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sábado, 13 de setembro de 2014

Confundir a Inteligência Espacial com a Lógico-Matemática…

A quantidade de pormenores que uma criança de 4 anos é capaz de retratar quando desenha uma pessoa pode ser um indicativo da sua inteligência futura.
Da esquerda para a direita: Cima: 6, 10, 6; Baixo: 6, 10, 7
Um estudo de longo termo e de grande dimensão, levado a cabo no Reino Unido, e publicado esta semana na revista Psychological Science, mostra que a forma como uma criança de 4 anos desenha uma figura humana não revela apenas algo sobre a sua inteligência nessa idade como é indicativa da inteligência que terá dentro de 10 anos.
Para chegar a esta conclusão inédita, uma equipa de investigadores do King's College de Londes pediu a 7.752 pares de gémeos "verdadeiros" e "falsos" de 4 anos que desenhassem uma criança. Cada desenho foi avaliado de 0 a 12, com base no número de características presentes, como pernas, braços ou traços faciais. Na mesma altura, as crianças foram também submetidas a testes, verbais e não-verbais, de avaliação de inteligência.
10 anos depois, quando as crianças atingiram os 14 anos, os investigadores voltaram a testar a sua inteligência e descobriram que uma pontuação mais elevada nos seus desenhos correspondia agora, tal como na altura, a uma maior inteligência. E aí residiu a surpresa dos investigadores, que esperavam ver uma relação (entre a pontuação obtida nos desenhos e a inteligência) aos 4 anos, mas não verificar uma consistência dos resultados uma década mais tarde.
A correlação, no entanto, "é moderada", sublinha o líder do estudo, Rosalind Arden, em comunicado. "As nossas descobertas são interessantes mas não significam que os pais devam preocupar-se se o filho desenha mal", acrescenta. "A capacidade para desenhar não determina a inteligência, há inúmeros fatores, tanto genéticos como ambientais, que afetam a inteligência mais tarde na vida", conclui.
Não vou dissertar, mais uma vez, sobre as Inteligências Múltiplas porque pelo que se percebe os autores do “estudo”, nunca devem ter lido nada sobre a matéria…
Nem vou falar da “Educação pela Arte”, porque quem quiser que leia António Damásio, entre muitos…
Vou apenas referir-me a um dos primeiros estudos sobre o assunto, que li há muitos anos, de Georges-Henri Luquet, ‘O Desenho Infantil’, que me guiou para a psicologia do desenvolvimento, para entender e criar empatia com os meus alunos na procura da representação do “real”, virtualmente.
E agora já posso opinar sobre o “estudo”, que se baseia num conceito de “inteligência” já ultrapassado entre teóricos, mas que os Sistemas Educativos ainda privilegiam, a ponto de iniciar a Educação Visual (a Inteligência Espacial), como é o nosso caso, apenas no 7.º ano, exatamente aos 14 anos. Isto para dizer que, durante 10 anos, algumas das outras “inteligências”, no caso, a Espacial, ficaram congeladas, sem qualquer possibilidade de progressão. Se assim não fosse e houvesse formação “artística” desde o 1.º ano, aos 14 anos os desenhos seriam muito mais “realistas”, apenas pela acumulação dos novos conceitos das coisas e do mundo, como acontece com qualquer das outras “inteligências”…
E se assim fosse, em vez de o título ser: “Diz-me como desenhas aos 4 anos, dir-te-ei que inteligência terás aos 14”, poderíamos titular, por exemplo: “Diz-me como escreves aos 4 anos, dir-te-ei que inteligência terás aos 14”…
Ou seja, até na ciência e na pedagogia andam a informar-nos, com base em erros, que podem abalar a formação que fomos acumulando…
Eu sei que “isto” não tem interesse, mas devia interessar muita (toda a) gente, que vive da “Educação” para EDUCAR…
Georges-Henri Luquet consagrou a sua vida ao estudo do desenvolvimento da comunicação humana pela imagem. É um dos pioneiros do estudo do desenho infantil e as suas teses foram integralmente retomadas por Jean Piaget. Marcaram profundamente a psicologia do desenvolvimento e forneceram numerosas conceções, tanto aos psicólogos como aos pedagogos. As suas pesquisas sobre o desenvolvimento gráfico das crianças foram influenciadas pelos seus trabalhos em antropologia e, reciprocamente, também os influenciaram. 
Vários estudiosos observaram e procuraram identificar e descrever as etapas gráficas do desenvolvimento do desenho, entre os mais conhecidos estão Luquet, Piaget e Lowenfeld.
Luquet, por exemplo, dividiu as etapas gráficas em Realismo Fortuito, Realismo Falhado e Realismo intelectual e realismo visual.
No Realismo Fortuito, a criança começa a fazer traços sem qualquer objetivo (não há intenção para uma representação gráfica), mesmo sabendo que os traços realizados por outrem podem querer determinar um objeto determinado e representá-lo efetivamente, a criança não considera a ideia de também possuir a mesma habilidade. É nesta fase também que podemos identificar os famosos "garatujos", e de acordo com as definições de Piaget, este é o período sensório-motor.
“A princípio, para a criança, o desenho não é um traçado executado para fazer uma imagem mas um traçado executado simplesmente para fazer linhas. (Luquet, 1969 pg.145)
Até certo ponto, a criança produzirá mesmo acidentalmente uma parecença não procurada. A partir daí ela passará por uma série de transições até adquirir a totalidade das faculdades gráficas (intenção, execução e a interpretação correspondente à intenção) chegando consequentemente ao realismo intencional.
A Segunda Fase descrita por Luquet é o Realismo Falhado; quando a criança chega ao desenho propriamente dito, quer ser realista, mas a sua intenção choca com obstáculos gráficos e psíquicos, que dificultam a sua manifestação. São exemplos de obstáculos a incapacidade para dirigir os seus movimentos gráficos, o caráter limitado e descontínuo da atenção infantil e principalmente a incapacidade sintética – quando a criança não chega a sintetizar num conjunto coerente os diferentes pormenores que desenha com a preocupação exclusiva de os representar cada um por si. 
A terceira fase, é a do Realismo intelectual, onde a criança pretende deliberadamente reproduzir do objeto representado, não só o que se pode ver, mas tudo o que ali existe e dar a cada um dos elementos a sua forma exemplar.
“Enfim, aos 4 anos, a criança chega ao Realismo visual cuja principal manifestação é a submissão mais ou menos infeliz na execução da perspetiva. (Luquet, Pg.212)
De acordo com Piaget, é neste ponto que a criança se encontra no estágio pré-esquemático, que se inicia por volta dos 4 anos e se estende até os 7 anos mais ou menos. Após esta fase a criança com idade entre 7 e 9 anos entra no estágio esquemático, e após os 9 anos passa para o estágio do realismo nascente, vale ressaltar que estes estágios compreendidos entre os 7 e 11 anos estão dentro do período das operações concretas.
É claro que estes estágios não são estáticos, imutáveis, existem crianças que saltam alguns estágios de desenvolvimento, e existem crianças que param de se desenvolver devido a vários fatores que influenciam a sua vida, como a família, a situação social e económica, distúrbios psicológicos e gosto particular.
Por que paramos de desenhar?
À medida que a criança cresce, desenvolve o seu espírito crítico em relação aos seus trabalhos. Muitas vezes essa consciência crítica supera o seu desejo de se expressar criativamente; principalmente nos casos em que a criança passa com rapidez da infância para a adolescência num prazo demasiado curto, não podendo ajustar-se com suficiente brevidade à sua nova consciência crítica e fica assim, insatisfeita com as suas realizações. Acha tudo “infantil e mal feito”.
Quando isto sucede com muita frequência e nada se faz para remediar, a criança perde interesse pela arte e suspende completamente, as suas atividades artísticas. Já não pode desenhar coisa alguma, porque devido à sua repentina “tomada de consciência” crítica passa a perceber a pobreza dos seus meios infantis de expressão. Os seus desenhos parecem-lhe até ridículos, da mesma maneira como certos folguedos infantis, por exemplo, o “esconde-esconde”, lhe parecem indignos da sua atual “maturidade”. (Lowenfeld, 203).
Também Luquet exemplifica como se dá o abandono da criança pela atividade do desenho. Conforme a sua teoria, esse desinteresse é produzido na idade em que a criança chega à conceção do realismo visual – com a sua consequência fundamental: a perspetive; os desenhos que executava anteriormente de acordo com o realismo intelectual já não satisfazem o seu espírito crítico desenvolvido, e sente-se incapaz de fazer desenhos como quereria fazer.
Porém Luquet na sua obra “O Desenho Infantil”, além de exemplificar como se dá o abandono do interesse do ato de desenhar pela criança, também propõe sugestões de como evitar esse abandono. Conforme Luquet, o ensino do desenho deve visar não a acelerar artificialmente a evolução espontânea do desenho, a fazer desenhar em realismo visual quando a criança ainda quer desenhar em realismo intelectual, mas por a criança em estado de desenhar convenientemente em realismo visual quando tenha esta intenção.
Isso deve ser feito preferencialmente ensinando os principais efeitos da perspetiva, mostrando-lhes factos em objetos do seu quotidiano e exercitando o desenho tanto quanto possível ao natural.
Mas para Luquet, a principal atitude do educador deve ser a de “apagar-se”, deixar a criança desenhar o que quer, propondo-lhe temas sempre que ela necessite e sobretudo quando lhe pede, fazendo sempre com que estas sugestões não soem como imposições e sobretudo deixá-la desenhar como quer, a seu modo.

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Educar: Ensinar e aprender, com os pais e com a escola…

O pediatra discute como educar uma criança: a importância do amor, dos castigos e do tempo que tanto pais como filhos devem reclamar para si. Mas há também dicas para a rentrée escolar.
(…)
- O que define uma boa educação?
Gosto mais de falar em ensino e em aprendizagem. Há o ensinar, que implica informação, sabedoria e modelo. O aprender é desenvolver talentos e conhecimentos, ouvir experiências e, através delas, desenvolver sabedoria. Um bom educador é a pessoa que, na medida do possível, tenta ser coerente, consistente e justo. Mas também saber que podem haver reações àquilo que ensina, tal como a rejeição.
- Que valores devem ser transmitidos às crianças?
Respeito, amor, responsabilidade, empatia, partilha e solidariedade. Mas os valores são coisas abstratas para uma criança, pelo que é preciso dar exemplos práticos. Até aos 5, 6, anos a criança está numa fase em que predomina o concreto.
- Quais os conselhos que dá aos pais no regresso às aulas?
Depende das idades, se é a primeira vez que a criança vai para a escola ou se há mudanças de ciclo. É bom conversar sobre o que vai acontecer, sobretudo quando no primeiro ano, e explicar alguns medos: “É natural que não conheças ninguém; que penses que a professora esteja a olhar só para ti; que dos 26 não és obrigado a gostar de todos e que, a pouco e pouco, vais vendo quem tem mais que ver contigo…”. Explicar também que é preciso ser-se organizado e metódico, saber enquadrar todas as tarefas do dia-a-dia nos vários dias.

Outra coisa que é muito importante: a criança pensa que ao ir para a escola, no momento em que entra, já está a ler e a fazer contas, sente-se pressionada. Digo sempre no consultório “a última letra do abecedário geralmente é aprendida em maio, até lá tens muito tempo”. Dar uma semanada também é importante; sugiro 2 euros por semana. Implica ser-se responsável: “Trabalhaste uma semana, tens aqui uma semanada. O esforço foi recompensado e o teu poder aquisitivo está na razão direta do teu trabalho”.

- Das férias para as aulas há uma mudança de hábitos muito grande…
Advogo uma semana antes de começar as aulas para retomar os ritmos. Acho que é bom aproveitar esse período para ver os manuais, as mochilas, os horários, para comprar o material… E ir deitando o filho mais cedo. Trata-se de um reset tranquilo — não pode ser instantâneo.
- O que é que um pai pode exigir de uma criança: qual o equilíbrio entre o trabalho e o ócio?
Exigir que cumpra [as obrigações], mas dar alguma liberdade à criança de gerir a sua vida. Sobretudo que não exija ao filho que entre no quadro de honra, que acho que é uma coisa a abater — é muito injusta, como se a honra se medisse por notas! Cada um deve-se comparar consigo próprio, tentar a excelência de si mesmo. Nós não temos competência para tudo, ponto, e temos de meter isso na cabeça dos pais e dos filhos. Em vez de carrascos, os pais devem ser juízes/árbitros.
- Quais são os maiores desafios de uma criança quando a aprender?
É encarar, na maior parte das vezes, uma escola nova e habituar-se ao estar na sala de aula. O impulso de levantar e falar é tolerado no jardim-de-infância, mas não ali [aulas do primeiro ano]. Por outro lado, trabalhar em grupo, adaptar-se a outros meninos e ao relacionamento com as auxiliares, que é fundamental no meio disto tudo. O pai deve observar tudo e fazer-se sócio da associação de pais para poder intervir e tentar mudar o que se pode mudar, compreender e ajudar onde pode.
- O pai educa, a escola ensina?
Ensina-se e aprende-se em todo o lado, tanto com os pais como na escola. Sempre que há um momento relacional, há uma ocasião de ensino e de aprendizagem. A escola deve ensinar, não apenas a nível académico, mas também social e relacional. O mesmo com os pais. Um não substitui o outro.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Com um simples toque de dedo, podemos ter o mundo na mão

"A criação do mundo" de Miguel Ângelo no teto da Capela Sistina
A popularidade de smartphones com ecrãs de maior dimensão, conhecidos como “phablets”, mantém-se com a IDC a prever que a procura associada supere a dos PC portáteis. O fornecimento de “phablet” deverá atingir 175 milhões de unidades em 2014, 5 milhões acima do número referente aos PC portáteis, previu a consultora.
Os telemóveis inteligentes vieram para ficar. Já no ano passado as vendas tinham ultrapassado as dos aparelhos tradicionais, e os dados mais recentes da empresa de estudos de mercado revelam que em relação a maio de 2012 se registou um aumento de utilização na ordem dos 80%.
"Há muita gente que compra smartphones, mas que depois não lhes dá o uso que devia", lembrou Pedro Tróia, diretor da revista PC Guia.
Há aqui 2 fenómenos interessantes. Um é que se está a substituir os mais simples por telefones com mais capacidades, apesar de a maioria das pessoas não passar das chamadas e dos SMS. Há muita gente que compra smartphones, mas que depois não lhes dá o uso que devia. O outro é que estão a aparecer muitas marcas que oferecem as mesmas funcionalidades que as grandes mas que são muito abaixo do preço. As marcas grandes tentam contra-atacar com versões simplificadas. É por aí que está a crescer. Não tanto pelos telefones das grandes marcas. Depois há também as ofertas dos operadores.
1. Quem de facto tira partido dos equipamentos, usa-os para quê?
Para aceder às redes sociais, mais ao Facebook, e para jogos. São os grandes motores. E há um fenómeno, que eu vejo, é empírico, mas o mercado do fitness também está a pegar muito nos smartphones. Agora na IFA (exposição de tecnologia mais importante da Europa), a decorrer em Berlim, toda a gente está a apresentar dispositivos que trabalham em conjunto com o smartphone para ajudarem programas de fitness.
2. Qual vai ser o futuro destes telefones?
Têm muito pouco por onde crescer. O conceito está lá, a tecnologia, podemos fazer mais rápido, com ecrã maior ou menor. Daí a mudança para os aparelhos complementares como os relógios inteligentes. Agora a tendência é a dos ecrãs serem progressivamente maiores. Os phablets, telefones com ecrãs grandes. Eu diria que daqui a 3, 4 anos, o mercado dos tablets vai reajustar-se a uma realidade diferente.
Os donos de ‘smart-phones' parecem ter cada vez menos interesse em novas aplicações. Este comportamento levanta dúvidas sobre o futuro daquele que tem sido o nicho mais dinâmico do mercado tecnológico e leva os programadores de aplicações móveis a pensar que os dias de crescimento frenético podem estar a chegar ao fim. Segundo dados da Deloitte, num mês típico, cerca de 1/3 dos utilizadores de ‘smartphones' não descarrega qualquer aplicação (ou ‘app') para o seu equipamento. A mesma empresa estima que o volume de vendas de ‘apps' pode estar prestes a atingir o máximo histórico.
Por me ter convertido num racional e racionado utilizador do smartphone que as circunstâncias me “obrigaram”, depressa cheguei à conclusão de que não bastava ter, mas era preciso saber utilizá-lo para tirar todo o partido, comodidade e eficácia do mesmo, constatando de imediato que o mesmo se passava com a maioria dos proprietários dessa ferramenta.
Por razões circunstanciais, que se prendem com a Coordenação de uma Universidade Sénior (USRCPV) onde a informática é uma das disciplinas mais procuradas, intuitivamente, mas não só, cheguei à conclusão de 2 coisas: é mais fácil aprender e utilizar tablets e smartphones, do que aprender e utilizar os PC e, por isso, na idade dos nossos utentes a aprendizagem da utilização desta “nova” ferramenta” é muito mais fácil, razão por que os nossos netos nos levam a perna…
Ao mesmo tempo constatei que, praticamente, não existe no mercado oferta de formação para tablets e smartphones (nem das empresas fabricantes nem nas distribuidoras nem de empresas de formação), o que me levou a propor e a realizar um workshop, que teve sucesso e confirmou a necessidade de abrir a oferta de uma disciplina sobre a matéria, vai daí substituímos algumas turmas de formação em PC e estou convencido de que vai ter grande sucesso e mais proveito a quem se inscrever na nova disciplina.
Fico satisfeito por constatar nestas notícias: 1) que tinha razão na crescente desvalorização dos PCs; 2) na valorização dos tablets e smartphones, agora chamados de “phablets” e 3) na introdução inovadora de formação nestes aparelhos na oferta curricular.
A grande vantagem da utilização dos “phablets”, ou seja, da utilização de tablets ou de smartphones, advém da personalização de cada aparelho, que passa pelo mundo das aplicações (app) e permite, com um toque de dedo, ter o mundo à mão…
E por isso, estamos a pensar abrir cursos pós-laborais, para pessoas não inscritas na USRCPV, para sermos um polo de serviços à comunidade, que ultrapasse a missão específica da “instituição” e a estenda a quem não tenha outra alternativa.
Desculpem a publicidade, mas a oportunidade está no servir…

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Revisitando uma visitação ao “Pulo do Lobo”…

Lembro a sua primeira campanha presidencial e a insistência na prova de que Portugal estava a ficar para trás: até a República Checa nos tinha ultrapassado. E tinha. Nos rankings de competitividade internacional, a economia portuguesa evoluía ano após ano num sentido só. Para baixo.
Sérgio Figueiredo
Cavaco Silva, o homem providencial, economista experiente e preparado, o candidato, até podia cavalgar a crise para ganhar votos populares. Cavaco Silva, o Presidente, não podia fazer isso. E não cavalgou, preferiu desaparecer no meio dela. Da crise e entre mandatos.
Ninguém, portanto, se lembrou do Chefe de Estado na semana em que Portugal subiu 15 lugares na tabela das economias mais competitivas do mundo. Só eu, por causa desta memória maldita e dos checos. Ranking de 2014: Portugal em 37, a República Checa de novo atrás de nós, Cavaco nos "erros e omissões".
Os rankings de competitividade vivem mais de percepções do que de estatísticas. Não é coisa pouca, porque resultam da visão de milhares de gestores e empresários sobre as economias do mundo, neste caso mais de 140. É, então, da nossa reputação externa que estamos a falar. E aquilo que se ouve é tão formidável quanto surpreendente, tão agradável quanto inesperado. É uma credibilidade que se revela "no ambicioso programa de reformas que o país tem adoptado" e que, no entender dos senhores que organizam o influente Fórum de Davos, "parece estar a começar a dar frutos em todos os domínios".
Aquilo que o Fórum Económico Mundial escreve a partir de Genebra é um exercício de leitura obrigatória e recomendável para qualquer português interessado. Porque começa na economia e empresas e acaba na psicanálise.
As nossas reformas que os outros valorizam não podem ser na Segurança Social (que Passos Coelho enterrou num comício) e no Estado - porque é um guião que Paulo Portas enfiou numa gaveta etiquetada "aqui jaz o socialismo do Dr. Soares".
O funcionamento das instituições sobe 5 lugares, porque ali não está ainda o embaraço de reguladores e poder judicial na falência fraudulenta do BES e do grupo económico que nele se entrelaçava.
E onde cabem o mal-estar de tantos grupos profissionais ou a asfixia das universidades num país que é o 24º nos indicadores "educação superior e formação" e "saúde e ensino básico"? Como lamentar esta taxa de desemprego historicamente elevada se, na "eficiência do mercado laboral", Portugal sobe mais de 40 lugares?
Se a televisão é um espelho da sociedade, então é porque os decisores internacionais não sintonizam a RTP Internacional. Só assim acreditam que o país "pode tirar melhor proveito da sua mão-de-obra altamente qualificada" e classificam-nos em 29º lugar no critério - é por não verem as reportagens no aeroporto de Lisboa, com jovens licenciados a emigrar com lamentos e lágrimas no rosto.
Impossível dar este salto de gazela, num ano, logo no último ano!, se a verdade toda estivesse nos gráficos do Dr. Medina Carreira ou na desgraça profetizada por Pacheco Pereira em jornais e revistas. Impossível, no país que vemos e lemos, ser esta uma das 40 economias mais competitivas do mundo...
Mas é aqui que, subitamente, estamos. Não bate certo, mas sabe bem. 3 explicações são possíveis, mas só uma conclusão é necessária.
Uma, que desqualifica o ranking e o Fórum Económico Mundial. Nesta não podem falar os que, durante estes anos, se agarraram a esta tabela para exibir o declínio português. É uma tentativa, mas pouco convincente, porque Portugal tem igualmente melhorado noutras classificações semelhantes, como a que a escola de negócios IMD divulgou na última Primavera.
A outra desqualifica os próprios portugueses. Afinal a economia está mais competitiva graças às reformas impostas pela troika. Sucede que a Grécia não aparece entre os primeiros 50, a Itália não foi intervencionada e tem pior classificação que a nossa e, além da República Checa, Portugal ultrapassou a Polónia e praticamente toda a Europa de Leste - a tal que, depois do alargamento da União Europeia, nos iria condenar para um ciclo irremediável e contínuo de perda na competição internacional.
Portugal está hoje numa situação mais favorável do que estava antes da crise financeira de 2007. Não no ambiente macroeconómico - que até piora para uma sofrível 128ª posição. Mas numa outra série de indicadores, que vão desde pessoas mais preparadas, empresas mais inovadoras, mercados mais eficientes, negócios mais sofisticados, nos sistemas públicos de ensino e de prestação de cuidados de saúde.
É a 3.ª explicação possível: entre a realidade e os portugueses, há uma intermediação que forma uma agenda incompleta, que confunde "opinião pública" com "opinião publicada", que dá voz aos "representantes" e ignora os "representativos". E esta explicação não abona nada a favor da comunicação social.
Em qualquer dos casos, é muito boa a sensação de, através das opiniões externas, aos olhos dos outros, ver Portugal aproximar-se dos primeiros. Olhar cada vez mais próximo, para os que lá estão em cima, deveria obrigar-nos a mudar de raciocínio. Convergir para a média é a ambição dos medíocres. Chegar ao "top 10" é a única forma de recuperar o atraso.
Desde que entrámos na CEE, queremos atingir a média: a média europeia, o PIB "per capita" médio, a média dos outros e o resultado não tem sido espectacular: 1 passo à frente, 2 passos atrás. Sempre que demos um salto, que não fizemos o que todos estavam a fazer, Portugal chegou à vanguarda. Vários exemplos o confirmam, da fibra ótica às energias renováveis.
Portanto, sobre rankings e competitividade, escolha você mesmo 1 dos 3 cenários, porque prefiro uma conclusão: nada de passos, só saltos!
"O único país que progride, apesar de não ser suficiente" para absorver a bolsa de desempregados "é a Espanha", afirmou a diretora do FMI, Christine Lagarde, em entrevista.
Questionada se considera que a França está a atrasar-se na aplicação de reformas, a diretora do FMI insistiu que "há que as por em prática e não apenas ficar contente em falar delas", numa mensagem que serve para "o conjunto da zona euro e não apenas para a França".
E porque estes rankings de competitividade vivem mais de perceções do que de estatísticas, mais baseadas na "opinião publicada", que dá voz aos "representantes" da classe dirigente, do que na "opinião pública" onde está a maioria dos "representados", tem o valor que tem e não pode contrariar a realidade, que se traduz no mais recente e paradoxo paradigma: “O país está mais rico (?), mas os cidadãos estão mais pobres”.
Para contrariar as perceções e valorizar as estatísticas (?), a conclusão de Lagarde obriga-nos a optar por uma 4.ª explicação, de cariz espiritual, que é, mais uma vez, ter acontecido um milagre…
O pior, é que de milagre em milagre, nunca mais saímos deste inferno, embora possamos passar pelo Purgatório, durante o período pré-eleitoral…

domingo, 7 de setembro de 2014

O (des)Acordo Ortográfico não estará à beira da patologia?

Embora a presidente Dilma Rousseff tenha adiado por 3 anos (de 2013 para 1 de janeiro de 2016) o início da obrigatoriedade da nova ortografia, fruto do acordo entre os países de língua portuguesa e vigorando em caráter facultativo desde 2009, o Brasil já fez uma parte importante do seu trabalho de casa neste processo. As escolas, a imprensa, toda a comunicação e o setor de livros adotaram as mudanças com agilidade e eficácia.
Karine Pansa
A sociedade, as instituições e o mercado editorial entenderam e assimilaram muito bem as transformações, ao contrário de outras nações lusófonas, nas quais houve mais resistências. Em Portugal, por exemplo, questionou-se muito a extinção do “C” e do “P” mudos em numerosas palavras, como “tacto”, “exacto”, “óptimo” e “excepção”. Os portugueses têm certa razão em reclamar, pois as letras extirpadas eram utilizadas no seu país para marcar as sílabas tónicas de numerosos vocábulos. Embora constassem dos dicionários e do vocabulário oficial brasileiros, as formas escritas das palavras nas quais essas letras não eram pronunciadas oralmente já estavam há muito tempo em desuso no Brasil.
Com rigor, o “C” e o “P” extintos foram os de Portugal e não os nossos. Amigos do mercado editorial e da imprensa de Lisboa, externando de modo bem-humorado a sua indignação, argumentavam: “Queremos igualdade de condições e direitos. Se não podemos ser exactos no nosso idioma, então vocês não podem ter um pacto, mas sim um pato social”. Avicultura sociopolítica à parte, os lusos, a despeito dos seus questionamentos, e todos os demais governos da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, com exceção de Angola, já ratificaram o acordo ortográfico.
O mais importante de tudo isso é entender que as mudanças que unificaram a ortografia não alteraram a gramática e a riqueza do Português, com a sua incrível multiplicidade de expressões homónimas e parónimas e infinitas possibilidades sintáticas para a composição das frases e sentenças. Isso reflete-se numa estrutura formal grandiosa, que faz da literatura de língua portuguesa uma das mais belas, emocionantes e atrativas. Ademais, o alto grau de redundância linguística de nosso idioma permite que os textos sejam lidos rapidamente e na diagonal, sem prejuízo de se assimilar a informação mínima, e também facilita o mecanismo da previsibilidade (ou seja, mesmo quando, se faltam letras numa palavra, a pessoa consegue ler de maneira correta). Tudo isso vai a favor do consenso nacional quanto à necessidade de estimular a leitura.
Considerando a adequada e rápida adaptação do Brasil e levando-se em conta que até os portugueses, com razoáveis razões para questionar, já ratificaram o acordo ortográfico, são incompreensíveis as propostas que às vezes surgem no nosso Legislativo ou na retórica de pretensos estudiosos do tema, de se produzirem novas mudanças. O mais grave é que essas sugestões são radicais quanto à simplificação da língua. A sua adoção seria um ato insensato, que produziria ao longo de poucas gerações um estrago que nem mesmo as transformações naturais que o tempo impõe aos idiomas foram capazes de provocar no Português. A nossa língua traduz a alma da lusofonia, tão identificada e enfática no meio da pluralidade do povo brasileiro, hoje seu principal guardião, com 200 milhões de vozes!
É injustificável a proposta de simplificação do Português ante a dificuldade da sua aprendizagem. Não podemos resignar-nos à derrota que isso significaria na educação e na cultura nacionais. Devemos, sim, melhorar a qualidade do ensino, para que as nossas crianças, jovens, académicos e profissionais possam utilizar na plenitude todo o potencial que o idioma oferece. Precisamos fechar a questão, num verdadeiro pacto em defesa da nossa língua e em favor da escola de excelência. Se abrirmos mão dessa responsabilidade, pagaremos o pato social, sem “C mudo” e sem direito ao bom humor. 
Karine Pansa, empresária do setor editorial, presidente da Câmara Brasileira do Livro (CBL)

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Mordomias que os mordomos pagam e a que não têm direito…

Os plenários extraordinários na Assembleia da República, pedidos pela maioria para fazer aprovar - ainda no período de férias parlamentares - os cortes salariais na função pública e o Orçamento Rectificativo, vão custar aos cofres do parlamento quase 100.000 euros.
De acordo com a Secretaria-geral da Assembleia, o custo de "uma reunião plenária extraordinária orça os 45.000 euros", um montante que "resulta essencialmente dos encargos com despesas de deslocação" dos deputados. No caso de se realizar mais de um plenário extraordinário na mesma semana - o que vai acontecer na primeira semana de Setembro - o custo dilui-se pelos 2 plenários, dado o facto de as "despesas de transporte se diluírem pelo número de reuniões realizadas". Nas sessões que vão realizar-se no início de Setembro, 2 estão marcadas logo para a 1.ª semana, enquanto a 3.ª terá lugar na semana seguinte. O que significa um custo de, pelo menos, 90.000 euros. E a este valor vão acrescer as despesas decorrentes das reuniões de comissão, que terão necessariamente de ocorrer no âmbito dos trabalhos do Orçamento Rectificativo.
De acordo com o Estatuto Remuneratório dos Deputados, os parlamentares que residem fora de Lisboa e dos concelhos limítrofes da capital têm direito a um montante de "69,19 euros/dia, a título de ajuda de custo em cada dia de presença em trabalhos parlamentares". Já para os residentes no distrito de Lisboa, o valor é de 23,05 euros. Este último montante abrange 47 deputados, o número de eleitos pelo círculo da capital - o que dá um total de 1.083 euros. Os eleitos pelos restantes círculos são 183 - o que perfaz um total, por sessão plenária, de 12.661 euros.
A este montante, pago a título de ajudas de custo, juntam-se as despesas de deslocação - 0,36 cêntimos por quilómetro percorrido na deslocação da residência para a Assembleia da República. No caso dos deputados residentes nas regiões autónomas, o parlamento paga o "montante de uma viagem de avião de ida e volta em classe económica". Segundo a secretaria-geral da AR, o "orçamento da Assembleia da República não dispõe de verbas específicas para despesas extraordinárias com os trabalhos parlamentares", pelo que estas despesas estão integradas no "orçamento de funcionamento" do parlamento.
As sessões plenárias extraordinárias foram requeridas e aprovadas pelo PSD e pelo CDS.
A 1.ª será a 2 de Setembro para fazer aprovar os cortes salariais na função pública, a 4 de Setembro, será a vez de o Orçamento Rectificativo ser aprovado em plenário e a 11 de Setembro, para a votação final do Rectificativo.
Já todos sabemos que a democracia custa dinheiro e que esse dinheiro vem dos contribuintes que pagam impostos, para que o trabalho dos seus representantes sejam isentos nas decisões que tomam em seu nome…
Vem isto a propósito dos plenários extraordinários na AR (no período de férias parlamentares), pedidos e aprovados pela maioria, para aprovarem cortes salariais na Função Pública e o Orçamento Retificativo, que vão custar, não aos cofres do parlamento, mas aos contribuintes, quase 100.000 euros.
Contas feitas, esse montante resulta das despesas de deslocação dos deputados, mais das ajudas de custo por cada dia de presença, mais das despesas decorrentes das reuniões de comissão do Orçamento.
Por curiosidade e para informação, cada deputado recebe para despesas de deslocação, 36 cêntimos por quilómetro, da sua residência até à AR e os residentes nas regiões autónomas, recebem o montante de uma viagem de avião de ida e volta em classe económica.
Já quanto às ajudas de custo, os residentes no distrito de Lisboa, recebem 23,05 euros/dia e os de fora de Lisboa recebem 69,19 euros/dia, pelo trabalho parlamentar extraordinário, e mais algum os que pertencem às Comissões.
Como haverá 3 sessões em 2 semanas, tudo junto rondará os tais 100.000 euros.Mas se os contribuintes têm que pagar a máquina da “democracia”, no caso até cheira a abuso pouco democrático, porque “ou comem todos ou não há moralidade”…
Quais são os trabalhadores, do público ou do privado, que recebem subsídios de deslocação para chegarem aos seus locais de trabalho?
Quais são os trabalhadores, do público ou do privado, que recebem ajudas de custo para além do seu ordenado?
Quais são os trabalhadores, do público ou do privado, que recebem subsídios por pertencerem a determinados órgãos complementares e específicos?
Já não vou falar que foram estes mesmos deputados, que beneficiam destas mordomias, que cortaram todas as mordomias aos trabalhadores contribuintes, que lhes aumentaram as horas de trabalho pelo mesmo ordenado e lhes vão cortar nos salários…
Os nossos representantes já nem pressentem que estão a abusar da imoralidade, que tinham a obrigação de banir!
Os contribuintes é que não podem deixar de ganir, com estas “excentricidades” de quem devia servir a nação e se serve dela “à tripa forra”, como se fossem os DDT…
Afinal havia outro(s)…

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Parece que a austeridade foi bruta, mas há outra mais suave…

Preocupado com os altos números do desemprego e com a baixa inflação da Zona Euro, Mario Draghi, presidente do Banco Central Europeu (BCE) quer combinar políticas de estímulo fiscal sem relaxar as regras com que os governos europeus estão comprometidos. Assumindo responsabilidades e reconhecendo que o BCE pode ajudar no esforço de recuperação económica, defendeu mais flexibilidade fiscal, mas sempre dentro do limite de 3% de défice que os tratados da União Europeia impõem aos Estados-Membros.
Na conferência anual de Jackson Hole, nos Estados Unidos, Mario Draghi defendeu perante os representantes dos maiores bancos centrais que nos países da Zona Euro o centro das preocupações está no elevado desemprego e na baixa inflação, que em julho desceu para 0,4%, quase 1/5 em relação ao objetivo do BCE, que era de 1,9%.
A flexibilidade nas regras fiscais poderia ser “usada para dar resposta à fraca recuperação e para abrir espaço aos custos das reformas estruturais necessárias”, explicou. Draghi defende que a grande procura de títulos da dívida tem de ser apoiada por uma política fiscal e por reformas estruturais que reforcem a recuperação da região.
As declarações de Mario Draghi vão ser bem recebidas em Itália e em França, países que têm apelado à flexibilização das condições de aplicação do Tratado Orçamental e do Pacto de Estabilidade e Crescimento. “Sim à estabilidade, mas sem crescimento a Europa morre”, disse o primeiro-ministro italiano, Matteo Renzi.
“Estou confiante em como o pacote de medidas que anunciámos em junho vai oferecer o impulso pretendido à procura e estamos prontos para ajustar mais a nossa política”, acrescentou. O presidente do BCE aprovou uma proposta de Jean-Claude Juncker, próximo presidente da Comissão Europeia, para um programa de investimento de 300.000 milhões para estimular o crescimento.
Ainda no ano passado, o presidente do BCE recusava flexibilizar os programas de austeridade. O apelo a que os países mantivessem o rigor foi uma resposta a Jean-Claude Juncker, na altura presidente do Eurogrupo — que afirmou no Parlamento Europeu que o excesso de austeridade nos países cumpridores contribui para níveis de desemprego que configuram “uma tragédia”.
Já nos chegava o FMI pregar uma teoria e praticar a contrária, como tem acontecido durante os últimos anos…
Agora é o outro parceiro da troika, o BCE, que vem contradizer-se em relação às teorias defendidas e praticadas nos países que pediram empréstimos (e não só), impulsionado (?) pelas palavras do futuro presidente da Comissão Europeia (outro paceiro da troika), Juncker, que antes de o ser ou pensar ser, dizia que a austeridade, que produzia desemprego, era uma tragédia…
Tendo em conta que os 3 representantes do credores estão de acordo, reconhecendo indiretamente que só fizeram borrada, só podemos pensar que as coisas vão mudar… Lógico! Só que, se assim for, Draghi contrariaria a Sra. Merkel, distraída com as sanções à Rússia e à espionagem dos “amigos”, e não sabemos se a reviravolta tática (teoricamente) teve o acordo de Da. Branca, caso contrário é chover no molhado…
O que não se compreende, por que sendo o limite do défice que os tratados da UE impõem aos Estados-Membros seja de 3% e no que a Portugal diz respeito, a troika tenha acordado com as autoridades portuguesas, 5,5% em 2013, 4% em 2014 e 2,5% em 2015, embora a realidade, fruto da asneirada que fizeram, oa tenha  levado a concluir, que em 2013 seria de 5,7%, 4,6% em 2014 e 3,6% em 2015.
Por que raio temos nós que cumprir mais do que é exigido a países mais “ricos” e para além dos Tratados?
Já quanto ao crescimento vs austeridade, já não vale a pena dissertar, dado todos os merceeiros do país ter contestado e desconstruído o método, de tão óbvio paradoxo… Ganhar menos para pagar mais, só podia ser brincadeira ou coisa séria, no domínio político e na área financeira, o que qualquer nerd já tinha percebido…
A confirmarem-se as “boas” intenções, mais vale mais cedo do que para o ano, por causa das eleições, mas assim sendo, não havia necessidade de roubar os FP e tentar novo plano para assaltar os reformados…
Pelo que se apercebe, parece que a austeridade tem vários graus, como os castigos, que vai da bruta à mais meiguinha, mas quem escolhe são os “Super Mários”…
Olho fino e gente grossa!

domingo, 17 de agosto de 2014

Agora é que o Acordo Ortográfico vai ao xarco…

Do Fundamental ao Médio gastam-se 400 horas-aula com ortografia, para decorar muito e aprender quase nada.
Ernani Pimentel
Teresópolis ou Terezópolis? Responda de imediato, por favor. Se você for do Estado do Rio, respondeu TereSópolis; se de Goiás, TereZópolis. Porque as muitas placas de sinalização nas duas cidades e nos seus acessos ora apresentam o S, ora o Z. E isso acontece porque as duas letras representam o mesmo som de Z, e não há uma regra clara para escolher uma delas. A letra X também representa o som de Z em exame e exonerar. Quem está aprendendo a escrever não entende por que e quando se usa uma ou outra letra.
Responda você o motivo de três letras para representar o mesmo som de Z: fuso, fuzo, fúsil, fuzil, laser, lazer, casar, bazar, exumar... Mesmo que o professor se desdobre para arranjar uma explicação para cada caso, o aprendiz, quer brasileiro ou estrangeiro, se sente perdido, confuso, desanimado... e o pior: conclui que apreender português é muito difícil, que nada tem lógica etc. 
Perto de Natal (RN), no caminho e nas adjacências de uma bela praia, muitas placas apresentam a grafia Genipabu, e várias outras, Jenipabu. Nem as autoridades sabem, portanto, usar G ou J, porque antes de E ou I as duas letras representam o mesmo som. Há uma regra dizendo que palavras de origem indígena, árabe ou africana se escrevem com J, mas ninguém está preparado para usá-la, porque já não se ensinam mais origens e radicais. Seja sincero. Você é capaz de saber todas as palavras de origem africana, indígena e árabe? Então essa regra não serve. O iniciante mais uma vez se frustra e acaba deixando de lado o estudo da grafia, ampliando sua dificuldade de escrever e ler. O mesmo acontece com o uso de outras letras e do hífen. 
Do Fundamental ao Médio gastam-se 400 horas-aula com ortografia, para decorar muito e aprender quase nada. É nesse interregno que nasce o desânimo e a crença de que português é muito difícil, criando o bloqueio gerador do analfabetismo funcional e causador do fato de que apenas 20% da população pode ser considerada plenamente alfabetizada. 
Quando algumas dessas regras forem simplificadas, haverá uma economia de tempo (250 horas-aula) e dinheiro (R$ 2 bilhões por ano) e um aprendizado mais eficaz e prazeroso. Pode-se prever uma forte redução nos índices de analfabetismo e na taxa de rejeição ao estudo da língua, simultaneamente fortalecendo a inclusão social. E mais: a quantidade de cidadãos plenamente alfabetizados (capazes de ler e produzir textos mais profundos) pode ser multiplicada por dois, três, quatro ou cinco. 
Isso significa dizer que na mesma proporção crescerá o número de leitores e autores, permitindo uma produção literária, intelectual e científica jamais vista, criando saber e riqueza suficientes para colocar estrategicamente nossos povos e países em estágio muito superior de respeito e influência internacionais. 
Ernani Pimentel é professor e presidente do Centro de Estudos Linguísticos da Língua Portuguesa
Clique no título acima para ver uma Infografia interactiva
O novo Acordo Ortográfico entrou em vigor em Janeiro de 2009. Mas, até 2015, decorre um período de transição, durante o qual ainda se pode utilizar a grafia actual.
Daniel Ricardo

sábado, 16 de agosto de 2014

Oje é aqela ora de os omens escreverem portugês com ezatidão

Não são apenas os portugueses que se queixam do novo acordo ortográfico: do outro lado do oceano, os brasileiros também estão insatisfeitos com as novas regras de português e preferem a versão pré-AO. Mas há um grupo curioso, que engloba aqueles que consideram que o acordo deveria ter sido mais radical, tornando a Língua Portuguesa ainda mais simples.
Imagine que se decidia, simplesmente, eliminar a letra “h” do início das palavras – “oje” ou “omem”, como já acontece em “úmido” na ortografia brasileira. Porque é difícil explicar porque é que às vezes o “s” soa a “zebra”, passamos também a palavras como “cazamento”, “ezato” e “tezoura”.
Já agora, podemos também retirar o “u” depois do “q”, que nos deixaria palavras como “qeijo” ou “aqele”. O “ch”, tão chato, deixaria de existir, surgindo vocábulos como xá, xuva e xato - que, convenhamos, já são familiares para muitos dos utilizadores de chats na Internet.
A ideia de simplificar a língua nasce da dificuldade em ensinar Português: desde a primária até ao fim do secundário, os alunos ocupam as aulas com uma média de 400 horas a estudar ortografia.
Pelo menos é o que afirmam os promotores do Simplificando a Ortografia, uma iniciativa para tornar a língua mais prática e reduzir o tempo “desperdiçado” a ensinar a ortografia para cerca de 150 horas ao longo do ensino obrigatório, ganhando mais tempo nas aulas de Português para incentivar a “leitura, análise, compreensão, interpretação e criação de textos”, promovendo competências comunicativas.
“Oficializando”
Parece loucura? O congresso brasileiro acha que não.
Uma comissão técnica do Senado está a estudar novas mudanças ortográficas na Língua Portuguesa, reunindo o Centro de Estudos Linguísticos da Língua Portuguesa (CELLP), a Academia de Letras de Brasília (ALB) e o site Simplificando a Ortografia, e conta com nomes importantes como Ernani Pimentel, Pasquale Cipro Neto, o conhecido “Professor Pasquale”, e Everardo Leitão, especialista em redação de textos.
É claro que a ideia não passa despercebida e já há quem se oponha veementemente – uma das vozes mais sonantes é a do “guru” Evanildo Bechara, autor da Moderna Gramática Portuguesa e membro da Academia Brasileira de Letras (e, já agora, da Academia das Ciências de Lisboa e Honoris Causa pela Universidade de Coimbra).
O irónico é que a ideia surgiu justamente por causa do polémico novo Acordo Ortográfico, cuja aplicação também está a causar confusão no Brasil. “Não há um só professor de Português, uma única autoridade, um único cidadão capaz de dizer: eu entendo e sei aplicar as novas regras ortográficas”, afirma Ernani Pimentel, presidente do Centro de Estudos Linguísticos, esclarecendo as razões da controvérsia. “Aluno nenhum consegue aprender o que professor nenhum sabe ensinar”.
Se ainda acha que isto não passa de uma grande piada, verifique o site: http://simplificandoaortografia.com.br ou Simplificando a Ortografia | Facebook.
De acordo com o Senado brasileiro, as melhores propostas serão escolhidas no Seminário Internacional Linguístico-Ortográfico da Língua Portuguesa, em setembro, e postas à consideração dos governos dos países de expressão portuguesa – que terão cerca de um ano para decidir o que deve ser simplificado.