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quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Reposição de NOVELA SEM SUCESSO, em 3 episódios

De volta à Espanha (1/3)
O que se passa em Espanha?, questiona a Europa e sobretudo a Alemanha. "Der Spiegel" pediu a um dos seus jornalistas, filho de trabalhadores imigrantes espanhóis, que regressasse ao país dos seus pais e que descobrisse a origem da crise.
Há alguns meses, fui entrevistado por um homem baixo, rechonchudo, um apresentador de televisão espanhol que nunca tinha visto, mas que todas as crianças em Espanha conhecem: Jordi Évole. Este, costumava ser coapresentador de um talk show noturno. Encontramo-nos num sábado de manhã frio e chuvoso na Porta de Brandeburgo, em Berlim.
Évole pediu-me que lhe falasse da Alemanha – enquanto filho de imigrantes espanhóis, mas sobretudo, enquanto alemão. Queria que eu explicasse o que nós, alemães, estamos a fazer bem e o que eles, espanhóis, estão a fazer de errado. Évole apresenta um dos programas com mais sucesso na televisão espanhola. Trabalha como jornalista de investigação e cómico. 
O que pretendia que lhe dissesse? Que não se pode levar uma economia a sério quando esta se baseia em sol e laranjas e no desenvolvimento excessivo da costa mediterrânica? Que os clubes de futebol espanhóis não deveriam dever 750 milhões de euros de impostos? Que segundo o último estudo PISA, realizado pela OCDE em que se compara os sistemas de educação internacionais, as crianças espanholas que andam na escola não melhoraram, apesar dos recordes das receitas fiscais antes da crise?
“Um país que me deixa louco”
Tenho pensado muito nesta conversa, na crise económica espanhola e se realmente sei o que se passa na minha Espanha. Os meus pais, que eram agricultores em Andaluzia, foram para a Alemanha nos anos 70 e trabalharam numa fábrica de pneus em Hanau, perto de Frankfurt, até se reformarem. O meu pai andou na escola durante 4 anos. Não existiam manuais escolares. A professora costumava utilizar uma enciclopédia antiga. O meu pai chegou até ao volume D, ou até talvez ao F.
De qualquer forma, a educação que o seu país lhe ofereceu foi uma desgraça. Imigrou quando tinha 17 anos. Nasci em Espanha, tenho um nome espanhol, falo fluentemente espanhol, tenho passaporte espanhol e estou feliz por a Espanha ter ganho o Campeonato Europeu de Futebol. Mas vivo na Alemanha, onde estudei e atualmente trabalho.
As recordações mais marcantes que tenho de Espanha têm mais de 25 anos, ainda que já lá tenha estado desde então. São as memórias glorificadas de verão da minha infância. A minha família fazia parte da caravana de trabalhadores imigrantes (onda de imigrantes que veio para a Alemanha após a guerra) que carregava o Opel e conduzia até Espanha todos os anos, passando primeiro por França e, depois, seguindo pela costa mediterrânica até à aldeia dos meus pais. Passávamos mais de 30 horas no carro, parando apenas nas estações de serviço, com um pai fumador ao volante. No banco de trás ia eu, os meus dois irmãos e uma mala. Adorava aquelas viagens.
Depois da conversa com Jordi Évole, decidi voltar a fazer a viagem e conduzir na mesma junto à costa, só que desta vez tenciono parar mais vezes para falar com as pessoas. Quero que me expliquem o que aconteceu à Espanha, há anos que este país me deixa maluco. Não sei ao certo o porquê. Será da incapacidade de produzir algo significativo, do desenvolvimento excessivo ao ponto de repugnar, da audácia com a qual os espanhóis esperam receber ajuda do fundo de resgate?
O terror
A primeira verdadeira grande cidade espanhola que me vem à cabeça é Barcelona. Foi lá que a minha viagem começou. Na altura, não era uma cidade repleta de hotéis de luxo e de tapas no bairro gótico, nem de estudantes de estudos romanísticos que procuram aprender espanhol e descobrir o significado da vida em Barcelona. Na minha infância, ainda não havia circunvalações. O meu pai detestava a confusão criada pelo trânsito, os carros SEAT, a Guarda Civil que nos anos 80 ficou sem a proteção de Franco, mas que continuou com a mesma arrogância. Apesar do calor, a minha mãe obrigava-nos a fechar as janelas do carro. Os vigaristas esperavam pelos carros alemães nos semáforos, dizia ela. Detestava Barcelona.
Hoje, as coisas mudaram. Cheguei depois de o primeiro-ministro espanhol Mariano Rajoy alertar a Europa para a possibilidade de o resgate à banca espanhol custar 100 mil milhões de euros. Antes disso, ele garantira que a Espanha nunca iria precisar de ajuda. Vejo as notícias no meu quarto de hotel. A estrutura é sempre a mesma, podemos dividi-la em duas partes: começam com um cenário de terror e acabam com um conto de fadas. Há cada vez mais pessoas a levantar as suas poupanças; a comunidade autónoma de Espanha, Castela-La Mancha, fechou 70 escolas, a taxa de desemprego está quase nos 25% – este é o cenário de terror. No conto de fadas falam sobre a equipa de futebol espanhola.
Depois de algum tempo a ver notícias em Espanha, percebe-se por que dedicam metade do tempo de antena ao desporto. Se não o fizessem, o povo enlouqueceria. Tudo gira à volta da crise. Mesmo tudo. Um hipermercado abriu 200 vagas e recebeu 12.000 candidaturas. Os licenciados ocultam os seus estudos quando se candidatam a ofertas de emprego para poderem competir com pessoas menos qualificadas. Surgem confrontos nas Astúrias entre os mineiros em greve e a polícia. A venda de cofres está a aumentar.
Isto não são notícias, é puro terror.

Assim é difícil ganhar à pobreza e Reagan fez batota!

Ronald Reagan famosamente disse: "Nós travamos uma guerra contra a pobreza, e a pobreza venceu". Com 46 milhões de americanos - 15% da população - agora computados como pobres, é tentador pensar que ele poderia estar certo.
Olhando-se mais no fundo, a tentação aumenta. A percentagem mais baixa de pobreza desde que começamos a calcular foi 11,1% em 1973. A taxa chegou a 15,2% em 1983. Em 2000, após um surto de prosperidade, ela recuou para 11,3%, e hoje, no entanto, há mais 15 milhões de pessoas pobres.
Ao mesmo tempo, fizemos muitas coisas que funcionam. Da Segurança Social a senhas de comida, a crédito fiscal sobre o rendimento e assim por diante, sancionamos programas que hoje mantêm 40 milhões de pessoas fora da pobreza. A pobreza seria quase o dobro do que é hoje sem essas medidas, segundo o Centro para Prioridades de Política e Orçamento.
Falar que "a pobreza venceu" é como dizer que as Leis do Ar Limpo e da Água Limpa fracassaram porque ainda existe poluição.
Com tudo isso, por que não realizamos mais? Quatro razões:
Um número impressionante de pessoas trabalha em empregos mal remunerados;
Além disso, muito mais famílias são chefiadas agora só por um dos pais, o que lhes dificulta ganhar um rendimento mínimo dos empregos que estão tipicamente disponíveis;
O quase desaparecimento da ajuda em dinheiro para mães de filhos de baixo rendimento - isto é, bem-estar social - em boa parte do país que também contribui;
E problemas persistentes de raça e género implicam uma pobreza maior em minorias e famílias chefiadas por mães solteiras.
A primeira coisa a fazer, se quisermos tirar as pessoas da pobreza, é que os empregos paguem salários decentes. Não há atualmente um número suficiente desses empregos na nossa economia. A necessidade de bons empregos estende-se muito além da crise atual. Precisaremos de uma política de pleno emprego e um investimento maior em educação e em estratégias de desenvolvimento profissional no século 21 para termos alguma esperança de romper o mal-estar económico vigente.
Este não é um problema específico deste momento. Sofremos uma inundação de empregos mal remunerados nos últimos 40 anos. A maior parte do rendimento de pessoas na pobreza provém do trabalho. Segundo os dados mais recentes disponíveis do Departamento do Censo, 104 milhões de pessoas – 1/3 da população - têm rendas abaixo do dobro da linha da pobreza, menos de 30.625 euros para uma família de 3 pessoas. Elas lutam para pagar as contas a cada mês.
50% dos empregos do país paga menos de 27.401 euros por ano, segundo o Economic Policy Institute. 25% paga menos que a linha da pobreza para uma família de 4, menos de 18.536 euros anuais.
As famílias que podem colocar outro adulto a trabalhar saem-se melhor, mas as mães (e pais) solteiras não têm essa opção. A pobreza em famílias com filhos chefiadas por mães solteiras excede os 40%.
Os salários dos que trabalham em empregos na metade inferior estão estagnados desde 1973, tendo aumentado apenas 7%.
Não é que a economia como um todo estagnou. Houve crescimento, muito até, mas limitou-se ao topo. A perceção de que 99% de nós fomos deixados no pó pelo 1,0% do topo (alguns muito mais atrás do que outros) chegou muito mais tarde do que deveria - Rip Van Winkle e pior. Foi preciso a Grande Recessão para chamar a atenção das pessoas, mas os factos já se vinham acumulando há tempos. Se despertamos, podemos agir.
Os empregos mal remunerados afligem dezenas de milhões de pessoas. Na outra ponta do espetro de baixo rendimento, temos um problema diferente. A rede de segurança para mães solteiras e os seus filhos apresentou um grande rombo nestes anos. Esta é uma causa importante para o aumento dramático da pobreza extrema nestes anos. O Censo diz-nos que 20,5 milhões de pessoas ganham rendas abaixo de metade da linha da pobreza, menos de 7.656 euros para uma família de 3 - até 8 milhões desde 2000.
Por quê? Uma razão substancial é a quase extinção do sistema de bem-estar - agora chamado Assistência Temporária a Famílias Necessitadas, ou Tanf (na sigla em inglês). Em meados dos anos 90, mais de 63% dos filhos de famílias pobres recebiam ajuda assistencial, mas esse número encolheu na última década e meia para aproximadamente 27%.
Um resultado: 6 milhões de pessoas não têm outro rendimento além das senhas de alimentos. As senhas proporcionam um rendimento de 33% do rendimento da pobreza, perto de 5.077 euros para uma família de 3. É difícil imaginar como elas sobrevivem.
Mas pelo menos temos as senhas de alimentos, que têm sido uma poderosa ferramenta anti recessão nos últimos 5 anos, com o número de recetores subindo de 26,3 milhões em 2007 para 46 milhões hoje. Por contraste, o sistema de bem-estar fez pouco para contrabalançar o impacto da recessão. Embora o número de pessoas que recebem ajuda em dinheiro tenha crescido de 3,9 milhões para 4,5 milhões desde 2007, muitos Estados na verdade diminuíram o tamanho das suas folhas de pagamento e reduziram os benefícios dos mais necessitados.
Minorias
A raça e o género têm um enorme papel na determinação da persistência da pobreza. As minorias são desproporcionalmente pobres: cerca de 27% dos afro-americanos, latinos e índios americanos são pobres, contra 10% dos brancos. As disparidades de riqueza são ainda maiores. Ao mesmo tempo, os brancos constituem o maior número dos pobres. Este é um facto que merece ênfase, pois as medidas para aumentar o rendimento e prover suporte ao trabalho ajudarão mais os brancos do que as minorias. Mas não podemos ignorar a raça e o género, quer porque apresentam desafios particulares, quer porque boa parte da política para a pobreza é fundada nessas questões.
Nós sabemos o que é preciso fazer - fazer os ricos pagarem a sua justa cota de gestão do país, aumentar o salário mínimo, fornecer assistência médica e uma rede de segurança decente, etc.
Realisticamente falando, porém, o desafio imediato é conservar o que temos. O representante Paul Ryan e os seus pares ideológicos cortariam tudo, da Segurança Social ao Medicare e a lista toda, e dariam mais isenções fiscais para as pessoas do topo. Robin Hood estaria revirando-se na campa.
Não nos devemos enganar. Não é certo que as coisas fiquem como estão.
A riqueza e a renda do 1,0% do topo crescem à custa de todos os demais.
O dinheiro gera poder, e o poder gera mais dinheiro. Esse é um círculo verdadeiramente vicioso.
Uma política de mudança infalível necessariamente envolveria fazer as pessoas da classe média perceberem os seus próprios interesses económicos. Se votarem nos seus próprios interesses, elegerão pessoas que provavelmente estarão mais alinhadas com as pessoas com rendimentos mais baixos e também com elas. Enquanto as pessoas da classe média se identificarem mais com as pessoas do topo do que com as de baixo, estamos condenados. A quantidade obscena de dinheiro que corre para o processo eleitoral torna as coisas ainda mais difíceis.
Mas a história mostra que o poder popular, às vezes, vence. Foi o que ocorreu na Era Progressista, há um século, e na Grande Depressão também. A desigualdade bruta daqueles tempos produziu uma amálgama de insatisfação popular, organização, jornalismo sensacionalista e liderança política que atacaram os grandes - e crescentes - problemas estruturais da desigualdade económica.
O movimento pelos direitos civis mudou o curso da história e expandiu-se para o movimento das mulheres, o movimento ambientalista e, mais tarde, o movimento pelos direitos dos gays. Será que poderíamos ter dito no dia anterior à aurora de cada um deles que ele ocorreria, para não dizer que teria sucesso? Será que Rosa Parks sabia? Nós temos os ingredientes. Em primeiro lugar, a demografia do eleitorado está a mudar. As consequências disso não serão automáticas, por certo, mas criam uma oportunidade. A nova geração de jovens - em geral desiludidos com o poder encrustado em todas as instituições e, por isso, tendentes ao libertarismo - está madura para uma nova política da honestidade. As pessoas de baixo rendimento participarão se houver candidatos que falem das suas situações. A mudança precisa vir de baixo para cima e da liderança sinergética que a extrai. Quando as pessoas decidem que não aguentam mais e há candidatos que defendem o que elas querem, elas votarão de acordo com isso.
Já vi dias de promessas e dias de escuridão, e vi-os mais de uma vez.
A história é toda assim. As pessoas têm o poder se o usarem, mas precisam perceber que isso é do seu interesse.
*Peter Edelman é professor de direito na universidade de Georgetown e autor, mais recentemente, de "So rich, So poor: Why it's so hard to end poverty in America?” ("Tão rico e Tão pobre: Porque é tão difícil acabar com a pobreza na América?")
Claro que as causas da pobreza nos EUA, não tem nacionalidade, nem é endémica e hoje em dia estão espalhadas por todo o mundo, principalmente nos países mais ricos, produzindo os mesmos efeitos (claro!), pela simples razão de se terem implantado as mesmas políticas liberais e neoliberais, cujas consequências são estas. E tudo porque a ocidente e a oriente o “sonho americano” foi sonhado por toda a gente, sem terem consciência de que um sonho não é a realidade…
Da análise de Peter Edelman, mesmo deixando números e percentagens de fora, a primeira e relevante causa da pobreza crescente, bem como na Europa, é o CRIME de se pagar tão pouco a quem trabalha (com a conivência e até a iniciativa de governantes), que nem chega para a sobrevivência, aumentando-se a percentagem da apropriação das mais valias dos “promotores” (patrões) e reduzindo-lhes ainda todas as comparticipações para a Segurança Social (e impostos) e cortando todos os direitos dos que são empurrados para as situações de miséria. Tudo previamente planeado.
Não deve ser de todo inocente, que o articulista cite Ronald Reagan (presidente desde 1981 a 1989), um dos mais ferozes inimigos dos fracos e muito amigo dos fortes, que acabou por falecer com Alzheimer, sem se saber quando começou a doença (diz-se que em 1994)…
E o mal é que deixou seguidores, no seu país e em tantos outros (com a sua partenaire, Margaret Thatcher à frente da legião), que perpetuam ainda hoje o sofrimento dessas (in)consequências.
Todos os governantes deveriam ser obrigados a fazer testes periódicos de sanidade mental e psicológica, porque a História só nos projeta heróis de pés de barro e cabeças loucas…
Por isso, e sabendo que dinheiro gera poder e o poder gera mais dinheiro e que isso é um círculo  vicioso e verdadeiramente viciado, não é com pacifismo que ganharemos a paz com estes pobres de espírito…

Contramaré… 9 ago.

O Governo prepara uma nova medida que obriga as empresas do sector e as famílias a pagarem todos os custos associados à supervisão, acompanhamento e fiscalização das concessões de electricidade e gás natural que, até agora, eram suportados pela Direcção-Geral de Geologia e Energia.
Os consumidores de electricidade pagam hoje quase tanto em subsídios como em energia. Estes encargos pesam hoje mais de 40% no bolso das famílias.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Até no SISTEMA de esgotos os ratos engordam!

Nas últimas semanas entraram malas de dinheiro em Portugal. Dinheiro que havia saído ilegalmente, passou por cá, foi amnistiado, pagou imposto e voltou, quase todo, a sair. Sem cheiro nem mácula, uma limpeza. Limpando consciências. Limpando até culpas de casos como o Monte Branco, de Michel Canals. O cofre do Fisco é um lavatório.
É conhecido por uma sigla-palavrão, RERT III, e é basicamente uma amnistia fiscal. Terminou ontem, não foi a primeira, foi a mais rentável de todas.
Estamos a falar de dinheiro, muito dinheiro, que ao longo de anos saiu ilegalmente de Portugal. Desde património que saiu depois do 25 de Abril até rendimentos escondidos incluindo, suspeita-se, rendimentos ilícitos. Estamos a falar de dinheiro não declarado ao Fisco, de capitais que saíram pelas enormes nesgas dos sistemas financeiros e dos seus intermediários. Com esta amnistia fiscal, mais de 2,7 mil milhões de capitais que tinham fugido ilegalmente de Portugal vieram, nas últimas semanas, absolver-se de culpa. 2,7 mil milhões. É mais do que o Estado corta este ano em pensões e salários dos funcionários públicos.
Os Estados fazem estes programas por pragmatismo. O dinheiro não voltará doutro modo, mais vale abrir as carteiras e fechar os olhos. Assim é em Portugal, como em Espanha. Quase sempre com grande incidência na Suíça, o país da lucrativa neutralidade. E fazem-no para ter receita fiscal na legalização e para ver capital entrar no país, melhorando a balança de pagamentos e injectando liquidez nos bancos.
Desta vez não foi assim. O Estado abdicou da entrada dos capitais, bastou-lhe cobrar um imposto, 7,5% sobre o capital legalizado. A receita ultrapassou os 200 milhões. O Governo fará disto um sucesso. É o imposto do branqueamento legal. É pragmatismo limpo. É capitalismo sujo.
A Europa está tão ocupada com o risco sistémico que não lhe interessa o risco moral. Está tão sequiosa de capital que não lhe olha à proveniência. Os evasores, se pagarem, são capitalistas bem-vindos. Não somos mais um Estado de bem, tornámo-nos um Estado de bens. Quem os tem, vem.
Há a moral, há a lei e depois há a justiça. E aqui há uma suspeita que se torna legítima, e que é grave. Uma das razões para esta amnistia ter sido tão lucrativa foi o facto de o dinheiro não ter de ficar em Portugal, viajou num vaivém, aninhando-se de novo nas almofadas de uma conta estrangeira onde não se fazem perguntas. Mas há outra razão. A operação Monte Branco. Ou um enorme calafrio.
Como o Negócios hoje revela, nas últimas semanas houve uma corrida à amnistia. Na base dessa corrida terá estado a mediatização do caso Monte Branco, de Michel Canals, e o profuso noticiário sobre gente suspeita, buscada e escutada, que encheu a quota nacional de escândalos de colarinho branco. O próprio secretário de Estado Paulo Núncio admitiu já a correlação. A pergunta é: é para isso que a Justiça se faz notícia, para causar medo e levar os endinheirados a pagar impostos?
Quando alguém adere ao RERT, assina um papel em que assume ter tirado ilegalmente dinheiro de Portugal. É uma confissão de culpa, arquivada no esquecimento do sistema. Em troca, paga 7,5% para ser amnistiado. É uma factura comprada de inocência.
Isto não é justiça, é cobrança de impostos. Já vimos disto na Operação Furacão e está criada a expectativa de arquivamento de casos de evasão fiscal da Operação Monte Branco se os suspeitos pagarem as dívidas que lhes puserem à frente. É difícil ser mais eficaz e, ao mesmo tempo, assustador. Será por isso que os "famosos" que são arguidos, escutados, denunciados nunca são sequer julgados? Porque pagam para não o serem? E, pior, será para levá-los a isso que o circo é montado, manipulando a Justiça? Não, não pode ser verdade. Deve ser o ar de Agosto, sol a mais, as férias, o sal do mar pelas narinas. Ou então… Não, não pode ser.

Ecos da blogosfera - 8 ago.

Assim não dá para gastar latim! Só por vias de facto…

Com um mero clique, os jovens negociantes da City podem derrubar governos ou ameaçar a sobrevivência do euro. Mas, como os próprios admitem, têm dificuldade em interpretar os sinais equívocos dos líderes europeus. Agem com cautela, num círculo vicioso que alimenta a crise da dívida.
Negociantes na corretora londrina ICAP discutem preços numa sala de mercados
James Konrad, de 27 anos, apreciador de livros e bem-educado, costumava ganhar a vida numa empresa de apostas desportivas, avaliando as probabilidades de o terreno lamacento afetar as capacidades físicas dos cavalos nas corridas. Agora, aceita apostas sobre o terreno lamacento da política europeia.
James Konrad negoceia obrigações da zona euro, no valor de cerca de 3.770 milhões de euros por dia em nome do Royal Bank of Scotland. As probabilidades são quase igualmente duvidosas nas duas áreas, mas aos montantes que movimenta no seu emprego atual, e que parecem deixá-lo atordoado, são incomparavelmente maiores. "Como é que faz alguém perceber que negociou obrigações no valor de mil milhões?" "Mil milhões. É fácil perdermo-nos nos zeros."
O mercado obrigacionista revelou-se um protagonista de peso na crise económica na Europa, representando uma deslocação decisiva de poder dos políticos para os investidores e para uma obscura legião de banqueiros. As suas decisões coletivas de rotina podem agora fazer cair governos e detêm a chave da sobrevivência do euro.
Esse mercado parece um enorme Golias para quem está de fora, mas, em entrevistas, os próprios operadores financeiros que negoceiam em obrigações têm confessado que têm medo e se sentem confusos. Presentemente, estes operadores gerem níveis espantosos de risco e riqueza em nome dos investidores – cerca de 6,7 biliões de euros em dívida pública da zona euro, segundo o Banco Central Europeu.
'Até ao enésimo grau'
As preocupações económicas de fundo são que alguns países europeus devam demasiado dinheiro e que o mercado reaja fortemente a esse facto. Muitos investidores temem que deter dívida pública europeia envolva riscos a médio e longo prazo e tomaram a decisão, que consideram racional, de reduzir as suas carteiras ou mesmo de as resgatar. E, apesar de os dirigentes europeus defenderem que a moeda única sobreviverá à crise, nem todos os economistas têm tantas certezas.
Alguns operadores financeiros preocupam-se abertamente com o facto de muitos dos seus colegas não terem as competências necessárias para decifrar sinais contraditórios dos dirigentes europeus, num setor cada vez mais dependente da perceção e dedução política. Admitem que as flutuações a curto prazo das taxas das obrigações nem sempre refletem acuradamente o valor e o risco. No entanto, os operadores financeiros são tidos em conta pelos políticos em todo o leque de políticas governamentais – e são muitas vezes mal interpretados.
Os operadores financeiros são os primeiros a admitir que o resultado das suas decisões não é necessariamente coerente ou racional – ou mesmo claro, na mensagem que envia. Contudo, raramente tiveram tanto poder nas suas mãos.
"Costumávamos ser capazes de medir tudo até ao enésimo grau", disse Tim Skeet, gestor de títulos de rendimento fixo do Royal Bank of Scotland. "Presentemente, nada é mensurável. Tem menos a ver com manipular números e mais com o oráculo de Delfos."
Os economistas tendem a tratar o mercado obrigacionista como um interveniente racional, que impõe disciplina orçamental aos políticos. Os políticos acusam os "bond vigilantes" de porem em causa a recuperação da Europa e o seu prezado Estado-providência. A realidade é menos a preto e branco.
Pagar para emprestar dinheiro a Berlim
O medo existente entre os operadores financeiros e os seus nervosos investidores ajuda a explicar o motivo pelo qual as taxas para países com problemas, como a Itália e a Espanha, aumentaram fortemente e o motivo pelo qual as taxas de juro das mais fiáveis obrigações alemãs flutuaram em terreno quase negativo: os investidores estão tão aterrorizados que pagam efetivamente a Berlim pelo privilégio de lhes emprestar dinheiro.

Contramaré… 8 ago.

O ministro das Finanças do Luxemburgo e atual líder do Eurogrupo disse que uma saída da Grécia “seria gerível, mas isso não quer dizer que fosse desejável. Porque haveria muitos riscos associados para a população da Grécia”.
Instado a dizer se excluía categoricamente uma saída da Grécia da Zona Euro, Juncker respondeu, “pelo menos até ao fim do outono", acrescentando, "e depois disso também”.
Jean-Claude Juncker aproveitou também para dirigir críticas a algumas atitudes  prevalecentes na Alemanha. 

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Sorrindo? Só rindo!

Quem disse que os portugueses riem menos?
Os portugueses "manifestam cada vez mais emoções negativas e inibem o sorriso devido ao contexto de crise", concluiu um investigador do sorriso, através da análise de mais de meio milhão de fotografias.
O diretor do Laboratório de Expressão Facial da Emoção e professor, Freitas Magalhães, está desde 2003 a analisar fotografias publicadas nos jornais diários portugueses, um projeto que faz parte de uma iniciativa mundial que termina em 2013.
Os resultados da investigação "Uma década de sorrisos em Portugal" indicam que "as mulheres continuam a sorrir mais do que os homens, apesar do registo descendente acentuadíssimo no primeiro semestre deste ano", ao passo que "os homens apresentam mais o sorriso fechado a partir dos 60 anos".
As crianças, por seu lado, "são as que continuam a apresentar mais frequentemente o sorriso largo, um padrão que se mantém desde 2003".
No universo das fotografias analisadas, explicou o investigador, verificou-se ainda que "a expressão facial de emoções negativas é mais frequente e intensa do que a de emoções positivas", comprovando-se que, no caso português, "a situação económico-social potenciou a inibição da expressão".
Para Freitas Magalhães, "os resultados são preocupantes pelas consequências na saúde e na interação social", uma vez que "a felicidade está na cara das pessoas e o sorriso é um sinal que está a desaparecer a olhos vistos".
Terá alguma coisa a ver com isto?
1 ministro, 9 secretários de Estado e 6 chefes de gabinete recebem subsídio. No término da legislatura, a factura passará dos 750.000 euros.
Já eram mais 10% dos 2.000 milhões do confisco aos FP e Aposentados…
Manada a manada lá se esvazia o pote!
As famílias portuguesas estão a sentir cada vez mais dificuldades em fazer face às suas responsabilidades financeiras. No final de junho, 708.500 delas tinham dívidas por pagar ao banco com mais de 90 dias de atraso, o que significa que 15,6% dos particulares com empréstimos têm créditos malparados, o valor mais elevado desde que o Banco de Portugal começou a compilar a série, em março de 2009.
Se não houvesse o confisco aos FP e Aposentados, não dessem os subsídios aos governantes, nem distribuíssem o nosso pelas Fundações Privadas, nem…
E muitos menos passariam a “vergonha”…

Ecos da blogosfera - 7 ago.

IMPÉRIO ou democracia de fachada? E PARA QUÊ?

Dividida em potentados locais sobre os quais não tem poderes suficientes, levada pouco a sério no resto do mundo, a UE faz lembrar o Japão de 1860, antes da sua modernização, garante um jornalista sueco. Mas erigir-se em verdadeira potência política pode revelar-se contraproducente.
Shogun Tokugawa
Nos anos 1860, entre os cronistas encartados do New York Tribune incluía-se um certo Karl Marx. Este escreveu que o Japão era "o último país verdadeiramente feudal, com toda a irracionalidade e a repartição [de poderes] próprias". Hoje, a União Europeia faz lembrar esse Japão de outrora, com Angela Merkel no papel do shogun.
Na época, o Japão era um mosaico de províncias feudais dirigidas por senhores locais, os daimyos, subordinados ao comandante supremo das forças armadas, o shogun. A administração do shogunato chamava-se bakufu. Havia um imperador na cidade de Quioto, mas os seus poderes eram ainda mais limitados do que os do atual presidente da UE, Herman Van Rompuy.
Os daimyos governavam os seus domínios como bem lhes apetecia, tinham moeda própria, sistema tributário próprio e exército próprio. Ignoravam frequentemente os decretos do bakufu (Bruxelas) e, quando o bakufu enviava inspetores, os daimyos (os gregos) enganavam-nos. A província de Satsuma chegou mesmo a montar aldeias fictícias, pondo os seus samurais a desempenhar o papel de camponeses. A elite japonesa passava muito tempo em Edo (Tóquio/Bruxelas), onde todo o produto das suas receitas fiscais era tragado pelas despesas de representação. Karl Marx traduzia assim o desdém da época pelo Japão: um país atrasado, cuja organização política era demasiado fragmentada para lhe permitir resolver os seus problemas.
A frustração da impotência
Mas, alguns anos mais tarde, o Japão passou a ser um dos países mais centralizados do mundo. Os japoneses esmagaram os russos – um feito não realizável por qualquer um – durante a guerra de 1905 e criaram empresas como a Mitsubishi. Que aconteceu? A resposta a uma crise, que assumiu a forma de uma globalização. O comodoro norte-americano Perry e as suas canhoneiras obrigaram o Japão a abrir-se ao comércio com o Ocidente [em 1854].
Hoje, é a Europa que está em crise. Os países do Sul não souberam adaptar as suas economias a um mundo no qual é preciso ter em conta a China industrializada. E encontram-se prisioneiros de uma moeda que lhes permitiu contrair empréstimos baratos mas que também fez aumentar o custo das suas mercadorias. A única coisa que parece ter hipóteses de salvar o euro é uma união política. Os think-tanks e os burocratas de Bruxelas sentem uma frustração semelhante à do Japão de outrora, que ninguém levava a sério. A frustração da impotência.
A situação requer uma versão europeia da restauração de Meiji: centralizar as atribuições e retirar aos Estados-Membros os poderes de decisão em matéria económica. Um cenário possível seria um reforço considerável dos poderes oficiais de Bruxelas (o imperador), enquanto um grupo de tecnocratas e políticos mexiam os cordelinhos nos bastidores. Uma democracia de fachada.
Um fator de paz? 
Bruxelas deveria em seguida disciplinar as províncias que ainda têm à volta do pescoço um nó corrediço do euro. A UE vende o projeto europeu como um projeto pacificador, desenvolvendo –erradamente – uma fixação no último cataclismo, até ao presente, no nosso caso a II Guerra Mundial. Acontece que alguns outros conflitos nasceram de movimentos de protesto locais contra decretos do poder central. É o caso da Guerra dos Trinta Anos [1618-1648].
A elite japonesa era animada por um sentimento nacional e tinha a mesma casa imperial há mais de 1.000 anos. Mas, apesar disso, foi preciso uma guerra civil, uma guerra e a introdução de um sistema escolar nacionalista, para o povo japonês se tornar verdadeiramente japonês (essa era terminou com o bombardeamento de Hiroshima). Entre nós, é preciso recuar até ao Império Romano para encontrarmos uma Europa unida.
Em resumo: a crise do euro impõe um Estado europeu, mas este tem poucas hipóteses de sobreviver. E também não será necessariamente um fator de paz. Antes pelo contrário.