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terça-feira, 9 de setembro de 2014

Manifesto de intelectuais da Polónia, 75 anos após a invasão…

Todos os que não disserem 'no pasarán' a Putin colocarão a União Europeia e os seus valores assumidos numa posição equivalente a cair no ridículo e consentirão a destruição da ordem internacional
Porquê morrer por Danzig? – Esta frase tornou-se um símbolo da atitude da Europa Ocidental na guerra que começou há 75 anos. As políticas, francesas e britânicas, de apaziguamento incentivaram o ditador nazi a invadir a Áustria, a ocupar os Sudetas e, por fim, a esmagar a Checoslováquia sem graves consequências para Hitler e para o III Reich. Mesmo quando o som das balas ressoou pela cidade livre de Danzig, a 1 de setembro de 1939 e após o pacto germano-soviético ter sido assinado, os poderes ocidentais reuniram apenas coragem suficiente para embarcar numa espécie de guerra falsa, a fingir. A convicção deles de que seria possível salvar a sua própria pele fechando os olhos à destruição de Danzig levou Hitler ao seu ato de agressão seguinte. Seguiu-se a captura de Varsóvia, depois a de outra capital europeia, Paris, e pouco tempo passado os nazis começaram a bombardear Londres. Só então os Aliados gritaram em voz alta: “Isto tem de parar! Vamos ganhar esta guerra de uma vez por todas!”
A Europa Ocidental nunca mais deve voltar a abraçar tais políticas, egoístas e de curto prazo, em relação a um agressor.
Infelizmente, os desenvolvimentos atuais e a subida de tensão na Ucrânia trazem-nos à memória a situação de 1939. Um estado agressivo – a Rússia – invade a Crimeia, uma parte do território do seu vizinho mais pequeno. O exército e os serviços especiais do Presidente Putin operam no leste da Ucrânia, muitas vezes de forma dissimulada, dando o seu apoio a formações terroristas que aterrorizam a população local e ameaçando abertamente uma invasão.
Num aspeto esta situação está diferente em relação a 1939: enquanto os parceiros ocidentais continuaram a acreditar no “lado humano” do agressor, ele conseguiu, nos últimos anos, atrair muitos políticos e homens de negócios da Europa Ocidental para a sua órbita de interesses. Desta maneira, o lobby criado conseguiu influenciar as políticas de muitos países da Europa de Leste. O princípio fundamental desta política tem sido “A Rússia primeiro” ou mesmo “A Rússia e nada mais” – e esse princípio agora ruiu. A Europa precisa urgentemente de uma Ostpolitik nova e realista.
Por isto, apelamos aos nossos vizinhos, aos concidadãos da Europa e aos seus governos:
1. O Presidente François Hollande e o seu governo estão tentados a tomar uma medida que será ainda pior que a passividade francesa em 1939. Nas próximas semanas, a França pode tornar-se no único país europeu a ajudar o agressor, vendendo navios porta-helicópteros Mistral à Rússia de Putin. Em 2010, a França iniciou uma parceria com a Rússia nesta questão que, já então, originou várias manifestações de protesto. O anterior presidente francês, Nicolas Sarkozy, normalmente não lhes dava importância pois, afinal de contas, “a Guerra Fria tinha acabado”.
Acontece que agora começou uma Guerra Quente na Ucrânia e não há razão para a França ainda querer implementar o acordo antigo. Vários políticos e Bernard-Henri Lévy sugeriram que os 2 navios deviam ser vendidos à NATO ou à UE. Se o Presidente Hollande não alterar a sua opinião rapidamente, os cidadãos europeus devem forçá-lo à mudança com uma campanha de boicote a produtos franceses. A França deve respeitar a sua grande tradição e manter-se fiel à ideia de liberdade europeia!
2. Por volta de 1982, a República Federal da Alemanha começou o seu trajeto de crescente dependência de gás russo. Já na altura, intelectuais polacos como Czesław Miłosz e Leszek Kołakowski alertaram para a construção de novos gasodutos russos e apelidaram-nos de “instrumentos para chantagem futura à Europa”. Os mesmos alertas vieram de 2 presidentes polacos, Aleksander Kwaśniewski e Lech Kaczyński. No entanto, os políticos alemães têm demonstrado ter em grande conta a cooperação com as autoridades russas, seja pelo complexo de culpa alemão ou porque acreditam no “milagre económico russo”. Desta maneira, e talvez inconscientemente, estavam a perpetuar a infeliz tradição alemã de tratar a Rússia como o seu único parceiro na Europa de Leste. Nos últimos anos, as empresas do estado russo e os seus oligarcas têm criado raízes ainda mais profundas na economia alemã, desde o setor da energia até ao mundo do futebol e à indústria do turismo. A Alemanha deve conter este tipo de entrelaçamento que resulta sempre em dependência política.
3. Todos os cidadãos europeus e todos os países europeus devem participar em campanhas que visam aliviar a ameaça que paira sob a Ucrânia. Centenas de milhares de refugiados de regiões de leste do país e da Crimeia necessitam de ajuda humanitária. Como consequência de vários anos de contratos danosos de fornecimento de gás assinados com a Gazprom, a monopolista russa que cobrou à Ucrânia – um dos compradores menos afluentes do seu gás – o preço mais alto, a economia ucraniana está a passar um período muito difícil. A economia ucraniana necessita urgentemente de ajuda. Precisa de novos parceiros e de novos investimentos. As iniciativas cívicas, culturais e dos meios de comunicação – cheias de vida e verdadeiramente formidáveis – precisam também de parcerias e de apoio.
4. Durante muitos anos, a União Europeia tem dado a entender à Ucrânia que nunca será um membro da UE e que qualquer apoio da UE será meramente simbólico. As políticas da Parceria a Leste da União Europeia mudaram pouco nesta área visto que, na prática, esta é apenas um substituto sem significado. No entanto, subitamente, a questão tornou-se relevante, devido sobretudo à posição inabalável dos democratas ucranianos. Pela primeira vez na história, cidadãos de um país estavam a morrer com a bandeira da União Europeia na mão. Se a Europa não for solidária com os ucranianos agora, isso significa que já não acredita nos valores da Revolução de 1789 – os valores de liberdade e de fraternidade.
A Ucrânia tem o direito de defender o seu território e os seus cidadãos contra a agressão exterior, com o recurso das forças policiais e militares e nas regiões fronteiriças com a Rússia. Aqui ao lado, na região de Donetsk assim como no resto do país, a paz tem sido uma constante desde a independência da Ucrânia, em 1991: não houve um único conflito violento, seja pelo passado do país relativamente aos direitos das minorias ou por qualquer outra razão. Ao soltar os cães de guerra e ao testar um novo tipo de agressão, Vladimir Putin transformou a Ucrânia num campo de tiro semelhante à Espanha durante a guerra civil, quando grupos fascistas, com o auxílio da Alemanha Nazi, atacaram a república. Atualmente, todos os que não disserem ‘no pasarán’ a Putin colocarão a União Europeia e os seus valores assumidos numa posição equivalente a cair no ridículo e consentirão a destruição da ordem internacional.
Ninguém sabe quem estará no poder na Rússia daqui a 3 anos. Não sabemos o que será da elite do poder russo atual, que abraça políticas conflituosas e inconsistentes com os interesses do seu povo. No entanto, sabemos uma coisa: quem seguir hoje a política de “continua tudo na mesma” em relação ao conflito entre a Rússia e Ucrânia está a fechar os olhos a milhares de russos e ucranianos que estão a morrer, a centenas de milhares de refugiados e a ataques consecutivos das forças imperialistas de Putin a outros países.
Ontem foi Danzig, hoje é Donetsk: não podemos permitir que a Europa viva, outra vez, com uma ferida aberta e a sangrar durante décadas.
Gdansk, 1 de setembro de 2014
Os subscritores deste apelo são: Władysław Bartoszewski; Jacek Dehnel; Inga Iwasiów; Ignacy Karpowicz; Wojciech Kuczok; Dorota Masłowska; Zbigniew Mentzel; Tomasz Różycki; Janusz Rudnicki; Piotr Sommer; Andrzej Stasiuk; Olga Tokarczuk; Ziemowit Szczerek; Eugeniusz Tkaczyszyn-Dycki; Magdalena Tulli; Agata Tuszyńska; Szczepan Twardoch; Andrzej Wajda; Kazimierz Wóycicki; Krystyna Zachwatowicz.
Tradução de Francisco Ferreira
Imagem 1 e 2

domingo, 17 de agosto de 2014

Combater a “nova” ordem mundial, fora e dentro de portas!

Ucrânia, Síria, Iraque: tanto os conflitos violentos quanto a constante formação de alianças inesperadas marcam o mundo atual. O Ocidente precisa reagir a essa realidade.
Alexander Kudascheff
O mundo está a ser abalado por crises dramáticas. Na Ucrânia. E ainda mais no Médio Oriente, mesmo que um novo cessar-fogo de 5 dias entre Israel e o Hamas permita uma pausa para respirar. Na Síria, a guerra civil prossegue com intensidade homicida, embora quase que despercebida: em breve se atingirá a marca de 200.000 mortos, num país em dissolução.

E no norte do Iraque, o mapa territorial está a ser retraçado por uma soldadesca inimaginavelmente brutal, que ultrapassa todos os limites em nome de Alá, e cuja área de dominação já se estende da cidade de Aleppo até ao Curdistão iraquiano: o chamado "Estado Islâmico" (EI). O EI pretende destruir a ordem vigente, não reconhece fronteiras, Estados ou governos: para ele, o que conta é apenas a sua própria interpretação do Alcorão.
E isso abala a diplomacia, pois, de repente, as antigas conceções não valem mais. Os Estados Unidos apoiam os curdos – e, portanto, indiretamente, os xiitas em Bagdad e em Teerão – na luta contra os terroristas do EI. O país dá essa ajuda à própria revelia, pois, na realidade, ele quer uma troca de poder e de política no Iraque, e as suas relações com o Irão prosseguem tensas e abaladas.
Na Síria, os EUA também não sabem se insistem na queda do tirano Bashar al-Assad, pois isso abriria o caminho para a Frente Al-Nusra, que eles combatem no norte do Iraque. Uma desordem diplomática para a qual não há respostas fáceis.
O prémio Nobel da Paz, Barack Obama, decidiu-se cedo por uma retirada de tropas do Iraque. Ele não acredita nos êxitos das intervenções militares e, no entanto, teve que interferir agora. O papel dos EUA no Médio Oriente desgastou-se. Antes, o país era considerado insubstituível, devido às suas estreitas conexões estratégicas com Israel e com as monarquias e países árabes conservadores e com lideranças autoritárias, como o Egito, a Jordânia e a Arábia Saudita.
Porém, Obama tem fama de fraco, indeciso, hesitante e incapaz de se impor. Nem mesmo Israel lhe dá ouvidos – como tem mostrado, nos últimos 12 meses, a vã "diplomacia de ponte aérea" do incansável secretário de Estado John Kerry. Israel segue sendo o parceiro dos EUA, porém, age de forma mais autónoma do que nunca.
Na grande crise europeia em torno da Ucrânia, por outro lado, o presidente da Rússia, Vladimir Putin, revela-se um mestre da falta de transparência tática. Depois da anexação da Crimeia, será que também pretende avançar sobre o leste ucraniano? Será que só quer desestabilizar a região? Ou quer desestabilizá-la para depois anexá-la?
Será que o desafio de Moscovo se dirige apenas ao malquisto governo em Kiev, ou por trás dele esconde-se a gritante ambição de poder de um novo imperialismo russo, que se insere no vácuo político aberto pelos EUA, tão ocupados consigo mesmos, e pela hesitante e indecisa União Europeia?
As sanções do Ocidente contra os russos apresentam os primeiros efeitos, mas o clima vai-se congelando; e apenas telefonemas, até mesmo da chefe de governo alemã, Angela Merkel, não bastarão para desfazer o nó ucraniano. Como a Rússia foi excluída do círculo do G8, é a UE que precisa, em primeira linha, encontrar uma via de acesso ao Kremlin.
A Alemanha, por sua vez, – que desde o início do ano vem debatendo, com maior ou menor alarde, sobre um maior engajamento político no mundo – é forçada a assumir um novo papel.
O país é uma potência líder e a sua opinião é ouvida. Contudo, Berlim precisa avançar ainda mais, não pode se esconder por trás da UE na esperança de não ter que assumir nenhuma responsabilidade. A Alemanha precisa assumir uma posição definida: na crise da Ucrânia, sem dúvida, e possivelmente mais ainda no caso do norte do Iraque.
Se o "Estado Islâmico" age com brutalidade quase sem precedentes, se seres humanos são massacrados, assassinados ou expulsos de seus domicílios, então, Berlim não pode acomodar-se no seu bem-estar e prosperidade e esperar tranquilizar a própria consciência com alguns milhões de entregas de ajuda humanitária.
No entanto, as intervenções militares das últimas duas décadas foram raramente acompanhadas de sucesso. Isso vale tanto para o Afeganistão como para a Líbia – onde o derrube de Muammar Kadafi transformou a ditadura de um homem só num "Estado caído".
O mundo ficou mais difícil de compreender. A nova ordem mundial é uma ordem em que novas alianças são constantemente formadas. Pois quem poderia ter imaginado, apenas há alguns meses atrás, que o mundo se colocaria do lado dos curdos? Ainda mais com a intenção de que combatentes peshmerga vitoriosos desenvolvam uma nova consciência curda e que talvez exijam a fundação de um Estado curdo transfronteiriço!
Entre os polos da superpotência americana em retirada, as pretensões neoimperialistas de Moscovo e uma China que, por enquanto, muitas vezes ainda, age à sombra da política mundial, é necessária uma política externa nova e livre de preconceitos por parte da UE e, sobretudo, da Alemanha. E isso numa época sem certezas diplomáticas.
Quem fala assim tem alguma razão, no que respeita ao desrespeito pelos Direitos Humanos, não só nas áreas de conflitos bélicos, de caráter religioso ou político, que por isso são mais visíveis e manipuladores das consciências, mas também e sobretudo no que aos valores da vida humana, aos direitos conquistados e às condições de sobrevivência de milhares de milhões de pessoas, que sem outro motivo senão a ganância, mata mais gente do que as guerras reais ou imperiais…
É fácil perceber que é a miséria extrema que alimenta as guerras, gerando líderes fortes de maus instintos e motivando o alistamento de gente sem esperança…Também é fácil perceber que é a riqueza desmesurada que alimenta as guerras, aproveitando-se de líderes fracos com “boas intenções” e convencendo os contribuintes de que o bem-estar futuro passa pelo mal-estar do presente…
Os motivos (pseudo) religiosos tanto se encontram no Oriente como no Ocidente, de um e de outro lado com mais uns pozinhos de outros interesses sem qualquer interesse para a humanidade…
No caso, que mais responsabilidades cabem à Alemanha, que não sejam de toda a União Europeia, que como Obama, foi Nobel da Paz?

segunda-feira, 30 de junho de 2014

“Sociedade moderna”: democracia e economia de mercado?

Em 1989, o cientista político e economista americano Francis Fukuyama publicava o seu famoso artigo ‘O fim da história?’ na revista The National Interest. Nele, argumentava que a difusão mundial das democracias liberais e do livre capitalismo de mercado possivelmente sinalizavam o fim da evolução sociocultural da humanidade. 3 anos mais tarde, publicaria o livro ‘O fim da história e o último homem’, onde expandia essas ideias.
Decorridos 25 anos, os pontos de vista de Fukuyama continuam a ser debatidos e criticados.
Em entrevista à DW, o filósofo de 61 anos afirma que tais ataques ao seu texto são decorrentes de uma interpretação equivocada, e defende as suas teses à luz de eventos geopolíticos recentes.
DW: Em 1989, o senhor publicou o seu artigo mais conhecido, ‘O fim da história?’. 25 anos atrás, numerosos críticos diziam: "Este tipo está errado". O senhor sente que foi mal entendido ou admite agora que estava errado?
Francis Fukuyama: Acho que os maiores problemas têm a ver com um mal-entendido. O conceito de "fim da história" era a questão: em que rumo a história aponta? Para o comunismo – que era o ponto-de-vista de muitos intelectuais, antes – ou na direção da democracia liberal? E acho que, neste ponto, ainda estou certo.
História, no sentido filosófico, é realmente o desenvolvimento, ou a evolução – ou modernização – de instituições, e a questão é: nas sociedades mais desenvolvidas do mundo, que tipo de instituições são essas?
Acho que está bem claro que qualquer sociedade que pretenda ser moderna ainda precisa ter uma combinação de instituições políticas democráticas com uma economia de mercado. E eu não acho que a China, a Rússia ou qualquer outro concorrente invalidem esse argumento.
O senhor menciona a China e a Rússia. Eu gostaria de conversar sobre a Ucrânia. Onde nos vê historicamente neste momento?
Bem, eu acho que a Rússia não se desenvolveu na direção de uma democracia liberal de verdade, e as suas ambições territoriais e geopolíticas não desapareceram. Mas no fim de contas, eu acho que o sistema russo é muito fraco, depende completamente de preços altos de energia. Mesmo na Rússia não é aceite inteiramente como uma forma legítima de governo. Então não é um real competidor.
Quando vê o presidente russo, Vladimir Putin, na televisão, e vê o seu comportamento, considera um bom exemplo para a sua tese de que o reconhecimento é um impulsionador importante da história?
Penso que, de diversas maneiras, é isso. Porque ele e muitos outros russos recorrem a um poço de ressentimentos – de que a Rússia não teve reconhecimento, de que foi considerada fraca, de que os seus interesses não foram respeitados pelos países ocidentais durante a ampliação da NATO, e pelas coisas que aconteceram nas décadas de 1990 e 2000. Assim, creio que o reconhecimento, para ele, é uma questão.
Os políticos ocidentais, americanos ou europeus, deveriam dar atenção, reconhecimento a Putin?
Acho que é tarde demais para isso. Muitos desses problemas foram baseados em decisões tomadas na década de 90, e é impossível desfazê-las. Realmente acredito que é preciso tratar a Rússia como um país sério, com os seus interesses nacionais próprios. Eles podem não ser os mesmos que os nossos, mas é preciso, de qualquer forma, começar pelo respeito.
Os acontecimentos na Ucrânia parecem ser o início de uma II Guerra Fria. Entretanto, no momento há sinais de que ambos os lados estão a ceder. Diria que essa Guerra Fria está suspensa, por enquanto?
A Guerra Fria foi um fenómeno tão diferente! Era um conflito global, um conflito de ideias e a propósito de 2 sistemas políticos muito diferentes. Isso agora é uma batalha para restaurar a dignidade dos russos, sem implicações reais fora das áreas da antiga União Soviética. Nesse sentido, não é em nada parecido com a Guerra Fria em si.
No tocante a sistemas e governos que funcionem, qual é a sua visão do seu próprio país, os Estados Unidos?
Eu argumento, num próximo livro, que o sistema político americano se deteriorou em muitos aspetos por ter sido seriamente sequestrado por diversos grupos de interesses poderosos. Muitos dos instrumentos de travão e contrapeso (checks and balances), de que nos orgulhamos, resultaram, na prática, no que eu chamo de "vetocracia", ou seja: há grupos demais que detêm o poder de barrar decisões. Como resultado, o Congresso ficou paralisado, o que eu considero um grande problema para nós.
As instituições democráticas americanas estão em decadência? O que significaria isso para os EUA, como um todo: eles são uma superpotência em retirada?
Não, não vejo a coisa assim, absolutamente, porque na verdade a economia americana está bem de saúde e é, provavelmente, a mais saudável de todas as grandes economias democráticas. Gás de xisto, Silicon Valley: há muitas fontes de crescimento e inovação. Apenas acho que o sistema político não vai bem. Mas a sociedade americana é sempre um pouco mais o setor privado do que o setor público.
Voltando a ‘O fim da história’, qual é a sua previsão para os próximos 10 ou 20 anos?
Acho que nós estamos a passar por um período difícil, em que tanto a Rússia como a China se expandem. Mas estou convencido de que é um fenómeno limitado, que, a longo prazo, só existe uma ideia organizadora importante: a ideia de democracia numa economia de mercado. Portanto, a longo prazo, continuo otimista.

sexta-feira, 21 de março de 2014

Uma guerra surreal do Século XXI (em ping-pong)…

Líderes europeus aprovaram novas sanções contra Moscovo em resposta à anexação da Crimeia, aumentando a lista negra de russos e ucranianos pró-Rússia sancionados. As medidas acrescentam 12 nomes aos 21 antes anunciados, que terão restrição de vistos e bens congelados. A relação ainda não conta com nenhum político da esfera próxima do presidente russo, Vladimir Putin, para que as vias de diálogo se mantenham abertas.
Pacto de aproximação é o mesmo que foi rejeitado pelo presidente deposto Viktor Yanukovich em novembro e desencadeou onda de protestos pelo país.
A Crimeia faz legalmente parte da Federação da Rússia e a aplicação de sanções internacionais a Moscovo poderá ter reflexos muito negativos nas economias ocidentais, afirmou Andrey Klimov, alto responsável do parlamento russo
Presidente norte-americano anunciou novas sanções contra sectores-chave da economia russa.

Diante das “ameaças externas”, a Rússia decidiu reforçar sua presença militar na Crimeia, anunciou o ministro da Defesa, Iuri Borissov. No plano político, Moscovo alertou para a aplicação de “sanções recíprocas” contra os Estados Unidos.
O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, anunciou a ampliação das sanções econômicas contra a Rússia, em punição por seu procedimento na Ucrânia. As medidas atingem 20 altos funcionários e políticos, assim como uma instituição bancária.
Em resposta imediata, o Kremlin impôs medidas retaliatórias contra 9 personalidades públicas americanas, incluindo o senador John McCain e os assessores de segurança nacional Ben Rhodes e Caroline Atkinson.
O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, anunciou novas sanções contra russos proeminentes e abriu caminho para impor medidas contra setores-chave da economia russa, em resposta à anexação pela Rússia da península ucraniana da Crimeia.
O presidente dos EUA, falando na Casa Branca, disse ainda que as novas sanções dos EUA também terão como alvo um banco que é fornecedor da liderança russa.
A Rússia avisou aos Estados Unidos que as sanções ocidentais impostas após o referendo na Crimeia são "inaceitáveis" e que "terão consequências".

Parlamentares russos responderam com sarcasmo às sanções ocidentais impostas contra autoridades envolvidas nos procedimentos para anexar a Crimeia, pedindo aos Estados Unidos e à União Europeia que imponham as mesmas penalidades a centenas de membros do Parlamento.
A União Europeia vai impor sanções a 21 responsáveis russos e ucranianos, devido à realização do referendo que abriu a porta à saída da Crimeia da Ucrânia.
O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, impôs sanções a 11 russos e ucranianos considerados responsáveis pela incursão militar da Rússia na Crimeia, incluindo Vladislov Surkov e Sergei Glazyev, 2 assessores próximos do presidente russo, Vladimir Putin.

quarta-feira, 5 de março de 2014

A reposição de um filme de “guerra” corpo a corpo…

Foi uma conferência de imprensa surpreendente a de John Kerry, na Embaixada dos Estados Unidos, em Kiev. Surpreendente para o próprio Secretário de Estado norte-americano que soube, por uma jornalista com, de facto, uma incrível surpresa, que o Presidente russo nega ter tropas na Crimeia. Antes disso, Kerry tinha já lançado duras acusações à Rússia: “Estamos no século XXI e não devemos ver nações a recuarem e a agirem à maneira do século XIX ou XX.”
Apesar de martelados por filmes e séries televisivas em que matar é o pão-nosso de cada noite, não é fácil aceitarmos o tiro ao alvo de pessoas contra pessoas, por encomenda e interesses, quando as máquinas registam cenas reais, com “duplos” no lugar dos decisores…
Nenhuma guerra é aceitável e ponto final! Hoje, cada vez mais, nenhuma guerra tem justificação racional, a não ser movida por interesses ocultos e “justificadas” por interpretações enviesadas, que andam à volta, como tudo, da economia e da afirmação pessoal ou de blocos, ideologia à parte. E esta não é exceção.
E enquanto Putin descarta uso imediato da força na Crimeia e denuncia golpe na Ucrânia, em defesa da democracia, propõe como solução uma ação de guerra, antidemocrática, razão porque os Argumentos de Putin "não enganam ninguém", diz Obama, afirmando que a Rússia violou normas internacionais, diz Obama, esquecendo-se de outras recentes intervenções e ameaças ilegítimas dos EUA, o que permite que Putin diga que a Rússia age de acordo com o direito internacional, embora se Saiba quais são os interesses da Rússia na região da Crimeia, como há interesses opostos do ocidente, razão porque John Kerry chega a Kiev com 1.000 milhões de “ajuda” e a UE também contribuirá com 11.000 milhões (que não tem para os seus), já que a Guerra na Ucrânia ameaçaria economia europeia; entenda.
Mas como nem todos vão ao bolo, mas todos podem sofrer com este absurdo, a Comunidade internacional apela a solução para a questão da Ucrânia via diálogo, o que pode denunciar uma avaliação racional de quem está fora do “jogo” e vê melhor do que os “adversários”…
E no princípio destas escaramuças, foi dramaticamente emotiva a Resistência ucraniana na Crimeia causa problemas à Rússia, em que umas dezenas de malvestidos, de ambos os lados, nos deram um espetáculo surrealista.
E é isto que nos mostra e demonstra, claramente, que a guerra é a atitude comportamental mais ridícula dos intervenientes diretos, reflexo das ridículas atitudes comportamentais de “chefes” que os lançam para um “sacrifício” imolador e inconsequente…
Revejam o filme (de 3.ª categoria), e riam-se se o acharem quixotesco…   

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

É de “pesos pesados” por Merkel que a UE precisa…

Desde o início das manifestações pró-União Europeia e contra o Governo ucraniano, o ex-pugilista Vitali Klitschko tem surgido como um dos principais instigadores contra o Presidente Viktor Yanukovych. Talhado pelos democratas-cristãos da chanceler alemã, poderá, em breve, ser apoiado por mais dirigentes europeus. Excertos.
Na quinta-feira de há 2 semanas, ficou perfeitamente claro que qualquer vislumbre de amizade entre a chanceler alemã, Angela Merkel, e o Presidente ucraniano, Viktor Yanukovych, tinha acabado. Estiveram juntos num jantar de gala com os dirigentes da União Europeia e dos países do Leste europeu, no antigo palácio do Grão-duque da Lituânia, com a cidade de Vílnius toda decorada para o Natal.
Ainda a sobremesa trufada não tinha sido servida, quando o Presidente ucraniano encetou um monólogo fastidioso sobre a difícil relação do seu país com a Europa, por um lado, e com a Rússia, por outro. A certa altura, Merkel interrompeu bruscamente Yanukovych e informou-o de que era melhor deixar-se de conversa. “Dê por onde der, não vai assinar”, disse ela, sem rodeios. O Presidente arménio, que estava sentado ao lado de Merkel, ergueu os olhos com a surpresa.
“A porta continua aberta para a Ucrânia”, insistiu Merkel repetidamente após a hecatombe, salientando que os europeus continuam dispostos a dialogar. E antes do início da próxima ronda, a chanceler planeia pôr um novo jogador em campo: Vitali Klitschko. O volumoso campeão de pesos pesados no boxe deverá ser lançado como adversário pró-europeu do Presidente pró-russo, Yanukovych, na esperança de que ele assinará um tratado pró-UE, que ainda há quem acredite que se vai materializar.
Movimentações nos bastidores
Apesar de “mudança de regime” ser um termo demasiado forte para o que a Alemanha anda à procura, não é inteiramente descabido. A União Democrata-Cristã (CDU) alemã, de centro-direita, e o Partido Popular Europeu (PPE), associação de partidos conservadores europeus, escolheram Klitschko como seu representante de facto, na Ucrânia. A sua função é unir e orientar a oposição – na rua, no parlamento e, por fim, na eleição presidencial de 2015. “Klitschko é o nosso homem”, dizem os políticos veteranos do PPE. “Tem uma ideologia europeia clara.” E Merkel ainda tem contas para acertar com Putin.
Grande parte das movimentações acontece nos bastidores. O partido de Klitschko, a Aliança Democrática Ucraniana para a Reforma, formada em 2010, tornou-se recentemente membro observador do PPE. Nas sedes do PPE em Bruxelas e Budapeste, estão a ser formadas pessoas da Aliança ucraniana para o trabalho parlamentar e recebem apoio para o desenvolvimento de uma estrutura partidária a nível nacional. A Fundação Konrad Adenauer, estreitamente ligada à CDU, também desempenha um papel importante. Klitschko pediu expressamente aos assessores de Merkel para fornecerem ajuda por intermédio da fundação.
Mas o ponto fulcral da iniciativa é o próprio Klitschko. Tem-se reunido com Ronald Pofalla, chefe de equipa de Merkel, que há anos vem estabelecendo laços com membros da oposição na Europa do Leste, especialmente ao regime autoritário da Bielorrússia. Pofalla deu a Klitschko uma série de pistas, e o pugilista e novato político aconselha-se com ele. Por exemplo, Klitschko quer saber como responder a rumores sobre os seus supostos “casos com mulheres”, que o Governo ucraniano tem andado a espalhar, para destruir as suas possibilidades de se tornar um dirigente político viável no país.
Foto de família em Bruxelas
Klitschko pode também depender da ajuda discreta de Pofalla e do Governo alemão para a eleição presidencial de 2015. Para já, a sua candidatura está bloqueada por uma lei, presumivelmente escrita a pensar nele em particular, que determina que um cidadão com autorização de residência noutros países não é considerado residente na Ucrânia. Isso impede Klitschko de provar que tem vivido na Ucrânia nos 10 anos anteriores à eleição, o que é requisito para qualquer candidatura, segundo a Constituição do país. Mas conta com Merkel para apelar ao Presidente Yanukovych no sentido de garantir que essa lei não vai atrapalhar a candidatura de Klitschko. Para tal, o pugilista profissional terá de ser preparado para se tornar um político sério, tanto na Ucrânia como no exterior, o que é precisamente o que está a acontecer.
Klitschko participou numa reunião preliminar de líderes europeus conservadores em Vílnius, há cerca de 2 semanas, tendo passado longas horas à conversa com os principais membros do Parlamento Europeu. Mas não se encontrou diretamente com Merkel. No entanto, a chanceler vai participar da reunião preliminar do PPE, que antecede a próxima cimeira da UE, em meados de dezembro, e o plano é voltar a convidar Klitschko. Desta vez, está prevista fotografia oficial com os dirigentes europeus, bem como uma reunião com a chanceler. Isso pode aumentar significativamente as credenciais políticas de Klitschko e representa um importante compromisso de Merkel.
Mas será Klitschko capaz de unir uma oposição notoriamente dividida, formada sobretudo pelo seu partido, mais o Partido da Pátria, da ex-primeira-ministra presa, Iulia Tymochenko, e o Partido da Liberdade, nacionalista de direita? Os partidários de Klitschko no PPE esperam que, na eleição presidencial de 2015, a oposição seja capaz de alinhar por um candidato conjunto, para enfrentar Yanukovych – e vencer. Então Merkel terá alcançado o seu objetivo de uma liderança pró-europeia na Ucrânia, podendo arrancar o segundo grande desafio: o esforço para reestruturar as relações da UE com a Europa de Leste – um jogo que coloca a União Europeia contra Putin.
Gostou deste artigo? Presseurop.eu deverá encerrar a 20 de dezembro. Dê o seu apoio ao primeiro site de notícias e de discussão sobre a Europa em várias línguas.

sábado, 19 de outubro de 2013

Mundo cão? Pit bull ou rottweiler?

“Há muita gente surpreendida por saber que a escravidão ainda existe. E muitos governos não vão gostar de conhecer esta realidade. A questão da escravidão moderna deve ser avaliada e é necessário que os governos se envolvam no problema”, salienta Nick Grono, da Walk Free Foundation.
De acordo com um relatório da Walk Free Foundation, organização que se dedica à defesa dos direitos humanos, há no mundo 30.000.000 de escravos. Aquela organização revela que a Índia é o país com maiores níveis de escravidão, a China segue-se na lista, mas há um país europeu no topo da lista negra deste tipo de casos de exploração humana: a Moldávia.
A Índia é de longe o país com maior número de pessoas escravizadas, com cerca de 50% dos escravos que se verificam em todo o mundo. O relatório estima que 72% das pessoas em escravidão vivam na Ásia.
Os países com o maior número de pessoas em escravidão são a Índia (13.950.000), seguida pela China (2.950.000) e Paquistão (2.100.000). Mauritânia, Haiti, Paquistão, Nepal, Benim, Costa do Marfim, Gâmbia, Gabão e Moldávia também estão no topo da lista.
Há países onde as crianças nascem para a escravidão, os mulheres e homens são escravizados e os seus filhos muitas vezes são forçados a uma situação de servidão doméstica ou forçado a trabalhar nos campos.
Trabalho forçado de homens, mulheres e crianças, servidão doméstica, mendicidade forçada, exploração sexual de mulheres e crianças, casamento forçado são alguns dos exemplos de atrocidades cometidas contra estas vítimas.
Este relatório da Walk Free Foundation servirá de estímulo aos governos, para acompanhar de perto e combater o que apelida de “crime oculto”, que apresenta todas as características da escravidão dos séculos passados.
Fundada em maio do ano passado, a Walk Free Foundation é formada por um grupo de 20 pessoas. Tem sede em Perth, na costa oeste australiana, e foi fundada pelo filantropo Andrew Forrest – residente da Fortescue Metals Group – e pela sua esposa, Nicola Forrest.
A organização conta com o apoio de personalidades como Hillary Clinton, ex-secretária de Estado dos EUA, de Tony Blair, ex-primeiro ministro britânico, e dos filantropos Bill Gates, Richard Branson, e Mo Ibrahim.
Portugal surge próximo do fim da lista dos países com mais casos de escravatura, está em 147.º lugar entre 162. Ainda assim, tem 1.368 escravos, segundo o "Índice da Escravatura Moderna" e divulgado pela Walk Free Foundation.
O Brasil tem 200.000 pessoas em situação de trabalho escravo o que o coloca em 94º lugar no ranking dos países com maior registo. Segundo reportagem da BBC, o estudo elogia iniciativas do governo brasileiro contra o trabalho forçado, apesar da situação no ranking entre os 100 países com os piores índices. As ações do governo brasileiro são consideradas 'exemplares'.
Nas Américas, Cuba (149º), Costa Rica (146º) e Panamá (145º) são os melhores colocados, à frente dos Estados Unidos (134º) e Canadá (144º). O Haiti ocupa o 2.º pior lugar no ranking geral, sobretudo por causa da exploração de trabalho infantil.
No Brasil, o trabalho quase escravo concentra-se nas indústrias madeireira, carvoeira e de mineração, de construção civil e nas lavouras de cana, algodão e soja. Outro campo sensível é o turismo sexual no Nordeste e a exploração da mão-de-obra de imigrantes bolivianos em oficinas de costura.
E nós a pensar que tínhamos sido os campeões do abolicionismo (e do esclavagismo) porque foi Portugal o primeiro país, em 1761, a declará-lo. Só depois, em 1863, surgiram os EUA e só depois o Brasil, em 1888…
Andávamos enganados, andamos enganados e andaremos enganados!
Mundo cão, mas pit bull ou rottweiler?
Imagem 1, 2 e 3

domingo, 1 de setembro de 2013

“Yes, We Can!”, mas devia ser: “No, We Can’t Do It!”…

Existe o “Yes man”. Todos sabem quem é e o mal que causa. Mas existe o “May be man”E poucos sabem quem é. Menos ainda sabem o impacto desta espécie na vida nacional. Apresento aqui essa criatura que todos, no final, reconhecerão como familiar.
Mia  Couto
O “May be man” vive do “talvez”. Em português, dever-se-ia chamar de “talvezeiro”. Devia tomar decisões. Não toma. Sim­plesmente, toma indecisões. A decisão é um risco. E obriga a agir. Um “talvez” não tem implicação nenhuma, é um híbrido entre o nada e o vazio.
A diferença entre o “Yes man” e o “May be man” não está apenas no “yes”. É que o “may be” é, ao mesmo tempo, um “may be not”. Enquanto o “Yes man” aposta na bajulação de um chefe, o “May be man” não aposta em nada nem em ninguém. Enquanto o primeiro suja a língua numa bota, o outro engraxa tudo que seja bota superior.
Sem chegar a ser chave para nada, o “May be man” ocupa lugares chave no Estado. Foi-lhe dito para ser do partido. Ele aceitou por conveniên­cia. Mas o “May be man” não é exactamente do partido no Poder. O seu partido é o Poder. Assim, ele veste e despe cores políticas conforme as marés. Porque o que ele é não vem da alma. Vem da aparência. A mesma mão que hoje levanta uma bandeira, levantará outra amanhã. E venderá as duas bandeiras, depois de amanhã. Afinal, a sua ideolo­gia tem um só nome: o negócio. Como não tem muito para negociar, como já se vendeu terra e ar, ele vende-se a si mesmo. E vende-se em parcelas. Cada parcela chama-se “comissão”. Há quem lhe chame de “luvas”. Os mais pequenos chamam-lhe de “gasosa”. Vivemos uma na­ção muito gaseificada.
Governar não é, como muitos pensam, tomar conta dos interesses de uma nação. Governar é, para o “May be man”, uma oportunidade de negócios. De “business”, como convém hoje, dizer. Curiosamente, o “talvezeiro” é um veemente crítico da corrupção. Mas apenas, quando beneficia outros. A que lhe cai no colo é legítima, patriótica e enqua­dra-se no combate contra a pobreza.
Mas a corrupção, em Moçambique, tem uma dificuldade: o corrup­tor não sabe exactamente a quem subornar. Devia haver um manual, com organograma orientador. Ou como se diz em workshopês: os guidelines. Para evitar que o suborno seja improdutivo. Afinal, o “May be man” é mais cauteloso que o andar do camaleão: aguarda pela opi­nião do chefe, mais ainda pela opinião do chefe do chefe. Sem luz verde vinda dos céus, não há luz nem verde para ninguém.
O “May be man” entendeu mal a máxima cristã de “amar o próximo”. Porque ele ama o seguinte. Isto é, ama o governo e o governante que vêm a seguir. Na senda de comércio de oportunidades, ele já vendeu a mesma oportunidade ao sul-africano. Depois, vendeu-a ao portu­guês, ao indiano. E está agora a vender ao chinês, que ele imagina ser o “próximo”. É por isso que, para a lógica do “talvezeiro” é trágico que surjam decisões. Porque elas matam o terreno do eterno adiamento onde prospera o nosso indecidido personagem.
O “May be man” descobriu uma área mais rentável que a especulação financeira: a área do não deixar fazer. Ou numa parábola mais recen­te: o não deixar. Há investimento à vista? Ele complica até deixar de haver. Há projecto no fundo do túnel? Ele escurece o final do túnel. Um pedido de uso de terra, ele argumenta que se perdeu a papelada. Numa palavra, o “May be man” actua como polícia de trânsito corrup­to: em nome da lei, assalta o cidadão.
Eis a sua filosofia: a melhor maneira de fazer política é estar fora da política. Melhor ainda: é ser político sem política nenhuma. Nessa fluidez se afirma a sua competência: ele e sai dos princípios, esquece o que disse ontem, rasga o juramento do passado. E a lei e o plano servem, quando confirmam os seus interesses. E os do chefe. E, à cau­tela, os do chefe do chefe.
O “May be man” aprendeu a prudência de não dizer nada, não pensar nada e, sobretudo, não contrariar os poderosos. Agradar ao dirigen­te: esse é o principal currículo. Afinal, o “May be man” não tem ideia sobre nada: ele pensa com a cabeça do chefe, fala por via do discurso do chefe. E assim o nosso amigo se acha apto para tudo. Podem no­meá-lo para qualquer área: agricultura, pescas, exército, saúde. Ele está à vontade em tudo, com esse conforto que apenas a ignorância absoluta pode conferir.
Apresentei, sem necessidade o “May be man”. Porque todos já sabíamos quem era. O nosso Estado está cheio deles, do topo à base. Podíamos falar de uma elevada densidade humana. Na realidade, porém, essa densidade não existe. Porque dentro do “May be man” não há ninguém. O que significa que estamos pagando salários a fantasmas. Uma for­tuna bem real paga mensalmente a fantasmas. Nenhum país, mesmo rico, deitaria assim tanto dinheiro para o vazio.
O “May be man” é utilíssimo no país do talvez e na economia do faz-de-conta. Para um país a sério não serve.

sábado, 31 de agosto de 2013

E assim Obama pode mostrar que não é clone de Bush

A rejeição pelo Parlamento britânico da moção do Governo sobre uma intervenção contra Bashar al-Assad representa uma viragem total na tradição do Reino Unido de se erguer contra as ditaduras e constitui uma calamidade para o povo sírio. Agora, cabe aos Estados Unidos agir, ou pôr em perigo a sua credibilidade, tendo como único aliado europeu a França.
Ontem, o Parlamento [britânico] deu-se ao luxo de debater em pormenor a qualidade das provas do uso de armas químicas pela Síria e a legalidade de uma resposta pela força. Realizar o debate foi melhor do que evitá-lo, porque nenhuma intervenção militar deve ser decidida de ânimo leve.
Contudo, o resultado da votação foi um desastre. Foi um desastre para o primeiro-ministro, que avaliou mal o seu partido. Foi um desastre para o país, que virou as costas à sua tradição de lutar contra a tirania. Foi um desastre para a Aliança Ocidental, dividida pela incapacidade britânica de apoiar os seus aliados. E, sobretudo, foi um desastre para o povo da Síria, que ficou a saber que tem menos amigos, na hora em que mais precisa deles.
A única coisa que reconforta um pouco é o facto de a votação não ter travado por completo a ação do Ocidente. A verdade que poucos oradores estavam dispostos a admitir é que nenhuma votação na Câmara dos Comuns irá determinar quando, ou se, o regime do Presidente [Bashar] al-Assad irá cair e o sofrimento do povo sírio acabar. O único Governo ocidental que tem um papel potencialmente decisivo nesta crise é o dos Estados Unidos.
Uma questão de credibilidade
Quando o levantamento contra Assad começou, podia-se argumentar que os EUA não tinham um interesse estratégico indiscutível no seu resultado. Essa situação mudou, quando Obama classificou o uso de armas químicas como a linha vermelha que vinha alterar os cálculos norte-americanos. Essa linha foi transposta mais de uma vez.
Da primeira vez, Obama evocou o caso da informação falsa sobre o Iraque, em 2003, para defender uma maior exatidão e pedir mais tempo. Obama sabe que, agora, não pode simplesmente repetir esse argumento. Se não responderem com determinação ao massacre de mais de 1.000 civis em Ghouta, na semana passada, os EUA verão destruída – talvez de forma irremediável – a sua credibilidade, como aliados de Israel, da Turquia, da Jordânia e de outros atores regionais vitais. O mesmo se poderá dizer da sua capacidade de dissuadir outros regimes renegados de usar ou adquirir armas químicas.
Em Washington, tal como em Londres, os políticos da oposição estão mais preocupados em fazer-se eco da ansiedade dos cidadãos quanto à ação militar do que em apresentar uma frente unida. John Boehner, o líder republicano da Câmara dos Representantes, acusou Obama de não ter procedido a uma consulta adequada e exigiu uma fundamentação pormenorizada de quaisquer operações.
Esta situação é ainda menos de espantar nos Estados Unidos do que no Reino Unido, devido aos custos dos últimos 12 anos de combates na Ásia Central e no Médio Oriente, em termos de vidas, meios financeiros e prestígio. Na verdade, seria estranho se, em qualquer dos países, as maiorias apoiassem a intervenção num novo conflito armado na região, tão pouco tempo depois de os respetivos exércitos terem saído do Iraque. No entanto, esse facto não vem dar razão às analogias com o Iraque, nem retirar razão à intervenção na Síria.
Dar uma oportunidade à paz
Vale a pena repetir que, quando os EUA e os seus aliados invadiram o Iraque, o uso de armas químicas por Saddam Hussein se verificara anos antes e que os dados disponíveis sobre os seus arsenais não foram comprovados. O contraste com o recente uso de gases neurotóxicos na Síria é flagrante. As provas da culpabilidade do regime nos ataques em Ghouta parecem convincentes.
O Secretário-Geral da ONU, Ban Ki Moon, implorou a Obama que deixasse os seus inspetores de armamento terminar o trabalho, antes de tomar qualquer decisão sobre uma ação militar. Fê-lo, não por acreditar que os inspetores pudessem descobrir novas provas que anulassem ou reduzissem a culpa, mas para ganhar tempo para “dar uma oportunidade à paz”. Sem dúvida que é de dar uma oportunidade à paz, mas, na Síria, a procura da paz pela via da diplomacia falhou rotundamente.
Ataques militares, para dissuadir o regime de Assad de voltar a usar armas químicas e para limitar a sua capacidade de as posicionar, não impediriam que continuassem a ser desenvolvidos esforços diplomáticos. No mínimo, poderiam mesmo levá-lo a negociar. Existem muitos outros cenários piores, incluindo a retaliação contra Israel pelo Irão, mas, nesta conjuntura desoladora, o pior é os Estados Unidos transmitirem a mensagem clara de que os seus avisos não significam nada.
Visto de Paris - François Hollande: França “está pronta” para infligir sanções ao regime de Damasco
Numa entrevista exclusiva ao Monde, François Hollande fala das modalidades de uma eventual intervenção na Síria, um dia depois de o Parlamento britânico ter recusado apoiar uma ação militar do Reino Unido. O Presidente francês, apesar de ciente da votação da Câmara dos Comuns, falou da formação de uma coligação internacional “se o Conselho de Segurança for impedido de agir”:
[A coligação] terá o apoio dos Estados europeus. Mas há poucos países com capacidade de infligirem uma sanção pelos meios apropriados. A França é um deles. E está pronta. Decidiremos a nossa posição em estreita ligação com os nossos aliados.
Hollande insiste, especialmente, no facto de o objetivo da intervenção na Síria não ser o de derrubar o regime de Bashar al-Assad:
Não sou favorável a uma intervenção internacional que vise “libertar” a Síria ou derrubar o ditador, mas defendo que se deve parar um regime que oprime irreparavelmente a sua população.