.000 europeus.
Propaganda eficaz
"Nenhum grupo dissemina a sua propaganda de forma tão eficaz", ressaltou Olsen. Os islamitas alcançam muitos potenciais combatentes no Ocidente através das redes sociais. "Eles são muito bons em atingir o público-alvo jovem", avaliou o psicólogo John Horgan, da Universidade de Massachusetts, num artigo no jornal The New York Times. Os islamitas atraem com mensagens como "seja parte de algo maior que você mesmo e faça-o agora".
Olsen avalia que o EI logo pode tornar-se a organização terrorista mais perigosa do mundo. O autoproclamado "Estado Islâmico" tornar-se-ia assim, uma ameaça ainda maior que a Al Qaeda, a rede terrorista responsável pelos ataques em Nova York e Washington em 11 de setembro de 2001. Financeiramente, o EI também está bem acobertado. Atualmente, o grupo arrecada mais de 1 milhão de dólares por dia, por exemplo com o resgate de reféns.
Sem evidências
No entanto, em comparação com a Al Qaeda, os combatentes do EI adotam uma tática diferente: preferem muitos ataques pequenos a poucos ataques grandes. Olsen cita como exemplo o atentado contra um museu judaico em Bruxelas, em maio deste ano. Os combatentes também evitam ao máximo utilizar comunicação eletrónica, o que dificulta o seu controlo.
Mesmo assim, Olsen não vê no momento um grande perigo para o Ocidente. "O EI não é comparável à Al Qaeda antes do 11 de Setembro", afirmou. O especialista ressaltou ainda que as agências de inteligência dos EUA também são hoje muito mais sensíveis à questão do terrorismo e trocam mais informações. Por isso, não há evidências de células terroristas nos Estados Unidos ou na Europa.
Segundo Olsen, a luta contra o EI ainda é uma tarefa de longo prazo e que deve ser combatida também politicamente. Ele afirma que seria importante, por exemplo, que, no lugar do regime de Assad, seja formado um governo de unidade nacional na Síria. Só assim, os Estados Unidos poderão enfraquecer e destruir o EI, conforme anunciado por Obama.
Se o especialista prevê que a luta armada vai ser de longo prazo e que deve ser, em simultâneo, complementada politicamente, com a Síria, mas parece que nem a Síria está de acordo, muito menos os países que tem mais fé na luta corpo a corpo, no terreno…
Mais valia usar os drones para arrasar os hominídeos e poupar as vidas dos humanos…
Os ministros europeus dos Negócios Estrangeiros chegaram a um acordo sobre o envio de armas aos combatentes curdos no Iraque, a ser feito por cada país, e não pelo bloco.
A chanceler alemã Angela Merkel lembrou esta segunda-feira  o papel da Alemanha na II Guerra Mundial e os compromissos do país com a NATO para que os deputados viabilizem a entrega de mais de oito mil de armas aos curdos no Norte do Iraque para combater os militantes do autodenominado Estado Islâmico.
O envio de material aos curdos, avaliado em 70 milhões de euros, inclui 30 lança-mísseis antitanque, bem como 8.000 metralhadoras G3 e G36. Até ao fim do mês, a Alemanha espera ainda enviar mais 50 milhões de euros em ajuda humanitária e material de guerra para 4.000 soldados.

domingo, 31 de agosto de 2014

Morrer para nos mostrar a outra “verdade” da vida dos outros…

Eu tive medo. Não sei como é possível dizer que não se tem medo em situações como aquela. Mais do que coragem, é preciso muita inconsciência ou loucura para largar tudo e fazer a cobertura jornalística de um qualquer conflito armado. Ser jornalista numa guerra deixou de ser uma missão nobre. Agora somos apenas alvos fáceis e moeda de troca para terroristas que procuram publicidade a qualquer preço.
João Adelino Faria
Estava a trabalhar em Londres quando recebemos a informação de que um colega nosso tinha sido raptado. De imediato, tentámos tudo para ajudar na libertação. Todos concordámos em não mostrar o vídeo que nos tinha sido enviado. Um amigo dele pegou no telefone para avisar a família, mas era tarde de mais.
Uma estação televisiva ignorou o pedido e mostrou de imediato ao mundo as imagens do nosso colega. Um homem aterrorizado, de joelhos, com uma arma apontada por terroristas cobardes, escondidos atrás de máscaras. As imagens chegaram, assim, primeiro à família do que as nossas palavras de aviso e conforto.
Não vale a pena descrever o que qualquer ser humano sente - muito menos uma família - ao ver inesperadamente imagens como aquelas. Imagens que agora recordei, ao ver o jornalista norte-americano James Foley a ser decapitado. Como ele há muitos outros jornalistas ainda reféns e que receiam ter o mesmo destino. O que os terroristas querem é publicidade e aterrorizar governos para que pague milhões a troco de mais libertações. Com este dinheiro compram mais armas, tornam-se mais fortes, matam mais gente e raptam mais inocentes. Oficialmente, nenhum governo admite pagar resgates mas sabe-se que França, Alemanha, Itália e Espanha podem já ter desembolsado milhões em troca da libertação de reféns.
Hoje as televisões não conseguem evitar este tipo de notícias. Neste caso da decapitação, por mais que se divulgue apenas os primeiros minutos do vídeo, estamos, ainda que involuntariamente, a ajudar os assassinos. É uma decisão complicada escolher entre ignorar uma notícia mundial ou, em nome do direito à informação, divulgar as imagens mesmo sabendo as consequências que acarretam.
Pior ainda é a ajuda dada pelas redes sociais a estes terroristas. Mesmo que as grandes televisões e jornais não mostrem, as imagens dos raptos partilhadas na internet tornam-se ainda mais eficazes para os raptores. Organizações que aprenderam o poder dos vídeos virais e por isso utilizam agora como ninguém Facebook, Instagram, YouTube e Twitter. Aqui a censura é mais difícil e, em segundos, conseguem aterrorizar o mundo com imagens de decapitações e raptos. Não podemos ignorar que a simples partilha destes vídeos na internet, mesmo que seja para criticar, ajuda muito os terroristas e incentiva ainda mais raptos e execuções.
Quando passei por cenários de guerra - Bósnia, Médio Oriente, Irlanda do Norte, País Basco - tive medo. Mas sabia que mesmo os terroristas reconheciam que os jornalistas eram essenciais ali. O cenário mudou por completo. Hoje, ser jornalista nestes locais perigosos quase não serve para nada. Passou a ser puro suicídio.

domingo, 17 de agosto de 2014

Combater a “nova” ordem mundial, fora e dentro de portas!

Ucrânia, Síria, Iraque: tanto os conflitos violentos quanto a constante formação de alianças inesperadas marcam o mundo atual. O Ocidente precisa reagir a essa realidade.
Alexander Kudascheff
O mundo está a ser abalado por crises dramáticas. Na Ucrânia. E ainda mais no Médio Oriente, mesmo que um novo cessar-fogo de 5 dias entre Israel e o Hamas permita uma pausa para respirar. Na Síria, a guerra civil prossegue com intensidade homicida, embora quase que despercebida: em breve se atingirá a marca de 200.000 mortos, num país em dissolução.

E no norte do Iraque, o mapa territorial está a ser retraçado por uma soldadesca inimaginavelmente brutal, que ultrapassa todos os limites em nome de Alá, e cuja área de dominação já se estende da cidade de Aleppo até ao Curdistão iraquiano: o chamado "Estado Islâmico" (EI). O EI pretende destruir a ordem vigente, não reconhece fronteiras, Estados ou governos: para ele, o que conta é apenas a sua própria interpretação do Alcorão.
E isso abala a diplomacia, pois, de repente, as antigas conceções não valem mais. Os Estados Unidos apoiam os curdos – e, portanto, indiretamente, os xiitas em Bagdad e em Teerão – na luta contra os terroristas do EI. O país dá essa ajuda à própria revelia, pois, na realidade, ele quer uma troca de poder e de política no Iraque, e as suas relações com o Irão prosseguem tensas e abaladas.
Na Síria, os EUA também não sabem se insistem na queda do tirano Bashar al-Assad, pois isso abriria o caminho para a Frente Al-Nusra, que eles combatem no norte do Iraque. Uma desordem diplomática para a qual não há respostas fáceis.
O prémio Nobel da Paz, Barack Obama, decidiu-se cedo por uma retirada de tropas do Iraque. Ele não acredita nos êxitos das intervenções militares e, no entanto, teve que interferir agora. O papel dos EUA no Médio Oriente desgastou-se. Antes, o país era considerado insubstituível, devido às suas estreitas conexões estratégicas com Israel e com as monarquias e países árabes conservadores e com lideranças autoritárias, como o Egito, a Jordânia e a Arábia Saudita.
Porém, Obama tem fama de fraco, indeciso, hesitante e incapaz de se impor. Nem mesmo Israel lhe dá ouvidos – como tem mostrado, nos últimos 12 meses, a vã "diplomacia de ponte aérea" do incansável secretário de Estado John Kerry. Israel segue sendo o parceiro dos EUA, porém, age de forma mais autónoma do que nunca.
Na grande crise europeia em torno da Ucrânia, por outro lado, o presidente da Rússia, Vladimir Putin, revela-se um mestre da falta de transparência tática. Depois da anexação da Crimeia, será que também pretende avançar sobre o leste ucraniano? Será que só quer desestabilizar a região? Ou quer desestabilizá-la para depois anexá-la?
Será que o desafio de Moscovo se dirige apenas ao malquisto governo em Kiev, ou por trás dele esconde-se a gritante ambição de poder de um novo imperialismo russo, que se insere no vácuo político aberto pelos EUA, tão ocupados consigo mesmos, e pela hesitante e indecisa União Europeia?
As sanções do Ocidente contra os russos apresentam os primeiros efeitos, mas o clima vai-se congelando; e apenas telefonemas, até mesmo da chefe de governo alemã, Angela Merkel, não bastarão para desfazer o nó ucraniano. Como a Rússia foi excluída do círculo do G8, é a UE que precisa, em primeira linha, encontrar uma via de acesso ao Kremlin.
A Alemanha, por sua vez, – que desde o início do ano vem debatendo, com maior ou menor alarde, sobre um maior engajamento político no mundo – é forçada a assumir um novo papel.
O país é uma potência líder e a sua opinião é ouvida. Contudo, Berlim precisa avançar ainda mais, não pode se esconder por trás da UE na esperança de não ter que assumir nenhuma responsabilidade. A Alemanha precisa assumir uma posição definida: na crise da Ucrânia, sem dúvida, e possivelmente mais ainda no caso do norte do Iraque.
Se o "Estado Islâmico" age com brutalidade quase sem precedentes, se seres humanos são massacrados, assassinados ou expulsos de seus domicílios, então, Berlim não pode acomodar-se no seu bem-estar e prosperidade e esperar tranquilizar a própria consciência com alguns milhões de entregas de ajuda humanitária.
No entanto, as intervenções militares das últimas duas décadas foram raramente acompanhadas de sucesso. Isso vale tanto para o Afeganistão como para a Líbia – onde o derrube de Muammar Kadafi transformou a ditadura de um homem só num "Estado caído".
O mundo ficou mais difícil de compreender. A nova ordem mundial é uma ordem em que novas alianças são constantemente formadas. Pois quem poderia ter imaginado, apenas há alguns meses atrás, que o mundo se colocaria do lado dos curdos? Ainda mais com a intenção de que combatentes peshmerga vitoriosos desenvolvam uma nova consciência curda e que talvez exijam a fundação de um Estado curdo transfronteiriço!
Entre os polos da superpotência americana em retirada, as pretensões neoimperialistas de Moscovo e uma China que, por enquanto, muitas vezes ainda, age à sombra da política mundial, é necessária uma política externa nova e livre de preconceitos por parte da UE e, sobretudo, da Alemanha. E isso numa época sem certezas diplomáticas.
Quem fala assim tem alguma razão, no que respeita ao desrespeito pelos Direitos Humanos, não só nas áreas de conflitos bélicos, de caráter religioso ou político, que por isso são mais visíveis e manipuladores das consciências, mas também e sobretudo no que aos valores da vida humana, aos direitos conquistados e às condições de sobrevivência de milhares de milhões de pessoas, que sem outro motivo senão a ganância, mata mais gente do que as guerras reais ou imperiais…
É fácil perceber que é a miséria extrema que alimenta as guerras, gerando líderes fortes de maus instintos e motivando o alistamento de gente sem esperança…Também é fácil perceber que é a riqueza desmesurada que alimenta as guerras, aproveitando-se de líderes fracos com “boas intenções” e convencendo os contribuintes de que o bem-estar futuro passa pelo mal-estar do presente…
Os motivos (pseudo) religiosos tanto se encontram no Oriente como no Ocidente, de um e de outro lado com mais uns pozinhos de outros interesses sem qualquer interesse para a humanidade…
No caso, que mais responsabilidades cabem à Alemanha, que não sejam de toda a União Europeia, que como Obama, foi Nobel da Paz?

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

As razões (omitidas) do passado para se entender o “presente”

“Se eu fosse um líder árabe, nunca assinaria um acordo com Israel. É normal: nós tomamos o país deles. É verdade que era uma promessa de Deus, mas o que têm eles a ver com isso? O nosso Deus não é o deles. Houve o antissemitismo, Hitler, os nazis, mas o que isso lhes diz respeito? Para eles, existe uma única coisa: nós viemos e roubamos o país deles. Por que aceitariam isso?”: Esta espantosa declaração de David Ben Gurion, fundador do Estado de Israel e o seu 1.º primeiro-ministro, na época, nunca foi publicada nos media.
Eu vou todos os anos para Israel. É um país incrível. Tem a 25ª mais alta renda per capita do mundo, com 36.000 dólares ao ano, à frente da média da União Europeia e mais de 3 vezes superior à brasileira (11.000 dólares ao ano). Já ganhou 12 prémios Nobel - tem mais prémios Nobel por habitante do que a Alemanha, Estados Unidos e França. Israel tem excelentes museus, uma das melhores orquestras filarmónicas do mundo, grandes cineastas (Amos Gitai, Dror Moreh, Ari Folman), escritores magistrais (Amos Oz, David Grossman, S.Y. Agnon, A.B. Yehoshua...), músicos fantásticos. Apesar do seu tamanho minúsculo, é o 3.º país com mais empresas listadas na Nasdaq, a bolsa de empresas de tecnologia, atrás apenas dos EUA e da China. O primeiro serviço de instant messaging, ICQ, é de uma empresa israelita. O Waze também. A Teva, a maior empresa do mundo de medicamentos genéricos, é de lá. O país tem grandes restaurantes, um Parlamento vibrante, uma vida noturna intensa. Tel Aviv poderia ser colocada em qualquer país europeu e o turista não saberia a diferença.
Que tudo isso tenha sido gerado por um país de 20.000 quilómetros quadrados (um pouco menor que Sergipe) fundado em 1948 já seria surpreendente; tendo acontecido sob constantes ataques em guerras e atentados terroristas e acolhendo milhões de imigrantes ao longo de décadas, é algo que aqueles com pendores religiosos poderiam chamar de milagre. Cercado por todas estas opulentas vitórias e conquistas, é perdoável que os visitantes estrangeiros e os próprios israelitas não consigam fazer o esforço sobre-humano de notar que, mantido o atual caminho, o país ruma para o suicídio.
Conflito - A atual campanha de Gaza apenas reforça alguns pontos nos quais acredito há muitos anos. Primeiro: Israel não pode vencer o conflito com os palestinianos militarmente sem que se torne um pária entre as nações. Porque a única maneira militar de acabar com o terrorismo dos radicais do Hamas seria dizimar todo o povo palestiniano. Algo inconcebível. Enquanto houver palestinianos vivos, vão querer ter um Estado – uma aspiração que o povo judeu, apátrida durante 2 milénios, certamente entende bem, e cuja legitimidade é inquestionável.
Eu acompanho este conflito com lupa há pelo menos 20 anos. Já nem me recordo mais a quantidade de vezes que os comentaristas militares israelitas e os seus apoiantes disseram que uma certa ação militar ou o assassinato de um líder do Hamas (Yehia Ayash, Ahmed Yassin, Abdel Aziz al-Rantissi, Salah Shahade, Ahmed Jaabari) daria o “golpe definitivo”. Mas o enredo é sempre o mesmo: centenas ou milhares de palestinianos inocentes são assassinados, casas são destruídas, mísseis explodidos, soldados e civis israelitas morrem e, assim que as operações acabam, a preparação para o próximo conflito começa. Com um saldo sempre negativo para Israel. A operação ‘Chumbo Fundido’, de 2008-09, matou entre 1.166 e 1.417 palestinianos e 13 israelitas.
A operação atual, no momento em que escrevo estas linhas, já custou a vida de 1.492 palestinianos e 66 israelitas, além de um soldado sequestrado (entretanto reconhecido como morto em combate) A imagem internacional do país deteriorou-se sensivelmente de lá pra cá. Chama a atenção que os defensores desta operação não percebam a sua inutilidade: Israel está a usar todo o aparato bélico de que o século XXI dispõe para...enterrar túneis (?!). Túneis que podem ser feitos com pás e um pouco de cimento e que certamente começarão a ser cavados novamente assim que o conflito terminar. É óbvio que Israel precisa de se defender dos foguetes e não permitir túneis adentrando o seu território, como é óbvio não ser possível eliminá-los militarmente.
Guerrilha - Muito se tem escrito, nos últimos dias, sobre a indecência do comportamento do Hamas, que estaria vitimando os seus concidadãos de propósito para danificar a imagem de Israel. Do outro lado, há aqueles que acusam Israel de “genocídio” e imaginam que o objetivo da ação é matar o maior número possível de palestinianos. Não pretendo ater-me a teorias e gostaria de ficar no terreno do que considero obviedades. A primeira é que, se os palestinianos não podem ter Exército e não conseguem obter concessões pela via da negociação, a sua arma será o terrorismo, por não terem outra. A segunda é que terroristas são o que de pior a humanidade produz, e os militantes do Hamas, e a sua ideologia, são asquerosos, racistas, desumanos, torpes. A terceira, derivada das duas acima, é que um Exército nacional não pode lutar contra e vencer uma milícia terrorista sem que adote as suas táticas, coisa que um Exército nacional não pode fazer. É por isso que os americanos não ganharam no Vietnam nem os franceses na Argélia, e é por isso que o exército israelita não ganhará em Gaza, se por “vitória” entendermos uma ação militar que gere uma paz duradoura.
Não entendo as pessoas que ficam a apontar as atrocidades do Hamas. Ninguém, em sã consciência, acha que é uma organização digna e honrada. O que esperam essas pessoas? Que ao denunciar as vilezas do Hamas os seus militantes comecem a guerrear de acordo com as Convenções de Genebra?! Não vai acontecer. Que a população de Gaza se insurja contra o Hamas e entenda as razões israelitas para matar centenas de mulheres e crianças, e aceitem o bloqueio marítimo, terrestre e aéreo que Israel impõe a Gaza de maneira resignada? Não vai acontecer. Que a comunidade internacional aceite a morte de centenas de inocentes porque os militantes do Hamas estão a lançar foguetes contra cidades israelitas? Não vai acontecer.
O segundo facto, portanto, que essa operação deixa claro, é que o problema israelo-palestiniano precisa ser resolvido na mesa de negociações. Essa, aliás, é a única forma de derrotar o Hamas: mostrar aos palestinianos que o terrorismo não leva a nada e que o caminho dos moderados traz resultados. Aqui os defensores de Israel repetem mais uma frase sem sentido, que vem dos partidos da direita israelita: a de que não há parceiro para a paz, de que os palestinianos não reconhecem a existência de Israel, de que todos os árabes – ou todo o mundo, dependendo do nível de paranoia do interlocutor – quer jogar os judeus ao mar. Assim sendo, não há nada a fazer, além daquilo que os militares israelitas chamam de “aparar a rellva”: ações militares periódicas que causam bastantes mortes e destruição e retardam em alguns anos o fortalecimento das milícias palestinas. (Esse linguajar desumano, inaceitável, já é um indício de uma brutalização da sociedade israelita e de grande parte da comunidade judaica, que comento a seguir).
Para ser sincero, acho essa visão equivocada. Ela emana do pecado original do sionismo: a ideia, difundida nos primórdios do movimento, de que a criação do Estado judeu na Palestina histórica era dar “um povo sem terra para uma terra sem povo”. Ocorre que a segunda metade da frase é falsa: havia milhares de palestinianos a morar, há séculos, nas terras sagradas do judaísmo. Eu entendo perfeitamente que um povo perseguido durante milénios e tendo recentemente saído do Holocausto não tenha podido demonstrar empatia para com o sofrimento dos palestinianos naquela época - mas não hoje. Também entendo que os palestinianos não tenham aceitado a presença judaica em terras que percebiam como suas. Como bem disse David Ben-Gurion, 1.º primeiro-ministro israelita: “Se eu fosse um líder árabe, jamais assinaria um acordo de paz com Israel. É normal, nós tomamos o país deles. É verdade que Deus prometeu-o a nós, mas o que têm eles a ver com isso? O nosso Deus não é o deles. A única coisa que eles veem é: nós viemos aqui e roubamos o seu país. Por que deveriam aceitar isto?”

terça-feira, 29 de julho de 2014

2 Prémios Nobel da Paz e nada fazem para os merecerem!

O secretário-geral da ONU afirmou esta segunda-feira que o conflito israelo-palestiniano não se resolve porque “há falta de vontade política”.
Ban Ki-moon apontou o dedo aos líderes das duas partes. “Por que é que estes líderes estão a permitir que os seus povos se matem um ao outro? Não é só responsabilidade, é moralmente errado” e pediu o fim imediato da violência em Gaza, dizendo que o território palestiniano está numa “situação crítica”, deixando o apelo: “Em nome da humanidade, esta violência tem de parar”.

Ban Ki-moon dá voz aos milhares de civis que choram, de ambos os lados.

O apelo do presidente Barack Obama por um cessar-fogo "imediato e sem condições" em Gaza afetou as relações já tensas entre Estados Unidos e Israel e colocou o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu numa situação delicada com os extremistas do seu governo.
Os analistas interpretaram como um ultimato o pedido feito no domingo pelo presidente dos Estados Unidos ao primeiro-ministro israelita.
O braço executivo da União Europeia disse que vai dar 5 milhões de euros para ajudar nos trabalhos de ajuda de emergência na Faixa de Gaza. A decisão de enviar mais dinheiro para Gaza foi tomada depois de uma escola da Organização das Nações Unidas ter sido atingida por um míssil israelense, matando 16 pessoas.
O comunicado divulgado pela comissária europeia para Ajuda Humanitária Kristalina Georgieva chamou a situação em Gaza de “crise humanitária”. “Estou horrorizada com a perda de vidas e os ferimentos causados a civis em Gaza”, disse Georgieva. “É injusto que hospitais e escolas, onde crianças, mulheres, doentes e idosos aterrorizados buscaram abrigo, se tenham tornado alvos militares.”
A ONU, pela voz de Ban Ki.moon lava as mãos como Pilatos, mas devia decidir como Salomão, se não for capaz de interpretar o genocídio segundo o Direito Internacional, já que não consegue fazer cumprir o pedido de um cessar-fogo imediato e duradouro “decretado” pelo Conselho de Segurança.
Os EUA, pela voz de Obama, faz de conta que é neutro, mas vai assistindo, de longe, à carnificina de inocentes, enquanto no seu país os próprios judeus, ali residentes, se vão manifestando contra a evidência de um crime humanitário, enquanto Kerry nem fazer de conta sabe e dá uma no cravo, outra na ferradura… Netanyahu faz orelhas moucas aos “ultimatos” de Obama, porque sabe que a sua voz não chega ao céu.
A UE, pela voz da sua comissária europeia para Ajuda Humanitária, chora lágrimas de crocodilo por Gaza, enquanto inventa sanções contra a Rússia pelo abate de um avião com 298 mortos, e oferece uns euros para ajuda de emergência aos sobreviventes e às famílias dos mais de 1.000 mortos... Nem se fala de humanidade, crime ou desproporcionalidade, dá-se uma esmola.
E, foi por este comportamento perante a guerra, que Barack Obama e a União Europeia ganharam o Prémio Nobel da Paz?
Um grupo de personalidades escandinavas anunciou hoje que pediu à polícia norueguesa que abra um inquérito sobre as condições de atribuição do Prémio Nobel da Paz por considerarem que nalguns casos estas não estão em conformidade com o testamento de Alfred Nobel.
É cínico, com tanto morto…
 “Temos de os matar – não só os militantes do Hamas, mas toda a população de Gaza!" É o que diz a um correspondente do Guardian um soldado israelita de 22 anos no funeral de um camarada seu, um dos 18 soldados israelitas mortos na enésima invasão de Gaza, um miúdo de 20 anos que fazia o serviço militar obrigatório.
"Não temos escolha: se não lutarmos até ao fim, eles matam-nos." Nas ruas de Jerusalém todos se dizem contra um cessar-fogo: querem que se “dê cabo do Hamas. E isso leva tempo”. Perguntados pelas centenas de palestinianos mortos (até ontem de manhã eram mais de 600, o equivalente aos passageiros de 2 aviões iguais ao da Malaysia Airlines abatido na Ucrânia), 80% dos quais civis, segundo a ONU, 20% crianças. A lengalenga sinistra é a mesma de sempre: “Muita gente foi morta porque o Hamas usa escudos humanos. Os palestinianos não têm respeito pela vida, nós é que temos.” De descrições de inimigos fanatizados e sem apego à vida está a História cheia: os americanos achavam o mesmo dos vietnamitas, era o que os nazis diziam de soviéticos e jugoslavos na II Guerra Mundial... Como explica uma porta-voz da B'Tselem (uma ONG israelita de direitos humanos), “os israelitas não negam que [os palestinianos] morram; simplesmente fazem um raciocínio que os culpa pela sua própria morte”. E queixam-se de que os media “mostram imagens de crianças mortas sem explicar o contexto do conflito” (Guardian, 20 e 21.7.2014).
Pois é, o contexto... A Amnistia Internacional (AI) tem repetido que é precisamente o inverso que se passa: nas sucessivas operações punitivas sobre Gaza, “soldados israelitas utilizaram civis palestinianos, crianças incluídas, como escudos humanos durante as operações militares”. Foi o que aconteceu na operação Chumbo Fundido (22 dias entre dezembro de 2008 e janeiro de 2009): cerca de 1.400 palestinianos mortos, “incluídas pelo menos 330 crianças” 5 anos depois (e, pelo meio, outra operação, em 2012, que matou mais 160 palestinianos), tudo se repete: Israel, ainda que incomparavelmente menos pressionado que qualquer outro ator internacional, martela a opinião pública com esta propaganda de que, se há mortos, a culpa é da forma perversa como os seus adversários fazem a guerra – mas quando a poeira assentou em 2009, o que as organizações independentes (a AI, as agências da ONU) comprovaram é que o Exército israelita atacou “15 dos 27 hospitais de Gaza”, “uma trintena de ambulâncias”, “matou 16 membros do pessoal médico”. Ao contrário do que dizia a propaganda israelita, “a AI não encontrou indício algum de que os combatentes do Hamas ou doutros grupos armados tenham utilizado os hospitais para se esconder ou para conduzir ataques, e as autoridades israelitas não forneceram provas dessas alegações”. Pelo contrário: “impediram deliberadamente a ajuda humanitária e as equipas de socorro [da Agência das Nações Unidas para os Refugiados e da Cruz Vermelha] de entrar em Gaza, ou obstaculizaram a sua circulação, atacaram veículos, centros de distribuição e pessoal médico.” (AI,Relatório Anual 2010)
Por tudo isto é verdadeiramente patética a discussão sobre se é “desproporcionada” a reação israelita aos rockets lançados a partir de Gaza. Desproporcionada, não; ela é um crime internacional, feito enquanto o resto do mundo olha para os restos do avião Malysia Airlines! Invoca Obama o direito de Israel a defender-se, como se Gaza fosse um país independente que agride outro país independente. Não: é Israel que desde há 47 anos ocupa Gaza (e a Cisjordânia, e Jerusalém Oriental) ilegalmente, e a bloqueia por terra, ar e mar (nenhum barco se pode aproximar da costa, nenhum avião pode aterrar sem autorização militar israelita) desde 2007, controlando todos os seus acessos (salvo Rafah, no qual tem a colaboração do Egito). A retirada militar israelita em 2005 não alterou em nada o estatuto de território ocupado. Em apenas 360 km2 (o tamanho do concelho de Sintra) vivem 1.800.000 de pessoas, 43% delas menores de 14 anos, 80% dependendo de ajuda humanitária por causa do desemprego, da pobreza extrema. Para a AI, “a amplitude do bloqueio e as declarações dos responsáveis israelitas sobre os seus objetivos demonstram que esta medida é uma forma de castigo coletivo infligido à população de Gaza, em violação flagrante do Direito Internacional.”
De todo o quadro de ilegalidades cometidas por Israel que a UE e os EUA toleram, o bloqueio a Gaza supera tudo. Nada há neste planeta mais próximo de um gueto (o mundo deveria pensar a que é que isto soa...) no qual se fecham, até à exasperação total, quase 2.000.000 de pessoas. Os israelitas – e esta coisa a que cinicamente se chama comunidade internacional – comportam-se como se eles fossem todos “terroristas” do Hamas. Os media (veja-se o Huffington Post, 13.7.2014) mostram moradores das colinas próximas de Gaza sentados em cadeiras de praia a aplaudir o espetáculo dos aviões e drones que bombardeiam Gaza. Trazem pipocas, fumam cachimbos de água – enquanto a poucos quilómetros de distância famílias inteiras ficam soterradas debaixo dos escombros, crianças são levadas em desespero para hospitais bombardeados, onde se operam feridos num corredor... “Os palestinianos não têm respeito pela vida!”

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Schindler, Sousa Mendes e Winton, não mereciam um genocídio!

Sir Nicholas Winton tem uma das histórias mais fantásticas, foi o responsável por organizar uma operação de resgate que salvou 669 crianças de campos de concentração nazi. Foram levadas em segurança até a Inglaterra entre os anos de 1938 e 1939.
Depois da II Guerra Mundial o feito de Nicholas permaneceu desconhecido. Foi só em 1988 que a sua esposa Grete descobriu um velho livro de 1939 com os nomes e as fotos de todas essas crianças.
Por ironia do destino, ou não, assiste-se hoje à liquidação sumária e cega de milhares (lá chegaremos) de palestinianos, civis e inocentes, perpetrada por quem já foi sumária e cegamente perseguido e liquidado, ao mesmo tempo que surgiam, aqui e ali, alguns “anjos da guarda” que lhes garantiram o futuro… Entre muitos, conhecemos Schindler, Aristides Sousa Mendes e agora Nicholas Winton.
Pelo que estes homens fizeram por tantos judeus, não mereciam esta ingratidão da atual guerra de Israel contra Gaza, que seguramente não está a ser levada a cabo por nenhum dos que foram salvos, mas serão descendentes de alguns deles?
Sir Nicholas Winton, Kt (Cavaleiro Celibatário), MBE (Ordem do Império Britânico), nascido em Nicholas Wertheim; Hampstead,a 19 de maio de 1909, é um britânico que organizou o resgate de 669 crianças, na sua maioria judias na antiga Checoslováquia, antes das suas deportações dos campos de concentração naziss, salvando-as da morte certa em 1939, antes do início da II Guerra Mundial. É muitas vezes chamado de Schindler britânico.
Nicholas Winton foi agraciado com a Ordem de Tomáš Garrigue Masaryk, Quarta Classe, pelo Presidente Checo em 1998.
No aniversário da rainha, em 1983, foi nomeado membro da Ordem do Império Britânico pelo seu trabalho na instalação de asilos da sociedade Abbeyfield na Grã-Bretanha e, em 2002, elevado a cavaleiro pela rainha Elizabeth II em reconhecimento pelo seu trabalho no salvamento das crianças.
Encontrou-se com a Rainha novamente durante a sua visita de Estado à Eslováquia, em outubro de 2008.
O asteroide 19384 Winton foi nomeado em sua honra pelo casal de astrónomos checos Jana Tichá e Miloš Tichý.
Em 2008, Nicholas Winton foi homenageado pelo governo checo de várias formas: uma escola de ensino elementar em Kunžak recebeu o seu nome e foi agraciado com a Cruz do Mérito do Ministério da Defesa, Grau I. Também foi indicado pelo governo checo para o Prémio Nobel da Paz de 2008.
Por ter antepassados judeus, Winton não foi agraciado no quadro de Justos entre as Nações.
Winton está vivo e são, e não vê a sua atitude como extraordinária.

domingo, 27 de julho de 2014

Quando as bombas israelitas explodem nas consciências judias

Um milhar de israelitas concentrou-se em Telavive para protestar contra a ofensiva militar de Israel na Faixa de Gaza, que já matou mais de 1.000 palestinianos e 43 israelitas.
O protesto foi dispersado pela polícia ao fim de 2 horas, uma vez que o movimento islamita Hamas retomou o lançamento de projéteis contra Telavive.
Os manifestantes, que pertenciam a grupos pacifistas de esquerda, empunhavam cartazes com palavras de ordem como "Paremos a guerra", "O povo pede que parem o fogo" ou "Gaza-Sderot, as crianças querem viver".
A concentração realizou-se na praça do município, em frente a uma outra, da direita nacionalista, a favor da guerra e do fim do governo do Hamas na Faixa de Gaza, obrigando a polícia a mobilizar vários agentes para evitar confrontos como os ocorridos há uma semana, diante da sede do Teatro de Telavive, que acabaram com a detenção de 20 pessoas. No protesto deste sábado a polícia deteve 3 pessoas.
Mais dia, menos dia, menos mortos, mais mortos, tinham que fazer eco nos cidadãos israelitas, que começam a ter a nítida, matemática e social perceção de que, afinal, a vida de 43 deles não equivale a 1.000 dos palestinianos… Há batota nas ‘Playstations’ da guerra!
Por isso e a partir de agora, cada bomba largada sobre os civis e crianças palestinianos explodirá na consciência de cada israelita, levando o respetivo governo a desistir da tática de propaganda e de insistir que tem o apoio forte da comunidade internacional, por ter perdido o apoio da sua própria comunidade…
Os palestinianos têm direito à paz e à vida e os israelitas também… Só por isso!  
Há exactamente 12 anos, em Julho de 2002, a Força Aérea israelita lançou uma bomba de uma tonelada para cima da casa de Salah Shehadeh, chefe da ala militar do Hamas, em Gaza. Não é preciso ser-se um especialista para imaginar o que resta de uma casa atingida por uma bomba de uma tonelada. Não resta muito. Essa bomba matou não só Shehadeh mas também 14 civis, incluindo 8 crianças inocentes.
Yuli Novak
Nessa altura, eu era oficial de operações na Força Aérea israelita. Como muitos dos meus amigos, dei por mim, aos 20 anos, a carregar o fardo de uma enorme responsabilidade. Era responsável pelo esquadrão de aviação no terreno, passando ordens e informação do quartel-general da Força Aérea aos pilotos, preparando os aviões para operações, e dando apoio aos pilotos durante as saídas.
Depois da operação em que Shahadeh foi assassinado, Israel tremeu. Mesmo quando as Forças de Defesa de Israel insistiram que havia justificação operacional para o ataque, o público não conseguia aceitar este ataque a civis inocentes.
Vários intelectuais fizeram uma petição ao Supremo Tribunal, pedindo que examinasse a legalidade da acção. Poucos meses mais tarde, um grupo de pilotos na reserva publicou uma carta criticando a natureza destas acções de eliminação.
Enquanto soldados e oficiais habituados a levar a cabo as nossas missões sem perguntas desnecessárias, fomos afectados pela crítica do público. Mas Dan Halutz, o comandante da Força Aérea na altura, disse aos pilotos que deveriam “dormir bem à noite – não prestem atenção às críticas.”
Um mês mais tarde, perguntaram a Halutz o que sentia um piloto quando lança uma bomba de uma tonelada sobre uma casa. Ele disse: “Um leve abanão na asa do avião.” Para quem estivesse de fora, esta afirmação poderia soar fria e desligada, mas os meus amigos e eu confiávamos que os nossos comandantes tomassem as decisões moralmente certas, e voltámos a focar-nos nas “coisas importantes” – a execução precisa das operações seguintes.
Uns meses mais tarde, fui nomeada comandante de um curso para oficiais da Força Aérea. Ensinei aos cadetes como levar a cabo as suas tarefas de modo profissional, e como aceitar responsabilidade pelas suas acções como oficiais. Estudámos as conclusões tiradas de anteriores operações da Força Aérea e as lições aprendidas com elas. Ensinei-lhes que as Forças de Defesa de Israel (IDF) são o exército mais moral do mundo, e que a Força Aérea é a força mais moral dentro das IDF. Tinha 20 anos, acreditava, com todo o meu coração, que estávamos a fazer o que tinha de ser feito. Se houvesse baixas, seriam um mal necessário. Se houvesse erros, seriam investigados, e seriam tiradas lições.
As coisas mudaram e agora não consigo ter esta certeza. Em 2002, o lançamento de uma bomba de uma tonelada numa casa resultando na morte de 14 civis era a excepção. Alguns meses depois do ataque à casa de Shehadeh, as IDF reconheceram que tinham errado ao lançar a bomba. Classificaram o incidente como uma falha de informação e disseram que se soubessem que havia civis na casa não teriam levado a cabo a operação.
Alguns anos depois, durante a operação ‘Chumbo Endurecido’ [2008-2009], houve utilização generalizada da táctica de bombardear zonas densamente povoadas na Faixa de Gaza. Hoje, na operação ‘Margem Protectora’, a Força Aérea gaba-se de ter bombardeado Gaza com mais de 100 bombas de uma tonelada. O que antes era a excepção é hoje a regra.
Isto é o que se passa hoje. Notificamos os habitantes da destruição iminente de uma casa minutos antes de cair uma bomba – via mensagem de texto ou lançando uma pequena bomba como aviso. É o suficiente para transformar a casa num alvo legítimo de um ataque aéreo. Nas últimas 2 semanas, dezenas de civis foram mortos através desta prática.
Casas de membros do Hamas tornaram-se alvos legítimos, independentemente do número de pessoas dentro das suas paredes. Ao contrário do que aconteceu em 2002, ninguém se preocupa em justificar ou apresentar uma desculpa. O que é pior é que quase ninguém protesta. Famílias inteiras desaparecem num segundo, e a opinião pública continua indiferente. De ano a ano, de uma operação militar a outra, as nossas linhas vermelhas morais estão a ser empurradas para cada vez mais longe. Já não é claro onde estão, nem sequer se sabemos que as estamos a ultrapassar. Onde estarão na próxima operação? Onde estarão daqui a 10 anos?
Sei por experiência própria quão difícil é fazer perguntas durante alturas de conflito activo quando se é um soldado. A informação que os oficiais no terreno e no ar obtêm em tempo real é sempre parcial. Por isso é que a responsabilidade de traçar a linha vermelha moral, e alertar quando a ultrapassamos, é da opinião pública.

sábado, 26 de julho de 2014

Uma crónica repetida ciclicamente… A próxima será uma cópia!

Homenagem a 1.700.000 de seres humanos sob cerco em Gaza, em que cada dia parece uma eternidade. E de nada serve dissertar sobre o silêncio do mundo, escreve este editorialista palestiniano.
Shaffaf | Hassan Khader
Cerca de 1.700.000 de seres humanos na banda de Gaza. Meninos e meninas, maridos e esposas, pais e mães, crianças, adolescentes, idosos, doentes, saudáveis, ricos e pobres: todos estão expostos a uma morte que atinge cegamente. Ninguém sabe quando vai morrer, mas as explosões que às vezes soam tão longe como perto, fazem da morte uma hipótese mais do que provável.
Não há heroísmo na guerra ou na morte. O pior não é a morte; é esperá-la. O verdadeiro heroísmo é o que 1.700.000 de seres humanos, durante 7 dias por semana, 24 horas por dia, 60 minutos por hora, 60 segundos por minuto, a fim de permanecer vivo, não enlouquecer e não cruzar a linha tênue que separa o humano do animal.
Em Gaza, não há abrigos onde se refugiar, nem sirenes para alertar as pessoas para a aproximação de um avião de combate, nem "Iron Dome" [nome do escudo antimísseis israelita], nem defesa antiaérea, nem médicos com equipamentos médicos de ponta, nem todos os tipos de outras maneiras de salvar vidas.
Nada de novo
Se uma casa desaba sobre os seus habitantes, o problema está resolvido. Mas se os habitantes sobrevivem, o problema permanece sem solução. Porque então passam por novos horrores: desprovidos, nus, condenados a encontrar um outro lugar para se abrigar.
1.700.000 de seres humanos sob um céu de chumbo, numa terra quente. Nada serve dissertar sobre a impotência árabe. Há muito tempo que já se constatou. De nada serve denunciar o silêncio do mundo e a falta de consciência internacional. Há muito tempo que isto acontece. De Nada serve falar dos crimes de guerra do Estado de Israel contra civis. Há muito tempo que se diz.
Todas essas palavras fazem parte de um universo familiar ao que o jornalista recorre quando é forçado a escrever sobre este assunto sobre o qual ele já desenvolveu todas as análises, interpretações e comentários imagináveis ​​e inimagináveis. Nada de novo. Por que a guerra atual seria diferente das anteriores e, sobretudo, das que virão daqui a um ano ou dois?
Viver no inferno
Tudo isso não tem nenhum interesse para 1.700.000 de seres humanos para que cada dia pareça uma eternidade, já que nada no mundo lhes pode garantir que esse não será o último, mas que não esperam muito da noite, que nada lhes garante ter a certeza se vão acordar no dia seguinte.
As pessoas não sabem a realidade dos horrores por que eles passam, depois de poderem respirar novamente. Só nestes momentos é que podem explicar o que significa viver no inferno. Só então é que eles entendem o heroísmo da vida quotidiana com tudo o que isso implica de banalidade, de rotina, as coisas insignificantes.
O heroísmo de se comportar normalmente, apesar da morte que ronda, entre uma mãe e os seus filhos. O heroísmo dos pais que não podem salvar os seus filhos da morte, procurando manter algo do papel paternal.
Esperando a próxima guerra
Todos nós, a diversos graus, caímos na armadilha de contos heroicos que colocam pessoas comuns ao serviço de uma causa e que querem a todo o preço tornarem-se figuras exemplares. Não entendemos que, fazendo isso, privámo-los do seu direito de serem reconhecidos pelo seu heroísmo comum.
Haverá ainda que vai morrer, ou que viverão à mercê do acaso. Depois, todo este desastre acabará por parar. Então os comentadores esquecerão o que aconteceu e os ecrãs de televisão serão ocupados por outras cenas, de outras mortes em outros lugares. Os correspondentes especiais, os fotógrafos e os jornalistas de agências noticiosas partirão para deixar no desemprego técnico os porta-vozes e outros especialistas em declarações à imprensa.
Então 1.700.000 de seres humanos tirarão a cabeça das nuvens de fumo, de poeira e de pó, depois de ter escapado à morte que atinge cegamente. Esperando a próxima guerra.
Tradução minha

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Confissão de um terrorista

Mahmoud Darwish ou Mahmoud Darwich (Al-Birweh, 1942 - Houston, 2008) foi um poeta e escritor árabe nascido na Palestina, à época do Mandato Britânico.
Nascido num vilarejo, a 10,5 quilómetros de Acre, na Galileia, era o segundo dos 8 filhos de uma família sunita de proprietários de terras. A vila árabe foi inteiramente arrasada pelas forças israelitas, durante a guerra de 1948 e a família Darwish refugiou-se no Líbano, onde permaneceu por um ano, e, ao retornar clandestinamente e descobrir que o vilarejo tinha sido substituído pelo colonato agrícola judaico de Ahihud.
Entre 1961 e 1967, foi preso diversas vezes, até 1970, quando passou a viver como refugiado até ser autorizado a retornar, para comparecer a um funeral, em maio de 1996.
Darwish é o autor da Declaração de Independência Palestina, escrita em 1988 e lida pelo líder palestiniano Iasser Arafat, quando declarou unilateralmente a criação do Estado Palestino.
Integrante da OLP, Darwish afastou-se da organização em 1993, por discordar da posição da organização no tocante aos Acordos de Oslo.
Darwish é considerado o poeta nacional da Palestina. O seu trabalho, que evoca a dor do deslocamento com paradoxos subtis, foi traduzido em mais de 20 línguas. Na obra do poeta, além da angústia do exílio, a Palestina aparece como metáfora do "paraíso perdido", nascimento e ressurreição.

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Genocídio ou carnificina, guerra ou massacres? Holocausto…

Pelo menos 130 palestinianos morreram nas operações do exército israelita neste domingo, o dia mais sangrento desde o início do conflito, quando 13 soldados israelitas também foram mortos e um militar hebreu, segundo o movimento Hamas, foi sequestrado.
Massacre em Shajaya
Segundo os serviços de emergência, pelo menos 62 pessoas foram mortas e mais de 200 ficaram feridas nos bombardeios contra o bairro de Shajaya, os mais mortais desde o conflito de 2008-2009 no território palestiniano. E com 100 mortos em toda a Faixa de Gaza, este também é o dia mais sangrento desde o lançamento da nova ofensiva.
Em Shajaya, um jornalista da AFP descreveu cenas de carnificina e caos, como um homem que teve a cabeça arrancada. As ruas estavam cheias de carros queimados, incluindo uma ambulância, e vários corpos continuam a ser retirados dos escombros sem cessar.
Frente ao número alarmante de mortos, o Exército israelita justificou a sua ofensiva contra este bairro localizado perto da fronteira. "Shajaya é uma área civil, onde o Hamas tem posicionado os seus foguetes, os seus túneis, os centros de comando", afirmou o Exército, ressaltando que "há dias temos avisado os civis de Shajaya para que deixem o local".
O Presidente norte-americano, Barack Obama, apelou domingo a um "cessar-fogo imediato" em Gaza depois do registo de mais de 100 mortos no que foi o dia mais sangrento da ofensiva israelita na região. Também o Conselho de Segurança manifestou preocupação com o número de vítimas mortais e pediu o fim das hostilidades.
Com as agências internacionais a apontarem 472 mortos desde o início da ofensiva militar israelita em Gaza, Barack Obama enviou o Secretário de Estado John Kerry ao Cairo e falou, pela 2.ª vez em 3 dias, com o primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu.
O primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu disse hoje que a ofensiva na Faixa de Gaza reúne um apoio internacional "muito forte".
As declarações do primeiro-ministro israelita seguem-se às do secretário de Estado norte-americano John Kerry, que culpou o Hamas pela continuação do conflito em Gaza, considerando que o movimento palestiniano tem vindo a rejeitar todas as tentativas de cessar-fogo. "Tem-lhes sido oferecido um cessar-fogo e têm recusado aceitar", salientou John Kerry. "Eles precisam reconhecer a sua própria responsabilidade", concluiu.
Em tempos de guerra, até a “diplomacia” é uma arma, sempre bem usada por quem melhor está apetrechado para intoxicar a opinião pública…
Como se vê, o Conselho de Segurança manifestou preocupação com o número de vítimas mortais e pediu o fim das hostilidades enquanto Barack Obama enviou o Secretário de Estado John Kerry ao Cairo, para envidar esforços para travar a carnificina contra civis inocentes, sem se contabilizar a destruição do habitat físico, propriedade das vítimas...
Como se vê, John Kerry culpou o Hamas pela continuação do conflito em Gaza, contrariando a missão de que foi incumbido e contradisse o seu presidente, que apelou a um cessar-fogo imediato, sem enumerar culpados.
Lembra-se que tudo começou com a morte de 3 jovens israelitas por palestinianos e 1 palestiniano por israelitas, assunto do foro da justiça, como reconheceu o primeiro-ministro da Malásia, a propósito do abate do avião da Malasya Airlaines…
Como se vê, Netanyahu, em vez de citar os apelos de Obama, escuda-se nas declarações de John Kerry e conclui que a carnificina israelita, de sua responsabilidade tem um apoio internacional muito forte, que quase só se traduz nas bocas de Kerry e da sua responsabilidade…
Daqui se conclui que o Benjamin não lê jornais, não vê TV nem consulta as redes sociais. Talvez considere que o papel dúbio dos EUA e os lóbis judaicos norte-americanos são o seu apoio internacional muito forte, apoios fortes financeira e belicamente, apesar de saber que os EUA não se vão imiscuir oficialmente no conflito, como a Rússia faz oficiosamente em relação à Ucrânia…
Entretanto, os números de mortos e feridos não param de aumentar, colocando uma questão básica, que os israelitas, básicos nos seus conceitos e soluções, têm que equacionar:
 Os números negros da Faixa de Gaza
De acordo com um relatório do UNOCHA, 57.900 crianças morreram ou ficaram feridas ou desalojadas. Conheça todos os números
Desde o início do conflito na Faixa de Gaza, a 7 de julho, já morreram cerca de 260 palestinianos, incluindo dezenas de mulheres e crianças.
De acordo com os dados da ONU revelados esta sexta-feira, 57.900 crianças morreram ou ficaram feridas ou desalojadas. Estima-se que o número total de pessoas que precisam de ajuda e assistência ultrapasse os 96.000.
O 13.º dia de conflito foi de longe o mais violento e o mais sangrento na investida que os israelitas, agora também pela via terrestre, fazem na Faixa de Gaza. Benjamin Netanyahu já tinha avisado que iria “expandir as áreas” de ataque, tendo ontem enviado tanques e infantaria para zonas urbanas à procura de túneis e de rampas de lançamento dos rockets palestinianos. O ataque mais violento aconteceu no bairro de Shajaya, onde os repórteres presentes testemunharam uma autêntica carnificina, com pelo menos 62 pessoas mortas, a maioria das quais mulheres e crianças. Mortos que vão engrossar uma estatística tétrica onde se já contabilizam, em 2 semanas de conflito, 438 baixas palestinianas e 20 do lado israelita.
O dado mais alarmante neste conflito é o número que está a ser avançado pela ONU e que diz que 80% das vítimas palestinianas são civis, sendo que as crianças formam o maior grupo. Apesar de Israel ter um dos exércitos mais avançados do mundo, em termos de artilharia, informações e precisão, organizações de direitos humanos da Palestina e Israel falam num ataque desproporcionado.
Nos 2 lados da barricada ninguém se entende, as posições estão ainda mais extremadas e ontem nem sequer conseguiram respeitar uma trégua de 2 horas pedida pela Cruz Vermelha para remover cadáveres e retirar os feridos.
Perante tantas baixas de civis a necessidade de um cessar-fogo torna-se ainda mais premente. O Hamas continua a recusar a intermediação feita pelo Cairo, preferindo a Turquia ou o Qatar. Doha já apresentou uma proposta de tréguas, mas Israel insiste que o Egipto deve fazer parte de um acordo. Entretanto, vamos assistindo a relatos desumanos, como o de um pai que diz “isto é o meu filho”, enquanto abre um saco de plástico.