(per)Seguidores

terça-feira, 5 de março de 2013

Ecos da blogosfera – 5 mar.

Amigos virtuais, vantagens reais(?)…

Já aqui escrevi que o Facebook pode acabar com a sua carreira. E de facto, se passa os dias a escrever inconsequências sobre o patrão enquanto devia estar a trabalhar, a expor os segredos dos colegas para o mundo inteiro ver ou mesmo à procura de gatos fofinhos e cães abandonados enquanto os processos se acumulam na sua secretária, nada pode vir de bom do uso das redes sociais.
Joana Petiz
No entanto, se as usar com cabeça e método, as redes sociais podem tornar-se em aliadas valiosas para ir mais além na sua carreira ou mesmo para conseguir o novo emprego que anda a perseguir há tanto tempo. Só tem de planear os seus passos com cuidado e escolher bem os seus comentários. Escusado será dizer que deve dispensar fotografias suas em fato-de-banho e abster-se de fazer comentários suscetíveis de ferir sensibilidades. Se for preciso, crie uma página profissional e mantenha na outra os seus verdadeiros amigos – aqueles que podem, com um comentário sobre a sua última bebedeira ou uma fotografia comprometedora, arruinar toda e qualquer hipótese de ser levado a sério.
Com a sua nova página pronta – incluindo alguns comentários sensatos acerca de empresas relevantes, resultados profissionais que mereçam referência e links para verdadeiros génios da sua profissão –, comece por encontrar e pedir amizade a meia dúzia de executivos da empresa à qual quer chegar. A maioria das pessoas não escolhe realmente as amizades no Facebook, por isso é provável que pelo menos 2 ou 3 o aceitem logo – e as restantes devem seguir-se, quando virem que “conhece” outros seus amigos.
Quando se assegurar de que tem as pessoas certas entre os seus contactos, está na altura de começar a impressionar. O que quer que diga, não minta. Pode empolar um pouco situações que lhe tenham corrido bem, mas tentar convencer toda a gente que foi presidente de uma multinacional ou que é exímio em contabilidade quando nem sabe bem a tabuada são coisas que se viram contra si bem mais cedo do que imagina.
Vá distribuindo posts inteligentes que revelem as suas qualidades profissionais – recorde intervenções brilhantes num pitch ou numa conferência TED, qualquer coisa que faça transparecer aquilo que considera importante na forma de trabalhar e atingir objetivos. Peça a um ou dois amigos que comentem alguns dos seus posts, recordando uma situação profissional em que você foi particularmente brilhante a conquistar um cliente ou a solucionar um problema. Mas não exagere... Se você fosse tão perfeito como o pintam, provavelmente estaria a fazer outra coisa, em vez de estar confinado a um cubículo com pilhas de processos que ninguém quer a atulhar a sua secretária. E, muito importante, dispense os autoelogios – ninguém gosta de um gabarola.
Agora que a sua página no Facebook tem substância suficiente, ligue o chat e aborde um dos executivos da empresa em que adorava trabalhar. Lembre-se que, se tiver feito tudo devidamente, por esta altura, eles já acreditam que o conhecem, sabem aquilo que fez de melhor e estão preparados para juntar o seu valor acrescido à companhia.
Exponha a sua vontade de trabalhar ali, claramente e sem rodeios. Não se poupe no entusiasmo mas escolha motivos concretos para justificar a sua escolha. Inclua também as razões porque acredita que seria ótimo para a empresa. Mas mantenha a sua proposta simples e resumida àquilo que é realmente essencial. Lembre-se que está num chat e que o objetivo é apenas estabelecer o primeiro contacto.
Com uma entrevista marcada e os executivos influenciados pelos traços de personalidade que foi semeando na sua página do Facebook, só precisa de ser coerente com aquilo que foi escrevendo quando for à entrevista. O emprego já é quase seu. Só precisa de cumprir aquilo que prometeu. Ser fantástico no cargo que sempre desejou, na empresa em que sempre quis trabalhar. Não parece muito difícil, pois não?
Apesar de não ser grande fã das redes sociais uso o Facebook, mais para divulgar o blog (sem grande sucesso) e de quando em vez publico artigos sobre o fenómeno, apenas por pedagogia e sobreaviso.
Curiosamente, um dos artigos que postei aqui: Já que tem o vício do FB, tire o melhor proveito…, teve um sucesso tremendo, sobretudo no estrangeiro, que deu origem a uma chusma de comentários (bonitos, mas não sei se sinceros) de anónimos com links anexados, que se transformou numa vitrina de material para venda. Ao mesmo tempo, inverteu o número de visitantes por nacionalidades, relegando os portugueses, quase todos os dias, para o 2º grupo. Se por um lado foi bom (cresceu o número de visitantes), por outro foi mau, porque estou mais interessado em informar e consciencializar os meus compatriotas do que os suecos, mesmo não tendo nada contra eles, antes pelo contrário. Dito isto, resta-me agradecer aos visitantes e os comentários elogiosos…
E voltando ao tema, Facebook, em tempos chamava aqui a atenção dos incautos para eventuais armadilhas em que poderiam cair os utilizadores do FB: Amigos virtuais, perigos reais(?)… e hoje trago o reverso da medalha, que pode servir para orientar quem, nestes tempos, procura emprego ou melhor emprego, usando esta ferramenta que pelos vistos tem (pelo menos) dois gumes…
Aproveitem!

Populistas são os “Emplastros” agarrados ao poder!

O grande vencedor das eleições italianas é frequentemente qualificado de populista. Mas, na Europa, essa categoria política um tanto vaga abrange perfis bastante diferentes, recorda o historiador belga Marnix Beyen.
A vitória esmagadora de Beppe Grillo em Itália reacendeu o debate sobre o conceito controverso de "populismo". No Morgen, o cronista Bert Wagendorp referiu que, "ao contrário de populistas como Bart De Wever [Bélgica], Geerts Wilders [Holanda] e Berlusconi", Grillo não é oriundo dos partidos políticos existentes. Por outras palavras: como verdadeiro outsider, Grillo não parece fazer parte da grande família populista. Ao dizer isto, Wagendorp esqueceu-se da importância da ideologia na definição do populismo. No entanto, segundo uma definição ideológica deste tipo, Grillo é quase o protótipo do populista: alguém que apresenta a classe política como sendo o inimigo do povo "verdadeiro".
Algumas formas de populismo são fascistas
Pela mesma razão ideológica, Grillo não pode ser simplesmente definido como populista. Com efeito, o populismo é um fenómeno particularmente polimorfo, que pode partir de interpretações muito diferentes do que é o "povo". Em teoria, é possível distinguir duas posições extremas. Por um lado, pode apresentar-se "o povo" como uma unidade metafísica e moral que continua a ser dotada das mesmas características ao longo dos séculos. Esse povo deve ser protegido contra os inimigos do estrangeiro e das influências estrangeiras e pode absolutamente ser incarnado por um líder carismático.
No outro extremo deste leque político, situa-se a abordagem segundo a qual o povo é apresentado como a soma de milhões de cidadãos livres, com aspirações e projetos próprios, que não devem ser travados por regras e leis supérfluas. O populismo integralmente associado à primeira interpretação étnica do conceito de "povo" pode ser designado como fascista. Se assentar na segunda abordagem, trata-se mais precisamente de populismo libertário.
A imagem ideal do povo finlandês
Praticamente todos os movimentos populistas atuais combinam aspetos das duas variantes, mas em doses muito diferentes. A partir do nome do seu partido, poderá deduzir-se que os Verdadeiros Finlandeses, de Timo Soini, se encontram mais profundamente próximos da primeira variante. De facto, este partido político assenta na imagem ideal do povo finlandês, que deve ser protegido de influências estrangeiras como o casamento de homossexuais, a língua sueca e a imigração norte-africana. A mobilização que este partido realiza em torno destes ideais e as medidas concretas que propõe são, no entanto, demasiado moderadas para lhe valerem o rótulo de "fascista".
Pela sua parte, Geert Wilders sublinhou muito mais claramente a faceta libertária do populismo no nome do seu partido, o Partido para a Liberdade. A atitude positiva desse partido em relação à homossexualidade como fazendo parte de uma herança esclarecida corresponde a isso. Contudo, o conceito de "a nossa Holanda" é de facto representado como uma unidade mística, que deve simultaneamente obstruir "a Bruxelas deles" e a "ascensão do Islão".
O partido húngaro Fidesz sofre igualmente de uma ambiguidade deste tipo. Apesar de, inicialmente, ser a abreviatura de Jovens Democratas Livres, agora o nome tem só a ver com o termo latino para fidelidade [fides]. Os ciganos húngaros, entre outros, vivem todos os dias a experiência do resultado dessa fidelidade aos "verdadeiros" valores húngaros.
A favor da “democracia eletrónica”
O Movimento 5 Estrelas de Grillo corresponde muito mais ao pool libertário do leque populista do que os movimentos anteriormente mencionados. É verdade que o seu blogue e os seus discursos estão cheios de referências à Itália eterna, que finalmente está prestes a ser ressuscitada, mas, ao mesmo tempo, Grillo mostra-se alérgico a excessos hipernacionalistas como os de Timo Soini e Viktor Orbán. É verdade que Grillo advoga a necessidade de travar a imigração, mas não baseia essa tomada de posição na fobia ao Islão nem no medo da perda dos valores italianos. A sua defesa da "democracia eletrónica" diz muito a seu respeito. [Considera que], em vez de irem atrás de líderes e de símbolos, os italianos devem fazer ouvir massivamente a sua voz através da Internet.
Esta classificação coloca também a seguinte questão: onde situar Bart De Wever neste leque? Claro que de Wever é o herdeiro de uma tradição que venerava a variante étnica do nacionalismo. Por enquanto, De Wever ainda não cola bandeirinhas com o leão flamengo nas placas [com os nomes] das ruas da sua própria cidade [Antuérpia], mas deixa claro que quer refundir a sua população para chegar a uma comunidade mais ou menos homogénea, com fronteiras externas sólidas.
Graças à história comunitária, De Wever não é obrigado a apresentar-se como populista. Pode definir-se como executante de um processo de formação de Estado inacabado, em vez de como porta-voz do povo contra uma classe política corrompida.
Itália - Rápidas melhoras para a Europa
“Contrariamente ao que muitos pensam, quem está doente na Europa é a própria Europa, não é a Itália”: assim começa um artigo de opinião de dois académicos no EUobserver. Apesar de o habitual estado de coisas neste país da Europa do Sul se caracterizar por um “sistema disfuncional, instituições ineficazes, corrupção generalizada e grande despreocupação com as leis”, o país conseguiu ser a 8.ª maior economia do mundo, refere Francesco Giumelli, professor auxiliar do Departamento de Relações Internacionais e Estudos Europeus da Universidade Metropolitan de Praga, e Ruth Hanau Santini, professora auxiliar de Ciência Política da Universidade Orientale de Nápoles, em Itália.
De facto, a Itália é uma fera que não se consegue compreender bem – quanto mais domesticar – [...] mas é uma âncora e não um icebergue no processo de integração europeia. A Itália vai ser capaz de lidar com as suas incertezas internas. Os europeus deveriam estar mais preocupados com a inexistência de progressos de uma […numa] união bancária [...e] um pacote europeu de austeridade a que não se conseguiu aliar as necessárias medidas de crescimento económico e social para relançar uma confiança renovada nas instituições europeias. Os maiores perigos para a UE residem aqui e não na política partidária italiana.

Contramaré… 5 mar.

O crescimento significativo dos lucros das cerca de 40 seguradoras, quando comparados com os resultados praticamente nulos de 2011, é justificado pelos resultados financeiros, que acompanharam a melhoria significativa dos mercados ao longo do ano passado, ao passo que os resultados técnicos se mantiveram estáveis.

segunda-feira, 4 de março de 2013

Aguentamo-nos no euro? O Sr. SINN diz que NÃO!

Para Hans-Werner Sinn, presidente do Instituto de Estudos Económicos (IFO), "não há soluções fáceis" e "menos austeridade agora pressupõe um futuro mais doloroso". Em entrevista ao El País, o conhecido e influente economista alemão confirma que há 3 soluções possíveis e que todas envolvem uma desvalorização interna de alguns países do Sul. 
Para o fim da crise, diz, "há 3 alternativas:
1 - Desvalorização interna do sul;
2 - Desvalorização interna do sul através de uma expansão do norte e
3 - Saída do euro de alguns países."
Mas como afirma "o mais provável é uma combinação dessas opções". "Espanha, Portugal e Grécia necessitam de uma desvalorização interna de 30%; França de 20%  e Itália, um corte de preços de 10%". Por outro lado, entende que "a Alemanha deve encarecer 20%"
O alemão lembra que "desde o início da crise houve certos ajustes, mas no geral escassos".
Quanto a saídas do euro, Hans-Werner Sinn é claro: a Espanha não deve sair, mas para a Grécia e Portugal a história é outra.  "A Grécia está desesperada não pode prosperar no euro. As actuais exigências europeias sacrificam uma geração a um desemprego massivo. Portugal está numa situação similar"
Werner Sinn já tinha afirmado, há cerca de um ano, que tanto Portugal como a Grécia deveriam tirar umas "férias do euro".
Dados do Ministério do Emprego e Segurança Social espanhol revelam que em fevereiro se juntaram às listas de desempregados 59.444, elevando para 5.040.222 o número total dos sem emprego, o valor mais alto desde que há registos equivalentes.
A secretária da Estado do Emprego espanhola afirmou, que perante a contração em 1,4% do PIB espanhol deve "conservar-se toda a prudência" relativamente aos números do desemprego para os próximos meses.
Este conhecido e influente economista, talvez por ser alemão e com o seu país ainda a beneficiar com a (nossa) crise e provavelmente assustado com a “rebaldaria” política na Itália, vem dizer, preto no branco (talvez por ser alemão) que o nosso futuro, como o dos gregos, é sermos arredados do euro e no artigo “férias do euro”, até diz que nos fazia bem… Já quanto à Espanha, augura-lhe a permanência e da Itália nem fala (talvez por ser alemão)…
Entretanto, enquanto sugere desvalorizações em vários países, considera que a (sua) Alemanha deve valorizar-se e não pouco… E até pode ter razão (apesar de ser alemão), mas os economistas que digam de sua justiça, tendo em conta esta provável desvalorização.
Curiosamente, em todas as situações, aconselha os PIIGS a aguentarem a austeridade para além dos limites (até à morte para muitos), partindo de um pressuposto, que não é económico e é muito discutível, de que menos austeridade agora pressupõe um futuro mais doloroso… Ainda mais doloroso? Só para os sulistas?
Já não vale a pena falar-se de solidariedade, muito menos de “igualdade” entre os países-membros da UE/Eurozona ou de mais Europa ou da Europa dos cidadãos, que são só tretas que a realidade já desmascarou há anos, em favor do nacionalismo reinante, mas sobretudo do germanismo imperial…
E porque ele o diz e há mais gente que pensa o mesmo, era bom que alguém, com seriedade intelectual e isenção, fizesse as contas certas, para sabermos, direitinho, se saíamos prejudicados ou beneficiados com a volta da nossa moeda.
Afinal de contas, vamos ser expulsos e vamos e melhor seria sairmos pelo nosso pé, já que o Sr. Sinn diz que não temos outro remédio senão aguentarmos a dor (com os remédios que nos receitam e nos impingem), é fácil concluir que nunca sairemos da cepa torta, nem a UE se endireita.
A prova de que o homem não mente (apesar de ser alemão), é toda a tragédia real que envolve a Grécia, Portugal, Espanha e Itália (para já e a Irlanda é coisa à parte), que começa nas taxas de desemprego, sempre a subir, nos cortes nos salários dos mais baixos da Europa, sempre a reduzir, no montante dos juros da dívida e da própria dívida, sempre a crescer, na destruição irreversível do tecido empresarial, sempre a ruir, etc…
O que faz impressão é cada povo de cada país intervencionado, acreditar que o que se passa nos primeiros países vítimas acreditarem que o mesmo mal não lhes vem pelo caminho. Se tivermos em conta o que se passou há um ano na Grécia, já sabemos o que se vai passar em Portugal este ano e daqui a um ano na Espanha… E andam os teóricos (de cada país) a discutir, com um ano de atraso, o destino já traçado e já cumprido nos países antes deles resgatados.
Mas mais alienatório é quererem convencer-nos de que vamos a algum lado com a ida aos mercados (para nos endividarmos mais), com mais tempo para pagar a dívida, com ou sem mais dinheiro, se tudo isso não servir para reduzir a austeridade, que dói.
Se esses “sucessos” não se refletirem no quotidiano das pessoas, bem podem lixar-se todos, porque nós estamos e continuaremos a ser todos lixados.
Sinn, Sinn!

Ecos da blogosfera – 4 mar.

O PAÍS que somos, visto por um cronista do El País…

Portugal voltou a sair à rua para rejeitar os cortes, a austeridade sem riscos e a política de ajuste que mês a mês, dia a dia, tem piorado a sua vida até torná-la irreconhecível. E fê-lo de forma maciça, pacífica e exultante, numa emocionante manifestação de centenas de milhares de pessoas que talvez constitua a maior marcha jamais celebrada em Lisboa, sob uma bandeira que dizia, simplesmente: “O povo é quem mais ordena”. E quando a manifestação chegou à belíssima praça do Terreiro do Paço, aberta para o estuário do Tejo, quase ao entardecer, todos, como uma só e impressionante voz, cantaram Grândola Vila Morena, o velho símbolo da Revolução dos Cravos, ressuscitada agora e reconvertida em hino moderno contra o Governo, contra os cortes, contra a troika e contra a vida precária e o futuro sem horizonte. Os mais jovens levavam a letra escrita em folhetos que se passaram de mão em mão. Os mais velhos sabiam-na de cor. Muitos empunhavam cravos vermelhos bem alto. Muitos outros choraram ao cantá-la.
Houve manifestações em cerca de 30 cidades. Os organizadores asseguraram que no Porto, por exemplo, tinham participado cerca de 400.000 pessoas. E muitas mais em Lisboa. Todas somadas, segundo os convocantes, mais de 1.550.000 pessoas. Mas, para lá dos números e os exageros, o certo é que Portugal voltou a sair à rua. Já o tinha feito no passado 15 de setembro e voltou a fazê-lo, convocados pela mesma associação civil, criada há meses, independente dos partidos políticos e dos sindicatos, o grupo Que se lixe a troika (Que le den a la troika), formado por 130 integrantes que compõem uma radiografia não de todo infiel da sociedade portuguesa, já que entre as suas fileiras se contam, entre outros, funcionários, professores, desempregados, autónomos, cantores ou atores.
Com o 15 de setembro, a massiva resposta dos portugueses conseguiu que o Governo do conservador Pedro Passos Coelho recuasse e se esquecesse de um projetado corte geral de salários. Depois, passado o calor popular, aprovou uma brutal subida de impostos, alegando que não tinha outro remédio se se queria conseguir o objetivo do défice e cumprir com os compromissos. Agora, os portugueses voltaram a dizer basta e a bola volta ao campo do Governo. A manifestação foi uma maré imensa, composta de reformados que se queixam do corte das suas pensões, de funcionários da saúde pública que protestam peço seu desmantelamento, estudantes que abominam ter que emigrar por falta de oportunidades e de gente que se sente cansada, farta e que vive muito pior do que há quase dois anos, quando o país foi resgatado pela troika.
Nem a data nem o lugar da manifestação foi casual. Há quase uma semana que, precisamente, os representantes da troika se encontram em Lisboa, e o seu quartel-general é o Ministério das Finanças português, situado a um passo do Terreiro do Paço. Desde que chegaram, como fizeram nas 6 vezes anteriores, inspecionaram contas públicas, entrevistaram quem as maneja (e com os líderes da oposição e os sindicatos). Rapidamente se encontraram prontos para dar as diretrizes necessárias para que o macro empréstimo pedido por Portugal em 2011 a fim de escapar à bancarrota continue a afluir segundo os prazos previstos.
Nem esta é uma visita normal da troika. Desde o princípio, esteve envolta em expectativa e polémica. Os media portugueses transmitem a ideia de que o Governo português trata já de mudar levemente de rumo e a abandonar alguma da austeridade a camartelo que, paulatinamente, leva o país a uma espiral recessiva (a economia vai contrair-se este ano em cerca de 2%, quase o dobro do previsto pelo Governo em setembro, e o desemprego já superou os 17%).
De facto, segunda-feira, o Governo português solicitará no Eurogrupo um ano mais para cumprir o défice acordado e mais tempo também para pagar os juros da dívida. Ou seja: Portugal pede ar, algo que até agora o seu primeiro-ministro, o conservador Pedro Passos Coelho, se tinha negado a admitir, convencido de que a única via era dar voltas cada vez más apertadas à economia e à população portuguesa. Por agora, esta mesma população portuguesa, farta, saiu à rua em massa para, firme e pacificamente, frente ao quartel-general da troika, gritar “basta” com uma canção com memória.
Abril está a chegar
Uma mulher trazia um cartaz original, feito por ela, na manifestação: “O 25 de abril que o meu pai fez, vou ter que voltar a fazê-lo eu”. A mulher se chama Isabel Mora, tem 46 anos e perdeu o seu pai há 5 meses. “Ele lutou muito pela liberdade de Portugal, e saiu para a rua no 25 de abril de 1974, aquando a Revolução dos Cravos. Por isso sinto que tinha que escrever isto, porque ele lutou por uns direitos que me estão a cortar e que tenho que legar à minha filha, que tem 16 anos e que é esta aqui”. A filha levava outro cartaz caseiro que dizia simplesmente: “Estou triste pelo meu país”. Ao lado, uma amiga levava outro que dizia: “Abril está a chegar”. A identificação desta onda de protestos com a revolução que trouxe a democracia a Portugal é enorme. De facto, muitos dos organizadores da manifestação, integrantes do grupo civil “Que se lixe a troika” participaram há duas semanas no coro que cantou Grândola Vila Morena no Parlamento, interrompendo o primeiro-ministro, que falava nesse momento de receitas económicas para sair da crise. Mas nem tudo foi tão indignadamente poético na marcha de hoje. Um homem de idade levava um cartaz com um tom zangado bem diferente: “Nesta bandeira não há espaço para por tantos filhos da puta”.

Contramaré… 4 mar.

Referendo nacional dá a vitória aos partidários das limitações, com 67,9% dos votos. É uma "vitória histórica da democracia", considera o proponente da iniciativa, Thomas Minder.
O Governo, que se declarou contra a iniciativa, deverá agora redigir um projecto de lei que respeite as disposições do texto referendado e depois levá-lo ao Parlamento para ser aprovado.

domingo, 3 de março de 2013

A história, os números, o eco, as causas e o busílis…

As manifestações contra as políticas de austeridade e a “troika” intensificaram-se em 2012, tendo ficado para a história o protesto de 15 de setembro, que juntou centenas de milhares de pessoas nas ruas de várias cidades.
22 de março – Greve geral convocada pela central sindical CGTP.
15 de setembro – A maior manifestação desde o 25 de abril de 1974, 1.000.000 de pessoas protestaram nas ruas de várias cidades do país, respondendo ao apelo do movimento "Que se lixe a Troika! Queremos as nossas vidas!".
21 de setembro – Milhares de pessoas protestaram à porta do Palácio de Belém, onde decorria o Conselho de Estado.
29 de setembro – A CGTP encheu o Terreiro do Paço, tornado “do povo”.
13 de outubro – Milhares ouviram durante horas cantores e músicos que atuaram voluntariamente numa “manifestação cultural” na Praça de Espanha.
15 de outubro – Milhares manifestaram-se em frente à Assembleia da República num protesto chamado “Cerco ao parlamento”.
31 de outubro – No dia em que foi aprovado o OE2013, os manifestantes estiveram horas cara a cara com os polícias colocados na escadaria da AR.
12 de novembro – A chanceler alemã, Angela Merkel, visita Lisboa, mas um fortíssimo dispositivo policial impediu dezenas de manifestantes de chegarem perto do CCB.
14 de novembro - Greve geral convocada pela CGTP, milhares marcham entre o Rossio e a Assembleia da República.
2 de março (2013) – Nova manifestação organizada pela Plataforma “Que se lixe a troika, o povo é quem mais ordena” redundou em Um mar de gente mandou lixar a Troika... e o governo
Para quem gosta de história e cronogramas…
Para quem gosta de números…
Mais de 40 cidades em Portugal e no estrangeiro aderiram hoje à manifestação convocada pelo movimento Que se Lixe a Troika, o Povo é quem mais Ordena.
Lisboa - Segundo a organização, terão estado 500.000 manifestantes.
Porto - De acordo com a organização, 400.000 pessoas ter-se-ão juntado ao protesto.
Beja - Algumas centenas de pessoas estão hoje à tarde concentradas no Largo do Museu.
Braga - Mais de 7.000 pessoas "trouxeram abril à rua", segundo os dados da organização.
Caldas da Rainha – 3.000 pessoas terão, segundo o movimento Que se Lixe.., estado presente na  manifestação.
Castelo Branco - Cerca de 1.000 pessoas, de acordo com a organização do protesto, aderiram à manifestação.
Coimbra - Segundo a organização cerca de 20.000 pessoas estiveram presentes na manifestação.
Covilhã - Várias centenas de pessoas também aderiram ao movimento.
Évora - Algumas centenas de pessoas estão concentradas na Praça do Giraldo.
Faro - Cerca de 1.000 pessoas estavam concentradas na Praça do Carmo.
Funchal - Cerca de 700 pessoas protestaram hoje na capital da ilha da Madeia.
Guarda - Cerca de 400 pessoas, segundo a organização, estiveram na manifestação.
Horta - Cerca de 160 pessoas manifestaram-se nas ruas da cidade da Horta.
Leiria – 3.000 pessoas, segundo a organização, protestaram.
Portalegre - Várias dezenas de pessoas estão concentradas na Praça da República.
Portimão - De acordo com a organização, a cidade algarvia concentrou cerca de 5.000 manifestantes.
Marinha Grande - 3.000 pessoas, segundo o movimento, estiveram no protesto.
Setúbal - Cerca 7.000 pessoas estiveram na manifestação.
Santarém - Cerca de 200 pessoas estiveram concentradas.
Viana do Castelo - Cerca de 1.000 manifestantes, de acordo com o movimento Que se Lixe..., estiveram na principal praça da cidade.
Vila Real - Cerca de 1.500 pessoas, segundo a organização, juntaram-se no protesto.
Viseu - Cerca de 600 pessoas saíram para um desfile pela cidade.
Paris - Cerca de 70 pessoas reuniu junto ao consulado português.
Londres - Cerca de 100 pessoas deixaram um pacote de "prendas" na embaixada de Portugal.
Para quem gosta de números contraditórios (sem compromissos)…
As manifestações do “Que se lixe a troika! Queremos as nossas vidas” merecem destaque na imprensa internacional.
El País - “Centenas de milhares de portugueses saem à rua contra os cortes. Uma massa humana percorre Lisboa, convocada pelo movimento ‘Que se lixe a Troika’”.
The Wall Street Journal - “Milhares de pessoas saíram hoje às ruas de cidades portuguesas, para pressionar o Governo a parar as medidas de austeridade que ajudaram a prolongar uma recessão que está já no seu 3.º ano, e a empurrar o desemprego para níveis quase recorde”.
Associated Press - “uma canção revolucionária portuguesa de há 40 anos está a perseguir o Governo do país resgatado”.
Washington Post - “cantando alto em eventos públicos para calar governantes, e usando o número de contribuinte do primeiro-ministro em faturas, para aumentar a sua declaração de impostos”.
Nouvel Observateur - “grandes manifestações contra a austeridade em Portugal”.
RTS - “grande matéria humana” nos protestos de hoje.
Al Jazeera - “Protestos massivos em Portugal contra medidas de austeridade”.
BBC News – “Enormes multidões reunidas na capital Lisboa para exigir a demissão do governo”.
EFE - “O maior protesto, na capital portuguesa, terminou com o hino da revolução de 1974, cantado por centenas de milhares de pessoas na Praça do Comércio em desafio ao governo, cuja demissão foi reivindicada repetidamente”.
Reuters - “Centenas de milhares de portugueses foram para as ruas de Lisboa e outras cidades no sábado para exigir o fim da austeridade, ditada pelo plano de financiamento internacional, e a demissão do governo de centro-direita”.
AFP - “Uma maré humana varreu este sábado Portugal, Lisboa, em particular, mediante a convocatória de um movimento apartidário de cidadãos que conseguiu uma mobilização excecional contra as medidas de austeridade exigidas pelos credores do país, no âmbito da assistência financeira”.
La Repubblica - “Portugal contra a austeridade: 'Devolvam as nossas vidas'''
Globo News - “Protesto contra medidas de austeridade enchem as ruas de Lisboa, em Portugal”
Público espanhol – “A 'maré cidadã' lusa ocupa as ruas contra as imposições da troika”. “Centenas de milhares de pessoas preencheram hoje o centro da capital no início das manifestações convocadas nas principais cidades lusas para protestar contra a política de austeridade do governo conservador e da troika”.
El Mundo – “Centenas de milhares de pessoas pedem a demissão do governo” é o título do artigo que abre a página eletrónica do El Mundo.
Spiegel online - "Centenas de milhares exigem a renúncia do governo e o fim da austeridade"
La Vanguardia - "Centenas de milhares de portugueses saíram à rua contra os cortes da troika", "Ao protesto, durante o qual se cantou o hino da revolução dos cravos, juntaram-se vários coletivos profissionais, como os da área da saúde e educação, os grandes sindicatos e os partidos da esquerda lusa".
Para quem gosta de ouvir o eco…
Em Portugal e em algumas cidades do estrangeiro, gritou-se “basta” de austeridade e pediu-se a “demissão” do Governo de Passos Coelho.
Para quem se preocupa com as causas e a substância…

Ecos da blogosfera – 3 mar.