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terça-feira, 12 de agosto de 2014

Ecos da blogosfera - 12 ago.

A arte são sonhos com pontinhos de vista absolutos…

Há um Luciano Duarte que faz figurinhas em nicos de madeira que parecem alfinetes a observarem o mundo. São umas pessoinhas mínimas e esticadas que se amontoam nuns pedaços de lugar e ficam como se fossem gente normal. Por vezes, não são nem lascas de madeira, são grãos de arroz, e têm as mesmas caras e, igualmente, espreitam. Pessoinhas que espreitam tudo.
Colocamos a peça sobre o móvel e o móvel fica pasmado a olhar para nós.
valter hugo mãe
Esculpir tão pequenino deve ser como tocar um piano de Schubert. É preciso ter dedos breves para se chegar ao pormenor ínfimo. Alguns artesãos não perdem nada para Schubert, quero eu dizer. Criam uma delicadeza impressionante assente na mestria das formas, no circense do talento. Há sempre uma dimensão circense no talento. Uma espécie de impossível que comparece e nos provoca a admiração e o espanto. Assegura-nos da raridade.
Eu não sei o que faria Vladimir Horowitz com madeirinhas e uma lâmina na mão, mas uma escultura do Luciano Duarte pode bem parecer um Impromptu nº 3. A mesma harmonia e a mesma relação com o detalhe. Ou aqueles bordados finos de Castelo Branco. Depois de demoradamente apreciarmos um bordado de Castelo Branco nunca mais regressamos à juventude. Passamos a ter mil anos de orgulho, bons de carregar. Pássaros e árvores. Um sonho.
A arte pode querer explicar tudo acerca da vida mas comporta-se invariavelmente como um sonho. Ela eleva-se, coloca-se irremediavelmente acima do comezinho, ela é intensidade e pretensão de resposta definitiva. O Schubert e o Luciano e os bordados de Castelo Branco são pontos de vista absolutos. Não lhes falta nada. Servem para sempre. Já não passam.
Deve ser mirabolante estar deitado numa cama onde se pouse uma colcha de Castelo Branco toda cheia de mania, sedas e brilhos, dourados e azuis imperiais. Nem sei a que sabe um sono assim. Mas acho lindo. Como leio a escutar o piano baixinho e a pressentir o mundo mínimo do Luciano Duarte a assistir à minha calma. Não é calma. É imersão. Estou num lugar interior onde todas as coisas da casa me acompanham, porque todas as coisas da casa se tornam interiores. Isso é o que significa a nossa sala, o nosso quarto, os objectos, um a um, que passam a ser uma materialização da nossa personalidade. Nem tudo nos define. Apenas uma parte. Alguns objectos estão em casa simplesmente tolerados, como em visita. Não são para ficar. O que fica é o que somos. Como o Schubert.
Está calor, abro varandas para correr o ar, as cortinas espaventam e um amigo telefona-me a dizer que se vê, de onde passam os carros, a cor dos tecidos a acenar. Parece que vai descer um santo entre os panos. Eu, que estou sempre à espera de milagres e de coisas boas inacreditáveis, leio o livro e a casa. Leio a frescura possível. Adoro ler e tresler.
A gente com os clássicos russos fica em nervos. Estamos a perceber tudo acerca da perfídia humana, assistimos ao modo como as vítimas se põem a jeito, os caldos todos preparados, uma desgraça sempre anunciada, e não há o que fazer. Uma e outra vez a condição humana é a tristeza e o desalento. Lemos os russos com vontade de gritar para dentro do livro umas coisas bem gritadas às pessoas esperançadas. As esperançadas é que nos partem o coração.
Mas os livros só falam. Não escutam. É um grave defeito. Escutam raramente, talvez quando um pressentimento nos diz que há uma recompensa para o nosso particular coração. Seja como for, os livros precisavam de pessoinhas mínimas que, por serem tão pequeninas, coubessem inteiras no meio das letras, entre as palavras, e fossem avisar personagens queridas acerca da incúria dos seus sentimentos e gestos. As pessoinhas de arroz do Luciano Duarte podiam mesmo servir. Um grão tão pequeno, de carinha levantada, profundamente expressivo, custa-me a crer que não nos escute e que, sensibilizado, não fale por nós também.     

Contramaré… 12 ago.

Uma das críticas que o Tribunal de Contas faz prende-se com o desrespeito pelo princípio da não consignação de receitas, destacando-se "a consignação de receitas não só é frequente como é indevidamente efetuada pela dedução às receitas do Estado das verbas consignadas e pela omissão nas despesas do Estado da transferência dessas verbas para as respetivas entidades beneficiárias que as registam como 'liquidações ou cobranças' de receitas que não administram nem, por isso, podem certificar".

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Temos deputados à imagem e semelhança dos trabalhadores…

Em média, 16 dos 230 deputados com assento na Assembleia da República (7%) faltaram em cada uma das plenárias da última sessão legislativa, num total de 1.634 ausências entre 16 de setembro de 2013 e 25 de julho deste ano.
De acordo com dados da Assembleia da República e tendo em conta os parlamentares atualmente em funções, os partidos mais representados tiveram deputados menos assíduos às reuniões magnas nesta 3.ª sessão legislativa – reflexo também da quantidade superior de mandatos.
O BE foi o partido mais “presente”, o CDS-PP mais “ausente”.
2 dos 8 bloquistas tiveram 100% de assiduidade, ou seja, um quarto (25%) do grupo parlamentar – o líder, Pedro Filipe Soares, e a deputada Cecília Honório.
Do lado dos mais faltosos, entre os 24 do CDS-PP, 2.º partido da maioria, só 2 atingiram o pleno – Pedro Morais Soares e João Paulo Viegas -, correspondendo a 8% da bancada centrista, embora a reduzida dupla ecologista de “Os Verdes” também não tenha estado em todas as reuniões magnas (11 faltas totais, em 210 possíveis, 5,2%).
O partido com mais assentos parlamentares, PSD, teve 15 dos seus 108 parlamentares “em pleno” (14%), percentagem igual à do PCP (2 dos seus 14 deputados estiveram em todas as sessões), ao passo que o maior partido da oposição, o PS, apresenta um valor mais baixo (12%), pois só 9 dos seus 74 representantes conseguiram corresponder a todas as chamadas.
Em termos globais e deixando de fora os deputados que assumiram outras funções ou suspenderam os respetivos mandatos, o PSD lidera o ranking das faltas, já que também tem mais mandatos (108), com 765 faltas, seguido do PS, com 603 faltas (74 mandatos). CDS-PP, PCP, BE e PEV confirmam a tendência: 171, 55, 29 e 11 faltas.
Falta justificada: doença, missão parlamentar e trabalho político
A recordista de faltas do período entre 16 de setembro de 2013 e 25 de julho de 2014 foi a deputada do PS Glória Araújo, com 70 faltas justificadas: 46 por “doença”, 16 por ter sido mãe, 7 em “assistência familiar” e uma por motivos de “força maior”.
Segundo o n.º 2 do artigo 8.º do estatuto dos parlamentares, “considera-se motivo justificado a doença, o casamento, a maternidade e a paternidade, o luto, a força maior, a missão ou o trabalho parlamentar e o trabalho político ou do partido a que o deputado pertence, bem como a participação em atividades parlamentares”. O n.º 4 do mesmo artigo estipula que, “em casos excecionais, as dificuldades de transporte podem ser consideradas como justificação de faltas”.
Outro socialista, João Soares, foi o 2.º dos eleitos pelos portugueses que mais faltou – ainda que justificadamente – aos plenários de São Bento: ausente de 45 reuniões magnas, também por “doença” (25), “missão parlamentar” (18) e “trabalho político” (2).
No 3.º e 4.º lugar do “mapa de faltas” surgem os sociais-democratas Carlos Páscoa Gonçalves e Mendes Bota, respectivamente com 37 e 36 faltas, esmagadoramente justificadas por “trabalho político” ou “missão parlamentar”.
A deputada do PSD Maria João Ávila faltou 33 vezes também pelas mesmas razões. Ambos com 29 faltas, a democrata-cristã Isabel Galriça Neto, embora com 10 ausências por “doença”, e o antigo presidente da Assembleia da República, o social-democrata Mota Amaral figuram igualmente no topo da lista.
Os deputados com mais faltas
1. Glória Araújo (PS), 70 (46 doença, 16 maternidade, 7 assuntos de família, 1 força maior).
2. João Soares (PS), 45 (25 doença, 18 missão parlamentar, 2 trabalho político).
3. Carlos Páscoa Gonçalves (PSD), 37 (33 trabalho político, 4 missão parlamentar).
4. Mendes Bota (PSD), 36 (31 missão parlamentar, 3 trabalho político, 1 força maior, 1 trabalho parlamentar).
5. Maria João Ávila, 33 (31 trabalho político, 2 missão parlamentar).
6. Mota Amaral, 29 (24 missão parlamentar, 5 trabalho político); Isabel Galriça Neto (CDS-PP), 29 (16 trabalho político, 10 doença, 3 trabalho parlamentar).
7. Miranda Calha (PS), 27 (26 missão parlamentar, 1 força maior); Carlos Alberto Gonçalves (PSD), 27 (27 trabalho político).
8. José Lello (PS), 26 (16 missão parlamentar, 8 doença, 1 força maior, 1 trabalho político); Inês de Medeiros (PS), 26 (17 força maior, 5 trabalho político, 3 doença, 1 assuntos de família).
9. Carlos Costa Neves (PS), 25 (12 missão parlamentar, 6 doença, 6 trabalho político, 1 força maior).
10. Pedro Pinto (PSD), 24 (14 doença, 7 trabalho político, 3 missão parlamentar).
Os deputados sem faltas:
PSD: André Pardal, Bruno Coimbra, Carlos Santos Silva, Clara Marques Mendes, Cristóvão Crespo, Barreiras Duarte, Jorge Paulo Oliveira, Laura Esperança, Margarida Almeida, Maria José Moreno, Teresa Costa Santos, Vasco Cunha, Nuno Serra, Paulo Ribeiro, Pedro do Ÿ Ramos.
PS: Agostinho Santa, Ana Paula Vitorino, António Cardoso, Carlos Enes, Idália Serrão, João Paulo Pedrosa, Jorge Lacão, Neto Brandão, Pedro Farmhouse.
CDS-PP: Pedro Morais Soares, João Paulo Viegas.
PCP: João Oliveira, David Costa.
BE: Pedro Filipe Soares, Cecília Honório.
Tudo isto não quer dizer mais do que também os deputados são gente, não são de ferro e têm mais que fazer do que estar sentados nas bancadas, o que se constata pelo rol de justificações, que não anda muito longe do de outras profissões…
Uma coisa se pode concluir, é que 214 deputados bastavam para fazerem o que fizeram no ano passado…
Mas o que era importante saber, tendo em conta que quem legisla para os outros cumpre o que lhe vai na alma, era saber se na doença, por exemplo, também têm que ir aos Centros de Saúdes…
De resto, tendo em conta os motivos e o número correspondente das justificações apresentadas no Top 10 dos mais faltosos (Missão parlamentar – 142; Trabalho político – 134; Doença – 122; Força maior – 22; Maternidade – 16; Assuntos de família – 8; Trabalho parlamentar – 4), o que se conclui com facilidade, que: passeiam muito (em trabalho…), politicamente são ativos (para a AR ou para o partido?), são relativamente saudáveis, as mulheres não contribuem para o aumento da natalidade, têm que lhes trate da família e o trabalho parlamentar é muito pouco…
E pegando noutro exemplo, o do trabalho parlamentar, que tem servido para justificar os lugares vazios na AR, parece não ser convincente (apenas 4 justificações), pelo que deve haver muito mais motivos de FORÇA MAIOR, que não foram catados…
Resumindo, temos um Parlamento à imagem e semelhança de qualquer secção de um serviço público… E quem sai aos seus não degenera.

Ecos da blogosfera - 11 ago.

DDT mata(rá) tudo que é (fala) barato/a!

Isto está mau é para os ricos, que os pobres já não tinham nada. O governador do Banco de Portugal diz que há esquemas “muito difíceis de detectar antes de entrarem em ruptura”. Mas um banqueiro maléfico tem um plano para uma conta malvada de um banco mau.
Rui Cardoso Martins
Já tiraram o retrato completo a um tal Ricardo Salgado (nascido em Cascais, 25 de Junho 1944, meio morto na Comporta, Agosto 2014). Quase 10.000.000 de portugueses percebem, de repente, que ele sempre teve sobrancelhas de aldrabão, pestanas de trapaceiro, nariz de mentiroso, boca de traidor, olhos de embusteiro, orelhas de impostor, mãos de pantomineiro, cabelo de vigarista e, pior do que tudo, alma de pato-bravo. Reparem lá bem se não tem. É claro que tem, eu sempre disse, confessam os ex-admiradores do herói nacional da banca internacional Ricardo Salgado.
Mas de facto está na cara dele. Já aqui se escreveu na biografia, há semanas: em 1920 (5 anos depois da morte de José Maria), surgia o Banco Espírito Santo SR.L. Em 2014, esperam-se novidades do Banco Espírito Santo SSRS (Sociedade de Sarilhos de Ricardo Salgado).* E esta era a biografia boa, ainda não tínhamos chegado à biografia má.
As novidades não param e, se inventaram um banco bom e um banco mau, as notícias são todas más. Incluindo as “boas”: um dia acordaremos deste BESadelo (mau, começam os chistes) e quem pagou os prejuízos do banco “bom” foram os bons dos contribuintes, outra vez. A única coisa boa que agora todos pedem, ministros e governadores, gestores e analistas neutrais (fora Marcelo Rebelo de Sousa e Miguel Sousa Tavares, que lá sabem da complexidade da vida), mais os países Aliados e os do Eixo, é má para Ricardo Salgado: prendam o homem ou ainda nos dá uma coisinha má.
Pelo menos não falta assunto diário aos grupos de amigos barrigudos nas praias do Algarve que, de mãos na anca de investimentos, molham os pés na água fria do mar Salgado. O BES e o seu produto associado, os trocadilhos com o BES. E as graçolas com o Espírito Santo e o diabo a quatro. E a crise de Jesus e do Benfica. Espera, é tudo a mesma coisa: a liquidação geral da equipa do Benfica em hasta pública é um derivado tóxico da queda do BES.
Mas a melhor síntese do magno problema “Portugal, Agosto de 2014”, deu-a um mendigo. Antes de almoçar, mas não antes de beber meio pacote de carrascão, um filósofo que dorme na rua trocou isto por um euro: “Isto está mau é para os ricos, que os pobres já não tinham nada.”
Um euro por sabedoria, ainda há coisas baratas. Vale a pena investir em Portugal. A propósito, compare-se este mendigo com o nível de abstracção filosófica atingido por um “investidor de décadas” que perdeu “muitos milhares de euros” na última recapitalização do Banco Espírito Santo. Chamava-se Sousa Figueira, ou Sousa Pereira, ou Oliveira e Sousa, ou Sousa Oliveira, um desses indubitáveis nomes de pequeno-médio accionista ligado ao universo do direito administrativo e fiscal, ou coisa que o valha. Pelo menos tinha uns livros muito grossos, forrados de marroquim, atrás das costas. Tudo o que ele investiu se derreteu no NBM (Novo Banco Mau), fundado pelo governador de Portugal, e queixava-se à RTP: “Nós vivemos no princípio da confiança bancária, e quando alguém se atravessa a dizer que tudo está bem, nomeadamente o primeiro-ministro, nomeadamente a ministra das Finanças, nomeadamente o governador do Banco de Portugal, Carlos Costa, que a solidez do banco nunca esteve em causa, que existe uma almofada [financeira] suficiente para resolver todos os problemas, logicamente que o meu dia-a-dia continuou a ser normal, sem qualquer tipo de preocupação.”
Parágrafo de espanto: !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Homem, cidadão Figueira Oliveira, acorde: um pedinte que no dia-a-dia tem que dormir na rua percebe mais de almofadas do que o senhor. A primeira frase é da maior ironia ou da mais fina alienação. Não só viveremos no princípio da confiança bancária (desde quando?) como ainda acredita quando o primeiro-ministro diz que está tudo bem.
Isto é, ele investe dinheiro pela palavra dada por Passos Coelho, que não mente (desde quando?) e depois continua a viver sem preocupação. Agora percebemos ao que isto chegou, obrigado, dr. Oliveira Figueira, continue a fazer negócios, mas fale primeiro com a sua empregada.
Mas porque a confiança bancária é o sistema em que vivemos, há esperança para Ricardo Salgado. 3 milhões de euros de fiança puseram-lhe 3 milhões de neurónios a pensar. O seu cérebro único de Caixa Multibanco magica agora o salvamento das contas confiscadas no BES a si, e aos 3 milhões de primos da família Espírito Santo. Aliás, os primos que se danem, já foram enganados tanta vez, e já enganaram tantas outras, que bem podem acabar na ruína.
O último plano de Ricardo é audacioso: a fuga solitária de uma das suas continhas (alguns milhões de euros). É uma filha querida do banqueiro e vive triste e ofendida por a terem encerrado no BES Mau, a comer porcarias. Salgado quer libertá-la de Portugal e fazê-la viajar e conhecer as irmãs que vivem, sob anonimato, com nome fictício, pela Europa e Estados Unidos, Angola e América do Sul, pelas off-shores do belo planeta verde do BES. O plano é simples: disfarçada de papel comercial “bom” assinado por algum supervisor comprado com uma prenda de 16 milhões (escusa de os declarar), a conta fictícia “DDT” sai da caixa forte do banco de manhã cedo, passa uma portagem da Ascendi, segue para o Dubai na agência de viagens espanhola Space, salta pela falida ESCOM angolana para comer um snack, visita o escritório brasileiro da imobiliária Guaraiuva, regressa para um café na PT com Granadeiro e uma radiografia falsa no Hospital da Luz, voa ao Luxemburgo para ver se a polícia ainda está à porta, visita a Madeira através de Moçambique. Depois de passar por 400 empresas falidas, ao fim da noite já cá está outra vez, limpa, fresca e livre como uma nota de 500, a jantar lagosta com Salgado na Comporta.

Contramaré… 11 ago.

Um jornalista do italiano Il Sore 24Ore lembrou, na conferência de imprensa, que o resgate ao BES teve impacto em outros bancos, caso do francês Crédit Agricole, o antigo 2.º maior accionista, que assumiu uma perda de 708 milhões de euros nas contas do 2.º trimestre e quis saber, por isso, se as relações entre as instituições financeiras estão a ser devidamente avaliadas no ‘asset quality review'. Desta vez, Draghi passou a palavra a Vítor Constâncio, que confirmou que sim: "Veremos se esses activos estão bem avaliados".

domingo, 10 de agosto de 2014

A UE ainda não acordou, mas abriu um olho e o porta-moedas…

A França, o Reino Unido e a Alemanha apelam a Israel e ao Hamas para um cessar-fogo imediato na Faixa de Gaza, indicaram os ministros dos Negócios Estrangeiros dos 3 países, Laurent Fabius (França), Philip Hammond (Reino Unido) e Frank-Walter Steinmeier (Alemanha), numa declaração conjunta divulgada e acrescentam: "Damos o nosso pleno apoio aos esforços realizados pelo Egito para esse efeito".
O cessar-fogo de 72 horas na Faixa de Gaza entre Israel e o Hamas expirou às 8 horas locais, após negociadores não conseguirem chegar a um acordo final para ampliar a trégua. Poucas horas antes do fim da trégua, 2 foguetes partindo de Gaza foram atirados contra Israel, segundo o exército israelita. Não houve feridos.
Alemanha, França e Grã-Bretanha propuseram a reativação de uma missão da União Europeia na fronteira entre a Faixa de Gaza e o Egito para ajudar a estabilizar o enclave palestiniano após um mês de guerra, disse uma fonte diplomática da Alemanha nesta quarta-feira.
Europeus já repassam 900 milhões de euros por ano para a Cisjordânia e a Faixa de Gaza, na forma de ajuda humanitária. Unidade entre os palestinos facilitaria a distribuição.
A União Europeia (UE) está pronta para contribuir com a reconstrução da Faixa de Gaza e o fornecimento de suprimentos à população local logo que se chegue a um cessar-fogo definitivo entre o Hamas e o governo de Israel.
De acordo com o porta-voz da alta representante para assuntos externos, Catherine Ashton, Sebastien Braband, o bloco europeu conversou com todas as partes envolvidas a fim de definir a melhor forma de contribuir para o fim do conflito. "Por isso é fundamental que o novo governo palestino assuma o controlo da Faixa de Gaza e coloque fim às disputas internas", disse.
Se a Autoridade Nacional Palestina, sob comando do moderado presidente Mahmoud Abbas, controlasse a Faixa de Gaza, seria muito mais fácil para a UE distribuir ajuda financeira diretamente à região e até mesmo controlar a aplicação desses recursos. Mas quem comanda Gaza é o grupo radical Hamas, e o bloco europeu precisa fazer uso de vias indiretas para repassar parte dos salários e aposentadorias dos funcionários públicos da Faixa de Gaza e dar ajuda financeira para diversas famílias que vivem na região. Esses repasses só podem ser feitos por vias indiretas – transferir recursos ao Hamas está fora de questão.
Com isso, segundo a Comissão Europeia, fica difícil controlar esses pagamentos – o que já gerou uma reprimenda do Tribunal de Contas Europeu. Em dezembro do ano passado, a corte declarou que a UE pagou salários a servidores públicos na Faixa de Gaza que nem sequer estavam a trabalhar. O Tribunal de Contas recomendou ainda o cancelamento dos programas de ajuda, o que não ocorreu.
Por ano, a Comissão Europeia destina 450 milhões de euros do fundo comum europeu aos palestinianos da Cisjordânia e da Faixa de Gaza, na forma de ajuda humanitária. O mesmo valor é repassado diretamente pelos Estados-membros do bloco europeu. Ao lado da UE, os Estados Unidos são o maior doador de recursos para os palestinianos.
Tem sido escandaloso o silêncio e inoperância da UE neste conflito, que não cabe nos valores da cultura europeias, a não ser desde a sua transformação numa cooperativa financeira… E por isso surge esta preocupação de 3 países, desgarrada da chamada União, sabe-se lá com que legitimidade e força…
E perante mais um previsível fracasso das negociações para um cessar-fogo, que deveriam ser para acabar com o conflito, negociando as questões que estão na sua base, eis que os mesmos 3 países da UE, propõem a reativação de uma missão da União Europeia na fronteira entre a Faixa de Gaza e o Egito, quase como um escudo humano, que impedisse Israel dos crimes humanitários que tem cometido impunemente, por serem cometidos contra civis indefesos, o que não seria a mesma coisa se os atingidos fossem funcionários da União. Bom seria que missão da UE fosse na fronteira entre a Faixa de Gaza e Israel, mas não há coragem… Seria remédio santo e permitiria ter (mais) observadores a recolher e dar testemunho dos “erros” colaterais, na era da nanotecnologia…
À falta de coragem, a União Europeia oferece aquilo em que hoje em dia se especializou e são os seus valores maiores, dinheiro. Para já, para ajuda humanitária, mais tarde, se houver tréguas, para reconstruir, mais uma vez, os edifícios destruídos, num ciclo vicioso que cheira a negociata de “patos-bravos”…
Como foi possível, em tão pouco tempo acontecer uma desvalorização tão grande na bolsa de Valores da cultura europeia, tão humanista e agora tão anestesiada?
Filosofias de vida e discriminação de pessoas que o passado parecia ter enterrado? Ou novo-riquismo parolo?

Ecos da blogosfera - 10 ago.

Perder a identidade em qualquer cultura significará perder a vida

Repare bem cautelosamente se você já se viu em alguém. Pode ser alguém da família, seus pares ou membros de um grupo; alguém com quem você desenvolveu os seus afetos, a sua intimidade, cuja reciprocidade fora aumentando pouco a pouco até não parar mais. Geralmente, além de pessoas, identificámo-nos também com lugares, profissões, estudos. Mas, os que marcam mesmo as nossas vidas, a bem da verdade, são os nossos pais, irmãos, tios, tias e avós, sem desmerecer, claro, a descoberta de um amigo ou de uma pessoa amada.
Jackislandy Meira de M. Silva
Ver-se em alguém é identificar-se com esse alguém, ultrapassando os limites da aparência. Via de regra, a aparência da identidade está fixa e inerte em registos de identidade, onde cada qual apenas estampa no papel a sua face para fins burocráticos e sociais. A identidade não é simplesmente um documento de papel que carrega a sua impressão digital e a foto, bem como o nome bastante apresentável, aprisionada numa carteira no bolso, senão guardada e abandonada em gavetas ou pastas.
Perder a identidade para a cultura grega significa perder a vida, equivale a estar realmente morto: “Para os gregos, o que caracteriza a morte é a perda da identidade. Os mortos são, antes de mais nada, sem-nome ou mesmo sem-rosto. Todos os que deixam a vida tornam-se anónimos, perdem a individualidade. (...) É essa despersonalização que caracteriza a morte aos olhos dos gregos (...)”. (In FERRY, Luc. A sabedoria dos mitos gregos. Aprender a viver II. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009, p. 145).
Descobrir o seu eu no mundo, o seu lugar no tempo/espaço da história é ver-se na mais translúcida imagem da sua subjetividade; é descobrir-se para si mesmo e habitar um mundo possível, crescente, dinâmico e infinito, movido pelo despertar semelhante ao do filho de Ulisses, Telémaco, quando da sua busca incessante por notícias do pai que estava a vaguear pelo mundo, perdido e com saudades de casa.
As primeiras 4 partes ou capítulos da clássica obra de Homero, a Odisseia, revelam essa busca incansável do jovem pela confirmação dos belos feitos do seu pai, rei de Ítaca. A saída de Telémaco da ilha ao encontro do pai representa a sua saída ao encontro de si mesmo. Assim como Telémaco, um homem precisa de aventuras ou precisa satisfazer o desejo da maravilha, da curiosidade de querer ver as coisas para forjar, no sofrimento e na nostalgia de casa, a personalidade, construir o caráter e, definitivamente, encontrar o seu lugar no mundo, quem é e por que está aqui.
Todos temos uma identidade, quando sufocada e presa, grita de dentro de nós. É o grito da alma humana pelo reconhecimento da sua própria identidade.
Como não acenar aqui para a tão reconhecida obra de Milan Kundera, a identidade, em que Chantal, personagem central da trama, reclama repetidamente por identidade quando pensa: “Vivo num mundo onde os homens nunca mais irão virar-se para olhar para mim”. Só que, ao saber quem, de facto, era Chantal, pouco antes de declarar que se tinha enganado, Jean-Marc saboreia o prazer de olhar para ela e percebe que Chantal é o “seu único vínculo sentimental com o mundo”, pois “só ela, e mais ninguém, liberta-o da sua indiferença. Só por intermédio dela é capaz de se compadecer”. Acordada do seu sonho, pelo “grito” de Jean-Marc, a bela Chantal não quer perder de vista a identidade do seu amor: “Não vou mais tirar os olhos de si. Vou olhar para si sem parar”.