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sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Contramarés sem contrapé… 2 Set.

Uma missão da União Europeia está desde quarta-feira, e pelo menos até ao final da semana, em Tripoli para avaliar a ajuda para a reconstrução da Líbia. "O objetivo da missão é avaliar a situação no terreno para preparar a abertura de uma delegação da UE" na capital líbia, adiantou a porta-voz da chefe da diplomacia europeia, Catherine Ashton, referindo que a equipa deverá estabelecer contactos com os membros do Conselho Nacional de Transição, órgão político dos rebeldes.

Bem aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino… da Terra!

Há dias pareceu avivar-se o velho debate sobre como taxar a riqueza, respondendo ao mote lançado pelo multimilionário Warren Buffett na edição de 15 de Agosto do The New York Times, e que teve na Europa o mérito de criar alguma ressonância positiva entre alguns muito ricos alemães e franceses. (Sobre o real significado desta tomada de posições muito há ainda a dizer, mas que deixarei para outra crónica).
Juraria então, quando de seguida li e ouvi as declarações de algumas figuras proeminentes da classe alta portuguesa sobre o que entendem ser o seu estatuto face à riqueza, ter visto um vislumbre da antiga silly season, exuberante outrora na demonstração de episódios de benévola decadência varonil das nossas elites. Mas foi só um vislumbre, que em tempos de crise nem a silly season escapa. Não era afinal caso para risos; não eram gafes dos nossos ricos. Era genuína convicção.
Tais figuras estão na verdade convencidas de que não são assim tão ricas! Mais, de que tudo o que possuem é não só justo, como chega a ser diminuto em relação, quer aos congéneres internacionais, quer ao muito que trabalham e ao muito que dão ao País. São no fundo apenas e tão só gentes muito trabalhadoras e arrojadas, ao contrário de todos os demais que as invejam enquanto se roçam, na sua leitura avisada, nas paredes do assistencialismo privado e da solidariedade pública.
Escudar-se numa extensa malha de dificuldades técnicas para taxar a riqueza sempre teria sido uma forma mais sofisticada (como o foi aliás para alguns, às cavalitas de meia dúzia de analistas, nos dias subsequentes) de se distanciar da ideia sem deixar transparecer por onde andam as coordenadas do seu mapa ideológico.
Mas no calor e surpresa de há pouco mais de quinze dias, houve em Portugal quem nem esperasse pela formação do discurso técnico e declarasse de imediato porque é contra estas ideias: porque não são assim tão ricos. É que quando ideias que até parecem de labor e sabor socialista, já não se limitam a surgir nas campanhas eleitorais com a chancela política dos partidos de direita, e passam a surgir agora com o assentimento dos próprios ricos e muito ricos, que fazer senão distanciar-se de todos eles, e declarar-se fatalmente como mero remediado?
Os tempos de crise (de finanças e de espírito) são assim: eficientes e oportunos quando toca à instalação de leituras que substituem, por exemplo, a ideia de direitos legítimos pela de concessão contingente ao mérito. Nova-velha ideologia da meritocracia, atrás da qual se esconde afinal uma visão da cidadania, já não como espaço de direitos, mas de concessões sujeitas à interpretação discricionária de quem na sociedade detém a capacidade para tanto.
Ora, nesse discurso que muitos manejam com destreza desde que nasceram, não há ricos nem pobres, apenas gente que merece e gente que não merece o que tem, ou aquilo a que aspira. 
Em Portugal há cerca de 2 milhões de pobres e de muito pobres. É um facto. Mas quanto a ricos e muito ricos, é uma chatice, porque afinal, não há nenhum. Só gente séria, muito trabalhadora, que merece tudo o que tem e a quem o país deve o não ‘fechar de portas’. Em tão boa conta se têm. E em que conta nos terão?
Isabel Estrada

Ecos da blogosfera – 2 Set.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Contramarés sem contrapé… 1 Set.

Presidente do BIC lamenta atraso na conclusão do negócio para a compra do BPN, mas avisa que os sindicatos deviam "agradecer" a garantia de 750 postos de trabalho. "Só aceitamos ficar com o banco nestas condições. Se não quiserem, façam favor de tomar conta daquilo e liquidem. É tão simples quanto isso".

Transportes públicos com tradição…

Há duas formas de apresentar o novo passe social que se terá de pedinchar com um atestado de pobreza. Uma é dizer que foi criado um passe para pobres, mais barato. Outra é dizer que os custos dos transportes públicos - mais usados pelos mais pobres e os que vivem nas periferias - foram brutalmente aumentados e ficaram de fora do saque alguns miseráveis. Apenas os que recebem menos de 545 euros brutos. E, destes, apenas uma pequena parte (nem todas as combinações de trajetos estão garantidas). Ou seja, o passe é, na realidade, um apoio social para uma pequeníssima parte dos portugueses. Mas um mês depois do governo tirar com uma mão a todos faz uma festa com as migalhas que dá a quase ninguém. E dá, a esta propaganda descarada, o nome de "Programa de Emergência Social".
Quando o passe social foi criado, importando as melhores práticas da maioria dos países europeus, não correspondia apenas a uma medida social. Era, acima de tudo, uma medida racional. Garantir a mobilidade promovendo o uso generalizado do transporte público. Porque o transporte público é melhor para a qualidade de vida nas cidades, para a economia dos países e para as finanças do Estado.
Depois veio o deslumbramento novo rico. Andar de carro era sinal de desenvolvimento. O dinheiro público foi quase exclusivamente canalizado para o transporte individual, como prova o investimento desajustado em autoestradas e o desmantelamento da já ridícula rede ferroviária. A privatização a retalho da Rodoviária Nacional e a concessão de linhas ferroviárias a privados levou à lenta agonia do passe social - mais por incapacidade de coordenação entre operadores, para a qual a inexistência de verdadeiras autoridades urbanas de transportes contribuiu, do que por qualquer opção política - e à sua substituição por passes combinados. Ao contrário do que se passa em muitas cidades europeias, multiplicam-se os títulos de transporte, não havendo qualquer coordenação tarifária ou mesmo de percursos. Resultado: os transportes públicos perderam centenas de milhares de passageiros. Lisboa e Porto estão cheios de carros e, tirando as respetivas redes de metro, o uso do transporte público é um quebra cabeças a que só não foge quem não pode.
Dirão: não há dinheiro para continuar a pagar o buraco financeiro das empresas de transportes. Os transportes públicos dão o prejuízo que dão porque foram mal geridos e maltratados. E porque o estacionamento em espaço público nas cidades é um negócio em vez de servir para financiar, como deveria acontecer, os transportes coletivos.
Mas o mais importante é perceber que o que se poupa agora se vai gastar em muito mais. A diferença é que não aparece nas contas de nenhuma empresa pública. Vamos pagar em importação de combustíveis (e reduzir as importações deveria ser uma das nossas prioridades). Vamos pagar em degradação do espaço público que, caso ninguém se recorde, tem de ser mantido e essa manutenção tem custos. Vamos pagar em produtividade.
Dirão: mas com o custo de vida as pessoas também não vão usar o transporte individual. E aí vão trabalhar como? Ou o empregador lhes paga o transporte que agora é mais caro - mais custos associados ao trabalho - ou o trabalhador fica com menos rendimento disponível. E a pergunta que sobra é esta: está o governo à procura do equilíbrio a partir do qual deixa de valer a pena trabalhar para parar aí, mantendo a maioria dos cidadãos com emprego abaixo do limiar da pobreza?
O problema deste governo é que não vê o Estado como um coordenador de políticas para nos tirar de uma crise. O seu programa resume-se a reduzir a despesa do Estado sem se dar ao trabalho de pensar nas consequências económicas de cada medida. Não percebendo que, com o nosso endividamento externo e a nossa falta de crescimento, se limita a cumprir metas, agravando o problema para o futuro.
Volto ao princípio: o passe social, assim como tudo o que esteja associado à rede de transportes públicos, é um instrumento. Ele é fundamental para o bom funcionamento das cidades e das suas economias. Ele é fundamental para reduzir a nossa dependência energética, reduzir o tempo em deslocações e aumentar a produtividade. Nem apelo a qualquer tipo de sensibilidade social, que já se percebeu que para este governo se resume a dar esmolas a miseráveis que rendam umas notícias nos jornais. Pergunto apenas: acham que a nossa economia aguenta ser tão maltratada? Quando já nada funcionar, poderiam até vir a dizer: temos as contas públicas limpas. Sem economia, vivendo no meio do caos, não serviria de muito. Acontece que sem crescimento económico não há finanças do Estado que se aguentem. E quando já não houver mais nada para cortar, nem mais "Estado gordo" para culpar, vão fazer o quê?
Daniel Oliveira

Ecos da blogosfera – 1 Set.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Com ou sem Acordo, eles comem, engordam e ficam…

1º Carlos Slim, 2º Bill Gates, 3º Warren Buffett, 4º Bernard Arnault
Levantei de S. Paulo convencido a falar da fonética e do Acordo Ortográfico e mal aterrei em Portugal convenceram-me a falar da problemática dos ricos. Que supostamente haveriam de pagar a crise. Não estranhe pois o leitor que esta crónica seja um Portugal-Brasil onde se defronta a riqueza da língua com a pobreza de espírito.
Uma espécie de desafio de solteiros contra casados em que os parentes pobres nem sempre são os de cá e os novos-ricos nem sempre são brasileiros.
O pontapé de saída pertence aos ricos de cá.
De repente, a reboque do multimilionário Warren Buffet, o nosso presidente da República resolveu interromper as suas férias e directamente da praia da Coelha (ou de perto...) lançou umas achas para a fogueira da crise, defendendo que os ricos devem pagá-la, mesmo depois de falecidos.
Estabelecida a polémica (caramba, estava a ver que este ano não tínhamos silly season) muito mais graça do que vermos o comendador Américo Amorim vir dizer que não é rico, mas trabalhador, tem o facto de toda esta discussão ter sido suscitada por um dos principais responsáveis pelos dramas financeiros actuais.
Warren Buffet é um dos maiores accionistas das mais poderosas agências de notação financeira e um especulador bolsista de primeira água.
No fundo, a disponibilidade do milionário para ajudar os mais pobres trata-se, em última análise, de uma disponibilidade para devolver uma pequena parte do que ele ganhou, a quem perdeu.
Basbaques perante tudo o que vem de fora com bom marketing, o país, ainda meio de chinelos, meio de gravata, meteu-se em brios para saber quem eram os ricos e quais deles aceitavam pagar estes extras.
Tem sido hilariante assistir à procura dos ricos, das sagas das famílias ricas e à tentativa de fazer rankings com essa massa crítica.
Tenho lido tudo na ilusão de vir a descobrir o que é ser rico hoje.
Quem tem um milhão em acções de uma determinada empresa e deve 3 milhões que o banco lhe emprestou para as comprar (quando valiam o triplo) é rico, remediado ou sem remédio possível?
Quem hoje tem uma casa que custou um milhão e a comprou com crédito à habitação e hoje não consegue vendê-la nem por metade, sendo que deve ao banco bem mais do que isso, é um rico proprietário, ou um rico desgraçado, por mais graça que a "casuncha" tenha?
Em menos de dois meses e sem que nada o justifique, a discussão na ordem do dia esqueceu o corte na despesa pública tão exigida e tão prometida pelo novo poder, para se concentrar na obtenção de novas receitas à custa dos cidadãos mais ricos ou com maior fama disso.
Do outro lado do Atlântico, sopram ventos de um crescimento ímpar, mas nem por isso a sociedade descansa na estabilidade de valores e comportamentos que habitualmente caracterizam estes tempos.
Do namoro à janela, como ainda tiveram os meus progenitores, do noivado consequente e do casamento para a vida eterna, os nossos irmãos do lado de lá do Atlântico inovaram agora com uma nova classe de relacionamento: os ficantes!
Estes ficantes são aqueles que vão ficando juntos, de dia e nas noites, sem compromisso maior do que a resposta diária a uma pergunta sacramental: hoje cê vai ou cê fica?
Como picante, ficante vem agravar a ideia do respeito pela fonética subjacente ao Acordo Ortográfico. Para escrevermos como os ouvimos era ficantche que deveria ser.
Dada a transitoriedade da situação descrita (e se calhar a efemeridade da moda) não virá mal ao mundo por aí, mas lá está o Acordo a dar-nos mais razões para não casarmos com ele à primeira.
Por estas e por outras é que vou deixando ficar-me como estou no português sem "tches", enquanto na questão dos ricos sugiro ao Governo que deixe ficar como está o defunto imposto sucessório e sobre as doações, preocupando-se mais com a contenção dos gastos públicos como prometeu.
Para termos um Governo mais edificante do que apenas ficante.
Manuel Serrão

Contramarés sem contrapé… 31 Ago.

O governo aprovou ontem o Documento de Estratégia Orçamental, no qual define as linhas orientadoras da consolidação das contas públicas nos próximos quatro anos. O documento, que será apresentado hoje à tarde, não contém detalhes sobre medidas concretas imediatas de corte nos gastos públicos, que serão conhecidos apenas em Outubro, com a apresentação da proposta de Orçamento para 2012.

A Primavera deu flores e não há frutos para se colher?

Mais de 6 meses após o seu início, a "Primavera Árabe", onda de levantamentos populares que começou na Tunísia e se espalhou por vários países da região, encontra-se num impasse de violência, mortes, frustrações e dúvidas quanto a mudanças práticas. No início do ano, com as atenções dos media internacional voltadas para o fenómeno, os protestos eram vistos como uma onda pacífica de mudanças rumo a reformas, democracia e destituição de governos no poder havia décadas.
Aconteceram transformações na Tunísia e Egito, onde os presidentes desses países renunciaram devido às pressões populares. Mas a Líbia passa por uma guerra civil, enquanto as manifestações na Síria e Iémen são reprimidas com extrema violência e não há sinais de que os governantes vão renunciar. Já no Bahrein, as manifestações pro-democracia foram reprimidas e extintas pelo governo, e ativistas e membros da oposição foram presos.
"Em pleno verão no Oriente Médio, a Primavera Árabe gera apenas dúvidas e suspeitas. Ninguém sabe o que realmente vai produzir, nem mesmo na Tunísia e no Egito, onde houve relativas mudanças e sucesso em tirar do poder os ditadores", diz o analista Rami Khoury, diretor do Instituto Fares, da Universidade Americana de Beirute. Segundo ele, as mudanças acontecem de forma lenta e passarão por "diversas fases de correções". "É difícil prever um futuro para a região, mas cada país terá uma realidade diferente, desafios e resultados diferentes", completou.
Passados mais de 6 meses do início da tão inesperada quanto mediatizada "Primavera Árabe", que começou “espontaneamente” na Tunísia, os nossos media tem-se esquecido de acompanhar as mudanças tão desejadas pelos autóctones, apoiadas por todos os democratas, celebradas pelos países ocidentais e garantido sucesso por tantos políticos, que se quisermos saber algo sobre o movimento, temos que recorrer à imprensa estrangeira, no caso a brasileira. Não é bem manipulação da opinião pública, apenas um silêncio anestesiante...
Vamos saber o ponto da situação:
Na Tunísia, uma ditadura com 23 anos, diz-se que as reformas económicas têm sido lentas, de acordo com jornais tunisinos, e que a população reclama tanta demora no julgamento de pessoas ligadas ao antigo regime (como se fosse prioritário) e que próprios os grupos sociais mais secularizados começam a recear a força cada vez maior dos partidos de ideologia mais islamista (só eles é que não adivinhavam), gerando dúvidas quanto ao futuro do secularismo no país, que é o mesmo que dizer, que a democracia ocidental não é o futuro garantido...
No Egito, após 30 anos de um poder apoiado pelo ocidente, os grupos de jovens ativistas, que lideraram os protestos, mostram-se igualmente frustrados com a lentidão das reformas e do julgamento de membros do antigo regime e receosos com o poder dos partidos islâmicos, cuja agenda política gera desconfianças dos seculares, que é o mesmo que dizer, que a democracia ocidental não é o futuro garantido...
Acresce, que quando se aposta que o sucesso de uma experiência democrática no mundo árabe passa pelo Egito, tem-se a noção que se tal experiência fracassar neste país, as hipóteses de fracasso nos outros países da região aumentam.
No Iémen, com eleições de 7 em 7 anos e já mantém há 30 anos o mesmo presidente, para além do levantamento popular contestatário, o governo enfrenta grupos armados no interior do país e conta com a presença da Al Qaeda no seu território, pelo que qualquer alteração ao poder dominante pode dar origem a uma nova Somália, ou seja, a mais um Estado falhado e sem leis. Parece que ninguém quer arriscar, até porque já há eleições…
No Bahrein, com uma monarquia que manda há 40 anos (a Inglaterra, e não só, há muitos mais) recorreu à ajuda da Arábia Saudita (uma monarquia absoluta), que enviou tropas para restabelecer a ordem e reprimir os protestos e não se espera que voltem a acontecer, porque a Arábia Saudita, receosa de que mudanças em países vizinhos possam alimentar movimentos no seu território, não permitirá os permitirá.
Na Síria, que conta com 30 anos de ditadura, mais 10 filho do ditador, teve em março o início da contestação, que continua, mas segundo analistas, a situação chegou a um impasse para ambos os lados, porque nem o governo, nem a população nada querem ceder ao outro lado, pelo que pode durar meses, paralisando a já combalida economia da Síria e levando a um aumento da violência, que poderia fugir ao controlo. A velha tática do gato e do rato é a mais utilizada, com o ocidente muito empenhado no apoio aos manifestantes, mas em stand by para uma intervenção direta e musculada, só depois de acabe o trabalhinho na Líbia…
Na Líbia, que aguenta há 42 anos com Kadhafi, é o único país em que a comunidade internacional interveio com o(s) seu(s) braço(s) armado(s) da NATO, há mais de 5 meses, mas para além de enfraquecido a máquina de guerra do ditador, em que houve milhares de mortos e feridos de ambos os lados, segundo especialistas, é arriscado dizer se, ou quando conseguirão derrubar o regime, mas esta novela dá todos os dias, nos jornais, TV, rádios e cassetes piratas…
Há um elemento comum nestes 6 países árabes, que se quer que sejam democratas e que é a existência de petróleo. Será que há qualquer relação entre o petróleo e a democracia? Será?
Se quiser saber mais umas coisas:
As evoluções na região comprovam o fracasso

Ecos da blogosfera – 31 Ago.