A Assembleia Nacional reunida na Igreja de São Paulo, em Frankfurt, fracassou na sua tentativa de estabelecer um Estado nacional alemão no centro da Europa.
Matthias von Hellfeld
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Assembleia Nacional alemã, na Igreja
de São Paulo
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O arquiduque João da Áustria (1782-1859) foi incumbido da regência interina; até à realização de eleições livres, deteve o poder central na Confederação Germânica. A sua nomeação foi a primeira de uma série de decisões equivocadas. Para os radicais da Assembleia Nacional, ele era representante do antigo sistema a ser derrubado. Colaborar com ele era inimaginável para essa fação.
O próximo problema surgiu no verão de 1848, após o cessar-fogo de Malmö, que pôs fim a um conflito armado em Schleswig-Holstein. Nessa região, uma revolução contra o soberano dinamarquês, rei Frederico VII (1808-1863), fora reprimida, apesar da intervenção prussiana. A Assembleia Nacional teve que reconhecer que, sem um exército próprio, não podia defender os interesses de seus membros.
União de Estados
Além disso, os delegados não tardaram a perceber que um exército próprio não era a única coisa que faltava. Também se carecia de todos os outros ingredientes necessários para a fundação de um Estado: capital, instituições nacionais, leis comuns ou um consenso sobre que regiões deveriam integrar-se no reino alemão a ser fundado.
A maioria dos deputados, com formação académica, tinha a tendência de se estender em longas discussões. O precioso tempo das reuniões transcorria, por exemplo, com debates sobre os direitos dos cidadãos, sobre liberdade de imprensa e de opinião, enquanto os opositores da revolução ganhavam tempo para mobilizar as suas forças.
Mesmo quando Robert Blum (1807-1848), delegado da Assembleia Nacional alemã, foi executado durante um levantamento reprimido de forma sangrenta na Áustria, os deputados continuavam a discutir em Frankfurt. Até o fim de dezembro de 1848, ficaram a debater a lista de direitos fundamentais e humanos, sem se darem conta das relações reais de poder.
"Grande solução" ou "pequena solução"?
O ponto central dos debates era que estados deveriam integrar o reino alemão. Uns achavam que deveriam ser os membros da Confederação Germânica, a Prússia e a Áustria – esta era chamada a "grande solução alemã". Outros preferiam que a Áustria ficasse de fora, sugerindo com isso uma "pequena solução". Facto é que ambas as propostas eram impraticáveis.
Os defensores da "grande solução" sonhavam com uma Alemanha sob a coroa dos Habsburgos, tinham fascínio pelo antigo império medieval e revestiam as suas ideias com um toque de zeitgeist (espírito da época) liberal. Mas, no fundo, o que eles queriam era reavivar o Sacro Império Romano Germânico, derrubado em 1806 pela política hegemónica de poder de Napoleão.
O que ignoravam, no entanto, eram os vários milhões de não-alemães que seriam obrigados a viver no reino alemão. Considerando que esse plano necessariamente provocaria a cisão da Áustria, não é de admirar que o imperador austríaco Francisco José I (1830-1916) se tenha oposto veementemente à ideia.
Mas a "pequena solução", abrangendo a Confederação Germânica e a Prússia, sem a Áustria, também foi rejeitada pelo imperador austríaco, pois acarretaria perder a sua influência sobre a Alemanha. Além disso, essa solução também contrariava a meta de unir no novo reino "todas as pessoas de língua alemã".
Durante meses, ambas as fações se mostraram inconciliáveis, sobretudo porque também havia divergências quanto a uma outra questão: o novo reino deveria ser uma república ou uma monarquia constitucional?
Rei prussiano recusa
A votação foi no dia 27 de março de 1849. Uma maioria apertada votou a favor de uma monarquia constitucional com o rei prussiano à frente, como imperador alemão. Uma delegação foi enviada imediatamente a Berlim, a fim de oferecer a coroa a Frederico Guilherme IV (1795-1861). No entanto, o soberano rejeitou-a bruscamente. Para ele, a oferta da Assembleia Nacional mais significava uma "coleira de ferro". Como não pretendia deixar-se coroar pela "canalha", deu aos alemães a última chance de se agregarem num Estado nacional a partir de um movimento sustentado pelo povo.
Quando as últimas tropas capitularam um pouco depois, em Rastatt, a Revolução Alemã entrava em colapso. Os deputados tinham fracassado não só pela falta de uma base de poder, mas também por não terem solucionado a questão das fronteiras do Estado.
Uma exclusão da Prússia e da Áustria teria levado à solução insatisfatória de estabelecer um Estado alemão aleijado, incapaz – como a Confederação Germânica – de sobreviver de forma autónoma e dependente da boa vontade dos outros dois blocos germânicos. Por outro lado, a inclusão da Prússia e da Áustria teria levado necessariamente à cisão de ambos os Estados, pois grande parte de sua população não era alemã.
Prelúdio de uma era de instabilidade
Desta forma, acabou mantendo-se o status quo no centro da Europa. Os acontecimentos da Revolução Alemã, no entanto, deixaram claro que o perigo de uma desestabilização aumentara. Cerca de 22 anos depois, acabou por se fundar um reino alemão, mesmo que sem a participação do povo.
A cerimónia da fundação foi realizada no Salão de Espelhos de Versailles, em janeiro de 1871. Desta vez, o rei prussiano Guilherme I (1797-1888) não recusou.
Durante alguns anos, ainda foi possível manter a paz na Europa. Mas a política do novo imperador alemão Guilherme II (1859-1941) acabou por se tornar cada vez mais agressiva, provocando uma erupção de dimensões imprevistas.
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