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domingo, 10 de agosto de 2014

A UE ainda não acordou, mas abriu um olho e o porta-moedas…

A França, o Reino Unido e a Alemanha apelam a Israel e ao Hamas para um cessar-fogo imediato na Faixa de Gaza, indicaram os ministros dos Negócios Estrangeiros dos 3 países, Laurent Fabius (França), Philip Hammond (Reino Unido) e Frank-Walter Steinmeier (Alemanha), numa declaração conjunta divulgada e acrescentam: "Damos o nosso pleno apoio aos esforços realizados pelo Egito para esse efeito".
O cessar-fogo de 72 horas na Faixa de Gaza entre Israel e o Hamas expirou às 8 horas locais, após negociadores não conseguirem chegar a um acordo final para ampliar a trégua. Poucas horas antes do fim da trégua, 2 foguetes partindo de Gaza foram atirados contra Israel, segundo o exército israelita. Não houve feridos.
Alemanha, França e Grã-Bretanha propuseram a reativação de uma missão da União Europeia na fronteira entre a Faixa de Gaza e o Egito para ajudar a estabilizar o enclave palestiniano após um mês de guerra, disse uma fonte diplomática da Alemanha nesta quarta-feira.
Europeus já repassam 900 milhões de euros por ano para a Cisjordânia e a Faixa de Gaza, na forma de ajuda humanitária. Unidade entre os palestinos facilitaria a distribuição.
A União Europeia (UE) está pronta para contribuir com a reconstrução da Faixa de Gaza e o fornecimento de suprimentos à população local logo que se chegue a um cessar-fogo definitivo entre o Hamas e o governo de Israel.
De acordo com o porta-voz da alta representante para assuntos externos, Catherine Ashton, Sebastien Braband, o bloco europeu conversou com todas as partes envolvidas a fim de definir a melhor forma de contribuir para o fim do conflito. "Por isso é fundamental que o novo governo palestino assuma o controlo da Faixa de Gaza e coloque fim às disputas internas", disse.
Se a Autoridade Nacional Palestina, sob comando do moderado presidente Mahmoud Abbas, controlasse a Faixa de Gaza, seria muito mais fácil para a UE distribuir ajuda financeira diretamente à região e até mesmo controlar a aplicação desses recursos. Mas quem comanda Gaza é o grupo radical Hamas, e o bloco europeu precisa fazer uso de vias indiretas para repassar parte dos salários e aposentadorias dos funcionários públicos da Faixa de Gaza e dar ajuda financeira para diversas famílias que vivem na região. Esses repasses só podem ser feitos por vias indiretas – transferir recursos ao Hamas está fora de questão.
Com isso, segundo a Comissão Europeia, fica difícil controlar esses pagamentos – o que já gerou uma reprimenda do Tribunal de Contas Europeu. Em dezembro do ano passado, a corte declarou que a UE pagou salários a servidores públicos na Faixa de Gaza que nem sequer estavam a trabalhar. O Tribunal de Contas recomendou ainda o cancelamento dos programas de ajuda, o que não ocorreu.
Por ano, a Comissão Europeia destina 450 milhões de euros do fundo comum europeu aos palestinianos da Cisjordânia e da Faixa de Gaza, na forma de ajuda humanitária. O mesmo valor é repassado diretamente pelos Estados-membros do bloco europeu. Ao lado da UE, os Estados Unidos são o maior doador de recursos para os palestinianos.
Tem sido escandaloso o silêncio e inoperância da UE neste conflito, que não cabe nos valores da cultura europeias, a não ser desde a sua transformação numa cooperativa financeira… E por isso surge esta preocupação de 3 países, desgarrada da chamada União, sabe-se lá com que legitimidade e força…
E perante mais um previsível fracasso das negociações para um cessar-fogo, que deveriam ser para acabar com o conflito, negociando as questões que estão na sua base, eis que os mesmos 3 países da UE, propõem a reativação de uma missão da União Europeia na fronteira entre a Faixa de Gaza e o Egito, quase como um escudo humano, que impedisse Israel dos crimes humanitários que tem cometido impunemente, por serem cometidos contra civis indefesos, o que não seria a mesma coisa se os atingidos fossem funcionários da União. Bom seria que missão da UE fosse na fronteira entre a Faixa de Gaza e Israel, mas não há coragem… Seria remédio santo e permitiria ter (mais) observadores a recolher e dar testemunho dos “erros” colaterais, na era da nanotecnologia…
À falta de coragem, a União Europeia oferece aquilo em que hoje em dia se especializou e são os seus valores maiores, dinheiro. Para já, para ajuda humanitária, mais tarde, se houver tréguas, para reconstruir, mais uma vez, os edifícios destruídos, num ciclo vicioso que cheira a negociata de “patos-bravos”…
Como foi possível, em tão pouco tempo acontecer uma desvalorização tão grande na bolsa de Valores da cultura europeia, tão humanista e agora tão anestesiada?
Filosofias de vida e discriminação de pessoas que o passado parecia ter enterrado? Ou novo-riquismo parolo?

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

As razões (omitidas) do passado para se entender o “presente”

“Se eu fosse um líder árabe, nunca assinaria um acordo com Israel. É normal: nós tomamos o país deles. É verdade que era uma promessa de Deus, mas o que têm eles a ver com isso? O nosso Deus não é o deles. Houve o antissemitismo, Hitler, os nazis, mas o que isso lhes diz respeito? Para eles, existe uma única coisa: nós viemos e roubamos o país deles. Por que aceitariam isso?”: Esta espantosa declaração de David Ben Gurion, fundador do Estado de Israel e o seu 1.º primeiro-ministro, na época, nunca foi publicada nos media.
Eu vou todos os anos para Israel. É um país incrível. Tem a 25ª mais alta renda per capita do mundo, com 36.000 dólares ao ano, à frente da média da União Europeia e mais de 3 vezes superior à brasileira (11.000 dólares ao ano). Já ganhou 12 prémios Nobel - tem mais prémios Nobel por habitante do que a Alemanha, Estados Unidos e França. Israel tem excelentes museus, uma das melhores orquestras filarmónicas do mundo, grandes cineastas (Amos Gitai, Dror Moreh, Ari Folman), escritores magistrais (Amos Oz, David Grossman, S.Y. Agnon, A.B. Yehoshua...), músicos fantásticos. Apesar do seu tamanho minúsculo, é o 3.º país com mais empresas listadas na Nasdaq, a bolsa de empresas de tecnologia, atrás apenas dos EUA e da China. O primeiro serviço de instant messaging, ICQ, é de uma empresa israelita. O Waze também. A Teva, a maior empresa do mundo de medicamentos genéricos, é de lá. O país tem grandes restaurantes, um Parlamento vibrante, uma vida noturna intensa. Tel Aviv poderia ser colocada em qualquer país europeu e o turista não saberia a diferença.
Que tudo isso tenha sido gerado por um país de 20.000 quilómetros quadrados (um pouco menor que Sergipe) fundado em 1948 já seria surpreendente; tendo acontecido sob constantes ataques em guerras e atentados terroristas e acolhendo milhões de imigrantes ao longo de décadas, é algo que aqueles com pendores religiosos poderiam chamar de milagre. Cercado por todas estas opulentas vitórias e conquistas, é perdoável que os visitantes estrangeiros e os próprios israelitas não consigam fazer o esforço sobre-humano de notar que, mantido o atual caminho, o país ruma para o suicídio.
Conflito - A atual campanha de Gaza apenas reforça alguns pontos nos quais acredito há muitos anos. Primeiro: Israel não pode vencer o conflito com os palestinianos militarmente sem que se torne um pária entre as nações. Porque a única maneira militar de acabar com o terrorismo dos radicais do Hamas seria dizimar todo o povo palestiniano. Algo inconcebível. Enquanto houver palestinianos vivos, vão querer ter um Estado – uma aspiração que o povo judeu, apátrida durante 2 milénios, certamente entende bem, e cuja legitimidade é inquestionável.
Eu acompanho este conflito com lupa há pelo menos 20 anos. Já nem me recordo mais a quantidade de vezes que os comentaristas militares israelitas e os seus apoiantes disseram que uma certa ação militar ou o assassinato de um líder do Hamas (Yehia Ayash, Ahmed Yassin, Abdel Aziz al-Rantissi, Salah Shahade, Ahmed Jaabari) daria o “golpe definitivo”. Mas o enredo é sempre o mesmo: centenas ou milhares de palestinianos inocentes são assassinados, casas são destruídas, mísseis explodidos, soldados e civis israelitas morrem e, assim que as operações acabam, a preparação para o próximo conflito começa. Com um saldo sempre negativo para Israel. A operação ‘Chumbo Fundido’, de 2008-09, matou entre 1.166 e 1.417 palestinianos e 13 israelitas.
A operação atual, no momento em que escrevo estas linhas, já custou a vida de 1.492 palestinianos e 66 israelitas, além de um soldado sequestrado (entretanto reconhecido como morto em combate) A imagem internacional do país deteriorou-se sensivelmente de lá pra cá. Chama a atenção que os defensores desta operação não percebam a sua inutilidade: Israel está a usar todo o aparato bélico de que o século XXI dispõe para...enterrar túneis (?!). Túneis que podem ser feitos com pás e um pouco de cimento e que certamente começarão a ser cavados novamente assim que o conflito terminar. É óbvio que Israel precisa de se defender dos foguetes e não permitir túneis adentrando o seu território, como é óbvio não ser possível eliminá-los militarmente.
Guerrilha - Muito se tem escrito, nos últimos dias, sobre a indecência do comportamento do Hamas, que estaria vitimando os seus concidadãos de propósito para danificar a imagem de Israel. Do outro lado, há aqueles que acusam Israel de “genocídio” e imaginam que o objetivo da ação é matar o maior número possível de palestinianos. Não pretendo ater-me a teorias e gostaria de ficar no terreno do que considero obviedades. A primeira é que, se os palestinianos não podem ter Exército e não conseguem obter concessões pela via da negociação, a sua arma será o terrorismo, por não terem outra. A segunda é que terroristas são o que de pior a humanidade produz, e os militantes do Hamas, e a sua ideologia, são asquerosos, racistas, desumanos, torpes. A terceira, derivada das duas acima, é que um Exército nacional não pode lutar contra e vencer uma milícia terrorista sem que adote as suas táticas, coisa que um Exército nacional não pode fazer. É por isso que os americanos não ganharam no Vietnam nem os franceses na Argélia, e é por isso que o exército israelita não ganhará em Gaza, se por “vitória” entendermos uma ação militar que gere uma paz duradoura.
Não entendo as pessoas que ficam a apontar as atrocidades do Hamas. Ninguém, em sã consciência, acha que é uma organização digna e honrada. O que esperam essas pessoas? Que ao denunciar as vilezas do Hamas os seus militantes comecem a guerrear de acordo com as Convenções de Genebra?! Não vai acontecer. Que a população de Gaza se insurja contra o Hamas e entenda as razões israelitas para matar centenas de mulheres e crianças, e aceitem o bloqueio marítimo, terrestre e aéreo que Israel impõe a Gaza de maneira resignada? Não vai acontecer. Que a comunidade internacional aceite a morte de centenas de inocentes porque os militantes do Hamas estão a lançar foguetes contra cidades israelitas? Não vai acontecer.
O segundo facto, portanto, que essa operação deixa claro, é que o problema israelo-palestiniano precisa ser resolvido na mesa de negociações. Essa, aliás, é a única forma de derrotar o Hamas: mostrar aos palestinianos que o terrorismo não leva a nada e que o caminho dos moderados traz resultados. Aqui os defensores de Israel repetem mais uma frase sem sentido, que vem dos partidos da direita israelita: a de que não há parceiro para a paz, de que os palestinianos não reconhecem a existência de Israel, de que todos os árabes – ou todo o mundo, dependendo do nível de paranoia do interlocutor – quer jogar os judeus ao mar. Assim sendo, não há nada a fazer, além daquilo que os militares israelitas chamam de “aparar a rellva”: ações militares periódicas que causam bastantes mortes e destruição e retardam em alguns anos o fortalecimento das milícias palestinas. (Esse linguajar desumano, inaceitável, já é um indício de uma brutalização da sociedade israelita e de grande parte da comunidade judaica, que comento a seguir).
Para ser sincero, acho essa visão equivocada. Ela emana do pecado original do sionismo: a ideia, difundida nos primórdios do movimento, de que a criação do Estado judeu na Palestina histórica era dar “um povo sem terra para uma terra sem povo”. Ocorre que a segunda metade da frase é falsa: havia milhares de palestinianos a morar, há séculos, nas terras sagradas do judaísmo. Eu entendo perfeitamente que um povo perseguido durante milénios e tendo recentemente saído do Holocausto não tenha podido demonstrar empatia para com o sofrimento dos palestinianos naquela época - mas não hoje. Também entendo que os palestinianos não tenham aceitado a presença judaica em terras que percebiam como suas. Como bem disse David Ben-Gurion, 1.º primeiro-ministro israelita: “Se eu fosse um líder árabe, jamais assinaria um acordo de paz com Israel. É normal, nós tomamos o país deles. É verdade que Deus prometeu-o a nós, mas o que têm eles a ver com isso? O nosso Deus não é o deles. A única coisa que eles veem é: nós viemos aqui e roubamos o seu país. Por que deveriam aceitar isto?”