(per)Seguidores

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Contramarés sem contrapé… 16 Ago.

O preenchimento de cargos de direção superior deixará de ser efetuado unicamente por critério de escolha ministerial e passará a ser precedido de concurso aberto a cidadãos, com ou sem vínculo à Administração Pública e cabe ao membro do Governo definir o respetivo perfil, experiência profissional, competências de gestão e formação exigíveis aos candidatos.

Quem não consente, não se cala!

Devíamos estar todos doidos quando deixámos a Alemanha controlar o euro.
Pedro Passos Coelho, por via do sol ou dos churrascos a mais na Manta Rota, apareceu ontem na festa do PSD do Pontal com um discurso alienígena. Em plena crise do euro, com o ministro das Finanças alemão a boicotar qualquer hipótese de títulos de dívida pública europeia, com George Soros a dizer que a única saída que Portugal tem é abandonar o euro, Passos Coelho faz um discurso de "bom aluno" da troika - mas que na altura em que a Europa se encontra, é uma conversa típica de "nerd".
É espantoso como Pedro Passos Coelho conseguiu isolar a crise portuguesa como se não estivesse englobada na crise do euro. O que ontem Passos Coelho repetiu foi uma espécie de discurso do "orgulhosamente sós" versão dívida. Sim, é bom culpar Sócrates que, aliás é culpado de muita coisa, incluindo de gastos inconcebíveis para propaganda eleitoral. Mas é difícil de perceber como é que um primeiro-ministro tem da crise do euro uma versão tão tosca.
As coisas agravaram-se para a zona euro desde que Sócrates saiu do poder. A situação portuguesa pode estar melhor em termos de juros da dívida - pagamos menos juros que há quatro meses atrás - mas está pior porque de um momento para o outro, tudo pode implodir. E, assim de um momento para o outro, os nossos empréstimos negociados nos velhos tempos de juros inexistentes de repente podem ser convertidos no bom e velho escudo, levando à catástrofe económica e financeira. A ameaça que paira sobre as economias italiana, espanhola e francesa, sem que a Alemanha dê mostras de qualquer cedência é insustentável. A reunião de amanhã entre um já muito acossado Sarkozy e Angela Merkel pode não servir para nada. A entrevista do ministro alemão das Finanças ao Spiegel foi já a antecâmara dessa conclusão: da esquerda à direita, já todos concluíram que a única maneira de resolver a crise do euro é mais federalismo com a emissão dos famosos Eurobonds, títulos de dívida pública europeia. Mas a Alemanha não vai deixar.
Devíamos estar todos doidos (incluindo os tais grandes líderes europeus que já não existem, como Jacques Delors) quando deixámos a Alemanha controlar o euro: ou seja, quando aceitámos passivamente que a moeda única fosse uma cópia do marco alemão e o BCE um émulo do Deutsche Bank. Um país miserável como o nosso, com uma fraquíssima estrutura produtiva que ainda foi mais prejudicada com as das negociações das quotas agrícolas e de pesca, passou a viver com uma moeda equivalente ao marco alemão, para felicidade de todos. Isto é insustentável, mas neste momento a bem-amada União Europeia também parece insustentável. Que nada disto pareça interessar ao alienígena do Pontal, que volta candidamente a anunciar que vai cortar nas despesas mas não diz como, e que acha que "a salvação portuguesa" depende exclusivamente de "nós próprios" é deveras impressionante. Que Pedro Passos Coelho não perceba que este tipo de conversa de "nerd" se vai virar contra si na próxima esquina é muito estranho. E entre tantos especialistas contratados, não há ninguém que lhe explique isto?
Editorial do “i”, por Ana Sá Lopes
Dispensamo-nos de qualquer comentário…
Nerd é um termo que descreve, de forma estereotipada, muitas vezes com conotação depreciativa, uma pessoa que exerce intensas actividades intelectuais, que são consideradas inadequadas para a sua idade, em detrimento de outras atividades mais populares. Por essa razão, um nerd muitas vezes não participa de atividades físicas e é considerado um solitário pelas pessoas. Pode descrever uma pessoa que tenha dificuldades de integração social e seja atrapalhada, mas que nutre grande fascínio por conhecimento ou tecnologia.

Ecos da blogosfera – 16 Ago.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Contramarés sem contrapé… 15 Ago.

A tensão já é óbvia na jovem coligação. Braga de Macedo na AICEP e Santana Lopes na Santa Casa "cercam" o CDS.
Como cereja no topo do bolo das intenções do PSD em relação ao CDS, Passos Coelho deixou Paulo Portas de fora do Conselho de Estado e colocou na lista três ex-líderes do PSD, Luís Filipe Menezes, Marques Mendes e Francisco Pinto Balsemão.

Para todos os POVEIROS na diáspora…

A Ladainha das lanchas
Georges! anda ver meu país de Marinheiros,
O meu país das naus, de esquadras e de frotas!
Oh as lanchas dos poveiros
A saírem a barra, entre ondas de gaivotas!
Que estranho é!
Fincam o remo na água, até que o remo torça,
À espera de maré,
Que não tarda aí, avista-se lá fora!
E quando a onda vem, fincando-a com toda a forca,
Clamam todas à urra: «Agora! agora! agora!»
E, a pouco e pouco, as lanchas vão saindo
(Às vezes, sabe Deus, para não mais entrar...)
Que vista admirável! Que lindo! Que lindo!
Içam a vela, quando já têm mar:
Dá-lhes o Vento e todas, à porfia,
Lá vão soberbas, sob um céu sem manchas,
Rosário de velas, que o vento desfia,
A rezar, a rezar a Ladainha das Lanchas:
Senhora Nagonia!
Olha acolá!
Que linda vai com seu erro de ortografia...
Quem me dera ir lá!
Senhora Daguarda!
(Ao leme vai o Mestre Zé da Leonor)
Parece uma gaivota: aponta-lhe a espingarda
O caçador!
Senhora d'ajuda!
Ora pro nobis!
Caluda!
Semos probes!
Senhor dos ramos
Istrela do mar!
Cá bamos!
Parecem Nossa Senhora, a andar.
Senhora da Luz!
Parece o Farol...
Maim de Jesus!
É tal e qual ela, se lhe dá o sol!
Senhor dos Passos!
Sinhora da Ora!
Águias a voar, pelo mar dentro dos espaços
Parecem ermidas caiadas por fora...
Senhor dos Navegantes!
Senhor de Matusinhos!
Os mestres ainda são os mesmos dantes -
Lá vai o Bernardo da Silva do Mar,
A mailos quatro filhinhos,
Vasco da Gama, que andam a ensaiar...
Senhora dos aflitos!
Mártir São Sebastião!
Ouvi os nossos gritos!
Deus nos leve pela mão!
Bamos em paz!
Oh lanchas, Deus vos leve pela mão!
Ide em paz!
Ainda lá vejo o Zé da Clara, os Remelgados,
O Jeques, o Pardal, na Nam te perdes,
E das vagas, aos ritmos cadenciados,
As lanchas vão traçando, à flor das águas verdes,
«As armas e os varões assinalados...»
Lá sai a derradeira!
Ainda agarra as que vão na dianteira,..
Como ela corre! com que força o Vento a impele:
Bamos com Deus!
Lanchas, ide com Deus! ide e voltai com Ele
Por esse mar de Cristo...
Adeus! adeus! adeus!
António Nobre, in 'Só'

Ecos da blogosfera – 15 Ago.

domingo, 14 de agosto de 2011

Contramarés sem contrapé… 14 Ago.

Aguarda-se com expectativa o que irá dizer o líder do PSD e primeiro ministro, numa semana marcada pelo diagnóstico da troika sobre a economia portuguesa e o anúncio de mais impostos.
O Ministro das Finanças defendeu que a subida do IVA na eletricidade e no gás e o imposto extraordinário “resolvem metade do desvio” e questionado sobres se o governo prevê novo aumento de impostos para 2012, admitiu que irá acontecer.

Por "o carro à frente dos boys”

O interesse da empresa chinesa China Power na privatização da EDP tinha já sido noticiado o que a “chairman” da companhia oficializou. A imprensa tem avançado que a China Power pretende comprar 5% no capital da empresa. O Governo pretende vender a posição de 20% que detém na EDP até ao final do ano, cumprindo o compromisso assumido com a troika.
A privatização pode contudo ser ensombrada pela forte queda que a eléctrica está a registar na bolsa de Lisboa. Os 20% que o Estado deverá vender desvalorizaram-se 94 milhões de euros, valendo agora 1.531 milhões.
Nas últimas semanas têm surgido notícias do interesse da brasileira Electrobrás e da alemã RWE.
Líder de missão do FMI, Poul Thomsen, considera que as privatizações que Portugal vai fazer terão de ter em conta as condições de mercado, admitindo que algumas possam não ocorrer no curto prazo.
“Acho que é um bom programa” de privatizações mas “não podemos esquecer que algumas empresas estão a ter prejuízos” e, nestes casos não se pode esperar um grande negócio, acrescentou. Das principais empresas que estão na lista das privatizações só a TAP apresentou resultados negativos.
Quanto à privatização da RTP, Poul Thomsen escusou-se a comentar, afirmando que “o Governo é que toma decisões sobre que empresas privatizar.”
Para cumprir os fretes que a troika nos impôs, o governo vai privatizar empresas públicas e vender cotas que detém em empresas estratégicas até ao final do ano, se não chumbará no exame final...
No caso da EDP, em que 20% nos pertencem, não faltam candidatos, da China, do Brasil e (claro!) da Alemanha. E apesar de a EDP ser um “monopólio” e ter altos lucros garantidos, o valor em bolsa tem vindo a descer (vá-se lá saber por quê) a ponto de, só em Agosto, o Estado ver desvalorizada a sua parte em 94 milhões de euros, valendo agora 1.531 milhões.
Das outras empresas a leiloar, parece que só a TAP deu prejuízo.
Perante este quadro, qualquer “inteligente” concluiria que prazos e preços tem uma relação indissociável e que os tempos impostos tem que ser estrategicamente datados… Mas foi preciso vir um Sr. FMI dizer isso mesmo, concretamente que as privatizações de Portugal terão de ter em conta as condições de mercado, admitindo (obrigado, Sr. FMI) que algumas (por que não todas?) ultrapassar o curto prazo (mais prazo curto)…
Mas o Sr. FMI também dá uma no cravo e outra na ferradura, porque depois do que disse com lógica, veio dizer com outra lógica, que das empresas que dão prejuízo não se pode esperar um grande negócio. Pode-se, pode-se! Quanto mais prejuízos derem, melhor será o negócio para quem as comprar. Afinal de que lado está o FMI? É que a lógica tem mais de duas faces…
Já quanto à privatização da RTP, o Sr. FMI não quis comentar 8ele sabe que a questão é política) e condisse-se outra vez ao dizer que o Governo é que toma as decisões sobre que empresas privatizar… Então o que é que veio cá fazer, e dizer o que disse, sobre tudo o que é pura política?
Até parece que (os membros d)o governo continua(m) a por o carro à frente dos boys, por razões exclusivamente técnicas…

Há muitos processos de se estigmatizar a pobreza…

Nota prévia – Publico muitas vezes aqui artigos sobre as mais variadas áreas, de autoria de especialistas brasileiros, pela simples razão de não encontrar os mesmos temas tratados por especialistas portugueses e quando surgem, a linguagem de tão erudita, cansa qualquer curioso.Mas só dou a público o que é público na sua essência, ou seja, quando os temas/problemas são “iguais”, independentemente do território em que estão localizados e focalizados.
Neste caso, é a exclusão e a estigmatização dos pobres que se reflete na urbanização, ou em que a urbanização as acentua, tanto faz que seja em S. Paulo, como no mais recôndito local do planeta e em Portugal também e de forma bem vincada.
Para quem se interessa por este tema, ele está bem explicitado num outro artigo, muito sintético e incisivo, que publicamos há quase um ano, e que pode ler aqui: "Um neologismo com (um) sentido: “pauperofilia”
O ininterrupto crescimento da cidade de São Paulo, tanto económico como físico, produz uma perversa desigualdade social. João Ferreira, arquiteto e economista defende que transformar e tornar esse espaço mais igualitário passa por uma mudança de conduta individual, pressupondo um combate às atitudes que, mesmo de forma velada, reproduzem uma cultura de intolerância para com os pobres. Para Ferreira, aquilo o que hoje é celebrado como modernidade é a causa do padrão urbano excludente. Padrão que não se restringe à cidade de São Paulo, que é apenas o caso mais evidente e que infelizmente serve de modelo para o resto do país.
As conclusões estão contidas no artigo “São Paulo: cidade da intolerância, ou o urbanismo 'à Brasileira'”, publicado na revista Estudos Avançados (que aconselhamos a ler na totalidade).
Intolerância que Ferreira define como resultado de uma sociedade em que predomina a indiferença. Ele explica: “a exclusão dos mais pobres produz uma lógica perversa em que as classes dominantes cultivam a sensação de que a cidade funciona sozinha, ignorando que é um contingente populacional importante e pobre que a move, mas que tem que desaparecer findo o serviço”. Não é só indiferente, a cidade também é intolerante: “o desprezo, a desconsideração pelas condições de vida dos mais pobres e as suas necessidades são também motivados por políticas e ações bem determinadas, porém veladas. O que nos remete à sensação de uma espécie de apartheid”.
Políticas implementadas por um Estado que promove uma urbanização desigual, porque é ele quem define a disponibilidade dos chamados instrumentos urbanísticos. O seu papel seria o de garantir uma produção homogénea de infraestruturas públicas, evitando, assim, a exclusão das parcelas populacionais de menor rendimento. No entanto, (no Brasil) como explica o autor “confunde-se o público e o privado na defesa dos interesses das elites, e essa equação afetou dramaticamente o modelo da (nossa) urbanização”. Teria sido desenvolvida (no Brasil) uma situação de segregação socioespacial em que a população mais pobre, sem opção de moradia, se foi “exilar na periferia”.
Embora causada pelo Estado, a segregação seria legitimada pelas classes dominantes, que o coagem para que aja em benefício delas. Exerceria assim o que o autor chama de “racismo à brasileira”, ou seja, um racismo que existe mas não é confessado, e que nem por isso faz menos vítimas. Essa intolerância à pobreza é revelada em várias ações, como no caso de empreendedores de um condomínio de luxo que, incomodados com a vista para uma favela, acharam por bem ‘estimular’ a saída dos indesejados vizinhos pagando-lhes R$ 40 mil (€ 17.247,60) por família. E também uma política da Câmara de São Paulo que se encarrega da ação de ‘limpeza’, oferecendo o ‘cheque de despejo’, R$ 1,5 mil (€ 646,80) para sair das suas casas, e R$ 5 mil (€ 2.156,00) se a família fizer a ‘gentileza’ de voltar para o seu Estado de origem.
O Estado, além de não desenvolver políticas habitacionais que beneficiem os mais pobres, acaba por os impedir de viver em bairros mais ricos. Isso faria sentido pelo Estado ser patrimonialista, legitimado pelas classes mais abastadas, e em que o direito à propriedade está acima do direito à habitação. Uma realidade perversa em que a desigualdade não ocorre por falta de leis, mas pelo contrário, é legitimada por elas.
Ferreira aponta caminhos para reverter essa desigualdade, pois desde a redemocratização do país os governos comprometidos com as necessidades populares propuseram uma “reforma urbana”, conseguindo pelo menos inserir essa problemática na agenda política. Um exemplo teria sido a criação do Ministério das Cidades e do Fundo Nacional de Habitação de Interesse Social - embora até hoje não tenham tido quase nenhuma efetividade. Essa dificuldade em transformar estas propostas em verdadeiras ações ocorreria porque “uma das razões desse impasse está na dificuldade de transformação do próprio Estado e, em maior escala, do sistema e das práticas políticas que o legitimam. Uma máquina aperfeiçoada durante séculos para dificultar qualquer tentativa de transformação da lógica de produção do espaço urbano desigual não facilita a vida daqueles que participam de gestões com intervenções verdadeiramente públicas”.
Isabela Palhares

Ecos da blogosfera – 14 Ago.