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sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Lá se faz, lá se paga! “…e nós aqui temos tudo!”

O Bank of America (BofA) aceitou pagar um valor recorde de 17.000 milhões de dólares (12.800 milhões de euros), 9.650 milhões dólares às autoridades e os restantes 7.000 milhões aos clientes afectados, para encerrar um litígio proveniente da crise dos empréstimos imobiliários de má qualidade, designados ‘subprime’.
Ficam ainda por resolver possíveis eventos criminais, especialmente relacionados com a Countrywide. O Departamento de Justiça acusou o BofA de ter vendido produtos financeiros, suportados por aqueles créditos imobiliários sem qualidade, que estiveram na origem da crise financeira de 2007-2008 e causaram prejuízos de milhares de milhões de dólares para os seus compradores.
Esta penalidade é um valor recorde, depois de o JPMorgan Chase ter pago 13.000 milhões de dólares em 2013.
O Lombard Odier e o Pictet Group, 2 dos maiores bancos da Suíça, vão tornar públicos os seus resultados financeiros, depois de 2 séculos - desde a respetiva fundação - de segredo. Os 2 bancos passam agora a publicar relatórios semestrais, que terão de ser divulgados até 2 meses depois do final de cada semestre.
Depois de um escrutínio sem precedentes por parte das autoridades europeias e norte-americanas ao sector da banca privada na Suíça, as 2 instituições prescindiram das estruturas de parcerias que implicavam que os seus parceiros assumissem a responsabilidade das perdas em janeiro deste ano. As contas do Pictet Group serão tornadas públicas ainda este mês e, no caso do Lombard Odier, será no dia 28. Não se conhecem ainda os números que serão divulgados, o que se sabe é que os 2 bancos supervisionam cerca de 630.000 milhões de dólares (474.900 milhões de euros) de clientes privados e institucionais, incluindo algumas das famílias mais ricas do mundo.
Começa assim uma nova era de regulação para a banca suíça, que terá de adaptar os seus modelos de negócio e passar a partilhar informação dos seus clientes com autoridades fiscais de outros países.
Neste momento, o Pictet está entre um grupo de bancos suíços sob investigação do Departamento de Justiça norte-americano, por, alegadamente, ajudar cidadãos norte-americanos a fugir ao fisco. O Lombard Odier, por seu lado, entrou voluntariamente para um programa de divulgação de dados, juntamente com mais de uma centena de bancos suíços.
O Wall Street Journal voltou a escrever mais um artigo sobre o colapso do BES. Desta vez, o jornal revela o papel que o banco suíço Crédit Suisse terá tido na derrocada do BES ao juntar milhões de dólares em títulos de dívida do Grupo Espírito Santo (GES) que foram vendidos, em veículos financeiros, a clientes do BES. 3 dos veículos estão sedeados numa offshore francesa e chamam-se Top Renda, Euroaforro Investments e Poupança Plus Investments. O Crédit Suisse foi o "arranger e dealer" destes produtos e o 4.º, chamado EG Premium, está sedeado nas Ilhas Virgens, um offshore britânico.
Nos EUA, devagar e bem, lá vão obrigando os bancos a pagar as vacas aos donos, ao Estado e aos clientes…
“…e nós aqui temos tudo!”
Na Suíça, ao fim de 200 anos, começa uma nova era de regulação para mais de uma centena de bancos, que vão tornar públicos os seus resultados financeiros e passam a partilhar informação dos seus clientes com autoridades fiscais de outros países, para evitar que ajudem cidadãos desses países fujam ao fisco…
“…e nós aqui temos tudo!”
Em Portugal, presume-se que um banco suíço ajudou um outro banco português, que foi à falência, conhecem-se os offshores que “ajudaram” à fuga de impostos e os responsáveis de um banco nem do outro sentam o rabinho no banco dos réus, nem se conhecem os nomes dos fugitivos ao fisco, obrigando-os a repor o que os contribuintes adiantaram por eles…
Lá se faz, lá se paga.
“…e nós aqui temos de tudo!”
Nota – São mais alguns exemplos da inocência dos bancos na crise, da honorabilidade sob suspeita dos banqueiros, do que são os serviços privados e de que não fomos nós que “vivemos todos acima das nossas possibilidades”.

domingo, 17 de agosto de 2014

Combater a “nova” ordem mundial, fora e dentro de portas!

Ucrânia, Síria, Iraque: tanto os conflitos violentos quanto a constante formação de alianças inesperadas marcam o mundo atual. O Ocidente precisa reagir a essa realidade.
Alexander Kudascheff
O mundo está a ser abalado por crises dramáticas. Na Ucrânia. E ainda mais no Médio Oriente, mesmo que um novo cessar-fogo de 5 dias entre Israel e o Hamas permita uma pausa para respirar. Na Síria, a guerra civil prossegue com intensidade homicida, embora quase que despercebida: em breve se atingirá a marca de 200.000 mortos, num país em dissolução.

E no norte do Iraque, o mapa territorial está a ser retraçado por uma soldadesca inimaginavelmente brutal, que ultrapassa todos os limites em nome de Alá, e cuja área de dominação já se estende da cidade de Aleppo até ao Curdistão iraquiano: o chamado "Estado Islâmico" (EI). O EI pretende destruir a ordem vigente, não reconhece fronteiras, Estados ou governos: para ele, o que conta é apenas a sua própria interpretação do Alcorão.
E isso abala a diplomacia, pois, de repente, as antigas conceções não valem mais. Os Estados Unidos apoiam os curdos – e, portanto, indiretamente, os xiitas em Bagdad e em Teerão – na luta contra os terroristas do EI. O país dá essa ajuda à própria revelia, pois, na realidade, ele quer uma troca de poder e de política no Iraque, e as suas relações com o Irão prosseguem tensas e abaladas.
Na Síria, os EUA também não sabem se insistem na queda do tirano Bashar al-Assad, pois isso abriria o caminho para a Frente Al-Nusra, que eles combatem no norte do Iraque. Uma desordem diplomática para a qual não há respostas fáceis.
O prémio Nobel da Paz, Barack Obama, decidiu-se cedo por uma retirada de tropas do Iraque. Ele não acredita nos êxitos das intervenções militares e, no entanto, teve que interferir agora. O papel dos EUA no Médio Oriente desgastou-se. Antes, o país era considerado insubstituível, devido às suas estreitas conexões estratégicas com Israel e com as monarquias e países árabes conservadores e com lideranças autoritárias, como o Egito, a Jordânia e a Arábia Saudita.
Porém, Obama tem fama de fraco, indeciso, hesitante e incapaz de se impor. Nem mesmo Israel lhe dá ouvidos – como tem mostrado, nos últimos 12 meses, a vã "diplomacia de ponte aérea" do incansável secretário de Estado John Kerry. Israel segue sendo o parceiro dos EUA, porém, age de forma mais autónoma do que nunca.
Na grande crise europeia em torno da Ucrânia, por outro lado, o presidente da Rússia, Vladimir Putin, revela-se um mestre da falta de transparência tática. Depois da anexação da Crimeia, será que também pretende avançar sobre o leste ucraniano? Será que só quer desestabilizar a região? Ou quer desestabilizá-la para depois anexá-la?
Será que o desafio de Moscovo se dirige apenas ao malquisto governo em Kiev, ou por trás dele esconde-se a gritante ambição de poder de um novo imperialismo russo, que se insere no vácuo político aberto pelos EUA, tão ocupados consigo mesmos, e pela hesitante e indecisa União Europeia?
As sanções do Ocidente contra os russos apresentam os primeiros efeitos, mas o clima vai-se congelando; e apenas telefonemas, até mesmo da chefe de governo alemã, Angela Merkel, não bastarão para desfazer o nó ucraniano. Como a Rússia foi excluída do círculo do G8, é a UE que precisa, em primeira linha, encontrar uma via de acesso ao Kremlin.
A Alemanha, por sua vez, – que desde o início do ano vem debatendo, com maior ou menor alarde, sobre um maior engajamento político no mundo – é forçada a assumir um novo papel.
O país é uma potência líder e a sua opinião é ouvida. Contudo, Berlim precisa avançar ainda mais, não pode se esconder por trás da UE na esperança de não ter que assumir nenhuma responsabilidade. A Alemanha precisa assumir uma posição definida: na crise da Ucrânia, sem dúvida, e possivelmente mais ainda no caso do norte do Iraque.
Se o "Estado Islâmico" age com brutalidade quase sem precedentes, se seres humanos são massacrados, assassinados ou expulsos de seus domicílios, então, Berlim não pode acomodar-se no seu bem-estar e prosperidade e esperar tranquilizar a própria consciência com alguns milhões de entregas de ajuda humanitária.
No entanto, as intervenções militares das últimas duas décadas foram raramente acompanhadas de sucesso. Isso vale tanto para o Afeganistão como para a Líbia – onde o derrube de Muammar Kadafi transformou a ditadura de um homem só num "Estado caído".
O mundo ficou mais difícil de compreender. A nova ordem mundial é uma ordem em que novas alianças são constantemente formadas. Pois quem poderia ter imaginado, apenas há alguns meses atrás, que o mundo se colocaria do lado dos curdos? Ainda mais com a intenção de que combatentes peshmerga vitoriosos desenvolvam uma nova consciência curda e que talvez exijam a fundação de um Estado curdo transfronteiriço!
Entre os polos da superpotência americana em retirada, as pretensões neoimperialistas de Moscovo e uma China que, por enquanto, muitas vezes ainda, age à sombra da política mundial, é necessária uma política externa nova e livre de preconceitos por parte da UE e, sobretudo, da Alemanha. E isso numa época sem certezas diplomáticas.
Quem fala assim tem alguma razão, no que respeita ao desrespeito pelos Direitos Humanos, não só nas áreas de conflitos bélicos, de caráter religioso ou político, que por isso são mais visíveis e manipuladores das consciências, mas também e sobretudo no que aos valores da vida humana, aos direitos conquistados e às condições de sobrevivência de milhares de milhões de pessoas, que sem outro motivo senão a ganância, mata mais gente do que as guerras reais ou imperiais…
É fácil perceber que é a miséria extrema que alimenta as guerras, gerando líderes fortes de maus instintos e motivando o alistamento de gente sem esperança…Também é fácil perceber que é a riqueza desmesurada que alimenta as guerras, aproveitando-se de líderes fracos com “boas intenções” e convencendo os contribuintes de que o bem-estar futuro passa pelo mal-estar do presente…
Os motivos (pseudo) religiosos tanto se encontram no Oriente como no Ocidente, de um e de outro lado com mais uns pozinhos de outros interesses sem qualquer interesse para a humanidade…
No caso, que mais responsabilidades cabem à Alemanha, que não sejam de toda a União Europeia, que como Obama, foi Nobel da Paz?

domingo, 10 de agosto de 2014

A UE ainda não acordou, mas abriu um olho e o porta-moedas…

A França, o Reino Unido e a Alemanha apelam a Israel e ao Hamas para um cessar-fogo imediato na Faixa de Gaza, indicaram os ministros dos Negócios Estrangeiros dos 3 países, Laurent Fabius (França), Philip Hammond (Reino Unido) e Frank-Walter Steinmeier (Alemanha), numa declaração conjunta divulgada e acrescentam: "Damos o nosso pleno apoio aos esforços realizados pelo Egito para esse efeito".
O cessar-fogo de 72 horas na Faixa de Gaza entre Israel e o Hamas expirou às 8 horas locais, após negociadores não conseguirem chegar a um acordo final para ampliar a trégua. Poucas horas antes do fim da trégua, 2 foguetes partindo de Gaza foram atirados contra Israel, segundo o exército israelita. Não houve feridos.
Alemanha, França e Grã-Bretanha propuseram a reativação de uma missão da União Europeia na fronteira entre a Faixa de Gaza e o Egito para ajudar a estabilizar o enclave palestiniano após um mês de guerra, disse uma fonte diplomática da Alemanha nesta quarta-feira.
Europeus já repassam 900 milhões de euros por ano para a Cisjordânia e a Faixa de Gaza, na forma de ajuda humanitária. Unidade entre os palestinos facilitaria a distribuição.
A União Europeia (UE) está pronta para contribuir com a reconstrução da Faixa de Gaza e o fornecimento de suprimentos à população local logo que se chegue a um cessar-fogo definitivo entre o Hamas e o governo de Israel.
De acordo com o porta-voz da alta representante para assuntos externos, Catherine Ashton, Sebastien Braband, o bloco europeu conversou com todas as partes envolvidas a fim de definir a melhor forma de contribuir para o fim do conflito. "Por isso é fundamental que o novo governo palestino assuma o controlo da Faixa de Gaza e coloque fim às disputas internas", disse.
Se a Autoridade Nacional Palestina, sob comando do moderado presidente Mahmoud Abbas, controlasse a Faixa de Gaza, seria muito mais fácil para a UE distribuir ajuda financeira diretamente à região e até mesmo controlar a aplicação desses recursos. Mas quem comanda Gaza é o grupo radical Hamas, e o bloco europeu precisa fazer uso de vias indiretas para repassar parte dos salários e aposentadorias dos funcionários públicos da Faixa de Gaza e dar ajuda financeira para diversas famílias que vivem na região. Esses repasses só podem ser feitos por vias indiretas – transferir recursos ao Hamas está fora de questão.
Com isso, segundo a Comissão Europeia, fica difícil controlar esses pagamentos – o que já gerou uma reprimenda do Tribunal de Contas Europeu. Em dezembro do ano passado, a corte declarou que a UE pagou salários a servidores públicos na Faixa de Gaza que nem sequer estavam a trabalhar. O Tribunal de Contas recomendou ainda o cancelamento dos programas de ajuda, o que não ocorreu.
Por ano, a Comissão Europeia destina 450 milhões de euros do fundo comum europeu aos palestinianos da Cisjordânia e da Faixa de Gaza, na forma de ajuda humanitária. O mesmo valor é repassado diretamente pelos Estados-membros do bloco europeu. Ao lado da UE, os Estados Unidos são o maior doador de recursos para os palestinianos.
Tem sido escandaloso o silêncio e inoperância da UE neste conflito, que não cabe nos valores da cultura europeias, a não ser desde a sua transformação numa cooperativa financeira… E por isso surge esta preocupação de 3 países, desgarrada da chamada União, sabe-se lá com que legitimidade e força…
E perante mais um previsível fracasso das negociações para um cessar-fogo, que deveriam ser para acabar com o conflito, negociando as questões que estão na sua base, eis que os mesmos 3 países da UE, propõem a reativação de uma missão da União Europeia na fronteira entre a Faixa de Gaza e o Egito, quase como um escudo humano, que impedisse Israel dos crimes humanitários que tem cometido impunemente, por serem cometidos contra civis indefesos, o que não seria a mesma coisa se os atingidos fossem funcionários da União. Bom seria que missão da UE fosse na fronteira entre a Faixa de Gaza e Israel, mas não há coragem… Seria remédio santo e permitiria ter (mais) observadores a recolher e dar testemunho dos “erros” colaterais, na era da nanotecnologia…
À falta de coragem, a União Europeia oferece aquilo em que hoje em dia se especializou e são os seus valores maiores, dinheiro. Para já, para ajuda humanitária, mais tarde, se houver tréguas, para reconstruir, mais uma vez, os edifícios destruídos, num ciclo vicioso que cheira a negociata de “patos-bravos”…
Como foi possível, em tão pouco tempo acontecer uma desvalorização tão grande na bolsa de Valores da cultura europeia, tão humanista e agora tão anestesiada?
Filosofias de vida e discriminação de pessoas que o passado parecia ter enterrado? Ou novo-riquismo parolo?

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

As razões (omitidas) do passado para se entender o “presente”

“Se eu fosse um líder árabe, nunca assinaria um acordo com Israel. É normal: nós tomamos o país deles. É verdade que era uma promessa de Deus, mas o que têm eles a ver com isso? O nosso Deus não é o deles. Houve o antissemitismo, Hitler, os nazis, mas o que isso lhes diz respeito? Para eles, existe uma única coisa: nós viemos e roubamos o país deles. Por que aceitariam isso?”: Esta espantosa declaração de David Ben Gurion, fundador do Estado de Israel e o seu 1.º primeiro-ministro, na época, nunca foi publicada nos media.
Eu vou todos os anos para Israel. É um país incrível. Tem a 25ª mais alta renda per capita do mundo, com 36.000 dólares ao ano, à frente da média da União Europeia e mais de 3 vezes superior à brasileira (11.000 dólares ao ano). Já ganhou 12 prémios Nobel - tem mais prémios Nobel por habitante do que a Alemanha, Estados Unidos e França. Israel tem excelentes museus, uma das melhores orquestras filarmónicas do mundo, grandes cineastas (Amos Gitai, Dror Moreh, Ari Folman), escritores magistrais (Amos Oz, David Grossman, S.Y. Agnon, A.B. Yehoshua...), músicos fantásticos. Apesar do seu tamanho minúsculo, é o 3.º país com mais empresas listadas na Nasdaq, a bolsa de empresas de tecnologia, atrás apenas dos EUA e da China. O primeiro serviço de instant messaging, ICQ, é de uma empresa israelita. O Waze também. A Teva, a maior empresa do mundo de medicamentos genéricos, é de lá. O país tem grandes restaurantes, um Parlamento vibrante, uma vida noturna intensa. Tel Aviv poderia ser colocada em qualquer país europeu e o turista não saberia a diferença.
Que tudo isso tenha sido gerado por um país de 20.000 quilómetros quadrados (um pouco menor que Sergipe) fundado em 1948 já seria surpreendente; tendo acontecido sob constantes ataques em guerras e atentados terroristas e acolhendo milhões de imigrantes ao longo de décadas, é algo que aqueles com pendores religiosos poderiam chamar de milagre. Cercado por todas estas opulentas vitórias e conquistas, é perdoável que os visitantes estrangeiros e os próprios israelitas não consigam fazer o esforço sobre-humano de notar que, mantido o atual caminho, o país ruma para o suicídio.
Conflito - A atual campanha de Gaza apenas reforça alguns pontos nos quais acredito há muitos anos. Primeiro: Israel não pode vencer o conflito com os palestinianos militarmente sem que se torne um pária entre as nações. Porque a única maneira militar de acabar com o terrorismo dos radicais do Hamas seria dizimar todo o povo palestiniano. Algo inconcebível. Enquanto houver palestinianos vivos, vão querer ter um Estado – uma aspiração que o povo judeu, apátrida durante 2 milénios, certamente entende bem, e cuja legitimidade é inquestionável.
Eu acompanho este conflito com lupa há pelo menos 20 anos. Já nem me recordo mais a quantidade de vezes que os comentaristas militares israelitas e os seus apoiantes disseram que uma certa ação militar ou o assassinato de um líder do Hamas (Yehia Ayash, Ahmed Yassin, Abdel Aziz al-Rantissi, Salah Shahade, Ahmed Jaabari) daria o “golpe definitivo”. Mas o enredo é sempre o mesmo: centenas ou milhares de palestinianos inocentes são assassinados, casas são destruídas, mísseis explodidos, soldados e civis israelitas morrem e, assim que as operações acabam, a preparação para o próximo conflito começa. Com um saldo sempre negativo para Israel. A operação ‘Chumbo Fundido’, de 2008-09, matou entre 1.166 e 1.417 palestinianos e 13 israelitas.
A operação atual, no momento em que escrevo estas linhas, já custou a vida de 1.492 palestinianos e 66 israelitas, além de um soldado sequestrado (entretanto reconhecido como morto em combate) A imagem internacional do país deteriorou-se sensivelmente de lá pra cá. Chama a atenção que os defensores desta operação não percebam a sua inutilidade: Israel está a usar todo o aparato bélico de que o século XXI dispõe para...enterrar túneis (?!). Túneis que podem ser feitos com pás e um pouco de cimento e que certamente começarão a ser cavados novamente assim que o conflito terminar. É óbvio que Israel precisa de se defender dos foguetes e não permitir túneis adentrando o seu território, como é óbvio não ser possível eliminá-los militarmente.
Guerrilha - Muito se tem escrito, nos últimos dias, sobre a indecência do comportamento do Hamas, que estaria vitimando os seus concidadãos de propósito para danificar a imagem de Israel. Do outro lado, há aqueles que acusam Israel de “genocídio” e imaginam que o objetivo da ação é matar o maior número possível de palestinianos. Não pretendo ater-me a teorias e gostaria de ficar no terreno do que considero obviedades. A primeira é que, se os palestinianos não podem ter Exército e não conseguem obter concessões pela via da negociação, a sua arma será o terrorismo, por não terem outra. A segunda é que terroristas são o que de pior a humanidade produz, e os militantes do Hamas, e a sua ideologia, são asquerosos, racistas, desumanos, torpes. A terceira, derivada das duas acima, é que um Exército nacional não pode lutar contra e vencer uma milícia terrorista sem que adote as suas táticas, coisa que um Exército nacional não pode fazer. É por isso que os americanos não ganharam no Vietnam nem os franceses na Argélia, e é por isso que o exército israelita não ganhará em Gaza, se por “vitória” entendermos uma ação militar que gere uma paz duradoura.
Não entendo as pessoas que ficam a apontar as atrocidades do Hamas. Ninguém, em sã consciência, acha que é uma organização digna e honrada. O que esperam essas pessoas? Que ao denunciar as vilezas do Hamas os seus militantes comecem a guerrear de acordo com as Convenções de Genebra?! Não vai acontecer. Que a população de Gaza se insurja contra o Hamas e entenda as razões israelitas para matar centenas de mulheres e crianças, e aceitem o bloqueio marítimo, terrestre e aéreo que Israel impõe a Gaza de maneira resignada? Não vai acontecer. Que a comunidade internacional aceite a morte de centenas de inocentes porque os militantes do Hamas estão a lançar foguetes contra cidades israelitas? Não vai acontecer.
O segundo facto, portanto, que essa operação deixa claro, é que o problema israelo-palestiniano precisa ser resolvido na mesa de negociações. Essa, aliás, é a única forma de derrotar o Hamas: mostrar aos palestinianos que o terrorismo não leva a nada e que o caminho dos moderados traz resultados. Aqui os defensores de Israel repetem mais uma frase sem sentido, que vem dos partidos da direita israelita: a de que não há parceiro para a paz, de que os palestinianos não reconhecem a existência de Israel, de que todos os árabes – ou todo o mundo, dependendo do nível de paranoia do interlocutor – quer jogar os judeus ao mar. Assim sendo, não há nada a fazer, além daquilo que os militares israelitas chamam de “aparar a rellva”: ações militares periódicas que causam bastantes mortes e destruição e retardam em alguns anos o fortalecimento das milícias palestinas. (Esse linguajar desumano, inaceitável, já é um indício de uma brutalização da sociedade israelita e de grande parte da comunidade judaica, que comento a seguir).
Para ser sincero, acho essa visão equivocada. Ela emana do pecado original do sionismo: a ideia, difundida nos primórdios do movimento, de que a criação do Estado judeu na Palestina histórica era dar “um povo sem terra para uma terra sem povo”. Ocorre que a segunda metade da frase é falsa: havia milhares de palestinianos a morar, há séculos, nas terras sagradas do judaísmo. Eu entendo perfeitamente que um povo perseguido durante milénios e tendo recentemente saído do Holocausto não tenha podido demonstrar empatia para com o sofrimento dos palestinianos naquela época - mas não hoje. Também entendo que os palestinianos não tenham aceitado a presença judaica em terras que percebiam como suas. Como bem disse David Ben-Gurion, 1.º primeiro-ministro israelita: “Se eu fosse um líder árabe, jamais assinaria um acordo de paz com Israel. É normal, nós tomamos o país deles. É verdade que Deus prometeu-o a nós, mas o que têm eles a ver com isso? O nosso Deus não é o deles. A única coisa que eles veem é: nós viemos aqui e roubamos o seu país. Por que deveriam aceitar isto?”

domingo, 3 de agosto de 2014

Lindo! Não se veem pessoas, mas brilham algumas diferenças…

Portugal esteve esta sexta-feira em destaque no site de NASA, a agência espacial americana, que escolheu para Imagem do Dia uma belíssima fotografia da Península Ibérica, tirada na noite de 26 de Julho.
A fotografia mostra as luzes que brilham à noite nas diferentes áreas metropolitanas da Península Ibérica. Na imagem pode ver-se o nosso país, Espanha, Andorra, parte do estreito de Gibraltar e uma pequena fracção do território francês.
A foto foi exibida na secção “Imagem do Dia” do site, onde a NASA vai publicando as fotos e vídeos mais extraordinários – desde corpos celestes capturados a milhares de anos-luz da Terra, até imagens do nosso próprio planeta, passando por instantâneos capturados nas missões da agência.
De acordo com a legenda que a NASA acrescentou à imagem, a foto foi tirada a partir da ISS, a Estação Espacial Internacional, por um dos membros da tripulação da Expedição 40, missão que teve início em Maio deste ano.
Através da Estação Espacial Internacional (EEI), já é possível ver a Terra, em directo e em alta definição. E é impressionante! A EEI demora cerca de 90 minutos a completar a sua órbita pelo planeta, o que permite, por exemplo, ver um pôr-do-sol a cada 45 minutos.
No âmbito da experiência High Definition Earth Viewing, a NASA colocou 4 câmaras no exterior da EEI que transmitem, 24 horas por dia, imagens que podem ser acompanhadas por qualquer dispositivo ligado à internet, através da plataforma Ustream.
O projecto, que teve início no dia 1 de maio deste ano, tem como objectivo testar o comportamento das câmaras no Espaço, ou seja, a forma como o hardware das mesmas reage ao ambiente radioactivo. As câmaras estão protegidas por um compartimento com nitrogénio seco, temperatura controlada e pressão semelhante à da Terra. O design das cápsulas foi feito em parceria com alunos do ensino secundário dos EUA.
A EEI orbita a cerca de 400 quilómetros acima da Terra e desloca-se a mais de 27.000 quilómetros por hora. Num só dia, realiza entre 15 a 16 órbitas do planeta.
Se estiver a ver as imagens em directo, e de repente o ecrã ficar em tons de cinzento, é porque a NASA está a trocar os sinais de cada câmara; se ficar escuro, praticamente preto, significa que a EEI está a atravessar a parte nocturna da Terra, o que acontece durante cerca de 40 minutos, a cada 92 minutos.
Acompanhe a Estação Espacial Internacional e saiba exactamente onde ela está no momento, através do ISSTracker.
Veja a Terra em directo e em alta definição AQUI.

terça-feira, 29 de julho de 2014

2 Prémios Nobel da Paz e nada fazem para os merecerem!

O secretário-geral da ONU afirmou esta segunda-feira que o conflito israelo-palestiniano não se resolve porque “há falta de vontade política”.
Ban Ki-moon apontou o dedo aos líderes das duas partes. “Por que é que estes líderes estão a permitir que os seus povos se matem um ao outro? Não é só responsabilidade, é moralmente errado” e pediu o fim imediato da violência em Gaza, dizendo que o território palestiniano está numa “situação crítica”, deixando o apelo: “Em nome da humanidade, esta violência tem de parar”.

Ban Ki-moon dá voz aos milhares de civis que choram, de ambos os lados.

O apelo do presidente Barack Obama por um cessar-fogo "imediato e sem condições" em Gaza afetou as relações já tensas entre Estados Unidos e Israel e colocou o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu numa situação delicada com os extremistas do seu governo.
Os analistas interpretaram como um ultimato o pedido feito no domingo pelo presidente dos Estados Unidos ao primeiro-ministro israelita.
O braço executivo da União Europeia disse que vai dar 5 milhões de euros para ajudar nos trabalhos de ajuda de emergência na Faixa de Gaza. A decisão de enviar mais dinheiro para Gaza foi tomada depois de uma escola da Organização das Nações Unidas ter sido atingida por um míssil israelense, matando 16 pessoas.
O comunicado divulgado pela comissária europeia para Ajuda Humanitária Kristalina Georgieva chamou a situação em Gaza de “crise humanitária”. “Estou horrorizada com a perda de vidas e os ferimentos causados a civis em Gaza”, disse Georgieva. “É injusto que hospitais e escolas, onde crianças, mulheres, doentes e idosos aterrorizados buscaram abrigo, se tenham tornado alvos militares.”
A ONU, pela voz de Ban Ki.moon lava as mãos como Pilatos, mas devia decidir como Salomão, se não for capaz de interpretar o genocídio segundo o Direito Internacional, já que não consegue fazer cumprir o pedido de um cessar-fogo imediato e duradouro “decretado” pelo Conselho de Segurança.
Os EUA, pela voz de Obama, faz de conta que é neutro, mas vai assistindo, de longe, à carnificina de inocentes, enquanto no seu país os próprios judeus, ali residentes, se vão manifestando contra a evidência de um crime humanitário, enquanto Kerry nem fazer de conta sabe e dá uma no cravo, outra na ferradura… Netanyahu faz orelhas moucas aos “ultimatos” de Obama, porque sabe que a sua voz não chega ao céu.
A UE, pela voz da sua comissária europeia para Ajuda Humanitária, chora lágrimas de crocodilo por Gaza, enquanto inventa sanções contra a Rússia pelo abate de um avião com 298 mortos, e oferece uns euros para ajuda de emergência aos sobreviventes e às famílias dos mais de 1.000 mortos... Nem se fala de humanidade, crime ou desproporcionalidade, dá-se uma esmola.
E, foi por este comportamento perante a guerra, que Barack Obama e a União Europeia ganharam o Prémio Nobel da Paz?
Um grupo de personalidades escandinavas anunciou hoje que pediu à polícia norueguesa que abra um inquérito sobre as condições de atribuição do Prémio Nobel da Paz por considerarem que nalguns casos estas não estão em conformidade com o testamento de Alfred Nobel.
É cínico, com tanto morto…
 “Temos de os matar – não só os militantes do Hamas, mas toda a população de Gaza!" É o que diz a um correspondente do Guardian um soldado israelita de 22 anos no funeral de um camarada seu, um dos 18 soldados israelitas mortos na enésima invasão de Gaza, um miúdo de 20 anos que fazia o serviço militar obrigatório.
"Não temos escolha: se não lutarmos até ao fim, eles matam-nos." Nas ruas de Jerusalém todos se dizem contra um cessar-fogo: querem que se “dê cabo do Hamas. E isso leva tempo”. Perguntados pelas centenas de palestinianos mortos (até ontem de manhã eram mais de 600, o equivalente aos passageiros de 2 aviões iguais ao da Malaysia Airlines abatido na Ucrânia), 80% dos quais civis, segundo a ONU, 20% crianças. A lengalenga sinistra é a mesma de sempre: “Muita gente foi morta porque o Hamas usa escudos humanos. Os palestinianos não têm respeito pela vida, nós é que temos.” De descrições de inimigos fanatizados e sem apego à vida está a História cheia: os americanos achavam o mesmo dos vietnamitas, era o que os nazis diziam de soviéticos e jugoslavos na II Guerra Mundial... Como explica uma porta-voz da B'Tselem (uma ONG israelita de direitos humanos), “os israelitas não negam que [os palestinianos] morram; simplesmente fazem um raciocínio que os culpa pela sua própria morte”. E queixam-se de que os media “mostram imagens de crianças mortas sem explicar o contexto do conflito” (Guardian, 20 e 21.7.2014).
Pois é, o contexto... A Amnistia Internacional (AI) tem repetido que é precisamente o inverso que se passa: nas sucessivas operações punitivas sobre Gaza, “soldados israelitas utilizaram civis palestinianos, crianças incluídas, como escudos humanos durante as operações militares”. Foi o que aconteceu na operação Chumbo Fundido (22 dias entre dezembro de 2008 e janeiro de 2009): cerca de 1.400 palestinianos mortos, “incluídas pelo menos 330 crianças” 5 anos depois (e, pelo meio, outra operação, em 2012, que matou mais 160 palestinianos), tudo se repete: Israel, ainda que incomparavelmente menos pressionado que qualquer outro ator internacional, martela a opinião pública com esta propaganda de que, se há mortos, a culpa é da forma perversa como os seus adversários fazem a guerra – mas quando a poeira assentou em 2009, o que as organizações independentes (a AI, as agências da ONU) comprovaram é que o Exército israelita atacou “15 dos 27 hospitais de Gaza”, “uma trintena de ambulâncias”, “matou 16 membros do pessoal médico”. Ao contrário do que dizia a propaganda israelita, “a AI não encontrou indício algum de que os combatentes do Hamas ou doutros grupos armados tenham utilizado os hospitais para se esconder ou para conduzir ataques, e as autoridades israelitas não forneceram provas dessas alegações”. Pelo contrário: “impediram deliberadamente a ajuda humanitária e as equipas de socorro [da Agência das Nações Unidas para os Refugiados e da Cruz Vermelha] de entrar em Gaza, ou obstaculizaram a sua circulação, atacaram veículos, centros de distribuição e pessoal médico.” (AI,Relatório Anual 2010)
Por tudo isto é verdadeiramente patética a discussão sobre se é “desproporcionada” a reação israelita aos rockets lançados a partir de Gaza. Desproporcionada, não; ela é um crime internacional, feito enquanto o resto do mundo olha para os restos do avião Malysia Airlines! Invoca Obama o direito de Israel a defender-se, como se Gaza fosse um país independente que agride outro país independente. Não: é Israel que desde há 47 anos ocupa Gaza (e a Cisjordânia, e Jerusalém Oriental) ilegalmente, e a bloqueia por terra, ar e mar (nenhum barco se pode aproximar da costa, nenhum avião pode aterrar sem autorização militar israelita) desde 2007, controlando todos os seus acessos (salvo Rafah, no qual tem a colaboração do Egito). A retirada militar israelita em 2005 não alterou em nada o estatuto de território ocupado. Em apenas 360 km2 (o tamanho do concelho de Sintra) vivem 1.800.000 de pessoas, 43% delas menores de 14 anos, 80% dependendo de ajuda humanitária por causa do desemprego, da pobreza extrema. Para a AI, “a amplitude do bloqueio e as declarações dos responsáveis israelitas sobre os seus objetivos demonstram que esta medida é uma forma de castigo coletivo infligido à população de Gaza, em violação flagrante do Direito Internacional.”
De todo o quadro de ilegalidades cometidas por Israel que a UE e os EUA toleram, o bloqueio a Gaza supera tudo. Nada há neste planeta mais próximo de um gueto (o mundo deveria pensar a que é que isto soa...) no qual se fecham, até à exasperação total, quase 2.000.000 de pessoas. Os israelitas – e esta coisa a que cinicamente se chama comunidade internacional – comportam-se como se eles fossem todos “terroristas” do Hamas. Os media (veja-se o Huffington Post, 13.7.2014) mostram moradores das colinas próximas de Gaza sentados em cadeiras de praia a aplaudir o espetáculo dos aviões e drones que bombardeiam Gaza. Trazem pipocas, fumam cachimbos de água – enquanto a poucos quilómetros de distância famílias inteiras ficam soterradas debaixo dos escombros, crianças são levadas em desespero para hospitais bombardeados, onde se operam feridos num corredor... “Os palestinianos não têm respeito pela vida!”

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Schindler, Sousa Mendes e Winton, não mereciam um genocídio!

Sir Nicholas Winton tem uma das histórias mais fantásticas, foi o responsável por organizar uma operação de resgate que salvou 669 crianças de campos de concentração nazi. Foram levadas em segurança até a Inglaterra entre os anos de 1938 e 1939.
Depois da II Guerra Mundial o feito de Nicholas permaneceu desconhecido. Foi só em 1988 que a sua esposa Grete descobriu um velho livro de 1939 com os nomes e as fotos de todas essas crianças.
Por ironia do destino, ou não, assiste-se hoje à liquidação sumária e cega de milhares (lá chegaremos) de palestinianos, civis e inocentes, perpetrada por quem já foi sumária e cegamente perseguido e liquidado, ao mesmo tempo que surgiam, aqui e ali, alguns “anjos da guarda” que lhes garantiram o futuro… Entre muitos, conhecemos Schindler, Aristides Sousa Mendes e agora Nicholas Winton.
Pelo que estes homens fizeram por tantos judeus, não mereciam esta ingratidão da atual guerra de Israel contra Gaza, que seguramente não está a ser levada a cabo por nenhum dos que foram salvos, mas serão descendentes de alguns deles?
Sir Nicholas Winton, Kt (Cavaleiro Celibatário), MBE (Ordem do Império Britânico), nascido em Nicholas Wertheim; Hampstead,a 19 de maio de 1909, é um britânico que organizou o resgate de 669 crianças, na sua maioria judias na antiga Checoslováquia, antes das suas deportações dos campos de concentração naziss, salvando-as da morte certa em 1939, antes do início da II Guerra Mundial. É muitas vezes chamado de Schindler britânico.
Nicholas Winton foi agraciado com a Ordem de Tomáš Garrigue Masaryk, Quarta Classe, pelo Presidente Checo em 1998.
No aniversário da rainha, em 1983, foi nomeado membro da Ordem do Império Britânico pelo seu trabalho na instalação de asilos da sociedade Abbeyfield na Grã-Bretanha e, em 2002, elevado a cavaleiro pela rainha Elizabeth II em reconhecimento pelo seu trabalho no salvamento das crianças.
Encontrou-se com a Rainha novamente durante a sua visita de Estado à Eslováquia, em outubro de 2008.
O asteroide 19384 Winton foi nomeado em sua honra pelo casal de astrónomos checos Jana Tichá e Miloš Tichý.
Em 2008, Nicholas Winton foi homenageado pelo governo checo de várias formas: uma escola de ensino elementar em Kunžak recebeu o seu nome e foi agraciado com a Cruz do Mérito do Ministério da Defesa, Grau I. Também foi indicado pelo governo checo para o Prémio Nobel da Paz de 2008.
Por ter antepassados judeus, Winton não foi agraciado no quadro de Justos entre as Nações.
Winton está vivo e são, e não vê a sua atitude como extraordinária.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Quem está na proa, na ré ou na cesta da gávea da Lusofonia?

A cimeira da CPLP que decorreu em Díli ficou marcada pela adesão da Guiné Equatorial à organização, que é agora um Estado membro de pleno direito.
O facto em si, nada tem de marcante. Organizações que se formaram agregando países que falam a mesma língua receberam no seu seio Estados que não têm qualquer afinidade linguística. Moçambique faz parte da Commonwealth e a Guiné-Bissau integra o bloco da Francofonia. Estes 2 exemplos podem repetir-se às centenas.
O que marca a adesão da Guiné Equatorial à CPLP é o alarido feito por membros das elites preconceituosas portuguesas. Em Lisboa surgiram numerosas vozes contra a adesão. Muitas são daquelas que nunca chegarão aos céus. Mas entre os contestatários estão políticos e líderes de opinião que se dizem democratas. O que revela uma contradição insanável eivada de ignorância e uma tendência inquietante para criar um “apartheid” nas relações internacionais. De um lado os democratas puros, os fiéis. E do outro os impuros e infiéis.
Ninguém percebe de onde vem a pureza e a fidelidade dos representantes das elites preconceituosas à democracia. Nem se compreende a soberba com que tratam a Guiné Equatorial e o Presidente Obiang. Em Lisboa é esgrimido um argumento muito débil: o país tem a pena de morte. Muitos estados dos EUA executam todos os dias condenados à pena capital e nem por isso os porta-vozes dessas elites querem expulsar o seu aliado da NATO. Pelo contrário, quando Washington anunciou que ia sair da Ilha Terceira, por já não ter interesse na Base das Lajes, todos se puseram de joelhos, implorando que a base aérea continue.
Outros parceiros políticos e económicos de Portugal têm a pena de morte e isso não impede que os portugueses façam grandes negócios e brindem em Lisboa com o sublime Vinho do Porto. Os argumentos, mais do que débeis, são primários. E mais do que isso: escondem hipocrisia e também muita pressuposição baseada em velhos conceitos coloniais. A CPLP, já aqui o escrevemos, pode ter uma influência grande na política da Guiné Equatorial. O decreto presidencial que suspende a pena de morte até à produção de legislação que determine a sua abolição é um exemplo concreto dessa influência. Se a partir de agora o Governo daquele país se aproximar dos modelos constitucionais que vigoram nos outros Estados membros, então está justificada a adesão.
A questão da Língua Portuguesa também é levantada pelas elites portuguesas ignorantes e corruptas. A Guiné Equatorial adoptou o português como língua oficial, a par do castelhano e do francês. Portanto, esse argumento deixou de valer a partir desse momento. Mas nunca valeu mais do que a caspa que povoa as ideias dos contestatários portugueses à adesão daquele país à CPLP. Explicamos pormenorizadamente.
Parte do território da Guiné Equatorial já foi colónia portuguesa. Só no século XVII passou para a soberania espanhola. A ilha de Fernando Pó recebeu o nome do navegador português que lá aportou. A Ilha de Ano Bom (Ano Novo) está nas mesmas condições. Mas na pequena ilha está um tesouro da lusofonia: fala-se crioulo (fá d’ambô) que tem por base o português arcaico e que chegou quase incólume aos nossos dias.
As ilhas da Guiné Equatorial, está provado, foram povoadas por escravos angolanos. Nós queremos ir lá render homenagem aos nossos antepassados. Agora que Fernando Pó e Ano Bom fazem parte da CPLP, mais facilmente podemos cumprir esse dever. Mas sem a companhia das elites estrábicas, que nem sequer foram capazes de defender a dulcíssima Língua Portuguesa do Acordo Ortográfico.
Os angolanos querem saber mais sobre a Língua Portuguesa e na ilha de Ano Bom, território da CPLP, temos muito que investigar a cultura. Os portugueses deviam ter o mesmo interesse, mas pelos vistos só estão interessados em dar lições de democracia, quando dentro das suas portas há crianças a morrer de fome.
Os Media em Portugal praticam diariamente atentados contra a Língua Portuguesa. Nos jornais já se escrevem mais palavras em inglês do que em português. Nas rádios e televisões a situação é ainda pior. Escrever e falar o português contaminado de anglicismos e galicismos é uma traição a todos os que falam a língua que uniu os países da CPLP.
A Guiné Equatorial já está a preparar o ensino da Língua Portuguesa. Dentro de pouco tempo, os novos parceiros da CPLP vão falar melhor do que as elites portuguesas preconceituosas. O mesmo vai acontecer quando outros países que tiveram contacto com o português no advento dos “descobrimentos”, entrarem para a organização.
Os portugueses têm um grande orgulho na expansão marítima da qual resultou o seu império. Mas agora há países e povos que guardam a memória desse passado comum e querem pertencer à CPLP. Alguns renegam esse passado e opõem-se ao alargamento da organização. São demasiado pequenos para a grandeza da Língua Portuguesa.

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Vida de 3 israelitas vale mais do que as de 101 palestinianos? ou Vítimas do holocausto mudam processos e continuam-no…

Operação militar também deixou 600 feridos na Faixa de Gaza. Violência começou com o sumiço de 3 jovens israelitas na Cisjordânia.
O secretário-geral da Organização das Nações Unidas, Ban Ki-moon, classificou de "inaceitável" o uso da força militar de Israel contra a Faixa de Gaza e condenou os ataques com mísseis dos israelitas. "O uso excessivo da força por Israel é inaceitável. O meu interesse é proteger os civis e os palestinos estão, mais uma vez, entre a irresponsabilidade do Hamas e a dura resposta de Israel", falou Ban Ki-moon durante o Conselho de Segurança da ONU nesta quinta-feira.
Israel intensificou os bombardeamentos à Faixa de Gaza na madrugada desta quinta-feira (10). De acordo com o Exército israelense, os mais de 300 ataques das últimas horas, o dobro da véspera, tinham supostamente como alvo casas de membros do movimento islâmico Hamas e possíveis esconderijos de armas.
Não houve anúncios sobre os resultados das conversas em reunião do Conselho de Segurança.
Primeiro-ministro israelita ameaça "intensificar ataques" e o presidente Shimon Peres diz que uma invasão pode acontecer "a qualquer momento".
Obama condenou o lançamento de foguetes contra Israel pelo grupo palestino Hamas e manifestou preocupação com a possível "escalada das tensões" entre os 2 lados, enfatizando a necessidade de que ambos "façam o que for possível para proteger a vida de civis e restaurar a calma".
1 – Foram assassinados 4 jovens, 3 israelitas e 1 palestiniano;
2 – Israel, cujos cidadãos foram vítimas do holocausto, em vez de resolver a situação pelas vias judiciais, entra em guerra por isso, mata mais de 100 pessoas (70% civis) e faz 600 feridos;
3 – O secretário-geral da ONU conclui que a resposta de Israel é excessiva e inaceitável, logicamente;
4 – Em resposta, Israel intensifica os ataques aéreos, acrescentando 300 raides numa madrugada;
5 – O Conselho de Segurança da ONU pede o fim da violência em Gaza para evitar mais uma guerra;

6 – Israel ameaça com uma invasão terrestre da Faixa de Gaza, pela voz de Shimon Peres, que com Mahmoud Abbas rezaram há pouco tempo, com o Papa Francisco, pela paz entre ambas as nações;

7 – Os EUA, pela voz (ao telefone) de Obama, condena os foguetes palestinianos contra Israel, omite o massacre dos palestinianos e o excesso de meios israelitas, “preocupado” com a proteção dos civis, como se as bombas fossem capazes de os diferenciar…

Para quem está de fora e tem como maior Valor a vida humana, seja de quem for, estes conflitos cíclicos no Médio Oriente, que matam à manada, quase com prazer, faz mais impressão por ter como atores mais violentos quem foi vítima de violência extrema, no holocausto…
Se é absurdo alguém matar jovens por razões bélico-políticas, mais absurdo é que os 2 países não recorram à justiça para condenar os assassinos e que a “superpotência” dos EUA não tenham mão no processo e que a ONU seja ultrajada na sua missão…
Será que a vida de 3 israelitas vale mais do que as de 101 palestinianos?
Não será isto uma inversão da supremacia da “raça ariana”?
E quem nos quer explicar a origem e a (in)justiça deste conflito sem fim à vista?
Uma chuva de roquetes disparados de Gaza, uma bateria de ataques aéreos israelitas: a nova batalha é tão mortal como fulgurante. O assassinato de 3 jovens israelitas de um colonato da Cisjordânia e de 1 adolescente palestiniano - queimado vivo, em retaliação - geraram uma viva emoção e uma onda de manifestações e confrontos, que logo se instalaram. 10 de julho à noite, o balanço dos 2 dias de ataques é de 81 palestinianos mortos. Intercetadas na maior parte, os roquetes não fizeram vítimas do lado israelita.
Além da vingança das suas mortes e da resposta, que procuram os 2 campos? Qual a vantagem de lançar roquetes face a um exército tão poderoso como o de Israel? E por que multiplicar os bombardeamentos aéreos, quando é impossível superar a contestação na prisão a céu aberto que é Gaza?
Para o Hamas, o objetivo é antes de tudo de "Sobreviver", diz o cientista geopolítico Daniel Nisman, interrogado pelo AFP. Ele não tem "nada a perder", completa Moukhaïmer Abu Saada, politólogo da Universidade de Al-Aqsa em Gaza. Confrontado com enormes dificuldades financeiras, contestado nas ruas de Gaza, que lhe imputa a responsabilidade do bloqueio, o Hamas está acossado. Yediot Aharonot avança 2 explicações para a ofensiva do Hamas. Estando encurralado, optou pelo suicídio coletivo. Ou não leva as ameaças de Israel a sério e está determinado a mostrar-lhe o seu poder.
Pelo seu lado, se Israel não hesitou muito antes de lançar uma ofensiva maciça sobre Gaza, divide-se entre a possibilidade de passar a uma operação terrestre. Para o redator chefe do jornal Israel Hayom, muito à direita, não há dúvidas sobre a questão: "É preciso fazer voltar Gaza à idade da pedra." Isso não significa "destruir todas as habitações e infraestruturas", precisa, mas "livrar-se de todo o arsenal que o Hamas acumulou em 10 anos." O método é simples: "Uma força maciça, que cobriria cada metro do terreno, entraria em Gaza, destruiria todos pontos de resistência e todos os túneis e eliminaria todo o arsenal terrorista Uma vez que a missão fosse cumprida, a força retirar-se-ia."
O Primeiro-ministro Netanyahu está preso entre 2 fogos, resumia um colunista do Al-Monitor a 8 de julho. "Se ele persiste no contenção, vai perder. O Hamas continuará a sua escalada, o alcance dos roquetes estender-se-á para o norte [...]. Em breve será todo o território de Israel e milhões de israelitas que ficarão à mercê das organizações armadas palestinas”. Mas se, pelo contrário, Netanyahu passa à ofensiva de qualquer outra amplitude, como deseja a direita dura, incluindo o ministro das Relações Exteriores Avigdor Liberman, "também irá perder. Vai transformar os 2 meses de verão num pesadelo de suor e sangue. Tel Aviv será bombardeado, a economia vai sofrer um duro golpe, os turistas fugirão, o moral da nação entrará em colapso, o sentimento de insegurança explodirá e autoridade Netanyahu será arruinada. "
A sua autoridade: eis o que joga Netanyahu, assim como a credibilidade de Israel.

segunda-feira, 30 de junho de 2014

“Sociedade moderna”: democracia e economia de mercado?

Em 1989, o cientista político e economista americano Francis Fukuyama publicava o seu famoso artigo ‘O fim da história?’ na revista The National Interest. Nele, argumentava que a difusão mundial das democracias liberais e do livre capitalismo de mercado possivelmente sinalizavam o fim da evolução sociocultural da humanidade. 3 anos mais tarde, publicaria o livro ‘O fim da história e o último homem’, onde expandia essas ideias.
Decorridos 25 anos, os pontos de vista de Fukuyama continuam a ser debatidos e criticados.
Em entrevista à DW, o filósofo de 61 anos afirma que tais ataques ao seu texto são decorrentes de uma interpretação equivocada, e defende as suas teses à luz de eventos geopolíticos recentes.
DW: Em 1989, o senhor publicou o seu artigo mais conhecido, ‘O fim da história?’. 25 anos atrás, numerosos críticos diziam: "Este tipo está errado". O senhor sente que foi mal entendido ou admite agora que estava errado?
Francis Fukuyama: Acho que os maiores problemas têm a ver com um mal-entendido. O conceito de "fim da história" era a questão: em que rumo a história aponta? Para o comunismo – que era o ponto-de-vista de muitos intelectuais, antes – ou na direção da democracia liberal? E acho que, neste ponto, ainda estou certo.
História, no sentido filosófico, é realmente o desenvolvimento, ou a evolução – ou modernização – de instituições, e a questão é: nas sociedades mais desenvolvidas do mundo, que tipo de instituições são essas?
Acho que está bem claro que qualquer sociedade que pretenda ser moderna ainda precisa ter uma combinação de instituições políticas democráticas com uma economia de mercado. E eu não acho que a China, a Rússia ou qualquer outro concorrente invalidem esse argumento.
O senhor menciona a China e a Rússia. Eu gostaria de conversar sobre a Ucrânia. Onde nos vê historicamente neste momento?
Bem, eu acho que a Rússia não se desenvolveu na direção de uma democracia liberal de verdade, e as suas ambições territoriais e geopolíticas não desapareceram. Mas no fim de contas, eu acho que o sistema russo é muito fraco, depende completamente de preços altos de energia. Mesmo na Rússia não é aceite inteiramente como uma forma legítima de governo. Então não é um real competidor.
Quando vê o presidente russo, Vladimir Putin, na televisão, e vê o seu comportamento, considera um bom exemplo para a sua tese de que o reconhecimento é um impulsionador importante da história?
Penso que, de diversas maneiras, é isso. Porque ele e muitos outros russos recorrem a um poço de ressentimentos – de que a Rússia não teve reconhecimento, de que foi considerada fraca, de que os seus interesses não foram respeitados pelos países ocidentais durante a ampliação da NATO, e pelas coisas que aconteceram nas décadas de 1990 e 2000. Assim, creio que o reconhecimento, para ele, é uma questão.
Os políticos ocidentais, americanos ou europeus, deveriam dar atenção, reconhecimento a Putin?
Acho que é tarde demais para isso. Muitos desses problemas foram baseados em decisões tomadas na década de 90, e é impossível desfazê-las. Realmente acredito que é preciso tratar a Rússia como um país sério, com os seus interesses nacionais próprios. Eles podem não ser os mesmos que os nossos, mas é preciso, de qualquer forma, começar pelo respeito.
Os acontecimentos na Ucrânia parecem ser o início de uma II Guerra Fria. Entretanto, no momento há sinais de que ambos os lados estão a ceder. Diria que essa Guerra Fria está suspensa, por enquanto?
A Guerra Fria foi um fenómeno tão diferente! Era um conflito global, um conflito de ideias e a propósito de 2 sistemas políticos muito diferentes. Isso agora é uma batalha para restaurar a dignidade dos russos, sem implicações reais fora das áreas da antiga União Soviética. Nesse sentido, não é em nada parecido com a Guerra Fria em si.
No tocante a sistemas e governos que funcionem, qual é a sua visão do seu próprio país, os Estados Unidos?
Eu argumento, num próximo livro, que o sistema político americano se deteriorou em muitos aspetos por ter sido seriamente sequestrado por diversos grupos de interesses poderosos. Muitos dos instrumentos de travão e contrapeso (checks and balances), de que nos orgulhamos, resultaram, na prática, no que eu chamo de "vetocracia", ou seja: há grupos demais que detêm o poder de barrar decisões. Como resultado, o Congresso ficou paralisado, o que eu considero um grande problema para nós.
As instituições democráticas americanas estão em decadência? O que significaria isso para os EUA, como um todo: eles são uma superpotência em retirada?
Não, não vejo a coisa assim, absolutamente, porque na verdade a economia americana está bem de saúde e é, provavelmente, a mais saudável de todas as grandes economias democráticas. Gás de xisto, Silicon Valley: há muitas fontes de crescimento e inovação. Apenas acho que o sistema político não vai bem. Mas a sociedade americana é sempre um pouco mais o setor privado do que o setor público.
Voltando a ‘O fim da história’, qual é a sua previsão para os próximos 10 ou 20 anos?
Acho que nós estamos a passar por um período difícil, em que tanto a Rússia como a China se expandem. Mas estou convencido de que é um fenómeno limitado, que, a longo prazo, só existe uma ideia organizadora importante: a ideia de democracia numa economia de mercado. Portanto, a longo prazo, continuo otimista.