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quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Contramaré… 26 fev.

O saldo é positivo. De um total de 42 seguradoras, apenas 6 registaram resultados líquidos negativos no ano passado.
De acordo com os dados, as indemnizações e provisões das seguradoras foram superiores aos prémios pagos pelos segurados em todos os segmentos do ramo Não-Vida. A somar a isto, os ativos das seguradoras aumentaram 0,8% para os 55,7 mil milhões de euros no ano passado, tal como o passivo que cresceu 1,2% para os 50,6 mil milhões. No total, os capitais próprios das seguradoras recuou 2,5% para os 5,05 mil milhões de euros.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

“Não culpado” não quer dizer “Inocente”! E o Povo?

No relatório da comissão que investigou a atuação da troika pode ler-se que no futuro o FMI deve ser usado apenas se "estritamente necessário", o Banco Central Europeu como “observador silenciosos”, sendo a Comissão Europeia representada por um Fundo Monetário Europeu, a ser criado em 2014, que será o centro de toda a ajuda aos países que venham a necessitar de um resgate substituindo o FMI e não poupa nas críticas à falta de adequação dos programas à especificidade dos países resgatados e "a falta de transparência das instituições internacionais".
Os eurodeputados recomendam mesmo aos responsáveis das instituições que compõem a 'troika', que o FMI deixe de participar nas equipas constituídas para futuros programas de assistência económico-financeira.
Segundo o texto, os parlamentos nacionais têm sido postos à margem da execução dos programas de austeridade e é criticada a falta de liderança política de alguns ministros das Finanças na condução dos programas, ao mesmo tempo que se pede maior empenho aos representantes da zona euro.
Num típico compromisso europeu, eurodeputados tanto criticam a troika como reconhecem que não havia alternativa.
Na primeira votação sobre o resultado de uma investigação à acção da troika de credores internacionais em Portugal, Grécia, Irlanda e Chipre, o Parlamento Europeu (PE) dirigiu uma série de críticas a todo o processo e pediu a criação de um Fundo Monetário Europeu transparente para tratar dos futuros casos de ajuda aos países em dificuldades.
A votação foi por enquanto limitada aos membros da comissão parlamentar dos assuntos económicos e financeiros, devendo o resultado agora obtido ser votado pelo plenário do PE em Março.
O texto constitui um “bom equilíbrio” entre os principais grupos políticos e “mantém as principais mensagens” pretendidas, congratulou-se Elisa Ferreira, eurodeputada socialista portuguesa e uma das responsáveis pelo lançamento da investigação do PE que levou os 2 responsáveis pelo relatório final, o conservador (PPE) austríaco Othmar Karas, e o socialista francês Liem Hoang Ngoc, a deslocar-se a todos os países sob programa de ajuda.
O texto “acabou por ficar bastante melhor do que a certa altura receei, vamos ver se fica assim até à votação final em plenário”, afirmou.
No texto aprovado, e que foi objecto de perto de 1.000 propostas de alteração, os membros da comissão parlamentar defendem que a troika foi a solução possível encontrada quando a zona euro não tinha quaisquer instrumentos para fazer face a uma crise da dívida soberana. 
O texto refere igualmente que a troika enfrentou um desafio “imenso” devido ao mau estado das finanças públicas dos países que precisaram de ajuda conjugado com desequilíbrios macroeconómicos acumulados ao longo de vários anos e, sobretudo, pelo facto de os Governos em causa só terem pedido ajuda quando já estavam praticamente sem acesso ao mercado da dívida.
Ao mesmo tempo, porém, o PE “denuncia” a falta de transparência das negociações sobre os programas de ajuda, sublinhando o impacto “destas práticas, que envolvem a manutenção da informação atrás de portas fechadas, sobre os direitos dos cidadãos, sobre a estabilidade da situação política nos países em causa e sobre a confiança dos cidadãos na democracia e no projecto da União Europeia”.
A resolução votada defende assim que a troika é um formato que tenderá a acabar para dar lugar a um Fundo Monetário Europeu encarregue dos processos de ajuda com base em processos democráticos, transparentes e assentes no direito comunitário.
O texto critica por outro lado as consequências sociais dos programas de ajustamento, acusando-os de agravar as desigualdades e a pobreza em resultado das reduções de salários impostas. E denuncia igualmente o facto de o impacto da austeridade sobre o crescimento económico ter sido muito pior do que o previsto.
As referências a Portugal ilustram o tipo de compromisso alcançado entre a esquerda e a direita no PE. Enquanto a direita sublinhou os maus indicadores macroeconómicos de 2010 (no segundo Governo de José Sócrates), um ano antes do pedido de ajuda – défice orçamental de 9,8% do PIB, dívida de 94% e défice externo de 10,6% – os socialistas incluíram no texto que a economia portuguesa estava de boa saúde em 2007 (primeiro Governo de Sócrates) e que os maus indicadores de 2010 resultaram sobretudo da crise financeira de 2008-2009 e do efeito e contágio da crise grega.
Começam a sair resultados do relatório da comissão que investigou a atuação da troika nos países intervencionados.
Das conclusões, o Parlamento Europeu constata que:
1. Houve falta de transparência das negociações sobre os Memorandos;
2. Esqueceram-se dos direitos dos cidadãos;
3. Não tiveram em conta a situação política nos países em causa;
4. Menorizaram o impacto da confiança dos cidadãos na democracia;
5. Marimbaram-se na descrença gerada nos cidadãos sobre o projeto da UE;
6. Foram insensíveis às consequências sociais das medidas impostas;
7. Responsabilizaram-nos pelo agravamento das desigualdades;
8. Acusaram-nos pelo aumento da pobreza gerada com as reduções salariais impostas;
9. Confirmaram que falharam na imposição de austeridade sem crescimento, com resultados muito pior do que previram;
10. Denunciaram a exclusão dos Parlamentos nacionais dos programas de austeridade;
11. Criticaram a falta de liderança política de ministros das Finanças na execução dos programas;
12. Repartiram responsabilidades com os representantes da zona euro, pela falta de empenho;
13. Atribuíram mais culpas ao FMI, a ponto de pretenderem excluir, futuramente, de participar em novos programas de assistência económico-financeira;
14. Propuseram que novas troikas incluam um Fundo Monetário Europeu (FME) a criar;
15. Concluíram que novos Memorandos e novas troikas, de futuro, devem basear-se em processos democráticos, transparentes e assentes no direito comunitário.
E no fim de tanta prova feita, contra um bando de mal feitores, que revelam à cabeça, que a responsabilidade da metodologia usada e de todos os erros cometidos é do trio “filantropo” e reconhecidos como muito negativos para os cidadãos, não terão qualquer consequência na remediação nem no ressarcimento, muito menos na condenação dos autores das vilanias.
Veredicto dos “jurados” do PE sobre a troika: “Not guilty”!
Há culpados, mas não há culpabilização.
Lá como cá, só boas (in)conclusões!

Ecos da blogosfera - 25 fev.

15.ª Correntes d’Escritas – 7.ª mesa

Cada um ajeitou-se como pôde. Pernas estendidas ou esticadas, consoante a preferência, suportados por uma parede ou apenas pelas próprias pernas. Já percebeu, não já? Para não quebrar a tradição – que por acontecer há já 15 anos pode considerar-se uma tradição – a última Mesa do Correntes d’Escritas esteve completamente a abarrotar. Está certo que o número de lugares oferecido foi o dobro (mais de 600 cadeiras disponíveis), mas o dobro do público decidiu ouvir José Rentes de Carvalho, Andrés Neuman, Manuel Rivas, Inês Pedrosa e Onésimo Teotónio Almeida. “Não são minhas as correntes que escrevo é outro que as escreve em mim” foi o tema escolhido para esta última Mesa, moderada por Ana Sousa Dias.
José Rentes de Carvalho foi o primeiro convidado a intervir. “Porque sou avesso a minúcias, apressado por natureza e distraído, acontece-me com frequência interpretar erradamente o que leio ou o que me dizem. Sofro, também, de uma dose anormal de desconfiança, de maneira que, ao receber o tema desta Mesa, não li o que lá estava e troquei o ‘em mim’ por me soar demasiado esotérico, por um desconfiado ‘por mim’”.
“Com pena de não ter uma resposta afirmativa, no meu dia-a-dia não há lugar para o sobrenatural, apenas muito trabalhinho, paciência e energia”, afirmou Rentes de Carvalho. “Embora não disponha de ‘um outro’ que ‘em mim’ escreve, de forma alguma pretendo negar o fenómeno. Pode ser que um ou mais colegas de Mesa seja abençoado. E peço que ele ou ela entre no assunto de mansinho, que os anos e a pressão arterial me impedem de sentir emoções fortes”.
Inês Pedrosa começou por elogiar o trabalho da Câmara Municipal da Póvoa de Varzim, exemplo único no país. “Todos os anos me comovo quando vejo tanta gente na plateia e este sucesso deve-se ao empenho de uma equipa extraordinária”, sublinhou. Ainda antes de abordar o tema da Mesa, Inês Pedrosa louvou a escolha de homenagear Maria Teresa Horta na Revista Correntes d’Escritas: “Muitos e muitos poetas escreveram sobre a beleza do corpo das mulheres, os seios, as ancas e outras coisas mais. Mas os homens deveriam estar agradecidos a Maria Teresa Horta, que foi a primeira mulher a escrever sobre a beleza masculina”. Segundo Inês Pedrosa, esta foi uma homenagem “mais do que justa. Maria Teresa Horta é a responsável por uma nova forma de escrita”.
“Quando eu era uma garota e trabalhava no Jornal de Letras, um escritor famoso tentou convencer-me que a boa escrita era fisicamente contagiosa. Ou seja, deixasse eu que ele se escrevesse em mim e passaria eu a escrever, não tão bem como ele, mas quase, o que para uma mulher ele já considerava muito bom. Retorqui-lhe que, mesmo que esse milagre acontecesse, eu não estaria interessada em escrever à maneira dele, mas à minha, por mais inferior que fosse. A resposta escandalizou-o. Chamou-me presunçosa. Mas, a verdade, é que não vi o milagre acontecer em outras cobaias em que o tal escritor famoso foi aplicando o seu método”. Com humor, Inês Pedrosa avisou que este escritor está vivo e que não é nenhum dos participantes nas Correntes d’Escritas.
“Diante do caixão do meu pai perguntei-me como sobrevivem as pessoas que não vivem no mundo paralelo de qualquer arte. A escrita é para mim um anestésico e um clarificador. Tudo o que no comportamento dos seres humanos me parece absurdo, grandioso, injusto, formidável de coragem ou cobardia, fica no meu cérebro até se organizar em palavras. Assim, posso dizer que são os outros que escrevem em mim”, clarificou Inês Pedrosa.
Andrés Neuman afirmou que “talvez a tarefa das palavras não seja salvar-nos de nada, mas pelo menos as palavras atraíram-me até aqui e isso é uma sorte que é preciso celebrar”.
Manuel Rivas foi um dos 15 escritores convidados pelos colegas escritores. O autor encantou o público na sua primeira intervenção.
Onésimo Teotónio de Almeida afirmou já não ter piadas novas, o que se revelaria mentira. A verdade é que o escritor é “conotado como o indivíduo que diz piadas e não gosto muito dessa conotação”. Onésimo até pode não gostar de ser conhecido por contar boas e engraçadas histórias – e não é conhecido apenas por isso, mas também por isso – mas todos aguardavam com ansiedade os únicos poucos minutos por ano que têm oportunidade de ouvir o escritor.
Sobre o tema, Onésimo Teotónio de Almeida afirmou que “o único culpado do que escrevo sou sempre eu”.

Contramaré… 25 fev.

O número de desempregados inscritos nos centros de emprego portugueses em Janeiro era de 705.327, mais 14.792 do que no mês anterior, segundo o Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP).
De acordo com a informação mensal publicada pelo instituto, o número de desempregados inscritos nos centros de emprego do continente e das ilhas representava 75,6% do total de pedidos de emprego (933.352).

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Realçando a 'Responsabilidade Social' de 1 empresa…

A multinacional de fabrico de papel e embalagens Smurfit Kappa desenvolveu camas de cartão para sem-abrigo e, em parceria com a associação CASA, distribuiu-as por algumas ruas do Porto.
A iniciativa pretendeu abordar, numa 1.ª fase, cerca de 10 pessoas habituadas a dormir na rua Júlio Dinis, na praça da República e na Praça da Batalha, para depois, “com o tempo, melhorar-se a cama, ver a aceitação e chegar ao máximo número de pessoas possível”, disse Pedro Pedrosa, coordenador da delegação do Porto do projecto CASA – Centro de Apoio ao Sem Abrigo, uma associação de apoio à pobreza extrema.
O coordenador lembrou que “as principais necessidades de um sem-abrigo podem não ser sair da rua”, explicando que “não é de um dia para a noite” que se deixa de dormir ao relento, pelo que parte do objetivo deste tipo de iniciativas passa por manter a dignidade de quem não está pronto para viver sob um tecto. “É necessário que sejam alimentados, que sejam ouvidos, que se perceba quais são as reais necessidades, que nem sempre são sair imediatamente da rua”, sublinhou Pedro Pedrosa.
Para além da comida e bebidas quentes que a CASA distribui diariamente, entre as suas várias delegações, foi também facultado aos sem-abrigo autocolantes que identificam o propósito das camas de cartão, de modo a que não sejam confundidas com lixo, quando não são utilizadas.
“Uma das nossas principais preocupações é que os sem-abrigo, quando chega a manhã, colocam as suas coisas em qualquer sítio que podem”, explica o coordenador de 27 anos, relatando que “muitas vezes, [as pessoas] destroem aquelas coisas, ou, por engano, levam-nas para o lixo”.
O projeto contemplou, portanto, uma espécie de marca gráfica que identifica as camas de cartão em que se lê: “Esta é a minha casa. Cuidado, não a destruas”, com a respetiva tradução em inglês, de forma a tornar o objeto “universal, para que toda a gente perceba que são pertences de pessoas, que aquilo é realmente a casa de alguém que não tem casa”, disse Pedro Pedrosa.
Os casos de dependência de drogas e álcool abundam entre os sem-abrigo que a associação CASA vai ajudando, o que se por um lado explica a dificuldade em perceber se estão prontos ou dispostos a abandonar as ruas, também impede, em muitos casos, a recolha das suas opiniões, pelo menos claras, quanto ao projecto das camas de cartão.
Segund Rui Seara, gerente da unidade fabril de Vila do Conde da Smurfit Kappa, a empresa de fabrico de papel e embalagens de cartão que desenvolveu o projecto, a ideia surgiu a partir da “cultura muito forte, dentro do grupo, de apoio a estas situações”.
“Assistimos a muitos casos em que o cartão canelado é muito usado por estas pessoas, pela necessidade que têm de protecção”, explicou o gerente. “Como também é o produto que nós fabricamos, surgiu a ideia interna de tentar fazer qualquer coisa com que pudéssemos minimizar o sofrimento destas pessoas”, concluiu.
Quando cada vez mais o Estado (o 1.º setor) se exclui das suas obrigações sociais e as empresas (2.º setor) seguem os mesmos trilhos, deixando ao 3.º setor a satisfação das necessidades dos que tem maiores carências, é salutar ver e propalar as ações solidarias de uma empresa, na tentativa de minorar, solidaria e responsavelmente, o que está ao seu alcance.
Melhor solução seria um saco-cama, mas falta encontrar quem vá por aí…
Esperemos!

15.ª Correntes d’Escritas – 6.ª mesa

A noite foi longa e, por isso, a manhã começou devagar. Os mais de 600 lugares disponíveis no Axis Vermar não foram preenchidos com a rapidez das 5 “Mesas” anteriores mas, no final, e mais uma vez, não existia praticamente nenhuma cadeira livre.
A “Mesa 6” tinha como tema “Coração de correntes desabitado: a poesia” e os seus intervenientes foram Elgga Moreira, Inês Fonseca Santos, Manuel Rui, Pedro Teixeira Neves, Uberto Stabile e Vergílio Alberto Vieira, contando com a moderação de José Mário Silva.
A assinalar os 15 anos do evento, a organização desafiou os antigos participantes a fazerem uma seleção de 15 autores que, nunca tendo estado presentes no Encontro, fosse obrigatório convidar e 2 dos nomes escolhidos participaram nesta Mesa, Elgga Moreira e Inês Fonseca Santos.
Elgga Moreira faz parte do conjunto de autoras escolhidas para escrever o livro “Do branco ao negro”, em que cada escritora contaria uma história com uma cor. A autora refletiu sobre o tema da mesa e conquistou o público naquela que foi a sua primeira intervenção.
Inês Fonseca Santos disse que “o que pode ser mostrado não pode ser dito” e explicou: “heis o que coloca o poeta num dilema: ou se cala, aceitando o silêncio e abdicando da escrita ou se mantém na demanda da espessura da palavra”. A escritora sublinhou que “amor e morte são talvez os temas mais recorrentes de toda a poesia. Funcionam para o poeta como o fogo funciona para o ferreiro, isto é, como o meio que lhe permite dobrar o ferro e moldá-lo. Amor é fogo, mas é também carne e dor. É a descoberta do outro, porque o que realmente importa é o mistério do encontro. É do coração que tudo nasce e é no coração que tudo tende a instalar-se, até o Mal”.
Manuel Rui, presença habitual no Encontro, responsabilizou a corrente de “criar pensamento, criar poesia, criar ligação entre as pessoas nas horas difíceis”. O poeta afirmou que as correntes “não amarram, mas unem os amigos. As vozes dos amigos, as canções dos amigos, essas, são habitadas. Habitadas pela poesia, mistério das palavras que se ligam”. “Não são estas as Correntes de coração desabitado. Estas são as correntes habitadas pelo coração da poesia, com impressões digitais das palavras de vários continentes, ditas em 2 idiomas. Estas são as nossas correntes. As Correntes d’Escritas”, disse o poeta.
Pedro Teixeira Neves começou por dizer que a sua esposa desconfia sempre que ele, de facto, tenha participado num Encontro de Escritores quando regressa a casa, vindo da Póvoa de Varzim: “é que regresso sempre em muito pior estado do que parto. Pelo menos uma vez por ano posso provar-lhe que isto de escrever também tem a sua exigência”.
Sobre o tema “nunca se tratará de saber o que tu podes fazer pela poesia, mas antes saber o que a poesia pode fazer por ti. Podem colocar-nos uma mordaça, tapar-nos os olhos com uma venda, mas que podem fazer-nos ao coração para o calar?”. A poesia será, antes de mais, sentimento, um modo íntimo de pesar o mundo, também um modo de ler.
“Ser poeta é condenar-se a uma espécie de purgatório. Dentro do 0,01% do Orçamento de Estado que sobra para a cultura, quanto sobra para a poesia? Zero. Numa livraria em Lisboa, entrei e procurei pela secção da poesia. Não havia nem um livro. Nada. Porque diabo insiste um poeta, então, em escrever? Má sina, masoquismo? Não. Um poeta traz-se à perna de si mesmo porque hoje, mais do que nunca, o mundo precisa de poesia. Num tempo de abismo como este, o mundo precisa dos poetas porque são aqueles que mais se abeiram do abismo. Como é sabido, só quem se abeira do abismo consegue olhar para cima, ver de novo, ver a luz com renovado olhar de espanto”.
O convidado pensa que “para os escritores, além de serem lidos, também é gratificante serem ouvidos, de quando em quando”.
Uberto Stabile lamentou não conseguir dirigir-se à plateia em português. Começou por classificar o Correntes d’Escritas como um milagre da homenagem à palavra. O escritor espanhol leu um diário de perdas, textos dedicados a poetas falecidos. “Vivemos num tempo desabitado, um tempo sem fé, um tempo que necessitamos reinventar para a poesia, para que continuemos a acreditar. Num tempo onde tudo tem um preço, a poesia é cada vez mais necessária e urgente”.
A intervenção de Vergílio Alberto Vieira foi inovadora. Utilizando imagens e música, o escritor disse que “o que é poesia para a vida senão reserva de amor, senão condição essencial àquele sentido da existência em que a relação com o incomensurável é a esperança?”. O escritor afirmou que “chegar à palavra é ser da palavra”.

Ecos da blogosfera - 24 fev.

15.ª Correntes d’Escritas – 5.ª mesa

A Mesa 5 do Correntes d’Escritas voltou a exceder a expetativa de público, que lotou o Centro de Congressos do Axis Vermar, numa noite de sexta-feira. O painel moderado por Michael Kegler contou com as explanações de Carlos Quiroga, Joana Bértholo, Manuel da Silva Ramos, Manuel Jorge Marmelo, Miguel Sousa Tavares, Ondjaki e Rui Zink, sobre o tema: “Cada livro é a antologia corrente da existência”.
O primeiro a abordar o tema foi o galego Carlos Quiroga, que realizou um trabalho de campo prévio, indo às livrarias perguntar se tinham “Antologia corrente da existência”, no que foi entendido nalguns casos como um ato provocatório. Recebeu como resposta algumas perguntas de surpresa total: “Corrente como? Da existência de quem?”
Apesar de todo o esforço, Carlos Quiroga não deu o trabalho totalmente por perdido, pois da “conversa com o último fulano, veio a ideia do cruzamento com a propaganda que há algum tempo recebia: trata-se do anúncio de um revolucionário conceito de tecnologia de informação chamada de Local de Informações Variadas Reutilizáveis e Ordenadas: L-I-V-R-O. Um avanço fantástico, sem fios nem circuitos elétricos nem pilhas, não requer que se conete ou ligue a nada e é tão fácil de usar que até uma criança o pode utilizar”
Joana Bértholo estreou-se no Correntes e como resposta ao desafio resolveu contar a sua experiência de “fazedora de livros” num projeto social na Argentina (Cartonera), em que cada livro era feito à mão por artistas e artesãos, numa comunhão de esforços que resultava num objeto único. Deixou a reflexão – “um livro está para a existência como uma flor está para um jardim”.
Manuel da Silva Ramos contou a reflexão que realizou para responder à questão colocada para esta Mesa e resolveu olhar para os seus 18 livros publicados e, através deles, olhar para o passado “com olhos de lince discreto”. E, facilmente, vê a sua vida passada, com as transformações e etapas de homem, com uma sensação estranha: “tão poucos livros para tão grande vivência”.
O premiado deste ano do Correntes d’Escritas, Manuel Jorge Marmelo afirmou que não percebia muito bem a frase proposta. “A dificuldade começa logo na expressão ‘corrente’, para a qual existem para cima de 20 significados possíveis; ‘existência’ é uma daquelas palavras totalitárias que facilmente inclui a vida e a realidade inteiras. E ‘antologia’ tanto pode ser uma simples coleção atualizada de textos como o estudo das flores. Supondo ainda assim que a expressão antologia corrente da existência designa uma coleção atualizada da vida ou da realidade e que esta seleção transitará para cada livro que escrevo, creio que acabaríamos por não concluir grande coisa”.
Marmelo afirmou ainda que “os livros de ficção que escrevo são de algum modo a tal antologia corrente da existência, mas ao mesmo tempo não o são de modo nenhum”. É que a ficção cria uma realidade paralela.
Ondjaki considerou que “cada vida é uma antologia à solta” e resolveu apresentar ao público do Correntes a biografia do seu vizinho. Na história apresentada pelo escritor angolano, o seu vizinho é que é o autor dos seus livros, as suas histórias são a ficção criada pelo vizinho, afinal, ele nunca escreveu nada.
Rui Zink confessou que não esperava que estivessem 600 pessoas a assistir à sessão e saudou o “milagre das Correntes”, que conseguiu reunir mais pessoas que os “446 partidos de esquerda, que se formaram nas últimos 48 horas, para unir a esquerda”.
Rui Zink concorda com a frase de título da Mesa 5: “parece óbvio, já que tudo o que eu escrevo tem uma ligação direta ao quotidiano, e numa daquelas coincidências espantosas, tudo o que eu leio também tem tudo a ver com o que estou a viver”. Zink afirmou que com o livro “A instalação do medo” (de capa cinzenta) quis salvar Portugal, entretanto a corrente de salvação do escritor estende-se para outro livro de capa “rosa chiclete”“A metametamorfose e outras fermosas morfoses” – com o qual quis salvar o Mundo.
Miguel Sousa Tavares responde, Não, à pergunta “Cada livro é a antologia corrente da existência?” O autor considera que se o livro (que contém toda a condição humana) fosse a antologia corrente da existência, seria a “pior exigência que se poderia fazer a um contador de histórias, que era a de lhe retirar o direito essencial à mentira. Um livro, um romance não é nem uma antologia, nem um relatório ou sequer um relato da existência, apenas dá conta de que quem o escreveu estará vivo e essa é a única ligação à existência, a sua própria existência.”

Contramaré… 24 fev.

"Há muitos portugueses que têm dúvidas sobre o que é isto? Quem são estes senhores todos? Mas o PSD não está na SIC às 4.ªs, nem na TVI às 5.ªs, nem na SIC aos sábados. Está aqui e está lá fora com os trabalhadores". Miguel Pinto Luz, presidente do PSD/Lisboa, abriu o Congresso com um ataque direto aos barões que criticam o PSD nas televisões e não vão ao Congresso.
PSD: Ferreira Leite, Marques Mendes e Menezes falham Congresso
Relvas vai faltar ao Congresso do PSD