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segunda-feira, 23 de junho de 2014

Só as “bem-aventuranças” poderão compensar os pobres…

Garantir que até 2022 ninguém viva com menos de 1,25 dólares (91 cêntimos) por dia é uma das metas apresentadas pela Oxfam. A ONG diz que a concentração da riqueza é atualmente uma "desigualdade sem precedentes".
O fosso entre ricos e pobres continua a ser cada vez maior. Em janeiro, segundo a ONG, Oxfam, as 85 pessoas mais ricas do mundo tinham os mesmos recursos económicos que a metade mais pobre da população mundial - cerca de 3.500.000 de cidadãos.
Na última semana a ONG revelou que em 2030 haverá 400.000.000 de pessoas a viver em pobreza extrema, caso a trajetória de crescimento que fomenta a desigualdade não seja alterada.
A austeridade na Europa lançou 800.000 crianças na pobreza, um dos efeitos mais visíveis das medidas tomadas pelos governos a partir de 2008, sustenta um relatório da Organização Internacional do Trabalho (OIT) divulgado hoje.
"Em 2012, 123 milhões de pessoas nos 27 (na altura) Estados membros da União Europeia, ou 24% da população, estavam em risco de pobreza ou exclusão social (...) e cerca de mais 800.000 crianças viviam na pobreza que em 2008", lê-se no "Relatório sobre Proteção Social no Mundo 2014/2015", no capítulo "Erosão do modelo social europeu".
Segundo o documento, o aumento da pobreza e da desigualdade resultou não apenas da recessão global, "mas também de decisões políticas específicas de redução das transferências sociais e de limitação do acesso a serviços públicos de qualidade", que se juntam "ao desemprego persistente, salários baixos e impostos mais altos".
"Em alguns países europeus, os tribunais declararam os cortes inconstitucionais", prossegue o relatório, apontando os casos de Portugal, Letónia e Roménia, e acrescentando a iniciativa do Parlamento Europeu de investigar a legitimidade democrática das medidas de ajustamento e do seu impacto social em Portugal, Irlanda, Chipre, Espanha, Eslovénia, Grécia e Itália.
"O custo do ajustamento foi transferido para as populações, já confrontadas com menos empregos e rendimentos mais baixos há mais de 5 anos. Os ganhos do modelo social europeu, que reduziu significativamente a pobreza e promoveu a prosperidade no pós II Guerra Mundial, foram erodidos por reformas de ajustamento de curto prazo", lê-se no documento.
O relatório da agência da ONU para o Trabalho, com sede em Genebra, sublinha no entanto que, contrariamente à ideia generalizada, a austeridade não atingiu apenas os países europeus. "Em 2014, nada menos que 122 governos reduziram a despesa pública, 82 deles de países em desenvolvimento", afirma.
Essas medidas, tomadas na sequência da crise financeira e económica de 2008, incluíram "reformas dos regimes de aposentação, dos sistemas de saúde e de segurança social (...), supressão de subvenções, reduções de efetivos nos sistemas sociais e de saúde".
Atualmente, mais de 70% da população mundial não tem uma cobertura adequada de proteção social, definida como um sistema de proteção social ao longo da vida que inclua o direito a prestações familiares e para menores, subsídio de desemprego, de maternidade, de doença ou invalidez, pensão de reforma e seguro de saúde.
Em matéria de saúde, o relatório indica que 39% da população mundial não tem acesso a um sistema de cuidados de saúde, percentagem que sobre para os 90% nos países pobres. Segundo a OIT, faltam cerca de 10.300.000 de profissionais de saúde no mundo para garantir um serviço de qualidade a todos os que dele necessitam.
Sobre as pensões, a OIT indica que 49% das pessoas que atingiram a idade da reforma não recebem qualquer pensão. Mas, dos 51% que recebem, muitos têm pensões muito baixas e vivem abaixo do limiar de pobreza.
Relativamente ao desemprego, só 12% dos desempregados de todo o mundo recebem subsídio de desemprego, percentagem que varia entre os 64% na Europa e os menos de 3% no médio Oriente e em África.
Para além de haver quem negue a existência do Holocausto, também há quem negue esta realidade desumana, mas o mais grave é que haja quem a defenda e mais grave ainda quem se esforce e contribua para que tal “pecado capital”, se mantenha e expanda…
Pensar-se que é possível a alguém, em qualquer parte do mundo, sobreviver com 91 cêntimos por dia, é mais grave do que defender a escravatura, em que se trabalhava, mas havia “cama”, mesa e pouca roupa suja… E são estes os moralistas oficiais da humanidade!
Já sobre a austeridade e as suas consequências económico-sociais, já foi tudo dito e ninguém tem dúvidas de que o aumento da pobreza e da desigualdade resultou não apenas da recessão global, mas também de decisões políticas específicas de redução das transferências sociais e de limitação do acesso a serviços públicos de qualidade, ao desemprego persistente, aos salários baixos e aos impostos mais altos, mesmo depois de o Parlamento Europeu ter feito uma investigação sobre a legitimidade democrática das medidas de ajustamento e do seu impacto social em Portugal, Irlanda, Chipre, Espanha, Eslovénia, Grécia e Itália, embora sem consequências práticas…
Mas o absurdo, no que respeita à responsabilidade criminal das dívidas dos bancos e empresas, foi que o pagamento das falcatruas ter sido transferido para os contribuintes, já confrontados com menos empregos e rendimentos mais baixos há mais de 5 anos.
E por tabela, até as crianças, Senhor, é que tiveram que tirar à boca dos pais e avós e mesmo assim é o que se vê…
De resto, o relatório fala por si, e por mim, e deixa os trauliteiros de fora.
Significativo é constatarmos que o nosso governo seguiu à risca as orientações mundiais, ponto por ponto e insiste, com o povo impávido e sereno, à imagem dos seus líderes.
A sorte é que “só os pobres (de espírito) herdarão o reino de Deus”…

domingo, 22 de junho de 2014

O joelho do CR7 será a nossa “crise” até à derrocada final?

Sabiam que há uma nova e violenta guerra no Iraque e que o pesadelo do terrorismo está de regresso? Sabiam que há um grupo ainda mais extremista que a Al-Qaeda a fazer fuzilamentos em massa? E na Ucrânia, já deram por um corte de fornecimento de gás que pode afetar a nossa economia? Em Portugal, a crise orçamental desapareceu? A luta pela liderança do PS foi de férias? Olhando para os jornais e televisões portugueses, parece que sim. O mundo pode esperar porque agora não há mais nada a não ser... Mundial de futebol.
João Adelino Faria
Assumo! Esta é mesmo uma crónica politicamente incorreta. Vou criticar o que todos idolatram. Por muito que se goste de futebol, por muito que a nossa seleção seja uma das melhores do mundo (será?), por muito que seja bom para a economia, a informação em Portugal não pode ficar refém durante um mês das notícias de futebol. Os jornais estão quase todos monotemáticos. Antes dos jogos, são horas intermináveis de antecipação, bastidores e comentários. Depois do jogo, o que poderia ter sido, porque foi e o que vai ser. Eu sei que as audiências e as vendas sobem em flecha, mas será que não pode ser de outra forma?
Tudo o que é demais enjoa. Eu não vejo nos outros países, tão fanáticos ou mais que nós pelo futebol, um fenómeno semelhante. Itália, Espanha, Reino Unido falam do mundial mas no sítio e na medida certa. O mundial é importante mas não deve abrir noticiários dias seguidos, nem ocupar 50% das notícias. Como é possível os jornais trazerem dezenas de páginas para falar quase só de um jogo?
O mais triste é que ninguém se indigna e a maioria dos portugueses continua numa dependência quase viciante sobre o estado do joelho de Cristiano Ronaldo e a coxa do Coentrão. São notícias relevantes mas não podem fazer esquecer tudo o resto. Não podemos continuar durante um mês a fazer noticiários em que o mundo é resumido em 5 minutos e o futebol enche o resto dos jornais.
A febre é tal que até os principais comentadores políticos das televisões passam agora grande parte do tempo a explicar e a analisar o desalento da nossa seleção. Mas quem é que fez dos nossos políticos, ex-governantes ou autarcas especialistas em futebol? Podem gostar muito da bola, mas isso não faz deles comentadores encartados do assunto. Sem qualquer pudor, falam de Paulo Bento e da equipa da mesma forma que falam de Passos Coelho e do Governo. Analisam o resultado de um jogo com o mesmo à-vontade e certezas de quem comenta o resultado eleitoral e as lutas pela liderança socialista.
Eu também gostava de ver as cores de Portugal neste Mundial lá no alto, quero emocionar-me com o hino, quero olhar para a minha bandeira hasteada nas casas portuguesas mesmo quando somos derrotados. Mas, por favor, não nos esqueçamos de informar como está este país e o mundo inteiro. Caso contrário, quando a festa acabar a ressaca vai ser bem mais violenta.

sábado, 21 de junho de 2014

O balanço negro dos atos de líderes com a consciência lavada…

O número é o maior desde a II Guerra Mundial e pode aumentar com o surgimento de novos conflitos, como no Iraque, por exemplo. Só em 2013, registaram-se quase 30.000 novos refugiados por dia.
No final de 2013, mais de 51.000.000 de pessoas viviam como refugiadas no mundo, constatou o Alto Comissariado da ONU para Refugiados (ACNUR) no seu novo relatório anual ‘Tendências Globais’. Trata-se da primeira vez desde a II Guerra Mundial que o número ultrapassa os 50.000.000.
Os motivos para o abandono forçado da terra natal são conflitos, perseguições, violência ou violações dos direitos humanos. Do total de 51.000.000, mais de 33.000.000 eram deslocados internos – ou seja, tiveram de deslocar-se dentro do próprio país –, enquanto quase 17.000.000 tiveram de cruzar fronteiras. Mais de 1.000.000 de pessoas pediram asilo em 2013.
"Não se trata de uma tendência crescente, mas de um verdadeiro salto quântico", afirma António Guterres, alto comissário da ONU para os refugiados.
Novos e velhos conflitos
Durante vários anos, o ACNUR verificou números relativamente estáveis. Isso estava ligado principalmente às consequências de conflitos de longa data. Os refugiados vinham, sobretudo, de países como a Somália, Afeganistão ou República Democrática do Congo. Até que a guerra civil na Síria começou, em 2011. Desde então, o número de refugiados aumentou rapidamente.
Entretanto, Guterres afirma que novos conflitos se estão a formar em todo o mundo. "Esta aceleração deve-se ao facto de os conflitos se multiplicarem de forma imprevisível, enquanto perduram as velhas crises. A capacidade de a comunidade internacional evitar ou resolver conflitos é muito limitada."
Em 2013, cerca de 11.000.000 de pessoas foram forçadas a fugir, o que equivale a quase 30.000 novos refugiados por dia. Há 2 anos, esse número girava à volta de 14.000 por dia. E as perspetivas para 2014 não são nada animadoras.
"Estamos a apresentar as estatísticas para o ano de 2013, mas quando se olha para o que aconteceu desde então, percebe-se que as coisas estão a piorar", diz Guterres. "A velocidade com que ocorrem novas crises é um facto. Ela mostra que, em princípio, as coisas vão piorar, até que, em algum momento, haja uma melhoria", acrescentou.
Ajuda humanitária não é suficiente
A guerra na Síria continua. Também no Sudão do Sul e na República Centro-Africana não se veem sinais de alívio. Além disso, diante dos acontecimentos recentes, já se registam centenas de milhares de refugiados no Iraque.
O ACNUR enfrenta um dos anos mais difíceis dos seus mais de 60 anos de história. Em tempo recorde, os funcionários da agência da ONU registaram refugiados, distribuíram alimentos e medicamentos, e negociaram o reassentamento de pessoas em situação particularmente vulnerável com países terceiros.
"A ajuda humanitária, a proteção dos refugiados, é parte da resposta, mas tal resposta será sempre apenas um paliativo", considera Volker Türk, diretor da Divisão de Proteção Internacional do ACNUR. "Isso significa que precisamos urgentemente de iniciativas políticas para que esses conflitos possam ser resolvidos, tanto pelos principais responsáveis nos próprios países como pela comunidade internacional."
Exemplo da Alemanha
Enquanto não se avistam soluções políticas para os principais conflitos atuais, milhões de refugiados permanecem à espera sob condições precárias. Nesse contexto, a maior parte dos cuidados fica por conta dos países vizinhos. Atualmente, Paquistão, Irão, Líbano, Jordânia e Turquia registam o maior número de refugiados.
Dos refugiados em todo o mundo, 86% vivem em países em desenvolvimento, destaca o ACNUR. Ao mesmo tempo, a agência de refugiados da ONU apela aos países industrializados para que mostrem solidariedade e assumam uma parte da responsabilidade condizente com a sua riqueza.
É grande a esperança de que a decisão da Alemanha de acolher 10.000 novos refugiados sírios sirva de exemplo para outros países. Trata-se de 10.000 pessoas cujas condições de vida melhoraram por meio do reassentamento – um passo importante para aliviar a miséria dos refugiados no mundo, considera Guterres.
"Visito regularmente pessoas realocadas em todo o mundo", diz o alto comissário da ONU. "Você não pode imaginar a alegria que é vir para a Alemanha, Suécia, EUA ou Canadá e encontrar uma família, que antes vivia no campo de refugiados de Dadaab, no Quénia, e hoje leva uma vida normal."

sábado, 14 de junho de 2014

Um desafio em que o povo quer ser o árbitro…

A entidade máxima do futebol precisa por os pés no chão e fazer com que a Copa do Mundo volte a ser o que era: apenas um evento esportivo.
Astrid Prange
Finalmente a Copa vai começar! E, quando a bola rolar, todas as preocupações em torno da organização do espetáculo desportivo no Brasil serão coisa do passado, é o que esperam muitos aficcionados pelo futebol. O que interessa são os golos, e o orgulho nacional dos torcedores cresce a cada vitória das suas seleções.
Mas essa expectativa será cumprida apenas em parte. Pois essa Copa mudou o Brasil antes mesmo do apito inicial. E também vai mudar a FIFA. A disposição de sediar uma Copa do Mundo dentro do "padrão FIFA" diminuiu muito, em todo o mundo, depois dos protestos no Brasil. Justamente no país do futebol, o padrão FIFA chegou aos seus limites, e é bom que seja assim.
O Brasil questionou o modelo de negócios da FIFA. Como é possível, indagaram muitos dos 200 milhões de brasileiros, que a Constituição e a legislação do país sejam parcialmente suspensas por causa de uma Copa do Mundo? Que uma lei especial aprovada às pressas suspenda a proibição da venda de álcool nos estádios? Como é possível que, para patrocinadores e dirigentes, existam leis diferentes daquelas válidas para a população? E que uma federação desportiva e os seus parceiros fechem contratos à custa do bem coletivo e restrinjam a liberdade de circulação de milhões de pessoas?
A população brasileira questionou tudo isso. E a mensagem chegou ao governo. A presidente Dilma Rousseff não se cansa de salientar que os gastos com educação e saúde aumentaram, apesar ou justamente por causa da Copa do Mundo.
Também entre algumas federações que fazem parte da FIFA, especialmente a UEFA, cresce a opinião de que, politicamente, megagastos em megaeventos são cada vez mais difíceis de serem justificados. Especialmente quando custos e lucros são distribuídos de forma desigual, como agora no Brasil.
Uma Copa do Mundo não é uma cúpula de chefes de Estado nem uma missão de paz das Nações Unidas. A FIFA deveria pôr um fim à sua ascensão política e comercial e pôr os pés no chão, deveria lembrar-se da sua tarefa original e simplesmente realizar um torneio desportivo em cada 4 anos. Os estádios de uma Copa não dependem de sala VIP ou de poltronas confortáveis para que neles seja jogado um futebol de nível mundial. Um presidente da FIFA não é um chefe de governo ou de Estado e, portanto, não tem direito a um tratamento destinado a visitas oficiais.
A população brasileira obrigou a aparentemente toda-poderosa FIFA e os seus parceiros a reconhecer esses factos. Os protestos da população acordaram os senhores do futebol do seu sono bilionário de Bela Adormecida. No futuro, para ser bem-sucedida, uma Copa deverá ajustar-se às necessidades do respetivo país anfitrião, e não só às exigências da FIFA. Esta também terá de rever o seu processo de escolha para as futuras sedes do evento. Certamente tudo isto não prejudicará a qualidade do futebol. E a Copa do Mundo pode começar. Finalmente!

sábado, 1 de março de 2014

Convergência faz-se com redução salarial dos homens

As mulheres europeias continuam a trabalhar de graça 59 dias, de acordo com as informações mais recentes divulgadas pela Comissão Europeia. As disparidades salariais entre homens e mulheres - diferença média entre a remuneração horária dos homens e das mulheres no conjunto da economia - quase não sofreram alterações nos últimos anos, continuando a situar-se nos 16 % (16,4 %, mais precisamente, à semelhança do ano passado).
É a 4.ª vez que o Dia da Igualdade Salarial é celebrado a nível europeu.
“O Dia Europeu da Igualdade Salarial recorda-nos as condições salariais desiguais que as mulheres continuam a enfrentar no mercado de trabalho. Nos últimos anos, as disparidades salariais pouco diminuíram. Para agravar a situação, a tendência muito ligeira para a sua redução nos últimos anos deve-se, em larga medida, à crise económica, no contexto da qual a remuneração dos homens diminuiu sem que a remuneração das mulheres aumentasse”, declarou a Vice-Presidente Viviane Reding, Comissária da UE responsável pela Justiça. “A igualdade salarial por trabalho igual é um dos princípios fundadores da UE mas, infelizmente, ainda não é uma realidade para as mulheres europeias. Após anos de inação, é chegado o momento da mudança. A Comissão Europeia está a trabalhar numa iniciativa destinada a despoletar essa mudança, para que, no futuro próximo, deixemos de necessitar do Dia da Igualdade Salarial.”
- A Resolução aprovada por Portugal em 8 de março de 2013 inclui medidas destinadas a garantir e a promover a igualdade de oportunidades e resultados entre homens e mulheres no mercado do trabalho, inclusive a eliminação das disparidades salariais. As medidas abrangem a apresentação de relatórios sobre as disparidades salariais entre homens e mulheres, repartidas por setor.
Comissão Europeia conclui que a desigualdade salarial entre homens e mulheres em Portugal está a agravar-se. A trajetória de agravamento tem sido quase uma constante em Portugal nos últimos anos. Depois de cifrar-se em 9,2% em 2008, subiu para 10% em 2009 e 12,8% em 2010. Em 2011 registou-se uma ligeira descida, para 12,5%, mas que subiu para 15,7% em 2012, o último dado disponível.
Os países com maior desigualdade salarial entre homens e mulheres na União, medida por este indicador, são a Estónia (30%), a Áustria (23,4%) e a Alemanha (22,4%). Já os menores valores registam-se na Eslovénia (2,5%), em Malta (6,1%) e na Polónia (6,4%).
Em média, as mulheres trabalham 57 dias de graça para conseguir igualar os homens na folha do ordenado.
Estamos ainda abaixo da média europeia, mas somos o país onde a desigualdade de género mais se agravou na UE.
Juntamente com Portugal também a Irlanda e a Espanha registaram uma tendência de agravamento das desigualdades.
Já é azar dos “inventores” de metas e dos dias internacionais ou europeus de qualquer coisa…
Começando com os ODM – Objetivos do Milénio – que a ONU queria alcançar em 2015, já foi protelada, dizem, em virtude da crise, embora com esta se tenha dado o contrário, os ricos ficaram mais ricos e os pobres mais pobres…
Com o ‘Dia Europeu da Igualdade Salarial’, naturalmente louvável pelas intenções, vai acontecendo também o contrário, embora a tendência muito ligeira para a sua redução nos últimos anos se deva, em larga medida, à crise económica, no contexto da qual a remuneração dos homens diminuiu sem que a remuneração das mulheres aumentasse. Ora aqui está o chamado método das “convergências”, em que retirando-se aos que mais ganham se consegue nivelar por baixo. Já não sabemos se a UE copiou por nós ou se fomos nós que fomos influenciados por Bruxelas. Assim, chegaremos lá, mais depressa do que se previu…
Em Portugal, por causa da mesma crise europeia, tivemos o maior e crescente aumento da desigualdade, o mesmo acontecendo com a Irlanda e a Espanha, mais 2 países intervencionados, provavelmente pelos mesmos motivos, com uma vantagem estatística, com o número de casais desempregados, que acabam por receber o mesmo, que é nada, ao fim de algum tempo…
De “consolo”, fica apenas o registo de países mais ricos e politicamente mais “responsáveis”, como a Áustria e a Alemanha, que têm ainda muito a fazer, se as mulheres não forem imigrantes…
Esta é daquelas situações em que se pode dizer que “de boas intenções está a União cheia”, mas de facto é mais uma hipocrisia social e política, porque se o dinheiro não tem cor, também não se lhe conhece o sexo… É como os anjos! E há tanto anjinho, que ainda vai na conversa…
Fica assinalada a efeméride, mesmo que efémera…

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Seria esta a tão propalada “terceira via” do Tony?

Capital paciente é outro nome para o capital de longo prazo. Com o capital paciente, o investidor está disposto a fazer um investimento financeiro num negócio sem nenhuma expectativa de o transformar num lucro rápido. Em vez disso, o investidor está disposto a renunciar a um retorno imediato na expectativa de retornos mais substanciais pelo caminho.
Embora o capital paciente possa ser considerado um instrumento de investimento tradicional, que ganhou nova vida com a ascensão das empresas ambientais e socialmente responsáveis. Neste caso, pode assumir a forma de capital, dívida, garantias de empréstimos ou outros instrumentos financeiros, e é caracterizada por:
- Disposição para renunciar aos máximos retornos financeiros com impacto social, e uma falta de vontade de sacrificar os interesses do cliente final por causa de acionistas;
 - Maior tolerância ao risco do que o investimento tradicional do capital;
- Horizontes de tempo mais longos para o retorno do capital;
- Apoio intensivo de gestão à medida que crescem as suas empresas
No espectro de capital disponível, quer para organizações sem fins lucrativos e com fins lucrativos, o capital paciente fica entre o tradicional de capital de risco e a tradicional filantropia, entre a ajuda ao desenvolvimento e investimento estrangeiro direto.
Thomas Friedman do New York Times descreve o capital paciente como tendo "toda a disciplina do capital de risco - exigindo um retorno e, portanto, rigor na forma como é implementado -, mas esperando um retorno que é mais na faixa de 5 a 10%, em vez dos 35% que os capitalistas de risco procurar ". Jacqueline Novogratz da Acumen acrescenta que o capital paciente, "leva o melhor do mercado, bem como a filantropia e ajuda. O capital paciente é dinheiro investido em empresários da construção e organizações que resolvem problemas difíceis como saúde, água, habitação, energia alternativa".
Jacqueline Novogratz: Uma terceira maneira de pensar acerca da ajuda
O debate acerca de ajuda internacional, geralmente opõe aqueles que não acreditam na "caridade" aos que não acreditam na confiança nos mercados. Jacqueline Novogratz propõe um caminho intermédio a que ela chama de “capital paciente”, com prometedores exemplos de inovações empresariais a comandar a mudança social.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Uma carta para ser lida a quem sofre de iliteracia social

“Rogo a todos para que garantam que a humanidade seja servida pela riqueza e não regida por ela”. A frase consta da mensagem enviada a partir do Vaticano para Davos, na Suíça, onde, entre 22 e 25 de Janeiro, se reúne a cimeira da política e da economia mundial, o Fórum Económico Mundial. A edição deste ano, a 44.ª, prende-se com “O Mundo em Reformulação: Consequências para a Sociedade, Política e Empresas”.
A carta do Vaticano pede aos participantes do Fórum Económico Mundial para colocarem a inovação ao serviço da humanidade. “Aqueles que demonstraram a capacidade para serem inovadores e para melhorarem a vida de muitas pessoas podem, através do engenho e da competência profissional, contribuir ainda mais ao colocarem a sua perícia ao serviço daqueles que estão a viver em extrema pobreza”, escreveu o Papa Francisco, numa mensagem lida no discurso de abertura do Fórum, a 21 de Janeiro. 
O que é o Fórum?
Segundo o site oficial, o Fórum Económico Mundial, conhecido pela terra que o recebe, Davos, é uma organização internacional independente, cujo intuito é o de "melhorar o estado do mundo", algo que pretende concretizar com a junção de líderes empresariais, políticos e académicos "para dar forma às agendas global, regionais e industriais".
“Rogo a todos para que garantam que a humanidade seja servida pela riqueza e não regida por ela”, pediu ainda o Papa Francisco na sua comunicação, onde considerou “intolerável” que “milhares de pessoas continuem a morrer à fome todos os dias, apesar de haver uma quantidade considerável de alimentos disponíveis”. É contra esses factos que o sucessor de Bento XVI solicita uma “nova mentalidade política e empresarial” e é por isso que pede que os pobres sejam vistos para além de um olhar assistencialista.
Pela 44.ª vez se realiza um fórum para procurar soluções para a pobreza e a fome, baseadas na boa vontade ou na consciência social de muitos dos protagonistas que são os responsáveis por essas desigualdades crescentes no mundo e pela concentração da riqueza em muito pouquinhos.
Partindo do princípio de que o Papa Francisco não é inocente, só podemos pensar que a sua carta não passa de uma tentativa de borrar a agenda da hipocrisia e apontar o dedo aos participantes, mesmo sabendo da iliteracia social que reina entre eles, que farão ouvidos moucos, continuando com a mesma louca estratégia até ao 45.º fórum…
Vamos seguindo as intervenções que debatam o tema que o Papa lançou para a mesa, mesmo sabendo que haverá jogadas em que o bluff será persistentemente dominante…
“Vox Dei, vox populi est”

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Trabalhar para empobrecer. Baixem-se os salários, já!

O presidente da Cáritas, Eugénio da Fonseca, considera que os baixos salários são uma das maiores causas de pobreza em Portugal e considera ainda que foi um erro do Governo o corte no Rendimento Social de Inserção (RSI).
A pobreza não dá tréguas em Portugal e pior de tudo, diz o presidente da Cáritas, os portugueses empobrecem a trabalhar.
Portugal continua a figurar na cauda da Europa, posicionando-se como o terceiro país mais pobre entre os 17 estados que integram o euro. Os números do Eurostat revelam um agravamento das condições salariais das famílias. Pior só mesmo a Grécia e a Estónia.
Em entrevista n'O Estado da Nação, o presidente da Cáritas lamenta as consequências do neoliberalismo que, defende, fomenta a pobreza encoberta porque os portugueses "culpam os pobres da condição de pobreza em que vivem".

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Investimentos angolanos em Portugal (1/2)

A braços com a crise, a antiga metrópole tornou-se um “supermercado” onde os novos milionários da ex-colónia, a começar pela família do Presidente José Eduardo dos Santos, fazem as suas compras nos setores da banca e do imobiliário. Mas, em Lisboa, começam a surgir preocupações quanto à origem duvidosa de alguns capitais, revela o “Mediapart”, num inquérito que publicamos em 2 partes.
Operação conciliação em Luanda: 14 deputados portugueses deslocaram-se no início de novembro à capital angolana, para tentar aliviar as tensões nas relações entre Portugal e a antiga colónia.
O ministro dos Negócios Estrangeiros português julgou estar a agir bem, ao apresentar, em meados de setembro, “desculpas diplomáticas” a Angola, a propósito de uma investigação em curso, de que são alvo nomes da diplomacia angolana em Portugal. Contudo, a sua iniciativa inesperada teve o efeito inverso: na verdade, tudo se complicou entre Lisboa e Luanda. No seu discurso sobre o estado da Nação, de 15 de outubro, o Presidente angolano, José Eduardo dos Santos, no poder sem interrupção desde 1979, considerou que já não se encontravam reunidas as condições para uma “parceria estratégica”.
Em 21 de outubro, o Jornal de Angola, diário oficial do regime de Luanda, denunciava uma “agressão intolerável”, num editorial intitulado “Adeus lusofonia”. Várias semanas antes, referira já que Portugal não tinha “lições a dar” às suas antigas colónias.
Indignação imediata em Lisboa, onde políticos e editorialistas condenaram firmemente a atitude de subserviência do ministro. O que, por tabela, ofendeu o poder de Luanda, que se sentiu “agredido” por esta discussão explosiva em torno da relação de dependência que liga a ex-metrópole, à beira da falência, à sua antiga colónia, em plena ascensão económica.
Inversão de papéis
Uma “vingança” da História que, querem acreditar alguns órgãos de comunicação, se explica sobretudo pelo desfasamento brutal entre os 2 países. Enfrentando uma taxa de desemprego de cerca de 17% e uma recessão ainda em curso (-1,8% previstos para 2013), o Governo de Lisboa parece disposto a tudo para atrair investimentos estrangeiros. Em contrapartida, Angola apresenta taxas de crescimento impressionantes (próximas dos 15% ao longo dos anos 2000), graças aos preços do petróleo que disparam e à venda de diamantes, e é cortejada por investidores da China e do Brasil.
Símbolo desta inversão de papéis, a balança comercial de Portugal com Angola, ainda positiva em 2012, saltou para o vermelho nos 6 primeiros meses de 2013. Portugal importa agora mais petróleo angolano do que os produtos que consegue escoar para a antiga colónia. Em paralelo, os investimentos angolanos em Portugal, difíceis de quantificar, registam um aumento crescente desde o início dos anos 2000.
Acontece que Angola não é apenas uma ex-colónia portuguesa, com cerca de 19.000.000 de habitantes e saída de uma longa guerra civil em 2002. É também um dos Estados autoritários mais corruptos do mundo, que ocupa o 157.º na classificação da Transparency International (em 176) e é dirigido com a mais total falta de transparência pela família de José Eduardo dos Santos e pelo partido presidencial MPLA.
A “vingança do colonizado” é mais do que ambígua. Muitos “investimentos” angolanos, em imobiliário de luxo no litoral e na banca, são duvidosos e só beneficiam um pequeno círculo de empresários próximos do poder, em Luanda. Várias fontes contactadas pelo Mediapart em Lisboa descrevem um sistema alucinante, no qual Portugal funciona como centro de lavagem de dinheiro sujo pelos novos-ricos angolanos.
Para o ex-jornalista português Pedro Rosa Mendes, atualmente universitário na EHESS [Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales], esta prática de branqueamento de capitais começou muito antes da crise atual. Verifica-se desde o fim dos anos de 1990, quando Angola, então em plena guerra civil, atribuiu novas concessões de exploração das suas reservas petrolíferas. A decisão originou a explosão da produção de ouro negro no país, alimentou os cofres do Estado e reforçou de súbito a sua influência na cena internacional. A recessão nos países da Europa do Sul, a partir de 2008, veio apenas acelerar a grande mudança nas relações entre Angola e Portugal.
“A menina do papá”
Quantos são os que querem apoderar-se das joias da antiga metrópole? A ofensiva está a ser levada a cabo por famílias próximas da presidência, em Luanda –, no máximo algumas centenas de pessoas, que dispõem de vistos angolanos e portugueses. “Os jornais falam de ‘círculos presidenciais’. Mas, na vanguarda, estão sobretudo José Eduardo dos Santos, e a sua própria família”, considera Pedro Rosa Mendes.
A sua “própria família” e, em especial, a sua filha mais velha. Isabel dos Santos, de 40 anos, licenciada pelo King's College de Londres, a única mulher milionária de África é um dos personagens chave desta lamentável saga pós-colonial. Segundo a imprensa oficial angolana, Isabel dos Santos é a prova viva de que Angola, país onde 70% dos habitantes vivem com menos de 2 dólares por dia, pode também produzir success stories no coração da esfera financeira internacional. A herdeira, nascida de um primeiro casamento de José Eduardo dos Santos, detém hoje em Portugal uma impressionante carteira de ativos. Em poucos anos, apoderou-se de metade do capital de um gigante das telecomunicações (resultante da fusão da ZON e da Optimus) e uma boa parte do banco português BPI – do qual é a 2.ª acionista, com 19,4%. É igualmente membro do conselho de administração de outra instituição financeira, o BIC Portugal, e possui uma participação na Amorim Energia, que controla cerca de 40% da Galp, um dos principais grupos de gás e petróleo da Europa.
A “princesa” é hoje a 3.ª pessoa mais rica, devido ao valor da sua carteira de ações cotadas na Bolsa de Lisboa. Com uma fortuna avaliada em 1.700 milhões de dólares, tornou-se incontornável na paisagem económica portuguesa. À primeira vista, é difícil alguém não se congratular com a entrada massiva de novos capitais, numa altura em que o país está exangue… Mas o caso torna-se mais complicado, se nos interrogarmos sobre as origens duvidosas da fortuna de “Isabel”. Foi o que tentou fazer a revista norte-americana Forbes, num trabalho de investigação, publicado em setembro último, que causou muito barulho em Lisboa – e um pouco menos em Luanda. A sua conclusão é esmagadora: “A menina do papá” é uma criatura totalmente inventada pelo seu pai, para açambarcar, em proveito do seu “clã”, uma parte dos rendimentos dos bens públicos, do petróleo aos diamantes, antes de pôr esse dinheiro a salvo no estrangeiro – destino Portugal.
Fim da primeira parte

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Ontem era a Fome, hoje é a Pobreza, amanhã se verá…

Apesar dos progressos realizados, atualmente 842.000.000 de pessoas no mundo sofrem de desnutrição crónica.
O Papa Francisco alertou para o “escândalo” da fome no mundo atual, apesar do desperdício diário de toneladas de comida, numa mensagem por ocasião do Dia Mundial da Alimentação, que se assinalou ontem.
“É um escândalo que ainda haja fome e subnutrição no mundo. Não se trata apenas de responder às emergências imediatas, mas de enfrentar juntos, em todos os campos de ação, um problema que interpela a nossa consciência pessoal e social, para obter uma solução justa e duradoura”, refere o documento, endereçado a José Graziano da Silva, diretor-geral da FAO, a agência da ONU para a Alimentação e a Agricultura.
Segundo o Papa, é preciso “repensar” os sistemas alimentares numa perspetiva solidária, para superar uma “exploração selvagem” da natureza, e mudar estilos de vida que levam ao “consumismo” e ao desperdício de comida.
“A fome e a desnutrição nunca podem ser consideradas como um facto normal, ao qual é preciso habituar-se, como se fizesse parte do sistema: algo tem de mudar em nós próprios, na nossa mentalidade, nas nossas sociedades”, escreve.
A mensagem fala da importância da solidariedade, uma "palavra tão incómoda", propondo que esta seja a "atitude de fundo nas decisões" políticas, económicas e financeiras. "A solidariedade não se reduz às diversas formas de assistências, mas esforça-se por assegurar que um número cada vez maior de pessoas possa ser economicamente independente", precisou o Papa.
Francisco pede que ninguém seja “obrigado a deixar a sua terra” por falta dos meios essenciais de subsistência, propondo uma educação global para a “solidariedade” e a “humanidade”, que coloque sempre a pessoa e a sua dignidade “no centro”, contrariando a mera “lógica do lucro”.
“O desperdício de alimentos mais não é do que um dos frutos da ‘cultura do descartável’, que leva regularmente a sacrificar homens e mulheres aos ídolos da avareza e do consumo, um triste sinal da ‘globalização da indiferença’, que nos vai habituando lentamente ao sofrimento dos outros, como se fosse algo normal”alerta o Papa.
A FAO revelou que 842.000.000 de pessoas passam fome no mundo, o que representa 1 em cada 8 habitantes do planeta. Além destes, mais de 2.000 milhões de pessoas têm deficiências nutritivas e todos os anos morrem 2.500.000 de crianças com fome.
Nesta quinta-feira assinala-se o Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza, efeméride instituída pela ONU, em 1992, com o objectivo de alertar consciências para defender um direito básico do ser humano.
Nesta data, a EAPN Portugal – Rede Europeia Anti-Pobreza deixa a mensagem de que pobreza e democracia são incompatíveis.
Recordando que a pobreza não é um acidente, mas sim uma escolha política e económica, aquela entidade diz ainda, que é preciso apelar aos políticos, no sentido de implementarem políticas de erradicação deste flagelo.
O presidente da Cáritas Portuguesa alertou que há cada vez mais pessoas em situação de "pobreza extrema" em Portugal, porque lhes foi retirada a "principal fonte de rendimento", o trabalho. "Temos cada vez mais pessoas a cair na pobreza extrema, na pobreza mais severa. Não só há mais gente pobre, como mais gente muito, muito pobre", lamentou Eugénio Fonseca no “Dia Internacional da Erradicação da Pobreza”. Para esta situação, têm contribuído as medidas de austeridade nos últimos anos, sublinhou.
"A forma de retirar estas pessoas da pobreza é dar-lhes a oportunidade de acederem a um novo posto de trabalho", mas "enquanto isso não acontece é beneficiá-las com medidas compensatórias, as que estão relacionadas com a protecção social", disse. Mas não é com a redução das medidas de protecção social que se consegue atenuar a pobreza, antes pelo contrário, advertiu.
Ressalvando que não quer "ser derrotista", confessou ter "muito receio" de que, "se não houver uma estratégia bem objectiva que tenha como fim as pessoas e não o capital, muitas pessoas não voltem a encontrar o posto de trabalho que perderam".
Eugénio Fonseca sublinhou que o desenvolvimento do país "não se faz apenas com euros, faz-se com pessoas, porque são elas que fazem gerar os euros". Por isso, defendeu, é importante que "os políticos, enquanto servidores do bem comum e não enquanto servidores de interesses pessoais ou corporativos, defendam as populações e sobretudo os mais fragilizados entre as populações".
Imagem 1 e 2

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

A corrida para o “paraíso” que conduz ao “inferno”…

O repórter Fabrizio Gatti, que se fez passar por imigrante árabe clandestino, explica porque defende que a ilha, que simboliza a política de migração da União Europeia e é o posto avançado da Europa no Mediterrâneo, merece ser recompensada pela forma como os seus habitantes acolhem imigrantes que dão à sua costa aos milhares.
Há exatamente 10 anos, em 2003, em dias de outono como os de hoje, fiz papel de “infiltrado” numa viagem pelo tráfico de seres humanos. Da África para a Europa, através do Senegal, Mali, Níger, Líbia, Argélia, Tunísia e, finalmente, a ilha de Lampedusa. Decidi encarnar Bilal, um nome inventado, ao olhar para as fotografias tiradas de helicóptero de corpos flutuando no Mediterrâneo de barriga para baixo, inchados como balões, de braços abertos para um abraço que não veio.
Foi num naufrágio, um dos muitos. Diante da ilha mítica de Kerkennah, na Tunísia: 41 sobreviventes, 12 cadáveres recuperados, 197 desaparecidos. Passaram-se 10 anos e para milhares de outras pessoas a vida acabou de barriga para baixo, corpo inchado e braços abertos.
Naquelas águas, o sítio de Internet Fortress Europe contou 6.825 mortos desde 1994, incluindo 2.352 só em 2011. Considerando todas as fronteiras do Sul europeu, das ilhas Canárias à Turquia, o número de mortos desde 1988 ascende a 19.142.
O aspeto mais absurdo é que todas essas pessoas morreram por uma capa de cartolina com um punhado de páginas no meio: um passaporte. Foi a viajar em camiões cheios como sardinhas em lata através do Sara ou ao ser detido como Bilal num acampamento de imigrantes ditos ilegais que percebi o instrumento extraordinário e diabólico que pode ser o passaporte.
Ausência de um projeto conjunto
Se tivermos o que é reconhecido, cruzamos as fronteiras e integramos o mundo dos sobreviventes. Caso contrário, temos de nos colocar nas mãos dos traficantes e integramos o mundo dos náufragos. Mas podemos deixar morrer jovens, mulheres, crianças e pais por uma capa de cartolina com um punhado de páginas no meio?
Ao longo destes anos, a União Europeia gastou centenas de milhões de euros para proteger as suas fronteiras através da Frontex, o seu serviço de polícia de estrangeiros. Quanto a isso, os Estados-membros chegaram facilmente a um acordo. Mas com a aplicação das convenções em matéria de refugiados, o dever de assistência no mar tantas vezes esquecido, as normas sobre imigração, praticamente nada foi gasto. Cada Estado fica entregue a si mesmo.
Assim, a ausência total de um projeto conjunto para dezenas de milhares de exilados sírios, eritreus, somalis e de outras nacionalidades, bem como a não abertura de corredores humanitários num território que se estende desde os campos de detenção da Líbia aos campos de refugiados da Turquia, transforma paradoxalmente as máfias na única entidade internacional de expatriação a oferecer uma saída. Os desastres são a consequência disso mesmo.
Nada disso impediu a União Europeia de receber o Prémio Nobel da Paz, no ano passado. Daí que, confrontado com imagens de novos corpos flutuando no mar, tenha sentido necessidade de quebrar o silêncio e propor a recolha de assinaturas para atribuir o Prémio Nobel da Paz, a partir de 2014, aos milhares de sobreviventes e náufragos, em fuga, a tentar escapar das guerras. Está no sítio de Internet de L' Espresso, o semanário para o qual trabalho.
Local real e simbólico
Uma vez que o Nobel não pode ser entregue aos que morreram no mar, proponho que seja atribuído – em nome dos mortos e dos sobreviventes – à pequena cidade de Lampedusa e aos seus habitantes, que nunca deixam de recolher um corpo para terra. Lampedusa não é o Estado italiano, que, por uma lei absurda, prevê que os 155 sobreviventes sejam julgados [pelo crime de imigração ilegal]. Lampedusa também não é a Europa, é apenas o ponto mais próximo de África.
Lampedusa é o primeiro local, real e simbólico, que se interpõe entre nós, espectadores, e os homens, mulheres e crianças que se agarram aos rochedos a pedir ajuda. Lampedusa e os seus 6.000 habitantes nunca, durante esta trágica década, perderam a razão e o bom senso, que não faz distinção entre cidadãos e imigrantes clandestinos.
Esse senso comum, senti-o na carne. Na noite de 23 para 24 de setembro de 2005, quando, na minha investigação, me atirei à água, simulando ser um clandestino. Um homem que eu não conhecia e que não me conhecia descobriu-me no mar ao fim de longas horas. Ajudou-me a chegar a terra e deitou-me sobre uma pedra. Tirou a T-shirt e cobriu-me o peito. Como eu continuava a tremer, deitou-se em cima de mim e assim me aqueceu, sem saber quem eu era. Ele era pesado. Eu estava sujo, desgrenhado e barbudo; podia estar doente ou ter algo contagioso.
No final da minha investigação e após o lançamento do meu livro, voltei a vê-lo. Massimo Costanza não é socorrista de profissão. É eletricista, tem mulher e filhos. É uma pessoa comum.
O Prémio Nobel da Paz tem uma razão de ser. Sem a sua atribuição a Aung San Suu Kyi, muito poucas pessoas teriam tomado conhecimento da ditadura na Birmânia. É por isso que é preciso assinar esta petição: para quebrar o silêncio e dar a conhecer ao mundo o que está a acontecer no extremo Sul da União Europeia.

sábado, 5 de outubro de 2013

Que tamanho deverá ter o cemitério desta ilha?

O último naufrágio ao largo da ilha italiana, em 3 de outubro, de um barco que transportava migrantes africanos – dos quais pelo menos 127 morreram e quase 300 estão desaparecidos – suscitou uma vaga de comoção na Europa e relançou o debate sobre a política de imigração da UE e dos seus Estados-membros, sublinha a imprensa europeia.
“Massacre de imigrantes, a Itália está de luto”, diz a manchete do Corriere della Sera. No artigo principal deste diário de Milão, Gian Antonio Stella recorda o grande número de pessoas que se afogaram, desde 1988, a tentar atravessar o Mediterrâneo: pelo menos 19.142, segundo o blogue Fortress Europe. Stella salienta ainda que, pouco antes desta tragédia, o Conselho da Europa acusara a Itália de ser um polo de atração para a imigração, por os seus sistemas de dissuasão serem inadequados, apesar de outras instituições europeias criticarem frequentemente as políticas “de dissuasão”.
A mesma Europa, que, todos os dias, quer imiscuir-se nas nossas decisões porque estas dizem respeito a toda a gente, não se mostra ansiosa por partilhar connosco o fardo das fronteiras do Sul. […] As exigências xenófobas da Itália não têm fundamento. Em cada 1.000 migrantes, 9 refugiam-se na Suécia, 7 na Alemanha, 4,5 na Holanda e apenas 1 em Itália. Contudo, estas vagas humanas não podem ser só um problema italiano. São um problema de todos. […] Bruxelas devia vir a Lampedusa e contar os mortos. Também são os seus mortos.
Para o *Spiegel Online, o naufrágio de Lampedusa é “o fracasso da Europa”:
Houve sem dúvida cenas atrozes: 500 pessoas a cair de um barco em chamas e muitas delas não sabiam nadar. O que aconteceu em 4 de outubro, ao largo da ilha mediterrânica de Lampedusa faz tremer toda a Europa. […] A pequena ilha sente-se só e não é esta a primeira vez. Foi ali que, desde 1999, desembarcaram mais de 200.000 pessoas provenientes de África e da Ásia, que fugiam à guerra, à fome e à miséria. Calcula-se que entre 10.000 e 20.000 tenham morrido durante a travessia. Desde janeiro de 2013, chegaram a Lampedusa 22.000 refugiados. Esta ilha é um símbolo. Um símbolo da política de imigração europeia.
O diário espanhol El País refere que a maioria dos passageiros do barco afundado era oriunda da Somália e da Eritreia e tinha fugido por causa da fome e da guerra. Alguns sobreviventes afirmam que, apesar dos pedidos de socorro, viram passar 3 embarcações que não alteraram a rota para os ajudar. Para El País, “a crise das pessoas deslocadas abala a Europa”:
Mas só quando se verifica um grande naufrágio – e este é um dos maiores de que temos notícia – os olhos se voltam para uma ilha que tem apenas 5.000 habitantes e cuja presidente da Câmara [Giusi Nicolini], farta da surdez das autoridades italianas e europeias, enviou em fevereiro uma carta à União Europeia, na qual perguntava: “Que tamanho deverá ter o cemitério da minha ilha?”
Sob o título “Lampedusa afunda-se”, o Gazeta Wyborcza salienta que o “estreito da Sicília se tornou o túmulo de africanos que sonhavam com o paraíso europeu”. Este diário polaco propõe uma solução para aliviar a pressão sobre a Itália e a Grécia, também inundada por imigrantes: encaminhá-los rapidamente para centros de outros países da UE, onde os seus pedidos poderiam ser analisados. Contudo, quando uma proposta desse tipo foi recentemente apresentada em Bruxelas, os países não mediterrânicos, entre os quais a Polónia, “não quiseram sequer ouvir falar no assunto”. O Gazeta conclui que
nós, europeus, não fazemos o suficiente para impedir estas tragédias. […] Nem os italianos, nem os outros europeus querem imigrantes ilegais, sem educação e pobres. Tornar mais eficiente o sistema de vigilância do Mediterrâneo, supervisionado por Bruxelas, para evitar que se afoguem pessoas é uma tarefa árdua.
No Volkskrant, a cronista Sheila Sitalsing mostra-se indignada com a hipocrisia que reina na Europa. Sheila Sitalsing lamenta que a política de imigração da UE se limite a
discutir, desculpabilizar e olhar para o outro lado. Há anos que os países do Sul da Europa se esforçam arduamente para que os seus enormes problemas de imigração sejam incluídos na agenda de Bruxelas, advertindo: “Não podemos continuar a acolhê-los, mas também não podemos deixá-los morrer, nem podemos devolvê-los. Portanto, ajudem-nos”. E os países do Norte respondem: “É preciso repeli-los, seja de que forma for”. Sem dúvida que consideramos abominável a guerra na Síria, que achamos desagradáveis alguns dos acontecimentos que se verificam no continente africano e que apoiamos a primavera árabe. Mas, sobretudo, não queremos que isso seja interpretado como um convite a que as pessoas venham instalar-se em massa em Amesterdão, Paris ou Berlim.
Mais de 100 mortos em tragédia naval ‘às portas da Europa’”, diz a manchete do Guardian. Condenando o facto de, “nos tempos que correm, ser preciso uma tragédia espetacular para os barcos de imigrantes chegarem às primeiras páginas dos jornais”, o jornalista Jack Shenker afirma que existem fortes divisões entre aqueles que pensam que a principal prioridade da Europa deveria ser salvar as vidas dos candidatos à imigração e aqueles que consideram que a prioridade deveria ser o reforço dos controlos de fronteiras.
Falta ainda a vontade política, quando se trata de garantir que os imigrantes vulneráveis não caiam entre as fissuras de um conjunto intrincado de políticas de fronteiras e de salvamento e entre jurisdições legais de regiões que se sobrepõem.
No seu editorial, o diário português Público tem por título “Lampedusa e a vergonha da Europa”. E prossegue:
O Mediterrâneo, mar de civilizações e encontros desde a Antiguidade, tornou-se igual a um campo de extermínio. Nas suas margens, como também em tempos disse o Papa, passou a haver apenas indiferença. Indiferença perante a morte e perante as tragédias que se sucedem. “Não há solução milagrosa”, dizia a ministra dos Estrangeiros italiana, Emma Bonino. Não há milagre. Mas a Europa em crise e com medo que se fecha ao outro deixará de ser a Europa se não entender que a morte no Mediterrâneo é a sua própria morte.