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segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Alternativas do Congresso e não só… Mas alternativas!

Vítor Gaspar diz que a alternativa à receita que está a ser aplicada a Portugal seria mais catastrófica, mas há quem discorde. O “Congresso Democrático de Alternativasa” procurou apresentar uma outra visão de como podemos sair desta crise. Os promotores pretendem “resgatar Portugal para um futuro decente”.
“Muitos em Portugal que estão contra a austeridade têm escolhido reforçar as suas trincheiras, isso, sendo compreensível, não é útil em si mesmo, e o apelo que fazemos é para que muitos aceitem sair das suas trincheiras para virem para um campo comum, de críticas, denúncia, mas também de alternativa, com a noção muito clara de que é preciso governar este país, em nome do povo”, declarou o economista José Reis, professor catedrático na Universidade de Coimbra.
Reis considera essenciais “a reestruturação da dívida e a mudança dos prazos” e que quem vê esta questão como “tabu” não dá “o devido valor ao peso da realidade”. O economista apontou “cinco áreas fundamentais” sobre as quais os congressistas se debruçaram: “Revigorar a democracia, reconstruir o Estado social, dar dignidade ao trabalho, relançar a economia, procurar alinhamentos frutuosos na Europa e renegociar um memorando nocivo para Portugal”.
Para José Reis, é fundamental “o combate às desigualdades” e apresentar “um programa económico de valorização do trabalho”, procurar um novo “compromisso com o Estado social" que tem estado debaixo de fogo e "um compromisso com a democracia”, por mais “transparência no Estado”. Além da renegociação das “condições sufocantes em que a economia e a sociedade estão hoje”, defende um “compromisso sobre a Europa”, com todos “os que debatem” um projeto “radicalmente diferente do ultraliberalismo que hoje existe”.
Alternativa 1?
O economista João Ferreira do Amaral revelou-se desalinhado com a principal exigência do Congresso Democrático das Alternativas - a denúncia do memorando da troika.
Na sessão temática dedicada aos "desafios da denúncia do memorando da troika", o ex-assessor económico de Jorge Sampaio na Presidência da República, considerou que "não é possível" Portugal romper com o memorando se se quiser manter no euro. Assim, o caminho é outro: "A minha resposta é sair do euro - mas de forma orientada. A saída do euro deve ser negociada, e até pode arranjar bons apoios na Europa", afirmou. Ou seja: uma rutura "consensual" com a UE - e até financiada por esta, para a transição de regresso ao escudo.
João Ferreira do Amaral revelou-se ainda muito pessimista face ao próximo ano: "Vai ser um ano de ruturas importantes, quer a nível económico quer a nível social", disse, prognosticando ainda que o desemprego "aumentará muito mais" do que os 16,4% previstos pelo Governo.
Alternativa 2?
"Está na hora de uma revolução na zona euro, o tempo para uma discussão educada terminou. O que está em causa não são 1% ou 2% de crescimento económico no Sul, mas, pelo contrário, a diferença entre um futuro de prosperidade e um de depressão", refere Christopher T. Mahoney, um veterano de Wall Street que saiu de vice-presidente da Moody's em 2007 e se considera um "libertário do mercado livre", num artigo intitulado "Southern Europe Must Revolt Against Price Stability", publicado no Project Syndicate.
Essa "revolução" deve ser "liderada pela França, Itália e Espanha", com a França à cabeça, e os seus alvos principais são a Alemanha e o Bundesbank. "O tempo é agora, antes que a Espanha e a Itália sejam forçadas a capitular à estricnina e ao arsénio da troika", sublinha.
"Se o Sul continuar a permitir que o Norte administre o remédio envenenado da deflação monetária e da austeridade orçamental, sofrerá, desnecessariamente, anos e anos", adverte Mahoney, para, depois, apelar à "revolução" do Sul.
"A zona euro é uma república multinacional em que cada país, independentemente da sua notação de crédito, pode atuar como um hegemonista. A Alemanha tem apenas 2 votos no conselho de governadores do BCE, não tem controlo e não tem poder de veto. A Alemanha é apenas mais outro membro da união e o Bundesbank apenas mais outra sucursal regional do sistema do euro. O Tratado do BCE não pretendeu ser um pacto de suicídio, e pode ser interpretado de um modo suficientemente aberto para permitir que seja feito o que tem de ser feito. Se o Tribunal Constitucional objetar, então a Alemanha pode sair." E reforça: "O que advogo é uma rutura pública com o Bundesbank e com os seus satélites ideológicos".
A finalizar, diz: "Talvez seja mais prudente conduzir esta revolta em privado, mas o que acho é que só funciona como ultimato público".
Alternativa 3?
O Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, considera que as medidas de austeridade aprovadas em Portugal têm "obviamente" um "efeito recessivo" e as que as expetativas dos empresários "não são muito positivas".
Cavaco Silva reconhece a contestação nas ruas e afirma que "os políticos não podem ignorar a voz do povo", escusa-se a avaliar as últimas medidas anunciadas pelo Governo, mas recorda que a última avaliação da troika confirmou que "Portugal teria dificuldade em cumprir os objetivos de redução de défice orçamental como resultado da alteração da conjuntura internacional".
Sobre a "atitude" de Angela Merkel, Cavaco Silva afirma que há que reconhecer "que os egoísmos nacionais cresceram muito nos últimos anos e a solidariedade desceu", embora acredite que Merkel "tem uma vontade firme de combater a crise do euro", admite que "gostaria que Merkel fosse mais consistente na sua defesa".
"Talvez tenhamos que compreender os seus problemas políticos internos", disse.

Ecos da blogosfera - 8 out.

Os Europeus – 17

O atentado de extremistas sérvios contra o casal herdeiro da coroa austríaca desencadeou a chamada "Crise de Julho" na Europa. Um mês depois eclodiria a I Guerra Mundial. 
Matthias von Hellfeld
Ilustração do assassinato do Arquiduque Francisco
Fernando e da esposa, a Duquesa Sofia
O arquiduque Francisco Ferdinando (1863-1914) e a sua esposa Sofia (1868-1914) acabavam de chegar a Saraievo em 28 de junho de 1914, após uma visita ao imperador alemão Guilherme II (1859-1941). O seu objetivo era assistir ao encerramento de uma manobra das Forças Armadas austríacas na Bósnia. A caminho do centro da cidade, o seu comboio teve que manter marcha lenta, o que beneficiou o autor do atentado, que estava emboscado.
Primeira tentativa fracassou
A primeira tentativa de atentado fracassou por causa da presença de espírito do sucessor do trono austríaco. Com o canto dos olhos, notou algo preto a voar na sua direção e, protegendo-se com a mão, conseguiu assim desviar a granada que fora lançada contra o veículo, que explodiu diante do carro que vinha atrás, ferindo dois passageiros.
O criminoso tentou matar-se com cianeto de potássio, mas o veneno não fez efeito, provocando somente fortes acessos de vómitos. Foi detido por passantes à volta, enquanto o comboio do arquiduque acelerou para chegar rapidamente à Câmara Municipal. A viagem até ao local de manobra militar foi desviada para uma outra rota.
Logo após a partida para o local da manobra, o motorista de um dos veículos da frente notou que o comboio tinha seguido o caminho errado. Os carros tiveram que desacelerar e fazer marcha a trás. Nas imediações, 2 matadores à espreita, armados com uma pistola, aproveitaram o momento para balear Francisco Ferdinando duas vezes. Foi atingido na veia aorta e Sofia no abdómen.
Estes matadores também engoliram cápsulas de cianeto de potássio, mas novamente o veneno não fez efeito. Enquanto o segundo matador era detido pela multidão exaltada, Francisco Ferdinando e a sua esposa Sofia morriam dentro do veículo em decorrência dos ferimentos à bala.
Em interrogatório, ambos os assassinos revelaram ser adeptos do Movimento Paneslavo. Essa organização apoiada pela Rússia defendia a unificação de todos os povos eslavos num Estado. Como no Império Austro-Húngaro viviam muitos eslavos, o atentado contra o sucessor da coroa austríaca já vinha a ser planeado há um certo tempo.
Crise de Julho na Europa
O atentado não foi tratado como o que realmente era, ou seja, um incidente que comprometia as relações diplomáticas entre o Império Austro-Húngaro e a Sérvia, e possivelmente teria levado a conflitos políticos internos com algumas minorias. Como se só estivessem à espera dessa ocasião, as Forças Armadas austríacas pressionaram o imperador Francisco José I (1830-1916) a uma revanche militar imediata contra a Sérvia, além de conquistarem para tal o apoio do Estado Maior alemão.
O chanceler do Império, Theobald von Bethmann-Hollweg (1856-1921), enviou a Viena praticamente uma carta-branca por uma guerra contra a Sérvia. O comunicado dizia que Sua Majestade, o imperador alemão, se mantinha fiel e corajoso ao lado da Áustria, "em consonância com os seus deveres de aliado e com a sua velha amizade". Apesar dessa insinuação, Guilherme II ainda teria tido tempo suficiente para evitar um conflito generalizado na Europa. Mas a decisão dos governos foi outra.
Violência cega
No dia 23 de julho de 1914, Belgrado recebeu um ultimato da Áustria, com prazo de 48 horas para aceitar investigadores austríacos no inquérito sobre o atentado contra Francisco Ferdinando. Apesar de o governo sérvio ter cumprido esta e outras exigências, a resposta não satisfez o governo em Viena. Francisco José I também acabou decidindo-se por uma declaração de guerra contra a Sérvia. E assim não se pode mais deter a cadeia de reações diplomáticas e militares.
Em 28 de julho de 1914, o Império Austro-Húngaro declarou guerra contra a Sérvia. A Rússia reagiu um dia depois, mobilizando as suas forças de combate. Em 31 de julho, o Império Alemão deu um ultimato à França, exigindo que o país se mantivesse neutro no caso de uma guerra entre a Alemanha e a Rússia. Um outro ultimato a Moscovo exigia que o czar Nicolau II suspendesse a mobilização das tropas russas.
Quando esse prazo expirou, sem que o governo russo tivesse detido as suas tropas em avanço, as Forças Armadas alemãs pressionaram o imperador a declarar guerra contra a Rússia. No dia 1 de agosto, Guilherme II assinou a declaração de guerra.
Catástrofe originária do século 20
Nesse dia iniciava-se aquilo que o historiador norte-americano George F. Kennan (1904-2005) denominou a "catástrofe originária do século 20": a I Guerra Mundial.
Como que fora de si, os líderes políticos da Europa abriram mão – no verão de 1914 – de um relativo bem-estar, de circunstâncias políticas estáveis e da hegemonia cultural do continente sobre vastas regiões do mundo.
Por um motivo insignificante, se comparado com as suas consequências, os detentores das coroas europeias selaram um acordo quase tácito e transformaram o continente num campo de batalha de dimensões imprevistas. Estavam inebriados pela ideia de ampliar o seu poder ao término da guerra, ignorando, assim, as vozes que alertavam sobre o seu próprio declínio.

Minuta da ata do “Alternativas” para Resgatar Portugal

O Congresso das Alternativas juntou 2.000 pessoas, em Lisboa. A esquerda uniu-se para mudar o Governo, o País e a História. Dizem que têm a força e a vontade, o que lhes falta mesmo é uma agenda política.
Rosa Pedroso Lima
O diagnóstico do País é sombrio e as soluções apresentadas pelo Governo não chegam para combater "o desastre a que chegamos". Há uma democracia "moribunda", segundo Vasco Lourenço. "Uma república em risco", para Pedro Delgado Alves. E como se não bastasse somos geridos pelo "primeiro Governo  anti-patriótico", segundo Carvalho da Silva. 
As perspectivas negras e a situação "de emergência nacional" deram o mote. E só mesmo por elas, cerca de 2.000 pessoas, durante um dia inteiro, fizeram finca pé na Aula Magna da Reitoria da Universidade de Lisboa. Ouviram soluções alternativas, discutiram propostas sobre Economia, Finanças, Cultura, Europa ou o Mundo. Durante 10 horas traçaram o destino do País. No final, prometeram "manter-se activos enquanto as circunstâncias o exigirem", segundo Manuel Carvalho da Silva. Mas não se marcaram datas, nem novos encontros, nem novas iniciativas. Soube a pouco, para alguns dos presentes.
Alguns queriam mesmo muito mais do que a lista de intenções e propostas que circula agora no site do Congresso das Alternativas. Houve quem quisesse que daquele grupo de homens e mulheres de esquerda surgisse um partido. "A consequência lógica deste Congresso seria a criação de uma associação política. Senão, não fizemos mais do que uma conversa sobre o sexo dos anjos", resumiu José Cavalheiro. Antigo militante da luta da co-incineração, voltou aos palcos da atividade política para pedir mudanças, sem entregar a ação às mãos dos mesmos atores políticos. O Congresso recusou por maioria a sua moção, que tentava levar a organização à forma de um novo partido.
"Neste Congresso, essa hipótese esteve sempre excluída desde o início. Faz parte do nosso ADN", disse Castro Caldas, um dos organizadores, que recusam passar do estatuto de movimento da "sociedade civil" para qualquer forma de organização política ou partidária.
Os congressistas que pediam mais eram minoritários. Como foram minoritários aqueles que pediam medidas mais duras para serem inscritas na declaração final do Congresso. Dezenas exigiram a suspensão imediata do pagamento da dívida portuguesa. Outros tantos exigiam a ratificação de "todos os tratados da União Europeia e de todas as alterações constitucionais por referendo popular". A maioria, porém, travou os ímpetos mais radicais e acabou a aprovar um texto moderado com palmas e aclamações.
Na verdade o Congresso da Alternativa pede muito. A mudança de Governo, desde logo, mas também a denúncia do memorando assinado com a troika e a renegociação da dívida portuguesa. Pelo caminho, fala-se de cultura ou de indústria, de investigação científica ou de recursos naturais, Sem reservas, nem pudores, querem mesmo discutir tudo e com todos. Entre elas, a possibilidade de saída do euro, uma medida trazida para cima da mesa por vários economistas, desde João Ferreira do Amaral a  Ricardo Cabral e a Jorge Bateira. 
O Congresso assumiu que essa hipótese deve ser discutida e analisada "como um das alternativas possíveis". Quando, como e por quem será feita essa discussão é que, na verdade, ficou por dizer.

Contramaré… 8 out.

Milhares de trabalhadores entraram em greve numa fábrica na China que fabrica componentes para o iPhone 5, da Apple, revelou o China Labour Watch, um grupo de direitos do trabalho. Este é o mais recente episódio que afeta as operações da Foxconn, cujas instalações na China foram assoladas por uma série de suicídios de trabalhadores nos últimos anos. A greve sucede-se a um enorme conflito ocorrido entre operários numa das fábricas em setembro.

domingo, 7 de outubro de 2012

E as cigarras ainda fumam e pagam mais para o SNS…

A cigarra tem dois desejos: cantar e ficar com uma parte do fruto do trabalho da formiga. Passos Coelho anunciou a intenção de ficar com uma parte do fruto do trabalho dos portugueses e depois foi cantar (para o concerto de Paulo de Carvalho). É, sem tirar nem pôr, o comportamento da cigarra.
Ricardo Araújo Pereira
Os portugueses vivem acima das suas possibilidades. Deviam abandonar a sua zona de conforto e emigrar. Fariam melhor se deixassem de ser piegas. E, além do mais, são preguiçosos, como as cigarras. O povo português é, globalmente, uma cigarra caloteira, lamechas e excedentária. Que o Governo continue interessado em dirigir este lamentável insecto, é quase milagroso. Em lugar de agradecer a gentileza, o povo responde com insultos. O salutar diálogo democrático entre governantes e governados está cada vez mais parecido com uma rixa de trânsito. "Gatunos!" "Calões!" "Saiam do Governo!" "Saiam do País!"
O que ficou escrito acima é a interpretação que os piegas fazem das palavras do ministro Miguel Macedo. A tendência para a lamúria e para a vitimização tolda-lhes a capacidade de análise. Na verdade, a violenta crítica de Miguel Macedo não é dirigida aos portugueses, mas ao primeiro-ministro. Um exame mais atento à fábula da cigarra e da formiga não deixa dúvidas. A cigarra da história tem dois desejos: cantar e ficar com uma parte do fruto do trabalho da formiga. Passos Coelho anunciou a intenção de ficar com uma parte do fruto do trabalho dos portugueses e depois foi cantar (para o concerto de Paulo de Carvalho). É, sem tirar nem pôr, o comportamento da cigarra - e é nocivo para o País, como o ministro da Administração Interna assinalou, e bem.
Há uma contrafábula que consiste numa espécie de sequela da história da cigarra e da formiga. Muitos anos mais tarde, elas voltam a encontrar-se.
- "O que tens feito?", pergunta a cigarra.
- "O costume", disse a formiga. "Trabalho que nem uma moura durante o verão para acumular mantimentos que me permitam passar um inverno modesto e com o mínimo essencial. E tu?"
Responde a cigarra: "Continuei a cantar e agora vivo em Paris, já esgotei várias vezes o Olympia, tenho uma mansão, um iate..."
É então que a formiga diz: "Está certo. Olha, se vires o La Fontaine diz-lhe que vá para o raio que o parta."
Talvez a moral da contrafábula seja mais certeira que a da fábula. A cigarra que ocupava a cadeira em que Passos Coelho se senta agora também se fartou de confiscar o fruto do trabalho das formigas e hoje leva uma vida de sonho, precisamente, em Paris. E o mais provável é que, quando voltarmos a encontrá-lo, dentro de uns anos, Passos Coelho tenha uma vida bem melhor que a das formigas. La Fontaine precisa mesmo de ir para o raio que o parta.

Ecos da blogosfera - 7 out.

Os Europeus – 16

A Assembleia Nacional reunida na Igreja de São Paulo, em Frankfurt, fracassou na sua tentativa de estabelecer um Estado nacional alemão no centro da Europa.
Matthias von Hellfeld
Assembleia Nacional alemã, na Igreja de São Paulo
Em 18 de maio de 1848 a Assembleia Nacional alemã reuniu-se pela primeira vez. Os delegados, encarregados de elaborar uma Constituição e preparar as eleições, nomearam Heinrich von Gagern (1799-1880) presidente do grémio.
O arquiduque João da Áustria (1782-1859) foi incumbido da regência interina; até à realização de eleições livres, deteve o poder central na Confederação Germânica. A sua nomeação foi a primeira de uma série de decisões equivocadas. Para os radicais da Assembleia Nacional, ele era representante do antigo sistema a ser derrubado. Colaborar com ele era inimaginável para essa fação.
O próximo problema surgiu no verão de 1848, após o cessar-fogo de Malmö, que pôs fim a um conflito armado em Schleswig-Holstein. Nessa região, uma revolução contra o soberano dinamarquês, rei Frederico VII (1808-1863), fora reprimida, apesar da intervenção prussiana. A Assembleia Nacional teve que reconhecer que, sem um exército próprio, não podia defender os interesses de seus membros.
União de Estados
Além disso, os delegados não tardaram a perceber que um exército próprio não era a única coisa que faltava. Também se carecia de todos os outros ingredientes necessários para a fundação de um Estado: capital, instituições nacionais, leis comuns ou um consenso sobre que regiões deveriam integrar-se no reino alemão a ser fundado.
A maioria dos deputados, com formação académica, tinha a tendência de se estender em longas discussões. O precioso tempo das reuniões transcorria, por exemplo, com debates sobre os direitos dos cidadãos, sobre liberdade de imprensa e de opinião, enquanto os opositores da revolução ganhavam tempo para mobilizar as suas forças.
Mesmo quando Robert Blum (1807-1848), delegado da Assembleia Nacional alemã, foi executado durante um levantamento reprimido de forma sangrenta na Áustria, os deputados continuavam a discutir em Frankfurt. Até o fim de dezembro de 1848, ficaram a debater a lista de direitos fundamentais e humanos, sem se darem conta das relações reais de poder.
"Grande solução" ou "pequena solução"?
O ponto central dos debates era que estados deveriam integrar o reino alemão. Uns achavam que deveriam ser os membros da Confederação Germânica, a Prússia e a Áustria – esta era chamada a "grande solução alemã". Outros preferiam que a Áustria ficasse de fora, sugerindo com isso uma "pequena solução". Facto é que ambas as propostas eram impraticáveis.
Os defensores da "grande solução" sonhavam com uma Alemanha sob a coroa dos Habsburgos, tinham fascínio pelo antigo império medieval e revestiam as suas ideias com um toque de zeitgeist (espírito da época) liberal. Mas, no fundo, o que eles queriam era reavivar o Sacro Império Romano Germânico, derrubado em 1806 pela política hegemónica de poder de Napoleão.
O que ignoravam, no entanto, eram os vários milhões de não-alemães que seriam obrigados a viver no reino alemão. Considerando que esse plano necessariamente provocaria a cisão da Áustria, não é de admirar que o imperador austríaco Francisco José I (1830-1916) se tenha oposto veementemente à ideia.
Mas a "pequena solução", abrangendo a Confederação Germânica e a Prússia, sem a Áustria, também foi rejeitada pelo imperador austríaco, pois acarretaria perder a sua influência sobre a Alemanha. Além disso, essa solução também contrariava a meta de unir no novo reino "todas as pessoas de língua alemã".
Durante meses, ambas as fações se mostraram inconciliáveis, sobretudo porque também havia divergências quanto a uma outra questão: o novo reino deveria ser uma república ou uma monarquia constitucional?
Rei prussiano recusa
A votação foi no dia 27 de março de 1849. Uma maioria apertada votou a favor de uma monarquia constitucional com o rei prussiano à frente, como imperador alemão. Uma delegação foi enviada imediatamente a Berlim, a fim de oferecer a coroa a Frederico Guilherme IV (1795-1861). No entanto, o soberano rejeitou-a bruscamente. Para ele, a oferta da Assembleia Nacional mais significava uma "coleira de ferro". Como não pretendia deixar-se coroar pela "canalha", deu aos alemães a última chance de se agregarem num Estado nacional a partir de um movimento sustentado pelo povo.
Quando as últimas tropas capitularam um pouco depois, em Rastatt, a Revolução Alemã entrava em colapso. Os deputados tinham fracassado não só pela falta de uma base de poder, mas também por não terem solucionado a questão das fronteiras do Estado.
Uma exclusão da Prússia e da Áustria teria levado à solução insatisfatória de estabelecer um Estado alemão aleijado, incapaz – como a Confederação Germânica – de sobreviver de forma autónoma e dependente da boa vontade dos outros dois blocos germânicos. Por outro lado, a inclusão da Prússia e da Áustria teria levado necessariamente à cisão de ambos os Estados, pois grande parte de sua população não era alemã.
Prelúdio de uma era de instabilidade
Desta forma, acabou mantendo-se o status quo no centro da Europa. Os acontecimentos da Revolução Alemã, no entanto, deixaram claro que o perigo de uma desestabilização aumentara. Cerca de 22 anos depois, acabou por se fundar um reino alemão, mesmo que sem a participação do povo.
A cerimónia da fundação foi realizada no Salão de Espelhos de Versailles, em janeiro de 1871. Desta vez, o rei prussiano Guilherme I (1797-1888) não recusou.
Durante alguns anos, ainda foi possível manter a paz na Europa. Mas a política do novo imperador alemão Guilherme II (1859-1941) acabou por se tornar cada vez mais agressiva, provocando uma erupção de dimensões imprevistas.

Uma pequena loucura orçamental da UE, a elogiar…

Imagine um lugar onde, todos os anos, várias dezenas de milhares de europeus se encontram, se descobrem e aprendem a viver num país diferente do seu. Imagine um meio de ultrapassar fronteiras, de esquecer a tecnocracia e de viver a Europa de forma concreta e não politizada. Esse lugar e esse meio existem, são as universidades e o programa Erasmus. E, esta semana, ficámos a saber que esse programa corre o risco de ficar sem dinheiro.
Erasmo - Moeda holandesa de 2 euros
Nem tudo está perdido para os estudantes. As suas bolsas foram pagas no início do ano letivo. E o comissário europeu do Orçamento, Janusz Lewandowski, garantiu que vai chegar a acordo com os Estados-membros para resolver a falta de dinheiro. Mas a situação corre sérios riscos de se repetir no próximo ano porque, tanto para o orçamento da UE como para os orçamentos dos Estados que o financiam, a hora é de austeridade. Por isso é urgente defender o programa Erasmus.
É certo que da classificação de “agência matrimonial mais eficaz da Europa” que rapidamente lhe foi atribuída, ao filme Albergue Espanhol, que narra as aventuras de um grupo de jovens em Barcelona, o programa de intercâmbio de estudantes padece muitas vezes de uma imagem algo superficial que incentiva os financiadores da Europa a considera-lo com um mero acessório. Isso é esquecer que através desses pedaços de vidas íntimas, o “Erasmus criou a primeira geração de jovens europeus”, como muito bem resumiu Umberto Eco. Só por esse facto, deveria ser considerado como uma prioridade política.
Limitarmo-nos a esta realidade seria esquecer que Erasmus é o acrónimo de European Community Action Scheme for the Mobility of University Students [Esquema de Ação da Comunidade Europeia para a Mobilidade dos Estudantes Universitários] e que, a esse título, tem duas vantagens essenciais para o futuro da Europa.
A primeira é a mobilidade, numa Europa onde as línguas e a ancoragem nacional dos indivíduos entravam a construção de um espaço económico, social e de cidadania comum à escala dos Estados Unidos, por exemplo.
A segunda é a troca de conhecimento, indispensável para inovar, continuar a ser competitivo e dar vontade aos investigadores e aos inventores para continuarem na Europa. A Europa já tem dificuldade em manter o seu lugar na mundialização, não tem interesse em privar-se desse instrumento.
Mas, evidentemente, Erasmus não é apenas um acrónimo complicado. É o nome de um dos pensadores mais importantes do Renascimento. Grande viajante, Erasmo de Roterdão simboliza essa vontade de unidade que a crise atual está a enfraquecer. O autor de Elogio da Loucura simboliza uma Europa que soube voltar aos seus valores antigos para criar novos e que se alimentou de um diálogo cultural e político entre países do Norte e do Sul para inventar uma nova modernidade.
Em 2010-2011, o programa Erasmus custou 460 milhões de euros. Uma pequena loucura orçamental a que a Europa em busca de renascimento bem poderia permitir-se.

Contramaré… 7 out.

O secretário-geral do PS, António José Seguro, revelou que o PS "Até ao final do ano o PS vai apresentar uma proposta de alteração da lei eleitoral para a Assembleia da República" com o intuito de reduzir o número de deputados, atualmente cifrado em 230.
Questionado sobre o número de deputados que o PS quer reduzir, a assessoria do PS escusou-se a avançar o número, remetendo mais pormenores para mais tarde.