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terça-feira, 21 de maio de 2013

Contramaré… 21 mai.

Num artigo publicado na edição "online" do jornal britânico, Financial Times, com o título "Bancos portugueses temem 'vírus de Chipre'", o presidente da comissão executiva do Millennium BCP, Nuno Amado, afirma que, "se alguém tivesse desenhado um plano para danificar o mercado europeu, teria sido difícil pensar em algo melhor" do que a solução aplicada em Chipre.
Por seu lado, o presidente da comissão executiva do BES, Ricardo Salgado, considera que "os líderes [políticos] precisam de moderar a sua linguagem", uma vez que "isto pode ser muito mau".

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Quando há perigo olhe para a Esquerda e para a Direita

Mais de 1/3 da população portuguesa está reformada e revoltada. Segundo o economista Eugénio Rosa, nos últimos 3 anos, o Estado foi buscar 2.566 milhões de euros a pensionistas e aposentados.
Há 3.500.000 de portugueses reformados ou pensionistas, dos quais 2.000.000 têm pensões baixas (abaixo do salário mínimo nacional), que não têm sido poupados à austeridade. Além dos cortes em vigor para todos os portugueses, há ainda cortes específicos para este grupo que se sente "atacado pelas medidas de austeridade" e promete "não desistir dos protestos enquanto não for cumprida a Constituição da República", como refere Casimiro Menezes, presidente da Confederação Nacional de Reformados, Pensionistas e Idosos (mais conhecida por MURPI).
Convergência entre as pensões do Estado e as do privado proposta no relatório não passa por mexer nos direitos adquiridos dos reformados.
Angel Gurria, secretário-geral da OCDE, defende a aceleração da convergência das pensões do Estado com o privado mas sem cortes retroactivos. Esta sugestão consta do relatório sobre a reforma do Estado feito por esta organização a pedido do Governo português e que foi apresentada publicamente. Passos Coelho é ainda aconselhado a travar as reformas antecipadas dos desempregados de longa duração.
Uma fonte oficial da OCDE esclarece que "quando fala em convergência de pensões entre público e privado não estamos a propor uma redução das pensões que estão atualmente em pagamento", adiantando que as pensões calculadas de acordo com a antiga metodologia devem ser protegidas, "de modo a que todos os direitos adquiridos sejam honrados".
Enquanto se discute (nos puseram a discutir) a “TSU” para os reformados e pensionistas, fazendo-nos esquecer que querem tirar mais 10%, retroativamente (como se não houvesse Tribunal Constitucional), já nos fizeram esquecer todos os rapinanços que fizeram nos anos anteriores, aos mesmos, e que o acórdão do TC, com a reposição do Subsídio de Férias, não teve ainda uma resposta clara, como seria obrigatório, se o governo tivesse pessoas de bem…
E cá está a fatura parcial do que já foi confiscado a reformados e pensionistas, 2.500 milhões em 3 anos, que não é muito, se comparado com o BPN, Madeira, swaps, recapitalização de bancos e outras miudezas, como as rendas excessivas, as PPP, etc.
Entretanto, no estudo da “reforma” do NOSSO Estado, encomendado à OCDE e que dizem estar muito mal feito, nem a eles lhes passou pela cabeça propor a redução das pensões que estão atualmente “em pagamento”, muito menos fazer cortes retroativos, chegando mesmo a dizer que devem ser honrados (pelo Estado/governo) os DIREITOS ADQUIRIDOS.
E já andava tanto intelectual a discutir se os “direitos adquiridos” eram mesmo “direitos”, porque para eles o “adquiridos” era algo de virtual ou imaginário.
É por isso que, quando há perigo no atravessamento de alguns obstáculos, convém olhar para a ESQUERDA e para DIREITA, porque um qualquer sinal nos pode salvar a vida…
Para atropelamentos já cá temos uns camionistas, que não conhecem o Código (constitucional) e é sempre em frente e sem parar, que é como quem diz, sempre para a direita e a todo o gás…
É preciso oferecer-lhes um tacógrafo!

Ecos da blogosfera – 20 mai.

Angela confessa-se ao Papa, mas não se arrepende…

A chanceler alemã, Angela Merkel, consciente do peso dos eleitores cristãos nas eleições de setembro no seu país, conversou com o Papa Francisco como a economia da Europa deve servir melhor as pessoas.
O seu partido, Democrata-cristão, depende fortemente do apoio de eleitores católicos e protestantes e uma conversa seguida de foto poderia ser um bom chamariz para a campanha.
A chanceler da Alemanha, Angela Merkel, encontrou-se com o Papa Francisco e, aparentemente respondendo a críticas dele a uma insensível "ditadura da economia", pediu uma reforma financeira no mundo e disse que a crise económica global tornou a vida pior para milhões de pessoas nos países ricos e pobres.
Merkel visitou Roma apenas para se encontrar com o pontífice. Conversaram em particular, por 45 minutos, um tempo extraordinariamente longo para uma audiência reservada.
Depois, Merkel disse que os escândalos e excessos criticados por Francisco durante a semana mostram que o controlo e as avaliações essenciais não estão a funcionar adequadamente. "As crises explodem porque as regras do mercado social não estão a ser observadas", disse, acrescentando que o reforço da regulação do mercado financeiro seria um dos principais objetivos do encontro de líderes do G20, que reúne as maiores economias do mundo, em setembro.
"Tivemos progressos, mas longe do ponto em que possamos dizer que o tipo de desajuste que levou às crises no mercado não voltará a ocorrer. Por isso, a questão terá papel central na reunião do G20 este ano", afirmou.
"É verdade que as economias existem para servir o povo e este não tem sido, de modo algum, o caso em anos recentes."
Filha de um pastor luterano, Merkel disse que o papa Francisco falou principalmente sobre globalização, União Europeia e papel da Europa no mundo. "O papa Francisco deixou claro que precisamos de uma Europa justa e forte e eu achei a mensagem muito encorajadora", declarou Merkel.
No seu principal discurso desde a sua eleição Francisco também fez um apelo aos países para que assumam um maior controlo sobre as suas economias e protejam os mais pobres.
Merkel, que cresceu na Alemanha Oriental, comunista, antes da reunificação alemã, disse após o encontro que ela e Francisco "viveram sob ditaduras", referindo-se à junta militar que comandou a Argentina, terra natal no papa, de 1976 a 1983.
Pelos vistos, começou a campanha eleitoral para Merkel e nada melhor do que um encosto ao Papa Francisco, que lhe pode valer uns votos (que deviam ser de pobreza e humildade), já que no seu partido convivem católicos e cristãos (protestantes)…
Da conversa extrai-se 3 ideias.
A primeira, o blá, blá da regulação financeira, que não justifica a espoliação do povo, que não fez parte de qualquer guerra.
A segunda, a “confissão” de que "É verdade que as economias existem para servir o povo e este não tem sido, de modo algum, o caso em anos recentes", apesar de não mostrar qualquer arrependimento.
A terceira, a de que viveram os dois sob ditaduras, sem que ambos tenham retirado dessa experiência visões e comportamentos idênticos, no que ao valor da vida e das pessoas diz respeito…
Angela - Raul Seixas

Contramaré… 20 mai.

Miguel Blesa, antigo presidente da Caja Madrid, a principal caixa de aforro do grupo Bankia, o maior banco de Espanha, está em prisão preventiva, desde 16 de maio, em Madrid, acusado de “administração desleal, falsificação de documentos públicos, apropriação ilícita e uso indevido de ativos da empresa” aquando da compra do City National Bank de Floride pela Caja Madrid, em 2008. Segundo El Periódico, os prejuízos para a Caja Madrid ascendem a €500 milhões.
O juiz encarregue do inquérito entendeu que existia “risco de fuga” do ex-banqueiro, que deverá pagar uma caução de €2,5 milhões para sair da prisão.

domingo, 19 de maio de 2013

Governo (ainda) insiste em cumprir o seu Memorando! E não é só por inépcia, é também por falta de Ética…

Paulo Portas pode dar as piruetas que quiser, fazer as coreografias que entender, gritar que é "politicamente incompatível" com a taxa de sustentabilidade das pensões. Pode até fazer o pino no Palácio das Necessidades ou jogging em Caracas que o "cisma grisalho" que jurou querer evitar já está instalado.
Nuno Saraiva
Depois de ter conseguido virar trabalhadores do sector privado contra funcionários públicos, o Governo segue agora a mesma receita de casta, isto é, virar os novos contra os velhos, confrontando os "grisalhos" com a acusação de que vivem - só falta dizer criminosa e parasitariamente - à custa dos descontos de quem está hoje no ativo. A pretexto da solidariedade intergeracional - como se ela existisse apenas num sentido -, pretende-se fazer crer que a Segurança Social só terá futuro se as expectativas de quem, com carreiras contributivas mais ou menos longas, conquistou o direito a viver o que resta da vida com dignidade e tranquilidade forem agora defraudadas. Como se, nos últimos 2 anos, os pensionistas tivessem ficado isentos da austeridade. Como se, num país onde existem mais de 1.000.000 de desempregados - mais de 40% são jovens - e em que só 44% recebem subsídio de desemprego, não fossem os reformados a contribuir para que não falte o pão na mesa a filhos, noras e netos. Isto também é, como é óbvio, solidariedade entre gerações.
Nas últimas 2 semanas, como nos últimos 2 anos, assistimos a uma ofensiva de terrorismo social sem precedentes, com alvos bem selecionados: os mais velhos e os mais novos, os reformados e os funcionários públicos.
Primeiro alarmam-se 3.000.000 de cidadãos com o anúncio de uma taxa sobre as pensões que, 48 horas depois, ficamos a saber não reúne o consenso na coligação. Mais tarde, e não sei quantos Conselhos de Ministros extraordinários depois, percebemos que a taxa, aceite pela troika como garantia para o fecho da 7.ª avaliação, é afinal facultativa e não obrigatória - como se alguém, no seu perfeito juízo, acreditasse que as medidas acordadas com "estes senhores" não tivessem carácter obrigatório. E descobrimos que "a fronteira que não pode ser ultrapassada" pelo partido dos contribuintes e dos reformados ficou afinal para trás no momento em que o líder do CDS permitiu a inclusão da taxa no menu acordado. Portanto, a taxa existe e ponto final! E este é o mesmo Paulo Portas que, continuando no Governo, não cora de vergonha nem pede perdão a Nossa Senhora de Fátima por se associar à convergência retroativa dos regimes de pensões - mais uma inconstitucionalidade grosseira - validando um novo esbulho de 10% aos reformados.
E depois há o problema demográfico que torna insustentável a Segurança Social. É verdade que em Portugal nascem cada vez menos crianças. Mas quem é que se arrisca a ter filhos na iminência de ficar desempregado e numa recessão económica sem fim à vista? E será que a insustentabilidade do sistema de pensões não resulta também da redução drástica da matéria tributável e contributiva, consequência de um desemprego que continua a crescer?
Se a isto juntarmos o plano de despedimentos na administração pública, os cortes nos subsídios de desemprego, a falta de políticas de crescimento e criação de emprego, e todas as medidas austeritárias que são o alfa e o ómega da governação, ficamos esclarecidos sobre as razões que levaram em tempos o primeiro-ministro e um ex-secretário de Estado a incentivar os jovens a saírem da sua zona de conforto e a emigrarem para outras paragens. Desde o início que o plano ideológico do Governo de Passos Coelho e de Vítor Gaspar, com a cumplicidade de Paulo Portas, era, afinal, ver-se livre do maior número possível de portugueses. Velhos ou novos.
Reis Novais sobre a "selvajaria" do governo

A troika não está demorando a cumprir o Memorando! E não é só por incompetência, é mais por apetência…

“Os ministros das Finanças da zona euro congratulam-se com o apoio expresso pelos partidos da oposição e apelam a todos os partidos políticos para que garantam uma implementação rigorosa e rápida do programa.” A 16 de Maio de 2011 o Eurogrupo aprova o pacote de ajuda de 78.000 milhões a Portugal e aplaude a postura dos partidos então na oposição – e hoje no governo. Governo e oposição comprometem o país a chegar ao final de 2013 com um défice de 3%, uma dívida de 108,6% e já com a economia em expansão, de 1,2%.
Filipe Paiva Cardoso
2 dias. Este foi o tempo que demorou até chegar o primeiro sinal que o optimismo nas previsões não ia correr bem. 18 de Maio de 2011: o Instituto Nacional de Estatística divulga que Portugal tem afinal 689.000 desempregados em Março de 2011, mais 71.000 que em Dezembro de 2010. Este salto deveu-se tanto às mudanças no método de contabilização do INE, como à deterioração significativa da economia portuguesa no início de 2011. “Para os observadores do mercado de emprego estes 2 efeitos desactualizam por completo a previsão do governo de 13% para o desemprego em 2013”, noticiava então o i. Longe estava o país de imaginar as derrapagens que se seguiriam, suficientes para destruir os pressupostos sobre os quais o ajustamento português foi pensado.
Défice
O acordo da troika com PSD, PS e CDS dizia que entre 2012 e 2014 Portugal acumularia um défice de 9,8% – com 4,5% em 2012, 3% em 2013 e 2,3% em 2014. Agora, as mais recentes previsões da CE apontam para um défice acumulado nestes três anos de 14,4%. A diferença, de 4,6%, traduzida em euros, significa uma derrapagem de mais 7.600 milhões de euros de défice acumulado face ao desenho inicial do ajustamento português, valor que foi ajudar na engorda da dívida.
Dívida Pública
A derrapagem no défice, graças ao congelamento quase completo da actividade económica em Portugal, foi então uma das razões para que as metas definidas para a dívida também tenham derrapado, mas não foi a única.
O acordo inicial previa que este ano a dívida portuguesa chegaria ao seu máximo: 108,6% – perto de 184.600 milhões de euros. Porém, a evolução da crise, a deterioração da economia, das contas e das empresas tornou este objectivo risível. A última previsão da Comissão Europeia para este ano aponta para uma dívida de 123% do PIB – 202.000 milhões de euros. São mais 17.500 milhões de euros que o previsto, uma derrapagem que equivale a 10,5% do PIB com que Portugal chegará ao final deste ano. A derrapagem, contudo, não fica por aqui, já que a dívida deve continuar a crescer nos próximos anos, ao contrário do antecipado há 2 anos.
Consumo privado
Era o alvo a abater pelas autoridades internacionais e nacionais: os portugueses vivem acima das possibilidades, logo, acabe-se com isso. Pior a emenda que o soneto: a austeridade devia fazer com que o consumo privado recuasse 5,1% de forma acumulada entre 2012 e 2013, mas a realidade e o “ir além da troika” acabou por provocar um recuo que já vai em 8,9%, contando com a quebra de 3,3% este ano, sendo esta a maior das causas da explosão do desemprego nos últimos anos.
Desemprego
Imagine 5 Estádios da Luz cheios. As cerca de 312.000 pessoas que enchem esses 5 recintos são aquelas que perderam o emprego em Portugal nos últimos 2 anos e que, segundo a troika, não o iam perder. A austeridade, o congelamento do consumo e o intensificar da crise levaram a uma explosão do desemprego no país. Em meados de 2011 previa-se uma taxa de 12,4% de desemprego para este ano. Já as mais recentes previsões evidenciam que a taxa será no mínimo de 18,2%, ou seja: em vez de 668.000 desempregados, há 980.000. São mais 47%.
Exportações
Era o trunfo na manga. A teoria para a recuperação portuguesa apostava em 2 vias: esmagamento do rendimento para reduzir as importações e fazer explodir as exportações. A parte fácil até foi feita, com cortes salariais e o custo de vida a aumentar de tal forma que os portugueses deixaram de consumir. Agora, o difícil continua por fazer: o programa assenta a recuperação económica do país à boleia do crescimento das exportações, que deveria ser de 5,9% em 2012 e mais 6,5% este ano. Os números mais recentes mostram, contudo, que as exportações só irão crescer 3,3% e 0,9%, em 2012 e 2013.
PIB
A acumulação de derrapagens e dos efeitos secundários das mesmas fez com que a evolução da economia portuguesa fosse no sentido oposto ao previsto no Memorando. Na teoria, seria já este ano que o crescimento regressava, com o PIB a expandir 1,2% em 2013, depois de uma contracção de 1,8% em 2012: os 2 anos somados resultariam assim num recuo de apenas 0,6% do PIB. Os factos mostram um cenário bem mais negro: em 2012 e 2013 o PIB irá recuar 5,5%.

Ecos da blogosfera – 19 mai.

O ADN alemão não se misturou com o dos primos...

A União Europeia parece uma Igreja corrompida, governada por um país, a Alemanha, que impõe uma ortodoxia financeira dogmática. Para a colunista Barbara Spinelli, a política deve retomar o controlo da situação, através de um cisma protestante, gerado por iniciativas populares.
 
“Martinho Lutero prega as suas 95 teses na porta
da Igreja do Castelo de Wittenberg”, de Hugo Vogel
Este tipo de coisas só acontece na Europa à deriva, não por razões económicas, mas devido à inépcia convulsiva da sua política: estamos a falar do escândalo de um Tribunal Constitucional alemão determinar hoje a vida de todos os cidadãos da União, enquanto o Tribunal Constitucional português não tem qualquer peso. Referimo-nos a Jens Weidmann, o presidente do banco central alemão, que acusa Mario Draghi de exorbitar as suas funções – salvar o euro, com os meios à sua disposição – e declara descaradamente guerra a uma moeda a que chamamos única, precisamente porque não pertence apenas a Berlim.
Na verdade, o mandato do BCE é claro, embora Jens Weidmann conteste a sua constitucionalidade: manter a estabilidade dos preços (artigo 127º do Tratado de Lisboa), mas respeitando o artigo 3º, que determina o desenvolvimento sustentável da União, o pleno emprego, o melhoramento da qualidade do meio ambiente, a luta contra a exclusão social, a justiça e proteção sociais, a coesão económica, social e territorial e a solidariedade entre os Estados-membros. Algo não está a funcionar bem no percurso atual da União Europeia, em que o artigo 3º nem sequer aparece no site de Internet do BCE, talvez por temor que Berlim fique ressentida.
Partidos devem deixar de enganar eleitores
Dentro de um ano, em maio de 2014, vamos votar a renovação do Parlamento Europeu. Essa data terá uma especial importância, sobretudo para os italianos. Porque a Europa da troika nunca teve tanto peso nas nossas vidas. Porque os seus remédios anticrise são contestados pelas populações de todo o continente, abalando mesmo o médico mais ansioso por administrá-los: no dia 22 de setembro, os alemães vão às urnas e, talvez recompensem a Alternativa para a Alemanha, um partido antieuropeu, acabado de eclodir em fevereiro. Os partidos terão de deixar de fazer crer que podem “vergar” Angela Merkel. Especialmente em Itália, vão ter de deixar de enganar os eleitores e cidadãos. Pela primeira vez, finalmente, se ousarem, poderão designar o presidente da Comissão Europeia. É o que está nos tratados.
Estamos a falar de mentiras, porque nenhum governo pode fazer vergar Berlim com os argumentos puramente económicos até aqui utilizados: um pouco menos austeridade, algum crescimento, ligeiras facilidades. Firmemente convencida de que só os mercados nos conseguirão disciplinar, a Alemanha só mudará de rumo se a política se sobrepuser às teorias económicas que degeneraram em dogma. Isto se os governos, os partidos políticos e os cidadãos manifestarem uma visão clara sobre como deve ser outra Europa, que não a atual, dotada de recursos indigentes e com um equilíbrio de poderes que foram buscar ao século XIX.
União Europeia parece uma igreja corrupta
Presentemente, a União Europeia parece uma igreja corrupta, a precisar de um cisma protestante: uma Reforma de credo e de léxico. De um plano pormenorizado (as teses de Martinho Lutero tinham 95 pontos). Só opondo-lhe uma fé política poderemos descartar o papado económico. É a única maneira de romper com a religião dominante, e Berlim terá que escolher entre uma Europa à alemã e uma Alemanha à europeia, entre a hegemonia e a paridade entre os Estados-membros. É uma escolha com que a Europa se confronta sistematicamente: Adenauer dizia, em 1958, que a Europa “não deve ser deixada na mão dos economistas”.
A ortodoxia germânica não é de hoje. Afirmou-se a seguir à guerra, com o nome de “ordoliberalismo”: como são sempre racionais, os mercados sabem perfeitamente corrigir os desequilíbrios, sem interferência do Estado. É a ideologia da “casa em ordem”: cada país expia, sozinho, os seus pecados (em alemão, “Schuld” significa tanto “dívida” como “culpa”). Solidariedade e cooperação internacional vêm depois, como recompensa para os países que fizeram bem o trabalho de casa. Tal como em Inglaterra, a democracia é invocada de modo falacioso: delegando pedaços de soberania, esvaziam-se os parlamentos nacionais. E é assim que o Tribunal Constitucional alemão é chamado a pronunciar-se sobre qualquer iniciativa europeia.
Democracias não estão em pé de igualdade
Se existe embuste, é porque, dentro do navio Europa, as democracias não estão todas em pé de igualdade: há sacrossantos e condenados. Em 5 de abril, o Tribunal Constitucional português invalidou 4 medidas da cura de austeridade impostas pela troika (cortes nos salários da Função Pública e nas pensões de reforma), por serem contrárias ao princípio da igualdade. O comunicado divulgado no dia seguinte pela Comissão Europeia (dia 7 de abril), ignora completamente o veredicto do Tribunal e “congratula-se” por Lisboa prosseguir a terapia acordada, recusando qualquer renegociação: “É essencial que as principais instituições políticas portuguesas permaneçam unidas no apoio” à recuperação em curso. A diferença de tratamento dos juízes constitucionais alemães e portugueses é tão desonesta que o ideal europeu vai ter dificuldade em sobreviver junto dos cidadãos da União Europeia.
Há quem diga que a Europa conseguirá sobreviver se a hegemonia alemã for mais benevolente, mantendo a hegemonia. Foi o que George Soros expressou, em setembro de 2012, à New York Review of Books, apresentando argumentos sólidos. O Governo polaco exige-o. Na Alemanha, a benevolência é reivindicada por aqueles que temem não a hegemonia, mas uma autoidolatria pouco ostensiva, introvertida.
Europa numa encruzilhada
Hegemonia e autoidolatria são, porém, os sintomas, não a causa do mal que assombra cronicamente a Alemanha. Se a Alemanha quis uma Europa supranacional, ao ponto de o incluir na Constituição, foi porque os defensores do ordoliberalismo (do Banco Central e da academia) foram várias vezes postos de lado. Adenauer impôs a CEE e o pacto franco-alemão a um ministro da Economia – Ludwig Erhard – que fez o que pôde para os enterrar, tendo acusado a CEE de “endogamia” protecionista e “absurdo económico”. Com Londres, tentou torpedear o Tratado de Roma, preferindo um acordo de comércio livre. Nem Adenauer, nem o primeiro presidente da Comissão, Walter Hallstein, lhe deram ouvidos e a racionalidade política prevaleceu. O cenário repetiu-se com o euro: atrelado a Paris, Helmut Kohl privilegiou a política, ignorando economistas e Banco Central. Hoje, a Europa está numa encruzilhada semelhante, mas com políticos camaleões, desprovidos de verdadeira determinação. A crise destruiu as ilusões do povo alemão. O ordoliberalismo politizou-se e acerta contas antigas.
Resta, portanto, a solução do cisma: a construção de uma nova Europa, emanando da base e não de governos. Já existe um projeto, escrito pelo economista Alfonso Iozzo: segundo os defensores do federalismo, pode assumir a forma de uma “iniciativa cidadã europeia” (artigo 11 º do Tratado de Lisboa), a apresentar à Comissão Europeia. A ideia é dotar a União com recursos suficientes para impulsionar o crescimento, em vez de forçar os Estados-membros ao rigor. Um crescimento não só mais barato, porque concertado, mas também socialmente mais justo e mais ecológico, porque alimentado pelos impostos sobre as transações financeiras, a tributação sobre a produção de carbono e a criação de um IVA europeu. As duas primeiras taxas podem angariar €80.000 a €90.000 milhões: o orçamento comunitário respeitaria o limiar de 1,27% [do PIB], na altura acordado. Mobilizando o Banco Europeu de Investimento e as obrigações europeias, chega-se a um plano de €300.000 a €500.000 milhões e a 20.000.000 de novos empregos na economia do futuro (investigação, energia).
Para isto, é preciso, no entanto, que a política volte à ribalta e deixe de ser um conjunto de regras automáticas, mas, como preconiza o economista Jean-Paul Fitoussi, uma escolha. Temos de recuperar a autossubversão de Lutero, quando redigiu as suas 95 teses e declarou, segundo alguns: “Nisto, estou certo. Não posso agir de outro modo. Que Deus me ajude, Ámen...”

Contramaré… 19 mai.

Marques Mendes afirmou que os banqueiros são dos principais responsáveis pela atual situação de Portugal e que a sua função é gerir bem os seus bancos e não o país.
“Os banqueiros têm um estatuto de impunidade que é uma coisa extraordinária”, sustentou Marques Mendes, considerando que “a generalidade dos políticos”, em Portugal, “têm medo de falar aos fortes, é sempre mais fácil falar aos fracos”.
Só se “culpam os políticos” pela situação do país, mas “os banqueiros estimularam tudo e mais alguma coisa”, afirmou Marques Mendes, responsabilizando também os empresários e os gestores.