(per)Seguidores

terça-feira, 29 de abril de 2014

Se o patrão der um tempinho… Dizem que se produz mais…

Não vai ao ginásio porque o escritório e os restantes afazeres da vida deixam-lhe pouco tempo de sobra? Desculpas. Saiba que até no escritório, não só pode como deve fazer exercício físico. É bom para a saúde e, claro, para a produtividade.
Aliás, vários são os terapeutas que aconselham exercícios para compensar as horas intermináveis em frente do computador e evitar doenças como má circulação, dores nas costas, entre outras.
Inspirado em várias fontes e artigos sobre a especialidade (revista Época ou aqui na instituição brasileira Caixa, entre outras), deixamos-lhe aqui um esquema de 12 exercícios que deve ser feito nas pausas de 10 minutos, 2 vezes por dia, pelo menos...
Braços
1. Sentado na cadeira com as costas direitas e as pernas perpendiculares coloque as mãos primeiro à frente (10 a 20 segundos, repetindo 2x);

2. De pé, estique os braços acima da cabeça durante 10 a 15 segundos;
3. Ainda de pé, com os braços cruzados atrás da nuca, inclinar o tronco durante 8 a 10 segundos para o lado esquerdo e direito;
4. Voltar a colocar os braços esticados acima da cabeça durante 15 a 20 segundos.
Para a região lombar
5. Com os braços ao longo do corpo, escolher os ombros durante 3 a 5 segundos (repetir 3 vezes);
6. Com as mãos atrás das costas, por a mão esquerda a puxar a direita e vice-versa (10 a 12 segundos para cada braço);
7. Com as mãos em posição de oração, puxar para baixo durante 10 segundos;
8. Com as palmas das mãos juntas em oração para baixo, fazer a mesma força para baixo durante 10 segundos;
Para a postura geral
9. Sentado na cadeira elevar o braço direito e baixar o esquerdo e vice-versa, durante 8 a 10 segundos de cada lado;
10. Sentado de perna traçada, fazer girar o tronco para um lado e esticar a perna dominante para o lado oposto. Trocar de perna e fazer o mesmo movimento, durante 8 a 10 segundo para cada lado;
11. Sentado na cadeira, colocar as mão atrás nas ancas, projetando o troco e cabeça para a frente (como fazem os forcados que pegam o touro de caras). Fazer este exercício 2 vezes durante 10 a 15 segundos;
12. Por fim, de pé, com os braços ao longo do tronco sacudir as mãos durante 8 a 10 segundos.
Os exercícios podem tornar-se mais complicados à medida da exigência do seu executante. Como esta Periodic Table of Bodyweight Exercises, uma espécie de tabela de exercícios sem aparelhos. Embora vise a perda de peso, alguns destes exercícios podem servir de inspiração para o escritório.
Mais uma sugestão para aumentar a produtividade, fora daquelas complicadas fórmulas que os economistas e empresários recomendam, com duas vantagens: não é preciso gastar dinheiro e o retorno do tempo gasto traz mais-valias… Tem uma desvantagem, que é prolongar o tempo de vida, aumentando o número de reformados…
Só se o patrão não gostar de (mais) dinheiro é que impedirá o intervalo, porque a Segurança Social é que paga a aposentadoria…
Se estiver mesmo interessado, veja outra receita para prevenir:

Contramaré… 29 abr.

Desde que a 'troika' chegou a Portugal em 2011, a dívida pública aumentou 35%, uma tendência que se deverá inverter a partir de 2014, mas que mostra o falhanço das previsões iniciais em matéria de finanças públicas.
As previsões da 'troika' feitas em 2011, tal como agora, apresentavam um cenário em que a dívida começaria a descer em 2014, mas o ponto mais alto era atingido em 2013 nos 108,6% do PIB. A realidade foi outra e no final do ano passado a dívida chegou aos 128,8% do produto. Assim, para 2013, a 'troika' começou por prever um défice de 3% e depois de 4,5% e depois ainda de 5,5%.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Quem diz que a Justiça não funciona e que é lenta? Et voilà!

Reformados são cada vez mais chamados a pagarem dívidas por serem fiadores de familiares.
Os casos de sobreendividamento, os efeitos da austeridade e as dívidas para cobrança executiva que acabam por entrar nos tribunais levaram, no ano passado, à penhora de mais de 181.000 reformas, um aumento de 24% face a 2012.
Os credores conseguiram recuperar mais de 45 milhões de euros, numa média mensal de cerca de 15.100 reformas penhoradas, revelam dados cedidos da Câmara dos Solicitadores.
Mais 240.000 processos deram entrada desde 2013 até Abril deste ano.
A acção executiva (cobrança de dívidas pela via judicial) tem sido considerada o grande cancro da justiça e também um dos entraves ao desenvolvimento da economia portuguesa. A Câmara dos Solicitadores revelou que, em 2013, as dívidas para cobrança judicial atingiram 5.600 milhões de euros, referentes a 201.000 processos executivos que deram entrada nos tribunais. Entre Janeiro e 9 de Abril deste ano, juntaram-se mais 38.924 processos, num valor de 1.600 milhões de euros. Contas feitas, estão por cobrar nos tribunais portugueses 7.200 milhões de euros. Qualquer coisa como 4,3% do PIB.
O fiscalista Samuel Almeida faz a análise da evolução das penhoras de pensões.
O fenómeno de penhora de reformas vai acentuar-se este ano e nos próximos anos?
A penhora deste tipo de rendimentos coloca problemas sociais graves, desde logo porquanto pode colocar em causa a subsistência destas famílias.
Por outro lado denota um esgotamento/inexistência de outros bens penhoráveis, como seja casas, rendas, veículos, etc. No limite, com o desemprego e endividamento, muitas famílias apenas têm como rendimento penhorável este tipo de prestações públicas. É possível que esta situação perdure e se agrave enquanto a situação económica e social do país não melhore.
Já não bastavam os assaltos às pensões dos reformados para os castigar por terem contribuído para o enriquecimento, muito ou pouco, do seu país, na proporção dos seus salários, para pagarem dívidas de bancos e fraudes de pessoas com nome e morada, para serem duplamente penalizados com as dívidas de familiares, por serem seus fiadores e estes terem caído nas armadilhas de um sistema antropofágico!
Para quem acusa e defende que a ação executiva (cobrança de dívidas pela via judicial) tem sido considerada o grande cancro da justiça e um dos entraves ao desenvolvimento da economia portuguesa, cá está um exemplo de que nem todos têm razão, pelo menos quando o assunto se refere ao mexilhão…
Contra o ditado, a razão e a verdadeira Justiça: “Dos fracos rezará a História”…
O que acontece a quem não paga uma dívida? Na Idade Média o credor podia ordenar a prisão de familiares do devedor – a mulher, os filhos – até que as dívidas fossem pagas.
Bruno Faria Lopes
As condições nas celas eram terríveis e, por vezes, o “colateral” morria de doença ou de agressões antes de o devedor cumprir a dívida. Com sorte, o devedor podia pagar a dívida com o seu trabalho, ficando servo do credor – ou, na linguagem técnica actual, que não existe por acaso, ao “serviço da dívida”.
A privação da liberdade devido a dívidas – em prisões específicas para endividados – continuou a ser prática comum até meados do século XIX. Já o conceito de dívida enquanto privação de liberdade está bem vivo. Uma busca rápida pelo Google permite perceber que ainda hoje, nos Estados Unidos, são frequentes os casos de pessoas presas por não pagarem dívidas.
E a versão moderna do pagamento da dívida com o fruto do trabalho tem um nome: penhora. Em Portugal, como tem revelado o Diário Económico (ver texto da jornalista Lígia Simões nas páginas 10 e 11), as penhoras estão em alta. São cada vez mais os pensionistas com reformas penhoradas, os trabalhadores com salários penhorados. Nem as prestações sociais, como subsídios de maternidade, escapam. A penhora tem hoje regras que a separam da selvajaria do passado – grosso modo, só pode ser penhorado até 1/3 do salário ou da pensão e o que sobra não pode ficar abaixo do salário mínimo –, mas continua a ser uma arma antiga do credor (que avalia o risco e cobra juros e é, assim, também responsável pela relação de crédito).
No debate sobre perdões de dívida – ou “reestruturações” – a dívida privada ainda é um tema na sombra da dívida pública. O pagamento das dívidas por particulares já não envolve o sequestro de familiares, a servidão absoluta ou a ida para a prisão. Mas o peso de uma dívida, ou da acumulação de várias, continua a ser um drama diário de grandes proporções para milhares de pessoas.
Ampliada pelo aperto súbito no crédito e, a seguir, pelo impacto das medidas de austeridade, a dificuldade em “servir a dívida” será cada vez maior para mais pessoas, como sugerem os dados publicados nesta edição. A batalha feroz entre devedores e credores na economia portuguesa continuará por muito tempo, aqui e ali reportada pelos media, mas sem chegar ao público uma noção exacta do conjunto. É uma guerra intemporal, agora feita de calotes e de execuções agressivas. É uma guerra que termina, em demasiados casos, numa privação parcial de liberdade, a tal palavra que tanto se ouviu por estes dias de comemoração do 25 de Abril. Esta não é a liberdade de expressão, mas uma parente não menos importante - a liberdade económica. Entre desempregados e sobreendividados há muitos portugueses que, em 2014, não a têm.

Ecos da blogosfera - 28 abr.

Porque devemos gostar de quem gosta de nós…

A cantora Stacey Kent, que atuou em Macau, apresentou o seu novo álbum “The Changing Lights”, onde estão incluídas 2 músicas originais em português, afirmou que está apaixonada por Portugal e admite vir a cantar fado, um dia. “Adoro Portugal, as pessoas, a comida, o tempo, a música”, partilhou Stacey Kent em entrevista, dizendo que é “presença constante” em terras portuguesas.
A cantora explicou que a paixão pela língua portuguesa surgiu desde cedo: “quem me influenciou foi o meu avô russo, que cresceu em França e desde novo aprendeu outras línguas”. “Quando era pequena, o meu avô ensinava-me a recitar poesia em francês”, contou, explicando que foi nessa altura “que o interesse pelas línguas nasceu”, tendo optado por aprender vários idiomas numa escola, onde a língua portuguesa não estava incluída no programa e “não conseguia perceber por que razão não havia português, para mim era obrigatório”, recorda.
“Acho a língua portuguesa absolutamente harmoniosa”, disse a cantora, adiantando que esta paixão é independente da sua carreira artística: “mesmo se não fosse cantora, aprenderia português”. Depois de completar um curso intensivo de português, a cantora contou que se dedicou muito mais à leitura de literatura portuguesa, mostrando-se “fiel seguidora de Fernando Pessoa e seus heterónimos”.
Questionada sobre a hipótese de um dia cantar fado, Stacey Kent não exclui essa possibilidade: “não sei o que me espera no futuro, mas seria uma enorme honra”, até porque o estilo musical português “emociona de uma forma muito honesta” quem o ouve.
Stacey Kent volta a território português com o 10.º álbum de estúdio, “The Changing Lights” e no qual celebra a música brasileira, interpretando Tom Jobim e Vinicius de Moraes, Sérgio Mendes, Roberto Menescal e Marcos Valle.
A relação de Stacey Kent com a música brasileira e com a língua portuguesa vem desde a adolescência, quando descobriu o álbum «Getz/Gilberto» (1963), que cruzou jazz e bossa nova, e juntou o saxofonista Stan Getz com o músico brasileiro João Gilberto (e também Tom Jobim).

A cantora norte-americana Stacey Kent gravou em Portugal um teledisco para a música “One Note Samba”, do álbum “The Changing Lights”. O vídeo foi gravado no grande auditório do CCB, em Lisboa, sala que acolheu um dos 5 concertos que Stacey Kent deu em Portugal.
No disco, Stacey Kent canta também em português - com sotaque do Brasil - os temas “A Tarde” e “Mais Uma Vez”, com letras do escritor português António Ladeira, professor nos Estados Unidos, com quem já tinha trabalhado antes.

Contramaré… 28 abr.

Charlotte Bell, de 10 anos, aproximou-se da primeira-dama dos Estados Unidos durante um evento sobre profissões na Casa Branca e entregou-lhe o Currículo Vitae do pai.
“O meu pai está desempregado há 3 anos, por isso quis-lhe entregar o seu currículo”, disse a jovem. A mulher de Barack Obama ficou visivelmente emocionada com o gesto e não hesitou em abraçar  a menina.

domingo, 27 de abril de 2014

Dicas para os candidatos ao PE nos enganarem(?) melhor…

Num ano em que se prevê que a participação nas eleições europeias seja a mais baixa de sempre, a especialista em política nas redes sociais Elizabeth Linder explica por que é tão importante trazer o debate político para a rede. Não genericamente e em busca dos likes - que pouco ou nada se traduzem em votos - mas de forma pensada e personalizada.
Elizabeth Linder 
Há 3 anos mudei-me de Silicon Valley para a Europa. Desde então tenho reunido com inúmeros políticos e líderes da sociedade civil em locais muito distintos – desde Ramallah a Berlim ou Bruxelas – com o objetivo de, por um lado, compreender como se ligam ao seu eleitorado e, por outro, para ajudá-los a entender como podem ser parte integrante do debate político online. Agora, com a aproximação das eleições europeias, tenho refletido sobre essas conversas.
O ano de 2014 vai ser decisivo para a política europeia, porém prevê-se que o número de cidadãos a participar nas eleições europeias seja o mais baixo de sempre – alguns estudos anteveem abaixo de 40%.
Durante os últimos anos, observei que as barreiras tradicionais entre os eleitores e os políticos podem mudar rapidamente, e em parte devido às redes sociais. É evidente que existe uma necessidade de preencher o hiato entre os cidadãos que procuram ativamente ligar-se aos políticos e os políticos que ainda não têm mecanismos para se conectarem ou reagirem a essas vozes.
Muitos políticos europeus estão conscientes desta realidade e questionam-me sobre o que devem fazer.
Após vários anos a observar e a analisar a evolução da política online, e especificamente no Facebook, cheguei à conclusão de que o impacto político online não depende dos recursos tecnológicos ou do quão grande é a equipa disponível para interagir online, mas de um engagement autêntico. Por isso, encorajo os políticos a dirigirem-se às pessoas da mesma forma que o fariam pessoalmente. Envolvam-se. Interajam. Respondam às perguntas. Façam perguntas. Construam confiança.
Atualmente, os políticos têm formas sem precedentes de se envolverem com os eleitores, num diálogo direto, franco e aberto. Por exemplo, mais de 2 em cada 3 eleitores europeus elegíveis estão no Facebook e milhões de outros estão acessíveis através de várias plataformas e ferramentas, como micro-blogging, fóruns online, etc.
Na verdade, os cidadãos europeus estão prontos a ligarem-se e dispostos a participar em discussões políticas online. Uma pesquisa do Instituto de Estudos de Segurança da União Europeia mostra que nas próximas décadas as pessoas esperam cada vez mais participar na tomada de decisão política. Neste sentido, o que posso assegurar, na perspetiva do trabalho que desempenho, é que alguém que usa o Facebook várias vezes por dia foi, adicionalmente, 2,5 vezes mais propensa a participar num comício político ou numa reunião desse género; demonstrou uma possibilidade maior em 57% de convencer alguém a votar; e provou ter mais 43% de probabilidade de afirmar que iria votar.
Além disso, de acordo com evidências das Eleições Gerais da Nova Zelândia de 2011 (Can Redes sociais Predict Election Results? Evidence from New Zealand), cada crescimento de 1.000 fãs na página de Facebook de um candidato político resultou num aumento de 1,4% no share de votação.
Para os políticos estes detalhes são importantes. Numa altura em que as pessoas partilham e debatem as suas opiniões políticas online, os líderes políticos da Europa devem tornar-se mais próximos dos cidadãos. Obviamente, não há uma matriz única para falar com os eleitores online. Porém, os políticos que seguem algumas das boas práticas abaixo tendem a ter maior sucesso:
- Começar cedo. Estudos demonstram que quanto mais cedo se ligam aos utilizadores, mais rápido conseguem construir relações de confiança. O investimento precoce em redes sociais compensa efetivamente em situações renhidas.
- Adaptar o conteúdo ao seu próprio estilo. As pessoas conectam-se a outras pessoas e, apesar de um deputado representar oficialmente um círculo eleitoral, é importante que tenha a sua própria persona. Neste sentido, deve optar por usar a tecnologia de uma forma que reflita a sua personalidade.
- Rever a página com frequência. Entender quais os seguidores que apresentam maior nível de engagement com o conteúdo da página, em que momentos do dia interagem mais, por que tipo de assuntos demonstram maior interesse... são aspetos que podem ajudar a ser mais eficaz na comunicação.
- Ser útil. Perguntar diretamente às pessoas o que lhes interessa e o que esperam ouvir de um deputado nas redes sociais também pode trazer vantagens.
- Incentivar as pessoas a criarem. Se os seus seguidores forem incentivados a criarem conteúdos na sua página de Facebook, por exemplo, os seus contactos terão ao mesmo tempo conhecimento das suas mensagens. Neste sentido, há uma série de dicas que podem adotar, como colocar questões, criar hashtags, levar as pessoas a documentar temas que lhes dizem respeito, nomeadamente através de fotos, etc. Além disso, é fundamental criar e cocriar conteúdo atraente que incentive à partilha histórias com a sua mensagem.
Alguns líderes políticos europeus estão já a utilizar as redes sociais de uma forma eficaz, não por ser a "última moda", mas por se tratar de um local onde podem encontrar os seus eleitores:
Angela Merkel faz tags a outros políticos e coloca vídeos diretamente a partir dos eventos políticos. Isto resulta do seu estilo próprio e tem originado um grande número de interações – não só dos seus seguidores mas também dos seguidores dos políticos a quem adiciona tags.
Martin Schulz participa em muitos chats ao vivo no Facebook, nos quais tem a oportunidade de partilhar os seus pontos de vista e responder a questões do público. Este político publica novos conteúdos diariamente para fazer com que os seus seguidores voltem à página com frequência.
Herman Van Rompuy incorpora interesses pessoais, por exemplo, poesia, na sua página, demonstrando que é possível envolver os eleitores através de conteúdos relacionados com outras atividades não políticas.
Como se pode definir o sucesso? A experiência diz-nos que devemos focar-nos menos no número de "likes" ou no número de seguidores e mais na qualidade do engagement.

Ecos da blogosfera - 27 abr.

Vergonhoso é que reduzam as razões do nosso orgulho!

Do que tenho vergonha é dos que não sabem que a Guerra Colonial custava ao Estado Novo tanto quanto hoje nos custam as prestações sociais.
Nicolau do Vale Pais
Não, eu não tenho vergonha dos ex-combatentes arrancados do lar para irem defender o País; e também não tenho vergonha dos refractários que, não fazendo a Guerra, acharam que defendiam, assim mesmo, o País. Do que tenho vergonha é dos que não sabem que a Guerra Colonial custava ao Estado Novo tanto quanto hoje nos custam as prestações sociais, reformas incluídas. Tenho vergonha da estupidez, que não é a burrice, mas a recusa em usar da inteligência.
Não, eu não tenho vergonha da Revolução; eu nem sequer tenho vergonha de um Estado Novo que, fugindo à inevitabilidade da História como era característica da sua falsa propaganda de segurança insular, não quis começar a descolonização quando outros já a tinham há muito terminado. Não, eu não tenho vergonha dos retornados, nem do milagre da sua readaptação; também não tenho vergonha dos emigrantes - de mala de cartão ou "tablet" em riste, partindo de Sud Express ou de Ryanair.
Não, eu não tenho vergonha de viver no 6º país da União Europeia com a mais baixa taxa de mortalidade infantil absoluta; e também não tenho vergonha nenhuma de ser cidadão livre na sociedade que conseguiu a maior redução desta taxa - usada internacionalmente para avaliar imparcialmente as condições médico-sanitárias de uma sociedade - desde os anos 1960 para cá, em toda a Europa; Alemanha ou Suécia incluídas. E não, não tenho vergonha que as mães que morriam a dar à luz tenham baixado de 116 para 4, por cada 100.000 nascimentos no mesmo curto, mas espantoso, período de tempo.
Não. Eu não tenho vergonha de saber que, em 1960, mais de 60% dos portugueses com 15 anos ou mais não tinham finalizado qualquer nível de escolaridade, enquanto em 2001 esse número caiu para 9,2%. E não, não tenho vergonha de saber que, em 1960, 33% da população portuguesa era analfabeta e que esse número caiu para 5,2% em 2011. E também não tenho vergonha - nenhuma, mesmo - de saber que nesse mesmo período de tempo, o número de mulheres com grau de Ensino Superior passou de uns residuais 0,4% para uns europeus 15,1% - isto apesar de sabermos que, já a Europa vivia os "swinging sixties", ainda nós por cá sofríamos com mais de 66% de uma população sem qualquer tipo de acesso a qualquer tipo de grau de ensino. Esta taxa era particularmente brutal e obscura no sexo feminino: 72%. Disso, já tive vergonha.
Não, não tenho vergonha de saber que em 2012 morreram nas estradas menos de metade das pessoas do que 10 anos antes; é que, só nessa década, são 4.748 vidas salvas, menos 15.000 feridos graves para atender e menos 70.735 feridos ligeiros. Eu nem vergonha tenho de misturar civismo e dinheiro: a poupança de cerca de 215 milhões de euros que este decréscimo trouxe agrada-me e não, desta Economia não tenho vergonha.
Eu não tenho vergonha dos funcionários públicos que investem tempo nem dos empreendedores que investem dinheiro; conheço casamentos entre estas almas aparentemente antagónicas, que já levam décadas de felicidade. Não, não tenho vergonha nem dos cantoneiros nem dos professores; não tenho vergonha dos doutores nem das empregadas domésticas, não tenho vergonha nem dos sindicatos nem dos patrões - eu não tenho vergonha da maioria silenciosa que escolhe a moderação em vez dos extremos, a mediação em vez do conflito, a paz em vez da guerra. E, embora o quotidiano todos os dias nos espicace com as suas esporas enviesadas, a História será escrita por estes tantos, e não pelos outros poucos. Que outros? Aqueles que - para usar uma versão mais dura das palavras de Fernando Pessoa - usam e criticam o sistema sem nada contribuírem para ele. O Poeta de Lisboa chamou-lhes provincianos.
Não, eu não tenho vergonha de ter liberdade para aqui escrever; justifico-a com a responsabilidade crítica que fomento porque posso, sem vergonha. E, quanto a dias melhores, a liberdade está aí para isso: somos gente feita de superação - não perceber isso, é uma vergonha.

Contramaré… 27 abr.

Até Portugal pedir ajuda externa “sempre defendi que a legislação laboral devia ser dual e resultar da evolução natural, da negociação em concertação social”, mas também se devia ter “coragem para criar um código de trabalho muito mais liberal”, evocou Fernando Ulrich. E explicou que, do seu ponto de vista, “o salário mínimo deveria ser muito mais elevado e os despedimentos muito mais caros.” Por isso, declarou, "discordo do embaratecimento dos despedimentos defendidos pela troika".