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sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

“Check-in” para uma zona de desconforto…

Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
Vou deitar à sombra
De uma palmeira que já não há
Colher a flor que já não dá
E algum amor talvez possa espantar
As noites que eu não queria
E anunciar o dia...
Tom Jobim/Chico Buarque

Neste Novembro despedaçado, uma fuga pode ajudar a acalmar a alma e iludir o espírito. Assim, vou ali e já venho. Nem levo mala para despachar. Basta-me uma mochila. Chego cedo, sento-me no café do aeroporto e fico a admirar a paisagem humana. São tantas as histórias que por ali pululam… Sim, porque um aeroporto é como um templo, um lugar para chorar pelos que partem ou, ainda mais forte e bonito, pelos que voltam. Entre uma coisa e outra, há o Céu. Acho que não é preciso aprofundar a metáfora.
Naquela montra de emoções, retenho-me numa. Pelo que pude perceber, o João está a migrar para São Paulo. Tem muitos amigos o rapaz. E uma família tão ruidosa como plena de carinho. Há abraços longos e comentários encorajadores: “Vai dar tudo certo”; “É o melhor que tens a fazer”; “Um dia isto melhora e tu voltas”; “A mãe não pode ir no Natal, mas visito-te nos teus anos”.
Não conheço o João e não sei quando ele faz anos. Mas espero que a sua mãe possa cumprir a promessa. O primeiro aniversário no exílio é sempre algo um pouco triste. E é de exilados que fala este texto. De uma legião de portugueses que tem vindo a concluir (não exactamente por gosto) que a saída mais rápida para os problemas do país, cada vez mais, é o aeroporto.
Vou ali e já venho. Faço uma pequena digressão mas retornarei ao tema principal. Tenho a mania de, quando falo do passado a um interlocutor mais jovem, perguntar se ele já estava vivo na época em questão. Nem me passa pela cabeça indagar se o indivíduo já havia nascido. O que me interessa é saber quando é que alguém começou a viver (diverte-me a consequente ideia de que antes de “já estar viva” a pessoa “ainda estava morta”).
Mas ninguém é obrigado a viver uma só vida. Não que isso tenha algum mal ou seja vergonhoso. Tivera eu a sorte de encontrar uma vida que me servisse como um fato italiano de bom corte. Ficaria logo com ela. No limite, se o dia-a-dia provocasse manchas visíveis ou rasgões incómodos, mandava-a para a tinturaria ou para o alfaiate. Mais vale uma boa vida remendada do que uma vida nova desengraçada e sem conserto.
Quem migra muda de vida. Migrar é uma das experiências mais intensas que o ser humano pode viver.
Há quase 21 anos (30 de Novembro de 1990), eu era um João (só que em vez de na Portela, no Galeão), como esse que, para fazer-se de forte, segura as lágrimas frente aos seus entes queridos. Eu era um João fugindo de um lugar sem horizontes, cansado de bater em portas fechadas, farto de apanhar das estatísticas, sedento de qualquer coisa que pudesse parecer com uma oportunidade. Salvou-me a realidade de haver um país do outro lado do oceano que, ouvira dizer, mantinha laços culturais com o meu e onde as pessoas falavam a mesma língua.
João, mesmo sem te conhecer (e permita-me o tratamento por tu) emociona-me a tua coragem e desejo-te toda a sorte do mundo. Que o meu outro país seja também a tua casa (e agradeço-te por ter permitido que o teu se tornasse a minha). Não tenhas demasiadas ilusões mas nunca pares de sonhar. Celebra os dias bons mas tem paciência com os maus. Se estás prestes a renascer, lembra-te que não existe parto sem dor.
João, mesmo que agora doa o facto de teres que ir embora não por opção mas por falta de opções, cedo ou tarde essa mágoa com o teu país (arrisco dizer, nosso) passará. Sempre passa. Porque uma pessoa até pode ser tirada do seu povo, mas esse povo nunca sairá de dentro da pessoa.
João, entra no teu voo, fecha os olhos e, se o for o caso, abra o choro. A TAP também serve para isso, para quem parte é último colo de mãe. Depois, quando estiveres mais tranquilo, olha pela janela e verás apenas o infinito. Que é o que te espera.
E de uma coisa tem a certeza, rapaz: quem fica também se exila (pois quem parte leva um bocado de nós). Podemos ser Francisco, Hugo, Fabiano, Paola, Eduardo, Filipe, Ana, Margarida, mas no fundo, no fundo, somos todos Joões.
Edson Athayde

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