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domingo, 16 de março de 2014

A desonestidade intelectual, social e política do FMI!

Num relatório intitulado Fiscal Policy and Income Inequality (“Política orçamental e desigualdade de rendimentos”), o Fundo analisa o impacto da política de consolidação orçamental que foi imposta em diversos países europeus nos últimos anos e destaca o caso português – onde o FMI teve influência directa na definição das políticas - como um dos que mais levou em linha de conta os efeitos da austeridade na distribuição do rendimento.
Segundo as contas da entidade sedeada em Washington, as medidas implementadas pelas autoridades portuguesas de 2008 a 2012 – e que incluem cortes nos salários dos funcionários públicos, cortes nas pensões, diminuição dos benefícios sociais e aumento do IVA – conduziram, em média, a uma redução do rendimento disponível das famílias de 6,3%. No entanto, para os 20% mais pobres, essa redução foi menor, ligeiramente acima dos 5%. Para os 20% mais ricos, o corte atingiu os 10%.
Redução da desigualdade?
O Fundo chega à conclusão de que o nível de desigualdade em Portugal – medido pelo índice de Gini – diminuiu no período entre 2008 e 2012, especialmente devido ao efeito progressivo das medidas de consolidação orçamental. No entanto, é preciso levar em conta que foi antes das medidas de austeridade começarem a ser tomadas que este indicador mais caiu. Nos dados publicados pelo Instituto Nacional de Estatística sobre esta matéria, regista-se que, entre 2008 e 2009, houve uma redução acentuada do índice de Gini de 35,4 para 33,7 pontos (menos desigualdade).
Apesar destes números, o Fundo estima neste estudo que as medidas de consolidação orçamental contribuíram para reduzir a desigualdade em Portugal.
Entre 2008 e 2012, o desemprego subiu de 8,5% para 15,9%, afectando mais cerca de 400.000 pessoas.
Para um relatório feito por “especialistas”, o rigor é pouco, as contas estão aldrabadas e as conclusões contrariam a realidade, mas ficamos a saber, de fonte suja, que houve e há vontade de cortar nos salários dos funcionários públicos, cortar nas pensões, diminuir os direitos sociais e aumentar o IVA, esquecendo-se do aumento de impostos.
E se a baralhação é escandalosa, levando a resultados satisfatórios para o FMI, tal só se justifica porque o FMI teve influência direta na definição destas políticas devastadoras. E a melhor prova é o aumento do nível de desigualdade em Portugal entre 2008 e 2012 devido ao efeito progressivo das medidas da troika (com o FMI lá dentro), que antes da sua intervenção tinha sido mais reduzida… Mesmo assim, retiram a conclusão de que as medidas de austeridade imposta por eles contribuíram para reduzir a desigualdade em Portugal… E pode?
Mas o mais inconcebível da análise é comparar os 20% mais pobres (a quem roubaram 5%), com os 20% mais ricos (a quem roubaram 10%), deixando de fora o destino de 60% dos portugueses… No caso da Grécia, Espanha e Irlanda, ainda é mais gritante, deixando de fora 80% das respetivas populações…
Mas nestas análises com base em percentagens, vem sempre à mente a história do bife, que por ser anedótica, não devia ser referida. É que 5% retirado de pouco, deixa muito pouco para a sobrevivência, enquanto 10% de muito, deixa ainda bastante para uma vida de bem-estar. E assim sendo até dispensa prova…
Em simultâneo, o Parlamento Europeu, que abriu um inquérito ao trabalho das troikas, retira outras conclusões, consentâneas com a realidade, desmascarando a pseudo competência dos autores e dos atores das medidas/penitência que o FMI quer branquear.
No caso do PE, só falta saber quando vão decidir sobre o ressarcimento dos confiscados e da punição dos incompetentes.
Inquérito do Parlamento Europeu à actuação da troika em 4 países, incluindo Portugal, aponta diversos erros e faz críticas a algumas das decisões que foram tomadas. Mas também destaca a inevitabilidade dos resgates.
O relatório do Parlamento Europeu sobre a actuação da troika, que tem como relatores o socialista Liam Hoang Ngoc e Othmar Karas, do Partido Popular Europeu, lança várias críticas ao impacto do ajustamento causado pelos resgates financeiros.
O documento realça, por exemplo, o facto de os “cortes nas prestações e serviços sociais” e o “desemprego crescente”, que resulta das “medidas contidas nos programas” estar a “aumentar os níveis de pobreza”. Mas também sustenta que as consequências sociais “seriam piores” sem o resgate da troika.
A troika provocou “níveis inaceitáveis de desemprego”, quer de longo prazo, quer jovem. No caso dos mais novos, isso “põe em causa as oportunidades para o desenvolvimento económico futuro”, como o comprova o “fluxo de jovens migrantes do sul da Europa e da Irlanda”, o que “pode causar uma fuga de cérebros”.
Aliás, as medidas incluídas nos resgates “são o exacto oposto da política de modernização delineada na estratégia de Lisboa e na estratégia Europa 2020”. O relatório “lamenta, nos programas da Grécia, Irlanda e Portugal, a inclusão de algumas receitas detalhadas para a reforma do sistema de saúde e cortes na despesa”. E também “lamenta o facto de a os programas não estarem vinculados à Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia”.
Mas não é só. Os relatores também lamentam “os pressupostos por vezes demasiado optimistas assumidos pela troika, especialmente no que diz respeito ao crescimento e desemprego”. Um factor que “afectou a relação entre a consolidação orçamental e o crescimento”. Como resultado, “as metas orçamentais não puderam ser atingidas dentro do tempo previsto”.
Em Portugal, as metas do défice já tiveram de ser revistas por diversas vezes. No ano passado, o Executivo quis colocar a meta de 2014 nos 4,5%, ao invés dos 4% previstos. Mas a troika não permitiu alterar este objectivo orçamental.
“Tem sido dada muito pouca atenção ao alívio dos impactos sociais e económicos negativos das estratégias de ajustamento”, acrescentam ainda. E lamentam “que por demasiadas vezes a abordagem de uma solução universal para a gestão da crise não teve inteiramente em conta o equilíbrio entre o impacto social e económico das medidas”, destacam os deputados.
Sem resgate, consequências seriam piores
Porém, também se defende que o resgate era mesmo a única solução. “As consequências económicas e sociais teriam sido piores sem a assistência técnica e financeira da União Europeia e do FMI”, contrapõem os relatores. Aliás, o resgate “atingiu o objectivo de, no curto prazo, evitar um incumprimento desordenado da dívida soberana que teria tido consequências económicas e sociais extremas, que seriam sem dúvida piores do que as actuais”, por causa dos efeitos colaterais (spillover), que seriam de “magnitude incalculável”.

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