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quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Contramarés sem contrapé… 8 dez.

A introdução de portagens nas três antigas SCUT do Norte rendeu à Estradas de Portugal (EP) no primeiro ano de cobrança cerca de 85 milhões de euros.
O pagamento de portagens nas 3 concessões do Norte, Grande Porto, Costa de Prata e Norte Litoral, aconteceu a 15 de outubro de 2010 e, segundo a EP, o tráfego registou uma descida de 37% nos últimos 12 meses.

Lá se vão os anéis! Depois o que podemos empenhar?

Para reduzir a sua dívida, o Governo português lançou um amplo programa de privatizações. Brasileiros, chineses e angolanos são hoje os principais candidatos à compra de empresas nacionais.
Do lado de lá estão gigantes como as estatais Eletrobras e Cemig (Brasil), a China Three Gorges e State Grid (China), ou ainda a Sonangol (Angola). Todas oriundas de países de economias em crescimento acelerado e potências emergentes. Do lado de cá, estão empresas de dimensão modesta à escala mundial, com acionistas descapitalizados, num país em dificuldade extrema, a quem um acordo de assistência financeira impôs um agressivo pacote de privatizações.
Brasil, China, Angola – e também Alemanha e Reino Unido – são os países de origem dos principais candidatos, para já, às privatizações em curso ou à venda de ações ou participações do Estado.
EDP e REN são as operações que estão em cima da mesa, mas para 2012 está prevista a privatização da Galp, TAP, ANA, CP Carga e CTT. Não por acaso, são as empresas que mais se internacionalizaram e cujo valor é realizado em grande parte no exterior que suscitam maior interesse.
Os países que têm dinheiro
A questão, portanto, é: porquê estes países e não outros? A resposta, à partida, é simples: são os que têm dinheiro. É uma questão de preço e, para colossos como o Brasil ou a China, são mesmo vendas a preço de saldo. Angola é um caso à parte, que envolve outro tipo de interesses além dos financeiros, bem como a Alemanha e o Reino Unido.
"O investimento angolano em Portugal tem uma componente política forte, como afirmação daquele país no mundo lusófono de onde no futuro espera tirar dividendos económicos", diz António Ennes Ferreira.
Mas o professor do ISEG adverte que esta é também uma forma de legitimar os capitais angolanos, menos escrutinados em Portugal, e de entrar à boleia em outros mercados. O risco, dada a falta de transparência, é o de nunca se saber claramente qual é a identidade de quem investe. Angola investe, mas só dinheiro. Não há know-how associado.
Com a Alemanha (que concorre à EDP) e a quem o primeiro-ministro estendeu o tapete, o processo é outro. Se a este país pode interessar associar-se a Portugal em África, onde tem escassa penetração, para Portugal é um "um negócio" europeu, uma maneira de agarrar os alemães e comprometê-los com o país nesta fase difícil da crise europeia. "É uma visão de curto prazo", comenta o general Loureiro dos Santos. "Portugal está refém da Europa e interessa-lhe o mais possível estabelecer ligações fora do continente para recuperar a sua autonomia".
Ambições políticas e económicas
Brasil e China são os dois grandes gigantes, ambos com ambição de potência global. Mas são casos diferentes. Para o Brasil, cujo investimento em Portugal tem décadas, a diferença está no volume e na entrada em força do Estado brasileiro, política mas também empresarialmente.
"Há um substrato de apoio político claro", afirma o embaixador brasileiro, Mário Vilalva, repetindo as palavras que a Presidente Dilma Rousseff disse a Passos Coelho: "É do nosso interesse que Portugal saia desta crise o mais rapidamente possível".
O Banco Nacional de Desenvolvimento (BNDES) apoia ativamente o processo de internacionalização das empresas brasileiras, que olham para Portugal como um mercado-trampolim para a Europa. Por outro lado, o alvo são sobretudo empresas "interessantes" com mercados globais, como é o caso da Cimpor (onde entraram em 2010), da EDP e até da RTP, cuja presença nos PALOP pode ser um atrativo.
Quanto à China, conta a oportunidade de entrar em mais um mercado europeu (e vulnerável), com ligações únicas à África lusófona, aceder a tecnologias e (porque não?) conseguir contornar ou impedir algumas barreiras protecionistas.
"Não se pode esquecer também o objetivo chinês de agilizar as suas empresas no mercado global, num processo de aprendizagem e captação de quadros", afirmou o investigador Miguel Santos Neves.
O interesse na EDP é exemplar. Empresa líder nas renováveis (e a China tem um vasto plano de reforço de eficiência energética) com presença forte no mercado americano e brasileiro, a EDP é quase um íman. De uma assentada, alcançam dois fins: ganham competências técnicas e entram em mercados onde o seu peso já começa a suscitar anticorpos.
A Portugal, cujo interesse prioritário é neste momento "encaixar receita", não será porém indiferente quem ganha esta corrida. Mas o que parece estar a desenhar-se, é que, de uma forma ou de outra, brasileiros, chineses e angolanos serão quem vai dar as cartas nas últimas privatizações portuguesas.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Ecos da blogosfera – 7 dez.

O dragão ainda bota fumo, mas já menos fogo…

A população oficial chinesa que vive abaixo da linha da pobreza vai passar de 26,8 milhões para 100 milhões de pessoas, depois de o governo chinês anunciar que vai adoptar os padrões de linha da pobreza nacional, os mesmos usados pela ONU - indivíduos que vivem com menos de 1 dólar por dia.
Até ao momento, Pequim considerava pobre e, portanto, candidato a receber ajuda do Governo, aquele com receitas inferiores a 0,53 dólares, mas a partir de agora entrarão nesta classificação os que vivem com menos de 0,98 dólares.
Embora a China seja a segunda economia mundial em termos de produção total (PIB), a renda per capita chinesa ainda é muito baixa devido aos números da sua população, o que a situa por volta do 100º posto no ranking de nações do planeta.
O governo chinês divulgou o Programa para Alívio da Pobreza Rural da China (2011-2020), definindo um aumento de investimentos voltados para bolsas de pobreza no país.
O programa dá prioridade a áreas extremamente pobres do Oeste, bem como o Tibete.
O fundo soberano chinês quer investir em infraestruturas na Europa e Estados Unidos, disse o presidente da China Investment Corporation (CIC), Lou Jiwei. "As infraestruturas na Europa e nos Estados Unidos necessitam de muito mais investimento", escreveu.
A CIC gere uma carteira de 400 mil milhões de dólares (299,5 mil milhões de euros).
A China pretende concentrar-se na expansão das exportações para os mercados emergentes e reforçar a sua competitividade para fazer face às perspetivas pessimistas sobre o comércio global em 2012, devido à fraca procura dos Estados Unidos e Europa e aumento dos custos de produção na China.
Como se vê, o milagre chinês não é bem milagre e talvez esteja por essas bandas a fonte dos neo paradigmas dos direitos sociais e do trabalho.
Bastou mudar uma variável, de 0,53 dólares/dia, pelo trabalho, para 0,98 dólares, para quadruplicar estatisticamente o número de pobres. Se fossem a aplicar o conceito europeu, de 1/3 do ordenado médio do país, quantos serão? Afinal onde está o milagre?
Tendo em conta a emergência económica do país, quer dizer que alguém anda a arrecadar o preço da exploração do trabalho e dos baixíssimos salários. Aliás, quando se fala que a renda per capita é muito baixa, dever-se-ia justificar a emergência nesse pilar. Se todos os países pagassem tão pouco, os países seriam mais ricos, os ricos seriam mais ricos ainda e os pobres mais pobres ainda. E é esse o caminho por onde querem levar, o ocidente e o mundo, aproximando-nos da China, em vez de forçarem a China a aproximar-se dos nossos valores... 
Louvável é o reforço de medidas de investimento para as regiões mais pobres, embora seja notório que o Tibete seja uma das incluídas, por razões que a política desconfia… A economia é uma arma!
Entretanto, se não há peixe no nosso mar, há que procurá-lo noutros “oceanos”, principalmente onde não há “barcos” e os “pescadores” se afogam em mágoas…
É a mundialização de um país, a quem muitos países oferecem benesses demais e permitem a circulação de produtos sem qualidade e sem o controlo que exigem aos seus industriais e comerciantes…
E à cautela, depois da compra de infraestruturas na Europa e EUA, ambos necessitados de dinheiro líquido e de pão para a boca, há que vender para quem tem dinheiro, os outros países emergentes (com salários também baixos), se estes lhes facilitarem a vida e quiserem ser fazer parte das suas conquistas…
E como se vê, não há milagre que sempre dure, nem comunismo que não se disfarce…

Contramarés sem contrapé… 7 dez.

O Partido Socialista manifestou o seu "repúdio" pelo comportamento do governador do BdP, que na semana passada "desrespeitou" o deputado João Galamba , e sugeriu que Carlos Costa faça "um pedido de desagravo".
Numa discussão relativa à exposição da banca à dívida soberana portuguesa, o governador irritou-se com as interrupções do deputado, acusando-o de "ignorância" e "má fé intelectual" num registo pouco habitual em audiências nas comissões parlamentares.

Sermão para os cristãos, novos no PODER…

Entrevista ao Padre Jardim Moreira – texto de Cesaltina Pinto
É um padre que não se cansa de remar contra a corrente. Luta por um plano de erradicação da pobreza que vá além do assistencialismo e da esmola. Pretende a participação da sociedade civil e do próprio excluído na busca de uma solução. Faz duras críticas à Igreja por esta não partilhar os seus bens e demonstra como a associação Igreja/Estado nas IPSS pode ser.
Há 20 anos que o Padre Jardim Moreira, 69 anos, preside à EAPN Portugal, Rede Europeia Anti-Pobreza. E há cerca de 40 anos é pároco em 2 das mais pobres freguesias do Porto: S. Nicolau e Vitória. Aqui tem a gestão de 7 centros sociais, tendo "inventado" para alguns, um sistema de "apadrinhamento", de modo a reunir financiadores da sociedade civil e voluntários. Deste modo, consegue acolher crianças dos 6 aos 10 anos, que não estão abrangidas por qualquer acordo com o centro regional de Segurança Social.
Quanto à EAPN Portugal, conta já com 18 núcleos distritais e ganhou, em 2010, o prémio dos Direitos Humanos atribuído pela Assembleia da República pelo trabalho desenvolvido. São vários os grupos a trabalhar com populações excluídas, de onde resultam políticas orientadoras para as instâncias decisoras.
Porque é que se meteu nestas coisas?  
Tinha pedido ao Bispo que me desse uma zona pobre e descristianizada. Ele deu-me o pior que tinha: S. Nicolau, primeiro e Vitória, depois. Na altura, para ir à Ribeira tinha de ir escoltado. Corria o risco de me darem um empurrão e deitarem-me ao rio! Pus-me a pensar: estou todo entusiasmado com a renovação teológica do Vaticano II mas ninguém quer ouvir. Não vale a pena. Comecei a estar mais atento às escrituras e concluí: a fé sem obras é morta, não vale a pena. Então, há que ir ao encontro das pessoas e começar a fazer o levantamento sociológico. Quais são os grandes problemas desta gente? Os idosos e as crianças abandonadas...
Qual é o seu objetivo?
O mais importante é que se assuma a partilha e a corresponsabilidade para a construção de uma nova sociedade, fraterna e mais justa. É esta consciência, lenta e progressiva, de que temos de mudar de mentalidade, de assumir uma corresponsabilidade e construir também a nossa própria segurança. Porque a segurança dos outros e dos pobres é também a nossa segurança.
O Cristo que a Igreja celebra e adora no altar é o mesmo que está esfarrapado na rua ou na criança abandonada a jogar à bola. É preciso não desvirtuar isto. "Tudo que fizeres ao teu irmão mais pequenino e mais pobre é a mim que o fazes". A fé cristã não pode deixar de identificar o Cristo místico, do altar, com o Cristo real, humano, vítima de situações da sociedade em que está inserido. A minha postura é a de servir, com a consciência de que sirvo a Deus servindo os irmãos.
Sei que muitos dizem: "eh pá, você tem menos devoções na igreja". Mas onde está a Igreja? A Igreja é a casa ou são as pessoas? São as pessoas! O templo vivo de Deus são as pessoas. Vamos fazer devoções a quem? Ao gato? Ou cuidar das pessoas diretamente e tratá-las?
"O assistencialismo humilha aqueles que recebem"
Não gosta das políticas assistencialistas...

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Ecos da blogosfera – 6 dez.

Há pano para mangas e para muitos manguitos!

Portugal foi abençoado por um "amplo consenso interno" entre os principais políticos, que reflete o apoio popular ao programa, afirmou o ministro das Finanças, Vítor Gaspar. "Nós somos bastante abençoados por um consenso amplo interno na necessidade de ajustar", disse no instituto de estudos internacionais Chatham House.
O ministro falava a propósito da capacidade de Portugal cumprir os objetivos estipulados pelo programa de assistência financeira acordado com o BCE, CE e FMI.
Ficamos a saber que Vítor Gaspar é crente, não se sabe de que religião, mas em que há uns que são mais abençoados do que outros…
Ficamos a saber que Vítor Gaspar confunde Portugal com os portugueses, porque são eles os “abençoados”, por terem sido convencidos a um voto de silêncio, de cilícios e de resignação…
Ficamos a saber que Vítor Gaspar confunde “bênção” com a “mansidão”, resultado da teoria do medo, induzida pelas medidas da “inevitablilidade”…
Ficamos a saber que Vítor Gaspar confunde “consenso” entre políticos da maioria com o apoio popular…
Ficamos a saber que Vítor Gaspar está convencido que os portugueses são do tipo da “mulher do malandro”, que gosta de “apanhar e calar”…
E tem razão! Mas ficamos a saber que quem foi “abençoado” com um povo assim, foram os governos de há 20 anos, inclusive o dele.
Se não, vejam-se algumas notícias, só de hoje, que correspondem a situações, que deveriam levar à insurreição de um povo, que não tivesse sido abençoado:
Claro que tudo isto, AINDA é resultado do governo anterior, porque este ainda não fez nada para melhorar, porque tem piorado…
Claro que este governo tem sido abençoado com a solidariedade dos menos pobres em favor dos “mais desfavorecidos”, em resultado do seu bom trabalhado e das promessas que devem ter feito de ir a Fátima em Audis topo de gama…
Claro que esta recessão é controlada, porque foi uma das garantias deste governo e vai resultar, no fim de 2012, num boom de riqueza nunca visto, mas para os mesmos…
Claro que a redução do consumo interno tem diminuído como programado por este governo, como medida preventiva contra a obesidade e nem o aumento das marcas brancas (dos maiores supermercados) evita a queda de facturação, reduzindo assim as desigualdades que a OCDE denuncia…
Claro que estes trocos não atrapalham a contabilidade orçamental, desde que seja distribuídos por gente de bem e patriótica, porque se fossem cair no bolso de gente da oposição seria ajudar o inimigo…
Claro que depois de pagas as faturas do SNS com o excedente encontrado debaixo do “colchão” e com o conta quilómetros quase a zero, este rigor do ministro da Saúde, famoso como gestor e o silêncio dos “otários”, só pode ser por uma bênção do divino…
Claro que às vezes há responsáveis que assumem a responsabilidade da missão que lhes foi incumbida e atrevem-se a salvaguardar os direitos do abençoado povo e a falar em sua defesa, até o Tribunal Constitucional decretar que não tem razão, mas não sobre tudo o que a Constituição nos garante…
Claro que não sendo os espanhóis cidadãos portugueses e por isso não sendo abençoados, não ficam calados com as medidas dos governos portugueses e queixam-se a quem de direito, embora a Comissão Europeia venha a fazer o papel do nosso Tribunal Constitucional e…
Realmente não falta pano para mangas, mas falta-nos coragem para fazermos manguitos a quem diz que temos um consenso amplo interno na necessidade de ajustar…
Só nos falta vislumbrar um amplo consenso governamental sobre a necessidade de ajustar as medidas de austeridade dentro de critérios de justiça social, direitos constitucionais e equidade…
Só tivemos azar em não termos um Governo de Portugal, também abençoado!

Contramarés sem contrapé… 6 dez.

A Alemanha e a França reagiram hoje discretamente à ameaça da agência de "rating" Standard & Poors de baixar a nota máxima de triplo A às duas maiores economias europeias, colocando-as em perspetiva negativa. "Tomamos conhecimento da perspetiva negativa da Standard & Poors", refere uma declaração conjunta da chanceler alemã, Angela Merkel, e do presidente francês, Nicolas Sarkozy.

Cada um com a sua…

O QUE É... INTERPRETAÇÃO
É captar indícios e transformá-los em verdades corporativas.
Por que se diz que um artista "interpreta" uma melodia ou uma peça de teatro? Porque ele está a transformar num desempenho audível ou visível o que o autor da peça supostamente estava a imaginar quando a compôs. É por isso que uma partitura pode variar uma barbaridade quando executada por dois músicos diferentes: cada um deles está "interpretando" o que, na sua percepção pessoal, passava pela cabeça de quem a criou.
A mesma coisa acontece na vida prática: não raramente, uma versão de alguém para um facto acaba por se tornar "a verdadeira", mesmo quando o autor ou causador do facto insiste em desmenti-la. Esse fenómeno está na própria origem do verbo "interpretar": ele teve origem no latim e no sânscrito, e significa "espalhar (algo) dentro de um grupo". Se esse algo é ou não "a verdade", aí já é outra história.
E por falar em vida prática, uma das figuras mais inocentes - e, ao mesmo tempo, mais nocivas - na fauna das organizações é o “intérprete corporativo”. Ele é uma espécie de despachante de rumores que age por conta própria. O intérprete tem uma função normal dentro da empresa, como todos os seus colegas têm. Mas o que o diferencia dos demais é o facto de ter delegado a si mesmo uma missão adicional: a de manter a empresa informada sobre o que realmente está a acontecer. E o problema aí é esse realmente, porque o intérprete não tem acesso às informações, apenas capta indícios e transforma-os em factos consumados. Daí o “intérprete corporativo” ser um inocente, já que não se beneficia pessoalmente das coisas que espalha. Mas é, ao mesmo tempo, altamente nocivo, já que as suas versões podem causar estragos consideráveis.
“Intérpretes corporativos” existem em todas as empresas. Eu nunca trabalhei numa que não tivesse, pelo menos, um. Eles são muito convincentes, iniciam as suas frases com um "Você já soube?" - e então contam histórias mirabolantes sobre os bastidores da empresa. E como é que eles sabem de tanta coisa? "Sei de fonte limpa", afirmam. Ah...
Então, o “intérprete corporativo” estava nos sanitários da empresa, a lavar as mãos. Aí, na última retrete, toca um telemóvel. "Alô", alguém atende lá dentro, e o “intérprete corporativo” imediatamente reconhece aquela voz. É o Dr. Nelson, o gerente. O “intérprete corporativo” ainda não sabe, mas está no lugar certo na hora certa: do outro lado da linha está o big boss do Dr. Nelson, a querer saber por que os resultados andam tão maus. O “intérprete corporativo” não sabe quem está a falar, nem qual é o assunto, mas não lhe será difícil deduzir. E ouve atentamente a conversa (ou melhor, ouve só as respostas que o Nelson vai dando):
- É, está difícil...
- Estou a tentar, não é falta de esforço.
- Está a acabar com o meu humor...
- Olha, eu acho que essa situação não se vai resolver, é um problema crónico.
Aí, o “intérprete corporativo” sai de fininho dos sanitários, encontra um grupinho no corredor e pergunta:
- Vocês sabem por que o Dr. Nelson anda tão mal-humorado ultimamente?
Opa, aquilo era uma revelação e tanto, principalmente após o “intérprete corporativo” afirmar que ouviu tudo da boca do próprio. O pessoal então cala-se para ouvir. E o “intérprete corporativo” olha para os lados, pede sigilo absoluto, curva-se para a frente e sussurra:
- Prisão de ventre. E das crónicas!
Artigo escrito por Max Gehringer publicado na Revista VOCE SA.