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quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Contramaré… 13 dez.

“A mensagem é que não se corte demasiado ao nível das prestações e transferências sociais para as famílias, de forma a suavizar o impacto da envolvente macroeconómica que é negativa neste momento, mesmo que isso acarrete um peso acrescido sobre o orçamento pelo lado da despesa”, afirmou João Tovar Jalles, economista na OCDE responsável por Portugal.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Previsões? Só quando reouvermos as notas roubadas!

A zona euro registou uma queda da sua atividade de 0,1% do PIB no 3º trimestre, depois de ter registado um retrocesso de 0,2% no trimestre anterior, confirmou o Eurostat. Isto confirma, que o conjunto dos 17 países da zona euro está em recessão, já que os técnicos consideram que um período de recessão se dá quando são registados 2 trimestres consecutivos de queda do PIB.
Mais uma vez, os dados mostram os grandes desequilíbrios da zona euro: Espanha (-0,3%), Portugal (-0,8%) e Itália (-0,2%) continuam mergulhadas na recessão, enquanto a Alemanha (+0,2%) e a França (+0,2%) resistem aos embates da crise da dívida.
O BCE reduziu claramente as suas previsões de crescimento na Eurozona, cujo PIB cairá 0,5% em 2012 (-0,4% na previsão anterior) e retrocederá 0,3% em 2013, invertendo um prognóstico anterior de crescimento positivo (+0,5%) para o próximo ano.
Para 2014, o BCE espera um crescimento de 1,2%, segundo uma primeira estimativa. Por sua vez, o BCE confirmou a sua previsão de inflação para 2012 (2,5%), e previu 1,6% em 2013 e 1,4% em 2014.
Queda do PIB em 3,5% no 3º trimestre do ano é pior do que previsto pelo próprio INE, as exportações continuam em desaceleração e o emprego em queda. Mas Passos Coelho insiste em falar em “bons resultados”.
O PIB da Grécia acelerou a queda a 6,9% no 3º trimestre de 2012, de acordo com dados anuais da Autoridade de Estatísticas Gregas.
A queda aconteceu após um retrocesso de 6,3% do PIB grego no 2º trimestre e de 6,7% entre janeiro e março.
O país prevê no orçamento de austeridade para 2013 o 6º ano consecutivo de recessão, com uma baixa de 4,5% do PIB, após uma queda de 6,5% esperada para 2012.
No relatório semestral, o Banco da Grécia destacou esta semana que a recessão acumulada entre 2008 e 2013 pode alcançar 24% do PIB.
A Grécia, com uma dívida colossal, está submetida a uma drástica política económica de ajuste e austeridade, em troca de um plano de ajuda financeira internacional
O que quer dizer que já estamos em recessão há muito mais de 2 trimestres consecutivos e sempre pior, realidade que não pode ser desmentida e que encoraja alguns iluminados a dizer que estamos no bom caminho (do precipício)…
Saliente-se (sempre) que as coisas estão muito pior na Eurozona, embora digam os iluminados que o Euro não tem nada a ver com a maleita…
Quem se vai safando (por enquanto) é a França e a Alemanha, que apesar de, vão andando em frente, pé ante pé, sorvendo o mal de uns, que é o bem de outros, enquanto nós vamos dando passos atrás (mais passos do que Passos prometeu)...
Como cá, até os eficientes técnicos do BCE (onde Gaspar fez o “estágio”) se enganam nas previsões, e de que maneira, confirmando o que o Eurostat registou, mas também como cá se promete uma inversão para o crescimento em 2013, mas só se o fim do mundo se confirmar no próximo dia 21…
Entretanto, PPC (um dos que acredita no fim do mundo) insiste nos “bons resultados” (podia ser muito pior), mesmo com o PIB a cair 3,5%, pior do que o previsto pelo próprio INE (também tem direito a palpites), mesmo com as exportações a diminuírem (acabou o ouro usado) e mesmo com o emprego sempre a aumentar. E só por isso é que os resultados são bons para o “nosso” Primeiro, se pretende que o PIB baixe, as exportações diminuam e o desemprego aumente…
Tendo em conta a realidade grega, que vai 1 ano à nossa frente e da Irlanda, já sabemos qual vai ser o nosso PIB em 2013, as exportações e o desemprego, se for verdade que as mesmas causas provocam os mesmos efeitos…
Perante tudo isto, o que preveem (seja quem for a prever) e com o que nos acenam como futuro menos tristonho, até dá tristeza, por sabermos, comprovadamente, da incompetência destes engajados “tecnocratas”, travestidos de cartomantes…
Até quando e até onde vai o limite da nossa paciência?
Admirável “mundo novo” com truques velhos!

Ecos da blogosfera – 12 dez.

Líder da Oposição Grega Apela a Uma Conferência Europeia sobre a Dívida

União Europeia - Prémio Nobel da PAZ - IV

O Nobel da Paz atribuído à Europa representa um apelo duplo: aos dirigentes europeus, para que salvem uma União danificada; aos cidadãos, para que deem provas de solidariedade, num momento em que a crise coloca em causa o modelo social europeu, escreve o filósofo alemão Jürgen Habermas.
É no momento da crise mais grave da sua história que a União Europeia vê ser-lhe atribuído o Nobel da Paz. Nas suas motivações, o Comité Nobel felicita-a por ter “contribuído para passar a maior parte da Europa de um continente em guerra para um continente de paz”. De facto, seria difícil imaginar outros motivos para motivar a atribuição de um prémio Nobel da Paz.
Portanto, as circunstâncias da crise atual esclarecem a entrega deste Nobel, ou mais precisamente as repercussões que tal decisão pode ter na situação atual da União. Interpreto a decisão da atribuição do prémio Nobel da Paz à UE neste preciso momento, em que esta nunca esteve tão mal, como uma súplica às elites políticas europeias – as mesmas elites que vemos hoje, em tempos de crise, a agir sem qualquer coragem, nem qualquer visão.
Para além dos antagonismos históricos
Este prémio Nobel da paz mostra claramente aos governos que estão hoje na liderança dos países-membros da união monetária que precisam de olhar para além da sua própria sombra e que devem portanto avançar com o projeto europeu. Algo que está explicitamente escrito, no mínimo 3 vezes, no texto do apelo. O Comité Nobel começa por elogiar a reconciliação da construção da paz na Europa após a II Guerra Mundial.
O texto evoca, em seguida, os esforços para construir e promover a democracia e a liberdade, assim como os processos de liberalização que a União Europeia levou a cabo nos anos 1980 a favor da Grécia, da Espanha e de Portugal, similares aos dos anos 1989-90 para os países da Europa central e oriental, que integraram mais tarde a União. Esforços que a Europa deve agora aplicar nos Balcãs. O Comité Nobel louva a coragem que a Europa teve para superar os antagonismos históricos e obter este sucesso civilizador que é o alargamento da União Europeia, que deverá um dia incluir a Turquia.
A Europa dos cidadãos
Mas há mais. É preciso esperar pela terceira motivação do Comité para encontrar a ironia da atribuição deste prémio Nobel da Paz à União Europeia. O Comité Nobel faz referência à crise económica que, nos países-membros da zona euro, está na origem “de perturbações e tensões sociais consideráveis” e que quase leva à rutura uma Europa comprometida por responsáveis incompetentes. Ao analisarmos bem o texto, percebemos que o que está em jogo é a terceira grande concretização da União, isto é, o seu modelo social, baseado no Estado-Providência.
Neste momento, nós europeus, estamos obstinados a permanecer imóveis e silenciosos numa União a duas velocidades. É por isso que interpreto também a decisão de atribuição do prémio Nobel da Paz à União Europeia como um apelo à solidariedade dos cidadãos, que deverão dizer que Europa pretendem. Somente o reforço das instituições da “KernEuropa” – o núcleo essencial europeu – permitirá dominar um capitalismo que se tornara incontrolável e parar o processo de destruição interna da União.

União Europeia - Prémio Nobel da PAZ - III

A 10 de dezembro, a União Europeia foi distinguida por 60 anos de uma construção política que a preserva de conflitos. Mas este estatuto poderá ser colocado em causa pela crise e a desilusão provocada por esta, alerta o historiador Dirk-Jan van Baar.
Na nossa região do mundo, a “paz eterna” não é de todo garantida. Só poderemos afirmar que a UE, enquanto projeto de pacificação, é um sucesso se não presenciarmos nenhuma guerra nos próximos 100 anos. Receber o prémio Nobel da Paz em 2012 representa, por si só, um desafio aos deuses. Mas também podemos ver esta distinção como sinal de partida para todas as discussões que existirão brevemente para a comemoração do “big-bang do século XX” [a I Guerra Mundial]. Tendo isso em conta, o Comité Nobel antecipou-se.
Todas as festividades são boas para se lançar um debate sobre a Europa, onde o mote “nunca mais”, segundo alguns observadores críticos, deixou de ter significado e tornou-se banal. Basta ter algumas noções da história europeia, para ficar surpreendido com esta falta de conhecimento da História. No entanto, isto não significa que a UE seja indispensável para a paz na Europa. Temos motivos para duvidar. Não é por acaso que países pacíficos, como a Noruega e a Suíça continuam fora da UE e que a Europa, incapaz de assegurar a sua própria segurança, se vire para os Estado Unidos.
Não acordar os ursos adormecidos
A ideia de que uma potência estrangeira lhe queira mal está longe de ser uma simples fantasia. A Rússia atual já não é o Império do mal de outrora, mas com Vladimir Putin, pretende recuperar a sua honra e já exerce pressões sobre os seus “vizinhos mais próximos” na Bielorrússia, Geórgia e Ucrânia. Repúblicas que, tal como os Estados bálticos – doravante membros da UE – faziam parte da União Soviética. Julgam que Talin, Riga e Vílnius se encontram ao abrigo dos complôs russos? Na Europa Ocidental, ninguém pensa nisto, mas na Europa Oriental são mais sensatos. Mas talvez seja melhor, para bem da nossa saúde, não acordar os ursos adormecidos. É mais ou menos esta a “estratégia” da Europa em relação aos perigos externos.
Este tipo de atitude pode parecer mais cínica do que na realidade é. Todos os que pensam que a Europa deve estar preparada para qualquer ameaça externa pressupõem a existência de uma demarcação que na verdade não existe. A delimitação das fronteiras externas da Europa, sobretudo no Leste, é propositadamente pouco clara. A Cortina de ferro, que durante a Guerra fria permitia ter uma ideia concreta do mundo, desapareceu e a UE, ao alargar para o Leste, tem vindo a estabilizar compensando uma perigosa falta de poder.
O alargamento da UE para Leste continua em aberto, mas o Bósforo, que passou a ter um Governo “pró-islâmico” em Ancara, está fora de questão. Entretanto, do lado Ocidental temos os britânicos, defensores das nossas liberdades democráticas em 1940, a afastarem-se cada vez mais da UE. Um comportamento que tem consequências para a política externa e de defesa comum da Europa. Sem os britânicos que, juntamente com os franceses, dispõem de um direito de veto nas Nações Unidas, esta política não tem qualquer hipótese de ser bem-sucedida.
Reconciliação histórica
Em Bruxelas, tende-se a aceitar os excessos dos britânicos como um dado de base, devido ao cansaço face ao ceticismo demonstrado por estes últimos em relação à Europa. Mas se Londres decidir abandonar oficialmente a UE, deixará automaticamente de haver qualquer esperança de ver um dia a Europa andar pelos seus próprios pés e sem esta esperança os americanos perderão qualquer interesse em nós. Os Estados Unidos não desejam garantir para sempre a segurança da Europa, sobretudo se os europeus lhes pedirem para o fazer gratuitamente.
Existem, fora da Europa, zonas de conflito com as quais esta mantém relações desde sempre. É curioso que o desmantelamento dos impérios coloniais, e as horríveis guerras que o acompanharam, não teve repercussões negativas na integração europeia, que começou pela mesma altura. Isto deve-se, na minha opinião, ao caráter único da aspiração europeia à pacificação, que, a partir dos anos 1950, se focou completamente numa reconciliação interna e permitiu confiar a novas forças emergentes os impérios coloniais que mergulharam no caos.
A Comunidade Europeia do Carvão e do Aço, fundada em 1951, era um projeto de pacificação centrado no interior, que colocava a indústria alemã e francesa sob a administração europeia. Um projeto brilhante, que serviu de base para a sua reconciliação histórica.
Este “pacifismo prático”, fruto da necessidade e de uma feliz coincidência, foi forçado a adotar uma posição que procura evitar conflitos com o mundo externo, assim como um progressismo tecnocrático estéril focado no interior. Uma abordagem também utilizada com os nossos Estados-Providência nacionais, o orgulho do modelo europeu. Também neste caso se mantém uma posição pacífica, adiando indefinidamente os problemas ou redefinindo constantemente os aspetos técnicos. Uma politização libertaria demasiadas emoções.
Modernizar, integrar e esterilizar
A Europa tem a sensação de que deve modernizar, integrar e esterilizar para existir. É o que nos mostra a crise do euro: esta suscita divergências que o euro devia eliminar e obriga a UE a saltar para o desconhecido. O que fragiliza o projeto de pacificação europeu. Se o euro desabar, assistiremos naturalmente a um regresso ao “cada um por si” e ao protecionismo dos anos 1930. Conseguimos, por exemplo, imaginar a Espanha, cuja integração na Europa foi um sucesso, a cair novamente numa guerra civil devido às diferenças regionais que nunca desapareceram totalmente.
O descontentamento tem raízes ainda mais profundas. A parte protestante da Europa queixa-se dos vícios da parte católica, como se tivessem regressado ao período da reforma. Não devemos encarar a paz na Europa como algo óbvio, porque a juventude só quer saber de viagens low-cost e iPhones e a guerra já não interessa. Este último ponto de vista também esteve em voga há 100 anos. No fundo, é perfeitamente normal que o Comité Nobel honre a EU justamente neste momento. Na Escandinávia, sabem apreciar o que é politicamente correto, mesmo que isto lhes possa provocar algumas contrariedades.

Contramaré… 12 dez.

"O Governo Monti seguiu as políticas orientadas pela Alemanha que a Europa tentou impor noutros países", afirmou o milionário. A acusação de germanismo a Mario Monti por Silvio Berlusconi está longe de ser original. Em Setembro, Il Cavaliera acusou o primeiro-ministro demissionário de ser muito "servil com a Alemanha, um estado hegemónico que está a ditar as regras sobre disciplina e austeridade a outros países europeus".

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Continuando a desconstruir as aldrabices da crise…

Raquel Varela defende no seu mais recente livro que os trabalhadores não devem arcar com o pagamento dos juros da dívida pública.
Desde o início da crise financeira mundial, em 2008, a Zona do Euro presenciou fases de estagnação e recessão económica, crises políticas, implosão das suas dívidas soberanas nacionais, altas taxas de desemprego e, principalmente, uma forte tendência de corte em direitos sociais e laborais da população. A justificativa dada pelos governos é que essas medidas são fundamentais para que os países atinjam um equilíbrio fiscal e, consequentemente, receberem aportes financeiros da Troika – dedicados a pagar os juros dessas dívidas e salvar as principais instituições financeiras desses países da bancarrota.
No entanto, sindicatos, estudantes, académicos e outros setores progressistas dos países mais afetados articulam-se para, além de resistir a essas imposições, desconstruir os discursos utilizados pelos defensores da austeridade, que alegam que os países em pior situação (notadamente Grécia, Portugal, Espanha, Itália e Irlanda) se encontram endividados porque, durante anos, gastaram mais do que tinham.
Em Portugal, uma das principais oponentes desse discurso é a historiadora Raquel Varela que, no seu mais recente livro, “Quem Paga o Estado Social em Portugal”, lançado em terras lusas no mês passado, não só defende a moratória da dívida como também afirma que a população do país não deve absolutamente nada. Em entrevista ao Opera Mundi, a professora da ISSH (sigla em inglês para Instituto Internacional de História Social, em Amsterdão) explica as razões e as contradições da crise atual, além de lembrar exemplos históricos, como a Revolução dos Cravos, em 1974, que marcou o fim da ditadura, quando a população se mobilizou para tomar o controlo das empresas e retomar o crescimento.
Opera Mundi: A primeira pergunta é inevitável: quem paga o Estado Social em Portugal?
Segue a entrevista…
Raquel Varela no Inferno


Ecos da blogosfera – 11 dez.

União Europeia - Prémio Nobel da PAZ - II

Logo após a divulgação da atribuição do prémio Nobel da Paz à União Europeia, a imprensa europeia reagiu com um misto de entusiasmo e ceticismo. Esta realça sobretudo que numa altura em que a Europa duvida de si mesma, este prémio encoraja os que continuam a acreditar na integração.
“A UE, prémio Nobel da Paz?”, interroga-se o Süddeustsche Zeitung. “Esta cambada de Estados mais ou menos falidos e constantemente em conflito, cujo maior projeto, a união monetária, está prestes a explodir? É uma decisão incrível do Comité norueguês, que deverá ter em conta que as suas decisões serão levadas a sério a longo prazo.”
No entanto, o diário de Munique reconhece o mérito da construção europeia na manutenção da paz na Europa, assim como os “honoráveis esforços” de transmitir uma mensagem de paz ao mundo. Mas este relembra que a UE não desempenha um papel importante na busca pela paz no mundo, e continuará assim durante algum tempo. Não foi preciso esperar pelas amargas experiências da crise do euro para perceber que os europeus não jogam em equipa nos momentos decisivos, e que estão mais apegados à camisa nacional do que à saia europeia.
Para o diário online francês La Tribune, trata-se de um prémio Nobel “surpreendente”, num momento em que a Europa é varrida pela crise e que essas dificuldades mostraram que apesar dos discursos tranquilizantes dos líderes europeus, os povos continuam ligados ao quadro nacional como se pode ver pela reticência dos cidadãos dos países do Norte, nomeadamente a Alemanha, em pagar pelos países do Sul. […] Paradoxalmente, este prémio parece mais refletir as preocupações do Comité relativamente ao futuro e à coesão da UE. A ideia consiste em relembrar a utilidade da União Europeia, numa altura em que são cada vez mais as pessoas que duvidam disso.
Segundo El País, a UE recebeu “uma recompensa inesperada”. Aproveitando ainda para relembrar que a Noruega, que atribui o Nobel da Paz, “recusa parte do clube, na medida em que rejeitou a adesão nos referendos de 1972 e 1994, e cujas sondagens indicam que cerca de 3 em cada 4 habitantes faria a mesma escolha nos dias de hoje, o diário estima que a paz é consubstancial à UE, cuja diplomacia procura sempre […] a melhor forma de resolver conflitos antes de acontecer o pior ou soluções para situações mais graves. […] A UE chegou mal e tarde à guerra dos Balcãs, onde os Estados Unidos nos anos 1990 tiveram de resolver o problema pela Europa. […] Na estratégia do pau e da cenoura, que deve acompanhar qualquer política externa, a UE é tão tímida com o pau, como hábil com a cenoura, um obstáculo que não fica nada mal a uma União que se envolve com naturalidade na bandeira dos Direitos Humanos”.
Em Roterdão, o chefe de redação do NRC Handelsblad, Juurd Eijsvoogel, escreve que o presidente do Comité Nobel tinha anunciado que a escolha deste ano causaria polémica. Algo que acontecerá de certeza, uma vez que a Europa está debaixo de fogo. Com a sua escolha, o Comité aborda um assunto delicado, tal como o fizera em 2009 ao escolher Barack Obama. Mas, por outro lado, é difícil contestar que a UE contribuiu de forma importante para a coabitação pacífica na Europa.
Num comentário publicado no sítio de Internet da televisão pública RTP, a especialista da Antena 1 e do Público, Teresa de Sousa escreve que a atribuição do Nobel da paz à EU é um alerta que não podia ter chegado em melhor altura para que os governos, os líderes europeus, e as instituições europeias pensem melhor como é que vão impedir que haja uma desagregação europeia. […] A questão é se os líderes europeus dão a devida atenção a este prémio.

União Europeia - Prémio Nobel da PAZ - I

De facto, a ideia de organização europeia merece ser distinguida. Mas não era à UE de hoje, que vende armas e cria desempregados, que o Comité do Nobel devia ter concedido o prémio, considera um jornalista argelino-tunisino.
Um dos comentários mais recorrentes, na Argélia, é a recordação do passado colonial de muitos dos países europeus, a começar pela França e Grã-Bretanha, e a interrogação sobre se a decisão dos bem-pensantes de Oslo não deverá ser interpretada como uma oficialização da saída do velho continente do seu purgatório pós-colonial.
Numa altura em que a França continua a recusar-se a encarar o seu passado argelino e em que os tribunais britânicos aceitam abrir o delicado caso da repressão sobre os mau-maus do Quénia, este prémio Nobel pode ser visto como uma alforria concedida pela Europa "sábia e virtuosa", ou seja, a do Norte, que não tem quase nada que a envergonhe em matéria de aventuras coloniais.
Podemos também questionar a partir de quando alguém se torna elegível para um prémio como este e por quanto tempo. É verdade que a Europa há muito deixou de se dilacerar pelas armas. Mas já esquecemos o conflito nos Balcãs, onde a União Europeia se mostrou incapaz de impor a paz? Sob muitos aspetos, os Estados Unidos, que colocaram todo o seu peso na restauração da paz na região e em pôr cobro ao regime sérvio de Milosevic, merecem ter parte neste prémio. Isto relativiza um pouco a imagem de doce quietude com que hoje se pretende envolver a Europa, por oposição a um resto do mundo cada vez mais globalizado e menos seguro.
É frequentemente citada com reverência a façanha alcançada pelos europeus em matéria de reconstrução e integração regional, apesar de séculos de guerra. É preciso reconhecer que a União Europeia continua a ser um êxito, quando se toma como ponto de partida a situação do continente em 1945.
E os pais da Europa?
Mas, então, eram os "pais da Europa" que mereciam o prémio Nobel, isto é, o alemão Konrad Adenauer, o luxemburguês Joseph Bech, o holandês Johan Willem Beyen, o italiano Alcide De Gasperi, os franceses Jean Monnet e Robert Schuman e o belga Paul-Henri Spaak.
Podia-se igualmente admitir que a recompensa fosse para os continuadores da sua obra, ou seja, pessoas como o alemão Walter Hallstein, o primeiro presidente da Comissão Europeia, o italiano Altiero Spinelli, inspirador de um projeto de “tratado sobre a União Europeia", em 1984, ou o francês Jacques Delors, presidente da Comissão Europeia de 1985 a 1995.
O prémio teria sentido se Helmut Kohl, Helmut Schmidt e Valéry Giscard d'Estaing, tivessem sido (coletivamente) premiados como motores do par franco-alemão, pois, é sabido, o que aproxima a Alemanha e a França contribui para uma Europa mais forte.
Já os atuais dirigentes europeus estão longe de estar à altura do projeto inicial. Incapazes de ver para além das fronteiras nacionais, transformam gradualmente a Europa num espaço de regateio que não faz ninguém sonhar. Bem pelo contrário, a questão europeia começa a ilustrar os limites da abertura e da transformação dos Estados nacionais em conjuntos transfronteiriços.
Uma guerra económica
Dá, pois, um pouco a sensação de que este prémio é uma espécie de recompensa pela última oportunidade de encorajar os europeus a acordarem, a não porem fim ao programa Erasmus (uma das poucas manifestações concretas de evolução pacífica da Europa no interior das suas fronteiras) e, finalmente, a trabalharem para uma verdadeira união.
Mas, mais importante: é legítimo dar um prémio Nobel da Paz a uma instância, a União Europeia, em que vários países constitutivos (França, Alemanha, Itália e Grã-Bretanha) figuram entre os maiores vendedores de armas do mundo? Paz no interior, mas armas para o exterior e, por vezes, até mesmo para os seus, como evidencia a venda de armamento pelos alemães a uma Grécia que ainda vive, independentemente das circunstâncias, obcecada com a ameaça turca...
E vamos lá falar dessa paz no interior. Sim, é verdade, as armas calaram-se; mas outro conflito divide e ameaça destruir a União Europeia. Trata-se da guerra económica a que se dedicam os seus membros. Comecemos pela Alemanha. Eis um país cujo comércio excedentário não cessa de crescer, à custa dos seus parceiros europeus e muitas vezes em mercados também europeus. E o que pensar de países que reduzem os seus impostos para favorecer as deslocalizações para o seu território?
Menção "a confirmar"
Os mortos das tremendas guerras napoleónicas, bem como das duas guerras mundiais, pertencem à história. Mas os que lhes sucederam, na tormenta do infortúnio, chamam-se hoje desempregados. Merece um prémio Nobel da Paz quem deixa instalar-se em casa semelhante violência social? A questão precisa de ser ponderada e vai chegar o dia em que se quantificará o balanço da opção liberal gradualmente imposta por Bruxelas.
Neste longo repositório contra a atribuição do prémio, deve contudo relevar-se um ponto francamente positivo. A Europa aboliu a pena de morte e tenta fazer entender aos seus parceiros a importância de tal determinação. É o seu grande mérito e dá alguns argumentos aos que qualificam o seu Nobel como um incentivo à exemplaridade.
Hoje, apesar de todas as suas insuficiências, a Europa é a região do mundo que promove mais o "direito a ter direitos", ou seja, a exigência fundamental que permite a democracia. E é por causa de esse "direito a ter direitos" estar ameaçado pelo próprios europeus (direito ao trabalho, saúde para todos, etc.) que foi bom ter recebido esta distinção. Com a menção "a confirmar" apontada como reserva de peso.