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terça-feira, 24 de dezembro de 2013

OUTROS NATAIS

Onde a magia dos Natais de outrora
O presépio dos olhos da infância
São José, a Virgem, o Menino
Figuras modeladas
Quase gente
A mostrar-se ao espanto
Dos pastores que vinham
Em fila pelo musgo dos caminhos
Para ofertar cordeiros e presentes.

Onde a azáfama do rumor das mãos
Nos alguidares de barro onde a farinha
A abóbora, os ovos, o fermento
Tomavam forma e gosto tão distantes.

Aonde o sono arredio que não vinha
Nessa Noite Sagrada em que os pinheiros
Choram saudades de bosques e de estrelas
Sob a caruma de luzes e de enfeites.

Onde o mistério que seguia os passos
Dos adultos no ranger das tábuas
Em nossos passos furtivos de criança
Na ânsia de encontrar em qualquer canto
De barbas e de saco o Pai Natal.

Quantos Natais assim em que a Família
Se reunia inteira à grande mesa
Da sala de jantar tão velha e gasta
Mas que nessa noite por magia
Transformava em cristal os vidros baços.

Quantos presépios retidos na memória
Quantos aromas ainda a Consoada
Quantos sons a deixar nos meus ouvidos
Os risos, os beijos, os abraços.

Quantas imagens cingidas na penumbra
Desta lembrança que se fez saudade
Dos rostos, dos gestos, das palavras
Na lonjura das vozes e da Casa.

Noite Divina em que torno a ser criança
Ante o meu olhar adulto e me desperto
Na emoção que nos traz os anos:
O meu Natal é hoje mais concreto
Mas muito menos belo e mais deserto.

Soledade Martinho Costa

Contramaré… 24 dez.

As taxas de juro implícitas no crédito à habitação aumentaram ligeiramente em novembro e o valor médio da prestação vencida para a totalidade dos contratos em vigor foi pelo 6.º mês consecutivo de 258 euros, revela o INE. 
Nos contratos para aquisição de habitação, a taxa de juro fixou-se em 1,429%, mais 0,002% do que em outubro, e nos contratos celebrados nos últimos 3 meses, a taxa de juro fixou-se em 3,050%, mais 0,049% do que em outubro.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

“Suplemento”: o que serve para suprir qualquer falta.

O Governo ainda não sabe quanto gasta o Estado em suplementos salariais. Apesar dos dados conhecidos na semana passada através do inquérito feito pela Direção-Geral do Tesouro e Finanças, muitas empresas não responderam ou fizeram-no de forma parcial. A taxa de respostas ficou-se pelos 49%.
Os dados conhecidos mostram que os funcionários públicos recebem um total de 700 milhões de euros anuais em suplementos salariais, a que se somam mais 368 milhões de euros do Setor Empresarial do Estado e, pelo menos, outros 18 milhões às empresas que orbitam na esfera do setor empresarial local.
O Estado paga anualmente cerca de 700 milhões de euros em suplementos remuneratórios, o que corresponde a quase 5% do total das remunerações, de acordo com um relatório da Direção Geral do Emprego Publico (DGAEP).
Neste montante não estão incluídos os encargos com subsídio de refeição (cerca de 520 milhões de euros por ano), com o trabalho extraordinário (cerca de 120 milhões de euros por ano) e com despesas de outra natureza, como as ajudas de custo.
Os valores relativos a remunerações anuais ilíquidas na Administração Pública ascenderam em 2012 a 14.700 milhões de Euros.
Depois dos números sobre os suplementos remuneratórios na função pública, soube-se que as empresas públicas gastam 368 milhões de euros por ano também em suplementos salariais.
Isto significa que as empresas públicas gastam em suplementos remuneratórios mais ou menos o valor que o Governo precisa de conseguir para compensar o chumbo do Tribunal Constitucional à convergência das pensões.
Os suplementos associados ao horário de trabalho são os que absorvem a maior fatia, mas o subsídio de função e as deslocações são outras das categorias que assumem relevância.
No setor empresarial do Estado, além da remuneração base, a rubrica suplementos é a que assume maior peso e as sociedades anónimas tendem a seguir políticas remuneratórias mais generosas do que as entidades públicas empresariais.
Pronto! Somando tudo, que não tem base rigorosa, dá 700+368+18=1.086 milhões de euros anuais, o que não é mais do que uma operação de somar, simples. E depois?
Desde que o TC disse que é inconstitucional roubar os pensionistas e reformados, são mais que muitas estas contas em todos os jornais, que podemos presumir que não tiveram origem nas redações, mas que fazem eco de “fugas” sem proveniência definida, mas com objetivos maquiavélicos… Ou seja, alguém tem que pagar a conta, seja quem for, desde que não seja quem deve e pode…
Quanto aos suplementos remuneratórios (que suprem salários baixos), estes dividem-se pelo “subsídio de refeição”, “trabalho extraordinário” e “despesas de outra natureza, como as ajudas de custo”.
Pelos vistos parece haver uma grande variedade de tipos de suplementos, em várias áreas da Administração, ao nível Central, Regional e Local… E depois?
No que respeita às Empresas Públicas, o cenário não é diferente, a não ser nos montantes, que devem ter a ver com o menor número de pessoal… No entanto os suplementos têm a ver com os mesmos itens: horário de trabalho, subsídio de função e deslocações.
Querer-se-á convencer o cidadão comum e incauto de que as “horas extraordinárias” não devem ser pagas? Ou que o “subsídio de refeição” deve ser abolido? Ou que as "deslocações" em serviço devem ser pagas pelo funcionário? Ou que as “ajudas de custo” têm que ser aguentadas pelos trabalhadores públicos que se deslocam para o exercício das funções que lhes distribuem?
Está tudo doido ou querem por toda a gente doida? Roubar é roubar e não tem nada a ver a quem! Esta ainda parece uma medida do Rosalino, que de tanto tentar endoidar os FP e demais, endoidou os colaboradores…
E não deixa de ser sintomático, que por trás destas contas de merceeiro, surja esta conclusão desconcertante e sem qualquer ligação, de que só as Empresas Públicas “gastam” em suplementos remuneratórios (“subsídio de refeição”, “trabalho extraordinário” e “ajudas de custo”) mais ou menos o valor que o Governo precisa de conseguir para compensar o chumbo do Tribunal Constitucional à convergência das pensões. Ora toma, que já almoçaste!
Perceberam a relação? Só os números contam, estejam onde estiverem e esquecem-se sempre das PPP, dos swaps, das rendas, dos fraudulentos, dos assessores, dos…
Curiosamente, para confirmar a convergência entre o Público e o Privado, constata-se que as sociedades anónimas tendem a seguir políticas remuneratórias mais generosas do que as entidades públicas empresariais…
Pronto, assim também eu preferia ir para o Privado, mais generoso e sem ameaças!
Entenderam a mensagem? Finos! Mas fazem-nos de burro (do presépio)…

Ecos da blogosfera - 23 dez.

Enquanto não chega o dito…

É impressionante a capacidade que um ser humano tem para atafulhar criaturas no estômago durante a ceia de natal. O que pomos em cima da mesa da consoada, num dia normal, dava para alimentar Badajoz. E Badajoz ainda levava um tupperware, com restos, para dar a Elvas.
João Quadros
No Natal vai tudo. Parecemos ceifeiras a debulhar comida. É como se as pessoas tivessem recebido, de prenda, um casal de ténias do antigo tamanho do Malato. Já imaginei o que seria se o bacalhau fosse como frango. Se em minha casa já há discussão por causa da posta alta e posta baixa, o que seria se o bacalhau viesse só com duas pernas?! Haveria feridos. E lá ficavam os miúdos com as asas do bacalhau. Em minha casa, o bacalhau vem com tudo. E, quando eu digo com tudo, inclui duas norueguesas vestidas com couve, por causa dos dentes do avô. Eu gosto do meu bacalhau com arroz doce. Assim, salto logo para as prendas.
No meu Natal, também costuma haver canja de peru com massa de letras. É um clássico. Dá trabalho mas, com a colher, consigo mandar alguns dos meus familiares para sítios porreiros sem eles darem por isso.
Também é tradição haver uma coisa que é - a travessa de carnes frias. As mais fascinantes carnes frias são as mortadelas com chocapic de azeitonas em pickles. Parecem uma rodela, cortada, fininha, de uma perna de uma senhora com varizes. Não sei quem foi que se lembrou de decorar rodelas de porco com mais comida, mas é de certeza alguém que, na infância, comia sandes de banha com rodelas de ketchup. E deve ser a mesma pessoa que se lembrou de deitar confettis em cima de broas. Irritam-me estas pessoas que gostam de alterar o que estava bem. Têm sempre que adicionar mais qualquer coisinha. Como aqueles que põem fios de ovos à volta do bolo-rei. O bolo-rei é uma coisa de homem, maciça, não é para estar a juntar cenas da Accessorize.
Sinceramente, não tenho assim muito mais para vos dizer. Só de estar aqui nisto, já fiquei com um ratito no estômago. Felizmente, ofereceram-me uma fatia dourada para cama de casal e já não fico a seco até mais logo quando for buscar o peru. O peru é um bicho que comemos mais por causa do tamanho do que pelo sabor. É só porque é um bicho que matava um frango com uma patada e, nos outros dias, comemos frango. Porque a carne do peru, propriamente dita, é uma coisa que sabe a beliche. Talvez por isso, recheiam-no de comida com sabor. Mais uma vez, acrescentam comida à comida. Não chega comer uma ave do tamanho - e peso - dos 2 netos mais novos, ainda lhe enfiam castanhas - e patés - onde antes estavam coisas que faziam falta ao peru para fazer um vida normal. Se o peru soubesse que, depois de morto, vai para a mesa com coisas que ele nunca comeu enfiadas no buxo, andava atrás de pavões enquanto era vivo. Que se lixe a fama se é para acabar assim.
Bom Natal para todos e para a outra meia-dúzia.
TOP 5 - Consoada
1.º -  Ronaldo sobre Irina: "Ela tem o que procuro: um corpo excepcional e a beleza" - é o mesmo que a Maria do Rosário Mattos e Associados procura numa advogada.
2.º -  O San Lorenzo de Almagro, equipa do Papa Francisco, sagrou-se campeã de futebol da Argentina - maldito sistema!
3.º -  Draghi: Ainda é cedo para saber quando é que Portugal sairá do resgate - mostrem-lhe o relógio do Portas!
4.º -  Swaps: Relatório do PSD responsabiliza gestores, Costa Pina e iliba ministra das Finanças - O relatório dos swaps é um swap.
5.º -  Galp comunica descoberta no poço do Pitu - Quim Barreiros rejubila.

Contramaré… 23 dez.

Enquanto centenas de milhares de emigrantes regressam a Portugal para passar o Natal em família, milhares de outros "fogem" do país à procura de emprego. Os números não param de aumentar.
Uma média de 333 portugueses estão diariamente a emigrar, de acordo com o INE. Em 2012, mais de 121.000 abandonaram o país, um novo máximo histórico. Há 46 anos que não se registava um valor tão elevado. Especialistas dizem que "a sustentabilidade do país está posta em causa, dado o inevitável agravamento do saldo já negativo de nascimentos [89.841, em 2012] face ao número de óbitos [107.612]".

domingo, 22 de dezembro de 2013

P’RA TODOS: UM NATAL COM MENOS INIQUIDADES...

Ecos da blogosfera - 22 dez.

Brincando com o fogo (de artes e ofícios)…

As manifestações dos “Forconi” [literalmente, os que manejam as forquilhas], que estão a paralisar as cidades italianas há vários dias, apanharam quase toda a gente de surpresa. Mas as suas reivindicações não-partidárias contra a austeridade e as elites escondem semelhanças perturbadoras com os primórdios do movimento que levou Mussolini ao poder.
Aristocratas de Jaguar e camponeses. Patrões e operários desempregados. Camionistas sob a mira da Equitalia [empresa pública encarregada da cobrança de impostos], novos ideólogos do fascismo e jovens dos centros sociais de esquerda. Apoiantes e ex-apoiantes da Liga do Norte e de Beppe Grillo. Antigos militantes do Partido Democrático (PD) e detratores do seu novo secretário nacional, Matteo Renzi. Sindicalistas de base ou antigos membros da Confederação Geral Italiana do Trabalho (de esquerda). Opositores aos impostos e independentistas venezianos. Imigrantes e hooligans.
O movimento dos “Forconi” que varre atualmente a Itália, de norte a sul, é um magma, uma caldeira em ebulição, que arrasta uma série de siglas e símbolos, políticos, sindicais ou pertencentes a diversos movimentos de protesto. Não tem uma cor política definida nem uma coordenação central ou líder carismático para o orientar. Em suma, não é racional, antes “espontâneo”, como argumenta a maioria dos seus intervenientes.
As suas presumíveis figuras de proa hoje conhecidas são Danilo Calvani, ex-horticultor, e Lucio Chiavegato, carpinteiro de Verona e responsável pela Life Venetia [associação de “livres empreendedores federalistas europeus”, pequenos empresários próximos da Liga do Norte, partido populista de centro-direita]. Mas todos os dias surgem novos, crescem como cogumelos. E agem sem motivação racional, sem ideologia, desde os que ameaçam queimar livros em Savona [no Norte], como Hitler em maio de 1933, aos que organizam um simulacro de enforcamento na praça do Loreto, em Milão, tomando por modelo a execução do “Duce” Benito Mussolini [pendurado, post-mortem, de cabeça para baixo, com outros fascistas, na praça pública].
Transversalidade e independência
A transversalidade e a independência partidária são as palavras de ordem desta curiosa forma de protesto, que parece ter ultrapassado até o dirigente do Movimento 5 Estrelas, Beppe Grillo. Não têm uma condução comum. Os simpatizantes da extrema-direita, que têm ordens para apenas cantar o hino nacional, veem-se ladeados de jovens “tifosi” [grupos de adeptos fanáticos dos clubes de futebol], entoando canções de hostilização da polícia. Queriam estar em Roma no dia do voto de confiança [favorável ao primeiro-ministro Enrico Letta, a 11 dezembro]; mas, precisamente por questões de organização, preferiram adiar a “marcha” para os próximos dias.
Do Piemonte a Puglia, passando por Veneza, desencadeou-se um maremoto disforme, que, reportando a paralelos históricos mais ousados, tem algumas semelhanças com as guerras da Vendeia, que varreram a França na época da Revolução. Os Chouans (revoltosos franceses do séc. XVIII) eram compostos por um núcleo compacto de nobres de província e monarquistas tradicionalistas católicos. Aqui, são empresários que tiveram de encerrar os negócios devido à crise económica, como na região de Vercelli [Piemonte], onde várias explorações agrícolas se uniram às manifestações, juntando patrões e empregados. Os pequenos empresários que estão nas listas da Equitalia – as quais levaram tantos colegas seus ao suicídio. E há também os filhos da recessão: segundo a OCDE, a taxa de desemprego entre os jovens subiu de 40,05% em setembro para 41,2% em outubro, em Itália.
Desafio: travar os extremistas
“As pessoas estão decididas, temos cada vez mais adesão às manifestações. Estão representadas todas as classes sociais, médicos, desempregados, trabalhadores em desemprego técnico. Pessoas que se levantam às 4 da manhã e voltam para casa às 10 da noite e que, no fim do mês, nem sequer conseguem fazer face às despesas, porque não têm um centavo no bolso”, afirma Luca Taddei do Coletivo 9 de Dezembro (que apoia o protesto dos “Forconi”).
O desafio é travar os extremistas, os infiltrados. Como em Turim, uma cidade que, como se recordam alguns parlamentares, foi sempre, ao longo da história, berço dos movimentos de contestação, radicalizados na década de 1970 pelas Brigadas Vermelhas. São principalmente os partidos políticos que se procuram infiltrar nos “Forconi”. Matteo Salvini, novo secretário da Liga do Norte, foi levado em triunfo até ao Pirellone [sede do governo regional da Lombardia, em Milão] pelos Cobas del Latte [membros do sindicato autónomo dos produtores de leite]. Num estilo próximo de Beppe Grillo, apelou à polícia para “tirar os capacetes e juntar-se ao povo” na rua. Silvio Berlusconi, dirigente do Forza Italia, que devia reunir-se em Roma com uma delegação de camionistas, decidiu adiar o encontro.

Contramaré… 22 dez.

Por ter interrompido o primeiro-ministro em dois debates quinzenais, Ivo Margarido incorre em penas de um a oito anos de prisão, pelo crime de coacção contra órgãos constitucionais, e até três anos, por perturbação do funcionamento de órgão constitucional.
"Apenas queria demonstrar que estão a ser cometidos graves crimes por parte dos políticos portugueses", disse Ivo Margarido, que não vai requerer a abertura da instrução do processo.