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quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Não andam, crescem como cogumelos, venenosos…

Portugal é um país corrupto? Bem, é mais do que devia, mas menos do que a maioria dos países. Isto é quase um slogan, mas é a mais pura das verdades. Estar em 33º lugar é mau, porque se está ao nível do Butão e do Porto Rico; é menos mau, porque ainda assim se está acima de muitos países da Europa, como a Itália, a Grécia, a República Checa, etc.
A verdade é que os portugueses acham o seu país, provavelmente, ainda mais corrupto do que ele é. E têm razão para isso. Porque as leis não são claras, porque quase ninguém vai preso (alô, alô, presidente Isaltino Morais), porque há gente que fica subitamente rica sem se perceber como. Mas convém lembrar uma coisa: a maior parte da corrupção deve-se à falta de autoridade do Estado, ao facto de este estar capturado por corporações que também cativaram os partidos políticos. Sempre que se fala em PPP ou em privatizações, muita gente se atira aos privados como se fossem eles a causa da corrupção. Não são. Ainda que muitos sejam corruptores, toda a fonte de corrupção está na forma como o Estado se relaciona com a sociedade. O crime de corrupção, aliás, só existe nos setores que vivem ou dependem de dinheiros públicos.
A mim preocupa-me que a diplomacia económica portuguesa tenha, nos últimos anos, e independentemente dos Governos, apostado tanto em países como a China, Angola e a Venezuela. Vejam o ranking que se publica aqui : a China está em 80º lugar; Angola é o 157º e a Venezuela o 165º. Em 174 países isto pode ter um significado. Portugal não está a tentar fazer negócios com os países mais reprodutivos, mas com aqueles onde é mais fácil ir buscar dinheiro e lavá-lo por cá. Será isso?  
Leis mais claras, justiça mais célere e implacável e opinião pública mais exigente. Só assim saberemos onde andam, verdadeiramente, os corruptos. É aliás esta a combinação dos países com menos corrupção no mundo.
Henrique Monteiro

Ecos da blogosfera – 5 dez.

Quantos menos formos, mais sobrará para cada um?

Há já alguns anos que a Alemanha se confronta com uma diminuição de natalidade recorde. Resultado de uma política familiar dispendiosa, excessiva e contraditória de que são vítimas sobretudo mulheres entre os 30 e os 40 anos.
Taxas referentes a 2009
Mulheres licenciadas na casa dos 40 e dos 50 anos e sem filhos: eis a encarnação de um fenómeno alemão acompanhado de perto pelos demógrafos. De facto, 20% dos alemães do ocidente nascidos entre 1960 e 1964 não têm filhos, 22% têm apenas um. E a probabilidade de não terem filhos aumenta cada vez mais com o nível de estudos. “1/4 dos licenciados do ensino superior não tem filhos, embora essa percentagem seja de apenas 15% nas que pararam de estudar no secundário”, resume Christian Schmidt, investigador do instituto económico berlinense DIW.
O fenómeno preocupa os círculos governamentais em Berlim, num contexto de rigor e redução das despesas públicas. Uma vez que são essencialmente as mulheres mais ricas que não têm filhos, enquanto o número de jovens oriundas de famílias pobres, que dependem de prestações sociais, esse, não para de aumentar. Muitas vezes, a imprensa alemã estigmatiza esses “Dinks” (double income, no kids, “dois rendimentos, sem filhos”), acusando-os de hedonismo e egoísmo. No entanto, a realidade é por vezes muito diferente.
Desolada aos 50 anos
Num artigo da revista feminina Brigitte intitulado “Demasiado velha para ter um filho?”, a jornalista Sabine Reichel descreve a evolução dos seus sentimentos enquanto mulher sem filhos: feminista dedicada aos 30, adepta da liberdade aos 40, desolada aos 50. “Nunca devemos abdicar de algo tão importante como um filho por razões aparentemente razoáveis”, afirma.
“A dimensão do fenómeno de mulheres entre os 40 e os 50 anos sem filhos é o fator decisivo que explica a fraca taxa de natalidade na Alemanha”, revela um relatório do Gabinete federal de estatísticas, publicado este ano. O país conta apenas com 8 nascimentos por cada 1.000 habitantes, a taxa mais baixa no mundo. Em 2011, foi atingido um novo recorde, com 663.000 nascimentos, menos 15.000 do que em 2010. Todos os anos, desde 1972, o saldo da natalidade é negativo, com 852.000 mortos. Apenas a imigração permitiu que a população alemã se mantivesse. A longo prazo, a Alemanha só poderá ter entre 65.000.000 a 70.000.000 de habitantes, em vez dos 81.500.000 do ano passado. “E o número de nascimentos vai continuar a diminuir, simplesmente porque o número de mulheres na idade de procriar diminuiu”, acrescenta Steffen Kröhnert, investigador do instituto berlinense para a população e o desenvolvimento. “Algo que acontecerá mesmo que o número de crianças por mulher aumente ligeiramente desde 2010, atingindo os 1,4 filhos por mulher em vez dos 1,39 anteriores.”
Esta ligeira subida da taxa de fecundidade é, por enquanto, o único efeito positivo da política familiar dispendiosa desenvolvida por fases após a era Helmut Kohl, no final dos anos 1990, substituindo a da época da guerra fria. Na RFA prevalecia o modelo “burguês” que confinava as mulheres à casa: não havia creche para os mais pequenos, os mais velhos estudavam a tempo parcial e, como se não bastasse, o regime fiscal incentivava os casamentos mas não os nascimentos. A RDA, por outro lado, era regida pelo sistema soviético: as mulheres trabalhavam, as crianças eram colocadas em creches ao dia ou à semana, a natalidade era promovida pela distribuição seletiva de habitações a jovens famílias. “A política familiar da Alemanha do ocidente bloqueou as evoluções sociais durante décadas”, considera Michaela Kreyenfeld, socióloga no Instituto Max-Planck, em Rostock. “Desde a queda do Muro, a queda da demografia tem vindo a ameaçar o equilíbrio dos orçamentos sociais.”
Política familiar das mais caras do mundo
Com um orçamento de €195.000 milhões por ano, a política familiar alemã é hoje uma das mais caras no mundo. Contém cerca de 160 medidas, cujo intuito é encorajar a natalidade, fornecendo nomeadamente um salário parental muito generoso (60% do salário, com um limite de €1.800 pagos durante os próximos 12 ou 14 meses após o nascimento de uma criança) e subsídios familiares de €250 por crianças e por mês. No entanto, estas medidas são por vezes contraditórias, devido aos conflitos entre as coligações no poder em Berlim. O CDU de Angela Merkel pode agora estar convencido de que é necessário promover o trabalho das mulheres, mas não é o caso do CSU, o seu aliado bávaro particularmente conservador. Assim sendo, o Governo apoia o desenvolvimento de meios de guarda de crianças (cada família terá direito a um lugar numa creche a partir do verão de 2013). Mas este instaurou também um subsídio para mães domésticas (€250 por mês, além dos subsídios familiares para estas últimas), cujo custo elevado deverá travar a construção de novas creches… “Querem incentivar as mulheres a trabalhar, mas não suprimem o regime fiscal muito desvantajoso para as mães ativas; querem criar mais creches, mas implementam um subsídio para mães domésticas”, lamenta Steffen Kröhnert. “Não há coerência.” E trava a evolução das mentalidades.
A grande maioria das alemãs está convencida de que o melhor meio de guarda de crianças com menos de 3 anos é permanecer exclusivamente com a sua mãe ou avó, como outrora. Estas têm a certeza de que, para ser uma boa mãe, é necessário abdicar dos seus sonhos profissionais. Contudo, as recém-licenciadas já não estão dispostas a fazer os mesmos sacrifícios consentidos pelas próprias mães.
Apesar de a análise se reportar à Alemanha, que com condições favoráveis à procriação tem os resultados negativos que regista, o mesmo se passa por toda a Europa, inclusive em Portugal.
Se tivermos em conta a diferença abismal de “regalias” de incentivo ao aumento da natalidade, oferecidas nos diferentes países e pelo que conhecemos da nossa comunidade, em que a taxa de natalidade é menor, as causas não se resumem, apenas, a mais ou menos creches, à vontade de as mulheres apostarem mais na carreira profissional, ou outras, mas sobretudo à estrutura social que se vai desenhando, fruto do economicismo cego, que não dá qualquer garantia de futuro, com o mínimo de dignidade.
Se tivermos em conta as taxas do desemprego (e crescente), se tivermos em conta o teto “máximo” estabelecido para a remuneração do trabalho (do “mileurismo” e até muito menos), se tivermos em conta as medidas de austeridade que se estendem aos países mais “ricos” (por conta dos mais pobres), se tivermos em conta as altas taxas de impostos (impostas à classe média) e se tivermos em conta o longo período de recessão que se prevê, só os inconscientes (é preciso uma mamã e um papá) se lembrarão de ter filhos, sabendo que o futuro que lhes está reservado é de limitado sucesso…
Estamos condenados a ser menos, para podermos ter melhor fortuna…

Contramaré… 5 dez.

Os dados da Eurostat revelam que, em Portugal, a população em risco de pobreza ou exclusão social caiu de 25,3% em 2010 para 24,4% em 2011. 
Em Portugal, 18% das pessoas estão em risco de pobreza, 8,3% sofrem de carências materiais, em que apenas um ou nenhum membro da família está empregado e 8,2% vive em lares. No total, 24,4% da população inseria-se, em 2011, nestes contextos.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Já nos chegava o Gaspar para aquecer as costas!

O presidente do Eurogrupo, Jean-Claude Juncker, garantiu que as novas regras acordadas para o empréstimo à Grécia serão também aplicadas a Portugal e Irlanda, os outros países sob assistência financeira.
Falando à saída de uma reunião na qual os ministros das Finanças da  zona euro decidiram prolongar o prazo de maturidade dos empréstimos do FEEF  à Grécia em 15 anos, Juncker, ao ser questionado por jornalistas  portugueses sobre se Portugal pode esperar idêntico tratamento, asseverou  que se empenhará pessoalmente em que tal aconteça, como fora acordado anteriormente.
Portugal esteve representado na longa reunião do Eurogrupo - de cerca  de 13 horas - pelo ministro das Finanças, Vítor Gaspar, que não prestou  declarações aos jornalistas.


Os ministros das Finanças da zona euro decidiram alongar em 15 anos o período de maturidade dos empréstimos do FEEF à Grécia e em 10 anos para os empréstimos bilaterais. Vítor Gaspar confirmou hoje que Portugal irá beneficiar destas medidas, tal como Jean Claude Juncker já tinha feito.
"Portugal e a Irlanda serão de acordo com o princípio de igualdade de tratamento, beneficiados pelas condições abertas no quadro do mecanismo europeu de estabilidade financeira", afirmou Vítor Gaspar, no discurso que encerrou o debate do OE2013.
Ao contrário do que disse o presidente do Eurogrupo, dificilmente Portugal e Irlanda beneficiarão das medidas decididas para a Grécia.
Portugal corre o risco de entrar em rota de colisão com os restantes países da zona euro se insistir em obter as mesmas concessões que foram esta semana decididas para o programa de ajuda à Grécia. "Quando se olha para as medidas, percebe-se porque é que não se aplicam a Portugal e Irlanda", sublinhou um alto responsável do Eurogrupo, que recusou explicitamente uma repetição dessa decisão, considerando que foi uma decisão excepcional e que em lado algum ficou dito que seria repetido.
Esta posição contraria igualmente a interpretação feita em Portugal tanto pelo ministro das Finanças como pelo primeiro-ministro na entrevista de quarta-feira passada à TVI, em que assumiram a mesma linha de Juncker.
Na reunião do Eurogrupo desta segunda-feira, o ministro das finanças português, Vítor Gaspar, terá que reclamar para Portugal as melhorias oferecidas à Grécia no quadro dos empréstimos europeus do fundo de resgate.
Em causa está uma pequena redução de juros (0,1%), a extensão de maturidades máximas até 45 anos e um período de carência para o pagamento de juros de 10 anos, o que na prática adia para a próxima década o serviço desta dívida junto dos nossos parceiros europeus.
O primeiro-ministro recordou que há uma parte do acordo, obtido há uma semana, que só tem aplicação à Grécia, como a melhoria das condições dos empréstimos bilaterais e um programa de recompra de dívida. Mas há outra que é feita no quadro do Fundo Europeu de Estabilidade Financeira, cujos créditos financiam o segundo resgate grego e os resgates português e irlandês, e onde “está definido que as condições essenciais de ajuda a estes países beneficiam de um princípio de igual tratamento”.
O presidente do Eurogrupo, Jean-Claude Juncker, disse, esta segunda-feira, acreditar que os ministros das Finanças da zona euro não estão preparados para dar a Portugal e à Irlanda as mesmas condições recentemente acordadas para o empréstimo grego.
Esta segunda-feira, Juncker disse que percebeu mal a questão que lhe foi colocada semana passada sobre a possibilidade de Portugal vir a beneficiar das mesmas condições do que a Grécia, salientando que o que quis dizer era que Portugal e a Irlanda não iam participar no novo programa grego.
O primeiro ministro do Luxemburgo, Jean-Claude Juncker, confirmou que vai deixar a presidência do Eurogrupo no final deste ano ou no início de 2013.
Já estamos habituados cá na parvónia, a ouvir os nossos governantes a dizerem uma coisa ontem, outra hoje e outra amanhã, em completa contradição e com a maior naturalidade possível, como se estivessem a falar de futebol e fosse natural… E pelos vistos, é!
Neste caso, de um outro primeiro-ministro, que acumula o cargo com a presidência do Eurogrupo usar o mesmo método, só quer dizer que a bitola dos governantes é a mesma e quem for coerente não tem lugar na política…
Ouvindo-se o vídeo (que não mente) alguém tem dúvidas sobre o que o Sr. Juncker disse? Alguém, inclusive ele, pode pensar que percebeu mal a questão que lhe foi colocada e mesmo se fosse, daria origem a uma resposta como a que deu? E para gozo, ainda tem a lata de dizer que queria dizer o contrário do que disse… E pode?
E lendo-se depois o desmentido (outra interpretação) de um alto responsável (mas não mais alto do que o presidente) do Eurogrupo, Juncker não terá sentido nenhuma revolta e vontade de confirmar o que havia dito, ou não tinha estudado o dossiê? Mas como vai deixar o lugar, quem vier atrás que resolva o imbróglio!
Ainda por cima, levou atrás das expectativas geradas o nosso Gaspar e o pm, que embora dizendo que não queriam “presentes”, alimentavam uma esperança de repartir com os bancos essa benesse…
Finalmente, de tanto se andar a dizer que não somos a Grécia (ainda), deu-se ao Eurogrupo a ocasião para desdizer o que o seu presidente dissera e lerpamos...
A verdade é uma (para nós), a incoerência, a impreparação e o “cataventismo” é geral, contagiosa através de simples cumprimentos de mão, sobretudo nas várias Cimeiras europeias seja a agenda qual for…
Já tínhamos por cá o Gaspar a aquecer-nos as costas, quando nos aparece um Juncker para ajudar a esfolá-las…
Com amigos destes…
Atualizado às 9:40 de 05-12-2012
José repete isso agora, muito, mas mesmo muito devagar, para o Gaspar entender

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Ecos da blogosfera – 4 dez.

Pois não! É o que se chama de “Convergência Política”

O recente, mas insistente discurso de Álvaro Santos Pereira sobre a urgência da reindustrialização do país fez-me voltar atrás mais de 30 anos, às aulas da professora Lígia.
Sílvia de Oliveira
No final dos anos 70, a minha professora primária apresentava-nos um país onde a agricultura, a indústria e os serviços tinham, mais coisa menos coisa, o mesmo peso na economia. Ou seja, o setor primário ainda pesava mais de 30% e o setor terciário ainda só pesava cerca de 30%. 
Estes dados só tinham, naquela sala de aula, um objetivo: mostrar como Portugal, em comparação com outros países muito mais desenvolvidos, ainda tinha muita gente a trabalhar no campo e nas fábricas e quase ninguém nos serviços, nos bancos ou no comércio. Por outras palavras, a professora Lígia apresentava-nos, a nós miúdos da escola primária, um triste fado, um país do passado, onde o peso da agricultura e da indústria mais não era do que um sinal de atraso, mas também um desafio, o da terciarização como única via para o desenvolvimento.
Hoje, 30 e tal anos depois, o vaticínio (infelizmente) confirma-se. Em 2010, a população empregada no setor primário já era inferior a 11%, era de mais de 60% no setor terciário e de apenas 27% no setor secundário. Mas a desindustrialização e a supremacia dos serviços em relação à indústria surgia, há 30 anos, associada a uma evolução da economia portuguesa para níveis de desenvolvimento superiores, uma teoria que, verifica-se agora, não podia estar mais errada. 
A crise económica pôs a nu as fragilidades do modelo de crescimento português, aliás, a atual cise económica foi o detonador do debate sobre a necessidade de reindustrializar o país, de devolver à indústria o papel de motor da economia e de gerador de emprego. 
A política industrial voltou ao topo da agenda na Europa e agora, também em Portugal, o Governo, através do ministro da Economia, aparece empenhado em ressuscitar das profundezas a indústria nacional. Mas falar é fácil. Nos últimos 20 anos, com a adesão de Portugal à moeda única, o peso da indústria no PIB esfumou-se e só na última década perderam-se mais de 100.000 empregos. Uma situação que, no atual contexto, de descapitalização das empresas e de escassez de empresários, só tende a piorar. Esta é a verdadeira reforma que Portugal precisa fazer e o Governo devia empenhar-se em mostrar isso, desde já, à troika. Um país não se reindustrializa em meia dúzia de anos e já chega de perder tempo, porque, como bem disse o meu professor João Ferreira do Amaral, um país não pode sobreviver assim.

À primeira até parece “lêgal”, mas levarem-nos o ouro?

No dia 29 de novembro, a Comissão dos Assuntos Económicos e Monetários do Parlamento Europeu aprovou a posição da assembleia sobre a supervisão do sistema bancário europeu. Esse documento servirá de base às negociações com os Estados-membros, permitindo ao Conselho de Ministros das Finanças, em 4 de dezembro, adotar um texto sobre a união bancária. É uma questão que o vice-presidente do Parlamento, Gianni Pittella, tem acompanhado de perto. Nesta entrevista, concedida na véspera da votação da Comissão, fala sobre o assunto ao Presseurop.
Presseurop – Em que ponto estamos, em matéria de união e supervisão bancária?
Gianni Pittella – Berlim não queria que o BCE pudesse exercer controlo sobre os bancos menos importantes, e em especial sobre os quase 1.600 “Landesbanken” (bancos regionais) e caixas económicas alemãs. Mas chegámos a um compromisso: a comissão de supervisão do BCE exercerá as suas competências sobre os bancos nacionais e aqueles cuja falência poderia causar um risco sistémico, para além dos que tenham solicitado ajuda financeira para superarem as suas dificuldades. As autoridades bancárias nacionais ficam com a supervisão sobre outros bancos. Mas o BCE terá a possibilidade, se considerar necessário, de também se debruçar sobre alguns, caso a caso. Ao Parlamento cabe garantir que não haja conflitos de interesses entre a autoridade de controlo e os bancos controlados. Uma questão sensível, em especial devido à extrema permeabilidade do setor bancário. Para além disso, decidimos que o presidente e o vice-presidente da comissão de fiscalização devem ser eleitos após aprovação pelo Parlamento Europeu – como o próprio presidente do BCE, aliás –, para garantir o controlo democrático do organismo. Vamos também requerer que a comissão de supervisão esteja em contacto permanente com a Comissão dos Assuntos Económicos e Monetários do Parlamento. Quanto à entrada em vigor, esperamos que o Conselho aprove o documento na cimeira de 13 e 14 de dezembro, de modo a que a supervisão entre gradualmente em funcionamento no início de 2013.
Uma vez aprovada essa comissão de supervisão bancária, quais as etapas para chegarmos a uma verdadeira união bancária?
Há ainda alguns passos a dar, nomeadamente em matéria de harmonização de regulamentos sobre depósitos bancários. Mas o mais importante é realmente a supervisão. É uma verdadeira revolução: passamos de 27 supervisores nacionais – algo absolutamente contraditório na Europa, onde há bancos supranacionais, uma real desvantagem – para um único. Não seria possível evitar novas crises bancárias mantendo o sistema atual.
A instituição de uma supervisão bancária única tem ainda a vantagem de encetar um círculo virtuoso: se fizermos a união bancária, podemos fazer a união económica e fiscal. E daí passamos à união política. Porque não faz sentido partilhar ao nível da UE os aspetos económicos e financeiros, e não o aspeto político.
Acredita na união política?
Sim! Apesar de haver resistências que devemos esforçar-nos por superar. E espero que, a partir de 2014, data das próximas eleições europeias, possamos instituir uma nova Convenção Europeia, que dote a União com novas regras no plano político e que fixe o quadro da futura união política.
Acha que o Parlamento tem um papel a desempenhar na vida económica da União e na busca de soluções para a crise económica?
Com o Tratado de Lisboa, o Parlamento tornou-se codecisor. Penso que, dentro de alguns anos, se tornará uma verdadeira câmara legislativa. A prazo, a verdadeira câmara legislativa da União Europeia deverá ser o Parlamento. Hoje, queremos fazer ouvir as nossas vozes sobre a forma de gerir a crise. Lutamos para fazer ouvir aos arautos da austeridade que todas as análises confirmam que os efeitos de uma política baseada apenas na austeridade são devastadores: a dívida pública não recua, a recessão instala-se, o desemprego aumenta, a procura interna retrai-se, a Europa perde competitividade internacional e as previsões de um retorno ao crescimento dizem que só em 2014.
Tem propostas alternativas?
É preciso virar já a página da austeridade. É hora de investir. Queremos um plano europeu de crescimento, coesão social e desenvolvimento sustentável. Um plano baseado no financiamento de redes de infraestruturas materiais e imateriais. Das primeiras fazem parte as redes ferroviárias, de energia, telemáticas e as energias renováveis. As segundas incluem educação, formação, investigação e mobilidade da juventude. É um plano de centenas de milhares de milhões de euros, que temos de pôr em prática rapidamente.
E onde pensa arranjar esses milhares de milhões de euros, quando os Estados-membros enfrentam cortes orçamentais por vezes enormes, por falta de dinheiro?
Precisamos de criar títulos de tesouro europeus – as famosas euro-obrigações –, para reunir cerca de três biliões de euros. Esse montante, não fui eu que o inventei: foram economistas liderados pelo [ex-presidente da Comissão Europeia] Romano Prodi e o [economista italiano] Alberto Quadro Curzio. 2,3 biliões seriam para a mutualização da dívida europeia, tratando, pois, de reduzi-la; os 700 mil milhões restantes seriam usados para financiar o plano de investimentos. Temos de dizer a Angela Merkel e aos cidadãos alemães: "Vejam, o lançamento destas euro-obrigações não vos vão custar um cêntimo, porque a garantia das euro-obrigações é fornecida pelas reservas de ouro dos Estados-membros e pelo seu património público".
Os Estados podem assegurar simultaneamente a sua própria dívida pública e uma possível dívida europeia?

Contramaré… 4 dez.

Desde o inicio do ano já desapareceram 5.808 empresas, mais 1.730 do que no mesmo período do ano passado e mais 2.172 do que no ano anterior. Feitas as contas, em média, 25 empresas por dia recorrem aos tribunais para pedir insolvência. O número de empresas em dificuldade aumentou já 42,42%.
O comércio é o sector que apresenta maiores problemas, com 1.535 pedidos de insolvência até finais de novembro. A construção e o imobiliário já atiraram para o desemprego uma média de 430 trabalhadores por dia, sendo que o sector já perdeu, só no último ano, 110.000 empregos.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

O Papa é de esquerda (radical) e contestatário…

Bento XVI deixou críticas aos que consideram os trabalhadores como um “bem menor” e alertou para as consequências do que classificou como “economicismo tecnocrático” na cultura contemporânea.
“Novas ideologias - como a egoísta e hedonística dos direitos sexuais e reprodutivos ou a de um capitalismo financeiro desregulado que prevarica sobre a política e desestrutura a economia real – contribuem para considerar o trabalhador dependente e o seu trabalho como bens ‘menores’ e a minar os fundamentos naturais da sociedade”, disse o Papa, durante uma audiência aos membros do Conselho Pontifício Justiça e Paz (CPJP).
Segundo Bento XVI, as pessoas estão a ser consideradas uma chave “prevalentemente biológica” ou como “capital humano”, um recurso que faz parte de uma “engrenagem produtiva ou financeira”. "Embora a defesa dos direitos tenha feito grandes progressos no nosso tempo, a cultura de hoje, caracterizada, entre outros, por um individualismo utilitarista e um economicismo tecnocrático, tende a desvalorizar a pessoa", alertou.
O Papa recordou que para a Igreja Católica o trabalho é um “bem fundamental” e que o acesso ao emprego deve ser tido como “prioritário”, mesmo nos períodos de recessão económica.
O Papa regressou à ideia de uma autoridade política mundial, não como um “superpoder concentrado nas mãos de poucos”, mas como uma “força moral”, a que já tinha aludido na sua encíclica ‘Caritas in veritate’ (2009).
Numa mensagem dirigida aos membros do Conselho Pontifício dos trabalhadores de saúde, recebidos em audiência papal, Bento XVI mostrou preocupação relativamente aos tempos de crise económica, que estão a levar “à diminuição de recursos disponíveis para o setor da saúde”.
O Papa exortou assim os hospitais e as estruturas de assistência que evitem que “a saúde deixe de ser um bem universal, que se deve assegurar e defender, para passar a ser uma mera mercadoria, sujeita às leis do mercado e reservado apenas a alguns”.
“Não podem ser esquecidos os cuidados necessários à dignidade das pessoas que sofrem, aplicando também os princípios de subsidiariedade e de solidariedade no campo das políticas de saúde”, acrescentou.
O papa lamentou ainda que ao mesmo tempo que aumentam os progressos técnicos e científicos, que aumenta também a capacidade de tratar os doentes, “pareça diminuir a capacidade de tratar as pessoas que sofrem”.
“Parece que se ofuscam os horizontes éticos da ciência médica, que corre o risco de esquecer que a sua vocação é servir a humanidade”, acrescentou.
Bento XVI lembrou ainda que os médicos e todos os profissionais de saúde precisam de “uma vocação especial”, pois não se trata de um emprego como os outros. E, por isso, disse acreditar que agora “mais do que nunca a sociedade precisa de bons samaritanos, de coração generoso e braços abertos”.
Mesmo para quem não é “muito católico”, a palavra do Papa tem o peso que tem e as ideias que defende tem que defender sempre os mais fracos e explorados, logicamente!
Mas na verdade, nos dias que correm e na ideologia emergente, os trabalhadores nem são considerados um “bem menor”, mas, infelizmente, como sem eles não é possível que os “outros” consigam amealhar algum, são tolerados como um “mal maior”…
Não deixa de ficar confuso misturar-se comportamentos sociais com práticas ideológicas, mas separando-se as coisas, é fácil concordar com o reinado do economicismo tecnocrático e que está na origem dos “pecados” denunciados…
E não é só para a Igreja Católica que o trabalho é um bem fundamental para a realização pessoal e que o emprego tem que ser prioritário, para qualquer governo, de qualquer país, com ou sem qualquer religião…
O problema, claro, é o superpoder concentrado nas mãos de poucos, não eleitos ou eleitos enganando os eleitores, que se dispõem a servir os mais fortes com “maiores bens”…
É evidente que no seguimento dos mesmos princípios defendidos pela Igreja, Bento XVI tinha que falar do direito à saúde dos cidadãos, por mera questão de dignidade, nos avanços tecnológicos que deveriam facilitar os tratamentos e reduzir a dor, bem como da consciência social que deve ser inerente aos profissionais da saúde.
Mas, a diminuição das verbas para o setor da saúde feita por quase todos os governos e em simultâneo o consequente empurrão para o setor privado da saúde, torna-a uma mera mercadoria, sujeita às leis do mercado (sem a concorrência do público), que resultará em benefício apenas de alguns, logicamente com “bens maiores”…
Seguramente que o Papa não estava a pensar em Portugal (eu estou), porque todos estes “valores” vão contaminando a prática governativa, até de partidos democrata-cristãos que exercem o poder… O Paulo Portas é que deve ter ficado baralhado!
No fim de se ler esta contestação, que na essência tem sido divisa dos partidos de esquerda (radical), até parece que o Papa se radicalizou, “para mal dos pecados” dos que querem chegar ao céu através da política…
Já lá vai o tempo de os párocos de aldeia sugerirem o voto em determinados partidos, para assistirmos à denúncia de más medidas políticas, agora feitas por entidades da Igreja, nacionais, e como se vê até pelo seu mais alto dignitário…
Mudam-se os tempos, mantém-se a vontade!