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sexta-feira, 4 de julho de 2014

PEC = Pacto de Estabilidade e Crescimento. E CRESCIMENTO!

No dia em que assumiu a presidência rotativa da União Europeia, o primeiro-ministro italiano, Mateo Renzi: "Se hoje a Europa fizesse uma selfie que imagem obteríamos? Posso dizê-lo com extrema preocupação que se veria a imagem do cansaço e de resignação. Se tivesse que dizê-lo de forma sintética diria que a Europa hoje mostraria no selfie uma cara de tédio", lamentou Renzi.
No discurso proferido no Parlamento Europeu, em Estrasburgo, o chefe do governo italiano enviou ainda uma resposta indireta aos que defendem a rigidez do pacto de estabilidade e crescimento, como a Alemanha, afirma que a Itália respeitará as regras. "Na discussão que tivemos no último Conselho, não se reduz a alguma exigência de algum país para alterar regras. Somos os primeiros a dizer que queremos respeitar as regras e não mudar as regras", afirmou, salientando que o pacto esquece uma das suas componentes. "Um pacto que se chama pacto de estabilidade e crescimento. Existe a estabilidade, mas há também o crescimento. E a riqueza de ter o crescimento como elemento fundamental não é para um país. É bom para a Europa e não apenas para Itália", considerou.
Mateo Renzi lamenta que tenha mudado a forma como a Europa é vista nos dias de hoje. Para o primeiro-ministro italiano, quando se pensa na Europa e especialmente na Grécia e Itália já não vêm à ideia os grandes filósofos, matemáticos, artistas ou poetas. "Não pensamos no sentido da vida. Em Aristóteles e Dante Alighieri. Em Arquimedes e Leonardo Da Vinci. Hoje pensamos na crise financeira e no spread. Nas questões económicas e nas dificuldades financeiras. O verdadeiro grande desafio que o nosso continente hoje tem pela frente é encontrar o ânimo da Europa. Encontrar o sentido profundo para estarmos juntos", afirmou.
O semestre de presidência italiana na União Europeia já começou envolvido em polémica. Após discursar na sede do Parlamento Europeu, o primeiro-ministro da Itália, Matteo Renzi, foi criticado duramente pelo líder de bancada do Partido Popular Europeu (PPE), o alemão Manfred Weber, por pedir mais flexibilidade nas normas do bloco económico.    
"O endividamento não cria futuro, apenas o destrói. Devemos continuar na linha do rigor. A Itália tem 130% de débito, onde arranja o dinheiro?", perguntou o eurodeputado. O Pacto de Estabilidade e Crescimento da UE obriga os países-membros a manter a dívida pública, no máximo, em 60% do PIB, sendo que na Itália essa relação é de aproximadamente 130%.    
Weber também lembrou que Renzi pediu mais tempo para realizar as reformas de que a sua nação precisa e que o mesmo benefício já foi concedido à França. "Mas as mudanças não foram vistas. Como vamos garantir que desta vez elas serão feitas? E como explicaremos à Irlanda, a Portugal, à Grécia, ao Chipre e a Espanha que somos mais flexíveis com as nações mais ricas?", acrescentou.    
No entanto a resposta do primeiro-ministro italiano veio no mesmo tom. "Ficaremos felizes em fazer do nosso semestre uma ocasião de discussão, mas erra quem levanta a arma do preconceito contra a Itália. Não aceitaremos lições de moral de ninguém. É verdade que a Itália tem uma dívida muito alta, mas também é verdade que tem uma riqueza privada 4 vezes superior", declarou.    
Além disso, Renzi recordou que, em 2003, a própria Alemanha violou o Pacto de Estabilidade da UE para incentivar a economia e hoje tornou-se um "país que cresce". A réplica a Weber partiu também do líder de bancada do Partido Socialista Europeu (PSE), o italiano Gianni Pittella, que afirmou que se o bloco não flexibilizar as suas normas a legenda poderá retirar o apoio à candidatura do conservador Jean-Claude Juncker (PPE) à presidência da Comissão Europeia, o poder executivo da União. "A declaração de Weber foi um movimento equivocado e um passo em falso, que coloca em risco a colaboração entre PPE e PSE", salientou.
A Itália assumiu na última terça-feira a presidência rotativa da UE, cargo que foi ocupado no 1.º semestre pela Grécia. Matteo Renzi já declarou diversas vezes que pretende aproveitar os próximos 6 meses para iniciar um percurso de reformas no bloco.
E passaram-se 6 meses de presidência da EU pela Grécia e não se notou que o poder morasse perto do respetivo governo…
Agora na Itália, começa-se a perceber que o seu primeiro-ministro quer mesmo exercer as competências inerentes ao cargo e fazer valer as suas ideias, que até parecem revolucionárias, a ponto de querer que os Pactos de Estabilidade e Crescimento, ponham em prática o Crescimento, já que a Estabilidade já foi alcançado e há um Pacto antigo e entre todos os Estados-membros… E não é que tem razão?
Talvez por isso, os que têm mamado até agora com a “crise”, e do nosso, estão preocupados com tanto desplante, talvez por iliteracia… E como já devem ser grisalhos, já nem se lembram que, recentemente, deram mais tempo à França para cumprir o PEC e há mais tempo (10 anos) perdoaram a infração aos limites do défice à mesma França e à Alemanha, violando assim o PEC.
Pelos vistos, Mateo Renzi é mais jovem e de memória mais fresca e pimba, que já levaste! E ainda por cima, vem o eurodeputado ameaçar a votação em Juncker, o que animaria o Parlamento Europeu, se entretanto as coisas já não estivessem acertadas, com o Mark Schultz na presidência do PE…
Mas só pelo cantar de galo, já valeu a pena este começo de “conversa”…

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Depois das europeias, lá veio a fatura, e o Bill diz para não pagar

O ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schauble, admitiu a hipótese de um 3.º plano de assistência à Grécia, num valor inferior a 10.000 milhões de euros. "É possível que a Grécia tenha um novo plano de assistência, num montante limitado", declarou o ministro conservador. "Seria um valor significativamente mais baixo do que os 2 primeiros programas", menos de 10 mil milhões de euros, precisou.
Atenas está sob supervisão financeira dos parceiros europeus e do Fundo Monetário Internacional (FMI) desde 2010, sob a forma de 2 planos de assistência sucessivos, que representam um empréstimo de 240.000 milhões de euros em troca de profundas reformas e cortes orçamentais que asfixiaram a economia do país, escreveu a France Presse.
O Governo grego, que anunciou recentemente progressos encorajadores no estado das contas públicas, gostaria de dispensar um 3.º plano de assistência, sinónimo de novas restrições impostas pela "troika".
A hipótese de um 3.º plano, que surgiu no ano passado, nomeadamente durante a campanha eleitoral para as legislativas alemãs, não tem estado na atualidade nos últimos meses, em benefício de um cenário de alívio da dívida.
Mas a opção de uma reestruturação da dívida, que significaria perdas para os credores de Atenas, nomeadamente os bancos alemães, é mal vista em Berlim. Os responsáveis europeus devem abordar a questão este verão, antes do fim do segundo plano, que termina no final de 2014.
O governador do Banco de Portugal, Carlos Costa, admitiu que "É evidente que a probabilidade de um 2.º resgate existe se perdermos acesso ao mercado e isso só acontece se perdermos a confiança do mercado", afirmou.
Eu bem avisei (e não sou o Cavaco), que logo após as Eleições Europeias para o PE, os milagres anunciados, o nosso e o da Grécia, se esboroariam como estátuas de areia… Et voilà!
Tendo em conta o grande vencedor, a abstenção, o contra-ataque revelou-se mais depressa, dando “coragem” aos especuladores de acelerarem o processo de recuperação do “malparado”, estando já decidido em relação à Grécia, em favor dos bancos alemães (claro!) e com a ameaça a um 2.º resgate para Portugal (limpinho!), se não nos portarmos bem, ou seja, se não pagarmos as dívidas dos “nossos” bancos…
E quem nos avisa, nosso credor é!
Já sobre Clinton, 2 coisas a destacar:
Primeiro, o pedido de desculpas e a confissão, mais uma, dizendo com todas as letras o nome do responsável pela crise, o Lehman Brothers, que acabou por estender o “vírus” por toda a banca, mundialmente, e os contribuintes a pagar a conta, embora os EUA tivessem recuperado quase todo o montante da fraude…
Segundo, a adesão de Bill à tese dos 74 nacionais e dos 70 internacionais, que defendem a reestruturação da nossa (da banca e empresas) dívida, constando até que, por isso, o consideram simpatizante do PC e do BE…
Quem vê o jogo de fora, vê mesmo muito melhor!
O antigo presidente dos Estados Unidos defendeu ontem em Lisboa que Portugal deve reestruturar a sua dívida de modo a torná-la sustentável.
Bill Clinton, aplaudido de pé quando entrou na tenda montada na Universidade Europeia, e perante uma plateia onde não faltaram ministros, presidentes de bancos e empresas e líderes partidários, falou de um mundo cada vez mais interdependente, onde as decisões tomadas por cada governo têm consequências nos outros, começando por pedir desculpa, enquanto norte-americano, pela falência do Lehman Brothers e pelo colapso que provocou no sistema financeiro mundial. "O colapso do banco teve repercussões em todos os países e traduziu-se na perda de 34.000.000 de empregos. Foi mau para a zona euro e particularmente difícil para Portugal, Espanha, e Irlanda, porque todos gostamos de ter dinheiro emprestado, mas ninguém gosta de pagar", disse.

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Uma reportagem patusca, vinda da estranja, sobre a papoila…

Rui Tavares, fundador do esquerdista “Livre”, propõe uma redefinição dos papéis de Portugal, Itália, Grécia e Espanha no bloco europeu, para que não sejam mais chamados de "PIGS". O partido concorre ao Parlamento Europeu.
De cima de um pequeno palco numa livraria lotada de Lisboa, Rui Tavares discorre sobre "Ulisses". Mas o franzino homem de óculos redondos não é um crítico literário, e o seu assunto não é nem a personagem de Homero nem a de James Joyce.
O político português de 41 anos é um dos fundadores do partido “Livre”, de esquerda liberal, pelo qual vai concorrer a um assento no Parlamento Europeu nas eleições de 25 de maio. "Ulisses" é o nome do ambicioso projeto político-económico com que pretende redefinir o papel de países como Portugal, Itália, Grécia e Espanha na União Europeia.
"Com 'Ulisses', queremos alcançar, sobretudo, uma coisa: que os países do sul da Europa não sejam mais chamados de 'PIGS'", propõe, lembrando o termo pejorativo – traduzido, quer dizer PORCOS – com que os órgãos de imprensa designam esse grupo de Estados empobrecidos, duramente afetados pela crise europeia de endividamento.
Ideias inspiradas na história
Rui Tavares almeja conferir uma nova confiança e autoestima às nações meridionais do bloco. Para a solução da crise de endividamento estatal, quer convocar uma grande conferência, semelhante à de Bretton Woods, realizada em 1944 nos Estados Unidos.
Lá, os ministros de Finanças e presidentes de bancos centrais das 44 nações, futuras vencedoras da II Guerra Mundial, estabeleceram uma nova ordem monetária, definindo a criação do FMI e do Banco Mundial.
Para Tavares, não cabe a cada país europeu resolver o problema da dívida, mas sim à Europa como um todo. Além disso, a UE precisa de uma instituição financeira própria, independente, nos moldes do FMI, sob controlo do Parlamento Europeu. E a Europa Meridional necessita de um novo "Plano Marshall", como o que reergueu as economias europeias no pós-guerra.
Ao político – que também é escritor, tradutor e historiador – não faltam ideias para a Europa. Desde 2009 que atua no Parlamento Europeu, como deputado independente, e há pouco menos de 3 anos filiou-se na bancada do Grupo dos Verdes/Aliança “Livre” Europeia.
Em 2014, Tavares concorre novamente a um assento em Estrasburgo, mas desta vez representando a força política que ele próprio ajudou a fundar em Portugal. "O partido “Livre” repousa sobre 4 pilares: liberdade, esquerdismo no sentido clássico – quer dizer, igualdade e justiça social – e também ecologia e Europa", explica.
Aposta na União Europeia
"Atualmente são fundados por toda parte, seja na Alemanha ou na Inglaterra, partidos antieuropeus e populistas. Por isso, muitos nos perguntam como podemos identificar-nos hoje em dia com a Europa, de forma tão forte e positiva, quando tanta gente está dececionada com ela", conta o visionário lusitano.
Também em Portugal a sua estratégia é ousada. Segundo os mais recentes dados do Eurobarómetro da Comissão Europeia, quase 2/3 dos portugueses veem com pessimismo o futuro da União Europeia.
Há quase 3 anos o país implementa um rigoroso plano de reformas e austeridade, estabelecido com a CE, o FMI e o BCE, em troca de um pacote de resgate no montante de 78.000 milhões de euros.
Europa mais independente
Dessa Europa, porém, Rui Tavares distancia-se. "Não nos identificamos com a UE que é liderada pelo nosso compatriota [José Manuel] Barroso e que não encontrou nenhuma resposta para a crise económica, ecológica ou social. Mas nós acreditamos que os europeus têm um futuro comum, construído sobre os princípios democráticos, os direitos fundamentais e um bem-estar compartilhado. A Europa deve tornar-se soberana, no sentido de ter o seu futuro nas suas próprias mãos."
O historiador lusitano – que contribui regularmente para o jornal liberal “Público” – também se reporta à atual crise entre a Ucrânia e a Rússia. Segundo ele, a dependência dos Estados da UE em relação ao gás natural russo poderia ser reduzida a longo prazo se os países meridionais produzissem energia para o Centro e o Norte de Europa. Neste ponto, o português cita como modelo a Tennessee Valley Authority (TVA). No contexto do New Deal – a resposta do presidente americano Franklin D. Roosevelt à Grande Depressão – essa corporação foi criada na década de 1930 para canalizar investimentos para grandes projetos de energia no então empobrecido sul dos Estados Unidos. Da mesma forma, na visão de Tavares, a UE deveria criar um departamento governamental comparável à TVA, com a finalidade de coordenar a produção em larga escala de energias renováveis no sul da Europa.
Formas democráticas inéditas
Na livraria lisboeta, os 6 candidatos do novo partido ao Parlamento Europeu discutem sobre o projeto "Ulisses", sobre o planeado acordo de “Livre” comércio entre a UE e os EUA, e sobre a corrupção e o abuso de poder a nível europeu. A lista dos candidatos foi definida na internet pelos adeptos do “Livre”.
Este princípio de democracia de base também agrada à eleitora Ofélia Janeiro, que ouve atentamente os políticos, sentada numa escada da livraria. "Isto é algo totalmente novo para nós. Nunca houve esta forma de democracia direta em Portugal. Aqui podemos participar e até mesmo redigir com eles o programa do partido."
Nos meios intelectuais de esquerda da capital portuguesa, a fação e seu fundador Rui Tavares já se estabeleceram. Entretanto, o pesquisador Pedro Magalhães duvida que a nível nacional o “Livre” consiga suficientes votos para atuar em Estrasburgo. "O partido não é verdadeiramente visível. E faltam-lhe subvenções estatais para poder realizar uma campanha eleitoral expressiva", analisa.
Porém, o pleito europeu é apenas um primeiro passo para Rui Tavares. A sua maior meta é que o “Livre” consiga reconciliar os demais grupos de esquerda em Portugal. E assim, nas próximas eleições parlamentares nacionais, em meados de 2015, as portas para uma coligação governamental de centro-esquerda estejam abertas.

sábado, 19 de abril de 2014

Depois das eleições europeias a gente (des)conversa…

Grécia, Irlanda, Portugal, Espanha, Itália: os governos dos PIIGS, os países mais duramente atingidos pela crise, anunciam com entusiasmo as suas previsões de crescimento, “provocando uma onda de otimismo entre os investidores internacionais, que correram para resgatar as suas dívidas", observa o New York Times.
Mas o crescimento por si só, não é suficiente. "Porque, se os sinais de recuperação estão a emergir na eurozona, o custo humano da recessão de 5 anos que continua a aumentar", persegue o quotidiano americano. "Para dezenas de milhões de europeus, não será fácil voltar de uma meia década de privações económicas e de um desemprego à escala da Grande Depressão [crise de 1929]”. De acordo com um relatório do Eurostat, a agência europeia de estatísticas, mais de metade dos novos empregos criados na UE são temporários, insuficiente para fazer face às despesas.
Na reportagem em Atenas, o New York Times apoia-se no destino de Kostas Polychronopoulos, que no auge da crise, perdeu o seu emprego altamente colocado numa empresa de telecomunicações. Ele que ganhava até 6.000 euros por mês, no topo da sua carreira, passou mais de um ano a procurar novo emprego. Em vão. "Teve que deixar o seu apartamento ensolarado de Atenas, vender o seu BMW descapotável, e voltar a viver com a sua mãe idosa. Rapidamente se viu num lugar onde nunca teria pensado aterrar: na fila para a sopa popular."
O artigo do New York Times é mais extenso, mas não acrescenta muito às dúvidas sobre o entusiasmo reinante nos PIGS quanto às previsões de crescimento, que comprovaria a eficácia das medidas aplicadas e da “filosofia” da austeridade como solução.
Todos constatamos que, de repente, sem qualquer explicação e com surpresa para os próprios governantes dos países mais afetado deu-se o “milagre”: sinais tenuemente positivos nas respetivas economias, facilidades inesperadas nas idas aos mercados, descidas “à bruta” das taxas de juros em todas as maturidades, estranhas “baixas” nas taxas de desemprego, os países “melhor” e os cidadãos cada vez pior…
Entretanto, as dívidas sobem brutalmente, os objetivos do défice ficam longe do projetado, o futuro promete mais austeridade para uns, a pobreza aumenta para (quase) todos e as possibilidades de honrar as dívidas tornam-se impossíveis, mesmo depois de 30 anos de roubos confessados e de penitência dos inocentes…
Cabe então perguntar o que se passará de esotérico, sabendo que estamos (embora não pareça) num tempo de pré-eleições europeias, sabendo-se que nestes governantes os “investidores internacionais”, já sabem com o que contam… A extrema-direita é que pode borrar-lhes o desenho.
Não haja dúvidas de que a estratégia está desenhada para que tudo fique na mesma e que logo após as eleições, se os neoliberais tiverem a maioria, o retrocesso deste “sucesso” vai descambar de imediato, com uma vingançazinha de quem foi ameaçado pelo povinho, que terá de continuar a pagar os tributos e impostos aos seus suseranos, em troca de nada…
Por alguma razão o silêncio de Merkel e dos que estão melhor tem sido tão prolongado e sem tomar compromissos, em contraste com a euforia dos que estão mal e lhes deram esta amêndoa “doce”, que acabará por nos ser amarga…
É o coelhinho da Páscoa, que foi com o Vice ao circo, onde há palhaços…

sábado, 15 de fevereiro de 2014

A justiça submerge aqui, emerge acolá, “et voilà”…

Os 3 arguidos alemães e os 7 portugueses foram absolvidos dos crimes de burla e falsificação de documentos, no caso da prestação de contrapartidas ao consórcio alemão German Submarine Consortium (GSC) na compra de 2 submarinos para a Marinha.
O coletivo de juízes considerou de nenhum dos crimes foi dado como provado, considerando que a perícia efetuada pela empresa Inteli para o Ministério Público não tinha qualquer validade. Foi desconsiderada toda a prova apresentada por estes peritos. O tribunal arrasou mesmo a escolha daquela empresa para a investigação, uma vez que já tinha trabalhado para a Man Ferrostaal.
Portugal contratualizou e consumou, com o consórcio GSC, que incluía a Man Ferrostaal, a compra de 2 submarinos, em 2004, por 1.000 milhões de euros, quando Paulo Portas era ministro da Defesa Nacional, e Durão Barroso, primeiro-ministro.
Ainda bem que se fez justiça!
A justiça alemã condenou 2 ex-executivos da Ferrostaal a 2 anos de prisão, com pena suspensa, e ao pagamento de coimas por suborno de funcionários públicos estrangeiros, na venda de submarinos a Portugal e à Grécia.
Ainda bem que se fez justiça!
Consórcio alemão Ferrostaal vendeu 2 submarinos a Portugal, no valor de 880 milhões de euros, quando Durão Barroso era primeiro-ministro e Paulo Portas ministro da Defesa. O caso tem levantado polémica nos últimos anos, e após uma série de manobras processuais, é finalmente conhecida a sentença.
Matilde Torres Pereira
Já passou mais de 1 ano desde o início do julgamento do caso das contrapartidas, ligado à aquisição por Portugal de 2 submarinos à empresa alemã Man Ferrostal. O veredicto é finalmente anunciado esta sexta-feira.
Nas alegações finais, a 13 de Novembro, a defesa, sem surpresas, pediu a absolvição para os 10 arguidos. O Ministério Público (MP), por seu lado, pediu, para todos, uma pena de prisão inferior a 5 anos, eventualmente suspensa, pelos crimes de burla e falsificação de documentos. A condição imposta para a aplicação de pena suspensa foi que os 10 arguidos pagassem solidariamente ao Estado uma verba de 104.000 euros.
O procurador justificou a pena suspensa pela falta de antecedentes criminais dos arguidos, sublinhando que a sanção a aplicar aos 3 alemães tem de ser mais pesada, dado que foram os principais beneficiários do negócio.
Os portugueses acusados são: José Pedro Ramalho, Filipe Moutinho, António Roquete, Rui Moura Santos, Fernando Gonçalves, António Lavrador, e José Medeiros. Os 3 alemães, Horst Weretecki, Antje Malinowski e Winfried Hotten (administrador da Ferrostaal), fizeram-se representar na instrução pelo advogado Godinho de Matos.
As “luvas” e as escutas do caso Portucale
O consórcio industrial alemão Ferrostaal vendeu, no valor de 880 milhões de euros, 2 submarinos, o "Tridente" e o "Arpão", a Portugal quando Durão Barroso era primeiro-ministro e Paulo Portas ministro da Defesa. O caso tem levantado polémica nos últimos anos, com acusações de que faltam documentos  - algo que o Ministério Público já confirmou -, e de que a Justiça não tem querido ou podido investigar.
A investigação do caso começou com um documento retirado do processo de investigação do caso Portucale, onde, através de buscas e escutas telefónicas entre o ex-director financeiro do CDS-PP, Abel Pinheiro, Paulo Portas e António Pires de Lima, líderes do partido, foi identificada uma conta bancária na Suíça que terá alegadamente sido usada para esconder “luvas” pagas pelos alemães.
Foi nesse processo que surgiram as primeiras suspeitas de que terão sido pagos 30 milhões de euros à Escom, uma empresa do grupo Banco Espírito Santo, pelo consórcio alemão que venceu o concurso público para a venda de submarinos. Esse dinheiro foi, de acordo com investigadores alemães, circulado por “paraísos” fiscais das Bahamas e Ilhas Cayman, e foram detectadas ligações entre essas transferências e depósitos em numerário de mais de 1.000.000 de euros numa conta do CDS–PP.
Contornos internacionais do caso
A partir da investigação da compra dos submarinos surgiu então o caso das contrapartidas dos submarinos, em que os 3 empresários alemães ligados ao consórcio vencedor do concurso e 7 portugueses foram acusados de burla qualificada e falsificação de documento. A 25 Janeiro de 2011, o Tribunal Central de Instrução Criminal decidiu levar a julgamento todos os arguidos.
Antes, em Junho de 2011, a directora do Departamento Central de Investigação e Acção Penal (DCIAP), Cândida Almeida, declarou que a investigação do processo ficou paralisada por não haver meios suficientes, e apesar de a directora ter feito vários pedidos ao Procurador-Geral da República para adjudicação de meios ao inquérito.
Meses depois desta suspensão do processo, dois ex-gestores da empresa alemã Man Ferrostaal, Johann-Friedrich Haun e Hans-Peter Muehlenbeck, começaram a ser julgados na Alemanha por suborno de funcionários públicos estrangeiros, incluindo o ex-cônsul honorário de Portugal em Munique, Jürgen Adolff, no âmbito da venda de submarinos a Portugal e à Grécia.
Os 2 executivos alemães admitiram que pagaram subornos nos 2 países para conseguir que ambos os países se decidissem pela compra de submarinos ao consórcio e foram condenados a pagar coimas de 36.000 e 18.000 euros, respectivamente, e pena suspensa. A Ferrostaal, também arguida no processo por crime de obtenção de vantagem económica através dos 2 funcionários, terá de pagar uma coima de 140 milhões de euros até 2014.
Na Grécia, o ex-ministro da Defesa, Akis Tsochatzpoulos, foi detido por corrupção no âmbito de um negócio envolvendo submarinos e a Ferrostaal. A Grécia comprou, sob a sua tutela, em 2000, 4 submarinos à empresa por 2.850 milhões de euros. As investigações comprovaram que o antigo governante estava na lista dos beneficiários de 62 milhões de euros pagos em comissões.
As contrapartidas inexistentes
O Ministério Público defende que as contrapartidas garantidas ao Estado português para firmar o negócio dos submarinos - a captação de 10 negócios com sociedades portuguesas que fabricam componentes para a indústria automóvel - são “fictícias”, porque não houve participação dos alemães na captação destes negócios, que terão resultado de relações comerciais já existentes.
Na óptica do MP, não houve, por isso, qualquer mais-valia proporcionada pelo consórcio alemão à economia nacional — o objectivo das contrapartidas — ficando o Estado português lesado em quase 34 milhões de euros.
Já depois da acusação, a Ferrostal fez chegar ao Governo português uma proposta alternativa, que passava pela reconstrução do Hotel Alfamar, no Algarve. Com base nesta proposta, a defesa dos arguidos alemães chegou a pedir aos juízes que declarassem a extinção do procedimento criminal, e cancelassem o julgamento, mas o MP opôs-se e o pedido foi recusado pelo tribunal.
Ainda bem que se fez justiça!
Só é chato sermos nós a pagar… mas é justo!

sábado, 25 de janeiro de 2014

Diferentes e melhores receitas produzem mais pão…

Nouriel Roubini, o economista conhecido como o “profeta da desgraça”, admite que a saída de um país do euro é agora menos provável. Há pouco mais de um ano previa que a Grécia abandonaria a moeda única.
“O pior da crise já passou, no que respeita a riscos financeiros”, disse o co-fundador da consultora global de macroeconomia Roubini Global Economics em Davos. “Alguns dos riscos dos últimos anos já têm uma menor probabilidade”, acrescentou o economista admitindo que isso inclui “riscos de colapso do euro”.
Em Outubro de 2012, altura em que a crise da dívida soberana alimentava especulações sobre a desintegração da moeda comum, Nouriel Roubini antecipava que provavelmente a Grécia sairia do euro. As declarações do economista surgiam 3 meses depois de o presidente do BCE anunciar que a autoridade monetária faria tudo o que fosse necessário para salvar o euro.
Ainda que as melhorias recentes na região do euro tenham ajudado a economia mundial a deixar o pior para trás, a recuperação ainda se move sobre areias movediças, de acordo com Roubini.
“A inflação vai ser baixa e as políticas dos bancos centrais vão ser acomodatícias”, afirmou. “Não acredito que o crescimento nos países avançados vá ser acima do seu potencial, mas vai ser melhor do que nos últimos anos”.
Sobre a economia norte-americana, Roubini admite que consegue prever um crescimento de 2,5%, mas que não está “no campo daqueles que acreditam num crescimento de 3,5% ou ainda mais”.
O FMI prevê que a economia dos Estados Unidos cresça 2,8% em 2014, o que compara com as previsões de crescimento de 1% para a Zona Euro e de 3,7% para a economia mundial. 
Já sabemos que Roubini não falou o dia todo e que houve mais intervenientes, mas é o que nos oferecem como sumário…
E tirando a profecia da desgraça, os consequentes avisos de desmantelamento do euro, antecedida pela saída da Grécia, que não vieram a acontecer, só porque quem pode e tem não quis, por razões ideológicas ou por interesses próprios, o que se destaca nestas e noutras declarações, é que ninguém fala dos cidadãos e das medidas que lhes foram impostas, fazendo retroceder o nível de bem-estar do povo dos países intervencionados…
Se este fórum tem como objetivo analisar o passado recente e discutir as soluções para o que correu mal (e tudo correu tão mal), os cidadãos deviam ter lá os seus representantes para que a análise e as soluções tivessem em conta, não os interesses, mas os direitos que entretanto lhes estão a ser sacados, não só para haver o contraditório, mas para colocar as finanças ao serviço da economia e a economia ao serviço da sociedade…
Enquanto só estes galos cantarem, bem podem fazer muitos fóruns, que os garnisés nunca terão direito à inclusão, muito menos à absolvição dos pecados mortais de terceiros, continuando a pagar dívidas que não contraíram…
A propósito, destaca-se a diferença de resultados entre os EUA, a UE e a Eurozona, com vantagem para o primeiro e os respetivos cidadãos, mercê de medidas políticas diferentes, o que cumpre a regra de que “as mesmas causas provocam os mesmos efeitos” e logicamente “causa diferentes provocam diferentes efeitos”…
Só fica a dúvida sobre o porquê de não se adotar o mesmo remédio para reduzir as medidas de austeridade que nos são impostas, mesmo com as provas à vista…
Fica a dúvida até termos certezas, se é que as há, mas há!

domingo, 12 de janeiro de 2014

Uma “carta de recomendação” pouco abonatória…

Acusado de ter ajudado a Grécia a camuflar o estado real das suas finanças públicas e de especular sobre a dívida daquele país, o grande banco comercial americano dispõe de uma rede sólida de conselheiros aos quais os responsáveis europeus dão ouvidos.
Petros Christodoulou finge que não liga aos cumprimentos. Desde a adolescência que este primeiro aluno da turma está habituado a ouvir dizer o melhor possível da sua pessoa. Nomeado, em 19 de Fevereiro, director do organismo de gestão da dívida pública grega, está hoje na primeira fila. Acontece que este antigo director de activos do National Bank of Greece (NBG) está no centro do inquérito, anunciado em 25 de Fevereiro pelo Banco Central dos Estados Unidos (Fed), sobre os contratos relativos à dívida grega que ligam o banco comercial americano Goldman Sachs e outras empresas ao Governo de Atenas. Aquele estabelecimento de Nova Iorque foi pago como conselheiro bancário do Governo grego, ao mesmo tempo que especulava sobre a dívida do país. O banco emissor americano está interessado no papel desempenhado por Petros Christodoulou, que, no início de 2009, supervisionou, ao lado do Goldman Sachs, a criação da sociedade britânica Titlos para transferir a dívida orçamental da Grécia para o NBG. Antes de trabalhar para este último, o interessado tinha sido funcionário do… Goldman Sachs.
"Governo Sachs"
Este caso é esclarecedor quanto ao poder da rede de influências europeia do Goldman Sachs, sedimentada desde 1985. Esta trama apertada, simultaneamente subterrânea e pública, tem intermediários e fiéis que, graças às suas agendas de contactos, abrem as portas dos gabinetes governamentais. Estes conselheiros, recrutados com extremo cuidado e a preço de ouro, conhecem todas as subtilezas dos corredores do poder no seio da União Europeia. Têm a confiança dos decisores, aos quais podem telefonar directamente nos momentos de crise. Quem são esses membros da vertente europeia do "governo Sachs", como há quem chame àquele banco, devido ao seu poder de influência em Washington? O elo de ligação principal é Peter Sutherland, presidente do Goldman Sachs International, a filial europeia com sede em Londres. Este antigo Comissário Europeu da Concorrência e antigo presidente da BP é o homem fundamental, no que diz respeito aos 27 e à Rússia. Em França, o banco beneficia do apoio de Charles de Croisset, antigo presidente do Crédit Commercial de France (CCF), que sucedeu a Jacques Mayoux, inspector da Inspecção-Geral de Finanças e antigo patrão da Société Générale. No Reino Unido, o Goldman conta com Lorde Griffiths, que foi conselheiro da antiga primeira-ministra Margaret Thatcher, e, na Alemanha, com Otmar Issing, antigo membro da Comissão Executiva do Bundesbank e antigo economista principal do Banco Central Europeu (BCE).
Goldman funciona no mundo real
Para já não falar da série de "antigos colaboradores", catapultados para as esferas dirigentes e com os quais o banco pode contar para mover os seus peões. O mais conhecido é Mario Draghi, que foi vice-presidente para a Europa entre 2001 e 2006 e é actualmente governador do Banco de Itália e patrão do grupo de reguladores, o Conselho de Estabilidade Financeira. Contudo, não esperem encontrar antigos diplomatas refinados nos corredores vetustos do Goldman Sachs International: o banco recorre a ex-financeiros e economistas, altos quadros de bancos centrais e altos funcionários das organizações económicas internacionais. Considera que os embaixadores na reforma são figuras decorativas simpáticas que não têm contactos ao mais alto nível e não percebem nada do mundo dos negócios. O Goldman funciona no mundo real. Para o Goldman Sachs, uma das vantagens desta rede é a possibilidade de avançar sob disfarce. Assim, no Financial Times de 15 de Fevereiro, Omar Issing assina um texto hostil à operação de salvamento da Grécia pela União Europeia. O interessado assina o artigo, sem especificar que é conselheiro internacional do Goldman Sachs desde 2006 – nem que o departamento de negócios do banco, que especulou contra a moeda única, tem tudo a perder com uma intervenção europeia.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Um retrato feito do país das nossas "bidon-ville"…

Ainda ontem pedia a economistas que nos explicassem esta redução do défice e o consequente aumento da dívida, eis senão quando deparo com uma resposta vinda de França, que mais não é do que um retrato da nudez das políticas dos nossos governantes e da troika e da máquina de fazer pobres, que ensaiam em laboratório…
Vale a pena ler.
Portugal é um país exangue. O desemprego oficial, que se aproxima dos 20%, tem diminuído ao longo dos 2 últimos trimestres "em favor" de uma baixa da população ativa. Isto é o fruto de uma emigração em massa cujos fluxos atingem ou excedem os dos anos 60, que viu um grande êxodo de portugueses, fugindo da miséria, da ditadura e da guerra colonial (1). Metade dos desempregados não recebe subsídio de desemprego e são milhares de pessoas excluídas do rendimento mínimo de inserção, dos abonos de família ou do complemento social velhice.
Cristina Semblano
É que, embora não estando em guerra, Portugal está, sob a égide da troika, no seu 3.º ano de economia de guerra, apesar de (ou por causa de) os resultados económicos calamitosos das políticas cometidas durante 3 anos. Porque Portugal é um país onde, podemos dizer, com a precisão de uma experiência conduzida em laboratório, que os milhares de milhões de euros de sacrifícios impostos à população não tiveram nenhum efeito sobre a dívida cujo progresso é vertiginoso nem sobre o défice, sistematicamente revisto em alta em cada avaliação da troika.
É no entanto, munido dos resultados desta experiência, que Lisboa acaba de apresentar o orçamento mais austero da história da democracia desde 1977. O ajustamento orçamental representa 2,3% do PIB e faz-se essencialmente pelo corte direto sobre os salários dos funcionários e sobre as pensões da função pública.
Nestas condições, só o governo pode fingir acreditar que, apesar da nova redução drástica do rendimento disponível das famílias a que conduzirá inevitavelmente o "seu" orçamento, o consumo privado e o investimento vão estar lá para apoiar a sua hipótese de crescimento de 0,8%. Tanto mais que a violenta carga fiscal de 2013 será mantida e que 2014 vai ver novas reduções nos gastos com a educação, a saúde e transferências sociais. Restam as exportações, mas estas dependem da procura externa.
Como em toda a economia de guerra, a que prevalece em Portugal só faz perdedores. Enquanto apenas os funcionários e os aposentados da função pública contribuem com 82% do esforço de guerra em 2014, não é pedido aos bancos e aos monopólios de energia senão uma contribuição excecional de 4%, e o governo se tenha ainda dado ao luxo de baixar em 2 pontos o imposto sobre as empresas que tem como objectivo reduzir para 19% ou 17%, em 2016, em conformidade com o sacrossanto princípio neoliberal da criação de um clima propício ao investimento. Há outros vencedores da crise, a começar pelos credores a quem se destina, em 2014, a título de juros, um "tesouro escondido" equivalente ao orçamento da saúde. É para estes credores que os sacrifícios são exigidos ao povo de um dos países mais pobres e mais desiguais da UE. É para eles que se fecham escolas, que são racionados medicamentos, que se limita o acesso aos cuidados de saúde de uma parte da população e que se vende bens públicos em leilões.
As políticas de austeridade violentas mantêm-se por elas próprias: geram a sua própria intensificação, supostos remédios para o défice de que elas ajudaram a cavar. Cada euro de défice "poupado" em Portugal resultou numa perda de € 1,25 do PIB e um aumento de 8,76 euros da dívida; é assim que os credores estão garantidos de ter sempre uma dívida para financiar.
Como outros países sob a intervenção "efetiva" da troika, para falar apenas deles, a dívida portuguesa não é racionalmente reembolsável. Não é o resultado de desvios de um povo que viveu acima das suas possibilidades, mesmo que os especialistas do FMI insistam na necessidade de reduzir o salário mínimo em Portugal, que é de 485 euros brutos por mês, um dos mais baixos da zona do euro e da UE.
País semiperiférico, com uma economia de baixo valor acrescentado e muito dependente do estrangeiro, Portugal "pagou" a sua adesão à zona euro, por uma quase estagnação da sua economia, de modo que a dívida pública não conheceu uma trajetória ascendente desde a crise financeira e as transferências significativas do orçamento do Estado para apoiar a economia e salvar os bancos. Não podendo voltar-se para o Banco Central Europeu (BCE) para assegurar o seu financiamento, Portugal tornou-se, depois da Grécia e da Irlanda, a 3.ª vítima da especulação dos mercados financeiros, que abriu o caminho para a intervenção troika.
Depois de 2 anos e meio e milhares de milhões de euros de sacrifícios impostos à sua população, Portugal é um país mais pobre, voltou para a taxa de natalidade do final do século XIX e a emigração em massa da era da ditadura. A sua população, uma das mais velhas da EU, diminui. A sua dívida em relação ao PIB aumentou em quase 25 pontos e o seu défice não está contido. Os credores representados pela troika já avisaram do montante dos cortes de despesas que são necessários fazer em 2015, enquanto o "Memorando" termina em junho de 2014.
Seja na forma de um novo plano de "resgate" ou de outra, e no quadro atual das instituições europeias, Portugal permanecerá sob o domínio da troika e a sua população será submetido a novas dificuldades. Já é uma outra Grécia e, se houvesse dúvidas, a imagem destas mães portuguesas forçadas a abandonar as suas crianças em instituições sociais, enquanto recém-chegados fazem a sua entrada no clube dos milionários, bastaria para o demonstrar.
(1) Avalia-se em 120.000 o número de portugueses que emigraram em 2012, ou seja, um êxodo de 10.000 pessoas em média por mês, para uma população de cerca de 10.500.000 de habitantes.
Tradução minha

domingo, 29 de dezembro de 2013

Viver para a longevidade ou para se ser útil e feliz?

Não é incomum ouvirmos queixas do tipo: “Isso é tão caro!”. Sobretudo, quando vamos ao mercado, às lojas ou quando planeamos alguma viagem. Já disse por aqui, muitas vezes, que quase tudo esbarra em dinheiro, principalmente para aqueles que mais carecem dele; trabalhadores assalariados e os menos favorecidos socialmente.
Jackislandy Meira de Medeiros Silva
A bem da verdade, volta e meia somos flagrados, até involuntariamente, em certos sobressaltos de admiração pelo alto custo das coisas. Porém, para muitos que andam tão indignados com a (inflação) crise, é bom que façam a seguinte reflexão: E se tivesse que deixar 300 euros ou mais do seu orçamento mensal numa farmácia para se manter vivo? Certamente, a situação seria outra e as queixas não se repetiriam tanto. Pensando bem, antes de se indignar por isso, parece ser mais razoável agradecer. O ato de agradecer também nos deixa mais resistentes, muito embora não concorde com toda esta exploração financeira do mercado.
O que pretendemos com essa simples demonstração de humanidade? De imediato, tirarmos o nosso foco existencial da economia, do capitalismo e da baboseira de que sem dinheiro não somos nada. Não somos nada sem saúde. Este é o ponto do nosso interesse. Com o país em situação económica instável, pelo menos até agora, a indústria farmacêutica tende a acelerar cada vez mais, enriquecendo, em função da prática de uma medicina paliativa e não preventiva, tampouco educativa e filosófica. Contudo, tal prática está a mudar com a orientação médica de caminhadas, exercícios físicos, regimes, dietas, práticas de higiene e o cuidado com o corpo.
A medicina antiga, dos tempos de Hipócrates, era extremamente preventiva, ética e, por isso, filosófica. Estamos a falar da segunda metade do séc. V a.C. e das primeiras décadas do séc. IV a.C., o mundo era outro, a cultura também, os valores eram diferentes, mas o corpo era o mesmo. Afinal, a medicina sempre operou sobre ele. Hipócrates era contemporâneo de Sócrates, Platão e Aristóteles que o consideraram como o grande médico.
Da mesma linha ascendente a que se remetiam os médicos no passado, Hipócrates herdou um ofício divinizado de Esculápio, o primeiro a ser chamado de “médico” ou “salvador” por ter aprendido do centauro Quíron a arte de curar os males. Com Hipócrates, a medicina alcança o status de ciência e passa a compreender as doenças como causas naturais do homem. Assim como Sócrates na Filosofia, Hipócrates com a medicina desenvolve toda uma observação racional acerca do ser humano, o seu corpo e alma. O “conhece-te a si mesmo” e o “meden agan”, isto é, o nada em excesso, vão nortear os princípios sábios da medicina hipocrática.
Curiosamente, os regimes, dietas, reeducação alimentar, passeios, atividades físicas, higiene e tudo a que nos submetemos hoje para preservarmos uma boa saúde era observado com precisão e justa “medida” por Hipócrates no IV livro das Epidemias: “os exercícios (ponoi), os alimentos (sitia), as bebidas (pota), os sonos (hupnoi), as relações sexuais (aphrodisia) – todas sendo coisas que devem ser 'medidas'. A reflexão dietética desenvolveu essa enumeração. Dentre os exercícios distingue-se  aqueles que são naturais (andar, passear), e aqueles que são violentos (a corrida, a luta); fixa-se quais são os que convém praticar, e com que intensidade, em função da hora do dia, do momento do ano, da idade do sujeito e da sua alimentação. Aos exercícios estão relacionados os banhos, mais ou menos quentes, e que também dependem da estação, da idade, das atividades e das refeições que foram feitas ou que ainda se vão fazer. O regime alimentar – comida e bebida – deve levar em conta a natureza e a quantidade do que se absorve, o estado geral do corpo, o clima, as atividades que se exercem...” (In FOUCAULT, M. História da Sexualidade: o uso dos prazeres. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1998, p. 93).
Interessante notar como a medicina, na aurora da Filosofia, exercia um papel de formidável educação das pessoas, na medida em que levava a pensar a conduta humana; a maneira pela qual se conduzia a própria existência, despertando um comportamento em função de uma natureza, de modo a que o homem compreendesse a sua “physiologia”, a fim de saber preservá-la e conformar-se a ela. A dietética hipocrática constituía, para os antigos, uma arte de viver.
As práticas de cuidado com o corpo de Hipócrates estavam tão presentes no modo de vida, no quotidiano das pessoas da antiguidade que influenciaram fortemente a Filosofia no seu nascimento, tanto que Platão faz ressalvas, nos seus diálogos, aos excessivos exercícios e dietas que visam apenas a longevidade, e não a uma vida útil e feliz. Relatos de Xenofonte, nas Memoráveis, traz Sócrates a orientar os seus discípulos para serem “capazes de se bastarem a si próprios” (IV, 7); “Que cada um se observe a si próprio e anote que comida, que bebida, que exercício lhe convêm e de que maneira usá-los a fim de conservar a mais perfeita saúde” (idem). Portanto, o mestre Sócrates ensina a ter autonomia para com a sua saúde: “Se vos observardes deste modo, dificilmente encontrareis um médico que possa discernir melhor do que vós próprios o que é favorável à vossa saúde” (idem).

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

E diz a troika: “Que se lixem os gregos” e a formação!

Entre os jovens gregos que podem ir estudar para o estrangeiro e os que ficam no país, as hipóteses de terem êxito nos seus estudos e de encontrarem trabalho são cada vez mais desiguais. Retrato cruzado de 2 jovens no momento em que as universidades gregas estão em greve há 2 meses.
Kostas Tsironis/AP
Para os estudantes da Grécia, a maior tragédia é, sem dúvida, o facto de as suas hipóteses de obter um diploma diminuírem porque as universidades estão sempre fechadas. Enquanto estão afastados dos anfiteatros e dos laboratórios, os que estudam no estrangeiro não perdem uma única hora de aulas e aprendem o necessário para começarem a valorizar a sua futura vida profissional. Embora não sejam mais talentosos do que os seus colegas das universidades gregas, os que estudam no estrangeiro preparam-se ativamente para ultrapassar os desafios profissionais do futuro. Desde o 1.º ano, seguem religiosamente um programa com muito ritmo.
Mihalis Dinalexi e Stefanos Marguaritis estudam ambos engenharia. Estão no último ano do curso, o primeiro no Imperial College de Londres e o segundo na Universidade de Atenas. Mihalis já sabe o tema da sua tese. Stefanos perdeu a época de setembro por causa das greves e começa o ano letivo com, pelo menos, 3 meses de atraso. É quase certo que Mihalis vai entrar no mercado de trabalho na altura em que Stefanos ainda estará a lutar pelo seu diploma.
Mihalis Dinalexi tem cerca de 3 horas de aulas por dia. Obter ou não a licenciatura em engenharia depende exclusivamente dele, uma vez que a sua universidade já programou todas as aulas até junho. “Estou a planear os próximos meses. A universidade já anunciou a data da sessão em que vamos apresentar as nossas teses. Sei o que me espera até ao próximo verão e, atualmente, tudo funciona como um relógio”, diz.
No estrangeiro tudo funciona
Quando se informa sobre a situação nas universidades da Grécia, percebe a sorte que tem em poder estudar no estrangeiro. “Em Inglaterra, essas situações são impensáveis. É impossível pensar que as universidades fechem por causa de uma greve do pessoal administrativo. Pode haver problemas, mas são rapidamente resolvidos com a direção da universidade e, sobretudo, sem recaírem sobre os estudantes. O pessoal administrativo e os professores têm por única missão manterem a fama da universidade. Em 4 anos de curso, não fiquei sem uma única aula. Contrariamente ao que se diz, em Inglaterra os estudantes têm o direito de exprimir as suas opiniões, de fazerem chegar o seu descontentamento ao reitor, mas sem nunca prejudicarem o funcionamento da instituição. Os estudantes elegem os seus representantes que são convidados para as mesas redondas com a direção, onde discutem e dão as suas opiniões. No ano passado, conseguimos, desta maneira, um adiamento de alguns dias no prazo de entrega de um trabalho”, conta Mihalis.
O Imperial College é o melhor do mundo, sobretudo para os engenheiros, como confirma Mihalis: “No fim do curso, passamos pelo gabinete de carreiras que nos ajuda a encontrar um verdadeiro emprego, em muito pouco tempo”.
Se este fosse um ano normal, em que tudo estivesse a funcionar normalmente, Stefanos Maguaritis também estaria a fazer planos para a primavera de 2014, altura em que teria a sua licenciatura em engenharia pela universidade de Atenas. Mas, como os exames de setembro se realizaram com atraso, os projetos tiveram de ser adiados para o verão seguinte. “A coisa é simples: em setembro eu devia ter feito exame a 2 cadeiras, o que me permitiria começar a tese no início de outubro, quando começa o semestre. A seguir, iria defendê-la e teria o meu diploma na primavera… Mas tudo isto será adiado alguns meses”, lamenta Stefanos.
Ganhar tempo
A preparação da tese é o maior dos seus pesadelos; para tal, precisa de ter acesso à biblioteca, fazer investigação e ter reuniões com os professores. “Mas a única coisa que posso fazer, neste momento, é encontrar-me com eles para conversar sobre o tema, mas só isso. Até a universidade voltar a funcionar normalmente, tento ganhar tempo e fazer avançar o meu trabalho pesquisando em bibliotecas eletrónicas”, explica.
O tempo perdido, mesmo que sejam apenas uns meses, baralha a organização de Marguaritis e, consequentemente, as suas escolhas. “O que é certo é que vou demorar até poder escrever para as universidades que me interessam para um mestrado.”
Para ele, a Escola Politécnica é um excelente estabelecimento – 25.º na lista mundial da universidade – e não vê nenhuma razão para que a sua reputação internacional se degrade. “O que aprendemos aqui é reconhecido em todo o mundo. Seria uma pena baixar o nível que hoje temos. É preciso encontrar rapidamente um terreno de entendimento para que as aulas recomecem”, diz, desolado.
Greve das universidades - Um custo demasiado alto para as famílias
As 2 principais universidades de Atenas ainda não iniciaram o ano letivo, por causa da greve do pessoal administrativo. Ta Nea explica que o motivo do protesto diz respeito ao plano de mobilidade dos funcionários imposto pela troika de credores internacionais e, em última análise, ao despedimento do pessoal administrativo desses estabelecimentos, considerado excessivo. O reitor da Universidade de Atenas recusa qualquer despedimento e prefere manter as portas da sua faculdade fechadas, até chegar a acordo com o ministro da Educação.
O jornal Ta Nea sublinha que essa atitude tem um preço demasiado alto para as famílias dos estudantes, porque “a perda do semestre custa, em média, entre 4.000 e 5.000 euros”.
O diário acrescenta que para além do peso económico, há ainda outros custos que não podem ser calculados, como o sofrimento moral, a sobrelotação das salas quando as aulas recomeçarem, porque terão 2 vezes mais alunos, sem falar do número insuficiente de aulas práticas.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Quando a ignorância é reconhecida como uma virtude

Há 2.500 anos, o filósofo grego Sócrates foi julgado por corromper a juventude ateniense e desrespeitar os deuses. Por esses crimes, foi condenado à morte.
Neil Bearden
Nassim Taleb
A verdadeira motivação por trás das acusações, contudo, parece ter sido o facto de Sócrates ter exposto a ampla corrupção intelectual dos detentores do poder. Foi morto devido à sua preocupação com a verdade, mostrando que as elites de Atenas não partilhavam dessa preocupação e sabiam muito menos do que afirmavam saber.
Há umas semanas, aqui em Singapura, conheci um homem que me recordou Sócrates: Nassim Taleb (autor de “The Black Swan” e, mais recentemente, “Anti-Fragile”). Sócrates expôs as pretensões de conhecimento dos seus contemporâneos e Taleb tem, hoje em dia, uma função similar. Acredito que ele é, como Sócrates, um raro homem honesto.
Na noite em que fui ouvir Taleb falar, esperava aborrecer-me profundamente — achava que ia ouvi-lo arengar ofensivamente acerca dos impactos perniciosos da indústria financeira moderna, um dos seus temas favoritos. Os seus escritos tinham-me parecido muitas vezes arrogantes, diatribes pouco concisas contra caricaturas de grupos (tipicamente economistas, banqueiros e professores das escolas de gestão), e era esse género de discurso que receava ouvir essa noite.
Em vez disso, encontrei o que acredito ser um raro homem honesto, alguém para quem a verdade é mais importante do que gostarem dele. Foi invulgar ouvir alguém responder à maioria das perguntas que lhe faziam com um, “Não sei. Como posso saber?” Arengou, de facto, acerca dos professores das escolas de gestão, que professam ter respostas para tudo mas que, afirmou, sabem frequentemente muito pouco (revelação: sou professor numa escola de gestão). Eu estava mesmo ao lado dele durante essa parte e a coincidência agradou-me, porque concordei com ele e foi bom ouvir alguém dizer a verdade.
Mas os professores das escolas de gestão são apenas parcialmente culpados das suas pretensões de conhecimento. As pessoas para quem falam - a sua audiência - querem respostas às perguntas. Responder “Não sei” é, julgo eu, quase sempre visto como sinal de incompetência ou negligência do dever (dar respostas). Os nossos hipotéticos professores das escolas de gestão podem estar a dar às suas audiências o que elas querem, não necessariamente o que precisam. A audiência quer respostas, mas do que precisa é de verdade. (Não me porei aqui a fazer filosofia barata, tentando apresentar uma definição de verdade.) E essa verdade desejada pode não estar disponível para toda a gente: até os melhores e mais honestos interrogatórios podem ser inconclusivos. É uma verdade, calculo eu.
Na “Apologia de Sócrates”, Platão conta-nos que Querofonte perguntou ao oráculo de Delfos se Sócrates era o homem mais sábio de Atenas, ao que este respondeu que sim. De acordo com a lenda, Sócrates deu por si confrontado com um paradoxo: ele era profundamente ignorante e, contudo, era o mais sábio dos homens. Para tentar resolver o paradoxo, atribuiu a si mesmo o projeto de perceber o que as outras pessoas de Atenas sabiam. Interrogou homens de Estado, generais e outras elites, e concluiu que, apesar das suas afirmações em contrário, sabiam muito pouco. Finalmente, decidiu que o Oráculo talvez tivesse razão, porque ele sabia que não sabia muito, ao passo que os outros, que também sabiam pouco, julgavam saber muito. Saber que era ignorante tornou-o sábio.
Sócrates é agora uma figura histórica respeitada, cujo nome quase toda a gente que me está a ler conhece. O que é fácil esquecer é que a sua história tem sido sempre contada por ele ser um homem honesto que, acima de tudo, sabia não ter as respostas. Em Sócrates, vemos a sua ignorância reconhecida como uma virtude. Curiosamente, no nosso mundo atual, radicalmente mais complexo, parecemos querer que os “peritos” tenham sempre as respostas. Proponho que, em vez disso, nos negócios, na política e na vida em geral, consideremos seriamente respeitar os nossos contemporâneos sempre que eles demonstrem uma humildade socrática e nos permitam saber que não sabem.
Pode parecer um exagero adulador dizer que vi em Taleb (que, tal como o filósofo grego, é uma figura sólida e atarracada, com uma grande barriga) um Sócrates dos tempos modernos. Mas ele pareceu-me um homem que valoriza mais a verdade do que entrar numa qualquer lista Top 10 ou ter partilhas ou “likes” nas redes sociais. Infelizmente, esta honestidade parece-me muito rara. Espero que ele continue a corromper a juventude e a desrespeitar os deuses durante muito tempo.
Entretanto, pense sempre que a pessoa sem respostas - aquela que diz “Não sei!” - pode ser a mais responsável e respeitável que se encontra à mesa de reuniões.
Neil Bearden é professor associado de Ciências da Decisão na escola de economia INSEAD, onde também ensina e investiga julgamento.