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terça-feira, 9 de setembro de 2014

Manifesto de intelectuais da Polónia, 75 anos após a invasão…

Todos os que não disserem 'no pasarán' a Putin colocarão a União Europeia e os seus valores assumidos numa posição equivalente a cair no ridículo e consentirão a destruição da ordem internacional
Porquê morrer por Danzig? – Esta frase tornou-se um símbolo da atitude da Europa Ocidental na guerra que começou há 75 anos. As políticas, francesas e britânicas, de apaziguamento incentivaram o ditador nazi a invadir a Áustria, a ocupar os Sudetas e, por fim, a esmagar a Checoslováquia sem graves consequências para Hitler e para o III Reich. Mesmo quando o som das balas ressoou pela cidade livre de Danzig, a 1 de setembro de 1939 e após o pacto germano-soviético ter sido assinado, os poderes ocidentais reuniram apenas coragem suficiente para embarcar numa espécie de guerra falsa, a fingir. A convicção deles de que seria possível salvar a sua própria pele fechando os olhos à destruição de Danzig levou Hitler ao seu ato de agressão seguinte. Seguiu-se a captura de Varsóvia, depois a de outra capital europeia, Paris, e pouco tempo passado os nazis começaram a bombardear Londres. Só então os Aliados gritaram em voz alta: “Isto tem de parar! Vamos ganhar esta guerra de uma vez por todas!”
A Europa Ocidental nunca mais deve voltar a abraçar tais políticas, egoístas e de curto prazo, em relação a um agressor.
Infelizmente, os desenvolvimentos atuais e a subida de tensão na Ucrânia trazem-nos à memória a situação de 1939. Um estado agressivo – a Rússia – invade a Crimeia, uma parte do território do seu vizinho mais pequeno. O exército e os serviços especiais do Presidente Putin operam no leste da Ucrânia, muitas vezes de forma dissimulada, dando o seu apoio a formações terroristas que aterrorizam a população local e ameaçando abertamente uma invasão.
Num aspeto esta situação está diferente em relação a 1939: enquanto os parceiros ocidentais continuaram a acreditar no “lado humano” do agressor, ele conseguiu, nos últimos anos, atrair muitos políticos e homens de negócios da Europa Ocidental para a sua órbita de interesses. Desta maneira, o lobby criado conseguiu influenciar as políticas de muitos países da Europa de Leste. O princípio fundamental desta política tem sido “A Rússia primeiro” ou mesmo “A Rússia e nada mais” – e esse princípio agora ruiu. A Europa precisa urgentemente de uma Ostpolitik nova e realista.
Por isto, apelamos aos nossos vizinhos, aos concidadãos da Europa e aos seus governos:
1. O Presidente François Hollande e o seu governo estão tentados a tomar uma medida que será ainda pior que a passividade francesa em 1939. Nas próximas semanas, a França pode tornar-se no único país europeu a ajudar o agressor, vendendo navios porta-helicópteros Mistral à Rússia de Putin. Em 2010, a França iniciou uma parceria com a Rússia nesta questão que, já então, originou várias manifestações de protesto. O anterior presidente francês, Nicolas Sarkozy, normalmente não lhes dava importância pois, afinal de contas, “a Guerra Fria tinha acabado”.
Acontece que agora começou uma Guerra Quente na Ucrânia e não há razão para a França ainda querer implementar o acordo antigo. Vários políticos e Bernard-Henri Lévy sugeriram que os 2 navios deviam ser vendidos à NATO ou à UE. Se o Presidente Hollande não alterar a sua opinião rapidamente, os cidadãos europeus devem forçá-lo à mudança com uma campanha de boicote a produtos franceses. A França deve respeitar a sua grande tradição e manter-se fiel à ideia de liberdade europeia!
2. Por volta de 1982, a República Federal da Alemanha começou o seu trajeto de crescente dependência de gás russo. Já na altura, intelectuais polacos como Czesław Miłosz e Leszek Kołakowski alertaram para a construção de novos gasodutos russos e apelidaram-nos de “instrumentos para chantagem futura à Europa”. Os mesmos alertas vieram de 2 presidentes polacos, Aleksander Kwaśniewski e Lech Kaczyński. No entanto, os políticos alemães têm demonstrado ter em grande conta a cooperação com as autoridades russas, seja pelo complexo de culpa alemão ou porque acreditam no “milagre económico russo”. Desta maneira, e talvez inconscientemente, estavam a perpetuar a infeliz tradição alemã de tratar a Rússia como o seu único parceiro na Europa de Leste. Nos últimos anos, as empresas do estado russo e os seus oligarcas têm criado raízes ainda mais profundas na economia alemã, desde o setor da energia até ao mundo do futebol e à indústria do turismo. A Alemanha deve conter este tipo de entrelaçamento que resulta sempre em dependência política.
3. Todos os cidadãos europeus e todos os países europeus devem participar em campanhas que visam aliviar a ameaça que paira sob a Ucrânia. Centenas de milhares de refugiados de regiões de leste do país e da Crimeia necessitam de ajuda humanitária. Como consequência de vários anos de contratos danosos de fornecimento de gás assinados com a Gazprom, a monopolista russa que cobrou à Ucrânia – um dos compradores menos afluentes do seu gás – o preço mais alto, a economia ucraniana está a passar um período muito difícil. A economia ucraniana necessita urgentemente de ajuda. Precisa de novos parceiros e de novos investimentos. As iniciativas cívicas, culturais e dos meios de comunicação – cheias de vida e verdadeiramente formidáveis – precisam também de parcerias e de apoio.
4. Durante muitos anos, a União Europeia tem dado a entender à Ucrânia que nunca será um membro da UE e que qualquer apoio da UE será meramente simbólico. As políticas da Parceria a Leste da União Europeia mudaram pouco nesta área visto que, na prática, esta é apenas um substituto sem significado. No entanto, subitamente, a questão tornou-se relevante, devido sobretudo à posição inabalável dos democratas ucranianos. Pela primeira vez na história, cidadãos de um país estavam a morrer com a bandeira da União Europeia na mão. Se a Europa não for solidária com os ucranianos agora, isso significa que já não acredita nos valores da Revolução de 1789 – os valores de liberdade e de fraternidade.
A Ucrânia tem o direito de defender o seu território e os seus cidadãos contra a agressão exterior, com o recurso das forças policiais e militares e nas regiões fronteiriças com a Rússia. Aqui ao lado, na região de Donetsk assim como no resto do país, a paz tem sido uma constante desde a independência da Ucrânia, em 1991: não houve um único conflito violento, seja pelo passado do país relativamente aos direitos das minorias ou por qualquer outra razão. Ao soltar os cães de guerra e ao testar um novo tipo de agressão, Vladimir Putin transformou a Ucrânia num campo de tiro semelhante à Espanha durante a guerra civil, quando grupos fascistas, com o auxílio da Alemanha Nazi, atacaram a república. Atualmente, todos os que não disserem ‘no pasarán’ a Putin colocarão a União Europeia e os seus valores assumidos numa posição equivalente a cair no ridículo e consentirão a destruição da ordem internacional.
Ninguém sabe quem estará no poder na Rússia daqui a 3 anos. Não sabemos o que será da elite do poder russo atual, que abraça políticas conflituosas e inconsistentes com os interesses do seu povo. No entanto, sabemos uma coisa: quem seguir hoje a política de “continua tudo na mesma” em relação ao conflito entre a Rússia e Ucrânia está a fechar os olhos a milhares de russos e ucranianos que estão a morrer, a centenas de milhares de refugiados e a ataques consecutivos das forças imperialistas de Putin a outros países.
Ontem foi Danzig, hoje é Donetsk: não podemos permitir que a Europa viva, outra vez, com uma ferida aberta e a sangrar durante décadas.
Gdansk, 1 de setembro de 2014
Os subscritores deste apelo são: Władysław Bartoszewski; Jacek Dehnel; Inga Iwasiów; Ignacy Karpowicz; Wojciech Kuczok; Dorota Masłowska; Zbigniew Mentzel; Tomasz Różycki; Janusz Rudnicki; Piotr Sommer; Andrzej Stasiuk; Olga Tokarczuk; Ziemowit Szczerek; Eugeniusz Tkaczyszyn-Dycki; Magdalena Tulli; Agata Tuszyńska; Szczepan Twardoch; Andrzej Wajda; Kazimierz Wóycicki; Krystyna Zachwatowicz.
Tradução de Francisco Ferreira
Imagem 1 e 2

domingo, 7 de setembro de 2014

O (des)Acordo Ortográfico não estará à beira da patologia?

Embora a presidente Dilma Rousseff tenha adiado por 3 anos (de 2013 para 1 de janeiro de 2016) o início da obrigatoriedade da nova ortografia, fruto do acordo entre os países de língua portuguesa e vigorando em caráter facultativo desde 2009, o Brasil já fez uma parte importante do seu trabalho de casa neste processo. As escolas, a imprensa, toda a comunicação e o setor de livros adotaram as mudanças com agilidade e eficácia.
Karine Pansa
A sociedade, as instituições e o mercado editorial entenderam e assimilaram muito bem as transformações, ao contrário de outras nações lusófonas, nas quais houve mais resistências. Em Portugal, por exemplo, questionou-se muito a extinção do “C” e do “P” mudos em numerosas palavras, como “tacto”, “exacto”, “óptimo” e “excepção”. Os portugueses têm certa razão em reclamar, pois as letras extirpadas eram utilizadas no seu país para marcar as sílabas tónicas de numerosos vocábulos. Embora constassem dos dicionários e do vocabulário oficial brasileiros, as formas escritas das palavras nas quais essas letras não eram pronunciadas oralmente já estavam há muito tempo em desuso no Brasil.
Com rigor, o “C” e o “P” extintos foram os de Portugal e não os nossos. Amigos do mercado editorial e da imprensa de Lisboa, externando de modo bem-humorado a sua indignação, argumentavam: “Queremos igualdade de condições e direitos. Se não podemos ser exactos no nosso idioma, então vocês não podem ter um pacto, mas sim um pato social”. Avicultura sociopolítica à parte, os lusos, a despeito dos seus questionamentos, e todos os demais governos da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, com exceção de Angola, já ratificaram o acordo ortográfico.
O mais importante de tudo isso é entender que as mudanças que unificaram a ortografia não alteraram a gramática e a riqueza do Português, com a sua incrível multiplicidade de expressões homónimas e parónimas e infinitas possibilidades sintáticas para a composição das frases e sentenças. Isso reflete-se numa estrutura formal grandiosa, que faz da literatura de língua portuguesa uma das mais belas, emocionantes e atrativas. Ademais, o alto grau de redundância linguística de nosso idioma permite que os textos sejam lidos rapidamente e na diagonal, sem prejuízo de se assimilar a informação mínima, e também facilita o mecanismo da previsibilidade (ou seja, mesmo quando, se faltam letras numa palavra, a pessoa consegue ler de maneira correta). Tudo isso vai a favor do consenso nacional quanto à necessidade de estimular a leitura.
Considerando a adequada e rápida adaptação do Brasil e levando-se em conta que até os portugueses, com razoáveis razões para questionar, já ratificaram o acordo ortográfico, são incompreensíveis as propostas que às vezes surgem no nosso Legislativo ou na retórica de pretensos estudiosos do tema, de se produzirem novas mudanças. O mais grave é que essas sugestões são radicais quanto à simplificação da língua. A sua adoção seria um ato insensato, que produziria ao longo de poucas gerações um estrago que nem mesmo as transformações naturais que o tempo impõe aos idiomas foram capazes de provocar no Português. A nossa língua traduz a alma da lusofonia, tão identificada e enfática no meio da pluralidade do povo brasileiro, hoje seu principal guardião, com 200 milhões de vozes!
É injustificável a proposta de simplificação do Português ante a dificuldade da sua aprendizagem. Não podemos resignar-nos à derrota que isso significaria na educação e na cultura nacionais. Devemos, sim, melhorar a qualidade do ensino, para que as nossas crianças, jovens, académicos e profissionais possam utilizar na plenitude todo o potencial que o idioma oferece. Precisamos fechar a questão, num verdadeiro pacto em defesa da nossa língua e em favor da escola de excelência. Se abrirmos mão dessa responsabilidade, pagaremos o pato social, sem “C mudo” e sem direito ao bom humor. 
Karine Pansa, empresária do setor editorial, presidente da Câmara Brasileira do Livro (CBL)

domingo, 31 de agosto de 2014

Morrer para nos mostrar a outra “verdade” da vida dos outros…

Eu tive medo. Não sei como é possível dizer que não se tem medo em situações como aquela. Mais do que coragem, é preciso muita inconsciência ou loucura para largar tudo e fazer a cobertura jornalística de um qualquer conflito armado. Ser jornalista numa guerra deixou de ser uma missão nobre. Agora somos apenas alvos fáceis e moeda de troca para terroristas que procuram publicidade a qualquer preço.
João Adelino Faria
Estava a trabalhar em Londres quando recebemos a informação de que um colega nosso tinha sido raptado. De imediato, tentámos tudo para ajudar na libertação. Todos concordámos em não mostrar o vídeo que nos tinha sido enviado. Um amigo dele pegou no telefone para avisar a família, mas era tarde de mais.
Uma estação televisiva ignorou o pedido e mostrou de imediato ao mundo as imagens do nosso colega. Um homem aterrorizado, de joelhos, com uma arma apontada por terroristas cobardes, escondidos atrás de máscaras. As imagens chegaram, assim, primeiro à família do que as nossas palavras de aviso e conforto.
Não vale a pena descrever o que qualquer ser humano sente - muito menos uma família - ao ver inesperadamente imagens como aquelas. Imagens que agora recordei, ao ver o jornalista norte-americano James Foley a ser decapitado. Como ele há muitos outros jornalistas ainda reféns e que receiam ter o mesmo destino. O que os terroristas querem é publicidade e aterrorizar governos para que pague milhões a troco de mais libertações. Com este dinheiro compram mais armas, tornam-se mais fortes, matam mais gente e raptam mais inocentes. Oficialmente, nenhum governo admite pagar resgates mas sabe-se que França, Alemanha, Itália e Espanha podem já ter desembolsado milhões em troca da libertação de reféns.
Hoje as televisões não conseguem evitar este tipo de notícias. Neste caso da decapitação, por mais que se divulgue apenas os primeiros minutos do vídeo, estamos, ainda que involuntariamente, a ajudar os assassinos. É uma decisão complicada escolher entre ignorar uma notícia mundial ou, em nome do direito à informação, divulgar as imagens mesmo sabendo as consequências que acarretam.
Pior ainda é a ajuda dada pelas redes sociais a estes terroristas. Mesmo que as grandes televisões e jornais não mostrem, as imagens dos raptos partilhadas na internet tornam-se ainda mais eficazes para os raptores. Organizações que aprenderam o poder dos vídeos virais e por isso utilizam agora como ninguém Facebook, Instagram, YouTube e Twitter. Aqui a censura é mais difícil e, em segundos, conseguem aterrorizar o mundo com imagens de decapitações e raptos. Não podemos ignorar que a simples partilha destes vídeos na internet, mesmo que seja para criticar, ajuda muito os terroristas e incentiva ainda mais raptos e execuções.
Quando passei por cenários de guerra - Bósnia, Médio Oriente, Irlanda do Norte, País Basco - tive medo. Mas sabia que mesmo os terroristas reconheciam que os jornalistas eram essenciais ali. O cenário mudou por completo. Hoje, ser jornalista nestes locais perigosos quase não serve para nada. Passou a ser puro suicídio.

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Lá se faz, lá se paga! “…e nós aqui temos tudo!”

O Bank of America (BofA) aceitou pagar um valor recorde de 17.000 milhões de dólares (12.800 milhões de euros), 9.650 milhões dólares às autoridades e os restantes 7.000 milhões aos clientes afectados, para encerrar um litígio proveniente da crise dos empréstimos imobiliários de má qualidade, designados ‘subprime’.
Ficam ainda por resolver possíveis eventos criminais, especialmente relacionados com a Countrywide. O Departamento de Justiça acusou o BofA de ter vendido produtos financeiros, suportados por aqueles créditos imobiliários sem qualidade, que estiveram na origem da crise financeira de 2007-2008 e causaram prejuízos de milhares de milhões de dólares para os seus compradores.
Esta penalidade é um valor recorde, depois de o JPMorgan Chase ter pago 13.000 milhões de dólares em 2013.
O Lombard Odier e o Pictet Group, 2 dos maiores bancos da Suíça, vão tornar públicos os seus resultados financeiros, depois de 2 séculos - desde a respetiva fundação - de segredo. Os 2 bancos passam agora a publicar relatórios semestrais, que terão de ser divulgados até 2 meses depois do final de cada semestre.
Depois de um escrutínio sem precedentes por parte das autoridades europeias e norte-americanas ao sector da banca privada na Suíça, as 2 instituições prescindiram das estruturas de parcerias que implicavam que os seus parceiros assumissem a responsabilidade das perdas em janeiro deste ano. As contas do Pictet Group serão tornadas públicas ainda este mês e, no caso do Lombard Odier, será no dia 28. Não se conhecem ainda os números que serão divulgados, o que se sabe é que os 2 bancos supervisionam cerca de 630.000 milhões de dólares (474.900 milhões de euros) de clientes privados e institucionais, incluindo algumas das famílias mais ricas do mundo.
Começa assim uma nova era de regulação para a banca suíça, que terá de adaptar os seus modelos de negócio e passar a partilhar informação dos seus clientes com autoridades fiscais de outros países.
Neste momento, o Pictet está entre um grupo de bancos suíços sob investigação do Departamento de Justiça norte-americano, por, alegadamente, ajudar cidadãos norte-americanos a fugir ao fisco. O Lombard Odier, por seu lado, entrou voluntariamente para um programa de divulgação de dados, juntamente com mais de uma centena de bancos suíços.
O Wall Street Journal voltou a escrever mais um artigo sobre o colapso do BES. Desta vez, o jornal revela o papel que o banco suíço Crédit Suisse terá tido na derrocada do BES ao juntar milhões de dólares em títulos de dívida do Grupo Espírito Santo (GES) que foram vendidos, em veículos financeiros, a clientes do BES. 3 dos veículos estão sedeados numa offshore francesa e chamam-se Top Renda, Euroaforro Investments e Poupança Plus Investments. O Crédit Suisse foi o "arranger e dealer" destes produtos e o 4.º, chamado EG Premium, está sedeado nas Ilhas Virgens, um offshore britânico.
Nos EUA, devagar e bem, lá vão obrigando os bancos a pagar as vacas aos donos, ao Estado e aos clientes…
“…e nós aqui temos tudo!”
Na Suíça, ao fim de 200 anos, começa uma nova era de regulação para mais de uma centena de bancos, que vão tornar públicos os seus resultados financeiros e passam a partilhar informação dos seus clientes com autoridades fiscais de outros países, para evitar que ajudem cidadãos desses países fujam ao fisco…
“…e nós aqui temos tudo!”
Em Portugal, presume-se que um banco suíço ajudou um outro banco português, que foi à falência, conhecem-se os offshores que “ajudaram” à fuga de impostos e os responsáveis de um banco nem do outro sentam o rabinho no banco dos réus, nem se conhecem os nomes dos fugitivos ao fisco, obrigando-os a repor o que os contribuintes adiantaram por eles…
Lá se faz, lá se paga.
“…e nós aqui temos de tudo!”
Nota – São mais alguns exemplos da inocência dos bancos na crise, da honorabilidade sob suspeita dos banqueiros, do que são os serviços privados e de que não fomos nós que “vivemos todos acima das nossas possibilidades”.

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Voltaram os aliciadores do crédito, com a ajuda do anonimato…

"O Banco de Portugal adverte que a entidade que se apresenta com as designações 'Scandi Finance' e 'Scandi Credit' não se encontra habilitada a exercer, em Portugal, a atividade de concessão de crédito ou qualquer outra atividade financeira reservada às instituições sujeitas à supervisão do Banco de Portugal", informa o supervisor em comunicado.
Ainda quanto a eventuais propostas de emprego divulgadas por esta entidade, o banco central adverte que essas propostas podem configurar um "esquema fraudulento", ao solicitar dados de contas bancárias para "a movimentação de fundos de proveniência ilícita".
Desde novembro de 2007 que o Banco de Portugal alerta para estas falsas ofertas de trabalho, que usam contas bancárias para transferências de fundos de proveniência eventualmente ilícita.
O Banco de Portugal instaurou, nos primeiros 6 meses do ano, 25 processos de contraordenação contra 14 instituições.
"Dos processos instaurados, 18 tiveram por objeto o incumprimento de preceitos imperativos que regem a atividade das instituições de crédito, 2 processos incidiram sobre a observância das regras de conduta previstas no Regime Geral das Instituições de Crédito e Sociedades Financeiras (RGICSF) e 5 processos respeitaram ao incumprimento de preceitos imperativos relativos à prestação de serviços de pagamento", salienta o documento.
Recomendações
O Banco de Portugal adianta ainda que emitiu 357 recomendações e determinações específicas, as quais foram dirigidas a bancos, caixas económicas, caixas de crédito agrícola mútuo e instituições financeiras de crédito. Estas recomendações e determinações específicas incidiram sobre crédito aos consumidores (36,4%), crédito hipotecário (26,9%), regras de transparência dos preçários (18,8%), publicidade (7,8%), depósitos (5,3%) e serviços e meios de pagamento (4,8%).
Publicidade
Na publicidade, as 28 recomendações e determinações específicas emitidas no primeiro semestre de 2014 visaram a correção de um total de 48 suportes publicitários, 4ro dos quais de carácter institucional.
Preçários
Na sequência das ações de fiscalização ao preçário das instituições, foram emitidas 67 determinações específicas dirigidas a 19 instituições.
E pronto! Ficamos a saber, pelo BdP, que a Da. Branca, o BPP, o BPN e o BES transmitiram o vírus da fraude, concretamente a uma entidade de quem não vemos publicidade e disse os nomes e tudo…
Em contrapartida, o mesmo BdP vem revelar que instaurou 25 processos a 14 instituições que bancárias e financeiras, que andam a enganar quem anda “com a corda ao pescoço”, discriminando os “truques”, mas omitindo a “graça” das respetivas, o que até pode estar no relatório, mas devia constar da notícia, para sabermos com quem andamos a “negociar”, enterrando-nos.
Há pelo menos uma ou duas dessas (?) instituições, que antes de a crise rebentar aliciaram muita gente e no pós-crise levaram-nas à bancarrota, com publicidade enganosa ou ardilosa, e em horário nobre das TVs. Quando rebentou a bolha, as tais (in)cumpridoras de promessas calaram-se durante uns 2 anos, voltaram com um paleio mais do tipo “consciência social das empresas” e ei-las de novo nos media, a voltarem a prometer o céu na terra, com a ajuda de “para-quedas”…
E tudo isto tem a ver com o tão apregoado “vivemos acima das nossas possibilidades”, porque assediados por estas sanguessugas levou muita gente a dar uns passos maiores do que as pernas, e que se tivessem sido proibidas da tal publicidade ranhosa, não teria atirado para o inferno tanta gente incauta ou necessitada de “morfina”…
É que oferecer bolos (envenenados) a quem tem fome, se responsabiliza o pedinte, incrimina mais o “pasteleiro” que pôs o veneno!
Se é certo que a iliteracia financeira grassa pela maioria dos cidadãos, também é certo que as manhas dos financeiros conseguem enganar até o “lobo mau”, que de tão lobo ou tão mau, omite os nomes dos ressuscitados pregadores do Éden prometido.
Digam-nos “todos os nomes”! 

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Uma proposta para “restaurar” a exigida MISSÃO da ONU…

O papa Francisco defendeu uma intervenção da ONU para acabar com o que chamou de "agressão injusta" contra civis no Iraque e disponibilizou-se para visitar o país, se necessário.
"Onde há um agressor ilegítimo, é legítimo detê-lo. Sublinho o verbo 'deter', e não bombardear ou travar uma guerra", disse o pontífice, fazendo referência às forças extremistas do chamado "Estado Islâmico" (EI).
O Papa admitiu que prefere uma intervenção conjunta da ONU a uma ação unilateral como a que já está a ser realizada pelos Estados Unidos. A ONU, segundo ele, precisa discutir maneiras para deter o "agressor". "Uma única nação não pode julgar como terminar" com uma agressão, frisou o Papa, referindo-se aos Estados Unidos. Para isso foi criada a ONU depois da II Guerra Mundial, para chegar a soluções conjuntas, disse. "É preciso lembrar quantas vezes, com a desculpa de deter um agressor, potências deram início a uma verdadeira guerra de conquista."
Na última semana, os EUA realizaram bombardeamentos seletivos no norte do Iraque, para combater as forças dos extremistas EI, que combate em vários pontos do Norte do país, para ampliar o "califado" que proclamou.
O papa afirmou que, "se for necessário", viajaria ao Iraque no sentido de apoiar os refugiados cristãos do Curdistão. "Porém, neste momento, não é a melhor coisa a fazer", disse.
Perante a barbárie que se vai alastrando, sobretudo a leste, e a leste de iniciativas de âmbito internacional que lhe ponham cobro, grassando apenas iniciativas nacionais, sem legitimidade e avulso e sem valores confessados, vem o Papa Francisco, mais uma vez, chamar a atenção para o respeito pelo direito internacional e pela “renovação” da missão da ONU, única entidade com delegação para intervenções humanitárias ou bélicas, quando é o caso, como é…
Sabendo-se que os “cabeças” do Califado têm massacrado preferencialmente cristãos, é natural que o maior representante do catolicismo intervenha, em defesa dos seus fiéis, mas também a favor de todos os seres humanos, incitando a ONU a uma “guerra” santa e humanitária, que neutralize os autores deste genocídio, através de métodos diferentes, que passam pelo foro da justiça…
Só é pena que não tenha feito o mesmo apelo para todos os outros conflitos e genocídios, na Ucrânia, na Síria e em Israel… Toda a gente é gente em qualquer sítio, seja qual for a opção religiosa.
Não fossem os massacres e o “Califado” seria uma anedota de humor negro…
É um plano ambicioso: o mapa difundido nas redes sociais por radicais islâmicos mostra as ambições de um califado do século XXI, que iria da Ibéria ao Vale do Indo.

domingo, 17 de agosto de 2014

Combater a “nova” ordem mundial, fora e dentro de portas!

Ucrânia, Síria, Iraque: tanto os conflitos violentos quanto a constante formação de alianças inesperadas marcam o mundo atual. O Ocidente precisa reagir a essa realidade.
Alexander Kudascheff
O mundo está a ser abalado por crises dramáticas. Na Ucrânia. E ainda mais no Médio Oriente, mesmo que um novo cessar-fogo de 5 dias entre Israel e o Hamas permita uma pausa para respirar. Na Síria, a guerra civil prossegue com intensidade homicida, embora quase que despercebida: em breve se atingirá a marca de 200.000 mortos, num país em dissolução.

E no norte do Iraque, o mapa territorial está a ser retraçado por uma soldadesca inimaginavelmente brutal, que ultrapassa todos os limites em nome de Alá, e cuja área de dominação já se estende da cidade de Aleppo até ao Curdistão iraquiano: o chamado "Estado Islâmico" (EI). O EI pretende destruir a ordem vigente, não reconhece fronteiras, Estados ou governos: para ele, o que conta é apenas a sua própria interpretação do Alcorão.
E isso abala a diplomacia, pois, de repente, as antigas conceções não valem mais. Os Estados Unidos apoiam os curdos – e, portanto, indiretamente, os xiitas em Bagdad e em Teerão – na luta contra os terroristas do EI. O país dá essa ajuda à própria revelia, pois, na realidade, ele quer uma troca de poder e de política no Iraque, e as suas relações com o Irão prosseguem tensas e abaladas.
Na Síria, os EUA também não sabem se insistem na queda do tirano Bashar al-Assad, pois isso abriria o caminho para a Frente Al-Nusra, que eles combatem no norte do Iraque. Uma desordem diplomática para a qual não há respostas fáceis.
O prémio Nobel da Paz, Barack Obama, decidiu-se cedo por uma retirada de tropas do Iraque. Ele não acredita nos êxitos das intervenções militares e, no entanto, teve que interferir agora. O papel dos EUA no Médio Oriente desgastou-se. Antes, o país era considerado insubstituível, devido às suas estreitas conexões estratégicas com Israel e com as monarquias e países árabes conservadores e com lideranças autoritárias, como o Egito, a Jordânia e a Arábia Saudita.
Porém, Obama tem fama de fraco, indeciso, hesitante e incapaz de se impor. Nem mesmo Israel lhe dá ouvidos – como tem mostrado, nos últimos 12 meses, a vã "diplomacia de ponte aérea" do incansável secretário de Estado John Kerry. Israel segue sendo o parceiro dos EUA, porém, age de forma mais autónoma do que nunca.
Na grande crise europeia em torno da Ucrânia, por outro lado, o presidente da Rússia, Vladimir Putin, revela-se um mestre da falta de transparência tática. Depois da anexação da Crimeia, será que também pretende avançar sobre o leste ucraniano? Será que só quer desestabilizar a região? Ou quer desestabilizá-la para depois anexá-la?
Será que o desafio de Moscovo se dirige apenas ao malquisto governo em Kiev, ou por trás dele esconde-se a gritante ambição de poder de um novo imperialismo russo, que se insere no vácuo político aberto pelos EUA, tão ocupados consigo mesmos, e pela hesitante e indecisa União Europeia?
As sanções do Ocidente contra os russos apresentam os primeiros efeitos, mas o clima vai-se congelando; e apenas telefonemas, até mesmo da chefe de governo alemã, Angela Merkel, não bastarão para desfazer o nó ucraniano. Como a Rússia foi excluída do círculo do G8, é a UE que precisa, em primeira linha, encontrar uma via de acesso ao Kremlin.
A Alemanha, por sua vez, – que desde o início do ano vem debatendo, com maior ou menor alarde, sobre um maior engajamento político no mundo – é forçada a assumir um novo papel.
O país é uma potência líder e a sua opinião é ouvida. Contudo, Berlim precisa avançar ainda mais, não pode se esconder por trás da UE na esperança de não ter que assumir nenhuma responsabilidade. A Alemanha precisa assumir uma posição definida: na crise da Ucrânia, sem dúvida, e possivelmente mais ainda no caso do norte do Iraque.
Se o "Estado Islâmico" age com brutalidade quase sem precedentes, se seres humanos são massacrados, assassinados ou expulsos de seus domicílios, então, Berlim não pode acomodar-se no seu bem-estar e prosperidade e esperar tranquilizar a própria consciência com alguns milhões de entregas de ajuda humanitária.
No entanto, as intervenções militares das últimas duas décadas foram raramente acompanhadas de sucesso. Isso vale tanto para o Afeganistão como para a Líbia – onde o derrube de Muammar Kadafi transformou a ditadura de um homem só num "Estado caído".
O mundo ficou mais difícil de compreender. A nova ordem mundial é uma ordem em que novas alianças são constantemente formadas. Pois quem poderia ter imaginado, apenas há alguns meses atrás, que o mundo se colocaria do lado dos curdos? Ainda mais com a intenção de que combatentes peshmerga vitoriosos desenvolvam uma nova consciência curda e que talvez exijam a fundação de um Estado curdo transfronteiriço!
Entre os polos da superpotência americana em retirada, as pretensões neoimperialistas de Moscovo e uma China que, por enquanto, muitas vezes ainda, age à sombra da política mundial, é necessária uma política externa nova e livre de preconceitos por parte da UE e, sobretudo, da Alemanha. E isso numa época sem certezas diplomáticas.
Quem fala assim tem alguma razão, no que respeita ao desrespeito pelos Direitos Humanos, não só nas áreas de conflitos bélicos, de caráter religioso ou político, que por isso são mais visíveis e manipuladores das consciências, mas também e sobretudo no que aos valores da vida humana, aos direitos conquistados e às condições de sobrevivência de milhares de milhões de pessoas, que sem outro motivo senão a ganância, mata mais gente do que as guerras reais ou imperiais…
É fácil perceber que é a miséria extrema que alimenta as guerras, gerando líderes fortes de maus instintos e motivando o alistamento de gente sem esperança…Também é fácil perceber que é a riqueza desmesurada que alimenta as guerras, aproveitando-se de líderes fracos com “boas intenções” e convencendo os contribuintes de que o bem-estar futuro passa pelo mal-estar do presente…
Os motivos (pseudo) religiosos tanto se encontram no Oriente como no Ocidente, de um e de outro lado com mais uns pozinhos de outros interesses sem qualquer interesse para a humanidade…
No caso, que mais responsabilidades cabem à Alemanha, que não sejam de toda a União Europeia, que como Obama, foi Nobel da Paz?

sábado, 16 de agosto de 2014

Oje é aqela ora de os omens escreverem portugês com ezatidão

Não são apenas os portugueses que se queixam do novo acordo ortográfico: do outro lado do oceano, os brasileiros também estão insatisfeitos com as novas regras de português e preferem a versão pré-AO. Mas há um grupo curioso, que engloba aqueles que consideram que o acordo deveria ter sido mais radical, tornando a Língua Portuguesa ainda mais simples.
Imagine que se decidia, simplesmente, eliminar a letra “h” do início das palavras – “oje” ou “omem”, como já acontece em “úmido” na ortografia brasileira. Porque é difícil explicar porque é que às vezes o “s” soa a “zebra”, passamos também a palavras como “cazamento”, “ezato” e “tezoura”.
Já agora, podemos também retirar o “u” depois do “q”, que nos deixaria palavras como “qeijo” ou “aqele”. O “ch”, tão chato, deixaria de existir, surgindo vocábulos como xá, xuva e xato - que, convenhamos, já são familiares para muitos dos utilizadores de chats na Internet.
A ideia de simplificar a língua nasce da dificuldade em ensinar Português: desde a primária até ao fim do secundário, os alunos ocupam as aulas com uma média de 400 horas a estudar ortografia.
Pelo menos é o que afirmam os promotores do Simplificando a Ortografia, uma iniciativa para tornar a língua mais prática e reduzir o tempo “desperdiçado” a ensinar a ortografia para cerca de 150 horas ao longo do ensino obrigatório, ganhando mais tempo nas aulas de Português para incentivar a “leitura, análise, compreensão, interpretação e criação de textos”, promovendo competências comunicativas.
“Oficializando”
Parece loucura? O congresso brasileiro acha que não.
Uma comissão técnica do Senado está a estudar novas mudanças ortográficas na Língua Portuguesa, reunindo o Centro de Estudos Linguísticos da Língua Portuguesa (CELLP), a Academia de Letras de Brasília (ALB) e o site Simplificando a Ortografia, e conta com nomes importantes como Ernani Pimentel, Pasquale Cipro Neto, o conhecido “Professor Pasquale”, e Everardo Leitão, especialista em redação de textos.
É claro que a ideia não passa despercebida e já há quem se oponha veementemente – uma das vozes mais sonantes é a do “guru” Evanildo Bechara, autor da Moderna Gramática Portuguesa e membro da Academia Brasileira de Letras (e, já agora, da Academia das Ciências de Lisboa e Honoris Causa pela Universidade de Coimbra).
O irónico é que a ideia surgiu justamente por causa do polémico novo Acordo Ortográfico, cuja aplicação também está a causar confusão no Brasil. “Não há um só professor de Português, uma única autoridade, um único cidadão capaz de dizer: eu entendo e sei aplicar as novas regras ortográficas”, afirma Ernani Pimentel, presidente do Centro de Estudos Linguísticos, esclarecendo as razões da controvérsia. “Aluno nenhum consegue aprender o que professor nenhum sabe ensinar”.
Se ainda acha que isto não passa de uma grande piada, verifique o site: http://simplificandoaortografia.com.br ou Simplificando a Ortografia | Facebook.
De acordo com o Senado brasileiro, as melhores propostas serão escolhidas no Seminário Internacional Linguístico-Ortográfico da Língua Portuguesa, em setembro, e postas à consideração dos governos dos países de expressão portuguesa – que terão cerca de um ano para decidir o que deve ser simplificado.

terça-feira, 12 de agosto de 2014

”Os cavalos também se abatem” e os burros é que os carregam

O que o Governo tem de anunciar é o pedido dessa grande investigação ao Ministério Público, com a máxima urgência e garantindo-lhe todos os meios. E, se não o fizer, apenas poderemos concluir que receia ver-se envolvido ele próprio (leia-se PSD e CDS) nos negócios sob escrutínio.
O Banco de Portugal (BdP) emprestou 3.500 milhões de euros ao Banco Espírito Santo (BES) no dia 1 de agosto, 2 dias após a divulgação pública de um prejuízo naquela instituição de 3.600 milhões no 1.º semestre. Se o montante não for devolvido, será o BdP a arcar com os custos e, em última instância, o Estado, isto é, os contribuintes.
O BdP tinha, no final de 2013, capitais próprios de 1.500 milhões de euros e um resultado líquido de 253 milhões de euros, metade face ao ano anterior. Se tudo correr mal, quem paga é o contribuinte. Ou seja, o Estado poderá ter de ajudar o BdP caso este enfrente dificuldades devido ao incumprimento, neste caso por parte do BES.
O referido empréstimo não foi divulgado pelo governador do BdP a 3 de agosto, data em que Carlos Costa anunciou a criação do Novo Banco.
O Banco Central Europeu terá exigido ao BES que pagasse em apenas 3 dias um reembolso de 10.000 milhões de euros. A revelação consta da Acta do Banco de Portugal sobre os motivos que levaram à intervenção do BdP no BES, mas quem divulgou essa acta não foi o Banco de Portugal, mas um advogado.
O filho do ex-primeiro-ministro ‘laranja’ e ex-presidente da Comissão Europeia, de 31 anos, foi contratado, por convite, pela instituição de Carlos Costa, embora por padrão o Banco de Portugal costume abrir concurso.
No seu curriculum, Luís Durão Barroso conta com a licenciatura em Direito na Nova e o mestrado e doutoramentos, tirados na London School of Economics. Desde 2012 que é docente na Universidade Católica. Antes, profissionalmente, contava apenas com 2 estágios de verão nos escritórios de advocacia Linklaters e Morais Leitão, Galvão Teles, Soares da Silva & Associados.
Na análise à execução orçamental da administração central referente a 2013, é dito pelo Tribunal de Contas) TdC que os custos acumulados com a nacionalização do BPN ascenderam a 2.200 milhões de euros no final de 2013.
O TdC alertou hoje, em relatório, que poderão vir a surgir novos e "significativos" encargos para o Estado ainda decorrentes da nacionalização do BPN, vindos da sociedade-veículo Parparticipadas.
Chegados aqui, já não há dúvidas, até prova em contrário, de que o capitão Costa Concórdia e os outros “homens do leme” cometeram erros de pilotagem que têm que ser julgados… E com este mimo inoportuno do “job for the boy”, atingimos o limite da ética e as raias da moralidade… Um “ato falhado”, que demonstra o desprezo pelos cidadãos e um desafio aos limites da indignação.
Perante estes factos, já ninguém duvida de que o BPN (a ser verdadeiro o custo calculado pelo TdC) vai ser uma curta-metragem comparado com a cowboyada do BES.
No fim, às vezes, “Os cavalos também se abatem”, mas são sempre os burros que aguentam com a carga…
Não andaremos longe do mesmo END!
Se não quer viver numa sociedade onde os ricos têm todos os direitos e os pobres todas as culpas, exija justiça.
"Erros de gestão", "imprudência", "irregularidades", "risco de crédito", "falta de activos", "imparidades", "activos tóxicos", "incumprimento", "problemas de solvabilidade", "insuficiências de capital", "infidelidade", "gestão danosa", "abuso de informação privilegiada", "abuso de confiança". Há, no simples léxico usado pelo mundo político, pelo mundo financeiro e pelo mundo mediático para descrever o caso BES, narrativas implícitas que se impõem como explicações naturais para o descalabro do império Espírito Santo. Não são precisos verbos para descrever a acção quando se usam estes substantivos. Cada um deles conta a sua história própria, insinuando diferentes níveis de responsabilidade e respeitabilidade para cada um dos intervenientes.
A mais benévola dessas narrativas, hoje em perda, descreve uma organização liderada por gestores ousados e bem relacionados no país e no estrangeiro, que alargaram excessivamente as suas operações financeiras movidos por uma enorme ambição e com o apadrinhamento da liderança política, lançando-se numa trajectória de investimentos de alto risco que acabou mal devido à crise financeira nacional e internacional. É uma história de ambição e de cegueira, de ascensão e queda, uma saga de decadência. Outra narrativa descreve uma família habituada durante gerações a mandar nos destinos do país e que, mercê de uma complexa teia de favores financeiros e políticos, que distribuiu prodigamente, alargou a sua influência até um ponto em que a sua insuficiente competência e as rivalidades internas se combinaram para desagregar o império. É uma história de vaidades e infelicidades, de pobres diabos que por acaso são arrogantes milionários. Outra ainda descreve uma organização criminosa da alta finança, envolvida num esquema piramidal alimentado por uma reputação de poder e de influência que lhe garantiu a atracção de cada vez mais capital, capital esse cuja gestão foi descuidada e cujos investimentos produziram por isso cada vez menos rendimentos e que, também por isso, começou a ser crescentemente utilizado para comprar favores políticos que garantiram cada vez mais entradas de capital que foi descaradamente desviado para os bolsos dos líderes da organização e escondido em off-shores exóticas. É uma história de crime, de tráfico de influências e de chantagens, de ganância sem escrúpulos.
Conforme os narradores e os seus interlocutores, as narrativas cruzam-se, entretecem-se, tornam-se mais policiais e brutais ou mais palacianas e refinadas. A hesitação entre todas elas é uma prova da rede de influências que Ricardo Salgado espalhou pelo país e que ainda está por aí, em estado de vida latente, a ver para que lado caem as fichas. Ricardo Salgado poderá já não ser o "partido" com mais deputados na Assembleia da República, mas as notícias da sua morte podem estar a ser exageradas. Salgado negou ter 30 milhões de euros em Singapura, mas terá 300 milhões no Brasil? Ou mais? Até onde se estende ainda o império Espírito Santo? O caso BES vai ser o "escândalo BES" ou apenas a "crise BES"? Ricardo Salgado é um escroque ou um tolo? Cometeu erros ou cometeu crimes? O que o protegeu durante tanto tempo? Teve sorte ou teve cúmplices?
Apesar de se acumularem os sinais de "irregularidades" no BES (algumas denunciadas pela CMVM ao Ministério Público, ainda antes das suspeitas de insider trading dos últimos dias) a verdade é que a narrativa se arrisca a amornar, com a CMVM e o BdP e o Governo a lavarem as suas mãos e o contribuinte a pagar os luxos de que Ricardo Salgado fez beneficiar tantos amigos.
A prudência dos media é natural. Não se pode acusar alguém sem provas e não se pode dizer que alguém é um ladrão antes de a sentença transitar em julgado, o que pode não acontecer nunca, mesmo que o ladrão confesse o roubo e todos o tenhamos testemunhado. Mas é fundamental, em nome da sanidade da sociedade, da sanidade da justiça e da sanidade da política que haja uma investigação consolidada de todo o processo de falência do GES e do BES e não apenas investigações esparsas desta ou daquela "irregularidade", que irão concluir que um burocrata se esqueceu de carimbar um impresso.
O que o Governo tem de anunciar é o pedido dessa grande investigação ao Ministério Público, com a máxima urgência e garantindo-lhe todos os meios. E, se não o fizer, apenas poderemos concluir que receia ver-se envolvido ele próprio (leia-se PSD e CDS) nos negócios sob escrutínio. Recordam-se de Carlos Costa a garantir há um mês que nem o BES nem o GES tinham um problema de solvabilidade? E de Cavaco Silva? E de Passos Coelho? Que as responsabilidades políticas não sejam assumidas pelo Governo é algo a que estamos habituados, mas temos de exigir a responsabilização criminal de quem rouba de forma tão colossal e tão descarada. E a verdade é que falta dinheiro no BES e que nos vão pedir para tapar o buraco. Não chegará isso para exigir a investigação?

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

DDT mata(rá) tudo que é (fala) barato/a!

Isto está mau é para os ricos, que os pobres já não tinham nada. O governador do Banco de Portugal diz que há esquemas “muito difíceis de detectar antes de entrarem em ruptura”. Mas um banqueiro maléfico tem um plano para uma conta malvada de um banco mau.
Rui Cardoso Martins
Já tiraram o retrato completo a um tal Ricardo Salgado (nascido em Cascais, 25 de Junho 1944, meio morto na Comporta, Agosto 2014). Quase 10.000.000 de portugueses percebem, de repente, que ele sempre teve sobrancelhas de aldrabão, pestanas de trapaceiro, nariz de mentiroso, boca de traidor, olhos de embusteiro, orelhas de impostor, mãos de pantomineiro, cabelo de vigarista e, pior do que tudo, alma de pato-bravo. Reparem lá bem se não tem. É claro que tem, eu sempre disse, confessam os ex-admiradores do herói nacional da banca internacional Ricardo Salgado.
Mas de facto está na cara dele. Já aqui se escreveu na biografia, há semanas: em 1920 (5 anos depois da morte de José Maria), surgia o Banco Espírito Santo SR.L. Em 2014, esperam-se novidades do Banco Espírito Santo SSRS (Sociedade de Sarilhos de Ricardo Salgado).* E esta era a biografia boa, ainda não tínhamos chegado à biografia má.
As novidades não param e, se inventaram um banco bom e um banco mau, as notícias são todas más. Incluindo as “boas”: um dia acordaremos deste BESadelo (mau, começam os chistes) e quem pagou os prejuízos do banco “bom” foram os bons dos contribuintes, outra vez. A única coisa boa que agora todos pedem, ministros e governadores, gestores e analistas neutrais (fora Marcelo Rebelo de Sousa e Miguel Sousa Tavares, que lá sabem da complexidade da vida), mais os países Aliados e os do Eixo, é má para Ricardo Salgado: prendam o homem ou ainda nos dá uma coisinha má.
Pelo menos não falta assunto diário aos grupos de amigos barrigudos nas praias do Algarve que, de mãos na anca de investimentos, molham os pés na água fria do mar Salgado. O BES e o seu produto associado, os trocadilhos com o BES. E as graçolas com o Espírito Santo e o diabo a quatro. E a crise de Jesus e do Benfica. Espera, é tudo a mesma coisa: a liquidação geral da equipa do Benfica em hasta pública é um derivado tóxico da queda do BES.
Mas a melhor síntese do magno problema “Portugal, Agosto de 2014”, deu-a um mendigo. Antes de almoçar, mas não antes de beber meio pacote de carrascão, um filósofo que dorme na rua trocou isto por um euro: “Isto está mau é para os ricos, que os pobres já não tinham nada.”
Um euro por sabedoria, ainda há coisas baratas. Vale a pena investir em Portugal. A propósito, compare-se este mendigo com o nível de abstracção filosófica atingido por um “investidor de décadas” que perdeu “muitos milhares de euros” na última recapitalização do Banco Espírito Santo. Chamava-se Sousa Figueira, ou Sousa Pereira, ou Oliveira e Sousa, ou Sousa Oliveira, um desses indubitáveis nomes de pequeno-médio accionista ligado ao universo do direito administrativo e fiscal, ou coisa que o valha. Pelo menos tinha uns livros muito grossos, forrados de marroquim, atrás das costas. Tudo o que ele investiu se derreteu no NBM (Novo Banco Mau), fundado pelo governador de Portugal, e queixava-se à RTP: “Nós vivemos no princípio da confiança bancária, e quando alguém se atravessa a dizer que tudo está bem, nomeadamente o primeiro-ministro, nomeadamente a ministra das Finanças, nomeadamente o governador do Banco de Portugal, Carlos Costa, que a solidez do banco nunca esteve em causa, que existe uma almofada [financeira] suficiente para resolver todos os problemas, logicamente que o meu dia-a-dia continuou a ser normal, sem qualquer tipo de preocupação.”
Parágrafo de espanto: !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Homem, cidadão Figueira Oliveira, acorde: um pedinte que no dia-a-dia tem que dormir na rua percebe mais de almofadas do que o senhor. A primeira frase é da maior ironia ou da mais fina alienação. Não só viveremos no princípio da confiança bancária (desde quando?) como ainda acredita quando o primeiro-ministro diz que está tudo bem.
Isto é, ele investe dinheiro pela palavra dada por Passos Coelho, que não mente (desde quando?) e depois continua a viver sem preocupação. Agora percebemos ao que isto chegou, obrigado, dr. Oliveira Figueira, continue a fazer negócios, mas fale primeiro com a sua empregada.
Mas porque a confiança bancária é o sistema em que vivemos, há esperança para Ricardo Salgado. 3 milhões de euros de fiança puseram-lhe 3 milhões de neurónios a pensar. O seu cérebro único de Caixa Multibanco magica agora o salvamento das contas confiscadas no BES a si, e aos 3 milhões de primos da família Espírito Santo. Aliás, os primos que se danem, já foram enganados tanta vez, e já enganaram tantas outras, que bem podem acabar na ruína.
O último plano de Ricardo é audacioso: a fuga solitária de uma das suas continhas (alguns milhões de euros). É uma filha querida do banqueiro e vive triste e ofendida por a terem encerrado no BES Mau, a comer porcarias. Salgado quer libertá-la de Portugal e fazê-la viajar e conhecer as irmãs que vivem, sob anonimato, com nome fictício, pela Europa e Estados Unidos, Angola e América do Sul, pelas off-shores do belo planeta verde do BES. O plano é simples: disfarçada de papel comercial “bom” assinado por algum supervisor comprado com uma prenda de 16 milhões (escusa de os declarar), a conta fictícia “DDT” sai da caixa forte do banco de manhã cedo, passa uma portagem da Ascendi, segue para o Dubai na agência de viagens espanhola Space, salta pela falida ESCOM angolana para comer um snack, visita o escritório brasileiro da imobiliária Guaraiuva, regressa para um café na PT com Granadeiro e uma radiografia falsa no Hospital da Luz, voa ao Luxemburgo para ver se a polícia ainda está à porta, visita a Madeira através de Moçambique. Depois de passar por 400 empresas falidas, ao fim da noite já cá está outra vez, limpa, fresca e livre como uma nota de 500, a jantar lagosta com Salgado na Comporta.