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quinta-feira, 25 de julho de 2013

Ecos da blogosfera – 25 jul.

Reflexões sobre a conjuntura para (um)a libertação…

O Papa Francisco vai inaugurar uma nova era para a Igreja Católica durante a Jornada Mundial da Juventude, no Rio de Janeiro. Essa é a convicção do teólogo Leonardo Boff, que em 1992 deixou todos os cargos na igreja, após ser censurado pelo Vaticano.
Em entrevista ao DW Brasil na sua casa em Petrópolis, o teólogo elogiou Francisco, afirmando que ele é o Papa da rutura. "Essa é a palavra que Bento XVI e João Paulo II mais temiam. Eles acreditavam que a igreja tinha que ter continuidade", avaliou Boff.
O teólogo, um dos expoentes da Teologia da Libertação, disse acreditar que Francisco vai falar sobre os recentes protestos no Brasil. "Ele fez uma declaração corajosa em Roma, dizendo que os políticos têm que escutar os jovens na rua; que a causa dos jovens é legítima, justa e que estaria em conformidade com o evangelho."
DW Brasil: No Rio de Janeiro, mais de um milhão de fiéis católicos vão reunir-se e celebrar a fé durante a Jornada Mundial da Juventude. No século XXI, o cristianismo ainda precisa da figura de um Papa?
Leonardo Boff: Fundamentalmente não precisaria de um Papa. A igreja poderia organizar-se numa vasta rede de comunidades. Mas, à medida que a igreja se foi transformando numa instituição e assumindo uma função política no Império Romano, assumiu também os símbolos do poder: o próprio nome "Papa", que era exclusivo dos imperadores, e aquela capinha cheia de ouro, que só os imperadores podiam usar, mas que os Papas todos usavam. Então, esse curso de uma igreja que tem uma função política dentro do Império Romano em decadência obrigava a igreja a ter um centro de referência. Francisco, quando lhe ofereceram aquela capinha, disse "O carnaval acabou, não quero isso".
Então, este Papa chegou para mudar?
Eu acho que esse é o Papa da rutura. Essa é a palavra que Bento XVI e João Paulo II mais temiam. Eles acreditavam que a igreja tinha que ter continuidade, portanto o Concílio Vaticano II não poderia significar rutura com o Concílio Vaticano I. Mas não, agora há uma rutura, a figura do Papa não é mais a clássica, é outra. Francisco não começou com a reforma da cúria, começou com a reforma do Papado.
O que quer dizer com "reforma do Papado"?
Na Europa vivem só 24% dos católicos. Na América Latina são 62%, e o restante está na África e na Ásia. Hoje, o cristianismo é uma religião do Terceiro Mundo, que um dia teve origem no Primeiro Mundo. Acho que o Papa Francisco vai criar uma dinastia de Papas do Terceiro Mundo. Além disso, as nossas igrejas já não são mais igrejas de espelho, imitando as europeias; são igrejas fonte, criaram as suas tradições, têm os seus mártires, os seus mestres, as suas formas de celebrar, têm as suas teologias e profetas e figuras importantes, como D. Hélder Câmara e D. Óscar Romero. Estas igrejas estão a dar vitalidade ao cristianismo.
Por que está tão otimista? Os problemas da Igreja Católica continuam: a exclusão dos divorciados, a discriminação dos homossexuais, a proibição de mulheres-sacerdotes...
O Papa deu um exemplo claro. Soube que um pároco em Roma negou o batismo ao filho de uma mulher solteira. E o Papa disse: "Esse padre está errado, porque não existe mãe solteira. Existe mãe e filho. E ela tem o direito de ver o filho batizado, porque a igreja tem que ter as portas abertas, pouco importa a condição moral da pessoa". E foi mais fundo ao dizer que não se pode inventar um 8.º sacramento, proibindo os fiéis que não se enquadrem na disciplina eclesiástica de participar da vida da igreja e dos sacramentos. Até agora, os temas da moral sexual, da moral familiar, do celibato e da homossexualidade eram proibidos de serem discutidos. Se um teólogo ou um padre discutisse esse assunto, era logo censurado. Agora, ele vai permitir a discussão.
No Brasil, nas últimas semanas, milhares de jovens foram às ruas protestar contra os políticos corruptos e os altos investimentos nos estádios de futebol. Qual é o recado que o Papa vai dar aos jovens?
Ele fez uma declaração corajosa em Roma, dizendo que os políticos têm que ouvir os jovens na rua; que a causa dos jovens é legítima, justa e que estaria em conformidade com o evangelho. Eu acho que ele vai fazer uma convocação crítica aos políticos, para que não sejam mais corruptos e passem a servir mais o povo. E vai fazer um desafio aos jovens de continuar a transformação da sociedade, mas sem violência. E aí exclui todos esses vândalos que nos últimos dias mostraram uma violência absolutamente injustificável e estúpida.
Disse que os programas sociais no Brasil "incluíram uma Argentina inteira na sociedade brasileira". Por que então as pessoas protestam contra o governo brasileiro?
Curiosamente, elas não são contra o PT, a Dilma ou o Lula. Mostram uma insatisfação geral com o Brasil que temos, que é um país com profundas desigualdades. São 5.000 famílias brasileiras que controlam 43% de toda a riqueza nacional. Além disso, o próprio PT atingiu o seu teto. Ou ele muda e refaz a sua relação orgânica com os movimentos sociais, ou se transforma num partido como os demais, que buscam o poder e acabam corrompendo-se.
A classe média brasileira parece não estar a gostar tanto dos programas de inclusão social do governo brasileiro. Ela foi deixada de lado?
Com Lula, os ricos ficaram mais ricos, e os pobres saíram da pobreza. Toda a gente ganhou. Eu creio que o governo do PT não fez só uma distribuição de rendimento, favorecendo os pobres, mas também fez uma redistribuição. Tirando de quem tem e passando para quem não tem. Só que não aplicou isso às grandes fortunas. Tirou da classe média, que ficou mais pobre.
Acredita que os políticos vão atender ao recado do Papa na Jornada Mundial da Juventude?
Eu acho que ele vai ser muito importante para a América Latina, porque o seu modo de ser vai reforçar as novas democracias, que nasceram na resistência aos militares e estão a fazer boas políticas sociais para os pobres, com inclusão. Então, ele tem uma função política importante. A Cristina Kirchner, que vivia em polémica com ele, entendeu a lição e fez as pazes. Mas por quê? Porque o Papa move multidões. Talvez ninguém no mundo hoje possa reunir um milhão de pessoas. Político nenhum, nem mesmo o Obama.
Mas a Igreja Católica perdeu poder e influência?
Institucionalmente, a Igreja no Brasil está numa profunda crise. Pelo número de católicos, deveríamos ter 100.000 padres. Temos 17.000. Criou-se um vazio, pelo qual entraram as igrejas pentecostais. E com razão. Como o povo é religioso, quem vem falar de Deus, o povo adere, porque indo para Deus, podemos somar sempre. Para batismo, casamento e enterro, é a Igreja Católica. Para saber o outro lado do mundo, o povo vai para o espiritismo. Para as questões de sorte e amor, o povo vai a um centro de macumba. O povo não tem uma visão doutrinária, tem uma visão prática. É um supermercado religioso, com muitos produtos, e o povo vai-se servindo.
Com Francisco, a Teologia da Libertação vai voltar?
Com este Papa, ela vai ganhar visibilidade. Antes dizia-se que a Teologia da Libertação era uma teologia marxista. Agora diz-se que é uma teologia católica. Isso muda a atmosfera da igreja.

Contramaré… 25 jul.

O presidente de Portugal aprovou a promoção do líder da coligação minoritária Paulo Portas para o cargo de vice-primeiro-ministro e uma reforma mais ampla do gabinete, como tinha sido proposto pelo primeiro-ministro Pedro Passos Coelho para garantir a unidade da coligação governamental após uma rotura interna.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

O “Estado de graça” de um Governo “reformado”!

Flahsback: editorial da noite de Junho de 2011 em que foi anunciado o Governo que hoje foi oficialmente remodelado. Não se trata de ver se falhei ou acertei, mas do que eram as expectativas e do que foram os resultados. Ministro a ministro.
Pedro Santos Guerreiro
A primeira impressão faz um pouco de impressão. A impressão de que não é um Governo forte. Não forte o suficiente para as rabanadas de vento que o aguardam. Mas Portugal não tem uma segunda oportunidade: este Governo vai ter de ser melhor do que parece.
Portugal está num estado crítico tal que precisa de união e de coesão. E é por isso que o Governo tem de ter o benefício da dúvida, de ter o tempo e o espaço suficiente para mostrar o que vale. Vai tê-lo. Mas isso não esconde essa tal primeira impressão. A de que faltam figuras de Estado. A de falta de experiência. A de falta de um Catroga. Mas também as virtudes: a juventude. A capacidade técnica de muitos dos seus ministros. A da vontade de mudança que eles representam.
Dois exemplos: Assunção Cristas e Álvaro Santos Pereira. Os leitores do Negócios conhecem-nos bem, ambos deram entrevistas de fundo este ano neste jornal e foram enquadrados como esperanças políticas para o nosso País. Ei-las confirmadas. Mas a nova ministra da Agricultura nunca plantou uma batata na terra. E o novo ministro da Economia nunca geriu uma empresa na vida. Quer dizer que são erros de “casting”? Não. Quer dizer que arrancam sem terem a “autoridade natural” do seu lado. E só se tiverem consciência disso poderão impor-se, serem respeitados e fazerem parte da solução que Portugal encomendou a este Governo.
O contra-exemplo: Paulo Macedo. É economista, gestor, administrador de banco, foi director-geral dos Impostos. O novo ministro da Saúde nunca deu uma injecção a um doente e roga-se que nunca o faça, mas não haverá neste momento médico nem director hospitalar em Portugal que não esteja com medo da sua tesoura e bisturi. Porque Paulo Macedo tem do seu lado a autoridade da experiência passada e do seu sucesso reconhecido e aplaudido nas Finanças. Aqui não há qualquer equívoco: vem para cortar nas despesas da Saúde, onde se suspeita de haver uma espécie de “Face Oculta” nas compras de material, e onde há lóbis poderosos numa actividade que também é um negócio e que tem sido pior negócio do que muitos pensavam (basta ver o prejuízo da Caixa Geral de Depósitos nos seus hospitais). Macedo é uma escolha polémica e vai ser contestada mas é uma boa escolha precisamente por isso: o Serviço Nacional de Saúde português é um sucesso, mas é demasiado dispendioso. Paulo Macedo não vai tratar da Saúde, vai racionalizar o Serviço – vai mantê-lo Nacional (isto é, público)?
Outro exemplo: Nuno Crato. Como Paulo Macedo, é uma excelente escolha, mas tem de provar que sabe sair da academia para a política. É um “liberal” na educação, no sentido em que “liberal” significa premiar o mérito e acabar com o “eduquês”, que ele assumidamente abomina (e abomina bem). Aqui também não há dúvidas. Com Nuno Crato, quem chumbar chumba, quem estudar passa, os exames serão difíceis e as estatísticas serão portanto piores – mas os resultados serão talvez melhores. Haverá maior separação entre os bons e os maus alunos, espera-se que também entre os bons e os maus professores. Porque o nivelamento educacional valoriza a mediocridade, desincentiva o brilhantismo e nivela por baixo. Crato só não provou uma coisa: que tem cabedal que chegue para a pressão política brutal que, se fizer o que se espera, terá. Homem pacato, cordato, cordial, vai ter de ser um leão para aguentar.
Bom, demos agora um passo atrás. Politicamente, o Governo está assente num tripé: além de Passos Coelho, Paulo Portas e Miguel Relvas. Eles serão os chefes. Os chefes de uma equipa irrequieta e que promete reuniões de Conselho de Ministros muito agitadas. Várias das promessas políticas dos últimos anos estão lá (Mota Soares, Assunção Cristas). Vários críticos de políticas anteriores estão lá (Álvaro Santos Pereira, Nuno Crato).
Paulo Portas ocupa uma pasta essencial neste momento de intervenção e negociação externa permanente. Ele será uma espécie de primeiro-ministro fora de Portugal, como Luís Amado discretamente o foi durante os últimos muitos meses. Ele estará mais tempo a defender os interesses de Portugal em Bruxelas (e em Berlim e em Frankfurt) do que no Palácio das Necessidades.
Miguel Relvas será o biombo político de Passos Coelho dentro do País. Será o seu braço direito de ataque e o seu braço esquerdo de defesa, para um período que se adivinha de consensos difíceis e poucos duradouros. Porque como houve PEC do 1 até ao 4, também haverá uma espécie de vários MEO (memorandos de entendimento com a troika), que se adaptem às mudanças internas e externas do imprevisível situação económica e política. E isso significa acordos políticos permanentes - como na Grécia. Com provas dadas, Aguiar-Branco e Miguel Macedo farão parte dessa muralha política.
Pedro Mota Soares e Assunção Cristas foram dos melhores deputados da melhor bancada parlamentar da última semi-legislatura, a do CDS-PP. Pedro Mota Soares deixará agora a sua “scooter” para assumir uma área difícil, a da Segurança Social, numa fase de crescimento do desemprego e de corte de prestações sociais. Vai ter um orçamento muito difícil de gerir e tem do outro lado parceiros sociais que entrarão com vontade de lhe comer as papas na cabeça. Vai ter de mostrar que além de capacidade de trabalho, tem estofo político para não ser o peixinho no meio dos tubarões sindicais, em mares agitados de contestação social forte, esfomeada - e de esfomeados.
Paula Teixeira da Cruz é o oposto de Pedro Mota Soares. Com ela ninguém faz farinha, mas isso não evita as mós do outro lado. A Justiça é o Rubicão deste Estado, é lá que estão alojados os maiores lóbis (incluindo o dos políticos) e Paula Teixeira da Cruz não tem do seu lado uma ferramenta essencial: a troika. O memorando da troika é fraco no que toca à Justiça, o que torna tudo demasiado vago. E Teixeira da Cruz será acusada de representar 1 das 5 profissões jurídicas (a dos advogados, a que pertence) e de preferir outra (a dos magistrados do Ministério Público e do seu sindicato, dada a sua proximidade política a António Cluny). Teixeira da Cruz sabe o que é preciso. Terá o que é preciso?
Regressemos à área económica. Álvaro Santos Pereira é um macroeconomista, não conhece os gestores portugueses nem as nossas empresas. Por isso, hoje, os gestores das grandes empresas estão horripilados com esta escolha. Essa pode ser a vantagem deste viseense: a de partir sem compromissos nem conflitos. Mas é ele que terá pela frente o desafio mais radicalmente difícil: pôr a economia a crescer. Enfrentar os lóbis mais poderosos, que não são as das arruadas, os manifestantes ou os grevistas. São as pressões dos gabinetes. Das grandes empresas. Dos grandes sectores. Incluindo o espinhoso campo das Obras Públicas. E Álvaro Santos Pereira é mais liberal nos livros que qualquer outro ministro da Economia o foi nos últimos anos. Sê-lo-á também fora dos livros?
Deixamos para o fim o mais importante de todos os ministros de Passos Coelho: o das Finanças. Vítor Gaspar. Quem? Vítor Gaspar é um desconhecido dos portugueses e tem contra si a falta de força política. Mais: é um técnico brilhante, mas nunca deve ter dado uma ordem nem mandado numa equipa. E isso tem de ser tão natural como a sede deste Governo em proceder a um “choque térmico” nas finanças públicas e a uma recuperação de imagem nos mercados financeiros. O nome que devia ser o mais forte e incontestado é, paradoxalmente, o mais desconhecido de todos. Gaspar sabe que foi uma segunda escolha (Vítor Bento recusou as Finanças; Catroga também recusou depois de ter sido convidado para a Economia e re-convidado para as Finanças). Que seja de primeira água. Que junte ao “saber fazer” a força do não deixar desfazer; de impor; de mandar. Porque Gaspar é desconhecido em Portugal mas reputado na Comissão Europeia e no Banco Central Europeu, o que neste momento é essencial. É um homem muito inteligente - precisará também de inteligência emocional para se impor na política.
O Governo arranca com o benefício de dúvida, que terá de converter em esperança para o País. Tem um grupo de gente boa e outro grupo de gente promissora, que tem de saber que ser timorato não é o mesmo que ser timoneiro. E tem muita gente brilhante no campo académico, onde impera o reino dos argumentos, mas vai ter de se impor no mundo político, onde vale tudo.
O País está em estado de choque. Precisa de um Governo contra o choque. E é por isso que o homem mais importante de toda esta equipa é Pedro Passos Coelho. Não teve toda a equipa que quis. Mas teve a equipa que o quis a ele. Que seja a equipa que todos precisamos.
Como se diz aos aviadores que partem para a batalha: Godspeed, senhores ministros.
Sem contar com Miguel Relvas (que chegou a ministro!) e Vítor Gaspar (que se pôs em fuga depois do afundanço!), o que parece dar um empate (3 a 3), de quem nos anda a empatar…

Ecos da blogosfera – 24 jul.

Ligações de Rui Machete ao BPN e ao BPP obrigam-no a corrigir apelido para Rui Manchete

Algumas vantagens de estar(mos) na Eurozona…

“Os Estados europeus deixam deteriorar a dívida” por falta de crescimento suficiente, escreve o jornal Les Echos. Segundo os últimos números do Eurostat para a zona euro, a dívida pública aumentou €450.000 milhões entre o 4.º trimestre de 2012 e o 1.º trimestre de 2013.
O endividamento da zona euro subiu de 90,6% para 92,2% do PIB, com a Grécia (160,5% do PIB), a Itália (130,3%), Portugal (127,2%) e a Irlanda (125,1%) a encabeçarem a lista.
O diário económico sublinha que, “em média, os défices públicos na Europa diminuíram para metade, mas a dívida continua a aumentar e só deverá começar a diminuir na 2.ª metade de 2014”.
Os níveis da dívida pública estão a subir em quase todos os países da periferia da Zona euro. Os rácios da dívida já estão a cruzar o ponto de não retorno em Portugal e na Itália e estão a aproximar-se da zona de perigo na Irlanda.
A dívida de Portugal acaba de superar os limites máximos estabelecidos pela EU-FMI Troika, alcançando 127.2% do PIB no 1.º trimestre de 2013.

Há uma réplica condigna ao cartel de credores. Os povos do sul da Europa podem, a qualquer momento, optar por formar um cartel dos seus próprios devedores e virar a mesa.
Se não estou a pensar mal, em 2012 gastamos muito menos e em 2013 devemos ainda mais…
Para onde terá ido o raio do dinheiro?
A dívida pública na zona do euro subiu para 92,2% do PIB e na UE27 subiu para 85,9%...
E por que é que as coisas estão piores na Zona euro do que nos países sem euro? Haverá alguma relação?
Pelos vistos, Portugal está muito pior do que nos dizem ou nem dizem…
E tanto lá como cá, em 2014 é que vai ser!
Grandes trafulhas!

Contramaré… 24 jul.

O Eurobarómetro da Primavera de 2013 mostra que tanto a nível europeu como nacional a confiança nas instituições é bastante baixa. No caso de Portugal, 71% diz que as instituições da União Europeia tendem a não ser de confiança, 81% não acredita no Parlamento português e 88% não confia no Governo de Passos Coelho.

terça-feira, 23 de julho de 2013

Já podem ir de férias, nós carregamos as malas…

Com todos os cenários em aberto sobre a situação política em Portugal, em Bruxelas reina a expetativa em torno de uma “clarificação” que dê estabilidade governativa ao país. Sem esta condição, a “troika não regressará a Lisboa”.
Nesta fase, a Comissão Europeia não reage directamente ao fracasso das negociações entre PSD, CDS e PS. Por agora é consensual, a nível europeu, que os “problemas políticos” em Portugal em nada ajudam a imagem externa do país.
Quando PSD, CDS e PS ainda procuravam um entendimento que permitisse o “amplo consenso político” também exigido por Cavaco Silva, o director executivo do Mecanismo Europeu de Estabilidade, Klaus Regling, afirmou que “Portugal fez muito bem até algumas semanas atrás, quando começaram problemas políticos no Governo”.
Entretanto, Klaus Regling afirmou a um jornal brasileiro que “não exclui” a possibilidade de Portugal, tal como a Grécia, terem de recorrer a um novo resgate. Klaus Regling salientou que Lisboa fez “progressos importantes" e "implementou medidas fortes”. No entanto, lembrou que o trabalho “não acabou e Portugal precisa de continuar”.
Mas, a “instabilidade política” é vista pelo presidente do Eurogrupo como um fator que “paralisa as reformas”. Por isso, para Jeroen Dijsselbloem “é prematuro” afirmar que Portugal “vai deixar o programa [de ajustamento]”. Em declarações ao jornal El País, quando ainda decorriam negociações entre Passos Coelho, Paulo Portas e António José Seguro, Dijsselbloem concluía que “a perspetiva de a Irlanda concluir o programa [de ajustamento] é atualmente mais forte do que a de Portugal”.
Enquanto se brincava ao “bate e foge”, imposto pelo chefe do executivo anterior, Cavaco Silva, para distrair as travessuras do executivo anterior, Bruxelas ansiava por uma clarificação (apoio dos homens do “arco”), que desse estabilidade governativa ao país (só porque nos querem bem) e ao mesmo tempo sossegasse a Zona euro, permitindo umas férias (aos seus líderes) gozadas em paz e sem qualquer tipo de austeridade...
Ao mesmo tempo, ameaçavam que a troika não regressaria a Lisboa em tal ambiente, o que era um prémio inesperado, apesar do já anunciado adiamento da 8.ª avaliação, que seria colada à 9.ª, tipo 2 em 1, por questões de poupança e de iniciarem, também eles, a saborear a austeridade…
Entretanto, sem quererem interferir, lá foram avisando que os problemas políticos criados pelo executivo anterior só prejudicavam a imagem externa do país, pelo que o amplo consenso político (amarrar o PS ao sucesso da tragédia) exigido pelo chefe do executivo anterior era “laranja sobre azul”…
De seguida veio o diretor executivo do Mecanismo Europeu de Estabilidade, Klaus Regling (por acaso alemão), dizer que em Portugal, até umas semanas antes, tudo corria “às mil maravilhas” (para eles), até começaram os problemas políticos no executivo anterior (dentro da coligação governamental)… Mas disse mais, disse que não excluía a possibilidade de Portugal, tal como a Grécia (embora Portugal não seja a Grécia), terem de recorrer a um novo resgate (por estar a correr tudo “muito bem”), porque o trabalho (forçado) ainda não tinha acabado e Portugal precisava de continuar em frente, para chegar ao abismo.
Ficamos sem saber se era por causa do 2.º resgate que tinha havido desavenças no executivo anterior, ou se era pelo trabalho mal fito pelo executivo anterior que era preciso novo resgate…
E mesmo sem querer interferir, veio o ministro das Finanças holandês, que acumula (sem vencimento) a presidência do Eurogrupo, recriminar a instabilidade política gerada pelo anterior executivo, o que paralisaria as reformas (despedimentos na Função Pública), traduzindo-se no distanciamento de Portugal da Irlanda (e Portugal estava tão mais próximo da Irlanda do que da Grécia!) no que à implosão dizia respeito…
Terminado o chamado “processo de clarificação”, vulgo: “irrevogabilidades” e tendo ficado tudo na mesma, mesmo com o anterior executivo que gerou a instabilidade, o que pensará Bruxelas, Klaus Regling e Dijsselbloem?
E o que farão? Vão de férias os líderes europeus (e os nossos), vai de férias a troika e nós passamos férias cá dentro (da embrulhada)…
Mais sorte teve a Bélgica que teve um “processo de clarificação” que durou 485 dias, com um governo de gestão e ninguém os chateou… Nós só tivemos 21 dias, mas com um governo em plenas funções, sem nada fazer (há muito mais tempo)…

Ecos da blogosfera – 23 jul.

Não pedem pão, mas liberdade… depois ficam sem pão

O politólogo Francis Fukuyama defende que uma sociedade atinge o seu mais alto grau de desenvolvimento quando as aspirações democráticas dos seus membros são satisfeitas numa economia liberal. Com as manifestações contra o Governo de Erdoğan, os turcos parecem estar empenhados nesse caminho. Excertos.
Todos os fenómenos sociais – e as revoluções são fenómenos sociais – são o resultado de uma acumulação de causas, cujo nível determina a matéria em que se manifestara. Não acredito, por isso, que as teorias da conspiração possam ser válidas.
O curso de vários acontecimentos pode ser modificado por uma pessoa ou por um grupo de pessoas, mas a origem de um acontecimento histórico baseia-se na contribuição de milhões de pessoas que provocam o nascimento de milhões de factos e de acontecimentos que, em determinado momento, convergem para aquilo a que chamamos “o momento histórico”.
Aquilo que designamos por “primavera árabe” – os acontecimentos na Turquia inscrevem-se no mesmo processo – não pode ser corretamente interpretado sem termos em conta esse contexto. Ninguém dirige esses acontecimentos a partir do exterior. Não se trata da guerra de uma pessoa contra os manifestantes. Estamos, simplesmente, perante uma evolução do perfil, das mentalidades e da psicologia dos indivíduos desses países.
Sobre a temática da evolução da sociedade humana, Francis Fukuyama é um dos seus autores maiores. Em “O Fim da História e o Último Homem”, refere-se à lógica hegeliana e desenvolve um modelo particular de evolução da sociedade. Segundo ele, A humanidade atingirá um patamar de desenvolvimento social quando as aspirações democráticas estiverem satisfeitas. Nesse momento, a humanidade atingirá “o fim da História”. Isso significa que a democracia liberal, contrariamente a outras formas de organização e de gestão política, chega a um estádio em que deixa de se desenvolver por causa das contradições internas que põem em perigo o seu funcionamento.
Uma nova geração
Nesta perspetiva, podemos dizer que na Turquia está a surgir uma nova geração de jovens cuja maneira de pensar e de ser é muito diferente da dos seus pais e dos seus avós. E nisso, essa geração é semelhante à romena de finais do ano de 1989. Enquanto os jovens estavam na rua a exigir o fim do comunismo, os seus pais apareciam na televisão, a trabalharem nas fábricas e a jurarem fidelidade eterna ao antigo presidente Nicolae Ceauşescu e ao comunismo, condenando com uma raiva proletária as manifestações da rua.
Os jovens turcos cresceram na era da Internet, falam inglês e querem poder consumir álcool, se assim desejarem, em qualquer altura do dia ou da noite, ou terem a liberdade de beijar, na rua, aqueles que amam. Evidentemente, não renegam nem a sua fé nem a sua religião, mas é claro que entendem essas limitações como uma ingerência no seu espaço privado, na sua liberdade pessoal.
Não é a pobreza que os empurra para a rua, mas a perceção de que vivem num país onde o regime político está longe dos seus ideais
Tudo isso está também de acordo com o atual estatuto geopolítico e geoeconómico do país. A Turquia é membro da NATO já há muito tempo e demonstra um crescimento económico positivo e uma constante subida do nível de vida. E porque representa uma ponte entre o Ocidente e o Oriente, os Estados Unidos sempre lhe dedicaram uma atenção especial. E é por isso que, mesmo com o nível de vida a subir, os jovens saem à rua. É claro que não pedem pão, mas liberdade. Não é a pobreza que os empurra para a rua, mas a perceção de que vivem num país onde o regime político está longe dos seus ideais. A imagem da professora da Universidade de Istambul, vestida à ocidental, a ser agredida pelas forças da ordem, é o símbolo máximo dessas manifestações.
A Turquia aproxima-se do “fim da História”
Após um longo período de regimes militares, o Governo de Erdoğan é, na verdade, um regime civil. Mas há um paradoxo na governação do país. É justamente um regime político civil que põe em perigo a estabilidade e o equilíbrio trazidos pelos (antigos ditadores) militares. Cada vez que há eleições neste género de países, são ganhas por um partido religioso fundamentalista que promete o regresso à tradição. Foi isso que aconteceu no Egito e vai ser isso que, muito provavelmente, acontecerá na Síria ou noutros lados. Isso diz muito sobre a imensa distância que ainda separa a Turquia do nosso mundo ocidental.
Para resolver essa enorme contradição, o mundo muçulmano precisa de uma revolução religiosa, semelhante à Reforma [protestante] realizada por Martinho Lutero, que possa estabelecer um equilíbrio entre a sua fé religiosa e a aspiração tipicamente humana de civilização e estabilidade. A Turquia não pode partir do zero. Tem uma tradição, basta olharmos para qualquer período da sua história ou lembrarmo-nos de Kamal Atataurk no início do século XX.
A Europa e os Estados Unidos podem ajudar a negociar uma solução de paz social para manter a estabilidade do país, numa zona cinzenta em termos de conformidade com as normas da democracia: nem democrática, nem antidemocrática. Este país poderá ter um grande potencial para se tornar, a médio prazo, uma grande potência, membro da NATO e da UE, um verdadeiro vetor de civilização com uma fronteira com o sempre problemático Médio Oriente.
A liberdade económica traz consigo a liberdade política. Na Turquia, os sinais do “fim da História” – tal como o imaginaram Hegel e Fukuyama – estão mais próximos do que noutros Estados muçulmanos. Por “próximos”, entendam não 1 ano ou 2, mas talvez algumas gerações. Mas o que é que isso significa à escala da História e da paciência de que o tempo dá provas em relação a nós? É absolutamente essencial que, até lá, o país continue estável.