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quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Todas as guerras deixam marcas na história da gente…

Em Sedan, de Bismarck a Hitler, os franceses tentaram, por 3 vezes, resistir, em vão, aos alemães. Um jornalista foi até lá para ver como está a reconciliação franco-alemã, 50 anos depois do Tratado do Eliseu, e descobriu uma cidade minada pela pobreza e que vive das recordações do passado.
Ilustração histórica da Batalha de Sedan, em 1870
Os flocos de neve dançam à luz dos candeeiros. O terreiro da estação brilha sob o manto branco do inverno. Os raros passageiros do TGV que desceram aqui, em Sedan, afastam-se em passo rápido. Um silêncio quase solene paira sobre aquele lugar. Não vemos ninguém durante alguns minutos, nem carros, nem autocarros, nem táxis.
A cidade nem sempre foi assim tão calma. Durante a guerra de 1870-1871, as tropas de Bismarck tomaram de assalto, pela primeira vez, o forte de Sedan. Refugiado no Palácio dos Príncipes, o imperador Napoleão III mandou içar a bandeira branca e, desde então [até 1918], os alemães celebraram, todos os anos, o "Sedantag" [o dia de Sedan], a 2 de setembro.
Em maio de 1940, durante a II Guerra Mundial, as unidades blindadas de Hitler varreram de surpresa o Norte. Um mês mais tarde, a França era derrotada. As feridas infligidas na altura estão cicatrizadas – num momento em que a França e a Alemanha celebram o quinquagésimo aniversário do Tratado do Eliseu e 50 anos de amizade? A cidade está em festa?
Poucos vestígios da reconciliação
Laurent Poncelet não está, em qualquer caso. Aos 45 anos, este homem que foi ele próprio militar e agora dirige uma empresa de táxis com dois veículos, abana a cabeça da esquerda para a direita. “Só queremos uma coisa, sair daqui. Sobretudo os jovens”, confessa ele. Todas as grandes empresas voltaram as costas a esta região fronteiriça com a Bélgica, lamenta, a começar pelos empregadores históricos, do fabricante de componentes automóveis Delphi ao fabricante de eletrodomésticos Electrolux. A maior parte dos habitantes de Sedan vive das ajudas do Estado, 42% das casas são habitação social e a taxa de desemprego atinge os 26%. “Aqui não há futuro. Só há muito passado. Muita história franco-alemã. E mesmo essa não tem nada de bonito”, diz Laurent Poncelet.
Depois de séculos de guerra, não se veem muitos traços do milagre da reconciliação nesta pequena cidade de 19.400 almas. Sedan parece até desinteressada do aniversário do Tratado do Eliseu. Laurent Poncelet não é, evidentemente, o único a pensar que a história franco-alemã parou na II Guerra Mundial.
A senhora do posto de turismo sorri, encolhe os ombros. Não sabe nada sobre as cerimónias organizadas para comemorar o cinquentenário, garante. Mas a "Maison de la Dernière Cartouche" é um excelente local a ser visitado. “Os lambris da casa, ocupada pelas tropas de Bismarck, ainda têm as marcas das balas da época”, diz ela. Os quadros a óleo mostram os franceses a resistirem aos alemães, em muito maior número, e enfrentando uma morte certa. “Porque não vai visitar o nosso castelo do século XV? Com 35.000 m2, é a maior fortaleza da Europa!”
O “castelo-fortaleza” fica mesmo do outro lado da rua. É preciso uma boa meia hora para percorrer as muralhas. Placas de mármore lembram que, também durante a I Guerra Mundial, os soldados alemães semearam a morte e a desolação em Sedan. De janeiro de 1917 a novembro de 1918, o forte serviu de local de execuções. Ali estiveram presos 18.000 habitantes e 8.000 foram executados.
Habitantes recusam participar nas comemorações
Os jovens que vêm aquecer-se na entrada do posto de turismo não ouviram falar do Tratado do Eliseu nem das celebrações do aniversário da amizade franco-alemã. “Nas aulas só estudamos as guerras”, explica Karim, um adolescente de 16 anos, alto e de cabelo encaracolado, que quer entrar para a polícia “numa cidade grande, seja ela qual for”, depois de terminar o 12º ano. Lilia mete-se na conversa. “Já tive um namorado alemão, eles são muito abertos e simpáticos”, garante ela. “Não sabes o que dizes”, intervém Karim, “eles mataram os teus antepassados”.
No café "Au Bon rhum", Richard, um empresário da construção civil, bebe uma cerveja com a mulher, Jeanine. Já ouviram falar das comemorações do Tratado do Eliseu, mas não querem participar. “Não gostamos de alemães”, reconhece Richard, 48 anos. Pode ser que a geração mais jovem consiga reaproximar os dois povos, admite ele. Atrás deles, na parede, um painel enferrujado ostenta a seguinte inscrição: “Praça de Armas”.
Um passeio pelas ruas da zona antiga de Sedan confirma as palavras de Laurent Poncelet, que fala de uma cidade sem futuro. Portões enferrujados, estuque a cair, cartazes de “cessação de atividade”, são testemunhos da pobreza e do declínio da cidade. As persianas fechadas há muito tempo transmitem-nos uma mensagem clara: já não vive ninguém aqui. E, na maioria das vezes, ficaram apenas os que são demasiado pobres para partirem. Ao todo, apenas 35% das famílias de Sedan têm rendimentos tributáveis.
Acabamos por perceber que, se a ilusão do reaquecimento das relações franco-alemães vem morrer aos pés das muralhas do forte de Sedan, não é só por causa dos enormes danos causados pela guerra. Mas também porque a cidade, para além das recordações de uma resistência heroica, não tem muito mais que a conforte. O sacrifício, a fraternidade e a grandeza ostentados na derrota são motivo de orgulho que ajudam a suportar as horas difíceis.
Demolição de um monumento
Será então de admirar que Didier Herbillon, professor de história, historiador de arte e presidente do município de Sedan, se tenha recusado a falar? O socialista não se mostrou disponível para uma entrevista sobre as alterações na cidade e a obra de reconciliação iniciada por Konrad Adenauer e Charles de Gaulle. Na página de Internet do município, na agenda do presidente, a data de 22 de janeiro nem sequer menciona um minuto de silêncio pelo aniversário do Tratado do Eliseu.
É numa outra vertente que Didier Herbillon coloca as relações franco-alemãs. Para grande escândalo dos historiadores de arte alemães e franceses, no ano passado, ele autorizou a demolição de um monumento, no cemitério de Sedan, em memória dos soldados alemães mortos durante a I Guerra Mundial. O monumento em causa era uma “provocação”, afirmou o autarca.
Em Paris e em Berlim, os funcionários do Gabinete franco-alemão para a juventude lamentam que a geração mais jovem seja incapaz de apreciar a amizade franco-alemã em todo o seu justo valor. Para esta geração, a paz é um dado adquirido e a França é um país interessante, entre muitos outros. Sedan é prova disso mesmo: os que cultivam a memória da guerra estão longe de estarem prontos para se comprometerem com o caminho da paz. E, sobretudo, este exemplo mostra completamente a audácia do general De Gaulle que, menos de 20 anos depois do fim da guerra, estendeu a mão da reconciliação a Adenauer.

Contramaré… 23 jan.

A taxa de emprego em Portugal registou nova quebra no 3.º trimestre de 2012, representando agora 61,9% da população ativa, contra 66,3% no trimestre anterior. Em termos absolutos, esta descida traduz a destruição de 28.000 postos de trabalho entre junho e setembro de 2012, segundo indicam os dados hoje divulgados pela OCDE. Nnum ano, a economia portuguesa assistiu á destruição de 165.000 empregos.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Gaspar: “Mais tempo para ir buscar mais dinheiro”?

Vítor Gaspar vai esta manhã pedir aos parceiros do Ecofin um alargamento do prazo das maturidades dos empréstimos no âmbito do FEEF. Este pedido vem na sequência do apelo dirigido ontem à noite aos membros do Eurogrupo, para que as maturidades dos empréstimos do MEE sejam alargados.
O presidente cessante do Eurogrupo, Jean-Claude Junker assegurou que a Comissão e o grupo de trabalho que prepara as reuniões “vão estudar os problemas” decorrentes de uma extensão das maturidades. Vítor Gaspar diz-se confiante e com uma “expectativa fundada” no aval dos parceiros europeus, em relação ao pedido de Portugal. 
Como argumentos, o ministro das Finanças destacou que o governo “cumpriu e cumpre os compromissos” e salienta a “boa execução do programa de ajustamento” constatada em “6 avaliações” da ‘troika’. Jean-Claude Juncker diz-se “obviamente satisfeito que os ajustamentos feitos por Portugal estejam a reflectir-se no sentimento dos mercados e numa significativa redução das taxas de juro”. 
Mas o ministro português das Finanças avisou que Portugal vai enfrentar quatro momentos “mais difíceis” em 2014, 2015, 2016 e 2021, anos em que o país enfrenta uma concentração de pagamentos “muito considerável”.
Sensível aos argumentos apresentados pelo ministro português, o comissário europeu para os Assuntos Económicos e Monetários prometeu “preparar e apoiar o regresso da Irlanda e Portugal aos mercados financeiros”.
Por sua vez, ministro Vítor Gaspar recordou aos parceiros europeus que, “em julho de 2011 se comprometeram em facilitar o sucesso da Irlanda e de Portugal e dos seus programas de ajustamento” desde que ambos os países “estivessem a respeitar a condicionalidade”.
Finalmente, Gaspar “vira o bico ao prego”, deixando de insistir no “nem mais tempo, nem mais dinheiro”, reconhecendo, sub-repticiamente, que falhou!
E vem dizer, justificando-se (dentro da sua competência humilde), que 2014, 2015, 2016 e 2021 vão ser anos difíceis, o que já devia saber há muito, mas ocultou (dentro da sua competência humilde)…
Mas mais. O ministro da Finanças vem agora dizer que os parceiros europeus se tinham comprometido em julho de 2011 a facilitar o sucesso da Irlanda e de Portugal e dos programas de ajustamento, desde que fossem “bons alunos”, o que quer dizer que já sabia desta circunstância (omitindo-a) quando dizia e repetia “nem mais tempo, nem mais dinheiro”…
Já quanto aos argumentos apresentados por Gaspar, de que o governo cumpriu e cumpre os compromissos e a boa execução do Memorando, devia dizer que FOI O POVO PORTUGUÊS que aguentou com os compromissos (pagando as dívidas e fraudes de terceiros e ainda impunes) e que em contrapartida, a boa execução do programa da troika (da responsabilidade dele) redundou num colossal desastre social e económico, sem querer ou por querer, e que continuará com as mesmas soluções, prevendo(-se) os resultados catastróficos, multiplicados pelo aumento da dose…
Gaspar bem pode limpar as mãos à parede, mas para não o fazer (dentro da sua competência humilde), remete-se ao silêncio, fugindo ao palco mediático de que tanto gosta…
Mas o problema é mesmo e só este:
O anúncio feito por Vítor Gaspar, ontem no Eurogrupo, de que Portugal tinha pedido mais tempo para pagar a dívida, é uma boa notícia. Também é uma boa notícia saber que Portugal pode voltar aos mercados até mais cedo do que se previa. Mas que impacto tem isso na nossa vida real? A resposta é: para já pouco... ou nenhum.
Henrique Monteiro
Pedir aumento da maturidade da dívida significa, no estranho idioma que é o 'economês', pedir mais tempo para pagar o que se deve. Isso significa 2 coisas - poder pagar mais suavemente, o que é bom; e ficar a dever mais tempo, o que não é tão bom.
Regressar aos mercados, no mesmo idioma, é igual a poder pedir dinheiro emprestado sem, para isso, depender da troika. É bom porque garante uma maior independência do país, não o colocando sujeito às preferências de quem empresta e porque pode canalizar mais dinheiro para investimentos. É mau, porque aumenta a dívida já de si elevada. E pode ser péssimo se isso significar um abrandamento ou mesmo inversão das reformas.
Mas nada disto tem efeitos imediatos. Portugal volta aos mercados, mas os portugueses comuns continuarão a pagar impostos elevadíssimos e a ter falta de dinheiro mesmo para bens essenciais. Também o desemprego continuará a subir, ao mesmo tempo que os serviços prestados pelo Estado vão encarecer. Espero, pois, que o Governo não faça disto uma das habituais doses de demagogia em que a política tem sido fértil. Os portugueses não se entusiasmam por metas financeiras, porque aquilo que sentem nas suas vidas são as terrenas questões da economia.
Regressamos aos mercados, ótimo. Mas festejem só quando nos devolverem o dinheiro que, entretanto nos sacaram.

Ecos da blogosfera – 22 jan.

Eu não sabia que havia o efeito “nocebo”… Sabia?

Ler o folheto informativo dos remédios ou pesquisar sintomas na internet pode levar ao perigoso efeito “nocebo”. Excesso de informação faz com que o paciente, inconscientemente, desenvolva doenças por medo, alerta neurologista.
Marlis Schaum
"A expectativa determina o desenvolvimento de doenças", afirma o neurologista Magnus Heier, também jornalista científico, que estuda a influência do subconsciente nos seres humanos. O que esperamos tem grande influência sobre o desenvolvimento das doenças, diz o especialista. Segundo Heier, podemos criar sintomas ou fazê-los desaparecer.
Quem lê um artigo que diz que as radiações eletromagnéticas das antenas de telemóveis provocam doenças pode sentir dor de cabeça mesmo que a antena esteja desligada, afirma o neurologista.
Um paciente com cancro pode morrer muito mais rápido caso esteja convencido de que lhe restam apenas poucos meses de vida, mesmo que, de acordo com o diagnóstico, o tumor não já não esteja a crescer. Este é o chamado efeito "nocebo", sobre o qual Heier escreveu um livro.
O medo provoca stress, e o stress causa doenças
"O efeito [nocebo] ocorre sobretudo quando se tem medo de uma doença ou do tratamento a ser enfrentado. Os efeitos colaterais ficam, então, muito mais fortes", diz Heier. "Os pacientes com cancro começam a sentir-se mal quando entram na sala de quimioterapia, porque inconscientemente esperam sentir náusea após a sessão."
Medo significa stress para o corpo e pode debilitar o sistema imunológico. Assim, o corpo fica mais suscetível a infeções, e surgem dores que não deveriam existir, explica o especialista.
Outros estudos confirmam tal fenómeno, como os realizados por médicos das clínicas universitárias de Regensburg e Tübingen. Winfried Häuser, Emil Jansen e Paul Enck publicaram estudos sobre o efeito “nocebo” entre 1960 e 2011 em todo o mundo, tendo verificado e compilado os resultados obtidos.
Nocebo e placebo
O termo “nocebo”, em latim, significa “fazer mal”, enquanto placebo significa "agradar". Trata-se basicamente do mesmo efeito, só que um é negativo e o outro, positivo. Ambos afetam as pessoas no ponto que elas menos podem controlar: o subconsciente.
Um placebo gera a convicção de que o paciente será ajudado. Muitas vezes, um medicamento que não contém nenhuma substância ativa, como uma simples solução de água com açúcar, tem o mesmo efeito que um medicamento de verdade.
O efeito placebo foi estudado a fundo. Ao ser pesquisado na biblioteca virtual do Ministério de Saúde dos EUA, o termo aparece quase 160.000 vezes. Já “nocebo” aparece apenas 180 vezes. Na Alemanha, o efeito negativo começou a receber atenção apenas nos últimos anos.
Muita informação
"Se deteto num paciente um leve estreitamento da artéria carótida – nada relevante, apenas um pequeno estreitamento – e faço o diagnóstico, sempre que o paciente tiver uma tontura, vai associá-la ao problema. Toda a gente sente tonturas de vez em quando, mas o paciente fica com aquilo na cabeça, o diagnóstico fica ancorado no seu subconsciente”, afirma Heier.
Quando alguém tem medo de desenvolver um tumor, talvez não o desenvolva, mas o stress pode deixar o paciente suscetível a outra doença. O efeito “nocebo” geralmente ocorre quando recebemos muita informação e não conseguimos ordená-las corretamente, especialmente ao procurar na internet, doenças e sintomas.
Já o folheto informativo dos remédios lista todos os possíveis efeitos colaterais, mesmo que alguns raramente se manifestem, ou seja, em algo como 1 em cada 10.000 pacientes. As empresas farmacêuticas são, porém, obrigadas a detalhar todas as possibilidades.
Comunicação eficiente
Quem ficar preocupado ou tiver medo dos efeitos colaterais não deve simplesmente deitar o remédio ao lixo ou autodiagnosticar-se na internet. O melhor a fazer é consultar um médico, alerta Heier.
No entanto, até mesmo a comunicação médico-paciente pode desencadear medos no paciente, se o médico não for cuidadoso. "Uma conversa pode ter muita influência", afirma Sasa Sopka, anestesista e diretor do centro de treino em educação médica da Universidade de Aachen.
O assunto, que já é tema de estudo dos estudantes de Medicina dos EUA há 30 anos, começou a fazer parte do currículo das universidades alemãs só nos últimos anos. A disciplina Comunicação com pacientes é obrigatória na Universidade de Aachen desde 2005. "Nas aulas, fica claro que se pode alterar ou até influenciar negativamente os pacientes, caso a conversa não prossiga da forma adequada", diz Sopka.
Não ouvir com atenção, não fazer contacto visual, não levar o paciente a sério ou intimidá-lo pode ser nocivo. O médico também tem que ter cuidado para não usar um tom negativo e criar desconforto. Tudo isto pode ocorrer devido à falta de tempo, à pressão no trabalho ou porque os médicos querem ser transparentes sobre os possíveis riscos de um tratamento ou operação.
Caso se sinta alguma dor, deve-se procurar um médico, enfatiza Heier. Exames preventivos também são indicados. Todo o resto deve ser feito com cautela, pois não se pode subestimar o efeito de folhetos informativos de remédios ou diagnósticos médicos na internet sobre o subconsciente.
Colaborando com o Secretário de Estado Adjunto da Saúde, que apelava há dias para que os portugueses deviam prevenir doenças para ajudar o SNS, não com a mesma intenção (a prevenção faz parte do SNS), mas para alertar quem nos lê, de que não deve ler os papéis que acompanham os medicamentos, muito menos fazer buscas na internet sobre doenças e remédios, para não gravar no subconsciente o que de negativo lá conste… como prevenção.

Um otimista pode ser um pessimista mal informado…

Em todas as crises graves sentimos pena dos jovens que não conseguem arranjar emprego, chamando-lhes “geração perdida”. Bom, ao longo da história houve sempre muitas gerações assim e, no fim, acabaram sempre por vencer, escreve o DGP.
Eram a nossa esperança e, em vez disso, tornaram-se um fardo. Mais de 400.000 jovens polacos estão desempregados e quase toda a gente se refere a eles como a “geração perdida”. De facto, o problema estende-se a todo o continente; no resto da Europa, especialmente no Sul, as coisas estão ainda piores. O relatório de outubro do Eurostat revelava que, na Polónia, o desemprego entre os jovens com menos de 25 anos era de 27,8%, em Espanha atingia 55,9%, na Grécia 57% e em Itália 36,5%. Mesmo num país rico como a França, 1 em cada 4 jovens está sem emprego.
Estatísticas enganadoras
Estas estatísticas são impressionantes e também enganadoras. E isto porque incluem apenas quem está a trabalhar e quem não está, não tendo em conta os jovens que estão a estudar, os que estão em estágios profissionais, os que estão a viajar e os que não estão a fazer nada porque não querem. Por isso, é mais apropriado falar em NEEEs (“não a estudar, empregados ou em estágio”), uma sigla usada pela Organização Internacional do Trabalho.
Quando aplicamos essa categoria, verifica-se que a percentagem de polacos entre os 15 e os 29 anos que não trabalha nem estuda é de 15,5%. É muito – um aumento de 22% desde o início da crise – mas significa que apenas 1 em cada 6 jovens polacos enfrenta perspetivas sombrias, em vez de 1 em cada 2. Dificilmente poderemos falar em “geração perdida” quando 5/6 dessa geração está a fazer alguma coisa útil. E o mesmo acontece no resto da Europa, a percentagem de NEEE na Grécia é de apenas 23% e em Espanha está nos 21%. Em países como a Holanda ou a Áustria essa percentagem é muito mais baixa, anda entre 5% e 8%.
Jovem, desempregado e com perspetivas
Paradoxalmente, como demonstra especialmente o exemplo espanhol, o elevado número de jovens desempregados pode, na verdade, ser uma fonte de esperança. Nos últimos anos, o grande aumento dos níveis de desemprego em Espanha não se deve tanto à recessão mas sim às reformas do mercado de trabalho lançadas pelo primeiro-ministro Mariano Rajoy. “Agora, os empregadores podem despedir mais facilmente os trabalhadores de que não precisam mas quando as condições do mercado melhorarem, não terão medo de voltar a contratar novamente”, diz Jorge Nuñez, especialista do think-tank CEPS, em Bruxelas.
Antes das reformas de Rajoy, as empresas espanholas tinham de negociar as alterações ao emprego ao nível das organizações sindicais de setor – em vez de discutirem a nível do local de trabalho – e os despedimentos significavam uma enorme quantidade de dinheiro para pagar indemnizações bem como, muitas vezes, ter de provar em tribunal que os cortes de pessoal eram necessários segundo fatores económicos “objetivos”.
Apesar dessas normas rígidas – um legado da era de Franco – os empregadores espanhóis não desataram a contratar quando a economia estava em rápido crescimento. Depois da adesão do país à UE, em 1986, o desemprego jovem caiu para metade nos 3 anos seguintes, ficando em 18%. Será que desta vez os espanhóis também vão conseguir sair de apuros rapidamente?
Zsolt Darvas, do Instituto Bruegel em Bruxelas, diz: “Esta é a geração com mais educação da história do país. Graças às reformas de Rajoy, a competitividade da economia espanhola aumentou rapidamente; apenas há 5 anos o país tinha um défice comercial de 11% do PIB e hoje goza de um superavit de 2%.”
Intensa reestruturação
A Polónia representa um caso semelhante. O país já viu 2 “gerações perdidas” em 1992/1993 e em 2002/2003 e está agora a olhar para a 3.ª. Mesmo aceitando os dados pessimistas do Instituto Nacional de Estatística, em 1995 a percentagem de jovens com menos de 25 anos desempregados era 2 vezes mais alta do que é hoje. A educação é outro fator favorável, desde 1990 a proporção de estudantes quintuplicou e a percentagem de trabalhadores licenciados é agora 2,5 vezes mais alta.
Os períodos de crise sempre foram tempos de intensa reestruturação para a economia polaca. A produtividade laboral é hoje 20% mais alta do que era em 2008, o que significa que 4 pessoas geram o mesmo resultado que nessa altura era obtido por 5. As indústrias de ponta, como a eletrónica avançada, a investigação molecular ou os componentes automóveis de alta precisão, cresceram vigorosamente, fazendo com que cada vez mais multinacionais desloquem as suas unidades fabris do Sul para o Leste da Europa, especialmente para a Polónia.
Pode dizer-se que a elevada taxa de desemprego é o preço que a Polónia tem de pagar pelo seu ganho de produtividade que lhe deu alguns anos de vantagem sobre os rivais. Os dados do Eurostat mostram que em 2012 a produtividade da Polónia era apenas de 57% da média da UE, comparada com um número 2 vezes maior na vizinha Alemanha.
O exemplo alemão
A Alemanha serve de exemplo para o quanto as reformas do mercado de trabalho podem ser efetivas para melhorar as perspetivas dos jovens. Hoje, o desemprego está no nível mais baixo desde a unificação, tanto entre os jovens (12%) como no geral (5,4%), e dirige-se gradualmente para o pleno emprego. Mas há uma década, antes das reformas introduzidas pelo chanceler Gerhard Schröder, a Alemanha era “o doente da Europa” em termos de mercado de trabalho.
“Devíamos ter copiado o sistema de formação profissional deles. Verifica-se que aqueles que escolhem profissões aparentemente mais prosaicas e técnicas, mais tarde têm empregos mais estáveis e conseguem realizar melhor o seu potencial do que os frustrados diplomados com estudos mais ambiciosos mas de que ninguém precisa. Assim, as perspetivas de emprego dos jovens dependem, em parte, deles próprios e da sua capacidade para adaptarem os seus planos à realidade do mercado”, diz Katinka Barysch do Centre for European Reform em Londres.
Há muitos indícios de que o pior já passou para os jovens, tanto na Polónia como na Europa. No ano passado assistimos a uma estagnação económica generalizada, mas a UE evitou o pior – o desmoronamento da zona euro e a recessão daí resultante, de que levaríamos décadas para recuperar, no caso de lhe conseguirmos sobreviver.
Apesar de hoje ser difícil acreditar em tal coisa, daqui a 2 ou 3 anos, em vez de serem obrigados a aceitarem qualquer emprego que lhes apareça, os jovens com as qualificações certas poderão, de facto, estar a ditar as regras aos empregadores.
Quando apresento artigos de opinião, não gosto de os comentar, nem o vou fazer, mas ao ler tanta inexatidão na análise (com que não concordo), quero só sublinhar esta preciosidade de imprecisão, quando diz que “Nos últimos anos, o grande aumento dos níveis de desemprego em Espanha não se deve tanto à recessão mas sim às reformas do mercado de trabalho lançadas pelo primeiro-ministro Mariano Rajoy”, esquecendo-se que Rajoy está apenas há um ano no poder, esquecendo-se que os números do desemprego eram muito idênticos no tempo de Zapatero, mas sobretudo quando diz que a rígida legislação laboral espanhola é um legado da era de Franco…
O resto vai pelo mesmo caminho de análise, mas aqui fica a opinião, para não ser faccioso…

Contramaré… 22 jan.

Obama defende Estado social na tomada de posse
Barack Obama tomou posse para o 2º mandato como presidente dos EUA, com um apelo para a unidade de todos os norte-americanos, elevação do debate político e defesa veemente do Estado social. No seu discurso Obama defendeu que “as escolhas difíceis para reduzir o custo dos cuidados de saúde e do défice”, não podem deixar desprotegidas as próximas gerações.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Economistas ditam o que fazer na Saúde e Educação…

O antigo ministro da Saúde Correia de Campos disse que o relatório do FMI tem "uma enorme falsidade" quando refere que os gastos da saúde em Portugal têm vindo "a crescer desmesuradamente".
"Não vale a pena irem buscar as estatísticas que convêm para justificar uma ideologia e os pontos de vista neoliberais", afirmou, criticando o FMI, num fórum sobre a sustentabilidade do SNS, promovido pela Federação Distrital do Porto do PS.
Para o orador, "cada dia se vai descobrindo que [o documento] funcionou apenas como encomenda de um mandante, o Governo português". Correia de Campos disse ser "falso" que a estimativa de crescimento das despesas na área da saúde, para o período de 2020 a 2030, seja de 4,5 %, frisando ser "uma afirmação [do FMI] apenas para meter medo". "Portugal tem um registo admirável, com 1,5 % de crescimento anual durante os últimos 10 anos", insistiu.
Correia de Campos defendeu que "O SNS é reformável e modificável. Pode ser tornado mais eficiente, podem ser identificados os seus desperdícios, mas não pode ser desfigurado".
Para o ex-governante, o SNS "é uma das joias da nossa democracia e, como tal, devemos saber preservá-lo". Por isso, acrescentou, um "pacote mínimo de cuidados, num país que tem um SNS, é passar de cavalo para burro" e "viola o princípio da universalidade". "O setor privado [na área da saúde] tem todo o direito de existir, mas não tem o direito, nem a Constituição o permite, que prevaleça sobre o setor público".
O presidente da Federação Nacional de Educação disse que o FMI "desconhece a realidade portuguesa" do setor, e analisa o país "como se estivesse a analisar a Áustria ou a Finlândia".
“Não dizemos que está tudo bem, é precisa uma gestão racional do sistema educativo. Mas não é com mais cortes na educação e no número de profissionais, que vamos responder, no presente, às exigências do futuro", disse João Dias da Silva, no dia em que o FMI divulgou o relatório sobre a 6.ª avaliação do programa de ajustamento de Portugal.
Professores e profissionais de saúde, diz o Fundo, serão abrangidos ainda este ano pela Lei da Mobilidade Especial, que vai ser alterada para permitir baixar as remunerações dos trabalhadores e que deverá passar a ser "aplicada a todos os setores da Administração Pública, incluindo professores e profissionais de saúde", no 2.º trimestre deste ano, lê-se no relatório do FMI.
Para a FNE, o Fundo parte de "pressupostos inconsistentes" e, através dele, apresenta medidas que mostram um desconhecimento da realidade portuguesa. "Questionamos muitas das opções de partida [do relatório] e as suas opções que põem em causa a responsabilidade constitucional e ética do Estado em termos educativos", aponta João Dias da Silva.
O FMI entende que, para melhorar a qualidade do ensino secundário, o Governo terá de "definir e implementar um quadro de financiamento baseado em fórmulas simples que inclui critérios de avaliação de desempenho e prestação de contas para as escolas públicas e as escolas sob contratos de autonomia".
O FMI defende ainda que deve ser criado um sistema de avaliação e acompanhamento das políticas de educação e formação, que deverá estar a funcionar no 2.º trimestre do ano. Também para a formação profissional e educacional, o Governo deverá apresentar um relatório sobre a participação de empresas e, até ao final do 1.º trimestre, deverá criar "escolas profissionais de referência".
Parece que já não há dúvidas de que o Relatório do FMI (que foi feito por funcionários do FMI) não é do FMI, mas do governo. E a “prova”, pelo que se vai sabendo, é a coincidência de medidas alvitradas, a anteriori, pelo governo, que agora aparecem plasmadas nas soluções vindas a lume…
Mas deixando isso para lá, faz-me alguma impressão que os tais funcionários do FMI (Gerd Schwartz, Paulo Lopes, Carlos Mulas Granados, Emily Sinnott, Mauricio Soto, e Platon Tinios) tenham uma abrangência de competências tão grande, que sabem de tudo, sobretudo do que não seja das suas áreas de formação (não consta nenhuma referência sobre tal virtude, nem que tenham recebido o Espírito Santo). Até admito que haja médicos (sem exercer) e até professores de todos os graus de ensino (que deixaram de dar aulas), que possam saber de medicina e de pedagogia, mas deve faltar-lhes um Juiz que perceba de constituições, um Sociólogo que os previna das consequências e outras profissões que complementem a Economia, que é uma Ciência Social, e nunca foi, nem será uma Ciência Exata, como nos querem fazer crer, com o argumento de que não há alternativas…
Para além do mais, as especificidades de uma nação e de um povo, se não são variantes a ter em conta nas soluções, para que raio serve a cultura, a política, a democracia e a soberania?
Também já sabemos que os dados para as conclusões apresentadas foram fornecidos pelos ministros e demais assessores dos ministérios, que podem ter desvirtuado o ESTUDO, isentando de culpas os tais técnicos de alto gabarito e de instinto perspicaz…
E por tudo isto, é tentador estar de acordo com todas as críticas de especialistas cá do burgo, quando contrariam os dados e, logicamente, as conclusões de um trabalho “académico”, quando muito de gabinete/teórico, para não falar na folha de Excel…
Apesar de haver muito pouca gente, de cá, a aceitar a receita, o silêncio dos deputados e militantes dos próprios partidos do governo é significativo, ou quer dizer alguma coisa que não será de concordância…
Mas também há alguns (muito poucos) espertos que entendem isto à primeira, mesmo que nunca lhes tenha passado pela cabeça, por nunca admitirem que o Estado podia ser implodido…

Ecos da blogosfera – 21 jan.

Ao cuidado de quem tem de cuidar dos contribuintes!

Tal como o stress, também a solidão enfraquece o sistema imunitário, deixando o corpo mais vulnerável a infeções, revela um estudo de cientistas da Universidade do Ohio, EUA.
Na investigação, cujas conclusões são apresentadas na reunião anual da Sociedade para a Personalidade e a Psicologia Social, a decorrer em Nova Orleães, os cientistas descobriram que as pessoas que se sentem sós revelam sinais de elevada reativação do vírus latente do herpes e produzem mais proteínas associadas a inflamação do que as pessoas socialmente mais ativas.
Estas proteínas são um sinal da presença de inflamação e a inflamação crónica está ligada a numerosas doenças, como a doença cardíaca coronária, a diabetes tipo 2, a artrite ou o Alzheimer.
A reativação de um vírus latente do herpes está associada ao stress, o que sugere que a solidão funciona como um fator de stress crónico que produz uma resposta imune deficitária.
“Fica claro, de investigações anteriores, que más relações estão ligadas a um número de problemas de saúde, incluindo mortalidade precoce e outras doenças graves. As pessoas que se sentem sozinhas sentem-se claramente como se estivessem em relações de má qualidade”, disse a investigadora que liderou o estudo, Lisa Jaremka, do Instituto para a Investigação em Medicina Comportamental da universidade do Ohio.
Para a cientista, esta investigação é importante porque permite perceber “como a solidão e as relações afetam largamente a saúde”. “Quanto mais percebermos o processo, mais potencial existe para contrariar os efeitos negativos - para intervir. Se não percebermos os processos fisiológicos, o que vamos fazer para mudá-los?”, questionou.
Os resultados baseiam-se numa série de estudos em duas populações distintas: um grupo de adultos saudáveis de meia-idade com excesso de peso e outro de sobreviventes de cancro da mama.
Os investigadores mediram a solidão através da Escala de Solidão UCLA, um questionário que avalia as perceções do isolamento social e solidão, e simultaneamente estudaram o comportamento do sistema imunitário através de análises ao sangue, para verificar os níveis de anticorpos produzidos quando os vírus do herpes são reativados.
Os vírus em causa estão presentes na maioria dos norte-americanos. Metade das infeções não produz doença, mas o vírus permanece adormecido no corpo e pode ser reativado, o que resulta em níveis elevados de anticorpos.
Os participantes mais sós tinham níveis mais elevados de anticorpos do que os menos sozinhos e esses níveis de anticorpos estavam relacionados com mais dor e sintomas de depressão e fadiga.
Os cientistas procuraram também determinar como a solidão afeta a produção de proteínas ligadas à inflamação associada ao stress e concluíram que os mais solitários tinham níveis mais elevados dessa proteína do que os outros.
E ainda dizem que “mais vale só do que mal acompanhado”, embora o estudo não refira a influência (positiva ou negativa) das más companhias…
Mas o aviso vai diretamente para os nossos governantes, principalmente os ministros da Saíde e da Segurança Social, para que não digam que não sabiam quando decidiam sobre medidas que implicam com o que a ciência lhes faculta para tomar as melhores opções, em favor das pessoas…
À cautela, escolham companhias, mas das boas…