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domingo, 6 de maio de 2012

Contramaré… 6 maio (2)

O socialista François Hollande, hoje eleito Presidente da República francesa, afirmou: "Vou esforçar-me por cumprir o sonho francês. Mas a Europa olha para nós. Creio que em numerosos países europeus se sentiu um alívio, uma esperança, com a ideia de a austeridade já não é uma fatalidade", afirmou perante os seus apoiantes, no discurso de vitória em Paris.

Os "bio-castanhos" não são castanhas biológicas…

A coberto da agricultura biológica e da defesa do ambiente, alguns militantes ligados ao partido de extrema-direita NPD infiltram-se na sociedade e difundem as suas ideias radicais da maneira mais anódina.
De calças verdes e camisa aos quadrados, Hans-Günter Laimer é aquilo a que aqui, na Baixa Baviera, se chama "um homem a sério". Ao descer do seu trator, saúda-nos com um "olá!" bem disposto e mostra-nos a exploração, mantida pela sua mulher, onde é tudo local e biológico. Um dia "de portas abertas" na quinta de Laimer inclui um grupo de tocadores de flauta, uma contadora de histórias e uma feira da ladra para crianças.
Um verdadeiro paraíso "bio" em ponto pequeno – só que Laimer nada tem de militante ambientalista. É membro do conselho da associação Midgard, que publica a Umwelt&Aktiv, uma revista aparentemente dedicada à agricultura biológica, que aborda temas como a conserva de cerejas e creches. Mas também publica textos sobre a Yule [a festa de inverno pagã celebrada pelos povos germânicos] e sobre os benefícios da política agrícola do NPD [Partido Nacional Democrata alemão, neonazi], que comercializa a revista na Internet. O próprio Laimer apresentou a sua candidatura a eleições locais sob as cores desse partido.
"O nosso objetivo é sensibilizar as pessoas para os problemas da proteção dos animais, da proteção do ambiente e da proteção da pátria", pode ler-se na página de apresentação da revista. Aliás, esta é considerada como "uma publicação de propaganda disfarçada do NPD" pela Direção de Segurança do Território. Laimer diz não ter qualquer participação na revista. O setor biológico é predominantemente dominado pela esquerda, lamenta. "Qual é a diferença entre os meus pepinos e os pepinos de um Verde?"
A proteção da natureza e da pátria
A proteção do ambiente nunca foi uma área reservada dos Verdes. Este movimento surgiu no século XIX, como reação à industrialização. Foi igualmente um tema central da ideologia nazi, que, em 1933 e em 1935, aprovou duas leis sobre a proteção dos animais e a proteção do ambiente. A proteção da natureza e da pátria, tal como a ideologia do sangue e da terra, são temas centrais do discurso nacional-socialista. "Em quase todos os domínios, a ideologia nazi serviu de base ao movimento de proteção do ambiente", explica Nils Franke, historiador e autor de um ensaio intitulado Naturschutz gegen Rechtsextremismus [Proteção do ambiente contra o extremismo de direita], que tem em vista a luta contra a infiltração da extrema-direita no movimento.
Devido ao interesse que as questões ambientais suscitam na Alemanha, o NPD apropriou-se recentemente deste tema, explica Franke. Envergando roupagens de cores verdes, a ideologia nazi está, assim, a reabrir caminho na sociedade. Entre Rostock e Schwerin, no Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, surgiu um novo movimento de "regressão": famílias que querem viver "dentro do respeito pelos animais e pelas tradições".
"Os temas ecológicos assumem cada vez maior importância no discurso da extrema-direita", explica uma representante do centro regional para a cultura democrática de Roggentin. "O objetivo é levar as pessoas a deixarem de associar o NPD a um movimento político e a passarem a associá-lo a um grupo que estabelece simples pontes para a vida dos cidadãos." Um vizinho, que se inclui entre os defensores da "regressão", fala-nos de homens, com blusões de aviador e botas rangers, que acendem tochas e cantam canções do folclore. Conta-nos ainda que um responsável da segurança interna o visita periodicamente, para tomar um café e saber das notícias locais.
Os “bio-castanhos” nas associações de agricultores
Politóloga da Universidade de Rostock, Gudrun Heinrich publicou, no início do ano, um livro intitulado Braune Ökologie [a ecologia castanha (alusão à cor do uniforme das SA)], em parceria com a fundação Heinrich Böll. "O NPD está estreitamente ligado às associações e automaticamente implantado nas zonas agrícolas", explica.
Fornecedores de equipamentos agrícolas ecológicos, Huwald Fröhlich e Helmut Ernst também se instalaram no Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental. Na sua antologia Opposition für Deutschland [Opor-se pela Alemanha], Fröhlich afirma que o humanismo e o internacionalismo são "valores contranatura" e defende o regresso às virtudes regionais e nórdicas de autonomia. Ernst e Fröhlich são membros da Biopark, uma das maiores associações de agricultores biológicos da Alemanha. A Biopark tem a sua própria cadeia de armazéns e abastece os da marca Edeka.
Só em 2011, a associação descobriu que entre os seus aderentes se incluíam agricultores "bio-castanhos" como Ernst, Fröhlich e muitos outros, afirma a presidente, Delia Micklich. Por um lado, diz, "não aprovo, de modo algum, a ideologia dessas pessoas e compreenderia, se alguns consumidores decidissem deixar de comprar produtos Biopark". Por outro, hoje, o NPD está representado nos parlamentos regionais [no Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental e na Saxónia] e, legalmente, Delia Micklich não pode fazer nada, desde que as suas explorações sejam bem geridas. "A nossa associação não pode responder pelas opiniões políticas. Limitamo-nos a certificar os métodos de produção agrícola", explica. "Enquanto o partido não for ilegalizado, não podemos fazer nada contra essas pessoas."

Contramaré… 6 maio

O ministro da Saúde reconheceu a existência de grupos de pressão no setor, sublinhando o trabalho do Governo nesta área. “É curioso vê-los aqui referidos de uma forma tão expressiva e várias vezes pelo D. Manuel Linda”, afirmou Paulo Macedo, numa referência ao bispo auxiliar de Braga, que pediu ao Governo que evite que a atividade do setor da Saúde se torne num negócio de lobbies e apelou a que se preserve o acesso universal ao SNS que, na sua opinião, é um dos melhores do mundo.

Pobres: preguiçosos ou perigosos?

“Se eu dou comida a um pobre, chamam-me de santo, mas se eu pergunto por que ele é pobre, chamam-me de comunista.” Dom Hélder Câmara
A defesa das causas dos pobres é uma tarefa muito árdua. Exige-nos mais do que compreensão, discursos e teorias, mas, sobretudo, compromisso e compaixão. Somos muito preconceituosos para com o sofrimento dos pobres.
Desconhecemos a sua realidade e não nos dispusemos a mexer na raiz dos nossos problemas: a nossa forma de organizar o mundo. Entre nós é muito forte a ideia de que pobres são coitados, por isso desprovidos de sorte e de bens. Se não lutam, são preguiçosos. Se lutam e exigem tornam-se perigosos. Mesmo quando passam fome, insistimos em dizer que eles ainda são capazes de sonhar.
Só a lucidez da razão e a sensibilidade podem tratar bem das questões da existência e convivência humanas. Na visão ocidental, desenvolvemos a ilusão de que só a razão nos dará respostas aos problemas humanos. Nem a razão ornamental (que serve de ornamento), nem a razão instrumental (ferramenta para transformar a realidade) são capazes de justificar o sofrimento e a realidade daqueles que excluímos socialmente (os pobres). Os pobres não são invenção, não são uma ideia. Os pobres são reais. Os pobres existem, e sofrem a violação da sua vida e dignidade.
Leonardo Boff, defensor incansável das causas dos pobres e oprimidos, afirma que são três as compreensões que se tem da pobreza. Uma primeira, clássica, é a ideia de que o pobre é aquele que não tem. A estratégia então é mobilizar quem tem para ajudar a quem não tem, através de ações assistencialistas, sem reconhecer a potencialidade dos mesmos. A segunda ideia, moderna, é aquela que descobre os potenciais do pobre e compreende que o Estado deve fazer investimentos para que ele seja profissionalizado e potencializado, com vista à inserção no mundo produtivo. Ambas as posições desconsideram, na visão de Boff, que a pobreza é resultado de mecanismos de exploração, que sempre geram enormes conflitos sociais. Boff acredita que é preciso reconhecer as potencialidades dos pobres não apenas para engrossarem a força de trabalho, mas principalmente para transformarem o sistema social. Os pobres, organizados e articulados com outros atores da sociedade, são capazes de construir uma democracia participativa, económica e social. “Essa perspetiva não é nem assistencialista nem progressista. Ela é libertadora”.
Só a compaixão se reveste de libertação. A compaixão não é sofrer pelos outros, mas sofrer com eles. O sofrer com os outros permite colocarmo-nos no seu lugar. Ver a partir dos seus pontos de vista e das suas realidades. É também deixar-se transformar, permitindo que os nossos mais nobres sentimentos se traduzam em ações concretas a favor dos pobres, fracos e marginalizados.
Poucos vivem a compaixão. Muitos perderam a sensibilidade, o que os impossibilita de viver a caridade e o amor ao próximo. Outros preferem atribuir aos pobres a culpa pela sua situação de miséria e vulnerabilidade. Outros discursam democracia, não perguntando se esta propicia as mesmas condições e oportunidades a todos, como ponto de partida. Porque o ponto de chegada depende de cada um de nós. E muitos, em grande número, tratam como crime a atitude de quem luta por causas humanitárias, quando estas exigem uma mudança na estrutura e organização da sociedade. “As pessoas são pesadas demais para serem levadas nos ombros. Leve-as no coração”, disse Dom Hélder Câmara. Este é o sentido maior da compaixão para com os pobres: não os defendemos por serem bons ou anjos, mas porque são parte de uma sociedade desigual, que não sabe lidar com eles.
Nei Alberto Pies, professor e ativista em direitos humanos.

Ecos da blogosfera - 5 maio

sábado, 5 de maio de 2012

Ministro alemão intimida o Presidente(?) da França!

O governo alemão vai permitir ao candidato à Presidência francesa François Hollande "salvar a face", mas espera que ele mantenha os compromissos assumidos em nome da França, nomeadamente o tratado orçamental, disse o ministro das Finanças germânico.
As declarações de Wolfgang Schaeuble são o sinal mais claro, até agora, de que a Alemanha, cujo Governo apoia oficialmente o candidato Nicolas Sarkozy, está a antecipar uma vitória de Hollande nas eleições de domingo.
"Dissemos ao senhor Hollande que o pacto orçamental foi assinado e que a Europa funciona na base do 'pacta sunt servanda'", ou seja, os compromissos são para serem cumpridos, independentemente do governo que os assina, disse Schauble num discurso, na sexta-feira.
Pensávamos nós que era a Sra. Merkel que apoiava Sarkozy, mas pelos vistos é o governo (todo?) da Alemanha que apoia oficialmente o (re)candidato francês.
Perante a realidade de uma vitória pré-anunciada de Hollande, eis que alguém, que é um “simples” ministro das finanças, ameaça o futuro Presidente de uma Nação, independente e soberana, em nome da chanceler, em nome do governo, ou em seu próprio nome, passando por um mero moço de recados, atitude reveladora do receio de que alguém ponha em dúvida as suas teorias dogmáticas e dê origem a uma nova Reforma, na área económica e financeira.
Se assim não fosse, estariam naturalmente calados…
Mas disfarçando a ameaça, condescendente até e como se quem avisa…, o governo alemão VAI PERMITIR ao candidato à Presidência francesa "salvar a face", contradizendo-se, para que mantenha os compromissos assumidos em nome da França (ou de Merkozy?), nomeadamente o tratado orçamental, que limita a soberania dos países-membros.
E quem disse tal disparate, sublinhando que os compromissos são para serem cumpridos, independentemente do governo que os assina? O ministro das Finanças germânico, Wolfgang Schaeuble, o mesmo que sussurrou a Vítor Gaspar que nos arranjaria uns trocos, logo que despachassem os gregos!
Donde que, estas e outras declarações de Wolfgang Schaeuble são o sinal mais claro de que afinal quem manda nas políticas da Alemanha e da UE, não é a Sra. Merkel (que nos desculpe), mas ele, Ministro das Finanças, tal como cá e onde é possível, que os primeiros-ministros se deixem subalternizar. Se não, manda um tecnocrata do Golden Sachs para primeiro-ministro, depondo o eleito e pronto!
Convém é que os tecnocratas sejam todos um bocadinho para o frio, se forem gelados de sentimentos, tanto melhor, para nos congelarem tudo o que seja possível congelar, até que as coisas aqueçam…

Reflexão do Relvas… 5 maio

Miguel Relvas comentava o debate eleitoral na França entre os dois candidatos sobre a agenda de crescimento europeu. “Uma eleição é sempre uma eleição, mais importante por ser um país da dimensão da França. Mas as preocupações do crescimento não têm a ver com a eleição francesa”, disse sobre o impacto na Europa de uma eventual vitória de Hollande, como sugerem as sondagens. “A preocupação do crescimento tem sido bem evidente nas atitudes, no discurso e nas medidas que os governos na Europa têm lançado”, sublinha.
Para Relvas, “muitos dos que agora falam no crescimento foram os que colocaram a Europa na situação em que se encontra”. “Bons exemplos: o português e o espanhol. Somos hoje vítimas de políticas expansionistas, de políticas de investimento público, de políticas que não tiveram em atenção o défice e a dimensão da dívida que conduziram à circunstância em que hoje estamos”, disse.
O ministro afirmou que a Europa “tem o seu tempo na forma como aborda as reformas e as mudanças” mas insistiu que o crescimento e a visão social do espaço europeu “não marca a diferença entre o Governo A ou B”, já que, disse, é a “principal preocupação de qualquer governante” conseguir que “a economia cresça, combater o desemprego, um problema preocupante em toda a Europa mas particularmente em Portugal e Espanha”. “Mas o desemprego só se combate com o crescimento da economia e com a competitiva das nossas empresas”, disse.
“Quem gere a riqueza não são os Estados. No limite devem saber distribuí-la. Quem gere a riqueza são as pessoas e as empresas e essa preocupação tem que estar sempre permanente na nossa atitude diária”, afirmou.

Contramaré… 5 maio

O partido Trabalhista foi o grande vencedor das eleições locais de quinta-feira em detrimento dos 2 partidos da coligação no poder. Terminada a contagem nacional dos votos, o "Labour" elegeu 2.158 representantes, mais 823 do que em 2008, o partido Conservador conquistou 1.005 assentos, perdendo 405 face aos resultados de há 4 anos e aos Liberais Democratas restam 431 eleitos, menos 336 do que em 2008.

É indiscutível que Merkel nunca seria eleita (democraticamente) presidente da UE pelos europeus!

França, Grécia, Holanda, Alemanha: os 5 escrutínios que se vão realizar na Europa são muito diferentes. Mas todos eles poderão implicar um veredicto sobre a política de Angela Merkel face à crise. E a chanceler alemã talvez venha a ficar em má posição.
Os 5 próximos atos eleitorais vão transformar profundamente o país. Para começar, as 2 eleições regionais no Norte e no Oeste da República Federal [no Schleswig-Holstein, dia 6, e na Renânia do Norte-Vestfália, dia 13] irão dizer se Angela Merkel, que hoje é o dirigente alemão mais apreciado e o dirigente europeu mais poderoso, tem hipóteses de conservar as rédeas do poder.
As eleições de domingo na Grécia tem, pelo menos, igual importância para a Alemanha. Houve um grande investimento de energia política e um investimento ainda maior de dinheiro para que a Grécia pudesse pegar, por si mesma, o touro pelos cornos. Se os gregos elegerem um parlamento que se oponha à cura de austeridade e ao saneamento das finanças do país, o acordo concluído entre a Europa e a Grécia poderá ir por água abaixo. Um tal fracasso talvez fosse superável, no plano económico, mas prejudicaria consideravelmente a legitimidade dos futuros planos de salvamento de outros países europeus.
Crítica à política de austeridade alemã
Mas não é apenas na Grécia que a política europeia de Angela Merkel será sujeita ao veredicto das urnas. Sê-lo-á também em França. Ao longo da sua campanha eleitoral, Nicolas Sarkozy afastou-se bastante daquilo que tinha sido combinado com a chanceler, nos tempos áureos da osmose franco-alemã (há alguns meses). A menos que se trate apenas de meros efeitos de prestidigitação. É preciso esperar.
Do lado de François Hollande, adversário de Sarkozy nas presidenciais e favorito no escrutínio, o truque de ilusionismo é menos provável, em especial porque Hollande foi muito mais longe na sua crítica à política de austeridade alemã. Mesmo que este não se tenha apercebido de que metade daquilo que admitiu, em promessas onerosas, bastaria para desencadear algumas ondas capazes de abalar fortemente a frágil armadura europeia. Acontece que alguns intervenientes nos mercados só estão à espera dessas vagas.
O 5º escrutínio que terá grande incidência sobre a política alemã e a política europeia decorrerá igualmente naquilo a que se chama "estrangeiro" – na Holanda, onde a coligação cristã-liberal, durante algum tempo tolerada pelo populista Geert Wilders, acabou por cair sob a pressão dos imperativos de redução da dívida. As próximas eleições, que se realizarão no fim das férias de verão, decidirão também o destino político do chefe do Governo, Mark Rutte, o homem que se revelou um dos parceiros mais fiáveis e mais eficazes da chanceler alemã nas questões da política europeia.
Localmente, o que está em jogo tem ainda maior amplitude. Até agora, Geert Wilders tem orientado a sua política de ódio contra os muçulmanos. Mas, neste momento, está a reorientá-la para uma linha antieuropeia. Se a manobra resultar, essa mudança de rumo poderá favorecer a progressão dos populistas eurofóbicos em todo o continente. Tanto mais que, estabelecendo a ligação com a França, Marine Le Pen parece ter um objetivo preciso, em caso de derrota de Nicolas Sarkozy: dividir a UMP e absorver a sua ala direita. O que envolve o risco de colocar a dinâmica antieuropeia no centro do xadrez político.
Repercussões para além das fronteiras
É difícil saber se as eleições em França e na Holanda acabarão igualmente por conduzir à criação de um novo partido de direita na Alemanha. Até agora, este país tem conseguido com algum sucesso sufocar à nascença quaisquer veleidades dessa ordem. Resta saber o que irá acontecer, se a direita sair vitoriosa nas eleições nos nossos vizinhos ocidentais.
Em vésperas destes 5 atos eleitorais, uma coisa é certa: os escrutínios que se realizam na Europa, e mais especialmente nos países vizinhos mais próximos, são hoje pelo menos tão importantes como as eleições num Land alemão – mesmo que seja o maior deles. Tendo em conta a amplitude das repercussões desses escrutínios para além das fronteiras, poder-se-ia, teoricamente, perguntar por que motivo os eleitores alemães não estariam autorizados a participar – nem que fosse em pequena escala, à razão de um voto em cada cinco, por exemplo – nos atos eleitorais holandês e francês. E vice-versa, evidentemente.
Há ainda outra anomalia que salta aos olhos: apesar de parecer ser a mulher forte da Europa, é indiscutível que Angela Merkel não seria eleita presidente da UE pelos europeus. Se fosse eleita diretamente pelo povo alemão, obteria a maioria dos sufrágios. Por causa dos imperativos específicos que prevalecem na Alemanha em resultado da coligação existente, Angela Merkel poderia, apesar da sua popularidade e dos acasos da vida política, ver-se despojada do poder que detém. Por outras palavras: Angela Merkel pilota uma Europa que não pode votar contra ela e poderia ser involuntariamente afastada do poder por alemães que, no fundo, não desejam vê-la partir.
Do ponto de vista da legitimidade democrática, tudo isto é, no mínimo, insólito, para já não dizer completamente absurdo. Mas nem por isso deixa de ser apaixonante.

Ecos da blogosfera - 4 maio