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sábado, 28 de abril de 2012

Contramaré… 28 abr.

O presidente da EDP, António Mexia, teve conhecimento do estudo sobre as rendas excessivas encomendado pelo Governo "horas depois" de o ministro da Economia o ter entregue ao Executivo, denunciou o ex-secretário de Estado da Energia, Henrique Gomes.
Quatro dias antes da demissão do secretário de Estado, António Mexia criticou o estudo encomendado pelo Governo sobre as rendas excessivas às empresas produtoras de eletricidade, considerando que "tem erros grosseiros, básicos que o tornam inútil e inutilizável".

Porque a redução da pobreza também passa por aqui…

A escolha de um sucessor para Robert Zoellick, no cargo de presidente do Banco Mundial supostamente daria início a uma nova era de abertura à competição meritocrática, quebrando assim o tradicional domínio que os Estados Unidos têm no cargo.
Jagdish Bhagwati*
De facto, a nomeação de Robert Zoellick foi amplamente considerada, a partir desta perspectiva, como "ilegal". Mas o presidente norte-americano, Barack Obama acabou por desapontar o mundo - de forma ainda mais angustiante - com a nomeação de Jim Yong Kim para o cargo.
Para começar devia ser claro que a candidata mais notável - Ngozi Okonjo-Iweala – estava já próxima. Ela tinha credenciais impressionantes: uma especialização em economia em Harvard e no MIT, experiência de trabalho numa ampla variedade de questões de desenvolvimento enquanto directora-geral do Banco Mundial e uma passagem pelo Ministério das Finanças e dos Negócios Estrangeiros da Nigéria. (Ela tem demonstrado também qualidades raras: uma grande vontade para combater a corrupção à custa do seu próprio trabalho).
Além disso, Okonjo-Iweala é espirituosa e articulada e não tem problemas em aceitar maus argumentos. Ela era a candidata de sonho para liderar o Banco Mundial.
O que nos diz a escolha de Obama sobre a sua sincera retórica feminista? Será que ele traça as linhas onde mais lhe convém? De facto, se Obama e os seus conselheiros não apoiaram Okonjo-Iweala por ela não ser americana, certamente podiam ter nomeado uma mulher norte-americana que seria muito superior a Kim para desempenhar o cargo.
E pelo menos duas surgem na minha mente: Laura Tyson (antiga estudante do MIT), que presidiu ao Conselho de Conselheiros Económicos na presidência de Bill Clinton e Lael Brainard, que é uma estudiosa extraordinária e que, neste momento, trabalha para a secretaria do Tesouro para as Relações Internacionais.
Talvez Obama acreditasse que ao escolher Kim, um americano de origem coreana e especialista em saúde pública, actualmente presidente da Faculdade de Dartmouth, poderia dar um impulso na sua agenda para a segurança com o Seul [Coreia do Sul] (onde Obama aterrou logo após ter sido anunciada a nomeação de Kim), bem como a agenda económica, com a Ásia, a médio-prazo. Mas qualquer um pode perguntar: o que é bom para os Estados Unidos é, necessariamente, bom para o mundo?
Na mesma linha, o apoio americano para que Ban Ki-moon fosse nomeado secretário-geral das Nações Unidas deu aos Estados Unidos o que eles pretendiam, em termos de questões económicas internacionais. Enquanto o antecessor de Ban Ki-moon, Kofi Annan, era suficientemente independente para apoiar os esforços para concluir a Ronda de Doha sobre as transacções comerciais e promover um pacto mundial sobre a imigração (eu aconselhei-o em ambos os casos), a Administração Obama afastou-se desses assuntos. Tal como Ban Ki-moon.
Mas talvez o factor mais determinante na escolha de Barack Obama parece ter sido um mal-entendido sobre aquilo que o "desenvolvimento" exige. Micro-políticas como os cuidados de saúde são, para a administração Obama, o exemplo do que deve ser uma política de desenvolvimento. Mas políticas de nível macro, como a liberalização do comércio e do investimento, privatizações, e assim por diante, são fortes instrumentos de redução da pobreza: de facto, eles estão entre os principais componentes das reformas que países como a Índia e a China abraçaram em meados da década de 1980 e no início da década de 1990.
Essas reformas tiraram esses países da estagnação e impulsionaram o crescimento. Os lobbies anti-reformistas reagiram argumentando que a pobreza e as desigualdades pioraram. Mas os novos estudos empíricos mostram o contrário: o crescimento das economias beneficia os pobres não porque a riqueza “desce” mas porque o crescimento "puxa" os que estão no fundo.
De facto, é a rápida aceleração do crescimento económico nos principais países emergentes que reduz a pobreza, não apenas directamente - através do emprego e de rendimentos mais altos - mas também através da geração de receitas governamentais necessárias para apoiar o sistema de saúde público, a educação e outros programas que sustentem a redução da pobreza – e o crescimento – a longo prazo. A Índia seguiu este caminho. Assim como foi feito pelo anterior presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva – depois das reformas levadas a cabo pelo seu antecessor terem gerado receitas que puderam ser gastas em programas de assistência aos mais pobres.
O problema com Kim, e presumivelmente com os especialistas em desenvolvimento da administração Obama, é que eles não entendem que desenvolvimento bem-sucedido requer grandes pagamentos e políticas reformistas e pró-crescimento, não apenas políticas de pequenos pagamentos. O Bangladesh enveredou por esse caminho, substituindo essas políticas por reformas de nível macro, e o seu desenvolvimento anda a uma velocidade menor do que a da Índia, onde as reformas de nível macro chegaram primeiro.
Kim dificilmente entende esta dinâmica. Há uma década, ele partilhou as tiradas contras as reformas "neo-liberais" que, de facto, eram um prenúncio de um crescimento mais elevado e uma pobreza menor em todo o mundo. A presidência do Banco Mundial não devia ser uma aprendizagem.
*Jagdish Bhagwati, Professor de Economia e Direito na Universidade de Columbia e conselheiro sénior em Economia Internacional no Conselho das Relações Externas, editou recentemente, "In Defense of Globalization".
Poucas horas antes de ser anunciada a designação de Kim, a ministra nigeriana das Finanças, Ngozi Okonjo-Iweala, candidata à Presidência do Banco Mundial (BM) reconheceu sua derrota e afirmou que a escolha não se baseou nos méritos. Aos 57 anos, Okonjo-Iweala dedicou mais de 20 ao BM. "A decisão não se dá por méritos. Os votos são por peso político e apoios, de modo que venceu os Estados Unidos", disse a candidata.
Dois dias após a diretora-gerente do FMI, Christine Lagarde, garantir 430 bilhões de dólares para lidar com desdobramentos da crise da dívida da zona do euro, disse que o seu próximo foco é aumentar os fundos para o Programa de Financiamento para Redução da Pobreza e Crescimento do FMI, que fornece empréstimos de baixo custo para países pobres da África, Ásia e América Latina.
E nós a pensarmos que a tal “meritocracia” era o ábaco com que se calibrava a certificação dos candidatos para os mais altos cargos a nível mundial e afinal as escolhas tem a mesma bitola das nossas juntas de freguesia, que só tem a ver com o “venha a nós”…
Curioso é que o FMI venha declarar a intenção de complementar a Missão do BM (que pelos vistos não a vai cumprir), talvez para equilibrar a balança de interesses, de intervenção e proveitos, já que por “acordo institucional”, o presidente do BM é americano e o do FMI é europeu, que são os 2 continentes que formam o planeta…
E só porque estas instituições e as políticas implementadas pelos seus dirigentes tem reflexo na prossecução dos Objetivos do Milénio, aqui ficam os nomes e os atalhos que os catapultaram para metas tão nobres, que até hoje ainda não foram atingidas…
O Banco Mundial (BM) e o Fundo Monetário Internacional (FMI) foram criados conjuntamente em 1944 para ajudar a sustentar a ordem económica e financeira mundial.
Os organismos são conhecidos como as Instituições de Bretton Woods, o vilarejo nos EUA onde aconteceu a convenção de 44 países que os criou. A diferença fundamental é que o BM é uma instituição que promove o desenvolvimento económico e social e a redução da pobreza, enquanto o FMI busca manter um sistema ordenado de pagamentos entre as nações.
Os projetos financiados pelo BM normalmente têm objetivos claros e bem definidos em áreas como infraestrutura, educação e meio ambiente. Além dos recursos financeiros, o BM traz também o seu conhecimento internacional para apoiar os países.
Os recursos do FMI são usados em situações de desequilíbrio da balança de pagamentos e para apoiar programas de ajuste. O FMI oferece apoio financeiro para qualquer um dos seus países-membros quando necessário.
Embora as funções do FMI complementem as do BM, esta organização é totalmente independente. Enquanto o BM oferece apoio aos países em desenvolvimento, o FMI tem como objetivo estabilizar o sistema monetário internacional e monitorar as moedas do mundo.

Ecos da blogosfera - 27 abr.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Provavelmente “Bolonha” não tem nada a ver, ou terá?

Cerca de 40% dos jovens entre os 15 e os 34 anos que especificaram o seu salário ao Instituto Nacional de Estatística receberam em 2011 um salário inferior a 600 euros.
Os dados do INE são claros sobre o baixo nível salarial da juventude: dos 248.500 jovens até 24 anos, mais de 66% receberam menos de 600 euros mensais. E 27% entre 600 e 900 euros mensais. Mesmo se a "juventude" for até aos 34 anos, o cenário é igual ou semelhante. Do 1.000.000 com idades entre 24 e 35 anos que responderam sobre rendimentos, cerca de 40% têm salários até 600 euros.
Estes valores tornam evidente que poucos jovens beneficiariam do "direito de opção" que o Governo lhes pretende dar sobre para onde descontar para a protecção social.
Quem concluiu o ensino superior nos últimos três anos tem mais dificuldade em arranjar emprego do que quem se formou há mais tempo, indica um relatório sobre a aplicação do processo de Bolonha nos países europeus, hoje divulgado.
Os dados recolhidos pelo Eurostat e pela rede de informação sobre educação da Comissão Europeia, a Eurydice, indicam que em metade dos 40 países europeus analisados, a taxa de desemprego é superior a 10% entre os formados com idades entre os 20 e os 34 anos, Portugal incluído.
Em Portugal, a média de desempregados entre os formados com idades entre os 20 e os 34 anos nos anos de 2006 a 2010 foi de 10,6%, a nona percentagem mais alta da tabela.
As percentagens e os números não discriminam o nível académico dos jovens a ganhar estas pequenas “fortunas”, mas entre eles muitos serão os licenciados, mestres e doutorados, o que para o caso tanto faz, já que, ao contrário do 1º PREC: “para salário igual, trabalho igual”…
Tendo em conta os dados da Eurydice, talvez fosse demagógico procurar causalidades na implementação do processo de Bolonha, os formados neste novo “método” e a sua subalternização no mercado de trabalho (de coincidência só temos os 34 anos de idade) , mas a discriminação que emerge destas percentagens de desemprego permitir-nos-ão pensar que podem ser a prova prática da mentira que é Bolonha.
E, fruto do “método”, que disponibiliza mais rapidamente e em maior número jovens formados, será, talvez, uma das razões fortes para o “quasemileurismo”, pelas regras do mercado, que deve ter inventado e subsidiado o “método” para agora tirar os proventos…
Provavelmente Bolonha até nem terá nada a ver com esta sociedade que está a adoecer, mas a falta de vergonha dos responsáveis, seguramente que terá…
Para além de tudo e para agravar a questão, a Igreja diz que ensino superior está a transformar-se num privilégio de elites, o que depois de ter sido negado veio a ser admitido: Governo dá credibilidade aos apelos da igreja sobre abandono no superior.
Mas, desempregado é desempregado…

Reflexo do “Relvas”… 27 abr.

Na sessão que assinalou o fim das emissões analógicas de televisão em Portugal, o secretário de Estado adjunto, Feliciano Barreiras Duarte, que substituiu o ministro Miguel Relvas, disse que a migração para as emissões digitais colocam o País "na vanguarda" e possibilita que os portugueses vejam "televisão de melhor qualidade". "Ao longo do processo existiram incompreensões, foram feitas críticas injustas à Anacom e à PT", lamentou o governante.
"A Anacom e a PT estão de parabéns. Os problemas vão continuar a existir nos próximos meses mas serão ultrapassados", confiou o responsável político. "Portugal está credor do vosso esforço, que um dia será reconhecido", sentenciou Barreiras Duarte.

Contramaré… 27 abr.

O resultado líquido  da Galp foi de 50 milhões de euros entre Janeiro e Março, mais 16,5% que no 1º trimestre de 2011, ajudado pelas áreas de exploração e produção de petróleo e de gás natural e produção de electricidade.
O resultado líquido da Galp Energia caiu 10,2% nos primeiros 3 meses de 2012, ou 20 milhões de euros, para um total de 172 milhões. Um resultado que ficou abaixo das estimativas dos analistas que apontavam para um resultado de 56 milhões de euros, quando analisado desta perspetiva.

Só paleio, sempre o mesmo e ninguém toma atitudes?

Apesar das consequências sociais e políticas, o Bundesbank e o Governo de Angela Merkel continuam a defender a aplicação do rigor que vem sendo aplicado na Europa há 2 anos. É hora de travar os danos, insurge-se o politólogo espanhol José Ignacio Torreblanca.
Paulo Kuczynski
Diz Jens Weidmann, o jovem economista que acedeu à presidência do Bundesbank depois de uma carreira política meteórica à sombra de Angela Merkel e membro, sem dúvida o mais influente, do Conselho de Governadores do Banco Central Europeu (BCE), que taxas de juro de 6% não são "o fim do mundo" e, portanto, não constituem motivo suficiente para o BCE atuar no sentido de aliviar a pressão de que a Espanha é alvo nos mercados da dívida. Seria curioso saber até que ponto Weidmann está consciente de que a Espanha e a Alemanha fazem parte da mesma união monetária e, também, até que ponto partilha a preocupação quanto a se essas taxas de juro põem em causa o sentido dessa união e a sua existência.
Supomos que, para Weidmann, em cujo mandato não entram nem o crescimento nem o emprego mas apenas a estabilidade de preços, uma inflação de 6% seria, isso sim, o fim do mundo. Mas, felizmente, o presidente do Bundesbank pode dormir tranquilo, uma vez que a taxa de inflação média da zona euro é de 2,7%. Além disso, para maior tranquilidade de Weidmann, em Espanha a inflação é de 1,8% e na Grécia de 1,4%, inferior até à da Alemanha (2,3%).
O mérito dessa declaração tão sincera e, ao mesmo tempo, tão infeliz de Weidmann é que ela explica com toda a clareza o que está a acontecer à Europa, e muito direta e particularmente a Espanha.
A Alemanha não aprendeu a lição com Weimar
A falta de visão e de sensibilidade que contém faz lembrar a cegueira das elites francesas, a seguir à Primeira Guerra Mundial, que sufocaram qualquer possibilidade de recuperação e crescimento na Alemanha, ao imporem indemnizações de guerra pesadíssimas. Ainda que justas, pois tinha sido a Alemanha a iniciar a guerra, essas indemnizações abriram caminho à mescla de populismo e irredentismo que engendrou o nazismo e a Segunda Guerra Mundial. Não deixa de ser paradoxal que a Alemanha, que superou admiravelmente o nazismo, não tenha conseguido fazer o mesmo com a inflação que levou à queda da república de Weimar. Sem dúvida alguma que, se o euro acabar por se desagregar ou se a construção europeia entrar em colapso, os historiadores utilizarão frases como esta para explicar o que correu mal na Europa e quais os erros que foram cometidos.
Agora, com a sua cegueira e com uma atitude semelhante (faça-se justiça mesmo que o mundo pereça), o Governo alemão não só põe em perigo a construção europeia como estimula o despontar de sentimentos antialemães. Veja-se um exemplo: apesar de, em Espanha, a imagem da Alemanha continuar a ser boa, o último barómetro do Real Instituto Elcano mostra que 3 em cada 4 espanhóis (73%) consideram que a Alemanha não tem em conta os interesses de Espanha e, de forma mais unânime ainda, 87% pensam que "o país que manda na Europa é a Alemanha" (não o país que manda "mais", note-se, mas simplesmente o país que manda).
O indigno servilismo da França
Terá chegado o momento de dizer "basta" a Berlim? Sem dúvida. Como? Coordenando, a partir de Bruxelas, o calendário de reformas nacionais com o calendário de crescimento europeu. Isso requer o restabelecimento dos equilíbrios políticos e institucionais na Europa, que foram pelos ares. Por um lado, a Comissão Europeia, que deveria falar em nome de todos os Estados, foi eliminada como ator político. No início do seu segundo e último mandato, o presidente da Comissão, [José Manuel] Barroso, tentou apresentar-se como alguém que queria ser um verdadeiro líder. Mas, quando as coisas começaram a ficar difíceis, pôs de lado a agenda de crescimento sustentável que promovia havia anos.
E, por outro lado, a França, que sempre desempenhou um papel de contrapeso sobre a Alemanha, encontra-se hoje nas mãos de alguém como Sarkozy, o estadista do Tosão de Ouro, que compensa o fracasso da sua agenda reformista, em casa, com a indigna e típica prática do servilismo do fraco perante quem está por cima (a Alemanha) e com a arrogância do forte perante quem está por baixo (Espanha). Essa França, irreconhecível, passou a ser um problema tão grande para o futuro da Europa como o excesso de rigor que domina o Bundesbank. Hollande pode ter um efeito purificador para a França, para a Comissão e para a própria Alemanha.
OPINIÃO - Uma Europa hobbesiana
Numa versão mais longa do seu artigo, publicada pelo Financial Times, José Ignacio Torreblanca vai mais longe na denúncia que faz da austeridade e conclui com aquilo que poderá tornar-se um slogan, nos próximos meses:
O acordo orçamental, o tratado mais falho de equilíbrio e mais assimétrico que os Estados-membros alguma vez assinaram, constitui o melhor exemplo do que é a nova Europa: a austeridade é rigorosamente imposta, enquanto o crescimento quase não é referido. Na velha UE, os Estados-membros eram iguais e os tratados representavam um compromisso entre visões diferentes da Europa. Agora, a Europa tem a ver com assimetrias de poder e medo quanto ao futuro. Agora, a Europa assemelha-se à descrição que Thomas Hobbes faz da vida do homem no seu estado natural: "pobre, sórdida, brutal e curta". Dois anos decorreram e não foi adotada uma única medida de crescimento. Chegou a altura de dizer 'basta'!

Ecos da blogosfera - 26 abr.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Et voilá! O Programa de Governo na UE e o “NOSSO”!

O grande medo dos mercados é que as vítimas da crise deixem de aprovar a política dos seus dirigentes. É por isso que, em toda a Europa, os responsáveis políticos tentam restringir o campo dos debates à política económica.
A crise do euro está em standby, os biliões de créditos concedidos pelo Banco Central Europeu acalmaram os ânimos. Mas, nos mercados financeiros, desenha-se uma nova ameaça: a democracia. "As eleições francesas [à 2ª volta das presidenciais, em 6 de maio, seguem-se as legislativas, em junho] e gregas [em 6 de maio], tal como o referendo na Irlanda [em 31 de maio] causam preocupações entre os investidores, as empresas e os consumidores", explica Elga Bartsch, do banco de investimento norte-americano Morgan Stanley.
Os países europeus exigem pesados sacrifícios às suas populações. Para incentivar a confiança dos mercados financeiros na sua solvência, suprimem centenas de milhares de empregos na função pública, aumentam os impostos, cortam drasticamente na despesa pública, diminuem as pensões de reforma.
E, para relançarem a competitividade a nível internacional, reveem os salários em baixa, reduzem a proteção contra os despedimentos, enfraquecem os sindicatos. Ao mesmo tempo, o número dos que vão ficando sem emprego aumenta a olhos vistos. Em países como a Grécia e a Espanha, metade dos jovens em idade laboral estão hoje no desemprego.
"No momento atual", diz Patrick Artus, economista do banco francês Natixis, "o maior risco para a Europa não é tanto o aumento das taxas sobre os empréstimos obrigacionistas, mas sim uma crise política e social, numa situação de aumento espetacular do desemprego”.
Neutralizar o livre arbítrio dos eleitores
Segundo as regras do jogo democrático, as vítimas da crise podem, a intervalos regulares, manifestar pela via das urnas a sua opinião sobre as medidas postas em prática – e rejeitá-las, se assim o desejarem. Essa possibilidade gera insegurança nos mercados. É por isso que, nos últimos meses, a classe política fez tudo para neutralizar o livre arbítrio dos eleitores. Assim, na Grécia, a ideia de um referendo sobre as medidas de austeridade foi posta de lado em novembro – os dirigentes políticos alemães e franceses ameaçaram abertamente excluir a Grécia da zona euro, se os gregos votassem a favor do abandono dessas medidas.
Na Grécia e em Itália, a crise originou a queda de chefes de governo eleitos, que foram substituídos por "tecnocratas" não eleitos e, portanto, não dependentes da vontade dos eleitores.
"Em períodos de crise, a política assemelha-se a um golpe de Estado permanente", denuncia o professor de literatura Joseph Vogel. Com cada vez maior frequência, são negociações informais entre banqueiros, responsáveis políticos e representantes dos bancos centrais, que orientam a política. O poder de decisão encontra-se hoje nas mãos dos "sovietes do mundo das finanças", lamenta Vogel.
É certo que, apesar disso, o povo é chamado a votar. Por exemplo, na Irlanda. Em fins de maio, os habitantes da ilha irão dizer sim ou não à adesão ao pacto orçamental. Mas, nem por isso, a margem de manobra dos irlandeses deixa de ser estreita: o país depende das ajudas do fundo de resgate europeu – que só serão concedidas, se a Irlanda aderir ao pacto orçamental.
No começo de maio, os gregos vão eleger um novo parlamento. Para colocar o programa de austeridade ao abrigo do livre arbítrio dos eleitores, os vencedores previsíveis do escrutínio – o PASOK [socialista] e o Partido da Nova Democracia [direita] já foram forçados a comprometer-se a dar seguimento à política de reformas. Resta o problema da ascensão dos pequenos partidos de oposição, que deixa inseguros os investidores, aos quais as dissensões políticas assustam.
Liberdade dos mercados vs liberdade da democracia
Por último, temos as presidenciais francesas. O socialista François Hollande está à frente do Presidente em exercício, Nicolas Sarkozy. Hollande quer tributar mais fortemente os ricos, pôr fim à política de austeridade e renegociar o pacto orçamental. Reação dos mercados: em abril, as taxas de juro a pagar pela França voltaram a registar novo agravamento, quando Paris emitiu títulos de dívida.
Pelo seu lado, Nicolas Sarkozy empurra os franceses pela via da reforma. O que, naturalmente, implica sacrifícios para a população. Mas, sem reformas, a França corre o risco de ter o mesmo "destino da Grécia ou da Espanha", adverte Sarkozy. Simplesmente, não há outra opção. Resumindo: os franceses podem ir votar. Mas não têm escolha.
"Dizer às pessoas que não têm por onde escolher equivale a proibi-las de se exprimirem e de pensarem", denuncia Ulrich Thielemann, especialista alemão em ética na economia. "Se deixar de haver alternativas possíveis, é o fim da democracia." Claro que, tecnicamente continuaremos a ir votar. "Mas as pessoas deixam de ter o direito de escolher, não têm outra opção que não seja dizer ámen a uma política irrevogável. A partir daí, a democracia passa a servir apenas para a confirmar."
Presentemente, o eleitorado foi despojado do seu poder pelos mercados, que concedem ou recusam os créditos necessários. "É o fim da soberania", garante Ulrich Thielemann, que considera que a política se submete à lei dos mercados, como se isso fosse um fenómeno natural. "Teria, muito simplesmente, podido obter através dos impostos os capitais que hoje mendiga."
Para Ulrich Thielemann, a liberdade dos mercados opõe-se à liberdade da democracia. "Quando passa a ter por único objetivo alimentar a competitividade, o Estado proíbe-nos de fazer esta pergunta fundamental em democracia: como queremos viver?"

Reflexão do Relvas… 26 abr.

Miguel Relvas defendeu que em época de tempestade todos devem remar para o mesmo lado. O ministro reconheceu por isso que não é positivo haver ausências nas cerimónias do 25 de Abril. “A questão que se coloca nestas cerimónias oficiais, e das que não o são, é um momento para a unidade do país, para celebrarmos uma data particularmente importante, e temos que reconhecer que era importante que todos os portugueses, particularmente aqueles que ao longo dos anos tiveram responsabilidades, estivessem presentes”, afirmou.
Todos fazem falta e o espírito deve ser de unidade, até porque, acrescentou Miguel Relvas, mais importante do que saber quem está sentado nas cerimónias é a luta para melhorar o país. 
“Está-se a trabalhar em Portugal para libertar o país da situação a que chegou. (...) Estão a ser pedidos muitos sacrifícios aos portugueses e essa é realidade que nós temos pela frente. Temos que olhar com muito equilíbrio, com muito bom senso e com muita sensatez para o caminho que estamos a traçar porque é com estas opções que assumimos que vamos ultrapassar as dificuldades”, sublinhou.