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terça-feira, 11 de março de 2014

Cavaco Silva não tem razão, porque HÁ CONSENSOS!

A ideia deste documento partiu de João Cravinho, em articulação com Eduardo Paz Ferreira, Bagão Félix e José Reis.
Sem crescimento robusto, sólido, não vamos ter condições para pagar a dívida, vamos entrar numa sucessão de políticas que, de facto, acabam por destruir por completo o tecido social português, que acabam por pôr as pessoas nas maiores dificuldades, e é preciso ter uma saída. Não há outra saída senão a preparação da reestruturação responsável da dívida pública para crescer sustentadamente”, afirma João Cravinho.
O ex-ministro sublinha que os subscritores do manifesto consideram que é essencial “observar e cumprir as boas práticas de rigorosa gestão das contas e das finanças públicas”. “Não é isso que está em causa – pelo contrário, reforça-se essa ideia. É necessário fazer uma reestruturação da dívida no contexto europeu da união económica e monetária, e portanto em cooperação com os outros estados-membros do euro, de modo a conciliar e tornar possível o crescimento, o pagamento integral da dívida, que neste momento não há condições do que se pode dizer dos números que se conhecem, porque a continuarmos assim não temos condições para pagar a dívida”, argumenta. “Precisamos de ter condições para pagar a nossa dívida responsavelmente, precisamos de crescer e de fazer uma rigorosa prática das finanças públicas, no respeito das normas constitucionais e do bom senso para que haja futuro com responsabilidade financeira e social”, salienta.
E com base numa argumentação que a “esquerda radical” começou logo após as receitas de austeridade impostas e a perceção imediata que até os leigos e merceeiros apreenderam, eis que, quase 3 anos depois, 70 personalidades e talvez 7.000.000 de portugueses chegaram ao CONSENSO de que assim não vamos a lado nenhum, ou pior, que nenhum de nós sai do buraco em que nos enterraram…
Para o Presidente da República, que diz não entender a falta de consensos em Portugal, aqui fica o melhor exemplo da sua falta de razão e uma boa base de trabalho…
Para o Primeiro-ministro que apela, desesperadamente, ao consenso, tem aqui uma boa oportunidade para iniciar as démarches para atingir o seu desiderato…
Só não é possível o consenso, se o objetivo for agrilhoar os Partidos (e não os cidadãos) a estas “soluções” que eternizam a pobreza, aumentando a miséria e as desigualdades sociais…
Sugeria que os 70 subscritores criassem uma Página no Facebook, permitirem a adesão do cidadão anónimo e se bater o recorde de “Likes” em tempo mínimo…
Experimentem! É de graça e dá milhões...
De Adriano Moreira, Freitas do Amaral a Bagão Félix, passando por Manuela Ferreira Leite e António Capucho, continuando com Ferro Rodrigues, Manuela Arcanjo e João Cravinho, até chegar a Carvalho da Silva ou a Francisco Louçã. São políticos, alguns ex-ministros, mas também há empresários, patrões, sindicalistas, académicos e constitucionalistas que defendem a chamada “reestruturação responsável da dívida”, condição sem a qual, dizem, continuará a imperar a política da austeridade pela austeridade e, sem a qual não será possível o crescimento e o emprego.
A 2 meses do final do programa de resgate da troika, este grupo de personalidades, que têm visões bastaste diferentes sobre a forma como o país deve lidar com a crise, junta-se para fazer um apelo comum para que Portugal encete esforços junto dos seus parceiros europeus para preparar uma reestruturação da dívida pública que, com os valores actuais, dizem ser “insustentável”. No final do ano passado, o rácio da dívida pública rondava os 130% do PIB (120% líquida de depósitos).
São estes números que levam este grupo a dizer que “a dívida pública tornar-se-á insustentável na ausência de crescimento duradouro significativo”, e que para a combater seriam necessários “saldos orçamentais primários verdadeiramente excepcionais, insusceptíveis de imposição prolongada”. Ainda este fim-de-semana, no prefácio dos Roteiros, o Presidente da República calculava que mesmo que Portugal conseguisse todos os anos um excedente primário de 3% (e num cenário de crescimento anual do PIB nominal de 4% e com juros da dívida de 4%), só em 2035 é que o país conseguiria atingir um rácio da dívida pública de 60% do PIB, um limite imposto por Maastricht e com o qual Portugal se comprometeu ainda mais ao subscrever o Pacto Orçamental.
Sem reestruturação da dívida, este manifesto vaticina que “o Estado continuará enredado e tolhido na vã tentativa de resolver os problemas do défice orçamental e da dívida pública pela única via da austeridade”. E se assim for, o ‘grupo dos 70’ traça um cenário negro: degradação dos serviços e prestações fornecidos pelo Estado, queda da procura, economia a definhar, maior precariedade do trabalho, emigração de jovens qualificados, rarefacção do crédito da banca e inúmeras empresas ver-se-iam compelidas a reduzir efectivos.
Alemanha no pós-guerra
A reestruturação não é sinónimo de não pagar a dívida e, como tal, o manifesto fala numa “reestruturação responsável” que seja feita “no espaço institucional europeu, embora provavelmente a contragosto, designadamente dos responsáveis alemães”. Os 70 alertam que mesmo que o país “cumpra as boas práticas de rigor orçamental, de acordo com as normas constitucionais”, não vai conseguir contornar sozinho o problema do excesso de endividamento, já que perdeu a soberania monetária e cambial para intervir na economia.
Portugal deverá poder contar com a solidariedade dos parceiros europeus, tal como, dizem, a Alemanha beneficiou de um perdão e de uma restruturação da dívida no período pós-guerra. Recordam que pelo Acordo de Londres sobre a dívida externa alemã, de 27 de Fevereiro de 1953, a dívida externa alemã anterior à II Guerra Mundial foi perdoada em 46% e a posterior à II Guerra em 51,2%. Da remanescente, 17% ficaram a juro zero e 38% a juro de 2,5%. Os juros devidos desde 1934 foram igualmente perdoados. Foi também acordado um período de carência de 5 anos e limitadas as responsabilidades anuais futuras ao máximo de 5% das exportações no mesmo ano.
E se o alongamento da maturidade da dívida foi uma das causas que esteve na origem do chamado “milagre económico da Alemanha”, o manifesto sugere para Portugal uma “extensão das maturidades da dívida para 40 ou mais anos”, recordando que a nossa dívida “tem picos violentos”. De agora até 2017, calculam, “o reembolso da dívida de médio e longo prazo atingirá cerca de 48.000 milhões”. E qual a dívida a ser reestruturada? O grupo dos 70 sugere que incida sobre a dívida em excesso e que ultrapasse o limiar dos 60% do PIB. E como os juros da dívida pública directa absorvem 4,5% da riqueza nacional, o manifesto também sugere uma redução significativa da taxa média de juro do stock da dívida nacional.
Os subscritores
A ideia de apelar “ao debate e à preparação, em prazo útil, das melhores soluções para a reestruturação da dívida” partiu do João Cravinho, ex-ministro socialista das Obras Públicas, em articulação com Eduardo Paz Ferreira, Bagão Félix e José Reis da Universidade de Coimbra. Mais tarde juntou-se Louçã. Na lista dos subscritores, também fazem parte personalidades ligadas ao mundo empresarial, como António Saraiva da CIP, João Vieira Lopes da CCP, Esmeralda Dourado, Henrique Neto e o também ex-ministro Ricardo Bayão Horta. O manifesto também é subscrito por constitucionalistas como Joaquim Gomes Canotilho, Jorge Novais ou Pedro Bacelar de Vasconcelos. Alfredo Bruto da Costa, António Sampaio da Nóvoa, Boaventura Sousa Santos, José Silva Lopes, Adriano Pimpão, o ex-ministro da Economia Luís Braga da Cruz e Adalberto Campos Fernandes são outros nomes com peso no manifesto.

Ecos da blogosfera - 11 mar.

Cuidado com as siglas! “Insulte” com nomes próprios

O Tribunal da Relação de Guimarães ilibou um homem que tinha sido condenado na primeira instância por um crime de injúria agravado, por ter chamado “palhaços” aos membros da Junta de Freguesia de Silvares, daquele concelho. Na primeira instância, o arguido, presidente do Centro Social de Silvares, tinha sido condenado a 90 dias de multa, à razão diária de 6,20 euros.
O tribunal deu como provado que, no dia dos factos, houve um conflito entre a Junta e o Centro Social, no decorrer do qual o arguido, dirigindo-se ao presidente da Junta, proferiu a expressão “vocês são uns palhaços, não sei como o povo vos escolheu”.
O arguido recorreu e a Relação, por acórdão, absolveu-o, considerando que aquela expressão “não excede a grosseria nem a falta de educação”, tratando-se “de um mero juízo de valor que não tem aptidão para atingir a honra e consideração do visado”.
O acórdão refere ainda que a palavra “palhaço” é polissémica e, quando isso acontece, o tribunal "não tem de acolher o significado atribuído pelo visado tão-só por se ter considerado ofendido”.
Diz ainda que “é próprio da vida em sociedade haver alguma conflitualidade entre as pessoas”, sendo “normal” que a animosidade resultante dessas situações tenha expressão ao nível da linguagem. “Uma pessoa que se sente incomodada por outra pode compreensivelmente manifestar o seu descontentamento através de palavras azedas, acintosas ou agressivas. E o Direito não pode intervir sempre que a linguagem utilizada incomoda ou fere susceptibilidades do visado”, lê-se ainda no acórdão.
Sublinha ainda que o Direito só pode intervir “quando é atingido o núcleo essencial de qualidades morais que devem existir para que a pessoa tenha apreço por si própria e não se sinta desprezada pelos outros”. “Se assim não fosse, a vida em sociedade seria impossível. E o Direito seria fonte de conflitos, em vez de garantir a paz social, que é a sua função”, remata.
Ufa! Já muita gente pode respirar de alívio quando mima muitos dos políticos com estes adjetivos polissémicos, como é frequente na blogosfera e nas redes sociais…
Provavelmente por saber isto, Cavaco Silva desistiu do processo contra Miguel Sousa Tavares, que não precisou do conselho de Rui Zink, quando lhe sugeriu substituir ‘palhaço’ por ‘Palhácio’ de Belém.
A mesma sorte não teve o responsável pelo guia Porto Menu, ao colocar na capa da revista "Rio és um fdp", mesmo explicando que não significava mais do que “Fanático dos Popós”, no que a juíza não concordou.
Há uma coisa que no caso tem prevalência, já que não se pode considerar como insulto a atribuir uma classificação profissional diferente ao nosso interlocutor…
Por outro lado, pode-se concluir que é mais complicado, como perjúrio, usar siglas em vez do nome próprio…
Fica o aviso e o conselho!

Contramaré… 11 mar.

A dívida mundial atingiu um record de 100.000 milhões de dólares (cerca de 72.000 milhões de euros) no último ano. Foi desde 2007 que se registou um aumento de 40% nesta dívida, passando de 70.000 milhões de dólares para 100.000 milhões.
Relativamente às taxas de juro, estas sofreram um recuo de 4,8% em 2007 para uma média de 2% no ano passado, segundo dados divulgados pela Bloomberg.

segunda-feira, 10 de março de 2014

É a evolução para o revivalismo como modo-de-vida…

Há pelo menos uma empresa a ganhar à grande com o regresso da marmita: a Tupperware. No ano passado, as vendas da marca de embalagens, que teve o seu boom nos anos 50, cresceram 19%. “Portugal cresce a 2 dígitos há 3 anos consecutivos. É crescimento em cima de crescimento”, diz António Gil, diretor da Tupperware para Portugal e Espanha.
A vida dos portugueses mudou muito com a crise económica. Mas o que os restaurantes perderam com muitas pessoas a evitar almoçar fora diariamente - a quebra na faturação da restauração foi de quase 30%, entre 2009 e 2012 -, a Tupperware ganhou, com a moda de levar o almoço de casa para o trabalho.
Para este ano, a perspetiva também é positiva. A marca de recipientes plásticos coloridos para guardar alimentos entrou com o pé direito em 2014: um crescimento de 21% nas vendas em janeiro, em relação ao mesmo mês de 2013. As mudanças também são fáceis de comprovar: o regresso em força da marmita é visível nos transportes públicos e nas empresas.
“As pessoas preocupam-se cada vez mais em economizar, em poupar. Por isso, há mais gente a transportar o seu almoço para o local de trabalho”, confirma o diretor ibérico da Tupperware.
Num período de apenas 3 anos, o número de pessoas a levar a marmita para o trabalho aumentou mais de 10%. Em 2012, 40% dos portugueses levavam o almoço, contra os 27% registados em 2009, segundo uma sondagem realizada pelo Kantar Worldpanel.
Outro dado que demonstra o aumento de refeições cozinhadas em casa são os gastos com alimentação. Os portugueses gastaram em média 1.835 euros nos supermercados em 2012, mais 135 euros do que em 2010, com 80% destas compras a destinar-se à alimentação, diz a Kantar.
A Marmita, que faz distribuição de almoços, começou pelo centro de Lisboa, hoje já servem na Grande Lisboa.
"O sucesso das marmitas não está só relacionado com a poupança. Poupar dinheiro é importante, mas a opção também tem que ver com comer comida saudável e com não perder tempo. Num restaurante gasta-se a hora de almoço inteira. Com a marmita, sobra tempo para relaxar, passear, dar uma volta, descansar. A comida é muito boa, por isso faz todo o sentido. Ainda por cima vamos levar à porta e as pessoas não precisam de cozinhar", explica o empresário, Carlos Caneiras.
Por 3,99 € cada prato, os clientes têm à escolha 5 pratos fixos diferentes e uma ementa semanal, sempre distinta. Além dos pratos à escolha, os clientes têm a possibilidade de escolher saladas a gosto, com 5 ingredientes, por 3,49 €.
Nasci numa família “menos favorecida”, com uma parte ligada ao mar e outra à indústria de panificação, já lá vão uns aninhos…
Desce cedo percebi (ou me enganei), que a criação de riqueza nasce do trabalho e que quanto mais duro menos se ganha, por não haver tempo para se ganhar dinheiro…
Vem isto a propósito das marmitas, que há 50 anos eram o “comer nosso de cada dia” em quase todas as classes operárias mais pobres, mas que no meu caso tinha a ver com a atividade piscatória do meu avô. E lembro- me, que a minha avó tinha que se levantar à 4 horas da manhã, para “fazer o comer” para o meu avô levar para o mar, encaixotando-o depois numa marmita de alumínio, forrava-a com jornais, enfiava-a num saco e depois num baú, para manter a temperatura… E às 5 da manhã, lá ia o meu avô com um companheiro, mar fora, num barquito de 4 a 5 metros, remando ambos até se perderem de vista e voltarem se Deus quisesse…
Passaram-se 50 anos e entretanto as marmitas transformaram-se em peças de museus de etnografia e antropologia social. Fruto do desenvolvimento económico e de condições de vida mais digno e consentâneas com novos hábitos, não só os trabalhadores menos remunerados, mas sobretudo os da classe média, começaram a almoçarem em restaurantes, com direito a subsídio de refeição e tudo, que se mantém (ainda), nos 4,27 euros, quer para os trabalhadores do setor público, quer do privado.
Chegada a crise, por razões diversas, os nossos filhos, que já não pertencem às classes “mais desfavorecidas”, são obrigados a recorrer, de novo, à marmita, com a “vantagem” dos micro-ondas libertarem as mulheres ou as mães a levantarem-se tão cedo, mas a recuperar a liturgia dos pobres de décadas atrás…
E pronto! O país progrediu, está (muito) melhor só que os hábitos dos portugueses estão a recuar 50 anos, para já, como estão a recuar os direitos, e dizem-nos que este é o modelo que o futuro nos oferece, aqueles que nunca viram uma marmita e comem em restaurantes de luxo…
É a evolução para o revivalismo, que não é moda, mas um modo-de-vida…
É a evolução liberal!
Nota – Parece que outra nota da evolução dos nossos dias é a exigência de carro e telefone próprio para admissão de trabalhadores, seja no privado ou no público, que é mais uma prova da involução dos necessitados para aumentar os proveitos dos que necessitam…

Ecos da blogosfera - 10 mar.

Mais produtividade! E ninguém fala de melhor salário?

O ex-ministro da Economia e atual presidente do Conselho de Administração da Fundação de Serralves, Luís Braga da Cruz, considerou que a produtividade nacional só aumentará quando alterarmos "a nossa especialização produtiva". "A falta de produtividade não significa menor aplicação de cada trabalhador no seu posto de trabalho. Não é preciso trabalhar mais depressa na máquina ou no computador, o que é necessário é mudar a nossa especialização produtiva", afirmou Braga da Cruz.
Aumentar a produtividade "é justamente darmos mais valor àquilo que fazemos, portanto mudarmos de paradigma. E isso reclama gente bem qualificada, reclama investimento e reclama organização. É necessário atuar em todas essas frentes", defendeu. Assim, frisou, "só aumentamos a produtividade quando mudarmos o perfil daquilo que fazemos, quando nos especializarmos, quando integrarmos mais tecnologia, mais inovação e quando valorizarmos mais o conhecimento. Isso é garantir os fatores de competitividade que se prendem com a qualificação das pessoas e com a capacidade dos empresários fazerem diferente. Só depois disso é que a produtividade aumenta".
Luís Braga da Cruz comentava declarações do presidente do Conselho de Administração da Sonae, Belmiro de Azevedo, sobre este assunto, que afirmou que os salários em Portugal só podem aumentar quando os trabalhadores tiverem a mesma produtividade que, por exemplo, os alemães.
Já lemos Belmiro de Azevedo dizer que temos que produzir mais, sem se referir a uma contrapartida igual no que aos salários diz respeito, até dentro do “paradigma” da meritocracia…
Já lemos Nicolau Santos dizer que o défice de produtividade nacional se deve mais aos empresários do que aos operários, sem se referir a uma contrapartida correspondente no que aos salários diz respeito…
Agora vem Braga da Cruz dizer que o aumento da produtividade tem a ver com a nossa especialização produtiva (seja lá o que isso for), sem referir uma palavrinha no que aos salários diz respeito, como contrapartida ao tal aumento da tal produtividade…
Um empresário, um economista e um administrador, apresentam 3 razões e 3 soluções diferentes e provavelmente complementares, mas, curiosamente, nenhum deles fala em aumentar salários, enquanto os salários vão baixando. Curioso…
Cada vez mais tem razão quem defendia e defende que “se deve trabalhar conforme o que se ganha” e que deve ser a solução mais eficaz para tão “complicado” problema…

Contramaré… 10 mar.

A EDP Renováveis gastou o ano passado cerca de 2.600.000 de euros com as remunerações dos seus administradores, segundo o Relatório do Governo da Sociedade hoje divulgado.
O lucro da EDP Renováveis (EDPR) cresceu 7% em 2013, face a 2012, para 135.100.000 de euros.

domingo, 9 de março de 2014

Viver toda a vida de apoios sociais é perversão política

Há dias assisti ao evento "Empreendedorismo e Inovação Social como Instrumento para a Inclusão", no âmbito do Projeto Europeu "I.G.A. – Inter Gera Ação", na Escola Superior de Estudos Industriais e de Gestão (ESEIG/IPP), em conjunto com a Escola Superior de Tecnologias da Saúde do Porto (ESTSP/IPP) e a Santa Casa da Misericórdia do Porto, em que um dos intervenientes foi precisamente António Tavares, Provedor da SCMP. Sublinho que foi o único “crítico” do sistema, mesmo sem por em causa, diretamente, a estrutura social e política em que nos enfiaram para depois se tentar comprometer o cidadão comum a resolver, por si, os efeitos colaterais da estratégia política/ideológica.
Nem uma nota para o 1.º Setor (o Estado) e as suas obrigações (sociais) com os contribuintes, que descarta. Nem uma palavra sobre o 2.º Setor (as empresas) e as suas obrigações contratuais, que descarta. Falou-se apenas do 3.º Setor (as instituições sociais e os cidadãos anónimos), sem se informar que tem como “missão”, preencher, “solidariamente”, os cortes nas obrigações sociais dos outros 2 setores, transferindo-as para a “sociedade civil”.
Omitiram-se assim os grandes e únicos responsáveis pela situação social que vivemos, omitindo as obrigações de uns e outros e as razões da quebra dos compromissos constitucionais e laborais. Quem faz pobres deve sustentá-los, num tempo limitado, e procurar as soluções para uma sociedade equilibrada e justa.
Se o 3.º Setor tem o dever de intervir nas emergências, só o deve fazer de livre iniciativa, autonomamente do poder, começando o seu papel pela reivindicação do cumprimento do contrato social… Tudo o mais é sedativo.
Nesta entrevista subentendem-se reparos e vê-se o apontar, tímido, do dedo:
António Tavares, Provedor da Santa Casa da Misericórdia do Porto, cuja instituição completa 515 anos na próxima sexta-feira, fala do aumento dos pedidos de apoio e critica o atual modelo social e os cortes nas pensões que estão a tirar a esperança de vida dos idosos.
Quantas pessoas pedem diariamente ajuda à SCMP?
Nós temos cerca de 1.300 pessoas a pedir ajuda diariamente à SCMP. São pessoas com vários perfis, crianças, jovens, idosos, vítimas de violência doméstica, portadores de deficiência. Todos os dias, há 10, 15 novos pedidos. Casos de pobreza envergonhada que esta crise revelou, geralmente da classe média baixa, que, devido ao desemprego e cortes nas pensões, precisam de ajuda, alimentação na maioria dos casos. Há pessoas que fazem pedidos pontuais, como as que recorrem ao banco do vestuário; outras precisam de apoio mais continuado, como as que ficam sem alojamento. O Centro de Acolhimento Social D. Manuel Martins, inaugurado há um ano com capacidade para 40 pessoas, tem estado sempre cheio.  
Os pedidos estão a aumentar? 
Sim. Todos os dias há novos pedidos. O desemprego, principalmente o desemprego estrutural, está a atirar muitas pessoas para a margem do sistema. E é preciso encontrar novas soluções para problemas como a violência doméstica, que está a aumentar. Vamos inaugurar, dia 21, a Casa Bento XVI, um equipamento inovador porque vai dar resposta à fase de autonomia, depois de passada a fase de transição. 
Perante este acréscimo de pedidos, as instituições estão a conseguir dar resposta ou têm também dificuldades? 
Dificuldades económicas existem e o Estado, ao fazer cortes nos apoios, também contribuiu para essas dificuldades. Estou convicto de que ninguém fica de fora porque as instituições estão a fazer um grande esforço, demonstram uma grande elasticidade, para dar respostas 
Esse esforço está no limite? 
Estamos no limite, que é a necessidade de alterar o modelo social, passando a intervir na prevenção e não apenas na cura, investindo mais, por exemplo, na educação e na formação. É preciso uma nova geração de políticas sociais, em que as instituições e as misericórdias sejam os parceiros de eleição. O que defendo é o Estado e a sociedade civil no mesmo ponto de equilíbrio institucional. Não compete ao Estado gerir todos os equipamentos sociais, que podem ser mais bem geridos pelas instituições. Hoje, no Governo, há a vontade de partilha de soluções integradas que respondam aos problemas das pessoas, porque viver permanentemente de apoios sociais não é solução. Portugal tem feito um grande investimento em apoios sociais, mas não se vê frutos dessas políticas.  
A atual situação é de emergência social? 
Só é de emergência social por causa do desemprego. Se voltarmos a ter a taxa de desemprego num nível controlado - 15% é muito elevado -, esta situação de emergência social não fará sentido. 
Concorda com os cortes, nomeadamente nas reformas?
Não, claro que não, até porque estamos a falar de dinheiro privado. Quando se fala da sustentabilidade da Segurança Social é porque alguém fez mal as contas. Quando se corta uma pensão a uma idosa de 80 anos, estamos acima de tudo a cortar-lhe a esperança de vida. É preciso reformular o sistema para que as novas gerações não venham a sofrer o mesmo problema. A sociedade portuguesa está doente e há um défice de coragem na classe política para fazer as reformas necessárias.
E de sensibilidade social?
O discurso social está na agenda, mas é preciso dinheiro e o dinheiro não existe porque não há coragem para fazer a reforma social. Dizer às pessoas para trabalharem até aos 65 anos para terem uma reforma e depois cortarem-na, é uma violação do princípio da confiança. Pior do que isso é ter pessoas com 50 anos, que dificilmente voltarão ao mercado de trabalho, e ainda lhes pedir que trabalhem mais tempo. Temos uma sociedade a duas velocidades. Aqui não vemos as pessoas a baterem tachos na rua, como na Venezuela, porque temos outra educação, outra matriz democrática.
A situação social justificava outro tipo de manifestação?
Se não houvesse bom senso, talvez. Até os polícias se manifestaram. É uma crise que toca toda a sociedade. Não temos tradição de ruturas violentas. Mas acredito que esta capacidade de resistência vai precisar de um discurso social pós-troika, muito incisivo. A senhora Lagarde defendeu o alívio da carga fiscal sobre o trabalho. Eu pergunto como isso é possível se temos de pagar a dívida. Tivéssemos recursos naturais que interessassem à Alemanha e de certeza que não teríamos chegado aos extremos cortes salariais e de pensões.
Sobre o empreendedorismo em geral, leia um post recentemente revisitado, que vem a propósito:

Ecos da blogosfera - 9 mar.