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sexta-feira, 4 de maio de 2012

Publicidade e Hipocrisia, Poder e Poderio. É fartar…

1. Finalmente travou-se uma discussão ideológica em Portugal. Num país dominado - no plano económico, social e informativo - pelo FMI, pela crise, pelo memorando de entendimento e austeridade, mais austeridade, mais austeridade, que refrescante foi esta celeuma provocada pelo desconto de 50% do Pingo Doce! Há muito tempo que não constatávamos tamanha divergência de pensamento entre a esquerda e a direita. No que respeita às finanças públicas, à economia, ao emprego, ao futuro dos jovens portugueses, a esquerda anti-democrática tem sido incompetente apática; a direita tem-se acomodado, impotente, esperando para ver o que resulta da aplicação cega da receita do FMI. Mas quanto ao Pingo Doce... opá! Fazer-se um desconto de 50% no dia 1 de Maio? O mundo está louco? Não pode ser, dizem os sacerdotes da esquerda e os prosélitos da direita: os primeiros, foram logo pesquisar, ler atentamente, memorizar o "Manifesto Partido Comunista" de Karl Marx e de Engels para apurar qual seria a opinião do ilustre pensador (ámen!) sobre o desconto chocante do Pingo Doce; os segundos (da direita) passaram logo a citar o "Caminho para a Servidão" de Friedrich Hayek para defender que a liberdade de iniciativa económica do Pingo Doce é ilimitada e que o mercado é tão generoso para os portugueses! Ah, que bom! Está encontrada a nova questão fracturante da sociedade portuguesa: os descontos do Pingo Doce. O Partido Comunista até parece que vai alterar o seu discurso e a sua filosofia: o novo materialismo dialéctico é entre o povo português, explorado pelo Pingo Doce porque faz promoções indecentes, e o "porco capitalista" do Pingo Doce que quer vender e ter lucro (ah, que chocante, meu Deus...ou, na linguagem comunista, meu marxinho!)
2. Dito isto, convém ressalvar que deste episódio do Pingo Doce só relevam três aspectos (tudo o resto é folclore político e foguetes mediáticos):
a) Os portugueses vivem grandes dificuldades e qualquer ajuda, no presente contexto, é um bálsamo para as suas almas e... para as suas carteiras. Os impostos aumentam ciclicamente, já ultrapassando (em muito!) os limites do razoável (e apesar de as taxas de imposto aumentarem, o défice do Estado está constantemente a agravar-se, o que denota bem a competência dos nossos políticos); os salários diminuem; o poder de compra é cada vez menor; os bancos não emprestam dinheiro; o desemprego aumenta...a possibilidade de adquirir o dobro pelo mesmo dinheiro é muito apelativo para os portugueses. E ajuda os portugueses a ter uma folga no orçamento familiar - é que para além do défice do orçamento do Estado, há milhões de orçamentos deficitários que correspondem às finanças das famílias portuguesas. Logo, a prepotência intelectual dos que acusaram os portugueses que aproveitaram a promoção em causa de ser "bimbos", "imbecis", "idiotas" e outros qualificativos afins deve ser veementemente repudiada - quem vive dificuldades em concreto, no dia-a-dia e experimenta o lado duro da vida, não quer saber se o Pingo Doce ou o Pingo Amargo pratica ou não dumping. Quer é, isso sim, garantir que tem comida em casa e recursos para sustentar a sua família. Eu gostaria muito que estes "bimbos", "imbecis" e "idiotas" que tanto criticam os portugueses por aproveitar uma promoção comercial se revoltassem tanto, tão ferozmente, quando o Estado aumenta impostos de forma brutal, sobretudo para os trabalhadores honestos! Então, o Estado seria qualificado como? Como "ladrão", "gatuno" e "mentiroso"? Além disso, vejamos, ainda, o argumento legal: a ASAE está a investigar se a promoção viola ou não as regras da concorrência, consubstanciando uma prática de dumping. Pois bem, creio que a violação da legalidade deve ser investigada e reprimida - tenho pena que as autoridades reguladoras não mostrem tanto zelo quando as gasolineiras concertam os aumentos de preços da gasolina para valores injustificáveis! Quer dizer: quando é para onerar os portugueses, aumentando os preços, tudo é feito dentro dos parâmetros legais; quando os preços descem, aí já estamos perante uma perversidade legal...
b) Em segundo lugar, analisemos o aspecto político desta questão. Em primeiro lugar, trata-se de uma acção de marketing da Jerónimo Martins para recuperar a sua credibilidade juntos dos portugueses, após o episódio da fuga de capitais para a Holanda para escapar à tributação portuguesa! Pretende-se dar o sinal de que, afinal, o Pingo Doce percebe e é solidário com as dificuldades dos portugueses. EM segundo lugar, os comunistas e os bloquistas criticaram apenas por uma razão: é que, no fundo, o PCP e BE têm ciúmes do Pingo Doce - este supermercado, propriedade de um "porco capitalista", fez aquilo que os comunistas fariam se fossem governo. Subsidiar os produtos básicos ou fixar um preço máximo para os portugueses adquirirem em maior quantidade - só que, neste caso, foi o mercado (um empresário privado) que cobra metade do preço das compras dos portugueses. Objectivos altruístas? Claro que não: o Pingo Doce visa maximizar o lucro. Mas desde quando é que o comunismo visou assegurar o interesse geral? A História já condenou os comunistas, não carece a minha afirmação de mais explicações. Reparem que o que Hugo Chavez faz na Venezuela, como prática reiterada e institucionalizada, não é muito diferente - só que, em vez de ser o Pingo Doce, é o Estado. O Pingo Doce virou socialista de mercado. E esta, hein?
c) Em terceiro lugar, o governo e a direita deveriam estar radiantes. A questão da promoção do Pingo Doce preencheu a agenda informativa, desviando as atenções do essencial (actuação governativa na gestão e superação da crise nacional); tratou-se de uma forma de os portugueses aliviarem o seu orçamento, sem ser necessária a intervenção do Estado; por último, a direita deveria estar radiante, pois, em Portugal, é um dos escassos exemplos demonstrativos do funcionamento do mercado e dos seus benefícios para os consumidores. Parece até que já há outro supermercado que fala em descontos de 75%...
Em suma, não adiro à hipocrisia nacional de condenar os descontos do Pingo Doce ou do Pingo Amargo. Eu, português, com dificuldades de tesouraria privada, com o cinto mais apertado do que nunca, só não fui na terça-feira aproveitar a promoção pois dela não tive conhecimento antecipada. Para a próxima, por favor, avisem. Estou a precisar. Obrigado.
João Lemos Esteves

Reflexão do Relvas… 4 maio

O ministro caracterizou a imprensa portuguesa como agressiva e repetitiva, contudo, esclareceu que não pode inferir desta análise que o poder político receia a imprensa.
Numa entrevista à TSF, que passa na íntegra esta quinta-feira às 15:00, Miguel Relvas considerou que a “transmissão de factos” que decorre da Liberdade de Imprensa “não acontece muitas vezes”. “Sabemos que há muitas vezes a interpretação truncada e uma certa tentação pelo lado mais espetacular e o apelo ao título”, acrescentou.
Para este governante, “nem sempre a notícia que lemos, ouvimos ou vemos corresponde à forma como é apresentada”, sendo que há uma “certa tentação de fixar o ouvinte, o telespectador e o leitor”.
“Acho que o poder político tem de olhar para o poder dos media com o distanciamento natural de quem está em cada uma das partes a cumprir a sua missão”, sublinhou.
Miguel Relvas mostrou-se ainda “defensor de uma visão ética em que a autoregulação tem de se impor à regulação”, concluiu.

Contramaré… 4 maio

De acordo com o Instituto Nacional de Estadística y Censos, o índice de pobreza na Argentina caiu de 9,9% para 6,5% no 2º semestre de 2011, em relação ao mesmo período de 2010. Além disso, 1,7% da população está em situação de indigência, contra os 2,5% em 2010. Em 2003, o índice de pobreza atingia 54% da população, sendo 27,7% indigentes.
Neste período, a economia cresceu 8,9%, e o desemprego caiu para 6,7%, taxa que estava em 7,1% em 2010. 

Os ricos ingleses nunca foram tão ricos, apesar de…

É oficial: o país está em recessão. Outrora aliciante e generosa, Londres, que elege o seu presidente da Câmara a 3 de maio, tornou-se desigual e cínica, escreve o jornal La Repubblica. Porque, apesar do número recorde de milionários, os anos prósperos da era Tony Blair parecem muito longínquos.
The Shard, na City
Os ricos de Inglaterra nunca foram tão ricos: os que constam da lista anual do Sunday Times representam uma fortuna global de 414 mil milhões de libras [cerca de 509 mil milhões de euros], ainda mais do que o recorde anterior, que data de 2008. Mas a mais longa depressão deste século atirou todos os outros para baixo.
O homem que, há dias, se barricou em Tottenham Court Road, no escritório de um revendedor de veículos utilitários, ameaçando fazer-se explodir porque “não tinha mais nada a perder”, não é apenas um louco, é também um desempregado. O seu gesto foi lido como o termómetro de um desespero que se vai amplificando.
Não é, de maneira nenhuma, uma coincidência tais factos terem ocorrido no dia seguinte ao anúncio da recessão que atinge uma vez mais o Reino Unido. O tão temido “duplo mergulho” – 2 recessões consecutivas – aconteceu mesmo. Desde 1975 que não acontecia tal coisa. De repente, neste ano de 2012, o ano do Jubileu de Diamante da Rainha e dos Jogos Olímpicos (em julho e agosto próximos), a capital está ferida, atormentada pelas dúvidas e pelo medo enquanto reaparece o espetro do “grande descontentamento” dos anos de 1970.
Durante os anos de Tony Blair e da sua "Cool Britannia" a bolsa subia rapidamente, o preço das casas aumentava e toda a gente enriquecia. Pelo menos aparentemente. Hoje, o setor financeiro, que representa 29% do PIB britânico foi o que maior quebra sofreu durante os 2 últimos trimestres. Os bancos não contratam, o setor dos serviços está em marcha lenta, a construção estagnou.
A City, uma nova Babilónia?
No aeroporto de Heathrow, no controlo de passaportes, as filas não param de aumentar por causa da redução de pessoal imposta pelos cortes orçamentais. Avolumam-se os presságios sombrios: Rowan Williams, arcebispo de Cantuária, denuncia. Porquê? Ele próprio o explica num artigo da Prospect, onde condena duramente a avidez do capitalismo voraz de Londres: “É a Bíblia que nos avisa, hoje a City faz comércio com as nossas almas”.
Para dizer a verdade, o Antigo Testamento não faz referência à Square Mile [“Milha Quadrada”] mais rica da Terra, mas sim a uma “City” do passado, a antiga babilónia. “Londres é uma Babilónia moderna onde o comércio e o lucro dominam sobre qualquer outra consideração. Tudo está à venda, incluindo as consciências.”

Ecos da blogosfera - 3 maio

quinta-feira, 3 de maio de 2012

“Ano europeu do voluntariado para cada um”. Assinei!

A crise que atinge o Velho Continente, atinge sobretudo os jovens, muitos deles licenciados. É a esta geração que é feito o apelo por uma Europa dos cidadãos, lançado pelo eurodeputado Daniel Cohn-Bendit e pelo sociólogo Ulrich Beck. O documento, publicado em Die Zeit, Le Monde e El País e La Repubblica, foi subscrito por 60 intelectuais, dirigentes políticos e artistas europeus, entre os quais o presidente do Parlamento Europeu, Martin Schulz, Jacques Delors, os Prémio Nobel da Literatura, Imre Kertesz e Herta Müller, e por Adam Michnik e Joschka Fischer.
Parafraseando John Kennedy, os signatários do manifesto pedem
à Comissão Europeia e aos governos nacionais, ao Parlamento Europeu e aos parlamentos nacionais que criem uma Europa "de cidadãos ativamente empregados", e também que criem condições financeiras e jurídicas para o estabelecimento de um "Ano europeu do voluntariado para cada um", como reação ao modelo "top-down" que prevalece atualmente na Europa, uma Europa de elites e tecnocratas. O objetivo é democratizar as democracias nacionais a fim de se reconstruir uma Europa com base neste toque a reunir: "Não perguntem o que a Europa pode fazer por nós, mas o que podemos nós fazer pela Europa – Façamos a Europa!"
Incentivando “a concentração de vulgares cidadãos europeus por iniciativa própria”, os promotores deste documento transformaram o seu projeto “num ato de autocriação graças ao qual a Europa será dotada de uma nova constituição 'pela base'".
Eu já assinei! Se quiser fazer o mesmo, basta clicar em qualquer dos links do artigo, onde encontrará o Manifesto completo.

Reflexão do Relvas… 3 maio

Miguel Relvas, mostrou-se hoje preocupado com a taxa de desemprego de 15,3% registada em março em Portugal, especialmente entre os jovens, a 3ª mais elevada da UE e que representa uma subida de 0,3% em relação a fevereiro e disse que em 2014 esse número estará reduzido. "São números preocupantes. O desemprego tira-nos o sono e é muito motivador para o trabalho que estamos todos os dias a desenvolver", disse o ministro.
"Temos que trabalhar para que nos próximos anos possamos ultrapassar esta situação, em particular o desemprego jovem. Penaliza-nos saber que há hoje uma geração de portugueses que estão muito bem preparados e que não têm emprego", disse Miguel Relvas. "Por isso, este caminho de reformas que estamos a seguir é um caminho que nos vai poder permitir que em 2013 e 2014 seja possível reduzir, numa primeira fase ainda de uma forma mais tímida, mas numa segunda fase de forma mais acelerada, o desemprego", acrescentou.
O ministro-Adjunto e dos Assuntos Parlamentares sublinhou que as reformas que o Governo está a levar a cabo são para "pôr a economia a crescer - e a economia, começando a crescer, reduz o desemprego".

Contramaré… 3 maio

Mais paleio de chacha para “justificar” os saques!

“A Europa prepara-se para consolidar um primeiro conjunto de regras destinadas a tornar os bancos mais sólidos”, relata o jornal Le Figaro. Os ministros das Finanças dos 27 reúnem-se neste 2 de maio para transpor para o direito comunitário as regras internacionais ditas de "Basileia III", elaboradas para solidificar o setor bancário. Este diário acrescenta:
A diretiva limita drasticamente a definição de capitais próprios dos bancos e aumenta pesadamente o nível exigido desses capitais, de forma que cada estabelecimento passa a dispor de um nível de fundos que lhe permite absorver choques violentos. Segundo a Autoridade Bancária Europeia, se tivessem de cumprir já as regras de Basileia III, os cem maiores bancos europeus teriam em falta, nas condições atuais, cerca de 485 mil milhões de euros de capitais.
O projeto prevê que cada banco disponha de 7% de capitais em fundos próprios. O Reino Unido pretende aumentar essa exigência, para solidificar os seus bancos de depósito. Por seu turno, a França quer que os fundos aplicados nas filiais do ramo segurador possam ser excluídos. Na verdade, comenta o Figaro,
é de prever que o debate seja aceso e venha a levar ao adiamento da aprovação do texto para 15 de maio. Contudo, o fracasso parece estar fora de questão, visto que a Europa precisa hoje de provar que está a avançar no sentido do reforço do seu sistema bancário.
Na semana passada, Le Monde revelou que o Comissário Europeu para o Mercado Interno, Michel Barnier, desejava perguntar aos bancos como tinham utilizado o bilião de euros injetado pelo Banco Central Europeu para evitar a contração do volume de crédito.
Embora já fartos de cantigas e artimanhas e mesmo que cansados de sabermos quem nos anda a roubar e ainda a gozar com retórica e baboseiras, aqui vai mais uma explicaçãozinha sobre os “bancos ladrões”…
Mark Blyth: A austeridade é uma ideia perigosa

Ecos da blogosfera - 2 maio