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segunda-feira, 21 de maio de 2012

Para se institucionalizar e legalizar a corrupção!

Lóbi (do inglês lobby, ante-sala, corredor) é o nome que se dá à atividade de pressão de grupos, ostensiva ou velada, com o objetivo de interferir diretamente nas decisões do poder público, em especial do Legislativo, em favor de interesses privados.
O Conselho da Europa está a preparar um código, os Estados Unidos querem uma aliança internacional e a Assembleia da República vai debater o assunto.
Há cada vez mais portugueses acreditados como lobistas no Parlamento Europeu, mas durante quase 25 anos houve apenas um. O número de registos aumentou no ano passado e passou a incluir representantes da EDP ou da CAP, mas mesmo assim contam-se pelos dedos das mãos os nomes nacionais.
Em Portugal, como na generalidade dos países do sul da Europa, o lobismo não é bem visto. Tráfico de influências existe, embora para muitos continue a ter uma conotação negativa. A actividade está a mudar a nível mundial e alguns defendem que Portugal deve começar a debater o assunto quanto antes. Sobretudo agora que está na ordem do dia não só na Europa, mas também nos EUA.
O deputado do PSD Mendes Bota, presidente da comissão para a Ética, a Cidadania e a Comunicação, vai propor que o tema seja finalmente debatido. Se a proposta for aceite, a discussão no parlamento poderá acontecer ainda antes do Verão. “É de grande actualidade e de grande interesse um debate aberto, de forma aprofundada e séria, e o melhor lugar para o fazer seria a Assembleia da República. Vou propor isso mesmo à comissão a que presido, mas não posso antecipar uma decisão dos restantes membros”, esclareceu Mendes Bota, adiantando que se houver acordo, o debate poderá realizar-se ainda antes das férias.
“Os 27 Estados-membros do Conselho da Europa aprovaram a recomendação de que seja elaborado um código de conduta para regulamentar o lobbying”, diz o deputado. Nos Estados Unidos, a American League of Lobbyists quer ganhar força e já propôs à Europa a criação de uma International Alliance of Lobbyists, que será discutida nos próximos dias. “Portugal poderia dar um contributo. Calados é que não vamos a lado algum”, reforça o deputado.
Mendes Bota é a favor da regulamentação do lobismo. “Na minha perspectiva é preferível que a actividade seja identificada e caracterizada do que desenvolvida debaixo da mesa e sob um manto opaco. Eu, como deputado europeu, tinha contactos de lóbis opostos que me davam relatórios úteis, que alargavam o meu conhecimento sobre determinadas matérias.”

Para o deputado do PSD, o que é importante é que o lobista “seja obrigado a dizer quem representa, com que objectivo e quanto recebe para isso”.

O advogado José Miguel Júdice, que prefaciou o livro do primeiro português acreditado como lobista no Parlamento Europeu, Martins Lampreia, está de acordo e até disposto a “dar sugestões”. “Há muitos anos defendi que era essencial regulamentar o lóbi. Não sendo regulado, não existem regras. Mas como sempre, ninguém me ligou e todos acharam que era uma loucura minha, quando dizia que o lóbi vive na penumbra. Mas é assim. Enquanto coisas legítimas e normais são consideradas crime, como uns telefonemas para alguém ajudar um terceiro, outras que são crime são consideradas normais”, diz. “É legítimo defender interesses”, considera. “Perguntaram-me se estaria disponível para falar sobre isto na Assembleia da República e respondi que sim.”
Júdice defende que “havendo regras é mais improvável que haja corrupção e aumenta a transparência. O grande problema, em Portugal, é dizer que é proibido. Em vez de proibir, não será melhor regular?” E as regras teriam de ser claras. “Em Portugal há muitas regras e tudo é crime. E onde tudo é crime não se nota a ilegalidade”, justifica. Uma das condições, por exemplo, seria que “a actividade seja incompatível com o exercício da advocacia. Assim, separavam-se águas”, explica. De resto, a opinião é unânime: por mais leis que se façam, a corrupção existirá sempre. Mas em menor escala.
Martins Lampreia, que está acreditado no Parlamento Europeu desde 1986 e que desde 1976 faz lobismo através da sua empresa, a Omniconsul, concorda que é mais fácil se todos souberem quem trabalha para quem e quanto ganha com isso. No seu caso, “cerca de 100 euros/hora em Portugal e 300 euros/hora em Bruxelas”. Para o presidente da Omniconsul, o “reconhecimento do profissional de lobismo, uma ferramenta de trabalho, facilita acessos. No entanto, as relações pessoais representam apenas 20% do trabalho de um lobista”.
Na Europa há perto de 5.000 lobistas acreditados, “mas a trabalhar a sério são cerca de 30.000”, diz Martins Lampreia, que considera que “os lóbis mais poderosos são a indústria farmacêutica, a energia e os grandes consumos. O lóbi gay é fortíssimo, tal como o das mulheres”.
Já em 1988 tive conhecimento desta ideia, que os EUA queriam materializar, ripostando desde logo, no lugar e nas circunstâncias, havendo quem logo achasse benéfico e um sinal de transparência democracia.
O tema daria para muita escrita e muita discussão, o que não vou fazer, até por achar tão óbvia a condenação do lobismo, que seria gastar cera com fraco defunto. Mas pelos vistos, os lobos atacam, querem atacar coordenadamente e em força e os cordeiros lá ficarão ainda mais indefesos do que estão agora no que respeita à corrupção. No fundo, é fácil perceber que o lobismo não é mais do que a institucionalização e a legalização dos mecanismos que regem a corrupção.
Quando lemos responsáveis intervenientes em setores da sociedade em que vivemos hoje dizerem que é legítimo defender interesses, com a ligeireza (disfarçada) com que o fazem, e apelando à MORAL e tudo, até nos arrepia a pele e ficamos desconfiados que já sejam pecadores, mas que não se confessam. Se esses INTERESSES fossem para o bem comum, ninguém duvidaria das “boas intenções”, mas sendo esses interesses para o BEM PRIVADO, começam as dúvidas sobre tal legitimidade, a não ser que levemos a sério Anatole France quando dizia que: “A Lei, na sua magnífica equidade, proíbe, tanto o rico como o pobre, de dormir debaixo das pontes, de mendigar pelas ruas e de roubar pão”.
Apesar de o assunto estar a ser sugerido pelo Conselho da Europa e por muito que alguns queiram dourar a pílula, se o lobismo já estivesse legalizado, a maioria dos (poucos) corruptos apanhados e condenados seriam libertados e os que ainda não foram (apanhados e condenados) seriam beatificados e, quem sabe, condecorados no 10 de junho, por serviços prestados…
Se considerarmos que “LEGAL é tudo aquilo a que podemos ambicionar, usurpar, delapidar e arruinar debaixo do império da lei”, percebemos claramente o que é o lobismo, se alguém ainda não tivesse percebido…
O que eles querem sabemos nós! E por que não teve eco esta notícia?

Reflexos do Relvas… 21 maio

Miguel Relvas enviou à ERC documentos relacionados com as alegadas pressões a uma jornalista do ‘Público’, bem como e-mails trocados entre a profissional e o gabinete do ministro dos Assuntos Parlamentares. 
A direção editorial do "Público" já respondeu à iniciativa de Miguel Relvas que enviou documentação para a ERC. O jornal acusa o ministro de ter elaborado uma manobra de diversão com a documentação enviada.
Luís Montenegro, líder parlamentar do PSD, manifestou hoje a sua “certeza absoluta” de que Miguel Relvas nunca teve intenção de condicionar o trabalho dos jornalistas. O deputado, mesmo assim, defende que o Parlamento deve aguardar pela investigação da ERC.
Pedro Passos Coelho rejeitou hoje que o ministro-adjunto e dos Assuntos Parlamentares tenha "atacado a imprensa" na resposta ao jornal Público e defendeu que "o Governo tem privilegiado muita transparência".
Caso fique provado que Miguel Relvas pressionou uma jornalista do "Público", MRS defende que o ministro Adjunto e dos Assuntos Parlamentares deverá demitir-se.

Contramaré… 21 maio

As contribuições dos principais doadores na luta contra a fome e a desnutrição são "lamentavelmente inadequadas", porque apenas cobrem 1% dos 9.230 milhões de euros necessários para resolver estes problemas, é a conclusão de uma análise feita pela organização não-governamental "Ação Contra a Fome". Revela ainda que os doadores não conseguiram cumprir 11% dos compromissos assumidos, que não existem mecanismos de controlo fiáveis a nível internacional e que o auxílio não se dirige necessariamente aos países com maiores índices de desnutrição.

Quem nos avisa nosso “amigo” poderá ser…

Segundo um estudo da Universidade de Ciência e Tecnologia de Missouri, EUA, a forma como as pessoas usam a internet pode indicar se elas estão em maior risco de depressão ou não.
O estudo contou com entrevistas a 216 estudantes universitários, que indicaram se eles tinham sinais de depressão ou não. 30% demonstraram pelo menos critérios mínimos para o diagnóstico de depressão.
Em seguida, os pesquisadores observaram o uso da internet desses mesmos estudantes e descobriram que os mesmos 30% tinham um padrão de uso distinto dos seus colegas não depressivos.
Os sinais da depressão que podem ser vistos através da internet são:
  • Mudar de páginas e aplicativos frequentemente;
  • Uso significativamente maior de software de compartilhamento de arquivos;
  • Atividade frequente em plataformas de mensagens instantâneas ou e-mails.
O pesquisador Sriram Chellappan explica que esses sinais fazem sentido, porque a depressão muitas vezes é associada com distração e falta de atenção (que se relacionam ao primeiro sinal), e a condição é muitas vezes sentida como uma forte sensação de solidão (que se relaciona com os outros sinais, de necessidade de interação humana, que pode ser uma resposta natural de autopreservação).
Aplicações
O cientista quer utilizar este conhecimento para criar um software que detete sinais de depressão em usuários da internet. O software monitoraria o uso de um indivíduo e o alertaria sobre os indicativos de depressão. Também poderia ser usado em escolas, e outros ambientes, para alertar pais, professores e responsáveis do risco de depressão nas crianças e adolescentes.
O software seria uma ferramenta eficaz para que os usuários procurassem ajuda médica quanto antes, evitando que a doença se tornasse grave e prevenindo o suicídio.
Depressão e os seus fatores de risco
Outros estudos já relacionaram internet e depressão no passado. Por exemplo, as redes sociais, geralmente consideradas divertidas e positivas, se usadas em excesso podem ser prejudiciais. Um relatório da Academia Americana de Pediatria descreveu um novo fenómeno conhecido como “depressão do Facebook”, no qual crianças e adolescentes que gastam uma enorme quantidade de tempo em sites de redes sociais acabam por desenvolver sintomas de depressão.
A Compulsão pelo “Google” também já foi estudada. Cientistas da Universidade de Leeds mostraram que as pessoas que usam ferramentas de pesquisa frequentemente têm mais hipóteses de apresentarem sintomas de depressão. Alguns usuários desenvolvem um hábito compulsivo na internet, substituindo as suas relações “reais” com relações virtuais, o que pode ter um impacto sério na saúde mental.
E outros fatores de estilo de vida podem fazer diferença. Um estudo liderado por Almudena Sánchez-Villegas revelou que consumidores de fast food têm 51% mais hipóteses de desenvolver depressão. Quanto mais fast food se come, maior o risco de depressão. Trabalhar demais e ter enxaqueca (principalmente para as mulheres) também aumenta o risco de depressão.
E porque é tão importante evitar este risco? Porque estudos descobriram que a depressão aumenta as hipóteses de doenças cerebrais degenerativas, como a demência e o mal de Alzheimer. Como se não fosse mau demais ter depressão e sofrer as suas consequências, ainda pode ficar mais doente no futuro.
Fique atento e procure ajuda médica quanto antes! Pesquisadores das Universidades de Riverside e Duke, ambas nos Estados Unidos, sugerem mais um meio de combater a depressão, além de remédios: desenvolver gentileza e otimismo nas pessoas e produzir felicidade. Para isso, é só praticar pequenos atos de bom humor no dia-a-dia, como meditar, escrever as coisas boas que lhe aconteceram no seu dia e ser gentil com os outros. É fácil, não é?

Ecos da blogosfera - 20 maio

domingo, 20 de maio de 2012

PODER com ÉTICA, mas com mecanismos de controlo!

Inicialmente é importante destacar que a melhor compreensão deste texto dar-se-á se você ler o artigo anterior que publicamos com o seguinte título: “ação política e paixão erótica: a política pequena”.
Obs. - Encontrará esse texto neste blogue: O PODER é afrodisíaco?
1 - Retomando a essência do artigo anterior
As relações que ocorrem no âmbito da política pequena são semelhantes às que ocorrem com aquele ator social que age a partir da paixão erótica. Deixa-se dominar pelos seus instintos vegetativos. Deseja o poder com a mesma intensidade que deseja obter o prazer a qualquer custo.
Regra de ouro: o egoísmo é o axioma determinante da política pequena ao passo que o altruísmo é o axioma da alta política.
2 – Algumas razões que possibilitam a superação da política pequena
A superação da estreita relação que há entre ação política e a paixão erótica ocorre quando um político age a partir da alta política.
O que é a alta política? A resposta desta questão já está implícita na regra de ouro acima. Um político que age a partir nessa perspetiva age a pensar antes de tudo no bem da coletividade. Quando dizemos que um político é estadista, estamos a referirmo-nos a alguém que pensa, antes de mais nada, no bem da sociedade.
Uma das coisas mais difíceis para um gestor público é conciliar o interesse coletivo com o interesse individual. Aquele que pretende agir a partir da perspetiva da alta política, na dúvida, precisa tomar partido a favor da coletividade.
Regra de diamante: na alta política a construção do novo ocorre sem negar tudo o que os outros fizeram ou fazem.
Quem nos lê pode observar à sua volta. O quê? É muito comum, quando chegam os pleitos eleitorais, a oposição procurar negar tudo o que já foi feito por parte daquele que está a governar.
Dá a impressão de que a situação é do eixo do mal e que aqueles que querem assumir o poder são perfeitos. Ledo engano. Cometerão erros e acertos como os que já estão a governar. Isso porque a imperfeição é condição humana. Muitos só sabem jogar pedras. Quando se tornam montra, cometerão erros ainda maiores. Notoriamente que a nossa intenção, aqui, não é generalizar.
Regra de ouro: o criador fez-nos diferentes para que juntos pudéssemos chegar mais próximos da perfeição.
De facto, podemos fazer algo ainda melhor do que já foi feito, mas para isso, se desejarmos agir a partir da perspetiva da alta política, necessitaremos ter a ética perto de nós. Este é o assunto a seguir.
3 – A ética como elemento constitutivo da alta política.
Refletir sobre o tema das relações entre ética e política não apenas é desafiador teoricamente, como é urgente para a prática política no contexto atual. Um bom começo talvez possa ser perguntarmo-nos sobre aquilo que transforma uma ação qualquer numa ação política. Podemos chamar de ação política a que cria o social. Quer dizer, é política a ação que assume como seu o ponto de vista da criação; que pretende moldar ou criar o universo que afeta, não a sua vida subjetiva, mas o da coletividade.
Há política quando nos fazemos sujeitos de uma realidade; isto é, quando não a tomamos por dada, ou por independente da ação humana, mas a concebemos como resultado dessa ação – e, melhor ainda, nos propomos a agir, moldando o mundo. Quando se define a ação como política, não faz mais sentido falar do lugar do governante ou de quem o contesta a fim de lhe ocupar a posição. O que importa é, muito antes, uma atitude criativa de quem se torna sujeito da sua vida, e não mais o lugar: a postura, e não a posição, eis o que conta.
Como exercer a ação política com ética? A primeira e fundamental maneira é através do exercício das funções públicas em conformidade com a lei. E quando uma lei é justa? Quando ela é boa para todos. Essa resposta foi-nos dada por Condorcet, por ocasião dos acontecimentos da Revolução Francesa (1743 - 1794).
A lei é a medida externa, visível, pela qual os atos são medidos. Agir de modo ético na vida pública é cumprir a lei. No entanto, a eficácia da lei fica comprometida por alguns fatores, entre os quais destacamos 3:

Reflexão para o Relvas… 20 maio

O ministro que tutela a comunicação social, Miguel Relvas, é acusado pelo Conselho de Redação (CR) do "Público" de ter feito "ameaças" a uma jornalista, repetidas depois perante uma editora do jornal, para impedir uma notícia sobre o caso das secretas.
Segundo os elementos eleitos do CR, Relvas disse, entre outras coisas, que "promoveria um black out de todos os ministros em relação ao 'Público' e divulgaria, na internet, dados da vida privada da jornalista" que investiga o assunto. Uma terceira "ameaça" atribuída a Relvas é o envio de uma "queixa" à ERC. Os telefonemas tiveram lugar na quarta-feira, um dia após a ida de Relvas ao Parlamento. A notícia não foi mesmo publicada.
Um porta-voz de Miguel Relvas desmente que o ministro tenha feito "qualquer tipo de ameaça", nomeadamente as três que lhe são atribuídas pelo CR.
A diretora do jornal "protestou junto do ministro Miguel Relvas por ter exercido uma pressão que toda a direção considera inaceitável". O telefonema foi feito na sexta-feira, cerca do meio-dia. Bárbara Reis, em depoimento escrito, revelou que "o ministro pediu desculpa".

Contramaré… 20 maio

Os líderes políticos gregos reagiram com ira à sugestão, atribuída à chanceler alemã Angela Merkel, para que o país realize um referendo sobre a continuação no euro na eleição do próximo mês. "O povo grego não precisa de qualquer referendo para demonstrar a sua escolha relativamente ao euro, já fez sacrifícios suficientes para mostrar isso", disse o líder do partido conservador Nova Democracia que ganhou as eleições inconclusivas de 6 de maio.

A CRISE: análises simples por “simples” intelectuais…

Podemos ser salvos pelo poder da palavra? A pobreza afeta a democracia? Precisamos de ócio? Ultrapassou-se a fronteira do que pode ser contabilizável?
Estas questões, poeiras desassossegadas em tempos difíceis, foram levantadas na 3ª sessão dos encontros-debate “Conversas à Quinta com a VISÃO”, integrados nas comemorações da publicação do número 1.000 da revista e moderados por José Carlos de Vasconcelos.
Foram muitos os que encheram a sala do Museu da Eletricidade, em Lisboa, para ouvir as opiniões do filósofo, ensaísta e antigo professor universitário José Gil, autor do livro-fenómeno “Portugal, Hoje” e o escritor de “O Medo de Existir” e professor universitário Gonçalo M. Tavares, prémios José Saramago 2005 e Portugal Telecom 2007, que sublinharam que os efeitos da crise vão muito além das análises económicas dominantes no espaço público.
Um barco chamado Europa
Como parece estar, hoje, a Europa pós-eleições francesas?
Ao repto inicial, José Gil responde, lembrando Michel Foucault: "Ele mostrou que o poder não tem uma imagem hierarquizada em cone; é múltiplo e espalhado pela sociedade. A relação entre os dois regimes de poder existentes, um livre e outro institucionalizado, em França e na Europa, foi modificada." Antes, diz o filósofo, houve fugas ao eixo Sarkozy/Merkel, vozes que preconizavam uma outra via que não a da austeridade - "um poder livre" - mas  foram "postas na ordem". "O que [François] Hollande afirmou, um misto de poder institucional e promessa de poder alternativo, vai ser posto à prova. O que isto vai dar... ninguém sabe."
"Cada vez é mais difícil separar a política do resto", opina Gonçalo M. Tavares. Usa a imagem de um barco, "chamado Europa", "cujas tábuas vão sendo trocadas" à medida dos acontecimentos, mas questiona a frase feita "estamos todos no mesmo barco". "Nós não estamos assim. Há países que empurram a ver se uma nação cai à água. Há outro país que já está no bote, fora do barco, incapaz de sobreviver às intempéries", descreve.
"Li uma notícia sobre a morte de milhares de galinhas [um abate de animais exigido por Bruxelas]. O que lhes vai acontecer é importante, tem a ver com a economia, que está na raiz desta crise", argumenta. "Há uma ideia vigente de sacrifício, de matarmos um bem de que precisamos - algo da ordem do absurdo, e que se fez durante uma década quando se recebia dinheiro para matar vacas, abater barcos (sou de Aveiro, vi isto acontecer)... Começámos a ter regras e leis complexas que tornaram esta situação aceitável. Se uma tribo da Amazónia nos visse, diria que estamos loucos."
Freud espreita no dedo que Gonçalo M. Tavares aponta às vozes omnipresentes de economistas e opinion makers nos media. "Há uma espécie de psicanálise negra na televisão: à semelhança do percurso de certas palavras no paciente, são introduzidas palavras negativas nos espetadores. Como um médico que quer ter a certeza de que não saímos dali sem ficarmos doentes", defende. 
Mencionando o livro “De quoi Sarkozy est-il le nom?” (2007), de Alain Badiou [que defende que, na política atual, já não é a personalidade do líder, mas sim a adesão que suscitam as suas palavras, que vinga], José Gil sublinha igualmente essa paralisia: "O discurso economicista invade-nos totalmente a  vida social, pessoal, familiar, o destino. Sugou o desassossego múltiplo. Inquietamo-nos apenas com o ter ou não condições para ter uma vida normal. Porque é que é mau? Porque se tornou despótico."
O que se pode fazer para salvar as galinhas, o barco, a "jangada de pedra", interroga o moderador.
O filósofo, considerado pelo Le Nouvel Observateur como um dos 25 grandes pensadores do mundo, defende um "mecanismo" que o faz trabalhar: "Articular coisinhas pequenas, que vão tendo alguma importância. Pensar, por exemplo, no que leva dois seres humanos a sentirem-se atraídos um pelo outro, ou a agredirem-se. Este problema, tão pequeno, envolve várias disciplinas." Ou seja, "se cada um de nós trabalhar no seu desejo, estaremos a resistir a ser apanhados pelo vértice económico."
Gonçalo M. Tavares foca, então, a exclusão trazida pela pobreza. "Se alguém está sobretudo a olhar para pão, preocupado em alimentar os filhos, desaparece a política. A pobreza é uma doença que nos incapacita, impede-nos de intervir. Com a pobreza, não é possível manter os mesmos níveis democráticos", assegura. Evoca um "exemplo negro" ("bom para nos alertar") da época em que os discursos nazis contabilizaram o custo por aluno, numa escala dos mais brilhantes aos surdos-mudos (estes últimos custariam, aparentemente, 6 vezes mais). "Temos que perceber que há coisas que não se contam, senão acaba o que é humano. Há agora coisas a ser contadas, que já ultrapassaram esse limite do que não pode ser contado", afirma o autor.
E enuncia outro exemplo aparentemente simples, mas de "violência de sentido único": alguém tem 5 maçãs no cesto; ao lado, outro tem uma macieira com um fruto apenas; há uma proposta de compra. "O que é terrível é que a pobreza, quando não tem tempo, vende a sua macieira por 20 maçãs apenas, porque precisa delas nos dias seguintes", alerta Tavares.
O livro como máquina de guerra
"Só se é algo no nosso tecido social, se se é avaliado. Isso é devastador, empobrece as nossas possibilidades, porque o essencial não é avaliado, é excluído", refere José Gil. O filósofo aborda ainda um tema contracorrente: o ócio. "Há certas sociedades, ditas primitivas ou exóticas, que reservam tempo, umas horas por dia, para o ócio. Paul Éluard dizia que era absolutamente necessário ao poeta ter ócio, para poder criar. A sociedade que temos é a do tempo acelerado. Já não é possível que o ócio possa ser poderoso, e com tantas possibilidades para a produção, não só poética, mas até para a produção de nós próprios."
Gonçalo M. Tavares corrobora essa ideia e exemplifica com uma situação quotidiana: a sobreocupação dos tempos livres das crianças. "Como é possível eu criar a minha individualidade, criar algo meu, se estou sempre a corresponder a atividades do exterior?"
"Como está o poder da palavra? O que é que os artistas, os pensadores, estão a fazer?", questiona José Carlos Vasconcelos. O moderador acrescenta ainda: "A falta de intervenção dos intelectuais pode dar-se pela falta de acesso [à TV, palco principal de intervenção] e pela falta de imaginação (são sempre os mesmos intervenientes) em nome das terríveis audiências."
"É bom endeusar o livro como máquina de guerra com uma certa potência. A ficção pode fazer alguma coisa, mas é limitada. Um artigo de jornal tem mais impacto do que um romance", declara Gonçalo M. Tavares e acrescenta: "Em democracia, somos violentados de várias formas. Mas a maior é sermos roubados pela linguagem." Exemplifica com uma notícia sobre o cancelamento de atribuição de 1 de 2 subsídios a pessoas com deficiência, apontando as cargas "negativas" presentes na formulação (2 subsídios...) e a realidade da notícia ("em vez de receber €70, a pessoa recebe €40...")
"Precisamos de aulas de defesa da linguagem em vez de ter aulas de karaté. Nenhuma palavra é inocente, nem uma vírgula é neutra", alerta. "Ler um bom livro pode ajudar a defendermo-nos dessa linguagem usada na política."
"A liberdade é defendida com discursos e atacada com metralhadoras." - Drummond Andrade

Ecos da blogosfera - 19 maio