(per)Seguidores

Mostrar mensagens com a etiqueta Pedagogia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Pedagogia. Mostrar todas as mensagens

sábado, 13 de setembro de 2014

Confundir a Inteligência Espacial com a Lógico-Matemática…

A quantidade de pormenores que uma criança de 4 anos é capaz de retratar quando desenha uma pessoa pode ser um indicativo da sua inteligência futura.
Da esquerda para a direita: Cima: 6, 10, 6; Baixo: 6, 10, 7
Um estudo de longo termo e de grande dimensão, levado a cabo no Reino Unido, e publicado esta semana na revista Psychological Science, mostra que a forma como uma criança de 4 anos desenha uma figura humana não revela apenas algo sobre a sua inteligência nessa idade como é indicativa da inteligência que terá dentro de 10 anos.
Para chegar a esta conclusão inédita, uma equipa de investigadores do King's College de Londes pediu a 7.752 pares de gémeos "verdadeiros" e "falsos" de 4 anos que desenhassem uma criança. Cada desenho foi avaliado de 0 a 12, com base no número de características presentes, como pernas, braços ou traços faciais. Na mesma altura, as crianças foram também submetidas a testes, verbais e não-verbais, de avaliação de inteligência.
10 anos depois, quando as crianças atingiram os 14 anos, os investigadores voltaram a testar a sua inteligência e descobriram que uma pontuação mais elevada nos seus desenhos correspondia agora, tal como na altura, a uma maior inteligência. E aí residiu a surpresa dos investigadores, que esperavam ver uma relação (entre a pontuação obtida nos desenhos e a inteligência) aos 4 anos, mas não verificar uma consistência dos resultados uma década mais tarde.
A correlação, no entanto, "é moderada", sublinha o líder do estudo, Rosalind Arden, em comunicado. "As nossas descobertas são interessantes mas não significam que os pais devam preocupar-se se o filho desenha mal", acrescenta. "A capacidade para desenhar não determina a inteligência, há inúmeros fatores, tanto genéticos como ambientais, que afetam a inteligência mais tarde na vida", conclui.
Não vou dissertar, mais uma vez, sobre as Inteligências Múltiplas porque pelo que se percebe os autores do “estudo”, nunca devem ter lido nada sobre a matéria…
Nem vou falar da “Educação pela Arte”, porque quem quiser que leia António Damásio, entre muitos…
Vou apenas referir-me a um dos primeiros estudos sobre o assunto, que li há muitos anos, de Georges-Henri Luquet, ‘O Desenho Infantil’, que me guiou para a psicologia do desenvolvimento, para entender e criar empatia com os meus alunos na procura da representação do “real”, virtualmente.
E agora já posso opinar sobre o “estudo”, que se baseia num conceito de “inteligência” já ultrapassado entre teóricos, mas que os Sistemas Educativos ainda privilegiam, a ponto de iniciar a Educação Visual (a Inteligência Espacial), como é o nosso caso, apenas no 7.º ano, exatamente aos 14 anos. Isto para dizer que, durante 10 anos, algumas das outras “inteligências”, no caso, a Espacial, ficaram congeladas, sem qualquer possibilidade de progressão. Se assim não fosse e houvesse formação “artística” desde o 1.º ano, aos 14 anos os desenhos seriam muito mais “realistas”, apenas pela acumulação dos novos conceitos das coisas e do mundo, como acontece com qualquer das outras “inteligências”…
E se assim fosse, em vez de o título ser: “Diz-me como desenhas aos 4 anos, dir-te-ei que inteligência terás aos 14”, poderíamos titular, por exemplo: “Diz-me como escreves aos 4 anos, dir-te-ei que inteligência terás aos 14”…
Ou seja, até na ciência e na pedagogia andam a informar-nos, com base em erros, que podem abalar a formação que fomos acumulando…
Eu sei que “isto” não tem interesse, mas devia interessar muita (toda a) gente, que vive da “Educação” para EDUCAR…
Georges-Henri Luquet consagrou a sua vida ao estudo do desenvolvimento da comunicação humana pela imagem. É um dos pioneiros do estudo do desenho infantil e as suas teses foram integralmente retomadas por Jean Piaget. Marcaram profundamente a psicologia do desenvolvimento e forneceram numerosas conceções, tanto aos psicólogos como aos pedagogos. As suas pesquisas sobre o desenvolvimento gráfico das crianças foram influenciadas pelos seus trabalhos em antropologia e, reciprocamente, também os influenciaram. 
Vários estudiosos observaram e procuraram identificar e descrever as etapas gráficas do desenvolvimento do desenho, entre os mais conhecidos estão Luquet, Piaget e Lowenfeld.
Luquet, por exemplo, dividiu as etapas gráficas em Realismo Fortuito, Realismo Falhado e Realismo intelectual e realismo visual.
No Realismo Fortuito, a criança começa a fazer traços sem qualquer objetivo (não há intenção para uma representação gráfica), mesmo sabendo que os traços realizados por outrem podem querer determinar um objeto determinado e representá-lo efetivamente, a criança não considera a ideia de também possuir a mesma habilidade. É nesta fase também que podemos identificar os famosos "garatujos", e de acordo com as definições de Piaget, este é o período sensório-motor.
“A princípio, para a criança, o desenho não é um traçado executado para fazer uma imagem mas um traçado executado simplesmente para fazer linhas. (Luquet, 1969 pg.145)
Até certo ponto, a criança produzirá mesmo acidentalmente uma parecença não procurada. A partir daí ela passará por uma série de transições até adquirir a totalidade das faculdades gráficas (intenção, execução e a interpretação correspondente à intenção) chegando consequentemente ao realismo intencional.
A Segunda Fase descrita por Luquet é o Realismo Falhado; quando a criança chega ao desenho propriamente dito, quer ser realista, mas a sua intenção choca com obstáculos gráficos e psíquicos, que dificultam a sua manifestação. São exemplos de obstáculos a incapacidade para dirigir os seus movimentos gráficos, o caráter limitado e descontínuo da atenção infantil e principalmente a incapacidade sintética – quando a criança não chega a sintetizar num conjunto coerente os diferentes pormenores que desenha com a preocupação exclusiva de os representar cada um por si. 
A terceira fase, é a do Realismo intelectual, onde a criança pretende deliberadamente reproduzir do objeto representado, não só o que se pode ver, mas tudo o que ali existe e dar a cada um dos elementos a sua forma exemplar.
“Enfim, aos 4 anos, a criança chega ao Realismo visual cuja principal manifestação é a submissão mais ou menos infeliz na execução da perspetiva. (Luquet, Pg.212)
De acordo com Piaget, é neste ponto que a criança se encontra no estágio pré-esquemático, que se inicia por volta dos 4 anos e se estende até os 7 anos mais ou menos. Após esta fase a criança com idade entre 7 e 9 anos entra no estágio esquemático, e após os 9 anos passa para o estágio do realismo nascente, vale ressaltar que estes estágios compreendidos entre os 7 e 11 anos estão dentro do período das operações concretas.
É claro que estes estágios não são estáticos, imutáveis, existem crianças que saltam alguns estágios de desenvolvimento, e existem crianças que param de se desenvolver devido a vários fatores que influenciam a sua vida, como a família, a situação social e económica, distúrbios psicológicos e gosto particular.
Por que paramos de desenhar?
À medida que a criança cresce, desenvolve o seu espírito crítico em relação aos seus trabalhos. Muitas vezes essa consciência crítica supera o seu desejo de se expressar criativamente; principalmente nos casos em que a criança passa com rapidez da infância para a adolescência num prazo demasiado curto, não podendo ajustar-se com suficiente brevidade à sua nova consciência crítica e fica assim, insatisfeita com as suas realizações. Acha tudo “infantil e mal feito”.
Quando isto sucede com muita frequência e nada se faz para remediar, a criança perde interesse pela arte e suspende completamente, as suas atividades artísticas. Já não pode desenhar coisa alguma, porque devido à sua repentina “tomada de consciência” crítica passa a perceber a pobreza dos seus meios infantis de expressão. Os seus desenhos parecem-lhe até ridículos, da mesma maneira como certos folguedos infantis, por exemplo, o “esconde-esconde”, lhe parecem indignos da sua atual “maturidade”. (Lowenfeld, 203).
Também Luquet exemplifica como se dá o abandono da criança pela atividade do desenho. Conforme a sua teoria, esse desinteresse é produzido na idade em que a criança chega à conceção do realismo visual – com a sua consequência fundamental: a perspetive; os desenhos que executava anteriormente de acordo com o realismo intelectual já não satisfazem o seu espírito crítico desenvolvido, e sente-se incapaz de fazer desenhos como quereria fazer.
Porém Luquet na sua obra “O Desenho Infantil”, além de exemplificar como se dá o abandono do interesse do ato de desenhar pela criança, também propõe sugestões de como evitar esse abandono. Conforme Luquet, o ensino do desenho deve visar não a acelerar artificialmente a evolução espontânea do desenho, a fazer desenhar em realismo visual quando a criança ainda quer desenhar em realismo intelectual, mas por a criança em estado de desenhar convenientemente em realismo visual quando tenha esta intenção.
Isso deve ser feito preferencialmente ensinando os principais efeitos da perspetiva, mostrando-lhes factos em objetos do seu quotidiano e exercitando o desenho tanto quanto possível ao natural.
Mas para Luquet, a principal atitude do educador deve ser a de “apagar-se”, deixar a criança desenhar o que quer, propondo-lhe temas sempre que ela necessite e sobretudo quando lhe pede, fazendo sempre com que estas sugestões não soem como imposições e sobretudo deixá-la desenhar como quer, a seu modo.

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Educar: Ensinar e aprender, com os pais e com a escola…

O pediatra discute como educar uma criança: a importância do amor, dos castigos e do tempo que tanto pais como filhos devem reclamar para si. Mas há também dicas para a rentrée escolar.
(…)
- O que define uma boa educação?
Gosto mais de falar em ensino e em aprendizagem. Há o ensinar, que implica informação, sabedoria e modelo. O aprender é desenvolver talentos e conhecimentos, ouvir experiências e, através delas, desenvolver sabedoria. Um bom educador é a pessoa que, na medida do possível, tenta ser coerente, consistente e justo. Mas também saber que podem haver reações àquilo que ensina, tal como a rejeição.
- Que valores devem ser transmitidos às crianças?
Respeito, amor, responsabilidade, empatia, partilha e solidariedade. Mas os valores são coisas abstratas para uma criança, pelo que é preciso dar exemplos práticos. Até aos 5, 6, anos a criança está numa fase em que predomina o concreto.
- Quais os conselhos que dá aos pais no regresso às aulas?
Depende das idades, se é a primeira vez que a criança vai para a escola ou se há mudanças de ciclo. É bom conversar sobre o que vai acontecer, sobretudo quando no primeiro ano, e explicar alguns medos: “É natural que não conheças ninguém; que penses que a professora esteja a olhar só para ti; que dos 26 não és obrigado a gostar de todos e que, a pouco e pouco, vais vendo quem tem mais que ver contigo…”. Explicar também que é preciso ser-se organizado e metódico, saber enquadrar todas as tarefas do dia-a-dia nos vários dias.

Outra coisa que é muito importante: a criança pensa que ao ir para a escola, no momento em que entra, já está a ler e a fazer contas, sente-se pressionada. Digo sempre no consultório “a última letra do abecedário geralmente é aprendida em maio, até lá tens muito tempo”. Dar uma semanada também é importante; sugiro 2 euros por semana. Implica ser-se responsável: “Trabalhaste uma semana, tens aqui uma semanada. O esforço foi recompensado e o teu poder aquisitivo está na razão direta do teu trabalho”.

- Das férias para as aulas há uma mudança de hábitos muito grande…
Advogo uma semana antes de começar as aulas para retomar os ritmos. Acho que é bom aproveitar esse período para ver os manuais, as mochilas, os horários, para comprar o material… E ir deitando o filho mais cedo. Trata-se de um reset tranquilo — não pode ser instantâneo.
- O que é que um pai pode exigir de uma criança: qual o equilíbrio entre o trabalho e o ócio?
Exigir que cumpra [as obrigações], mas dar alguma liberdade à criança de gerir a sua vida. Sobretudo que não exija ao filho que entre no quadro de honra, que acho que é uma coisa a abater — é muito injusta, como se a honra se medisse por notas! Cada um deve-se comparar consigo próprio, tentar a excelência de si mesmo. Nós não temos competência para tudo, ponto, e temos de meter isso na cabeça dos pais e dos filhos. Em vez de carrascos, os pais devem ser juízes/árbitros.
- Quais são os maiores desafios de uma criança quando a aprender?
É encarar, na maior parte das vezes, uma escola nova e habituar-se ao estar na sala de aula. O impulso de levantar e falar é tolerado no jardim-de-infância, mas não ali [aulas do primeiro ano]. Por outro lado, trabalhar em grupo, adaptar-se a outros meninos e ao relacionamento com as auxiliares, que é fundamental no meio disto tudo. O pai deve observar tudo e fazer-se sócio da associação de pais para poder intervir e tentar mudar o que se pode mudar, compreender e ajudar onde pode.
- O pai educa, a escola ensina?
Ensina-se e aprende-se em todo o lado, tanto com os pais como na escola. Sempre que há um momento relacional, há uma ocasião de ensino e de aprendizagem. A escola deve ensinar, não apenas a nível académico, mas também social e relacional. O mesmo com os pais. Um não substitui o outro.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Com um simples toque de dedo, podemos ter o mundo na mão

"A criação do mundo" de Miguel Ângelo no teto da Capela Sistina
A popularidade de smartphones com ecrãs de maior dimensão, conhecidos como “phablets”, mantém-se com a IDC a prever que a procura associada supere a dos PC portáteis. O fornecimento de “phablet” deverá atingir 175 milhões de unidades em 2014, 5 milhões acima do número referente aos PC portáteis, previu a consultora.
Os telemóveis inteligentes vieram para ficar. Já no ano passado as vendas tinham ultrapassado as dos aparelhos tradicionais, e os dados mais recentes da empresa de estudos de mercado revelam que em relação a maio de 2012 se registou um aumento de utilização na ordem dos 80%.
"Há muita gente que compra smartphones, mas que depois não lhes dá o uso que devia", lembrou Pedro Tróia, diretor da revista PC Guia.
Há aqui 2 fenómenos interessantes. Um é que se está a substituir os mais simples por telefones com mais capacidades, apesar de a maioria das pessoas não passar das chamadas e dos SMS. Há muita gente que compra smartphones, mas que depois não lhes dá o uso que devia. O outro é que estão a aparecer muitas marcas que oferecem as mesmas funcionalidades que as grandes mas que são muito abaixo do preço. As marcas grandes tentam contra-atacar com versões simplificadas. É por aí que está a crescer. Não tanto pelos telefones das grandes marcas. Depois há também as ofertas dos operadores.
1. Quem de facto tira partido dos equipamentos, usa-os para quê?
Para aceder às redes sociais, mais ao Facebook, e para jogos. São os grandes motores. E há um fenómeno, que eu vejo, é empírico, mas o mercado do fitness também está a pegar muito nos smartphones. Agora na IFA (exposição de tecnologia mais importante da Europa), a decorrer em Berlim, toda a gente está a apresentar dispositivos que trabalham em conjunto com o smartphone para ajudarem programas de fitness.
2. Qual vai ser o futuro destes telefones?
Têm muito pouco por onde crescer. O conceito está lá, a tecnologia, podemos fazer mais rápido, com ecrã maior ou menor. Daí a mudança para os aparelhos complementares como os relógios inteligentes. Agora a tendência é a dos ecrãs serem progressivamente maiores. Os phablets, telefones com ecrãs grandes. Eu diria que daqui a 3, 4 anos, o mercado dos tablets vai reajustar-se a uma realidade diferente.
Os donos de ‘smart-phones' parecem ter cada vez menos interesse em novas aplicações. Este comportamento levanta dúvidas sobre o futuro daquele que tem sido o nicho mais dinâmico do mercado tecnológico e leva os programadores de aplicações móveis a pensar que os dias de crescimento frenético podem estar a chegar ao fim. Segundo dados da Deloitte, num mês típico, cerca de 1/3 dos utilizadores de ‘smartphones' não descarrega qualquer aplicação (ou ‘app') para o seu equipamento. A mesma empresa estima que o volume de vendas de ‘apps' pode estar prestes a atingir o máximo histórico.
Por me ter convertido num racional e racionado utilizador do smartphone que as circunstâncias me “obrigaram”, depressa cheguei à conclusão de que não bastava ter, mas era preciso saber utilizá-lo para tirar todo o partido, comodidade e eficácia do mesmo, constatando de imediato que o mesmo se passava com a maioria dos proprietários dessa ferramenta.
Por razões circunstanciais, que se prendem com a Coordenação de uma Universidade Sénior (USRCPV) onde a informática é uma das disciplinas mais procuradas, intuitivamente, mas não só, cheguei à conclusão de 2 coisas: é mais fácil aprender e utilizar tablets e smartphones, do que aprender e utilizar os PC e, por isso, na idade dos nossos utentes a aprendizagem da utilização desta “nova” ferramenta” é muito mais fácil, razão por que os nossos netos nos levam a perna…
Ao mesmo tempo constatei que, praticamente, não existe no mercado oferta de formação para tablets e smartphones (nem das empresas fabricantes nem nas distribuidoras nem de empresas de formação), o que me levou a propor e a realizar um workshop, que teve sucesso e confirmou a necessidade de abrir a oferta de uma disciplina sobre a matéria, vai daí substituímos algumas turmas de formação em PC e estou convencido de que vai ter grande sucesso e mais proveito a quem se inscrever na nova disciplina.
Fico satisfeito por constatar nestas notícias: 1) que tinha razão na crescente desvalorização dos PCs; 2) na valorização dos tablets e smartphones, agora chamados de “phablets” e 3) na introdução inovadora de formação nestes aparelhos na oferta curricular.
A grande vantagem da utilização dos “phablets”, ou seja, da utilização de tablets ou de smartphones, advém da personalização de cada aparelho, que passa pelo mundo das aplicações (app) e permite, com um toque de dedo, ter o mundo à mão…
E por isso, estamos a pensar abrir cursos pós-laborais, para pessoas não inscritas na USRCPV, para sermos um polo de serviços à comunidade, que ultrapasse a missão específica da “instituição” e a estenda a quem não tenha outra alternativa.
Desculpem a publicidade, mas a oportunidade está no servir…

domingo, 7 de setembro de 2014

O (des)Acordo Ortográfico não estará à beira da patologia?

Embora a presidente Dilma Rousseff tenha adiado por 3 anos (de 2013 para 1 de janeiro de 2016) o início da obrigatoriedade da nova ortografia, fruto do acordo entre os países de língua portuguesa e vigorando em caráter facultativo desde 2009, o Brasil já fez uma parte importante do seu trabalho de casa neste processo. As escolas, a imprensa, toda a comunicação e o setor de livros adotaram as mudanças com agilidade e eficácia.
Karine Pansa
A sociedade, as instituições e o mercado editorial entenderam e assimilaram muito bem as transformações, ao contrário de outras nações lusófonas, nas quais houve mais resistências. Em Portugal, por exemplo, questionou-se muito a extinção do “C” e do “P” mudos em numerosas palavras, como “tacto”, “exacto”, “óptimo” e “excepção”. Os portugueses têm certa razão em reclamar, pois as letras extirpadas eram utilizadas no seu país para marcar as sílabas tónicas de numerosos vocábulos. Embora constassem dos dicionários e do vocabulário oficial brasileiros, as formas escritas das palavras nas quais essas letras não eram pronunciadas oralmente já estavam há muito tempo em desuso no Brasil.
Com rigor, o “C” e o “P” extintos foram os de Portugal e não os nossos. Amigos do mercado editorial e da imprensa de Lisboa, externando de modo bem-humorado a sua indignação, argumentavam: “Queremos igualdade de condições e direitos. Se não podemos ser exactos no nosso idioma, então vocês não podem ter um pacto, mas sim um pato social”. Avicultura sociopolítica à parte, os lusos, a despeito dos seus questionamentos, e todos os demais governos da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, com exceção de Angola, já ratificaram o acordo ortográfico.
O mais importante de tudo isso é entender que as mudanças que unificaram a ortografia não alteraram a gramática e a riqueza do Português, com a sua incrível multiplicidade de expressões homónimas e parónimas e infinitas possibilidades sintáticas para a composição das frases e sentenças. Isso reflete-se numa estrutura formal grandiosa, que faz da literatura de língua portuguesa uma das mais belas, emocionantes e atrativas. Ademais, o alto grau de redundância linguística de nosso idioma permite que os textos sejam lidos rapidamente e na diagonal, sem prejuízo de se assimilar a informação mínima, e também facilita o mecanismo da previsibilidade (ou seja, mesmo quando, se faltam letras numa palavra, a pessoa consegue ler de maneira correta). Tudo isso vai a favor do consenso nacional quanto à necessidade de estimular a leitura.
Considerando a adequada e rápida adaptação do Brasil e levando-se em conta que até os portugueses, com razoáveis razões para questionar, já ratificaram o acordo ortográfico, são incompreensíveis as propostas que às vezes surgem no nosso Legislativo ou na retórica de pretensos estudiosos do tema, de se produzirem novas mudanças. O mais grave é que essas sugestões são radicais quanto à simplificação da língua. A sua adoção seria um ato insensato, que produziria ao longo de poucas gerações um estrago que nem mesmo as transformações naturais que o tempo impõe aos idiomas foram capazes de provocar no Português. A nossa língua traduz a alma da lusofonia, tão identificada e enfática no meio da pluralidade do povo brasileiro, hoje seu principal guardião, com 200 milhões de vozes!
É injustificável a proposta de simplificação do Português ante a dificuldade da sua aprendizagem. Não podemos resignar-nos à derrota que isso significaria na educação e na cultura nacionais. Devemos, sim, melhorar a qualidade do ensino, para que as nossas crianças, jovens, académicos e profissionais possam utilizar na plenitude todo o potencial que o idioma oferece. Precisamos fechar a questão, num verdadeiro pacto em defesa da nossa língua e em favor da escola de excelência. Se abrirmos mão dessa responsabilidade, pagaremos o pato social, sem “C mudo” e sem direito ao bom humor. 
Karine Pansa, empresária do setor editorial, presidente da Câmara Brasileira do Livro (CBL)

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Vamos agora extrapolar o “Amigo dos Amigos” para os “DDT”?

Todos os 36 arguidos, 34 pessoas e 2 empresas, do processo Face Oculta foram, esta sexta-feira, condenados pelo Tribunal de Aveiro. Os principais arguidos de um dos processos mais mediáticos dos últimos anos foram também todos condenados a penas de prisão efetiva, numa sentença “pouco habitual” em Portugal. 
A leitura do acórdão ocorreu três anos depois da primeira sessão de julgamento e determinou que a pena mais pesada estava destinada para o principal arguido: Manuel Godinho, líder da rede de associação criminosa, foi condenado a 17 anos e 6 meses de prisão efetiva. Mas a sentença à prisão de facto foi também decretada a Armando Vara e José Penedos, com uma pena de 5 anos para cada um. Paulo Penedos viu o juiz decretar-lhe 4 anos de clausura.
Namércio Cunha, um dos principais arguidos a colaborar com a justiça, foi condenado a 1 ano de prisão com pena suspensa.
João Godinho, filho do sucateiro, foi condenado a 2 anos e 3 meses de prisão com pena suspensa. Por fim, Hugo Godinho, sobrinho do principal arguido, foi condenado a 5 anos e 6 meses de prisão.
Leia aqui as restantes condenações.
Para preservar o segredo, os investigadores marcaram mandados de busca com códigos para apanhar os delatores. O que mudou o Face Oculta?
Sílvia Caneco
Numa fase em que os inspectores da Polícia Judiciária e os procuradores do Ministério Público já passavam entre 16 a 20 horas diárias a investigar a rede de influências do empresário das sucatas Manuel Godinho, o processo "três seis dois" (362) era conhecido entre eles, não como Face Oculta, mas como "Amigos dos Amigos". É esse código que ainda consta dos apontamentos de um dos investigadores. Só quando foi preciso nomear a mega-operação de buscas a quadros da Refer, Ren, Galp, BCP ou EDP, nas vésperas do dia 28 de Outubro de 2009, o nome mudou: a equipa teve receio de que "Amigos dos Amigos" fosse associado a um grupo criminoso do Rio de Janeiro e baptizou a operação de Face Oculta também como manifestação de revolta.
O nome, que é também o de um bar de alterne na Barra, simbolizava as faces ocultas no processo e a que nunca conseguiram chegar e também a que estava escondida nas suspeitas de crime de atentado contra o Estado de Direito, alicerçado num plano do executivo de Sócrates para controlar a comunicação social. Nesta data, a esperança dos investigadores era nula: Noronha Nascimento, então presidente do Supremo Tribunal de Justiça (STJ), já ordenara a destruição das conversas telefónicas a envolver o primeiro-ministro.

sábado, 30 de agosto de 2014

Se o fisco castiga o contribuinte, o contribuinte que se defenda!

Depois de lançar a Modelo3 em Portugal e chegar a mais de 40.000 pessoas, Celso Pinto e a sua equipa rumaram a Londres, onde se propõem fazer exatamente a mesma coisa: desenvolver uma plataforma que permite aos contribuintes aproveitar ao máximo os benefícios fiscais.
Maria João Espadinha
Vencedor do Seedcamp Londres - competição do acelerador de startups tecnológicas na Europa -, em setembro de 2012, Celso Pinto lançou a SimpleTax, no Reino Unido, 3 meses depois. E já atingiu 20.000 utilizadores e um marco de poupança de 2,5 milhões de libras.
"Desenvolvemos a Modelo3 porque reparámos que não havia uma forma fácil de os contribuintes pouparem nos impostos. Através da nossa plataforma, os utilizadores indicam os seus rendimentos e deduções e o software mostra o que poderá estar em falta para atingir outro nível de poupança", explica Celso Pinto.
Apesar de terem chegado a uma poupança de quase "2.000.000 de euros" para os utilizadores em Portugal, o mercado nacional é pequeno, com apenas 130.000 a 150.000 contribuintes independentes. Assim, a escolha óbvia era a internacionalização: "No Reino Unido, só os freelancers é que têm de entregar a declaração de impostos, mas é algo muito complicado, é como se se tratasse de uma pequena empresa", diz o empreendedor. Depois de alguns contactos com trabalhadores independentes no país - que no total rondam os 5.400.000 -, Celso Pinto percebeu que havia "uma oportunidade de mercado" e decidiu falar com o Seedcamp. Foi então convidado para participar numa competição - e acabou por ganhar.
"A aceitação tem sido fantástica", conta o empreendedor, que tem agora um novo objetivo. "O mercado britânico tem uma particularidade, pois tem um sistema como o Portal das Finanças, o HM Revenues & Customs (HMRC), utilizado por 49,5% dos contribuintes; percentagem igual recorre a contabilistas e existe ainda software comercial para entregar as declarações, utilizado por cerca de 90.000 contribuintes, dos quais 20.000 já estão no SimpleTax. Agora queremos chegar aos utilizadores do HMRC", diz.
Em Portugal, o objetivo é também continuar a desenvolver a plataforma, depois de o serviço ter sido suspenso este ano. "Não estávamos a conseguir colocar a Modelo3 no patamar que pretendíamos, por isso tomámos essa decisão conscientemente e comunicámo-la a todos os utilizadores", lamenta o empreendedor, que garante, no entanto, que em 2015 a plataforma já estará novamente ativa. O modelo de negócio também sofreu alterações, já que, no início, a Modelo3 cobrava um valor fixo pela submissão da declaração. "Reparámos que existe uma forma ideal de ter um serviço gratuito e ao mesmo tempo sustentar a empresa", explica Celso Pinto. A solução está nas recomendações feitas ao utilizador. "Se encontrarmos, por exemplo, um seguro profissional mais barato do que aquele que o contribuinte tem, sugerimos uma troca, e se for aceite nós recebemos uma pequena comissão", explica o empreendedor, que tem parcerias no Reino Unido com empresas de seguros, bancos, cartões de crédito, fornecedores de eletricidade, telefone, internet e agências de gestão imobiliária.
Com um financiamento total de 440.000 euros de vários investidores (20.000 euros em Portugal e o restante no Reino Unido), a SimpleTax ainda não atingiu o breakeven. "O importante agora é comprovar que é um modelo de negócio que funciona", defende Celso Pinto. A internacionalização continua a ser um objetivo, mas só em 2017 ou 2018. "Agora temos de consolidar a posição nos países onde estamos", conclui.
O projeto é notícia, não é só o caso de ser mais um dos muitos sucessos de portugueses lá fora, mas por ser uma ferramenta que pode ajudar os contribuintes a “fugirem” aos colossais impostos com que os governos, em nome dos “poderes” do Estado nos penitenciam, mesmo que tenhamos pecado…
Só é pena que a plataforma já não esteja a funcionar para Portugal e que só volte em 2015, ano de eleições e (quem sabe?) de novo governo, mas esperando que venha a tempo de minorar o esbulho de que vamos sendo vítimas, e que proporciona ao executivo uma almofada fofa para adormecermos à espera de D. Sebastião, que nos querem fazer crer que já chegou…
Já que não podemos exercer o “direito” à fuga aos imposto, colocando as poupanças num offshore, ao menos que possamos fugir à demasia, por não sabermos fazer contas e previsões do que podemos receber mais, mesmo ganhando menos…
O azar é que em Portugal nunca sabemos os nossos rendimentos para os introduzir na plataforma e qualquer dia as deduções, de tanto reduzirem e serem excluídas, não permitirão ao software mostrar os caminhos para a poupança nos impostos…
Mas como dizem que a “coisa” está a melhorar “a olhos que só alguns veem”, vamos esperar sentados pela redução dos impostos e o automático aumento de receitas (?) que façam regressar as deduções, para termos um “melhor Estado e mais privados”…
Nem a tecnologia nos vale, até porque foi um Excel que nos lixou!

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Lá se faz, lá se paga! “…e nós aqui temos tudo!”

O Bank of America (BofA) aceitou pagar um valor recorde de 17.000 milhões de dólares (12.800 milhões de euros), 9.650 milhões dólares às autoridades e os restantes 7.000 milhões aos clientes afectados, para encerrar um litígio proveniente da crise dos empréstimos imobiliários de má qualidade, designados ‘subprime’.
Ficam ainda por resolver possíveis eventos criminais, especialmente relacionados com a Countrywide. O Departamento de Justiça acusou o BofA de ter vendido produtos financeiros, suportados por aqueles créditos imobiliários sem qualidade, que estiveram na origem da crise financeira de 2007-2008 e causaram prejuízos de milhares de milhões de dólares para os seus compradores.
Esta penalidade é um valor recorde, depois de o JPMorgan Chase ter pago 13.000 milhões de dólares em 2013.
O Lombard Odier e o Pictet Group, 2 dos maiores bancos da Suíça, vão tornar públicos os seus resultados financeiros, depois de 2 séculos - desde a respetiva fundação - de segredo. Os 2 bancos passam agora a publicar relatórios semestrais, que terão de ser divulgados até 2 meses depois do final de cada semestre.
Depois de um escrutínio sem precedentes por parte das autoridades europeias e norte-americanas ao sector da banca privada na Suíça, as 2 instituições prescindiram das estruturas de parcerias que implicavam que os seus parceiros assumissem a responsabilidade das perdas em janeiro deste ano. As contas do Pictet Group serão tornadas públicas ainda este mês e, no caso do Lombard Odier, será no dia 28. Não se conhecem ainda os números que serão divulgados, o que se sabe é que os 2 bancos supervisionam cerca de 630.000 milhões de dólares (474.900 milhões de euros) de clientes privados e institucionais, incluindo algumas das famílias mais ricas do mundo.
Começa assim uma nova era de regulação para a banca suíça, que terá de adaptar os seus modelos de negócio e passar a partilhar informação dos seus clientes com autoridades fiscais de outros países.
Neste momento, o Pictet está entre um grupo de bancos suíços sob investigação do Departamento de Justiça norte-americano, por, alegadamente, ajudar cidadãos norte-americanos a fugir ao fisco. O Lombard Odier, por seu lado, entrou voluntariamente para um programa de divulgação de dados, juntamente com mais de uma centena de bancos suíços.
O Wall Street Journal voltou a escrever mais um artigo sobre o colapso do BES. Desta vez, o jornal revela o papel que o banco suíço Crédit Suisse terá tido na derrocada do BES ao juntar milhões de dólares em títulos de dívida do Grupo Espírito Santo (GES) que foram vendidos, em veículos financeiros, a clientes do BES. 3 dos veículos estão sedeados numa offshore francesa e chamam-se Top Renda, Euroaforro Investments e Poupança Plus Investments. O Crédit Suisse foi o "arranger e dealer" destes produtos e o 4.º, chamado EG Premium, está sedeado nas Ilhas Virgens, um offshore britânico.
Nos EUA, devagar e bem, lá vão obrigando os bancos a pagar as vacas aos donos, ao Estado e aos clientes…
“…e nós aqui temos tudo!”
Na Suíça, ao fim de 200 anos, começa uma nova era de regulação para mais de uma centena de bancos, que vão tornar públicos os seus resultados financeiros e passam a partilhar informação dos seus clientes com autoridades fiscais de outros países, para evitar que ajudem cidadãos desses países fujam ao fisco…
“…e nós aqui temos tudo!”
Em Portugal, presume-se que um banco suíço ajudou um outro banco português, que foi à falência, conhecem-se os offshores que “ajudaram” à fuga de impostos e os responsáveis de um banco nem do outro sentam o rabinho no banco dos réus, nem se conhecem os nomes dos fugitivos ao fisco, obrigando-os a repor o que os contribuintes adiantaram por eles…
Lá se faz, lá se paga.
“…e nós aqui temos de tudo!”
Nota – São mais alguns exemplos da inocência dos bancos na crise, da honorabilidade sob suspeita dos banqueiros, do que são os serviços privados e de que não fomos nós que “vivemos todos acima das nossas possibilidades”.

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Voltaram os aliciadores do crédito, com a ajuda do anonimato…

"O Banco de Portugal adverte que a entidade que se apresenta com as designações 'Scandi Finance' e 'Scandi Credit' não se encontra habilitada a exercer, em Portugal, a atividade de concessão de crédito ou qualquer outra atividade financeira reservada às instituições sujeitas à supervisão do Banco de Portugal", informa o supervisor em comunicado.
Ainda quanto a eventuais propostas de emprego divulgadas por esta entidade, o banco central adverte que essas propostas podem configurar um "esquema fraudulento", ao solicitar dados de contas bancárias para "a movimentação de fundos de proveniência ilícita".
Desde novembro de 2007 que o Banco de Portugal alerta para estas falsas ofertas de trabalho, que usam contas bancárias para transferências de fundos de proveniência eventualmente ilícita.
O Banco de Portugal instaurou, nos primeiros 6 meses do ano, 25 processos de contraordenação contra 14 instituições.
"Dos processos instaurados, 18 tiveram por objeto o incumprimento de preceitos imperativos que regem a atividade das instituições de crédito, 2 processos incidiram sobre a observância das regras de conduta previstas no Regime Geral das Instituições de Crédito e Sociedades Financeiras (RGICSF) e 5 processos respeitaram ao incumprimento de preceitos imperativos relativos à prestação de serviços de pagamento", salienta o documento.
Recomendações
O Banco de Portugal adianta ainda que emitiu 357 recomendações e determinações específicas, as quais foram dirigidas a bancos, caixas económicas, caixas de crédito agrícola mútuo e instituições financeiras de crédito. Estas recomendações e determinações específicas incidiram sobre crédito aos consumidores (36,4%), crédito hipotecário (26,9%), regras de transparência dos preçários (18,8%), publicidade (7,8%), depósitos (5,3%) e serviços e meios de pagamento (4,8%).
Publicidade
Na publicidade, as 28 recomendações e determinações específicas emitidas no primeiro semestre de 2014 visaram a correção de um total de 48 suportes publicitários, 4ro dos quais de carácter institucional.
Preçários
Na sequência das ações de fiscalização ao preçário das instituições, foram emitidas 67 determinações específicas dirigidas a 19 instituições.
E pronto! Ficamos a saber, pelo BdP, que a Da. Branca, o BPP, o BPN e o BES transmitiram o vírus da fraude, concretamente a uma entidade de quem não vemos publicidade e disse os nomes e tudo…
Em contrapartida, o mesmo BdP vem revelar que instaurou 25 processos a 14 instituições que bancárias e financeiras, que andam a enganar quem anda “com a corda ao pescoço”, discriminando os “truques”, mas omitindo a “graça” das respetivas, o que até pode estar no relatório, mas devia constar da notícia, para sabermos com quem andamos a “negociar”, enterrando-nos.
Há pelo menos uma ou duas dessas (?) instituições, que antes de a crise rebentar aliciaram muita gente e no pós-crise levaram-nas à bancarrota, com publicidade enganosa ou ardilosa, e em horário nobre das TVs. Quando rebentou a bolha, as tais (in)cumpridoras de promessas calaram-se durante uns 2 anos, voltaram com um paleio mais do tipo “consciência social das empresas” e ei-las de novo nos media, a voltarem a prometer o céu na terra, com a ajuda de “para-quedas”…
E tudo isto tem a ver com o tão apregoado “vivemos acima das nossas possibilidades”, porque assediados por estas sanguessugas levou muita gente a dar uns passos maiores do que as pernas, e que se tivessem sido proibidas da tal publicidade ranhosa, não teria atirado para o inferno tanta gente incauta ou necessitada de “morfina”…
É que oferecer bolos (envenenados) a quem tem fome, se responsabiliza o pedinte, incrimina mais o “pasteleiro” que pôs o veneno!
Se é certo que a iliteracia financeira grassa pela maioria dos cidadãos, também é certo que as manhas dos financeiros conseguem enganar até o “lobo mau”, que de tão lobo ou tão mau, omite os nomes dos ressuscitados pregadores do Éden prometido.
Digam-nos “todos os nomes”! 

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Porque cada aniversário é um ano mais, mas é um ano a menos

A vida que conhecemos começa a desaparecer lentamente, num movimento silencioso que se infiltra nos dias, junto com aqueles que fizeram da nossa época o que ela é.
A expressão mais perfeita que conheço para explicar a brutalidade do acaso nas nossas vidas é ainda a de Joan Didion. Ela disse, em simplicidade exata: “A vida muda num instante. Você senta-se para jantar e a vida que conhecia acaba de repente”. Joan, jornalista e escritora americana, escreveu essa frase no seu livro O ano do pensamento mágico, no qual narra a morte repentina do marido e a sua busca para compreender o incompreensível. Nos últimos dias, Renata, a mulher de Eduardo Campos, repetiria aos amigos: “Não estava no script”.
Não poderia estar no script. Poucos homens planearam a sua carreira política de forma tão meticulosa como Eduardo Campos. E então, ele toma café com a família, embarca num avião para dar sequência à sua primeira campanha presidencial, aquela que poderia levá-lo à presidência do Brasil, não agora, mas em 2018, e morre. O gesto largo de uma vida interrompido num instante. Antes do fim da manhã ele já não está. E os brasileiros de qualquer ideologia, ou sem nenhuma, são atravessados pela tragédia. A do homem perdido, no seu momento de máxima potência, mas também a de ser atingido pela força do incontrolável. Penso que cada um de nós, ou pelo menos a maioria, sentiu a lufada de vento entre as costelas, aquela que está sempre ali, mas fingimos que não existe.
De facto, a morte – repentina ou penosa, como nas doenças prolongadas, precoce ou tardia – é, como sabemos, a única certeza do nosso script. Um dia, simplesmente, já não se está. Como na cena do documentário de João Moreira Salles em que Santiago, o mordomo que dá título ao filme, cita o cineasta Ingmar Bergman: “Somos mortos insepultos, apodrecendo debaixo de um céu cruento e vazio”.
Se fizéssemos um retrato agora, de todos os vivos, teríamos também um obituário: daqui a 100 anos estaremos todos mortos. Olhamos pela janela e todos os que vimos no seu esforço quotidiano, carregando-se para a paragem do autocarro, sintonizando a rádio preferida ao sentar-se no carro, puxando assunto na padaria ou desferindo o seu ódio e o seu medo em pequenas brutalidades serão finados (palavra de tanto simbolismo), em menor ou maior prazo. Assim como finado será aquele que espia a única paisagem que não muda numa vida humana, a de que, para o indivíduo, o futuro está morto.
A verdade, que talvez nem todos percebam, é que se morre aos poucos. Não apenas pela frase clássica de que começamos a morrer ao nascer. De que cada dia seguinte arrasta o cadáver do dia anterior. De que cada amanhã é um dia a mais – mas porque é um dia a menos. Ao entrevistar os que envelheceram, descubro-os surpreendidos pelo drama menos nítido, aquele se infiltra lentamente nos interstícios dos dias: o de que o mundo da gente morre antes da gente.
Esse é o susto de quem alcançou a promessa da nossa época, a de uma vida longa. A de morrer só, mesmo quando cercado por filhos e netos. Só, porque aqueles que sabiam dele, aqueles que compartilharam o mesmo tempo, morreram antes. Aqueles que conheceram o menino, o levaram embora ao partir. Os que o viram jovem carregaram a sua juventude em lembranças que desapareceram porque já não há quem delas possa lembrar. Só, porque um certo modo de estar no mundo acabou antes. A solidão de estar vivo numa vida que já morreu.
Pouco antes de lançar O ano do pensamento mágico, Joan Didion perdeu a única filha. Depois do marido, a filha. Era a dor não nomeável da inversão da lógica, a de sepultar aquela que deveria sepultá-la. Mas era algo ainda além, o de se tornar a mulher que restou. O seu livro seguinte, Noites Azuis, fala dessa condição, a de ter sobrado viva ao envelhecer. A de se descobrir só e frágil, atenta aos degraus para não cair. Para mim, é um livro melhor do que o primeiro, mas diz algo ainda mais duro do que a perda do companheiro de uma vida. Talvez tenha feito menos sucesso por falar dessa dor insuportável, em que viver mais do que os seus afetos é ter de viver a morte que ultrapassa a morte.
Pensava que essa era uma condição restrita à velhice. A surpresa final de que o melhor cenário, o de viver mais, era também o de perder mais. Mas descobri que esse morrer começa muito antes. E de forma ainda mais insidiosa. Estes meses de 2014 têm-nos mostrado isso com uma força talvez maior. É uma coincidência, claro, não uma confluência escrita nas estrelas ou em qualquer profecia. O mundo da gente, em especial das gentes com mais de 40 anos, porque é nessa altura que sentimos que já temos um passado e o futuro é uma segunda metade incerta, tem morrido muito. E rápido, às vezes um sobressalto por dia, às vezes dois.
Cada um tem o seu susto. Acho que o meu foi com Nico Nicolaiewsky, que levava junto com ele momentos em que fui completamente feliz – e são tão raras as vezes em que somos completamente felizes – assistindo a Tangos &Tragédias no Theatro São Pedro, em Porto Alegre. Morreu 5 dias depois de Eduardo Coutinho e Philip Seymour Hoffman, 2 gigantes. Cada um com a sua tragédia, abriram um buraco na paisagem do mundo. Depois, José Wilker um dia não acordou. E não haveria Vadinho para me assombrar.
Não parou mais. De repente o mundo já não tinha mais Gabriel García Márquez, Jair Rodrigues, Alan Resnais, Paco de Lucia, Shirley Temple, Luciano do Valle, Nadine Gordimer, Paulo Goulart, Bellini, James Garner, Rose Marie Muraro, Max Nunes, Plinio de Arruda Sampaio, Lauren Bacall. No espaço de 6 dias de julho, Rubem Alves, João Ubaldo Ribeiro e Ariano Suassuna desapareceram. Rubem Alves, que desfazia anos nos aniversários e dizia que “a hora para comer morangos é sempre agora”. De repente o mundo já não tinha Vange Leonel. Como é possível? Eu -tinha a lido no Twitter um instante atrás. E Nicolau Sevcenko se foi horas depois de Eduardo Campos.
Nenhuma dessas pessoas convivia comigo, eu não frequentava a casa de nenhuma. A maioria delas nunca sequer vi. De facto, o que delas vive em mim, independe da sua existência física. Algumas são apenas flashes de um quotidiano em que por décadas elas apareceram, seja em novelas, na narrativa de um jogo de futebol, num debate político. Outras constituem-me. Os seus livros e músicas não têm idade, nos filmes ainda são jovens e belas. Concretamente, deveria fazer tão pouca diferença estarem ou não aqui, na miudeza dos dias, numa rotina que de qualquer modo não faria parte da minha, quanto Sófocles, que morreu há mais de 2.400 anos, ou Shakespeare ou Beethoven ou Picasso. Ou Machado de Assis. Ou mesmo Garrincha. Estes, que conseguiram transcender a sua vida ao proporcionar transcendência pela grandeza da sua obra, para as sucessivas gerações, ao infinito, são imortais. É um facto, toda a gente sabe, mas descubro que não é bem assim.
Qual é a diferença de Gabriel García Márquez estar vivo ou morto, se a chance de eu tomar um café com ele era remota e sempre vou ter meu O amor nos tempos do cólera na estante, para que ele possa reviver em mim? O que percebo é que há uma diferença. Há algo de melancólico, desestabilizador, em testemunhar o momento exato em que um imortal morre.
Suspeito que, naquele momento-limite em que a vida se extingue, a permanência da obra faça pouca diferença. Talvez o imortal que morre trocasse toda a sua imortalidade por dividir uma última vez uma garrafa de vinho com o melhor amigo ou por mais uma noite de amor lambuzado com a mulher que ama ou apenas para ler o jornal na mesa da cozinha no pequeno-amoço. Talvez o imortal fique mortal demais nessa hora, fique parecido demais com todos os outros. Como disse Woody Allen: “Não quero atingir a imortalidade através de minha obra. Quero atingi-la não morrendo”. E desde então temo confrontar-me com o seu obituário numa manchete na internet.
De certo modo, é assim que o mundo da gente começa a morrer antes da gente. Não apenas pela perda dos nossos afetos de perto, mas também pelo filme que Philip Seymour Hoffman não fará ou pelo livro que Ariano Suassuna não escreverá enquanto dividimos com ele o mesmo tempo histórico. Ou simplesmente por nenhum deles poder dizer mais nada de comezinho ou mesmo fazer alguma besteira, qualquer coisa de humano. Deles ficaremos só com o que foi grande, mesmo a bobagem terá de ser relevante para merecer permanecer na biografia. Ao mesmo tempo em que a morte os devolve de imediato à condição humana, tira-os para sempre dela. E logo o boteco de João Ubaldo já não terá cheiro.
A primeira vez que senti a infiltração de algo irreversível no meu mundo foi a morte de Marlon Brando, 10 anos atrás. A morte ainda não me bafejava como hoje, mas passei alguns dias prostrada por alguém que para mim já tinha nascido imortal. Percebi então que fazia diferença lembrar dele berrando “Steeeeeeeela” em Um elétrico chamado desejo e, ao mesmo tempo, poder mencionar qualquer coisa boba como: “Nossa, como ele está gordo agora”. De repente, ele não podia mais engordar nem espantar-nos com a sua existência descuidada. Só restaria grandioso. E, portanto, fora da vida. (Da nossa vida.)
Marlon Brando, como García Márquez, como Ariano Suassuna, como tantos agora, não se sabiam -meus, mas eram. Ao deixarem me, morro um pouco. Uma versão de nós morre sempre que morre alguém que amamos e que nos ama, porque essa pessoa leva com ela o seu olhar sobre nós, que é único. Uma parte de nós também morre quando não podemos mais compartilhar a mesma época com quem fez do nosso mundo o que ele é. E agora, fico esperando a cada momento uma nova notícia, porque sei que elas não mais deixarão de chegar.
Tive uma reação estranha ao saber da morte de Robin Williams. Quantos anos tinha?, perguntei primeiro. 63. E senti-me apunhalada com a resposta. Muito cedo, muito cedo. De que morreu? Parece que foi suicídio. E senti-me de imediato aliviada. Pode parecer surpreendente, mas o meu alívio deu-se porque de alguma maneira era uma escolha. Não era coração, não era cancro, não era AVC, não era avião. Por mais terrível que seja o ato de interromper a vida, ele pressupõe, em alguma medida, uma potência e um controlo.
Pode-se argumentar que uma depressão ou um desespero impede a escolha, mas acho que essa não é toda a verdade. As nossas escolhas nunca são consumadas em condições ideais nem o nosso arbítrio é totalmente livre. Só conseguimos fazer escolhas determinadas pelas circunstâncias do que vivemos e do que somos naquele momento. Por mais que nos surpreenda a escuridão do homem que nos deu tanta alegria, de algum modo ele elegeu a hora de morrer. O que para muitos foi razão para aumentar a dor pela sua morte, porque ela poderia ter sido evitada, para mim foi alívio por ele não ter a sua vida interrompida à revelia. De algum modo, me soaria mais insuportável se Robin Williams tivesse morrido tão cedo por um infarto ou um acidente.
Acredito mais na interpretação do jornalista americano Lee Siegel, quando ele diz que “talvez tenha sido a empatia que o matou – e não o seu desespero com o diagnóstico recente de Parkinson”. A capacidade de Robin Williams para vestir a pele do outro, de todos os outros, levada por ele a patamares quase insuperáveis. “A sua necessidade passional de se transformar em todos que ele encontrava, qualquer que fosse a sua origem étnica ou social – como se com isso pudesse vencer a sua solitária e irreversível finitude humana.” Há algum tempo o lento morrer do seu mundo assombrava-o, segundo os mais próximos Robin parecia incapaz de superar o desaparecimento do amigo e do homem que o inspirou, o comediante Jonathan Winters, que se foi em abril.
Os seus fãs, as pessoas cuja vida a sua vida tornou melhor, deixaram flores nos lugares em que viveram os seus personagens. Um banco de praça em que gravou cenas de O Génio Indomável, com Matt Damon. A casa em que foi Ms. Doubtfire, a babá. Era ali que ele morria para nunca morrer. Era ali que ele jamais deixaria de estar. Não há lugar para a morte. Como haveria lugar para a morte? Mas é preciso dar um lugar à morte para que a vida possa continuar. É para isso que criamos os nossos cemitérios dentro ou fora de nós. Em geral, mais dentro do que fora. A vida é também carregar os mortos no último lugar em que podem viver, nas nossas memórias. E aos poucos nos tornamos um cemitério cada vez mais habitado por aqueles que só vivem em nós.
A morte de Robin Williams, Gabriel García Márquez, Ariano Suassuna e de tantos levou um pouco de mim. A minha morte levará um pouco deles e de tantos, como a lembrança das lágrimas que chorei ao ver O clube dos poetas mortos ou a imagem de Aureliano Buendía que só eu tinha ou a minha pedra do reino. Morro um pouco com cada um deles porque vivi um pouco com cada um deles.
É essa a morte silenciosa que vai se alastrando pelos dias. Conto os meus imortais ainda vivos, os de longe e os de perto. Digo os seus nomes, como se os invocando. Peço que não se apressem, que não me deixem só, que não me deixem sem saber de mim. O acaso, a vida que muda num instante, assusta-me tanto quanto este meu mundo que morre devagar. É essa a brisa quase impercetível que adivinho soprando nos meus ossos. Muitas vezes finjo que não a escuto. Mas ela continua ali, intermitente, sussurrando para eu não esquecer de viver.
Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora dos livros de não ficção Coluna Prestes - o Avesso da LendaA Vida Que Ninguém vê, O Olho da Rua, A Menina Quebrada, Meus Desacontecimentos e do romance Uma Duas.