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sábado, 4 de agosto de 2012

Transformaram-nos a democracia num ritual: O VOTO!

“Quando é verdadeira, quando nasce da necessidade de dizer, a voz humana não encontra quem a detenha... Porque todos, todos, temos algo a dizer aos outros, alguma coisa, alguma palavra que merece ser celebrada ou perdoada pelos demais”. (Eduardo Galeano, Livro dos Abraços, LPM)
Nei Alberto Pies, professor e ativista dos direitos humanos
O controlo social das políticas públicas e sobre atos políticos e administrativos ainda é um passo a ser dado para o aperfeiçoamento da democracia. Em tempos de avançadas tecnologias, os portais de transparência são uma tímida tentativa de tornar transparente a forma como o dinheiro público é destinado e aplicado. Disponibilizar informações sobre as estruturas públicas não é suficiente para superar a apatia e o descrédito da população na política. Só com instrumentos de participação direta nas decisões sobre as políticas e investimentos apontaremos para uma democracia participativa, superando os problemas e vícios da democracia representativa.
Quem de entre nós, sinceramente, ainda tem pachorra para participar e envolver-se na política atual? Por que a política nos distanciou tanto da vida quotidiana, das necessidades da nossa gente? Por que nas nossas escolas tememos falar de política, mesmo que a educação nunca seja neutra?
Dos servidores públicos, efetivos ou de confiança dos políticos eleitos, a comunidade não espera que só “piquem o ponto”. A comunidade espera que também despertem da apatia, prestando serviços e assistência que promovam a cidadania. Não serve a ninguém tanta deceção e descrença na política se é justamente ela que decide sobre a nossa qualidade de vida e a nossa cidadania.
O fenómeno da apatia política não é recente. No ano de 1917, num pequeno texto, ‘Os indiferentes’, Antonio Gramsci descreve que a indiferença “é abulia, é parasitismo, é covardia, não é vida”. E complementa dizendo que “não podem existir os apenas homens, os estranhos à cidade. Quem verdadeiramente vive não pode deixar de ser cidadão e partidário. O que acontece não acontece tanto porque alguns o queiram, mas porque a massa dos homens abdica da sua vontade, deixa fazer, deixa enrolarem os nós que, depois, só a espada poderá cortar; deixa promulgar leis que, depois, só a revolta pode anular; deixa subir ao poder homens que, depois, só uma sublevação poderá derrubar”.
Como cidadãos modernos e apáticos, transformamos a democracia em ritual: o voto. A cada 4 ou 5 anos, somos consultados nas urnas sobre o rumo que os nossos governantes dão ao nosso município, ao nosso ao nosso país ou ao mais alto representante do Estado. Dizemos, então, se queremos que os rumos da política mudem ou permaneçam como estão. Mas de qual política? Da política do bem-comum ou a política dos interesses da classe política?
Muitos já se cansaram de participar assim, esporadicamente. Cansaram, também, de assistir a teatros e encenações dos políticos na televisão. Cansaram de ouvir discussões inócuas e oportunistas da situação ou da oposição. E não são oposição nem situação, são cidadãos e cidadãs, desejosos de participação.
Esta tal indiferença é um fardo que não precisamos carregar. A democracia que queremos deve estar alicerçada no controlo social, no debate democrático, no respeito pelos direitos humanos e na liberdade de cada um organizar e reclamar os seus direitos de cidadania.
Será esta democracia moderna demais?

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