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sábado, 22 de fevereiro de 2014

15.ª Correntes d’Escritas – 2.ª mesa

A 2.ª mesa do Correntes d’Escritas reuniu Afonso Cruz, Helder Macedo, Ivo Machado, Miguel Real, Patrícia Portela e Valério Romão, 6 escritores, dos quais metade usa caneta e papel e outra metade usa tablet para fazer a sua intervenção, como referiu João Gobern, moderador.
Perante o tema proposto, Helder Macedo disse: “vou tentar ser um literalista da imaginação”. Começou por abordar Correntes d’Escritas, sendo que “é através de palavras que estas Correntes estão a celebrar o seu aniversário com uma ideia de renovação. Correntes que renovam, vale a pena”.
O escritor decidiu fazer um elogio rápido das palavras comuns, habituais. “E numa fase da nossa literatura, em que há uma tentativa cada vez mais insistente, de as pessoas escreverem como antigamente punham roupa de domingo para ir à missa, acho que o elogio das palavras correntes, das palavras simples é aquele que deve ser feito, sobretudo”. Para Helder Macedo, “o grande desafio é descomplexizar o complexo: os escritores têm obrigação, primeiro, de não serem chatos, e outra, pegarem nas coisas que são complexas e dizê-las de maneira tão simples quanto possível sem extrair”.
Outra possibilidade são “águas correntes, aquelas que movem moinhos e vão também para o tal x, a incógnita. Mais uma vez acho que nós, escritores temos a obrigação de falar daquilo que não sabemos porque falar daquilo que a gente sabe, não vale a pena”.
Outro sentido de corrente, e “talvez o mais sério daquilo que estou a tentar não dizer, é remar contra a corrente. E essa é que me parece ser a nossa obrigação, nomeadamente no sentido político, pelo momento que estamos a viver em Portugal. E nem sequer falo de injustiças sociais, do facto de termos um Governo que é simultaneamente incompetente e benevolente porque está a usar ideologias antiquadas”.
Helder Macedo disse que “pela primeira vez em Portugal, temos uma mediania intelectual muito alta. Isso é uma coisa que só se consegue conquistar em democracia. O nível cultural de um povo é medido pela sua mediocridade, ou seja, quanto mais alta for a mediocridade, mais cultos somos todos nós”. E confessou que “remar contra a corrente remete-me ao período da minha juventude e adolescência, em que era bem mais complicado fazê-lo”. Atualmente “estamos a ser diariamente ofendidos, neste país, e estamos a ser bem comportados demais. Temos obrigação de ser malcriados. Vamos celebrar o grande e universal manguito”, sugeriu.
“Das somas”, assim se intitulava o texto lido por Ivo Machado para abordar o tema sugerido. “Em primeiro lugar, temos de saber o que significa somar 2 coisas. Isto é importante, pois apesar de estarmos permanentemente a somar coisas, raramente pensamos o que significa somar coisas. A primeira resposta a que chego é que nem sempre as somas resultam de um aumento de quantidade”.
E para corroborar esta ideia, recorreu a um poema de Almada Negreiros “Amor”, no qual 1+1=1. Deu ainda outro exemplo, de pegarmos num conta-gotas e deixarmos cair uma gota sobre outra gota, o resultado é “uma gota maior, mais gorda. Este é o tipo de soma em que o resultado tem uma expressão quantitativa, em que somar significa aumentar o volume mantendo a qualidade”. Outro tipo de soma é somar uma maçã a uma banana, da qual resultam 2 peças de fruta. Neste caso, “só se altera o volume pela transformação da identidade. Não importa o conteúdo mas o respeito escrupuloso pela forma. O importante é o conjunto que se obtém, não as partes individuais do conjunto obtido”.
Dados estes exemplos, Ivo Machado transmitiu que “este não é o significado de soma que procuro no âmbito desta mesa porque já aqui demonstrei que é possível somar de outra maneira, é possível que o resultado de uma soma seja ao mesmo tempo alteração de qualidade e preservação da quantidade. Mais ainda, que é possível formar um conjunto preservando as quantidades individuais, mas aperfeiçoando a identidade, tornando-a mais rica. Em resumo, o primeiro exemplo levou-me ao sinónimo de soma como alteração de qualidade, o segundo com sinónimo de alteração de quantidade e o terceiro como transformação da identidade em quantidade”.
Posto isto, o escritor natural dos Açores concluiu que “em nenhuma das situações se deu a evidência: 1+1=2, à exceção da fruta. E disto se retire uma lição: se quisermos pensar acertadamente, às vezes, temos de ignorar as regras. Poderão compreender agora por que razão, a propósito do tema desta mesa, ocorreu falar-vos de como 2 somas obtidas na minha vida foram somas do tipo 1, de qualidade. Afinal, um pretexto para partilhar convosco 2 somas extraordinárias, a primeira das quais, com Sophia de Mello Breyner (1976) e outra com Emanuel Félix”.
Ivo Machado concluiu dizendo: “hoje falei de somas, de 2 somas em particular. Foi isso que deu a minha interpretação deste desafio e ainda bem porque assim pude falar do encontro com 2 poetas e publicamente confessar como isso mudou a minha qualidade enquanto homem e, necessariamente, como poeta. No fundo, cada um deles, uma gota somada a outra gota. Acredito que sou o resultado de todas as somas da minha vida. Foi isso que deu ter passado a vida toda a fazer contas de somar, mas não da maneira como nos ensina a matemática”.
Miguel Real centrou a sua intervenção numa análise crítica à evolução da literatura: “Portugal mudou, a literatura mudou. O escritor mudou porque o leitor mudou e vice-versa. Há centenas de palavras novas que surgiram a partir da década de 90. Há novos tipos de tratamento entre as pessoas e também a literatura tem novos tipos de tratamento”.
O escritor chamou a atenção para a “pulsão ficcional fortíssima da nova geração de escritores portugueses”.
Porque todos os usos da palavra devem ser dados a todos, Patrícia Portela abordou a equação palavras + correntes = x em diferentes perspetivas e apontou diversos caminhos.
Valério Romão leu um texto que, segundo o próprio, tinha um caráter moralista. Na sua opinião, palavras + correntes = x é “uma equação cujo resultado depende da qualificação e não da quantificação dos termos equacionados”. Para ele, “o subjetivo da questão é narrativo. Estamos formatados para exportar o bem. Fazer os outros felizes, faz-nos felizes. Sabemos como vivemos mas não vivemos como sabemos. Estamos excessivamente dependentes de teorias” e terminou citando um dinamarquês: “o filósofo sistemático constrói castelos mas vive na casota do cão”.
Além de uma abordagem sobre o campo e a cidade, Afonso Cruz confessou que acredita imenso nas palavras, que elas têm um enorme poder, realçando que o importante é que estas continuem a chegar mesmo onde as correntes são mais apertadas.

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