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terça-feira, 29 de julho de 2014

CPLP: Um conceito muito simples por ser tão abrangente…

O primeiro documento oficial escrito em português data de 27 de Junho de 1214. Trata-se do testamento de D. Afonso II que institui, assim, simbolicamente, o dia de nascimento da língua. 800 anos passados, a Língua Portuguesa (LP) vive um interessante momento de expansão, reconhecimento, e também de mudança em termos de gestão e internacionalização. Hoje, falar português “é um imenso património e um poderoso veículo de união e progresso”, como escrevem os muitos subscritores do Manifesto 2014, em homenagem à LP.
“É evidente que uma língua não nasceu num dia só. Ninguém disse: “Ó língua, nasce!” A língua formou-se ao longo de um processo social e cultural – e, a certa altura, já era”, escreveu recentemente, José Ribeiro e Castro, deputado português.
Mas é no Testamento de D. Afonso II que se encontra o “marco que simboliza o momento em que a nossa língua se liberta e autonomiza das suas raízes e ascende ao mais nível do Estado”. Isto porque está escrito em português - e não em galaico-português - e trata-se de um documento oficial do soberano. Estávamos em 1214.
800 anos passados, muitos momentos de expansão, internacionalização, fracção e crise, e sob a influência directa de diferentes contextos histórico-económicos, trouxeram-nos a esta data de 2014 e a um mundo globalizado. E é sob a conjuntura actual que a “presença da língua portuguesa no contexto do multilinguismo global” tem vindo a ganhar ênfase, conforme destaca o director executivo do Instituto Internacional da Língua Portuguesa (IILP), o brasileiro Gilvan Müller de Oliveira.
Um período vibrante que no entender de um outro especialista, o linguista cabo-verdiano Manuel Veiga, “decorre do importante papel que desempenha como ferramenta útil de comunicação, de ciência e de desenvolvimento, no espaço da CPLP, bem como em alguns fóruns internacionais”.
E esta actualidade evidencia-se não só na comunicação e ensino, “como também na produção e no suporte cultural e artístico de um espaço linguístico pluricontinental e diasporizado, com mais de 200.000.000 de utentes e de beneficiários.”
Milhões de falantes
Como relembra o director executivo IILP, Gilvan Müller de Oliveira, no seu artigo “Política linguística e internacionalização: a língua portuguesa no mundo globalizado do século XXI”, “o português é hoje língua oficial em 10 países”.
Aos 8 países membros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), juntam-se a Guiné Equatorial, que a oficializou em 2011 e a China, mais exactamente a Região Administrativa Especial de Macau (RAEM), “onde é cooficial ao lado do mandarim até ao ano de 2049”.
A LP “está presente na América, África, Europa e Ásia – nesta ordem em termos demolinguísticos – e tem de 221 a 245 milhões de falantes como 1.ª ou como 2.ª língua em variados graus de proficiência”.
Gilvan Müller de Oliveira escreve ainda que “entre 7 e 9 milhões de falantes da língua portuguesa estão nas Diásporas”.
A LP é também língua com estatutos de oficialidade ou estatuto especial “em 26 organizações internacionais, entre elas em 5 dos 17 blocos económicos regionais hoje existentes no mundo: União Europeia, Mercosul, SADC, CEDEAO, CEEAC e brevemente, de acordo com os desdobramentos de negociações, na ASEAN, bloco que Timor-Leste passará a integrar a partir de 2017”.
A linguista cabo-verdiana Ondina Ferreira, por seu lado, atenta que hoje “de acordo com o Observatório da Língua, a China, o Japão e a Índia, entre outros, desenvolvem o ensino da Língua portuguesa em larga escala, como língua de negócios. O seu valor económico disparou. Daí o pedido do Japão para ser membro observador da CPLP.”
Outro facto é que o “fenómeno global que é o Futebol tem aumentado (por parte dos Jornalistas não-falantes do português) a procura desta Língua”.
“A Língua portuguesa é hoje a mais falada no Hemisfério Sul; ocupa o 4.º lugar entre as 20 Línguas mais faladas no mundo. Se hoje somos 250 milhões que a falam, estima o Observatório da Língua que num curto horizonte – tal é a expansão da Língua portuguesa – em 2020, seremos 400 milhões de falantes. Em Angola, a Língua portuguesa é já Língua materna para mais de 80% da população de menos de 40 anos de idade. E é Língua que prefigura a fala, a escrita e o entendimento de unidade nacional naquele país da CPLP. Em São Tomé e Príncipe, e à escala do país, o registo linguístico é semelhante ao de Angola”. “Enfim, a vitalidade e o crescimento da procura da Língua Portuguesa têm sido visíveis e quantificáveis de forma notável”, analisa a linguista.
Uma língua pluricêntrica
“O Português como grande língua internacional contemporânea é, afinal, uma novidade: bem vistas as coisas, não tem ainda 40 anos. Nasceu assim com a independência das antigas colónias e a escolha inteligente dos novos países; e consolidou-se na CPLP”, observa José Ribeiro e Castro no seu artigo de opinião.
Leia aqui o mais completo e simples conceito de Lusofonia:

Contramaré… 29 jul.

O secretário-geral do PS, António José Seguro, assegurou que, se for primeiro-ministro, tem como prioridade repor de imediato as pensões e reformas aos idosos do país. 
Sublinhou que já fez as contas e que é possível garantir a reposição das pensões e reformas: "Estamos a falar de cerca de 340 milhões de euros, é dinheiro. Mas as contas que fizemos permitem-nos garantir e afirmar esse compromisso, acabando com a CES [Contribuição Extraordinária de Sustentabilidade] ou com a contribuição de sustentabilidade, repondo esse rendimento aos pensionistas e reformados", sustentou. 

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Schindler, Sousa Mendes e Winton, não mereciam um genocídio!

Sir Nicholas Winton tem uma das histórias mais fantásticas, foi o responsável por organizar uma operação de resgate que salvou 669 crianças de campos de concentração nazi. Foram levadas em segurança até a Inglaterra entre os anos de 1938 e 1939.
Depois da II Guerra Mundial o feito de Nicholas permaneceu desconhecido. Foi só em 1988 que a sua esposa Grete descobriu um velho livro de 1939 com os nomes e as fotos de todas essas crianças.
Por ironia do destino, ou não, assiste-se hoje à liquidação sumária e cega de milhares (lá chegaremos) de palestinianos, civis e inocentes, perpetrada por quem já foi sumária e cegamente perseguido e liquidado, ao mesmo tempo que surgiam, aqui e ali, alguns “anjos da guarda” que lhes garantiram o futuro… Entre muitos, conhecemos Schindler, Aristides Sousa Mendes e agora Nicholas Winton.
Pelo que estes homens fizeram por tantos judeus, não mereciam esta ingratidão da atual guerra de Israel contra Gaza, que seguramente não está a ser levada a cabo por nenhum dos que foram salvos, mas serão descendentes de alguns deles?
Sir Nicholas Winton, Kt (Cavaleiro Celibatário), MBE (Ordem do Império Britânico), nascido em Nicholas Wertheim; Hampstead,a 19 de maio de 1909, é um britânico que organizou o resgate de 669 crianças, na sua maioria judias na antiga Checoslováquia, antes das suas deportações dos campos de concentração naziss, salvando-as da morte certa em 1939, antes do início da II Guerra Mundial. É muitas vezes chamado de Schindler britânico.
Nicholas Winton foi agraciado com a Ordem de Tomáš Garrigue Masaryk, Quarta Classe, pelo Presidente Checo em 1998.
No aniversário da rainha, em 1983, foi nomeado membro da Ordem do Império Britânico pelo seu trabalho na instalação de asilos da sociedade Abbeyfield na Grã-Bretanha e, em 2002, elevado a cavaleiro pela rainha Elizabeth II em reconhecimento pelo seu trabalho no salvamento das crianças.
Encontrou-se com a Rainha novamente durante a sua visita de Estado à Eslováquia, em outubro de 2008.
O asteroide 19384 Winton foi nomeado em sua honra pelo casal de astrónomos checos Jana Tichá e Miloš Tichý.
Em 2008, Nicholas Winton foi homenageado pelo governo checo de várias formas: uma escola de ensino elementar em Kunžak recebeu o seu nome e foi agraciado com a Cruz do Mérito do Ministério da Defesa, Grau I. Também foi indicado pelo governo checo para o Prémio Nobel da Paz de 2008.
Por ter antepassados judeus, Winton não foi agraciado no quadro de Justos entre as Nações.
Winton está vivo e são, e não vê a sua atitude como extraordinária.

Ecos da blogosfera - 28 jul.

A CPLP em mais 2 das várias perspetivas entre muitas mais…

A CPLP foi criada em 17 de Julho de 1996. Em 2002, Timor-Leste foi admitido.
Os nove países integrantes da CPLP são lusófonos. Se entre os seus princípios fundadores estão o primado da paz, da democracia, do estado de direito, dos direitos humanos e da justiça social, também é verdade que a força inspiradora da organização punha os valores na lógica de uma lusofonia em diálogo.
A lusofonia não se prende apenas com o português falado e escrito, mas com uma ligação íntima entre povos, ligação essa, que através da CPLP projetou para o futuro um abraço voluntário em vez de um outro, imposto pela colonização.
Este golpe de génio de pensar o futuro com o que nos une sem renegar um passado de opressores e oprimidos é caso raro; ou único.
Votei, juntamente com cerca de 30 deputados do PS, a favor do voto de condenação pela admissão da Guiné Equatorial na CPLP. O PSD, o CDS e grupo parlamentar do PS votaram contra. O PCP absteve-se, minutos depois de professar a defesa dos direitos humanos como critério de voto no que toca à questão da faixa de Gaza.
É certo que podemos sempre, como fez Ferreira Fernandes, considerar a admissão de um país, há 35 anos nas mãos do ditador sangrento Obiang, "um desafio", podemos comparar casos nas relações internacionais nos quais não impera o primado do estado de direito democrático.
Acontece que se o fizermos estamos a comparar o incomparável.
Não podemos deixar de ter relações diplomáticas com os EUA, apesar da pena de morte, não podemos exigir a expulsão da ONU de todos os países que violam direitos humanos, mas podemos e devemos dizer não à admissão de um país na CPLP que congrega todos os elementos que esmagam os mínimos de democracia e de direitos humanos, juntando a isso não ter esse país nada, mas nada que ver com os fins e objetivos da CPLP.
Não se chama desafio. Chama-se petróleo e gás natural.
Não interessa evidentemente comentar o comportamento da diplomacia indígena no caso da CPLP. Como sempre, foi miserável. Nem interessa dizer muito sobre o dr. Cavaco, que ninguém espera que defenda a dignidade da República ou se porte bem numa situação apertada. Mesmo com o dr. Passos Coelho não se pode contar, se lhe acenam com uns negócios para o seu empobrecido Portugal. O petróleo da Guiné Equatorial e a vontade de Angola pesam mais do que qualquer outra consideração presente ou futura. A nós que por aqui andamos a contar tostões não nos faz mal o vexame público do país, que é uma tradição histórica e, pior ainda, um hábito de vida. Embora obedecer ao Império Britânico seja em princípio menos comprometedor do que obedecer a um bando de cleptocratas.
Sobretudo quando esse bando de cleptocratas tem razão. O Jornal de Angola escreveu sobre o assunto um editorial, em prosa duvidosa, mas no essencial cheio de razão. Depois de injuriar meticulosamente a opinião de cá (“preconceituosa”, “incoerente” e “estrábica”), o preopinante continua: “Os Media em Portugal praticam diariamente atentados contra a Língua Portuguesa. Nos jornais já se escrevem mais palavras em inglês do que em português. Nas rádios e televisões a situação é (…) pior. Escrever e falar português contaminado de anglicismos e galicismos é uma traição a todos os que falam a língua que uniu os países da CPLP”. Descontando a hipérbole e um certo desconhecimento do que de facto acontece em Portugal, o Jornal de Angola não se engana.
Desde 1976 nenhum Governo se ocupou seriamente da defesa da língua. O Dicionário da Academia de Ciências não passa de uma triste imitação do Oxford Shorter, não há uma gramática decente e acessível ao leigo ou um Thesaurus ou sequer, com as confusões do Acordo, um prontuário ortográfico decente e fiável. Também não há uma edição completa e crítica dos “clássicos” reconhecidos, nem a investigação universitária redescobriu a literatura do século XVI ao século XIX, que merecia outra sorte. Em matéria de língua, os Governos ficaram entre a ignorância e o desdém. Ou seja, abandonaram o principal interesse de Portugal e um dos seus melhores meios de influência. Nunca o Jornal de Angola escreveria o que escreveu se nós lhe pudéssemos responder com uma política e uma obra. Mas não podemos.

Contramaré… 28 jul.

Os passageiros de um avião da TAP retido em Maputo devem regressar este domingo a Portugal. Uma avaria no aparelho impediu o voo entre a capital moçambicana e Lisboa na passada quinta-feira. O Sindicato dos Pilotos da Aviação Civil, que já convocou uma greve para 9 de agosto, diz que a situação é preocupante.
Os pilotos adiantam que a transportadora portuguesa tem usado aparelhos de companhias que não possuem a mesma qualidade.

domingo, 27 de julho de 2014

Quando as bombas israelitas explodem nas consciências judias

Um milhar de israelitas concentrou-se em Telavive para protestar contra a ofensiva militar de Israel na Faixa de Gaza, que já matou mais de 1.000 palestinianos e 43 israelitas.
O protesto foi dispersado pela polícia ao fim de 2 horas, uma vez que o movimento islamita Hamas retomou o lançamento de projéteis contra Telavive.
Os manifestantes, que pertenciam a grupos pacifistas de esquerda, empunhavam cartazes com palavras de ordem como "Paremos a guerra", "O povo pede que parem o fogo" ou "Gaza-Sderot, as crianças querem viver".
A concentração realizou-se na praça do município, em frente a uma outra, da direita nacionalista, a favor da guerra e do fim do governo do Hamas na Faixa de Gaza, obrigando a polícia a mobilizar vários agentes para evitar confrontos como os ocorridos há uma semana, diante da sede do Teatro de Telavive, que acabaram com a detenção de 20 pessoas. No protesto deste sábado a polícia deteve 3 pessoas.
Mais dia, menos dia, menos mortos, mais mortos, tinham que fazer eco nos cidadãos israelitas, que começam a ter a nítida, matemática e social perceção de que, afinal, a vida de 43 deles não equivale a 1.000 dos palestinianos… Há batota nas ‘Playstations’ da guerra!
Por isso e a partir de agora, cada bomba largada sobre os civis e crianças palestinianos explodirá na consciência de cada israelita, levando o respetivo governo a desistir da tática de propaganda e de insistir que tem o apoio forte da comunidade internacional, por ter perdido o apoio da sua própria comunidade…
Os palestinianos têm direito à paz e à vida e os israelitas também… Só por isso!  
Há exactamente 12 anos, em Julho de 2002, a Força Aérea israelita lançou uma bomba de uma tonelada para cima da casa de Salah Shehadeh, chefe da ala militar do Hamas, em Gaza. Não é preciso ser-se um especialista para imaginar o que resta de uma casa atingida por uma bomba de uma tonelada. Não resta muito. Essa bomba matou não só Shehadeh mas também 14 civis, incluindo 8 crianças inocentes.
Yuli Novak
Nessa altura, eu era oficial de operações na Força Aérea israelita. Como muitos dos meus amigos, dei por mim, aos 20 anos, a carregar o fardo de uma enorme responsabilidade. Era responsável pelo esquadrão de aviação no terreno, passando ordens e informação do quartel-general da Força Aérea aos pilotos, preparando os aviões para operações, e dando apoio aos pilotos durante as saídas.
Depois da operação em que Shahadeh foi assassinado, Israel tremeu. Mesmo quando as Forças de Defesa de Israel insistiram que havia justificação operacional para o ataque, o público não conseguia aceitar este ataque a civis inocentes.
Vários intelectuais fizeram uma petição ao Supremo Tribunal, pedindo que examinasse a legalidade da acção. Poucos meses mais tarde, um grupo de pilotos na reserva publicou uma carta criticando a natureza destas acções de eliminação.
Enquanto soldados e oficiais habituados a levar a cabo as nossas missões sem perguntas desnecessárias, fomos afectados pela crítica do público. Mas Dan Halutz, o comandante da Força Aérea na altura, disse aos pilotos que deveriam “dormir bem à noite – não prestem atenção às críticas.”
Um mês mais tarde, perguntaram a Halutz o que sentia um piloto quando lança uma bomba de uma tonelada sobre uma casa. Ele disse: “Um leve abanão na asa do avião.” Para quem estivesse de fora, esta afirmação poderia soar fria e desligada, mas os meus amigos e eu confiávamos que os nossos comandantes tomassem as decisões moralmente certas, e voltámos a focar-nos nas “coisas importantes” – a execução precisa das operações seguintes.
Uns meses mais tarde, fui nomeada comandante de um curso para oficiais da Força Aérea. Ensinei aos cadetes como levar a cabo as suas tarefas de modo profissional, e como aceitar responsabilidade pelas suas acções como oficiais. Estudámos as conclusões tiradas de anteriores operações da Força Aérea e as lições aprendidas com elas. Ensinei-lhes que as Forças de Defesa de Israel (IDF) são o exército mais moral do mundo, e que a Força Aérea é a força mais moral dentro das IDF. Tinha 20 anos, acreditava, com todo o meu coração, que estávamos a fazer o que tinha de ser feito. Se houvesse baixas, seriam um mal necessário. Se houvesse erros, seriam investigados, e seriam tiradas lições.
As coisas mudaram e agora não consigo ter esta certeza. Em 2002, o lançamento de uma bomba de uma tonelada numa casa resultando na morte de 14 civis era a excepção. Alguns meses depois do ataque à casa de Shehadeh, as IDF reconheceram que tinham errado ao lançar a bomba. Classificaram o incidente como uma falha de informação e disseram que se soubessem que havia civis na casa não teriam levado a cabo a operação.
Alguns anos depois, durante a operação ‘Chumbo Endurecido’ [2008-2009], houve utilização generalizada da táctica de bombardear zonas densamente povoadas na Faixa de Gaza. Hoje, na operação ‘Margem Protectora’, a Força Aérea gaba-se de ter bombardeado Gaza com mais de 100 bombas de uma tonelada. O que antes era a excepção é hoje a regra.
Isto é o que se passa hoje. Notificamos os habitantes da destruição iminente de uma casa minutos antes de cair uma bomba – via mensagem de texto ou lançando uma pequena bomba como aviso. É o suficiente para transformar a casa num alvo legítimo de um ataque aéreo. Nas últimas 2 semanas, dezenas de civis foram mortos através desta prática.
Casas de membros do Hamas tornaram-se alvos legítimos, independentemente do número de pessoas dentro das suas paredes. Ao contrário do que aconteceu em 2002, ninguém se preocupa em justificar ou apresentar uma desculpa. O que é pior é que quase ninguém protesta. Famílias inteiras desaparecem num segundo, e a opinião pública continua indiferente. De ano a ano, de uma operação militar a outra, as nossas linhas vermelhas morais estão a ser empurradas para cada vez mais longe. Já não é claro onde estão, nem sequer se sabemos que as estamos a ultrapassar. Onde estarão na próxima operação? Onde estarão daqui a 10 anos?
Sei por experiência própria quão difícil é fazer perguntas durante alturas de conflito activo quando se é um soldado. A informação que os oficiais no terreno e no ar obtêm em tempo real é sempre parcial. Por isso é que a responsabilidade de traçar a linha vermelha moral, e alertar quando a ultrapassamos, é da opinião pública.

Ecos da blogosfera - 27 jul.

Estão desculpados, “Senadores”, mas passem aos atos…

O Brasil é um País privilegiado. Sabemos do privilégio na natureza e nas características do povo, mas tem um privilégio na história: o fato de que não termos traumas que outros países têm nas suas histórias. Nunca perdemos uma guerra, nem nos rendemos.
A Alemanha sofreu duas derrotas e rendições em um mesmo século. A França que foi invadida e ocupada durante quatro anos pelo exército alemão. Os Estados Unidos tiveram uma traumática guerra civil e presidentes assassinados. Nossos traumas se resumem ao suicídio de um presidente, e perda da Copa do Mundo para o Uruguai, no último minuto, 64 anos atrás.
Agora, neste 8 de julho de 2014, ficamos com a sensação de um grande trauma nacional por causa da desastrosa derrota por 7 a 1 que nossa seleção sofreu diante da Alemanha.
Por sermos o país do futebol, por termos este esporte entrando na alma de nosso povo, e por sermos atualmente bons, os melhores historicamente, nós temos a razão de sentirmos o trauma com a derrota da seleção ontem. O que surpreende é como não temos outros traumas.
Por exemplo, estamos profundamente abatidos no Brasil inteiro porque perdemos de 7 a 1 para a Alemanha, mas jamais nos lembramos de que a Alemanha teve 103 Prêmios Nobel e nós nenhum.
Com toda a tristeza que sinto pelo fato de termos sido derrotados, e com um escore tão grande, do ponto de vista do interesse nacional, do ponto de vista das consequências para o futuro, é muito mais grave para o futuro do País o fato de estarmos perdendo para a Alemanha de 103 a zero, no campeonato de Prêmio Nobel.
Nós não nos traumatizamos, no dia 14 de março de 2013, quando foi divulgado o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) do Brasil, que nos deixou em 85º lugar, entre 106 países analisados. Entre estes países estão alguns dos mais pobres do mundo, os 106 ficamos em 85º – quase lanterninha –, e não nos traumatizamos. E nós nos traumatizamos por sermos o quarto ou até o terceiro em futebol, dependendo do resultado do jogo no próximo sábado. O mundo inteiro disputou para ter seus times na COPA. Foram selecionados 31 e nós fomos disputar com eles. Apenas 32 foram selecionados como os melhores. Aos poucos foram sendo eliminados. O nosso chegou ao último estágio, que são os quatro finalistas. Não chegamos à finalíssima, mas chegamos à anterior. Na pior das hipóteses, sairemos dessa Copa como a quarta melhor seleção de futebol do mundo. E o Brasil está de luto, num sofrimento que dói na gente, sobretudo quando vemos as crianças que choraram no estádio e nas ruas pela derrota que elas não esperavam. Nem entendem.
Mas não nos traumatizamos no dia 3 de dezembro de 2013, quando foi divulgada a classificação do Brasil na educação, entre 65 países, e ficamos em 58º. Uma avaliação que analisa 65 países, feita pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, da Europa, deixa-nos em 58º, entre 65 e não houve nenhum trauma naquele 4 de dezembro, dia seguinte à divulgação do resultado. Este campeonato que não gerou qualquer tristeza, mas suas consequências para o Brasil são muito mais trágicas, do que o resultado do jogo contra a Alemanha.
Nós não tivemos o menor constrangimento, o menor trauma, a menor tristeza, quando, no dia 1º de março de 2011, a Unesco divulgou a sua classificação da educação para 128 países, e nos colocou em 88º. Ou seja, um dos piores.
E, quando falamos em 128 países, estamos incluindo os mais pobres do mundo, não nos comportamos apenas com países da elite educacional, não foram apenas os BRICS, nem apenas os emergentes: Temos toda a razão emocional de estarmos tristes por termos sido excluídos da finalíssima decisão de quem será o campeão deste ano. Temos toda a razão de estarmos tristes, porque ainda não foi este ano que ganhamos o hexa, mas também precisamos ficar tristes com as outras nossas classificações: na educação, na saúde publica, na violência, no quadro social.
Todo o direito à tristeza, mas não esqueçamos as outras razões para sofrer também, até porque são essas outras razões de sofrimento que nos levariam a superar os nossos problemas e construir um futuro que nos vem sendo negado há séculos.
Precisamos ver, nessa derrota como jogador David Luiz no final do jogo, quando ainda dentro do campo, pela televisão, chorando, disse o seguinte: “Desculpa, por não ter feito vocês felizes nesta hora”. Veja a que grandeza: ele não disse que estava triste por não ser campeão do mundo.
Estava triste por não ter feito a nós, os brasileiros, felizes nessa hora. E continuou “Mas aqui tem um cidadão disposto a ajudar a todos”, Ou seja, a derrota foi de um jogo, não foi a derrota de uma história. E continua: “Eu só queria dar alegria para o meu povo que sofre tanto por tanta coisa”. Esse sentimento vindo dele confesso que me surpreendeu, quando ele lembra: “queria dar uma alegria para esse povo que sofre tanto por tanta coisa”. E ele diz: “Queria pedir desculpa”, “só queria fazer meu povo sorrir pelo menos no futebol”.
Veja que sentimento esse rapaz teve. Sair daquela derrota chorando e lembrar-se do povo, lembrar-se do sofrimento do povo e lembrar-se, como ele diz, de o povo sorrir, pelo menos no futebol. “Porque já sofre tanto por tanta coisa”.
O sofrimento não fica restrito ao futebol mas é o sofrimento do futebol que traumatiza. Os demais são tolerados, ignorados, por serem banalizados.
Por isso não damos tanta importância aos demais sofrimentos e não fazemos o dever de casa para consertar o resto ganhar outras copas. Não estamos jogando para sermos campeões mundiais na educação, para sermos campeões mundiais no saneamento, para sermos campeões mundiais, por exemplo, na paz das cidades. Embora fracassada, fazemos o dever de casa, para sermos competitivos no futebol, mas não estamos fazendo o dever de casa para o Brasil ser melhor, mais eficiente, mais justo, e não percebemos este fracasso.
Por isso não sofremos, diante dos males banalizados. Sofremos porque o Brasil não é campeão mundial de futebol este ano – já foi cinco vezes –, mas não sofremos porque não estamos fazendo um Brasil melhor.
Quando vi o David Luiz pedindo desculpas, pensei: quem devia estar ali pedindo desculpas éramos nós os Senadores, os Deputados, os Ministros, os Governadores, a Presidente da República, porque somos nós que estamos em campo para fazer um Brasil melhor. Nós somos a seleção brasileira da política para a definição dos rumos do País. E nem ao menos lembramos que o papel do político é eliminar os entulhos que dificultam o caminho das pessoas à busca de sua felicidade pessoal.
Eles estavam em campo para fazer o Brasil campeão. Nós estamos em campo para fazer um Brasil melhor e não estamos conseguindo chegar nem ao quarto, nem ao décimo, nem ao vigésimo, nem ao quinquagésimo lugar.
Estamos chegando ao octogésimo quinto no Índice de Desenvolvimento Humano, octogésimo oitavo na educação. Estamos perdendo de 103 a zero em Prêmio Nobel para a Alemanha.
O mais importante para o futuro do País não é o campeonato de futebol, embora esse toque mais na alma da gente, o maior campeonato que estamos perdendo são as condições sociais, as possibilidades de eficiência na economia, a educação, segurança, a saúde, a corrupção. Esses são os campeonatos que devem fazer com que nós brasileiros trabalhemos para superar.
O Davi Luís deu todo o seu esforço e nos colocou primeiro entre as seleções selecionadas para a Copa, porque muitas ficaram de fora; depois nos fez passar para oitava, para quarta e agora estamos nas finais, e apesar disso ele nos pede desculpas, “por não ter feito o povo sorrir, pelo menos no futebol” – como ele disse – pelo menos no futebol, mas não basta só o futebol. Pelo menos no futebol porque essa é a tarefa dele, mas aqui, nesta casa no congresso não basta o futebol.
Sofri ontem como qualquer brasileiro, mas eu quero agradecer aos jogadores que nos colocaram nessa posição.
Quero agradecer, ao David Luiz, quando ele nos deu esta lição: “Eu só queria fazer meu povo sorrir pelo menos no futebol.” Você não conseguiu, David Luiz, fazer o povo sorrir plenamente no futebol, mas você conseguiu nos despertar para o fato de que nós não estamos conseguindo fazer o povo sorrir pelas outras coisas das quais eu sou um dos responsáveis.
Por isso, desculpa, David Luiz.
Cristovam Buarque, Professor da UnB e Senador pelo PDT-DF.

Contramaré… 27 jul.

Total aumenta enquanto mais de 130 corpos são retirados de escombros.
O número de mortos na Faixa de Gaza passou de 1.000, na sua maioria civis, e o de feridos chegou a quase 6.000, informaram neste sábado fontes médicas palestinianas, 19 dias depois de Israel iniciar uma ofensiva contra militantes do Hamas. Israel, por sua vez, contabiliza 42 mortos, incluindo 40 soldados e 2 civis. Um trabalhador rural tailandês também morreu ao ser atingido por um morteiro.