(per)Seguidores

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Por que se luta por algo que não tem interesse(s)?

As reticências das potências ocidentais em agir na Síria ilustram um facto: o “Mare Nostrum” já não é o centro do mundo que foi em tempos. A retirada progressiva dos Estados Unidos da região deixa um vazio que a União Europeia não consegue preencher.
A volta de 180º do Presidente norte-americano, Barak Obama, na decisão sobre uma ação militar contra o regime de Bashar al-Assad, na Síria, reflete a hesitação dos Estados Unidos em se envolverem firmemente no Mediterrâneo. É verdade que o Congresso norte-americano poderia dar luz verde à ação, mas, para já, a rejeição da intervenção pelo Parlamento britânico isolou os Estados Unidos. Além do Reino Unido, a Alemanha, a Itália e a Polónia também anunciaram as suas reticências, deixando assim a França isolada no xadrez europeu.
O facto de ninguém querer morrer pela Síria deve-se igualmente à alteração do estatuto do conjunto do Mediterrâneo. Epicentro cultural, comercial e político do mundo durante séculos, esta é hoje vista como uma região conturbada e sem um futuro uno, no quadro de uma “globalização” que dita a nova marcha do mundo. Agora, é outro mar – o da China – que impulsiona a dinâmica mundial.
São muitos os exemplos que ilustram essa perda de influência. A começar pela evolução das “primaveras árabes”, que tantas esperanças suscitaram. No Egito, um golpe de Estado militar, apoiado pela maioria da população, derrubou o Presidente saído das fileiras da Irmandade Muçulmana, que tendia a concentrar todos os poderes, em proveito do seu partido. Mas, numa situação de grave crise económica, o futuro continua a ser muito incerto. Na Síria, a guerra civil afunda-se na tragédia e ameaça toda a região, e em especial o seu frágil vizinho Líbano. As hipóteses de resolução do conflito israelo-palestiniano continuam a ser mais uma esperança do que uma realidade. No Magrebe, a situação política estagnou numa conjuntura funesta para o desenvolvimento económico. A própria Turquia, até há pouco apresentada como exemplo de estabilidade, tem sido palco de manifestações em alguns casos violentas.
Na margem norte, a situação é também difícil. Atingida pela crise da dívida, a Europa mediterrânica, que pensava poder desenvolver-se graças à União Europeia, vê o seu destino ser traçado por uma troika de entidades financiadoras internacionais, cujas receitas passam por cima da subtileza de uma reflexão sobre um desenvolvimento centrado numa dinâmica mediterrânica regional.
Um espaço heterogéneo
É verdade que, na nova geografia aberta, desenhada pela globalização, o Mediterrâneo parece fechado, com as suas três passagens estratégicas: o Estreito de Gibraltar, a Oeste, o Canal do Suez e a sua rota de petroleiros, a Sudeste, e o Estreito de Dardanelos, a Noroeste. Outrora, esse caráter fechado, que tornava mais fácil o controlo do tráfego marítimo, era uma vantagem estratégica importante. Hoje, isso não acontece. À margem do centro de gravidade do mundo, o espaço mediterrânico continua, além disso, a ser extremamente heterogéneo. A população dos 22 países ribeirinhos é de 475.000.000 de habitantes, com origens religiosas e culturais diversas: cristãos, muçulmanos, judeus, europeus, turcos, árabes, berberes, israelitas.
Militarmente, a norte do mar, a unidade é assegurada pela Aliança Atlântica, dominada pelos Estados Unidos, cuja Sexta Frota desempenha um papel preponderante em matéria de segurança do Mediterrâneo. Até quando? Washington não esconde a vontade de se retirar, contribuindo para acelerar a perda de influência da região.
Acontece que a Europa ainda está longe de ser capaz de preencher esse vazio norte-americano. A UE desempenhou um papel importante na ajuda à Europa de Leste, depois da queda da URSS, mas negligenciou o Sul. Essa falha da liderança europeia teve por consequência o abandono de um espaço regional fragmentado, cujo domínio é disputado por vários países: Arábia Saudita, Irão, Turquia (membro da NATO e candidato à adesão à União Europeia), Egito, num Médio Oriente onde Israel desempenha um papel independente. No Magrebe, a rivalidade entre Marrocos e a Argélia bloqueia qualquer cooperação regional.
No entanto, a Europa lançou algumas iniciativas, a mais ambiciosa das quais foi a criação da União para o Mediterrâneo (UPM), que conta com nada menos de 43 membros (os agora 28 membros da UE, aos quais há a acrescentar a Albânia, a Argélia, a Bósnia-Herzegovina, o Egito, Israel, Jordânia, Líbano, Mauritânia, Mónaco, Montenegro, Marrocos, Autoridade Palestiniana, Síria, Tunísia e Turquia)! Contudo, devido à sua dimensão e à sua governação, a UPM não é operacional. Os interesses dos seus membros são divergentes. O espaço Schengen divide o Mediterrâneo, tal como o protecionismo agrícola.
Interesses geoestratégicos menores
Não haverá então qualquer esperança de o Mediterrâneo voltar a ser uma potência económica? A curto prazo, não há indiscutivelmente, mas, a longo prazo, tudo joga a favor disso. Porque as motivações que estiveram na origem das “primaveras árabes”, tal como, em seu tempo, as que levaram à adesão dos países europeus mediterrânicos à UE, mantêm-se inalteradas: um melhor nível de vida, num ambiente mais seguro e democrático. Dado que os interesses geoestratégicos são hoje menores do que há 20 anos, o Mediterrâneo pode, portanto, voltar a ser um epicentro económico importante.
A primeira etapa poderia passar por uma união energética, que garantisse a independência de toda a União para o Mediterrâneo, criando uma parceria entre países produtores (de hidrocarbonetos e também de energias renováveis) e países consumidores.
Isso teria a vantagem de reduzir a dependência europeia em relação à Rússia. A UE é a única entidade capaz de organizar essa unidade e os quadros de cooperação já existem. Convém reforçá-los; além dos recursos naturais, existe um potencial agrícola importante e uma indústria turística que pode ser desenvolvida de forma sustentável.
Impor o “hard power” não faz parte da sua natureza, mas a Europa pode em contrapartida – e dispõe de recursos para isso – prosseguir esse objetivo de paz, exercendo o “soft power” para o qual tem vocação, através dos acordos bilaterais e multilaterais existentes, que deverão ser progressivamente alargados a uma cooperação à escala regional. Mas, para tal, a Europa tem de encontrar ela própria a unidade que hoje lhe falta, devido às dúvidas a que a crise da dívida deu origem.
Contudo, na situação atual, um tal projeto situa-se no domínio da utopia, enquanto a luta entre as potências regionais – Arábia Saudita, Turquia, Irão e respetivos aliados – da qual a Síria é hoje o palco sangrento, ameaça desestabilizar por muito tempo a margem sul do Mediterrâneo.

Sem comentários:

Enviar um comentário