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quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

O milagre da redução dos peixes e do aumento do pão

“A questão que se coloca é: pode a mesma austeridade responsável pelo aumento sem precedentes do desemprego em Portugal estar agora a contribuir para a sua redução? De que forma?” - Mariana Mortágua
A taxa de desemprego no Reino Unido desceu mais depressa que o esperado para 7,1% entre setembro e novembro, segundo dados divulgados. Nos 3 meses anteriores, a taxa de desemprego no Reino Unido foi de 7,4%.
A diminuição do número de desempregados no Reino Unido em finais de 2013 foi maior do que a prevista pelos analistas.
O número de desempregados na Alemanha caiu em 28.000 para um total de 2.930.000 em Janeiro, anunciou o instituto federal de estatísticas.
Trata-se de uma descida superior à redução de 5.000 desempregados esperada pelos economistas.
A redução no número de cidadãos sem postos de trabalho foi contudo insuficiente para mexer na taxa de desemprego, que continua nos 6,8%, um mínimo de 20 anos.
A taxa de desemprego nos EUA dos caiu 3 décimas em dezembro, para 6,7%, face ao mês anterior, situando-se no nível mais baixo desde outubro de 2008, indicou hoje o Departamento do Trabalho norte-americano.
A queda da taxa de desemprego em dezembro passado, mês em que se criaram 74.000 empregos no país, deveu-se, principalmente, ao aumento do número de pessoas que deixaram de procurar trabalho e, que, por consequência, desapareceram como força de trabalho, justifica aquele organismo num relatório.
A maioria dos analistas esperava que a taxa de desemprego se mantivesse em 7% e que a economia dos EUA criasse 193.000 postos de trabalho em dezembro passado.
A taxa de desemprego na Irlanda caiu pelo 7.º mês consecutivo em dezembro, a 12,4%, de 12,5% em novembro, segundo dados divulgados pelo Escritório Central de Estatísticas. No seu pior momento, o desemprego no país atingiu 15,1%, em fevereiro de 2012.
O Eurostat aponta para uma taxa de desemprego em Portugal de 15,5% em novembro, o que representa uma recuperação de 1,5% face a igual período de 2012. Esta foi a 4.ª maior queda do desemprego na União Europeia, a seguir à Irlanda, Letónia e Lituânia.
No polo oposto, as maiores subidas do desemprego foram registadas em Chipre, Itália, Grécia e Holanda. Espanha e Grécia continuam com uma taxa de desemprego na ordem dos 26% a 27%.
A média na zona euro situa-se nos 12,1% e na União Europeia nos 10,9%.
É curioso que quando as taxas de desemprego começaram a subir em espiral, todos os economistas e governantes disseram, com ênfase, que foram surpreendidos…
Agora que as mesmas taxas começam a descer(?) os economistas mantêm a surpresa, sem saber as justificações, enquanto os políticos procuram associar o “milagre” às medidas milagreiras que (não) tomaram, apesar de os remédios para combater a epidemia não terem sido implementados, nem pelo Estado, nem pelos Privados: instituições financeiras, empresas energéticas, nem…
A justificação mais plausível para este fenómeno paranormal, talvez esteja no relatório americano e na explicação mais exaustiva de que se apresenta o final e que diz mais respeito ao nosso país…
“A questão que se coloca é: pode a mesma austeridade responsável pelo aumento sem precedentes do desemprego em Portugal estar agora a contribuir para a sua redução? De que forma?” - Mariana Mortágua
Saldo das políticas da Troika e do governo. Estamos melhor?
No pior momento, desde a entrada em vigor do plano da troika, o INE registava menos 500.000 pessoas empregadas em Portugal. Nos primeiros trimestres de 2013 continuava a haver registo de destruição de emprego, mas apenas nos horários completos. Esta destruição foi compensada pela criação de trabalhos precários, com horários abaixo das 10 horas semanais.
Entretanto, dos que mantiveram o emprego, mais de metade recebia o salário mínimo ou sofreu cortes de 23% no salário.
Existem em Portugal 5.500.000 de pessoas capazes de trabalhar. 1.200.000 pessoas está desempregada ou emigrou. 914.700 trabalha menos de 10h por semana. 989.000 trabalha mais de 40 horas por semana. 1 em cada 2 trabalhadores em Portugal encontra-se numa das situações acima descritas.
O desemprego não é um mero efeito secundário das medidas de austeridade e desregulamentação do mercado de trabalho, mas sim o seu resultado direto. Muito longe de mero sadismo por parte do governo e instituições internacionais que desenham estes programas, o aumento do desemprego estrutural é o instrumento que permite todas as alterações ao mercado laboral em Portugal. A troika destrói postos de trabalho hoje para os recriar no futuro, em menor número, mais precários e mal pagos. 
O "milagre" no mercado de trabalho português não reflete a melhoria das condições económicas, apenas o aumento da exploração que só o empobrecimento generalizado permite impor.

Ecos da blogosfera - 30 jan.

“Por que é que os internautas são tão… básicos?”

Uma brincadeira com os resultados das pesquisas do Google mostra que o país está com uma imagem menos boa visto de fora. Se começar a escrever “Por que é que Portugal é tão” na caixa de pesquisa do Google, a sugestão para completar a frase baseada nas pesquisas feitas mais vezes pelos utilizadores parece ser… “pobre”.
Tudo começou quando Josh Greenman, um editor do New York Daily News, se lembrou de fazer um mapa dos Estados Unidos a partir da pesquisa “Por que é que o [Estado] é tão…”, deixando que o Google completasse a frase com as sugestões mais procuradas, o famoso “autocomplete”, sobre cada estado.
Os resultados refletem os estereótipos de cada lugar: Nova Iorque é “caro”, Texas é “grande”, Flórida e Arizona são “quentes” e metade dos estados do Norte são “frios”. Há também considerações morais: Illinois é “corrupto”, Tennessee e Louisiana são “racistas” e Geórgia é “retrógrado”. Por fim, algo que reflete a natureza inócua destas pesquisas: de Nebraska e Delaware, os utilizadores perguntam-se apenas porque é que são estados tão “chatos”.
“Autocomplete” da Europa
Esse mapa dos EUA foi publicado no site da revista Business Insider durante o fim-de-semana. Partindo da mesma ideia, Randal Olson, um investigador da Universidade de Michigan na área da Informática, aplicou o mesmo critério de pesquisas ao mapa da Europa – que também foi publicado no site do BI.
Os resultados vêm salpicados por clichés: Portugal (assim como quase todos os países da Europa de Leste) é “pobre”, Espanha é “vazia” e França é… “gay”.
Quem procura respostas no Google parece também não perceber por que é que Alemanha, Inglaterra, Áustria, Noruega e Suíça são tão “ricos”, ou por que é que a Grécia é tão “importante”. Mais uma vez, uma onda de pesquisas parvas: a Irlanda é “verde”, a Bélgica é “chata”, a Rússia é “grande”, a Finlândia é “inteligente” e a Dinamarca e a Suécia são, simplesmente, “felizes”.
Por fim, as considerações mais negativas: a Itália é considerada “racista”, a Polónia é “fraca” e a Lituânia é “suicida”.
Mudanças e enviesamentos
Se fizer a pesquisa neste momento, no entanto, alguns resultados podem aparecer um pouco diferentes do que no mapa de Randal Olson.
Portugal, por exemplo, tanto na pesquisa em português como em inglês, aparece agora como “pequeno”, “quente” e “popular” – mas a fama de “pobre” vai perdurar enquanto o mapa correr a Internet.
Em relação aos sinais que este tipo de mapas nos dão – e a importância que lhes damos –, é preciso também parar para perguntar: será que somos nós que passamos uma imagem negativa para o mundo ou, simplesmente, devemo-nos perguntar “Por que é que a Internet é tão… básica?”

Contramaré… 30 jan.

Durante a campanha eleitoral, a CDU de Angela Merkel, denunciava os perigos para a Alemanha, um país muito envelhecido, se a idade de reforma fosse reduzida para os 63 anos, como os sociais-democratas do SPD queriam. E o SPD, por seu lado, fazia campanha contra o aumento da reforma para as mães que tivessem tido filhos antes de 1992 – um projecto caro à CDU. Por milagre da coligação de governo que junta os 2 partidos, ambas as medidas fazem parte do programa apresentado no Parlamento pela chanceler.
Outra novidade é a criação de um salário mínimo de 8,5 euros (brutos) à hora. “Porque ninguém com coração pode rejeitar a ideia de um salário mínimo”, afirmou Merkel, ainda que ela própria só a contragosto tenha aceitado a ideia.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Os “deuses” estão endoidados e cleptomaníacos…

"Quanto aos pensionistas, atenção, há aí uma injustiça de bradar aos céus. Porque os pensionistas que estão no regime contributivo, isto é, que passaram a sua vida ativa a contribuir, têm um verdadeiro direito sobre a República, são titulares de uma espécie de divida pública da República", disse Miguel Cadilhe.
O antigo ministro das Finanças do atual presidente da República, Aníbal Cavaco Silva (PSD), questionou como pode o Estado cumprir "toda a dívida pública perante os credores externos e internos, mas perante os pensionistas não cumprir essa outra espécie de dívida pública que advém de eles terem contribuído toda a vida". "Contribuíram não para pagar despesas públicas, mas para assegurar a sua previdência", disse, elogiando o fator de sustentabilidade introduzido pelo antigo ministro do PS Vieira da Silva. O facto de o Estado português ter optado por um regime de "receita-despesa, isto é, as contribuições que entram serem para pagar as pensões correntes", não o dispensa de cumprir "essa espécie de dívida pública que tem perante os pensionistas".
O antigo ministro das Finanças defendeu a introdução do princípio de utilizador-pagador na saúde, na educação e nos transportes para começar a resolver os desequilíbrios no sistema. Miguel Cadilhe criticou ainda o guião elaborado por Paulo Portas sobre a Reforma do Estado como "uma pobreza de política".
"O Estado Social é para quem precisa, para os mais desfavorecidos. Um sistema em que todos têm acesso [ao serviço] praticamente ao mesmo preço é uma falsa equidade", defendeu esta Miguel Cadilhe, para quem "a equidade não é virtude de graça" e acrescentou que a progressividade do IRS faz parte da política redistributiva, mas a sua receita "não é para abrir portas [dos serviços públicos] a quem tiver um elevado rendimento, que deverá pagar a prestação".
"Tal é válido para um hospital, uma escola e uma universidade. Por não haver o princípio do utilizador-pagador geraram-se desequilíbrios. É pena que não estejam a ser introduzidas alterações estruturais no Estado Social, como o princípio do utilizador-pagador", referiu o economista.
Numa viagem às origens dos desequilíbrios da economia portuguesa, Miguel Cadilhe lamentou que não tivesse havido no passado "concertação e inteligência que puxasse os salários reais para o nível de produtividade". "Evoluímos com alguma exuberância os custos unitários do trabalho e uma economia não permite distribuições do rendimento em favor do trabalho durante muitos anos, pois cria desequilíbrios macroeconómicos que nos obrigam depois a regredir", sintetizou.
Guião sobre a Reforma do Estado é "uma pobreza política”
O ex-ministro das Finanças classificou o guião elaborado por Paulo Portas sobre a Reforma do Estado como "uma pobreza de política", falhando o planeamento da redução estrutural, "irrevogável", dos gastos estatais.
Miguel Cadilhe referiu ainda que Portugal tem actualmente "talvez o Estado mais centralista da União Europeia" e que "continua numa passada segura e clara para mais centralismo". Defensor da regionalização, "com eleições para legitimar o líder de cada região", o economista valorizou ainda que esse poder político regional "deverá servir como contrapeso à administração central e às administrações das regiões autónomas".
Quanto à questão dos roubos aos reformados, até eu (muita mais gente e o Tribunal Constitucional da Alemanha) já defendi que as pensões são propriedade privada, por terem sido uma contribuição durante o tempo no ativo, para assegurar a sua previdência (como um PPR) e não para pagar despesas públicas ou de terceiros (o que vai dar no mesmo)…
E por isso, o que se pretende fazer, não é uma injustiça de bradar aos céus (isso é para os crentes), mas uma injustiça que o Tribunal Constitucional tem que condenar.
Já quanto ao conceito explanado sobre o Estado “Social”, que é uma questão política, não concordo em absoluto, simplesmente porque não entendo o que é um Estado Social, quando só há Estados de Direito e Ditaduras e um Estado (de Direito) não serve senão para cumprir os direitos dos seus concidadãos de acordo com as leis vigentes, com as receitas conseguidas dos contribuintes e com a progressividade do IRS, que faz parte da política redistributiva, não pode excluir os que mais pagam, obrigando-os a pagar 2 vezes para os mesmos serviços e direitos…
Este estafado “paradigma” do utilizador-pagador, peca por obrigar a pagar o que foi feito com os impostos dos utilizadores e tem mais lógica inverter a ordem dos fatores, para se chegar a um paradigma mais racional e mais equitativo, ou seja, o pagador-utilizador, pela mesma razão de não obrigar a 2.º pagamento quem pagou mais com a progressividade do IRS e quem pagou mais, pagou para os que tem menos, pagaram menos ou nada…
Este “paradigma” até parece condenar quem mais sustenta o país, condenando a riqueza e ainda por cima costuma ser defendido por quem com mais tem, tentando sacar a quem menos tem o pagamento de um serviço ao preço dos que mais tem…
Paradoxos, que os novos “paradigmas” injustificáveis trazem ao de cima, quando se quer fazer de conta que serão os mais favorecidos os penalizados, mas na realidade é exatamente o contrário… E enquanto nas portagens a “coisa” passa despercebida, porque só quem lá passa é que paga, quando se extrapola para a área da Saúde e da Educação, a que todos os portugueses têm direito, estamos a tentar “reformar” o Estado (Social), com processos não democráticos e passando por cima dos “preliminares”…
Uma “reforma” precoce!

Ecos da blogosfera - 29 jan.

É preciso que o Estado e “outros” façam a sua parte…

O bispo de Bragança-Miranda, D. José Cordeiro, criticou a estratégia adotada pelo Estado para combater a crise económica, salientando que “aquilo que é essencial na construção da sociedade não pode ser cortado para fazer face a um défice”.
“É preciso pagar - é evidente - aquilo que nos compete pagar, mas é preciso não beliscar a dignidade da pessoa humana e o bem comum”, salientou D. José Cordeiro, que salientou que “já são muitos os sacrifícios” e os “cortes” impostos aos portugueses, alguns deles incompreensíveis.
Deu como exemplo as restrições ao financiamento da área de investigação, apontando “que às vezes dá a impressão que há cortes cegos”. “As universidades não podem ser só para o ensino, têm que ser também para o campo da investigação porque senão estamos a decapitar o melhor que temos em Portugal e depois lamentamo-nos e a fatura vem aí logo de seguida”, sustentou.
No distrito de Bragança, as instituições sociais ligadas à Igreja Católica não têm tido mãos a medir na ajuda às populações mais carenciadas - Segundo D. José Cordeiro, “só a Cáritas Diocesana, em 2013, apoiou mais de 11.000 pessoas”. “Enquanto for possível”, estes mecanismos solidários vão aguentar, “mas é preciso que o Estado, é preciso que outras instituições façam a sua parte”, alertou o prelado.
Para o bispo de Bragança-Miranda, apesar de os últimos indicadores parecerem positivos, eles não podem criar “ilusão nas pessoas”, é preciso garantir também “alguma sobriedade, prudência e inteligência na gestão económica das famílias, das pessoas e do bem comum em geral”. “Oxalá que a crise tenha servido de lição, a própria etimologia quer dizer um tempo de purificação, de decisão, que da crise todos possam tirar novas oportunidades para que a vida tenha um sentido e as pessoas vivam com esperança”, concluiu.
Oxalá que a crise tenha servido de lição, não apenas para que os cidadãos mudem de rumo as suas vidas, mas também para que saibam e exijam os direitos que tem perante o Estado e sobretudo que o Estado assuma as suas inalienáveis responsabilidades e os executivos governem para o bem-estar dos cidadãos que os elegeram para tal…

Contramaré… 29 jan.

Segundo o banco liderado por Jens Weidmann, o recurso a dinheiro privado do país em dificuldades poderia tornar-se uma via mais barata e menos dolorosa para reduzir a dívida pública do que as opções que têm vindo a ser seguidas até aqui, como o aumento de impostos sobre o consumo e os sucessivos planos de austeridade.
Este relatório junta-se às conclusões de um estudo divulgado em Abril pelo BCE, que demonstrava que a riqueza de algumas famílias em países problemáticos no sul da Europa - como Grécia ou Chipre - era superior à da Alemanha.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Foi ontem, é como se fosse hoje, e pode ser amanhã...

Parafraseando Imre Kertész, “o verdadeiro problema de Auschwitz é a sua própria existência e, mesmo com a melhor vontade do mundo, ou com a pior, nada podemos fazer para mudar isso”.
Esther Mucznik
A 27 de Janeiro, comemora-se o Dia Internacional de Memória das Vítimas do Holocausto, instituído pelas Nações Unidas em 2005. A escolha do dia não surge por acaso: foi precisamente na tarde de 27 de Janeiro de 1945 que o Exército Soviético vitorioso chega a Auschwitz-Birkenau, o maior e o mais mortífero centro de extermínio do III Reich.
Auschwitz foi o primeiro campo de concentração a ser libertado pelos Aliados e o único onde a máquina de morte funcionou a todo o vapor até ao final de 1944. É sobretudo entre Maio de Outubro desse ano, que Auschwitz-Birkenau toma as proporções que o tornam no símbolo de destruição humana, com o gaseamento logo à chegada ao campo de meio milhão de judeus húngaros, homens, mulheres e crianças.
A 7 de Outubro tem lugar a revolta do sonderkommando – o comando especial encarregado da incineração nos fornos crematórios dos corpos gaseados. Conseguem fazer explodir um dos crematórios, matar alguns SS e ferir outros tantos. Em contrapartida serão mortos cerca de 450 prisioneiros, entre os quais, as quatro mulheres graças a quem os explosivos chegaram às mãos dos revoltosos. Apesar de apenas ter conseguido interromper o processo de destruição humana durante 24h, esta foi a única revolta armada nos 5 anos de existência do campo de Auschwitz.
Em Novembro do mesmo ano de 1944, Himmler considera que a “questão judaica” está resolvida e dá ordem de destruição das instalações de extermínio. Os bombardeamentos aliados sucedem-se, o Exército Vermelho está às portas. A 17 de Janeiro, tem lugar a última chamada de prisioneiros. É também nesse dia que é decidida a evacuação dos detidos. Serão 58.000 a fazer 50 km a pé para ocidente no que ficou conhecido como as Marchas da Morte pelo facto de as estradas ficarem cobertas de cadáveres, homens e mulheres vencidos pela exaustão ou abatidos a tiro. O objectivo era encaminhar os prisioneiros para os campos na Alemanha e assassiná-los como derradeiras testemunhas do mais hediondo dos crimes. Em Auschwitz, ficam apenas os doentes ou incapazes de andar e os que se escondem na expectativa da chegada dos soviéticos.
A 20 de Janeiro chega a ordem de liquidação dos últimos prisioneiros do campo – mais 200 mulheres judias são assim assassinadas. Entretanto, as SS preparam-se para partir, mas antes queimam ficheiros e destroem os barracões que albergavam anteriormente 2 dos crematórios; Mengele “o anjo da morte” recupera as notas sobre as suas experiências “científicas” com gémeos ciganos e judeus, a empresa alemã IG Farben a quem pertence o campo de trabalho escravo de Monovitz, dependente de Auschwitz, destrói os seus dossiers. A 23 de Janeiro os alemães incendeiam 29 dos 35 armazéns – denominados na gíria do campo, de “Canadá” por comparação com o paraíso…, repletos de roupa e bens roubados às vítimas. E finalmente à 1h da manhã do dia 27, antes da fuga definitiva, os guardas SS fazem explodir o único crematório mantido até ao fim para apagar os vestígios dos derradeiros cadáveres.
À chegada ao campo, nessa mesma tarde, os soviéticos são recebidos por cerca de 7.000 prisioneiros ainda com vida, deixados para trás pelos alemães em fuga, e por centenas de cadáveres que jazem no chão. Conta o ex-prisioneiro Primo Levi, que os soldados soviéticos “não saudavam, não sorriam; pareciam oprimidos, não só pela piedade, mas por uma certa confusa discrição, que lhes selava a boca e prendia os olhos ao cenário fúnebre. Era a mesma vergonha bem nossa conhecida (…) a vergonha que os alemães não conheceram, a que o justo sente perante o pecado cometido por outrem…”
Nos 6 armazéns de roupa e bens que os alemães não tiveram tempo de destruir, os soldados soviéticos deparam-se com perto de 2.000.000 de peças de vestuário e sapatos de homem, mulher e criança e, na fábrica de curtumes, com 7 toneladas de cabelos de mulher - testemunhos mudos, mas eloquentes de um crime sem nome, organizado pelo Estado nazi e levado a cabo com a cumplicidade ou indiferença de toda uma nação.
Uma das raríssimas vozes de protesto público veio de um padre católico, Bernhard Lichtenberg, que em serviços abertos ao público orava pelas vítimas judias na Catedral Santa-Hedwige de Berlim. Por defender que a posição do Estado nacional-socialista sobre a questão judaica era contrária ao mandamento cristão de amar o seu próximo, foi condenado e deportado para o campo de concentração de Dachau. Debilitado por anos de perseguição e combate solitário, acabou por morrer antes mesmo do seu transporte.
Em Auschwitz-Birkenau foram assassinados 1.100.000 de judeus, 70.000 a 75.000 polacos, 15.000 prisioneiros de guerra soviéticos, 21.000 ciganos e cerca de 10.000 prisioneiros de origem diversa. Mas estes números, relativos apenas ao complexo de Auschwitz-Birkenau, estão longe de contar o imenso sofrimento de seres humanos a quem, antes da morte com o gás, a tiro ou na mesa de operações, despojaram de tudo aquilo que fazia a sua humanidade: família, pátria, língua, nome, integridade física e psicológica…
Para quê lembrar tudo isto, para quê um Dia de Memória? Será que somos capazes de tirar algum ensinamento de tudo isto? Sinceramente, não sei. Mas sei que embora a memória seja falível, o conhecimento é indispensável. Não para termos “pena” das vítimas, mas para entendermos os sinais da tragédia nas nossas sociedades actuais. Por isso, são de saudar as inúmeras iniciativas de escolas, da Assembleia da República, o flashmob de homossexuais em Lisboa, lembrando o sofrimento específico deste grupo durante o Holocausto, e tantas outras. De uma forma ou de outra, estas “co-memorações” despertam para a necessidade de saber e de conhecer. Parafraseando Imre Kertész no seu discurso de atribuição do prémio Nobel em 2002: “O problema de Auschwitz não é o de saber se devemos manter a sua memória ou metê-la numa gaveta da História. O verdadeiro problema de Auschwitz é a sua própria existência e, mesmo com a melhor vontade do mundo, ou com a pior, nada podemos fazer para mudar isso”.

Ecos da blogosfera - 28 jan.