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sábado, 24 de agosto de 2013

É Nuclear não esquecer, muito menos calar…

A Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA, um órgão da ONU) disse ver "com seriedade" a situação em Fukushima, e mostrou-se disposta a ajudar se for chamada.
A China disse-se em "choque" por saber que a água radiativa continua a vazar da central e pediu ao Japão que forneça informações "de maneira expedita, minuciosa e acurada". "Esperamos que o lado japonês possa dar seriamente passos efetivos para colocar um fim ao impacto negativo dos efeitos posteriores ao acidente nuclear de Fukushima", disse a chancelaria chinesa em Pequim.
A Autoridade de Regulação Nuclear afirmou temer que o desastre - o pior acidente nuclear desde a explosão de Chernobyl, na Ucrânia, em 1986 - esteja "sob alguns aspetos" além da capacidade de reação da Tepco, empresa operadora da usina.
As autoridades do Japão classificaram o vazamento de 300 litros de água radioativa de um dos tanques da central de Fukushima como um “incidente grave”, correspondente ao nível 3 na escala internacional de eventos nucleares, que vai do 0 a 7. A classificação de nível 3 corresponde ao "vazamento de grande volume de material radioativo no interior da instalação". O acidente de Fukushima, em 11 de março de 2011, atingiu o nível 7.
Entenda o caso
• Em 11 de março, um tsunami, que se seguiu a um terremoto de 9 graus de magnitude, devastou o nordeste do Japão, resultando na morte de 15.000 pessoas.
• O desastre natural atingiu a central nuclear de Fukushima e deu origem à mais grave crise atómica desde Chernobyl, em 1986.
• A partir de então, o mundo todo passou a discutir a real necessidade da energia nuclear, com o temor de que uma nova catástrofe possa colocar o mundo em risco.
A operadora Tepco, responsável pela central de Fukushima, encontrou nesta quinta-feira (22/08) novos focos de radiação perto dos tanques de armazenamento de água contaminada. A descoberta elevou os temores de novas fugas, já elevadas desde a véspera, quando foi anunciado que 300 toneladas de água radioativa tinham vazado nos últimos dias.
Esther Felden
Para Heinz Smital, físico nuclear e especialista do Greenpeace da Alemanha, há uma falha sistemática de vigilância na central. Em entrevista, diz que a queda no nível de água radioativa nos tanques deveria ter sido detetada bem mais cedo. "É necessário um maior monitoramento dessas centenas de tanques, cada um com 1.000 toneladas de líquido altamente radioativo. O controlo ainda é insuficiente", afirma.
DW: O vazamento radioativo das últimas semanas foi considerado o maior desde a catástrofe com os reatores de Fukushima, em março de 2011. Qual é a real seriedade do incidente?
Heinz Smital: É um incidente grave e que poderia ter sido evitado. Em princípio, o importante era manter a água em tanques de aço. O vazamento só foi descoberto depois que o nível da água diminuiu em metros dentro do tanque. Isso mostra que o monitoramento foi totalmente inadequado.
O que deveria ser feito?
Seria preciso aumentar a vigilância. O líquido é altamente radioativo, e uma queda no nível de água deveria ter sido detetada bem mais cedo, e não depois de uma grande quantidade ter desaparecido. Pelas contas, foram cerca de 300 toneladas, e a radiação é de 80 milhões de becquerel por litro – um nível muito elevado.
O que significa esse valor para uma pessoa?
Essa é uma dose direta que foi medida em 100 millisieverts por hora perto da água vazada. Uma pessoa aguentaria, por pouco tempo, essas condições. O limite normal para a população é de 1 milisievert por ano – no caso de trabalhadores de centrais, 20 millisieverts. Isto significa que uma pessoa receberia uma dose muito elevada numa hora, mas que só suportaria cerca de 5 minutos no local. Segundo a autoridade reguladora nuclear japonesa, os níveis de radiação fora da central em Fukushima estão inalterados.
Qual a credibilidade desta declaração?
A água provavelmente infiltrou-se no solo, mas provavelmente há também fluxos de águas subterrâneas. Isso significa que a radiação fora da central aumentará cada vez mais com o tempo. O que não se pode esquecer é que, mesmo que tenha vazado muita radiação, a maior parte ainda continua nos reatores. Apenas uma pequena percentagem foi libertada. E caso aumente a quantidade de água subterrânea, pode ser que estas fontes alcancem distâncias mais longas.
Qual a probabilidade de a água contaminada chegar ao Pacífico?
Sempre houve sinais de que radioatividade é descarregada no mar. A Tepco ainda tentou negar o facto, embora existam evidências. Há algumas semanas, a Tepco acabou por admitir que, há 2 anos, cerca de 300 toneladas de líquido altamente radioativo são descarregadas no mar todos os dias. A partir do momento em que a substância foi depositada no mar, ela espalhou-se. No entanto, o efeito de distribuição não foi tão grande como esperado. Nos anos 50 e 70 havia a esperança de que os resíduos nucleares se diluiriam de tal maneira, que não haveria mais perigo de contaminação. Mas isso não é verdade. Por meio de correntes oceânicas e pela absorção feita por plantas e pelo plâncton, a radioatividade pode aumentar.
Ainda de acordo com a Tepco, o conteúdo do tanque danificado será bombeado para tanques intactos. Além disso, o solo radioativo e água vazada devem ser removidos. Isso é o suficiente?
Esta é a medida a ser tomada, se não se sabe a origem do vazamento. Mas, no geral, é necessário um maior monitoramento dessas centenas de tanques, cada um com 1.000 toneladas de líquido altamente radioativo. O controlo ainda é insuficiente. Desde o início, a gestão da crise financeira e a política de informação da Tepco e do governo japonês receberam críticas pesadas.
O acidente pode servir como lição para o Japão?
Enquanto o foco for ativar novos reatores, a experiência nuclear, que está em atividade no momento no Japão, continuará a ser utilizada incorretamente. O governo vai continuar tentado minimizar a gravidade da situação em Fukushima, mas os factos vão voltar a aparecer. É uma situação muito difícil, que deve ser encarada de outra forma.

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