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terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Contramaré… 13 dez.

O Governo alemão está a apoiar a E.ON na privatização da EDP, sendo que Angela Merkel manteve recentemente uma conversa com o primeiro-ministro de Portugal, onde terá destacado os benefícios da oferta da empresa alemã.
O “Financial Times” adianta que a oferta da E.ON está a ser apoiada pelo Governo de Ângela Merkel, o que pode ser visto como uma tentativa de Berlim beneficiar com o programa de austeridade que está a ser implementado em Portugal.

Porque há muitos que tem telhados de vidro…

Se os britânicos forem marginalizados após o turbulento Conselho Europeu da semana passada, deve-se apenas ao facto de o Velho Continente estar furioso por o Reino Unido nunca ter aderido ao projeto do euro, defende o presidente da Câmara Municipal de Londres, Boris Johnson.
Sei que algumas pessoas estão perturbadas por verem todos esses europeus poderosos tão aflitos. Angela Merkel disse que não estávamos sequer a negociar de forma adequada. Nicolas Sarkozy quase não consegue proferir o nome 'Reino Unido' e foi filmado quando se recusava a apertar a mão a David Cameron. Por todo o continente, os jornais estão cheios de manchetes indignadas sobre a arrogância geral e a estupidez dos britânicos. Vi um pobre eurodeputado liberal democrata a explodir de desgosto perante a posição do Reino Unido na recente cimeira.
E devem existir muitas pessoas neste país que se encontram um pouco amedrontadas pelas críticas. Durante alguns dias, a BBC tem-nos dito em tons fúnebres que estamos “isolados” e “marginalizados” – como se tivessem decidido abandonar-nos na nossa ilha nublada, como um bando de selvagens. Portanto, espero que fiquem todos tranquilos se eu salientar que os nossos colegas e parceiros europeus não estão realmente chateados devido à cimeira. Todos se comportam como se o veto de David Cameron fosse um feito histórico – como se tivessem retirado uma espécie de Excalibur nacional das rochas ou lançado um Tridente do fundo do mar.
A realidade é que muitos primeiros-ministros bloquearam coisas que não correspondiam aos interesses do país - desde Thatcher com o orçamento da UE a Tony Blair com a retenção dos impostos. E muitos outros primeiros-ministros foram muito mais turbulentos do que os ingleses - vejamos Felipe González, de Espanha, que costumava apoiar as cimeiras da UE até ter visto que já tinha suficiente bacalhau e eglefim irlandês.
Não, não estão chateados porque nos opusemos ao novo Tratado para a União Fiscal. A razão pela qual o nosso irmão e irmã europeus estão tão enfurecidos com os britânicos deve-se ao facto de termos provado estar certos em relação ao euro. Durante mais de 20 anos, os ministros britânicos têm ido a Bruxelas revelar o seu agrado face a tudo o que envolve o mercado único, mas duvidam que a criação de uma união monetária seja sensata. Nestes últimos 20 anos, alguns de nós defendemos que a razão para a união monetária não funcionar é a inexistência de uma união política – e que uma união política não é democraticamente possível.
Governo central é inviável
Alertámos que precisariam de uma espécie de Governo europeu central para controlar os orçamentos nacionais e os impostos, e que os povos europeus não aguentariam isso. Agora vejam. Não foram os banqueiros anglo-saxónicos que causaram problemas na zona euro, meu caro Sarkozy. Foi uma falha absoluta dos países da zona euro – a começar pela França, já agora – na observação das regras de Maastricht. Foi a renúncia dos gregos em controlar os seus gastos ou reformar os seus sistemas de segurança social. Na Grécia e na Itália, os líderes foram efetivamente destituídos na esperança de acalmar os mercados e salvar o euro; e o que faz com que os líderes europeus estejam ainda mais furiosos é que isto não parece estar a resultar.
Culpam David Cameron por “vetar” o novo Tratado da UE, quando na verdade ele não o fez. Cabe aos outros países da UE tentarem avançar e formarem as suas próprias regras fiscais. Se quiserem, podem decidir criar um governo económico da Europa. Podem julgar que este é o melhor momento – embora os eleitorados já se sintam alienados do processo político – para deixar tais decisões críticas sobre os impostos e gastos a cargo de burocratas não eleitos. Parece-me que seria algo extremamente perigoso de se fazer, visto que os povos desta União Fiscal e Supranacional (Snafu) descobririam rapidamente que já não poderiam remover o seu governo do cargo. Duvido seriamente que isto funcionasse, na medida em que parece não existir uma razão particular para os governos nacionais respeitarem mais a compilação de novas regras de “união” do que respeitaram as regras de “união” de Maastricht – a menos que exista uma proposta secreta que os obrigue a cumpri-las através da violência, com um exército europeu.
Mas mesmo que a Snafu tenha pouca probabilidade de ter êxito, não existe um motivo para que David Cameron entregue este país a um projeto desprovido de valores intelectuais, morais e democráticos. Ele teve razão ao dizer que o Reino Unido não participaria; e se os outros se mostram tão chateados com os britânicos, é para ocultarem o verdadeiro fracasso da cimeira – que se resume a encontrar uma solução para os problemas do euro. A melhor hipótese para todos neste momento seria acalmarem-se e perceberem o que os cidadãos europeus esperam realmente das suas instituições. O euro poderá ou não ser salvo – embora seja pouco provável que continue a existir na sua forma atual no próximo ano; o melhor seria que fosse permitido aos gregos (e talvez a outros) acabar tranquilamente com o seu sofrimento.
O que a Europa pode fazer
Mas ainda existem muitas coisas que a União Europeia poderia disponibilizar aos povos em dificuldades. Em janeiro, fará 20 anos que surgiu o “mercado único” e ainda existem todos os tipos de barreiras não pautais ao comércio. Aqui estamos nós, a tentar criar um governo económico da Europa, embora ainda não tenhamos aprovado os serviços executivos, que permitiriam a todos, desde optometristas a agentes imobiliários e até corretores de seguros, estabelecer-se melhor em outras jurisdições europeias. Estamos a dizer ao gregos que Bruxelas deve dirigir a sua economia de forma eficiente – e ainda assim não conseguimos concordar num padrão europeu comum para falhas.
Estão todos preocupados que outros países europeus “castiguem” o Reino Unido, talvez através das novas diretivas sobre serviços financeiros criadas para destruir a cidade de Londres. Bem, na medida em que isto é um problema, não foi certamente agravado por esta cimeira; e visto que precisámos de defender as nossas credenciais europeias, está na hora de expor uma visão positiva para uma Europa que, na verdade, ajuda indivíduos e negócios. Da próxima vez que estes líderes tiverem uma cimeira, fechá-los-emos até que cheguem a acordo sobre os serviços executivos e encontrem uma solução europeia.

Ecos da blogosfera – 12 dez.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Fim do Euro: Para evitar o medo, lança-se o pânico…

Como ressuscitar as pesetas, as dracmas ou as liras? O cenário, mesmo que encarado como "ficção", já não é um assunto tabu para os economistas, que apontam que a prioridade seria evitar o pânico nas populações.
Primeiro, "as autoridades monetárias na área do euro deixariam de reconhecer o euro como moeda comum, desencadeando uma série de procedimentos que exigiriam voltar a emitir moeda pelos bancos centrais nacionais", defendeu Paulo Reis Mourão, da Universidade do Minho.
Como as antigas moedas foram destruídas, isso pressupunha, por exemplo, que a Espanha emitisse o equivalente a 1,7 mil milhões de euros em pesetas, em Itália 1,3 mil milhões de euros em liras, 600 milhões de euros em francos e 6,8 mil milhões de euros em marcos.
O jornal Wall Street afirma, entretanto, que alguns bancos centrais europeus se preparam já para reimprimir moeda nacional. A Irlanda, citada no artigo, desmentiu categoricamente.
A dracma (Grécia), a peseta (Espanha) ou o escudo (Portugal), emitidos por países economicamente frágeis sofreriam com a pressão dos mercados, enquanto o marco (Alemanha) teria tendência para crescer.
"Para quê criar o pânico entre as pessoas, que poderiam perder até 50% das suas economias, de acordo com vários estudos, levando-as a correr em massa aos bancos para retirar o seu dinheiro, resultando no colapso do sistema financeiro", questiona um economista do Instituto espanhol Elcano, Federico Steinberg. Nesse sentido, é melhor agir de surpresa ou vender de imediato a ideia às populações para as tranquilizar? As opiniões divergem.
"É preciso que tudo seja decidido secretamente numa noite e que na manhã seguinte os mercados, os bancos estejam fechados durante pelo menos 12 horas para impedir que alguém movimente o seu dinheiro", defendeu Franco Bruni, professor na Universidade Bocconi de Milão, em Itália.
Um especialista da Escola de Negócios de Madrid, Gayle Allard, defende, por seu lado, que "uma maneira de resolver a situação seria anunciando um dia que todas as contas bancárias estavam congeladas para voltar à moeda original".
Para Eduardo Martinez-Abascal, da Escola de Gestão de Madrid, pelo contrário, a solução passaria por uma "espectacular campanha de comunicação". "Devíamos dizer: Chegámos à conclusão que temos de voltar para a peseta e as vantagens são estas e estas", explicou o professor.
Paulo Reis Mourão, da Universidade do Minho, alerta que, com uma moeda enfraquecida, os produtos importados, como o petróleo, seriam muito mais caros, haveria uma queda do poder de compra, o aumento da inflação e a queda do nível de vida.
Como se vai inevitavelmente constatando, o que há dias era pura ficção e um papão que assustava todos os agentes do sistema, começa a tornar-se uma realidade inevitável, fruto de uma política guerreira e agiota da Alemanha, invasora da soberania dos países da UE e da dignidade dos seus povos, que os governantes dos países em “dificuldades” tem “apoiado”, mais por chantagem da catástrofe do que por racionalidade, oportunidade, condições e justeza.
E se já se diz que alguns bancos centrais de países europeus se preparam para reimprimir moeda nacional, não deve andar muito longe da verdade, tanto mais que quando há desmentidos é quase certo.
Mas se a prioridade dos “especialistas” em implosão era evitar pânico nas populações, esta e outras notícias só ajudam à amplificação, que não deve ser inocente, antes contraproducente… E pelos vistos será contraproducente para os países economicamente frágeis, por pressão dos mercados (como se lhes resolvêssemos o problema…), enquanto para a Alemanha seria melhor a emenda do que o soneto (por isso se estão nas tintas).
E como ninguém estava à espera de tão rápida involução do euro, parece que ninguém sabe como se há de fazer a viagem de regresso (substituir a moeda) e como é costume, cada cabeça sua solução:
Para uns (os da banha de cobra), o melhor É AGIR DE SURPRESA ou “vender” de imediato a ideia às populações para as tranquilizar(?) e está feito;
Para outros (os assaltantes), é preciso decidir secretamente, pela calada da noite, fechar os bancos, pelo menos, durante 12 horas para impedir que alguém movimente O SEU DINHEIRO e na manhã seguinte, já está;
Para os tantos (os vigaristas), anuncia-se num dia que todas as CONTAS BANCÁRIAS ESTÃO CONGELADAS para reconversão dos depósitos à moeda nacional, e pronto;
Para outros tantos (os pedagogos), devia-se dizer simplesmente que temos de voltar às moedas de 2001, ESCLARECENDO as vantagens e as desvantagens no futuro imediato.
Tendo em conta que desde o processo de criação do Euro demorou 3 anos, não é fácil acreditar que se possa fazer a inversão de marcha em apenas umas horitas, mas no meio de tanta irracionalidade e incompetência, temos que pensar que daquelas cabeças não é possível pedir mais…
Na história recente, concretamente no Brasil, não foi difícil mudar de moeda e à falta de experiência dos nossos craques das finanças, seria bom que se aconselhassem com quem sabe, para não haver amadorismo, o que deitaria abaixo a prosápia dos nossos “macroecinomistas”…
Estranho que se venha dizer (e confesso pela enésima vez que sou leigo) que com a velha moeda reconvertida, a mesma moeda saia enfraquecida, que os produtos importados, como o petróleo, serão muito mais caros, haverá uma queda do poder de compra, a inflação aumentará e o nível de vida vem por aí abaixo.
E por que desconfio desta sentença?
Por acaso, quando trocamos para a forte moeda do euro, os produtos importados, como o petróleo, não subiram exponencialmente? O poder de compra (sem os empréstimos provocatórios da banca) não diminui notoriamente? Mesmo com a inflação controlada, não gastávamos muito mais “escudos” do que no tempo do escudo para comprar os mesmos produtos? Não foi o euro que nos atirou para um nível de vida tão baixo, que aumentou as desigualdades, aumentou a pobreza dos pobres e produziu ainda mais pobres na área da classe média? Por acaso poderíamos estar piores do que estamos e sem esperança, durante décadas, e será possível piorar ainda mais se contarmos com o resultado do NOSSO esforço e empenho, imbuídos de um desígnio nacional?
Realmente, é preciso muita pedagogia e bons professores para nos convencerem de que estes paradoxos tem a sua lógica…
Mas o mais intrigante e gerador de pânico, que não se quer(ia) que alastre entre os cidadãos, é dizer-se que poderíamos perder até 50% das nossas economias, se quando mudamos para o euro não vimos as nossas economias subirem sequer 1%...
"Podi'óóóóó explicá-lo?"

Contramaré… 12 dez.

A EDP vai ser vendida por um montante entre os 2.300 e os 2.700 milhões de euros. Sabe-se já que a empresa alemã E.ON fez uma proposta para a compra da participação do Estado Português, que detém mais de 21% da EDP. Os alemães prometem investir nas renováveis em Portugal e tornar-se líder do mercado mundial. Além da E.ON, duas empresas brasileiras e uma chinesa estão na corrida pela elétrica nacional.

Neocolonização: A Europa travestida de Oktoberfest…

Todas as vezes que se fala em salvar o euro, é razoável perguntar: salvar o quê? Para quem?
Não sou eurocético nem eurofanático. Nem acho que seria conveniente extinguir o euro de uma hora para a outra. Mas acho necessário analisar com alguma frieza o que está a acontecer na Europa.
Paulo Moreira Leite
Roupas tradicionais da Baviera
Apenas em sistemas de colonização, quando um país estrangeiro impõe o seu dinheiro sobre populações subjugadas, a humanidade costuma usar moedas criadas artificialmente, de baixo para cima.
Descrevendo de modo muito esquemático um processo muito mais complexo: as moedas nacionais são o ponto culminante de uma longa evolução, de um processo civilizacional cheio de nuances e contradições particulares.
Acho razoável definir uma regra geral, cumprida mais ou menos em toda a parte: antes da criação de uma moeda, foi preciso nascer uma determinada identidade nacional, que incluía um território, em geral uma língua única e fortes interesses comuns.
A partir daí nascia uma nação e, para traduzir a sua economia em termos aceitáveis para os cidadãos e traduzíveis para outros países, surgiam as moedas nacionais.
É possível apontar, ao longo da evolução humana, a existência de povos - num outro momento da civilização - que viveram muito felizes sem moeda, durante séculos. Outros também viveram sem linguagem escrita.
Mas não é possível apontar uma moeda sem povo. A Europa é um caso único.
E aí temos o mais complicado. A criação de um bloco económico regional, no Velho Mundo, foi um exemplo que seria copiado em muitos lugares, com resultados diversificados. Nenhum criou uma moeda única, porém.
A versão benigna para a criação da União Europeia diz que ela representou um esforço para criar uma zona de paz num continente que fora o berço das piores guerras da história da humanidade. Isso justificaria um passo tão ousado.
Todo o mundo quer a paz. Mas, para se acreditar na narrativa oficial da criação da  União Europeia e a sua moeda única, é preciso aceitar uma visão pacifista da evolução humana. É bonito mas é ingénuo, até porque as decisões políticas não são definidas por hippies, mas por banqueiros, políticos e tecnocratas - pelos eleitores, também.
As guerras, ensinou o barão Carl von Clausewitz, são apenas a expressão da política por outros meios. Com isto, ele não queria dizer que as guerras são inevitáveis. Apenas que a paz não é um ato de vontade, mas um acordo entre interesses nacionais.
Já disse, em outros lugar, que estamos a assistir, na Europa, a uma guerra por outros meios. Eu acho que é isso mesmo.
Uma das etapas do processo consiste na revogação do direito dos povos de definir os seus destinos. As decisões e mudanças de governo, neste momento, já nem sequer são feitas de modo a manter as aparências. O primeiro ministro grego que queria fazer um referendo foi derrubado em menos de 72 horas. Berlusconi foi empurrado para fora do governo italiano porque o seu escandalometro comprometia a autoridade necessária para impor medidas impopulares.
Se as guerras nunca se destinaram a destruir países, mas a vencer governos inimigos, a violência sem mortos da União Europeia é um caso para estudo.
Isso acontece porque os interesses nacionais e as contradições entre os países europeus não foram eliminados nem o serão num horizonte visível. Não há uma nação europeia. Nunca houve.
A criação do euro gerou um período de crescimento económico em todo o continente mas não tornou os países mais iguais. Pelo contrário. A moeda única do Velho Mundo nasceu num momento em que a desigualdade entre os países se tornara uma barreira para o comércio entre elas. O marco tinha-se tornado uma moeda tão sólida e tão valorizada, que era um obstáculo às exportações alemãs.
Do ponto de vista alemão, o surgimento do euro criou uma moeda desvalorizada que ofereceu, acima de tudo, um novo e grande impulso às exportações para os seus vizinhos do continente, num mercado já protegido por fronteiras comerciais. A moeda única ainda abriu uma nova clientela para os seus bancos, que sempre tiveram dificuldade para fazer empréstimos para países e clientes que só podiam honrar compromissos com moedas frágeis, sujeitas a surtos inflacionários e riscos de desvalorização.
A recessão encarregou-se de mostrar que alemães continuam a ser alemães, franceses seguem sendo franceses, os espanhóis são espanhóis e assim por diante. Não é feio nem atrasado. É uma realidade, apenas isso.
No retorno à lei do mais forte, repete-se, assim, o velho costume de privatizar os ganhos e socializar os prejuízos.
O discurso de Angela Merkel é irresponsável e irracional, do ponto de vista dos interesses dos países que formam a União Europeia e da própria população alemã. A sua austeridade não tem fundo religioso, protestante, como muitos acreditam. Apenas reflete o compromisso do seu governo com uma visão de política económica mesquinha, comprometida com o sistema financeiro do seu país, que seria o primeiro a pagar a conta na hipótese de uma rutura do euro. Mas o discurso de Merkel tem legitimidade nacional. Considera-se aceitável que ela coloque aquilo que considera como o interesse da sua população e dos seus eleitores em primeiro lugar.
Isso implica - é o que estamos a ver - em travar uma guerra por outros meios com cada país do Continente.
Ninguém acha errado porque ninguém acredita que alemães e gregos façam parte da mesma nação. Toda a gente sabe que os pobres vão pagar a conta e que o Estado do Bem-Estar Social enfrentará novos riscos e ameaças.
Ao contrário do que o seu discurso dá a entender, a política real de Merkel (com Nicolas Sarkozy fazendo a figuração) é nacional, mas isso parece não ter importância.

domingo, 11 de dezembro de 2011

Ecos da blogosfera – 11 dez.

Eles sabem e pugnam, que o pesadelo comande a vida!

A festa das bolsas em função do acordo europeu não deve durar muito. O meu palpite é que acaba no meio da próxima semana. Ouvi um economista muito mais bem informado do que eu, convencido de que a alegria acaba na segunda-feira.
Paulo Moreira Leite
O problema nem é de visão económica. É de foco. A casa está a pegar fogo e os 26 governos da Europa fizeram um acordo para reformar a piscina, arrumar o telhado e colocar uma nova janela na sala de jantar. A ideia serve para distrair os convidados e até alguns vizinhos, mas o incêndio continua com labaredas cada vez mais altas, porque ninguém se preocupou em avisar os bombeiros.
Com palavras muito mais suaves e uma avaliação bem mais técnica, a economista Monica Baungarten faz uma avaliação semelhante em O Globo. Paulo Nogueira Batista, que representa o Brasil no Fundo Monetário Internacional, publica um artigo questionando os fundamentos do acordo.
É curioso que Bruxelas comemora um acordo de médio e longo prazo e finge que não há um problema urgente para ser resolvido.
No mesmo dia, divulgou-se que a Grécia enfrenta uma recessão de 5,5%. Portugal também caiu 0,5% e deve cair 3,2% ao longo de 2012. Outros países estão a parar, como a Itália, a Espanha. Sem crescimento, ficará cada vez mais difícil equilibrar as contas - como quer o acordo aprovado na sexta-feira. O efeito da recessão dos vizinhos já chegou à Alemanha, que começa a ter problemas com as suas exportações. Se seguir assim, em breve a maior economia do Velho Mundo irá enfrentar o desemprego.
Em função da recessão, o consumo cai em toda a Europa.  Como já disse em nota anterior: o feitiço da austeridade está a voltar-se contra a feiticeira Angela Merkel.
Nós sabemos que existem visões diferentes e até opostas na condução da política económica de qualquer país. Existem os monetaristas, os desenvolvimentistas, os keynesianos, os aventureiros e assim por diante.
A discussão sobre o que fazer no futuro imediato da Europa não permite muitas diferenças, porém. Um balanço resumido da crise de 2008 mostra uma regra infalível: quem definiu estímulos para a economia, pelo menos evitou o pior.  Quem definiu estímulos - e garantiu que fossem aplicados corretamente - garantiu o melhor. Quem não fez uma coisa nem outra, afundou.
Explicando. O governo americano deu estímulos caríssimos. Soltou muito dinheiro para os bancos, mas permitiu que eles entesourassem a maioria dos recursos recebidos. Resultado: os bancos recuperaram a saúde, os banqueiros voltaram a ganhar bónus milionários. A economia engatinha, mas não voltou a andar. Não entrou em recessão mas não cresce.
O governo da China e do Brasil agiram de modo parecido: abriram o cofre e garantiram a distribuição de recursos para reforçar a procura. Forçaram os bancos a fazer empréstimos. Nos dois países, a presença de uma rede de bancos estatais foi de extrema utilidade na hora mais difícil.
Com isto, o consumo recuperou, a produção foi ativada e evitou-se o pior, embora o Brasil tenha passado um trimestre onde a economia caiu 4,2% e outro onde a queda foi de 1,7%.
A Europa preferiu a austeridade. Chegou a elevar os juros com o argumento errado de que era preciso evitar um risco de inflação. O resultado é que se produziu uma recessão que gerou desequilíbrios em economias equilibradíssimas, como a Espanha, a Itália, a Irlanda, até então primeiras da classe em matéria de bom comportamento.
Compreende-se que governos conservadores tenham uma tendência natural a preferir planos coerentes com a sua visão política.
A incapacidade de reconhecer que algumas ideias não são adequadas para resolver determinados problemas revela um comportamento primitivo incapaz de enfrentar uma situação complexa.
É irracional. Este é o problema das lideranças europeias hoje.
Cartoon

Contramaré… 11 dez.


Uma larga maioria de britânicos (62%) apoia a recusa do primeiro-ministro David Cameron em subscrever um tratado sobre disciplina orçamental, na cimeira de Bruxelas e 66% pede um referendo sobre as relações entre a Grã-Bretanha e a União Europeia. O mesmo número estima que Londres deverá renegociar as suas relações com Bruxelas

Até 2013 - eleições alemãs - vai ser só “remendar”!

Uma das constantes desta crise da zona euro é que nunca sabemos se as cimeiras da “última oportunidade” conseguem salvar a moeda única de vez. A do mês de dezembro não é exceção.
Angela Merkel e Nicolas Sarkozy conseguiram fazer aprovar pelos parceiros a inclusão da disciplina fiscal no texto europeu. Mas a fraca reação dos mercados financeiros no dia que se seguiu ao Conselho Europeu pode ser uma indicação de que nem tudo está resolvido.
De facto, o acordo alcançado, que exclui a emissão de títulos europeus (“eurobonds”) exigida por uma série de agentes financeiros, também não contempla a concessão de uma licença bancária ao Mecanismo Europeu de Estabilidade, que entrará em funcionamento em junho de 2012.
Isso teria permitido que o fundo de resgate obtivesse dinheiro do Banco Central Europeu, garantindo à zona euro meios ilimitados para ajudar os países em apuros.
Essa perspetiva continua a ser rejeitada pela Alemanha, que teme um aumento da inflação e da submissão do banco central a imperativos políticos. Mas esta recusa priva a zona euro da “bazuca” que faria os mercados entenderem que ficava capacitada para enfrentar todas as eventualidades.
Com a reforma dos tratados europeus agora iniciada, a União ganhou um pouco de tempo e vamos poder continuar a utilizar o nosso euro no início de 2012, ao contrário do que algumas pessoas não hesitaram em profetizar nas últimas semanas.
É um resultado significativo. Mas seja qual for a opinião que se tenha sobre os mercados financeiros, as agências de notação e os especuladores que atacam as economias europeias, há que esperar que fiquem satisfeitos com a decisão dos 27. Porque o preço já está muito alto: a institucionalização de uma Europa a várias velocidades e a questão agora claramente admitida do futuro do Reino Unido na UE.
Embora ainda seja necessário resolver esses problemas políticos decisivos, dois gestos tornariam esse preço mais aceitável. Em primeiro lugar, a Alemanha, agora que conseguiu passar a disciplina que pretendia, deve abrir-se à ideia de que a estabilidade monetária pode ser compatível com algumas formas de solidariedade – euro-obrigações ou apoio mais claro do BCE aos países mais fragilizados.
Em segundo lugar, os governos europeus deveriam perceber que precisam de se afastar da austeridade e criar as bases para uma verdadeira política de crescimento em toda a União Europeia. Já existe uma ferramenta para isso, a Estratégia 2020, que apenas precisa de ser finalmente levada a sério.