(per)Seguidores

Mostrar mensagens com a etiqueta Filosofia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Filosofia. Mostrar todas as mensagens

sábado, 13 de setembro de 2014

Confundir a Inteligência Espacial com a Lógico-Matemática…

A quantidade de pormenores que uma criança de 4 anos é capaz de retratar quando desenha uma pessoa pode ser um indicativo da sua inteligência futura.
Da esquerda para a direita: Cima: 6, 10, 6; Baixo: 6, 10, 7
Um estudo de longo termo e de grande dimensão, levado a cabo no Reino Unido, e publicado esta semana na revista Psychological Science, mostra que a forma como uma criança de 4 anos desenha uma figura humana não revela apenas algo sobre a sua inteligência nessa idade como é indicativa da inteligência que terá dentro de 10 anos.
Para chegar a esta conclusão inédita, uma equipa de investigadores do King's College de Londes pediu a 7.752 pares de gémeos "verdadeiros" e "falsos" de 4 anos que desenhassem uma criança. Cada desenho foi avaliado de 0 a 12, com base no número de características presentes, como pernas, braços ou traços faciais. Na mesma altura, as crianças foram também submetidas a testes, verbais e não-verbais, de avaliação de inteligência.
10 anos depois, quando as crianças atingiram os 14 anos, os investigadores voltaram a testar a sua inteligência e descobriram que uma pontuação mais elevada nos seus desenhos correspondia agora, tal como na altura, a uma maior inteligência. E aí residiu a surpresa dos investigadores, que esperavam ver uma relação (entre a pontuação obtida nos desenhos e a inteligência) aos 4 anos, mas não verificar uma consistência dos resultados uma década mais tarde.
A correlação, no entanto, "é moderada", sublinha o líder do estudo, Rosalind Arden, em comunicado. "As nossas descobertas são interessantes mas não significam que os pais devam preocupar-se se o filho desenha mal", acrescenta. "A capacidade para desenhar não determina a inteligência, há inúmeros fatores, tanto genéticos como ambientais, que afetam a inteligência mais tarde na vida", conclui.
Não vou dissertar, mais uma vez, sobre as Inteligências Múltiplas porque pelo que se percebe os autores do “estudo”, nunca devem ter lido nada sobre a matéria…
Nem vou falar da “Educação pela Arte”, porque quem quiser que leia António Damásio, entre muitos…
Vou apenas referir-me a um dos primeiros estudos sobre o assunto, que li há muitos anos, de Georges-Henri Luquet, ‘O Desenho Infantil’, que me guiou para a psicologia do desenvolvimento, para entender e criar empatia com os meus alunos na procura da representação do “real”, virtualmente.
E agora já posso opinar sobre o “estudo”, que se baseia num conceito de “inteligência” já ultrapassado entre teóricos, mas que os Sistemas Educativos ainda privilegiam, a ponto de iniciar a Educação Visual (a Inteligência Espacial), como é o nosso caso, apenas no 7.º ano, exatamente aos 14 anos. Isto para dizer que, durante 10 anos, algumas das outras “inteligências”, no caso, a Espacial, ficaram congeladas, sem qualquer possibilidade de progressão. Se assim não fosse e houvesse formação “artística” desde o 1.º ano, aos 14 anos os desenhos seriam muito mais “realistas”, apenas pela acumulação dos novos conceitos das coisas e do mundo, como acontece com qualquer das outras “inteligências”…
E se assim fosse, em vez de o título ser: “Diz-me como desenhas aos 4 anos, dir-te-ei que inteligência terás aos 14”, poderíamos titular, por exemplo: “Diz-me como escreves aos 4 anos, dir-te-ei que inteligência terás aos 14”…
Ou seja, até na ciência e na pedagogia andam a informar-nos, com base em erros, que podem abalar a formação que fomos acumulando…
Eu sei que “isto” não tem interesse, mas devia interessar muita (toda a) gente, que vive da “Educação” para EDUCAR…
Georges-Henri Luquet consagrou a sua vida ao estudo do desenvolvimento da comunicação humana pela imagem. É um dos pioneiros do estudo do desenho infantil e as suas teses foram integralmente retomadas por Jean Piaget. Marcaram profundamente a psicologia do desenvolvimento e forneceram numerosas conceções, tanto aos psicólogos como aos pedagogos. As suas pesquisas sobre o desenvolvimento gráfico das crianças foram influenciadas pelos seus trabalhos em antropologia e, reciprocamente, também os influenciaram. 
Vários estudiosos observaram e procuraram identificar e descrever as etapas gráficas do desenvolvimento do desenho, entre os mais conhecidos estão Luquet, Piaget e Lowenfeld.
Luquet, por exemplo, dividiu as etapas gráficas em Realismo Fortuito, Realismo Falhado e Realismo intelectual e realismo visual.
No Realismo Fortuito, a criança começa a fazer traços sem qualquer objetivo (não há intenção para uma representação gráfica), mesmo sabendo que os traços realizados por outrem podem querer determinar um objeto determinado e representá-lo efetivamente, a criança não considera a ideia de também possuir a mesma habilidade. É nesta fase também que podemos identificar os famosos "garatujos", e de acordo com as definições de Piaget, este é o período sensório-motor.
“A princípio, para a criança, o desenho não é um traçado executado para fazer uma imagem mas um traçado executado simplesmente para fazer linhas. (Luquet, 1969 pg.145)
Até certo ponto, a criança produzirá mesmo acidentalmente uma parecença não procurada. A partir daí ela passará por uma série de transições até adquirir a totalidade das faculdades gráficas (intenção, execução e a interpretação correspondente à intenção) chegando consequentemente ao realismo intencional.
A Segunda Fase descrita por Luquet é o Realismo Falhado; quando a criança chega ao desenho propriamente dito, quer ser realista, mas a sua intenção choca com obstáculos gráficos e psíquicos, que dificultam a sua manifestação. São exemplos de obstáculos a incapacidade para dirigir os seus movimentos gráficos, o caráter limitado e descontínuo da atenção infantil e principalmente a incapacidade sintética – quando a criança não chega a sintetizar num conjunto coerente os diferentes pormenores que desenha com a preocupação exclusiva de os representar cada um por si. 
A terceira fase, é a do Realismo intelectual, onde a criança pretende deliberadamente reproduzir do objeto representado, não só o que se pode ver, mas tudo o que ali existe e dar a cada um dos elementos a sua forma exemplar.
“Enfim, aos 4 anos, a criança chega ao Realismo visual cuja principal manifestação é a submissão mais ou menos infeliz na execução da perspetiva. (Luquet, Pg.212)
De acordo com Piaget, é neste ponto que a criança se encontra no estágio pré-esquemático, que se inicia por volta dos 4 anos e se estende até os 7 anos mais ou menos. Após esta fase a criança com idade entre 7 e 9 anos entra no estágio esquemático, e após os 9 anos passa para o estágio do realismo nascente, vale ressaltar que estes estágios compreendidos entre os 7 e 11 anos estão dentro do período das operações concretas.
É claro que estes estágios não são estáticos, imutáveis, existem crianças que saltam alguns estágios de desenvolvimento, e existem crianças que param de se desenvolver devido a vários fatores que influenciam a sua vida, como a família, a situação social e económica, distúrbios psicológicos e gosto particular.
Por que paramos de desenhar?
À medida que a criança cresce, desenvolve o seu espírito crítico em relação aos seus trabalhos. Muitas vezes essa consciência crítica supera o seu desejo de se expressar criativamente; principalmente nos casos em que a criança passa com rapidez da infância para a adolescência num prazo demasiado curto, não podendo ajustar-se com suficiente brevidade à sua nova consciência crítica e fica assim, insatisfeita com as suas realizações. Acha tudo “infantil e mal feito”.
Quando isto sucede com muita frequência e nada se faz para remediar, a criança perde interesse pela arte e suspende completamente, as suas atividades artísticas. Já não pode desenhar coisa alguma, porque devido à sua repentina “tomada de consciência” crítica passa a perceber a pobreza dos seus meios infantis de expressão. Os seus desenhos parecem-lhe até ridículos, da mesma maneira como certos folguedos infantis, por exemplo, o “esconde-esconde”, lhe parecem indignos da sua atual “maturidade”. (Lowenfeld, 203).
Também Luquet exemplifica como se dá o abandono da criança pela atividade do desenho. Conforme a sua teoria, esse desinteresse é produzido na idade em que a criança chega à conceção do realismo visual – com a sua consequência fundamental: a perspetive; os desenhos que executava anteriormente de acordo com o realismo intelectual já não satisfazem o seu espírito crítico desenvolvido, e sente-se incapaz de fazer desenhos como quereria fazer.
Porém Luquet na sua obra “O Desenho Infantil”, além de exemplificar como se dá o abandono do interesse do ato de desenhar pela criança, também propõe sugestões de como evitar esse abandono. Conforme Luquet, o ensino do desenho deve visar não a acelerar artificialmente a evolução espontânea do desenho, a fazer desenhar em realismo visual quando a criança ainda quer desenhar em realismo intelectual, mas por a criança em estado de desenhar convenientemente em realismo visual quando tenha esta intenção.
Isso deve ser feito preferencialmente ensinando os principais efeitos da perspetiva, mostrando-lhes factos em objetos do seu quotidiano e exercitando o desenho tanto quanto possível ao natural.
Mas para Luquet, a principal atitude do educador deve ser a de “apagar-se”, deixar a criança desenhar o que quer, propondo-lhe temas sempre que ela necessite e sobretudo quando lhe pede, fazendo sempre com que estas sugestões não soem como imposições e sobretudo deixá-la desenhar como quer, a seu modo.

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Educar: Ensinar e aprender, com os pais e com a escola…

O pediatra discute como educar uma criança: a importância do amor, dos castigos e do tempo que tanto pais como filhos devem reclamar para si. Mas há também dicas para a rentrée escolar.
(…)
- O que define uma boa educação?
Gosto mais de falar em ensino e em aprendizagem. Há o ensinar, que implica informação, sabedoria e modelo. O aprender é desenvolver talentos e conhecimentos, ouvir experiências e, através delas, desenvolver sabedoria. Um bom educador é a pessoa que, na medida do possível, tenta ser coerente, consistente e justo. Mas também saber que podem haver reações àquilo que ensina, tal como a rejeição.
- Que valores devem ser transmitidos às crianças?
Respeito, amor, responsabilidade, empatia, partilha e solidariedade. Mas os valores são coisas abstratas para uma criança, pelo que é preciso dar exemplos práticos. Até aos 5, 6, anos a criança está numa fase em que predomina o concreto.
- Quais os conselhos que dá aos pais no regresso às aulas?
Depende das idades, se é a primeira vez que a criança vai para a escola ou se há mudanças de ciclo. É bom conversar sobre o que vai acontecer, sobretudo quando no primeiro ano, e explicar alguns medos: “É natural que não conheças ninguém; que penses que a professora esteja a olhar só para ti; que dos 26 não és obrigado a gostar de todos e que, a pouco e pouco, vais vendo quem tem mais que ver contigo…”. Explicar também que é preciso ser-se organizado e metódico, saber enquadrar todas as tarefas do dia-a-dia nos vários dias.

Outra coisa que é muito importante: a criança pensa que ao ir para a escola, no momento em que entra, já está a ler e a fazer contas, sente-se pressionada. Digo sempre no consultório “a última letra do abecedário geralmente é aprendida em maio, até lá tens muito tempo”. Dar uma semanada também é importante; sugiro 2 euros por semana. Implica ser-se responsável: “Trabalhaste uma semana, tens aqui uma semanada. O esforço foi recompensado e o teu poder aquisitivo está na razão direta do teu trabalho”.

- Das férias para as aulas há uma mudança de hábitos muito grande…
Advogo uma semana antes de começar as aulas para retomar os ritmos. Acho que é bom aproveitar esse período para ver os manuais, as mochilas, os horários, para comprar o material… E ir deitando o filho mais cedo. Trata-se de um reset tranquilo — não pode ser instantâneo.
- O que é que um pai pode exigir de uma criança: qual o equilíbrio entre o trabalho e o ócio?
Exigir que cumpra [as obrigações], mas dar alguma liberdade à criança de gerir a sua vida. Sobretudo que não exija ao filho que entre no quadro de honra, que acho que é uma coisa a abater — é muito injusta, como se a honra se medisse por notas! Cada um deve-se comparar consigo próprio, tentar a excelência de si mesmo. Nós não temos competência para tudo, ponto, e temos de meter isso na cabeça dos pais e dos filhos. Em vez de carrascos, os pais devem ser juízes/árbitros.
- Quais são os maiores desafios de uma criança quando a aprender?
É encarar, na maior parte das vezes, uma escola nova e habituar-se ao estar na sala de aula. O impulso de levantar e falar é tolerado no jardim-de-infância, mas não ali [aulas do primeiro ano]. Por outro lado, trabalhar em grupo, adaptar-se a outros meninos e ao relacionamento com as auxiliares, que é fundamental no meio disto tudo. O pai deve observar tudo e fazer-se sócio da associação de pais para poder intervir e tentar mudar o que se pode mudar, compreender e ajudar onde pode.
- O pai educa, a escola ensina?
Ensina-se e aprende-se em todo o lado, tanto com os pais como na escola. Sempre que há um momento relacional, há uma ocasião de ensino e de aprendizagem. A escola deve ensinar, não apenas a nível académico, mas também social e relacional. O mesmo com os pais. Um não substitui o outro.

sábado, 6 de setembro de 2014

A diplomacia da guerra no combate aos hominídeos do “EI”

Mais atentados localizados, como o do museu judaico em Bruxelas, não são descartados. "Estado Islâmico" (EI) deve substituir Al Qaeda como grupo terrorista mais perigoso.
"O objetivo é claro", declarou o presidente dos EUA, Barack Obama, na sua visita à Estónia nesta quarta-feira (03/09). "Enfraquecer e destruir o Estado Islâmico, para que ele deixe de representar perigo", complementou o líder americano. O vice-presidente dos EUA, Joe Biden, escolheu palavras ainda mais drásticas. Afirmou que os Estados Unidos perseguirão os assassinos dos 2 jornalistas norte-americanos "até aos portões do inferno".
Os americanos temem que os combatentes do EI originários da Europa e dos EUA possam, com os seus passaportes ocidentais, retornar facilmente aos seus países de origem e neles realizar ataques terroristas. "Sabemos que, nos últimos 3 anos, mais de 12.000 combatentes estrangeiros viajaram para a Síria", disse o especialista Matthew G. Olsen, do Centro Nacional de Contraterrorismo dos EUA. Entre eles estariam mais de 100 americanos e cerca de 1.000 europeus.
Propaganda eficaz
"Nenhum grupo dissemina a sua propaganda de forma tão eficaz", ressaltou Olsen. Os islamitas alcançam muitos potenciais combatentes no Ocidente através das redes sociais. "Eles são muito bons em atingir o público-alvo jovem", avaliou o psicólogo John Horgan, da Universidade de Massachusetts, num artigo no jornal The New York Times. Os islamitas atraem com mensagens como "seja parte de algo maior que você mesmo e faça-o agora".
Olsen avalia que o EI logo pode tornar-se a organização terrorista mais perigosa do mundo. O autoproclamado "Estado Islâmico" tornar-se-ia assim, uma ameaça ainda maior que a Al Qaeda, a rede terrorista responsável pelos ataques em Nova York e Washington em 11 de setembro de 2001. Financeiramente, o EI também está bem acobertado. Atualmente, o grupo arrecada mais de 1 milhão de dólares por dia, por exemplo com o resgate de reféns.
Sem evidências
No entanto, em comparação com a Al Qaeda, os combatentes do EI adotam uma tática diferente: preferem muitos ataques pequenos a poucos ataques grandes. Olsen cita como exemplo o atentado contra um museu judaico em Bruxelas, em maio deste ano. Os combatentes também evitam ao máximo utilizar comunicação eletrónica, o que dificulta o seu controlo.
Mesmo assim, Olsen não vê no momento um grande perigo para o Ocidente. "O EI não é comparável à Al Qaeda antes do 11 de Setembro", afirmou. O especialista ressaltou ainda que as agências de inteligência dos EUA também são hoje muito mais sensíveis à questão do terrorismo e trocam mais informações. Por isso, não há evidências de células terroristas nos Estados Unidos ou na Europa.
Segundo Olsen, a luta contra o EI ainda é uma tarefa de longo prazo e que deve ser combatida também politicamente. Ele afirma que seria importante, por exemplo, que, no lugar do regime de Assad, seja formado um governo de unidade nacional na Síria. Só assim, os Estados Unidos poderão enfraquecer e destruir o EI, conforme anunciado por Obama.
Se o especialista prevê que a luta armada vai ser de longo prazo e que deve ser, em simultâneo, complementada politicamente, com a Síria, mas parece que nem a Síria está de acordo, muito menos os países que tem mais fé na luta corpo a corpo, no terreno…
Mais valia usar os drones para arrasar os hominídeos e poupar as vidas dos humanos…
Os ministros europeus dos Negócios Estrangeiros chegaram a um acordo sobre o envio de armas aos combatentes curdos no Iraque, a ser feito por cada país, e não pelo bloco.
A chanceler alemã Angela Merkel lembrou esta segunda-feira  o papel da Alemanha na II Guerra Mundial e os compromissos do país com a NATO para que os deputados viabilizem a entrega de mais de oito mil de armas aos curdos no Norte do Iraque para combater os militantes do autodenominado Estado Islâmico.
O envio de material aos curdos, avaliado em 70 milhões de euros, inclui 30 lança-mísseis antitanque, bem como 8.000 metralhadoras G3 e G36. Até ao fim do mês, a Alemanha espera ainda enviar mais 50 milhões de euros em ajuda humanitária e material de guerra para 4.000 soldados.

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Lá se faz, lá se paga! “…e nós aqui temos tudo!”

O Bank of America (BofA) aceitou pagar um valor recorde de 17.000 milhões de dólares (12.800 milhões de euros), 9.650 milhões dólares às autoridades e os restantes 7.000 milhões aos clientes afectados, para encerrar um litígio proveniente da crise dos empréstimos imobiliários de má qualidade, designados ‘subprime’.
Ficam ainda por resolver possíveis eventos criminais, especialmente relacionados com a Countrywide. O Departamento de Justiça acusou o BofA de ter vendido produtos financeiros, suportados por aqueles créditos imobiliários sem qualidade, que estiveram na origem da crise financeira de 2007-2008 e causaram prejuízos de milhares de milhões de dólares para os seus compradores.
Esta penalidade é um valor recorde, depois de o JPMorgan Chase ter pago 13.000 milhões de dólares em 2013.
O Lombard Odier e o Pictet Group, 2 dos maiores bancos da Suíça, vão tornar públicos os seus resultados financeiros, depois de 2 séculos - desde a respetiva fundação - de segredo. Os 2 bancos passam agora a publicar relatórios semestrais, que terão de ser divulgados até 2 meses depois do final de cada semestre.
Depois de um escrutínio sem precedentes por parte das autoridades europeias e norte-americanas ao sector da banca privada na Suíça, as 2 instituições prescindiram das estruturas de parcerias que implicavam que os seus parceiros assumissem a responsabilidade das perdas em janeiro deste ano. As contas do Pictet Group serão tornadas públicas ainda este mês e, no caso do Lombard Odier, será no dia 28. Não se conhecem ainda os números que serão divulgados, o que se sabe é que os 2 bancos supervisionam cerca de 630.000 milhões de dólares (474.900 milhões de euros) de clientes privados e institucionais, incluindo algumas das famílias mais ricas do mundo.
Começa assim uma nova era de regulação para a banca suíça, que terá de adaptar os seus modelos de negócio e passar a partilhar informação dos seus clientes com autoridades fiscais de outros países.
Neste momento, o Pictet está entre um grupo de bancos suíços sob investigação do Departamento de Justiça norte-americano, por, alegadamente, ajudar cidadãos norte-americanos a fugir ao fisco. O Lombard Odier, por seu lado, entrou voluntariamente para um programa de divulgação de dados, juntamente com mais de uma centena de bancos suíços.
O Wall Street Journal voltou a escrever mais um artigo sobre o colapso do BES. Desta vez, o jornal revela o papel que o banco suíço Crédit Suisse terá tido na derrocada do BES ao juntar milhões de dólares em títulos de dívida do Grupo Espírito Santo (GES) que foram vendidos, em veículos financeiros, a clientes do BES. 3 dos veículos estão sedeados numa offshore francesa e chamam-se Top Renda, Euroaforro Investments e Poupança Plus Investments. O Crédit Suisse foi o "arranger e dealer" destes produtos e o 4.º, chamado EG Premium, está sedeado nas Ilhas Virgens, um offshore britânico.
Nos EUA, devagar e bem, lá vão obrigando os bancos a pagar as vacas aos donos, ao Estado e aos clientes…
“…e nós aqui temos tudo!”
Na Suíça, ao fim de 200 anos, começa uma nova era de regulação para mais de uma centena de bancos, que vão tornar públicos os seus resultados financeiros e passam a partilhar informação dos seus clientes com autoridades fiscais de outros países, para evitar que ajudem cidadãos desses países fujam ao fisco…
“…e nós aqui temos tudo!”
Em Portugal, presume-se que um banco suíço ajudou um outro banco português, que foi à falência, conhecem-se os offshores que “ajudaram” à fuga de impostos e os responsáveis de um banco nem do outro sentam o rabinho no banco dos réus, nem se conhecem os nomes dos fugitivos ao fisco, obrigando-os a repor o que os contribuintes adiantaram por eles…
Lá se faz, lá se paga.
“…e nós aqui temos de tudo!”
Nota – São mais alguns exemplos da inocência dos bancos na crise, da honorabilidade sob suspeita dos banqueiros, do que são os serviços privados e de que não fomos nós que “vivemos todos acima das nossas possibilidades”.

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Porque cada aniversário é um ano mais, mas é um ano a menos

A vida que conhecemos começa a desaparecer lentamente, num movimento silencioso que se infiltra nos dias, junto com aqueles que fizeram da nossa época o que ela é.
A expressão mais perfeita que conheço para explicar a brutalidade do acaso nas nossas vidas é ainda a de Joan Didion. Ela disse, em simplicidade exata: “A vida muda num instante. Você senta-se para jantar e a vida que conhecia acaba de repente”. Joan, jornalista e escritora americana, escreveu essa frase no seu livro O ano do pensamento mágico, no qual narra a morte repentina do marido e a sua busca para compreender o incompreensível. Nos últimos dias, Renata, a mulher de Eduardo Campos, repetiria aos amigos: “Não estava no script”.
Não poderia estar no script. Poucos homens planearam a sua carreira política de forma tão meticulosa como Eduardo Campos. E então, ele toma café com a família, embarca num avião para dar sequência à sua primeira campanha presidencial, aquela que poderia levá-lo à presidência do Brasil, não agora, mas em 2018, e morre. O gesto largo de uma vida interrompido num instante. Antes do fim da manhã ele já não está. E os brasileiros de qualquer ideologia, ou sem nenhuma, são atravessados pela tragédia. A do homem perdido, no seu momento de máxima potência, mas também a de ser atingido pela força do incontrolável. Penso que cada um de nós, ou pelo menos a maioria, sentiu a lufada de vento entre as costelas, aquela que está sempre ali, mas fingimos que não existe.
De facto, a morte – repentina ou penosa, como nas doenças prolongadas, precoce ou tardia – é, como sabemos, a única certeza do nosso script. Um dia, simplesmente, já não se está. Como na cena do documentário de João Moreira Salles em que Santiago, o mordomo que dá título ao filme, cita o cineasta Ingmar Bergman: “Somos mortos insepultos, apodrecendo debaixo de um céu cruento e vazio”.
Se fizéssemos um retrato agora, de todos os vivos, teríamos também um obituário: daqui a 100 anos estaremos todos mortos. Olhamos pela janela e todos os que vimos no seu esforço quotidiano, carregando-se para a paragem do autocarro, sintonizando a rádio preferida ao sentar-se no carro, puxando assunto na padaria ou desferindo o seu ódio e o seu medo em pequenas brutalidades serão finados (palavra de tanto simbolismo), em menor ou maior prazo. Assim como finado será aquele que espia a única paisagem que não muda numa vida humana, a de que, para o indivíduo, o futuro está morto.
A verdade, que talvez nem todos percebam, é que se morre aos poucos. Não apenas pela frase clássica de que começamos a morrer ao nascer. De que cada dia seguinte arrasta o cadáver do dia anterior. De que cada amanhã é um dia a mais – mas porque é um dia a menos. Ao entrevistar os que envelheceram, descubro-os surpreendidos pelo drama menos nítido, aquele se infiltra lentamente nos interstícios dos dias: o de que o mundo da gente morre antes da gente.
Esse é o susto de quem alcançou a promessa da nossa época, a de uma vida longa. A de morrer só, mesmo quando cercado por filhos e netos. Só, porque aqueles que sabiam dele, aqueles que compartilharam o mesmo tempo, morreram antes. Aqueles que conheceram o menino, o levaram embora ao partir. Os que o viram jovem carregaram a sua juventude em lembranças que desapareceram porque já não há quem delas possa lembrar. Só, porque um certo modo de estar no mundo acabou antes. A solidão de estar vivo numa vida que já morreu.
Pouco antes de lançar O ano do pensamento mágico, Joan Didion perdeu a única filha. Depois do marido, a filha. Era a dor não nomeável da inversão da lógica, a de sepultar aquela que deveria sepultá-la. Mas era algo ainda além, o de se tornar a mulher que restou. O seu livro seguinte, Noites Azuis, fala dessa condição, a de ter sobrado viva ao envelhecer. A de se descobrir só e frágil, atenta aos degraus para não cair. Para mim, é um livro melhor do que o primeiro, mas diz algo ainda mais duro do que a perda do companheiro de uma vida. Talvez tenha feito menos sucesso por falar dessa dor insuportável, em que viver mais do que os seus afetos é ter de viver a morte que ultrapassa a morte.
Pensava que essa era uma condição restrita à velhice. A surpresa final de que o melhor cenário, o de viver mais, era também o de perder mais. Mas descobri que esse morrer começa muito antes. E de forma ainda mais insidiosa. Estes meses de 2014 têm-nos mostrado isso com uma força talvez maior. É uma coincidência, claro, não uma confluência escrita nas estrelas ou em qualquer profecia. O mundo da gente, em especial das gentes com mais de 40 anos, porque é nessa altura que sentimos que já temos um passado e o futuro é uma segunda metade incerta, tem morrido muito. E rápido, às vezes um sobressalto por dia, às vezes dois.
Cada um tem o seu susto. Acho que o meu foi com Nico Nicolaiewsky, que levava junto com ele momentos em que fui completamente feliz – e são tão raras as vezes em que somos completamente felizes – assistindo a Tangos &Tragédias no Theatro São Pedro, em Porto Alegre. Morreu 5 dias depois de Eduardo Coutinho e Philip Seymour Hoffman, 2 gigantes. Cada um com a sua tragédia, abriram um buraco na paisagem do mundo. Depois, José Wilker um dia não acordou. E não haveria Vadinho para me assombrar.
Não parou mais. De repente o mundo já não tinha mais Gabriel García Márquez, Jair Rodrigues, Alan Resnais, Paco de Lucia, Shirley Temple, Luciano do Valle, Nadine Gordimer, Paulo Goulart, Bellini, James Garner, Rose Marie Muraro, Max Nunes, Plinio de Arruda Sampaio, Lauren Bacall. No espaço de 6 dias de julho, Rubem Alves, João Ubaldo Ribeiro e Ariano Suassuna desapareceram. Rubem Alves, que desfazia anos nos aniversários e dizia que “a hora para comer morangos é sempre agora”. De repente o mundo já não tinha Vange Leonel. Como é possível? Eu -tinha a lido no Twitter um instante atrás. E Nicolau Sevcenko se foi horas depois de Eduardo Campos.
Nenhuma dessas pessoas convivia comigo, eu não frequentava a casa de nenhuma. A maioria delas nunca sequer vi. De facto, o que delas vive em mim, independe da sua existência física. Algumas são apenas flashes de um quotidiano em que por décadas elas apareceram, seja em novelas, na narrativa de um jogo de futebol, num debate político. Outras constituem-me. Os seus livros e músicas não têm idade, nos filmes ainda são jovens e belas. Concretamente, deveria fazer tão pouca diferença estarem ou não aqui, na miudeza dos dias, numa rotina que de qualquer modo não faria parte da minha, quanto Sófocles, que morreu há mais de 2.400 anos, ou Shakespeare ou Beethoven ou Picasso. Ou Machado de Assis. Ou mesmo Garrincha. Estes, que conseguiram transcender a sua vida ao proporcionar transcendência pela grandeza da sua obra, para as sucessivas gerações, ao infinito, são imortais. É um facto, toda a gente sabe, mas descubro que não é bem assim.
Qual é a diferença de Gabriel García Márquez estar vivo ou morto, se a chance de eu tomar um café com ele era remota e sempre vou ter meu O amor nos tempos do cólera na estante, para que ele possa reviver em mim? O que percebo é que há uma diferença. Há algo de melancólico, desestabilizador, em testemunhar o momento exato em que um imortal morre.
Suspeito que, naquele momento-limite em que a vida se extingue, a permanência da obra faça pouca diferença. Talvez o imortal que morre trocasse toda a sua imortalidade por dividir uma última vez uma garrafa de vinho com o melhor amigo ou por mais uma noite de amor lambuzado com a mulher que ama ou apenas para ler o jornal na mesa da cozinha no pequeno-amoço. Talvez o imortal fique mortal demais nessa hora, fique parecido demais com todos os outros. Como disse Woody Allen: “Não quero atingir a imortalidade através de minha obra. Quero atingi-la não morrendo”. E desde então temo confrontar-me com o seu obituário numa manchete na internet.
De certo modo, é assim que o mundo da gente começa a morrer antes da gente. Não apenas pela perda dos nossos afetos de perto, mas também pelo filme que Philip Seymour Hoffman não fará ou pelo livro que Ariano Suassuna não escreverá enquanto dividimos com ele o mesmo tempo histórico. Ou simplesmente por nenhum deles poder dizer mais nada de comezinho ou mesmo fazer alguma besteira, qualquer coisa de humano. Deles ficaremos só com o que foi grande, mesmo a bobagem terá de ser relevante para merecer permanecer na biografia. Ao mesmo tempo em que a morte os devolve de imediato à condição humana, tira-os para sempre dela. E logo o boteco de João Ubaldo já não terá cheiro.
A primeira vez que senti a infiltração de algo irreversível no meu mundo foi a morte de Marlon Brando, 10 anos atrás. A morte ainda não me bafejava como hoje, mas passei alguns dias prostrada por alguém que para mim já tinha nascido imortal. Percebi então que fazia diferença lembrar dele berrando “Steeeeeeeela” em Um elétrico chamado desejo e, ao mesmo tempo, poder mencionar qualquer coisa boba como: “Nossa, como ele está gordo agora”. De repente, ele não podia mais engordar nem espantar-nos com a sua existência descuidada. Só restaria grandioso. E, portanto, fora da vida. (Da nossa vida.)
Marlon Brando, como García Márquez, como Ariano Suassuna, como tantos agora, não se sabiam -meus, mas eram. Ao deixarem me, morro um pouco. Uma versão de nós morre sempre que morre alguém que amamos e que nos ama, porque essa pessoa leva com ela o seu olhar sobre nós, que é único. Uma parte de nós também morre quando não podemos mais compartilhar a mesma época com quem fez do nosso mundo o que ele é. E agora, fico esperando a cada momento uma nova notícia, porque sei que elas não mais deixarão de chegar.
Tive uma reação estranha ao saber da morte de Robin Williams. Quantos anos tinha?, perguntei primeiro. 63. E senti-me apunhalada com a resposta. Muito cedo, muito cedo. De que morreu? Parece que foi suicídio. E senti-me de imediato aliviada. Pode parecer surpreendente, mas o meu alívio deu-se porque de alguma maneira era uma escolha. Não era coração, não era cancro, não era AVC, não era avião. Por mais terrível que seja o ato de interromper a vida, ele pressupõe, em alguma medida, uma potência e um controlo.
Pode-se argumentar que uma depressão ou um desespero impede a escolha, mas acho que essa não é toda a verdade. As nossas escolhas nunca são consumadas em condições ideais nem o nosso arbítrio é totalmente livre. Só conseguimos fazer escolhas determinadas pelas circunstâncias do que vivemos e do que somos naquele momento. Por mais que nos surpreenda a escuridão do homem que nos deu tanta alegria, de algum modo ele elegeu a hora de morrer. O que para muitos foi razão para aumentar a dor pela sua morte, porque ela poderia ter sido evitada, para mim foi alívio por ele não ter a sua vida interrompida à revelia. De algum modo, me soaria mais insuportável se Robin Williams tivesse morrido tão cedo por um infarto ou um acidente.
Acredito mais na interpretação do jornalista americano Lee Siegel, quando ele diz que “talvez tenha sido a empatia que o matou – e não o seu desespero com o diagnóstico recente de Parkinson”. A capacidade de Robin Williams para vestir a pele do outro, de todos os outros, levada por ele a patamares quase insuperáveis. “A sua necessidade passional de se transformar em todos que ele encontrava, qualquer que fosse a sua origem étnica ou social – como se com isso pudesse vencer a sua solitária e irreversível finitude humana.” Há algum tempo o lento morrer do seu mundo assombrava-o, segundo os mais próximos Robin parecia incapaz de superar o desaparecimento do amigo e do homem que o inspirou, o comediante Jonathan Winters, que se foi em abril.
Os seus fãs, as pessoas cuja vida a sua vida tornou melhor, deixaram flores nos lugares em que viveram os seus personagens. Um banco de praça em que gravou cenas de O Génio Indomável, com Matt Damon. A casa em que foi Ms. Doubtfire, a babá. Era ali que ele morria para nunca morrer. Era ali que ele jamais deixaria de estar. Não há lugar para a morte. Como haveria lugar para a morte? Mas é preciso dar um lugar à morte para que a vida possa continuar. É para isso que criamos os nossos cemitérios dentro ou fora de nós. Em geral, mais dentro do que fora. A vida é também carregar os mortos no último lugar em que podem viver, nas nossas memórias. E aos poucos nos tornamos um cemitério cada vez mais habitado por aqueles que só vivem em nós.
A morte de Robin Williams, Gabriel García Márquez, Ariano Suassuna e de tantos levou um pouco de mim. A minha morte levará um pouco deles e de tantos, como a lembrança das lágrimas que chorei ao ver O clube dos poetas mortos ou a imagem de Aureliano Buendía que só eu tinha ou a minha pedra do reino. Morro um pouco com cada um deles porque vivi um pouco com cada um deles.
É essa a morte silenciosa que vai se alastrando pelos dias. Conto os meus imortais ainda vivos, os de longe e os de perto. Digo os seus nomes, como se os invocando. Peço que não se apressem, que não me deixem só, que não me deixem sem saber de mim. O acaso, a vida que muda num instante, assusta-me tanto quanto este meu mundo que morre devagar. É essa a brisa quase impercetível que adivinho soprando nos meus ossos. Muitas vezes finjo que não a escuto. Mas ela continua ali, intermitente, sussurrando para eu não esquecer de viver.
Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora dos livros de não ficção Coluna Prestes - o Avesso da LendaA Vida Que Ninguém vê, O Olho da Rua, A Menina Quebrada, Meus Desacontecimentos e do romance Uma Duas.

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Mordomias que os mordomos pagam e a que não têm direito…

Os plenários extraordinários na Assembleia da República, pedidos pela maioria para fazer aprovar - ainda no período de férias parlamentares - os cortes salariais na função pública e o Orçamento Rectificativo, vão custar aos cofres do parlamento quase 100.000 euros.
De acordo com a Secretaria-geral da Assembleia, o custo de "uma reunião plenária extraordinária orça os 45.000 euros", um montante que "resulta essencialmente dos encargos com despesas de deslocação" dos deputados. No caso de se realizar mais de um plenário extraordinário na mesma semana - o que vai acontecer na primeira semana de Setembro - o custo dilui-se pelos 2 plenários, dado o facto de as "despesas de transporte se diluírem pelo número de reuniões realizadas". Nas sessões que vão realizar-se no início de Setembro, 2 estão marcadas logo para a 1.ª semana, enquanto a 3.ª terá lugar na semana seguinte. O que significa um custo de, pelo menos, 90.000 euros. E a este valor vão acrescer as despesas decorrentes das reuniões de comissão, que terão necessariamente de ocorrer no âmbito dos trabalhos do Orçamento Rectificativo.
De acordo com o Estatuto Remuneratório dos Deputados, os parlamentares que residem fora de Lisboa e dos concelhos limítrofes da capital têm direito a um montante de "69,19 euros/dia, a título de ajuda de custo em cada dia de presença em trabalhos parlamentares". Já para os residentes no distrito de Lisboa, o valor é de 23,05 euros. Este último montante abrange 47 deputados, o número de eleitos pelo círculo da capital - o que dá um total de 1.083 euros. Os eleitos pelos restantes círculos são 183 - o que perfaz um total, por sessão plenária, de 12.661 euros.
A este montante, pago a título de ajudas de custo, juntam-se as despesas de deslocação - 0,36 cêntimos por quilómetro percorrido na deslocação da residência para a Assembleia da República. No caso dos deputados residentes nas regiões autónomas, o parlamento paga o "montante de uma viagem de avião de ida e volta em classe económica". Segundo a secretaria-geral da AR, o "orçamento da Assembleia da República não dispõe de verbas específicas para despesas extraordinárias com os trabalhos parlamentares", pelo que estas despesas estão integradas no "orçamento de funcionamento" do parlamento.
As sessões plenárias extraordinárias foram requeridas e aprovadas pelo PSD e pelo CDS.
A 1.ª será a 2 de Setembro para fazer aprovar os cortes salariais na função pública, a 4 de Setembro, será a vez de o Orçamento Rectificativo ser aprovado em plenário e a 11 de Setembro, para a votação final do Rectificativo.
Já todos sabemos que a democracia custa dinheiro e que esse dinheiro vem dos contribuintes que pagam impostos, para que o trabalho dos seus representantes sejam isentos nas decisões que tomam em seu nome…
Vem isto a propósito dos plenários extraordinários na AR (no período de férias parlamentares), pedidos e aprovados pela maioria, para aprovarem cortes salariais na Função Pública e o Orçamento Retificativo, que vão custar, não aos cofres do parlamento, mas aos contribuintes, quase 100.000 euros.
Contas feitas, esse montante resulta das despesas de deslocação dos deputados, mais das ajudas de custo por cada dia de presença, mais das despesas decorrentes das reuniões de comissão do Orçamento.
Por curiosidade e para informação, cada deputado recebe para despesas de deslocação, 36 cêntimos por quilómetro, da sua residência até à AR e os residentes nas regiões autónomas, recebem o montante de uma viagem de avião de ida e volta em classe económica.
Já quanto às ajudas de custo, os residentes no distrito de Lisboa, recebem 23,05 euros/dia e os de fora de Lisboa recebem 69,19 euros/dia, pelo trabalho parlamentar extraordinário, e mais algum os que pertencem às Comissões.
Como haverá 3 sessões em 2 semanas, tudo junto rondará os tais 100.000 euros.Mas se os contribuintes têm que pagar a máquina da “democracia”, no caso até cheira a abuso pouco democrático, porque “ou comem todos ou não há moralidade”…
Quais são os trabalhadores, do público ou do privado, que recebem subsídios de deslocação para chegarem aos seus locais de trabalho?
Quais são os trabalhadores, do público ou do privado, que recebem ajudas de custo para além do seu ordenado?
Quais são os trabalhadores, do público ou do privado, que recebem subsídios por pertencerem a determinados órgãos complementares e específicos?
Já não vou falar que foram estes mesmos deputados, que beneficiam destas mordomias, que cortaram todas as mordomias aos trabalhadores contribuintes, que lhes aumentaram as horas de trabalho pelo mesmo ordenado e lhes vão cortar nos salários…
Os nossos representantes já nem pressentem que estão a abusar da imoralidade, que tinham a obrigação de banir!
Os contribuintes é que não podem deixar de ganir, com estas “excentricidades” de quem devia servir a nação e se serve dela “à tripa forra”, como se fossem os DDT…
Afinal havia outro(s)…

domingo, 24 de agosto de 2014

Metamorfoses, com o advento (fora de tempo) do Espírito Santo

Há 2 anos, no Aquashow, o primeiro-ministro - menos bronzeado mas com mais cabelo - anunciava o fim da crise em 2013. Uma vitória que atribuía aos portugueses e aos empresários do nosso país (ainda eram alguns, nessa altura). 2 anos depois, surge no Pontal um homem novo. A designação "homem novo" não surge por acaso.
João Quadros
O Passos do Pontal é um revolucionário. O discurso do líder do PSD vai beber inspiração ao Um Homem Novo do Zeca. Recordemos: "Veio da mata. De armas na mão. Não é soldado. De profissão. É guerrilheiro. Na sua aldeia. A mãe o diz. Duma fazenda. Faz um país. Colonialismo, não passará. Imperialismo, não passará. Veio da mata. Um homem novo. Do MPLA." Ele bem avisou que era o mais africano dos PM.
No Pontal, Passos Coelho atira-se às 3 tabelas a Salgado. Estamos perante a vingança do retornado da bicha do leite sobre o retornado da fila da massa. Depois de ter feito crer que estava na Manta Rota a passear caniches, e que não tinha nada a ver com o que o BdP andava a fazer, o PM enche o peito para dizer que deu uma tareia no BES com uma mão que não era dele. Passos quer fumar o cigarro sem ter dado a dita.
No discurso aos Pontalinos, P. Coelho destrói os poderosos. Fala de uma sociedade com os pilares assentes no "podre". Segundo o PM, o BES, que esteve envolvido nas recentes privatizações, fazia parte dos alicerces podres. Afinal, o Marinho e Pinto vai regressar porque está preocupado, dado que Passos roubou-lhe o discurso. O líder do PSD fala das negociatas entre o Estado e os poderosos que mandam no País (isto é o fim da Tecnoforma). Por momentos, pareceu-me ouvir gritar: "Assim se vê a força do PSD" e "Força, força camarada Passos, nós seremos a muralha de aço(s)". O PSD de Coelho larga a "paz, pão, povo e liberdade" e adopta o "quando o pão que comes sabe a merda/o que faz falta". Faltou acabar a festa a queimar sapatos de vela e calças de pinça.
Vamos lá ver, este discurso do Passos até podia fazer sentido se ele tivesse acabado de chegar a Portugal depois de 20 anos de exílio na Manta Rota, mas foram só 15 dias.
A performance do PM, no Algarve, fez Ângelo Correia vir à televisão dizer que o discurso de Passos no Pontal, "do homem novo", lhe faz lembrar Lenine e Estaline. Ângelo sempre exagerou no que diz respeito a Passos, mas percebo a preocupação porque, normalmente, os revolucionários tendem a assassinar os seus criadores, e o PM sabe bem onde ele mora.
______________________
TOP 7
Camaradas
1 - Em entrevista ao DE, Ricardo Salgado escolheu citar o Papa Francisco - "Não chores pelo teu sofrimento, luta pela tua felicidade" - BdP já proibiu Salgado de usar frases do Papa Francisco. Só está autorizado a usar máximas de Bento XVI.
2 - Em Braga, mortos do PS regularizaram as suas quotas - tal é a vontade de votar Seguro.
3 - Banco de Portugal começa a descongelar contas da família Espírito Santo - estavam sem pão e camarões tigre para o pequeno-almoço. O BES está líquido.
4 - Obama: "Um grupo como o Estado Islâmico não tem lugar no século XXI." E o Tea Party tem? Aqueles malucos até têm pena de morte!
5 - Mexicanos compraram 3,32% da ES Saúde antes de lançar OPA - foi durante a siesta do Carlos Costa.
6 - Direcção do PS garante que eleições para Federação de Braga vão decorrer com "normalidade" - contrataram exorcistas.
7 - "Não farei mais nenhuma proposta para reformar a Segurança Social até às eleições de 2015" - e vai pedir ao PS que encontre uma solução para a queda do cabelo.

sábado, 23 de agosto de 2014

Um tradutor, à mão, de “politiquês” para português de Portugal

Já chegou ao fim da intervenção de um responsável político e pensou para consigo: hã?! Pois, tende a acontecer. Há palavras com que se floreiam os discursos que tendem a deixar a mensagem um pouco mais confusa. Por vezes, até ao antecipar boas notícias o “complicómetro” está ligado – para “desonerar” salários e pensões, por exemplo. Mas a regra dita que os termos menos óbvios cumprem bem um propósito: tornar as más notícias menos imediatas ao ouvido dos eleitores.
Pedro Rainho
‘Acertos’ - substantivo masculino: acto ou efeito de fazer certo ou realizar correctamente.
O que os políticos querem dizer:
Quando a entrega de documentos oficiais se atrasa a culpa é sempre dos “acertos” a fazer – leia-se desentendimentos. Entre os parceiros de coligação, por norma.
‘Ajustamento’ - substantivo masculino: acto ou efeito de ajustar; adaptação, amoldamento, conformação.
O que os políticos querem dizer:
Deu nome ao programa que Portugal fechou em Maio e tem dado nome a (quase) tudo desde 2011 – corte de salários, de reformas, de subsídios, aumento de impostos. Um verdadeiro exemplo de polissemia.
‘Calibrar’ - verbo: dar o calibre apropriado; fazer a medição ou o ajuste do calibre; corrigir.
O que os políticos querem dizer:
Ao fim de 2 anos e meio de austeridade, o país descobriu – via Pedro Passos Coelho – que o memorando estava, afinal, “mal calibrado”. O pormenor justifica que se tenha ido “além da troika”.
‘Competitividade’ - substantivo feminino: qualidade do que ou de quem é competitivo.
O que os políticos querem dizer:
Os trabalhadores portugueses não a têm em suficiente grau. 3 salários elevados para o nível de produção, e por isso é preciso aumentar o horário de trabalho, mantendo o nível salarial e reduzindo, por exemplo, a compensação pelas horas extraordinárias.
‘Consolidação’ - substantivo feminino: acto ou efeito de consolidar; acto ou efeito de tornar(-se) sólido, firme, estável
O que os políticos querem dizer:
Consolidar as contas públicas – a grande fixação do governo – tem passado por “ajustar” o comportamento orçamental do país e tornar a economia mais “competitiva”. Palavreado à parte, a ideia é pôr o Estado a gastar menos, limitando a despesa feita à riqueza criada – abaixo desse nível seria o céu na terra.
‘Alavancar’ – verbo: dar impulso a; agir a favor de; favorecer o desenvolvimento de; fazer avançar; fomentar, promover, incentivar.
O que os políticos querem dizer:
O palavreado económico entrou em força no discurso político. “Alavancar” é outra forma de dizer que se promove o desenvolvimento – ou da economia, ou de alguma medida política, por exemplo.
‘Desequilíbrios’ - substantivo masculino: acto ou efeito de desequilíbrar(-se); falta de proporção, de harmonia; desigualdade.
O que os políticos querem dizer:
A expressão generalizou-se Europa fora. Os “desequilíbrios acumulados” também são traduzíveis por “viver acima das possibilidades”.
‘Desonerar’ – verbo: livrar(-se) de ónus, encargo, obrigação ou incumbência; desobrigar(-se), eximir(-se).
O que os políticos querem dizer:
Até para dar boas notícias o primeiro-ministro escolheu o caminho mais ardiloso. Desonerar os cortes em salários e pensões em 2016 equivale a devolver – algum – poder de compra aos portugueses. Difícil, hein?
‘Externalizar’ – verbo: tornar(se) externo; atribuir tarefa ou serviço a uma entidade externa ou privada.
O que os políticos querem dizer:
“Vá para fora, cá dentro”. O slogan de promoção do turismo em Portugal ajuda a perceber o economês. Os serviços que o Estado até podia disponibilizar – em saúde, educação, etc. – são passados para a responsabilidade das entidades privadas. Gestão de custos, justifica-se.
‘Flexibilizar’ – verbo: tornar(-se) menos rígido.
O que os políticos querem dizer:
Flexibilizar o mercado laboral significa,  traços largos, facilitar despedimentos. Depois, onde alguns vêem “competitividade”, outros vêem “precariedade”.
‘Mentir’ – verbo: afirmar ser verdadeiro (aquilo que se sabe falso); causar ilusão a; dissimular a verdade; enganar, iludir.
O que os políticos querem dizer:
Um político não mente. Quando muito, falta à verdade ou diz inverdades. É o discurso com pinças em todo o seu esplendor. Passar “ao lado dos factos” também é uma alternativa válida.
‘Temporário’ – adjectivo: que dura apenas um certo tempo; provisório, não definitivo.
O que os políticos querem dizer:
Uma medida é temporária. Para o ano vai ser temporária outra vez. No ano seguinte vai ser novamente temporária. E no ano a seguir...
‘Reforma’ - substantivo feminino: mudança induzida em algo para fins de aprimoramento e obtenção de melhores resultados.
O que os políticos querem dizer:
Reforma do Estado, da Segurança Social, reforma do mapa judiciário, reforma do IRC feita e a do IRS a caminho. Também traduzível por cortes no Estado, cortes na segurança Social, cortes nos tribunais, benefícios fiscais para as empresas e para os particulares já se verá.
‘Virtuoso’ – adjectivo: que possui e cultiva qualidades de virtude; esforçado, valoroso.
O que os políticos querem dizer:
“Virtuoso” entrou no discurso político pela mão deste governo. Passos Coelho já apontou para um “círculo virtuoso do crescimento” e para uma “trajectória da dívida novamente virtuosa” enquanto Portas apontou o contexto “virtuoso” do crescimento. Com a virtude a assentar arraiais na política, o ministro da Defesa, José Pedro Aguiar-Branco, até já veio esclarecer que “o aumento de impostos, seja para o que for, não tem dimensão virtuosa”. Nenhuma, mesmo: é “malicioso”.
Eufemismos à parte, uma realidade caleidoscópica para serpentes encantadoras…