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terça-feira, 1 de julho de 2014

Ecos da blogosfera - 1 jul.

Cantando e contraditando Fukuyama…

O fim da história - Gilberto Gil
Não creio que o tempo
Venha comprovar
Nem negar que a História
Possa se acabar
Basta ver que um povo
Derruba um czar
Derruba de novo
Quem pôs no lugar
É como se o livro dos tempos pudesse
Ser lido trás pra frente, frente pra trás
Vem a História, escreve um capítulo
Cujo título pode ser "Nunca Mais"
Vem o tempo e elege outra história, que escreve
Outra parte, que se chama "Nunca É Demais"
"Nunca Mais", "Nunca É Demais", "Nunca Mais"
"Nunca É Demais", e assim por diante, tanto faz
Indiferente se o livro é lido
De trás pra frente ou lido de frente pra trás
Quantos muros ergam
Como o de Berlim
Por mais que perdurem
Sempre terão fim
E assim por diante
Nunca vai parar
Seja neste mundo
Ou em qualquer lugar
Por isso é que um cangaceiro
Será sempre anjo e capeta, bandido e herói
Deu-se notícia do fim do cangaço
E a notícia foi o estardalhaço que foi
Passaram-se os anos, eis que um plebiscito
Ressuscita o mito que não se destrói
Oi, Lampião sim, Lampião não, Lampião talvez
Lampião faz bem, Lampião dói
Sempre o pirão de farinha da História
E a farinha e o moinho do tempo que mói
Tantos cangaceiros
Como Lampião
Por mais que se matem
Sempre voltarão
E assim por diante
Nunca vai parar
Inferno de Dante
Céu de Jeová

Contramaré… 1 jul.

O BCE terá pedido ao Governo português e ao Banco de Portugal uma clarificação em relação ao reconhecimento de idoneidade de Amílcar Morais Pires, nome apontado para o cargo.
Porém, o Banco de Portugal tinha dito que não se pronunciaria sobre tal até à assembleia-geral de 31 de julho. E pode mesmo nem se vir a pronunciar, uma vez que Morais Pires, enquanto administrador do banco, tem já idoneidade reconhecida.

segunda-feira, 30 de junho de 2014

“Sociedade moderna”: democracia e economia de mercado?

Em 1989, o cientista político e economista americano Francis Fukuyama publicava o seu famoso artigo ‘O fim da história?’ na revista The National Interest. Nele, argumentava que a difusão mundial das democracias liberais e do livre capitalismo de mercado possivelmente sinalizavam o fim da evolução sociocultural da humanidade. 3 anos mais tarde, publicaria o livro ‘O fim da história e o último homem’, onde expandia essas ideias.
Decorridos 25 anos, os pontos de vista de Fukuyama continuam a ser debatidos e criticados.
Em entrevista à DW, o filósofo de 61 anos afirma que tais ataques ao seu texto são decorrentes de uma interpretação equivocada, e defende as suas teses à luz de eventos geopolíticos recentes.
DW: Em 1989, o senhor publicou o seu artigo mais conhecido, ‘O fim da história?’. 25 anos atrás, numerosos críticos diziam: "Este tipo está errado". O senhor sente que foi mal entendido ou admite agora que estava errado?
Francis Fukuyama: Acho que os maiores problemas têm a ver com um mal-entendido. O conceito de "fim da história" era a questão: em que rumo a história aponta? Para o comunismo – que era o ponto-de-vista de muitos intelectuais, antes – ou na direção da democracia liberal? E acho que, neste ponto, ainda estou certo.
História, no sentido filosófico, é realmente o desenvolvimento, ou a evolução – ou modernização – de instituições, e a questão é: nas sociedades mais desenvolvidas do mundo, que tipo de instituições são essas?
Acho que está bem claro que qualquer sociedade que pretenda ser moderna ainda precisa ter uma combinação de instituições políticas democráticas com uma economia de mercado. E eu não acho que a China, a Rússia ou qualquer outro concorrente invalidem esse argumento.
O senhor menciona a China e a Rússia. Eu gostaria de conversar sobre a Ucrânia. Onde nos vê historicamente neste momento?
Bem, eu acho que a Rússia não se desenvolveu na direção de uma democracia liberal de verdade, e as suas ambições territoriais e geopolíticas não desapareceram. Mas no fim de contas, eu acho que o sistema russo é muito fraco, depende completamente de preços altos de energia. Mesmo na Rússia não é aceite inteiramente como uma forma legítima de governo. Então não é um real competidor.
Quando vê o presidente russo, Vladimir Putin, na televisão, e vê o seu comportamento, considera um bom exemplo para a sua tese de que o reconhecimento é um impulsionador importante da história?
Penso que, de diversas maneiras, é isso. Porque ele e muitos outros russos recorrem a um poço de ressentimentos – de que a Rússia não teve reconhecimento, de que foi considerada fraca, de que os seus interesses não foram respeitados pelos países ocidentais durante a ampliação da NATO, e pelas coisas que aconteceram nas décadas de 1990 e 2000. Assim, creio que o reconhecimento, para ele, é uma questão.
Os políticos ocidentais, americanos ou europeus, deveriam dar atenção, reconhecimento a Putin?
Acho que é tarde demais para isso. Muitos desses problemas foram baseados em decisões tomadas na década de 90, e é impossível desfazê-las. Realmente acredito que é preciso tratar a Rússia como um país sério, com os seus interesses nacionais próprios. Eles podem não ser os mesmos que os nossos, mas é preciso, de qualquer forma, começar pelo respeito.
Os acontecimentos na Ucrânia parecem ser o início de uma II Guerra Fria. Entretanto, no momento há sinais de que ambos os lados estão a ceder. Diria que essa Guerra Fria está suspensa, por enquanto?
A Guerra Fria foi um fenómeno tão diferente! Era um conflito global, um conflito de ideias e a propósito de 2 sistemas políticos muito diferentes. Isso agora é uma batalha para restaurar a dignidade dos russos, sem implicações reais fora das áreas da antiga União Soviética. Nesse sentido, não é em nada parecido com a Guerra Fria em si.
No tocante a sistemas e governos que funcionem, qual é a sua visão do seu próprio país, os Estados Unidos?
Eu argumento, num próximo livro, que o sistema político americano se deteriorou em muitos aspetos por ter sido seriamente sequestrado por diversos grupos de interesses poderosos. Muitos dos instrumentos de travão e contrapeso (checks and balances), de que nos orgulhamos, resultaram, na prática, no que eu chamo de "vetocracia", ou seja: há grupos demais que detêm o poder de barrar decisões. Como resultado, o Congresso ficou paralisado, o que eu considero um grande problema para nós.
As instituições democráticas americanas estão em decadência? O que significaria isso para os EUA, como um todo: eles são uma superpotência em retirada?
Não, não vejo a coisa assim, absolutamente, porque na verdade a economia americana está bem de saúde e é, provavelmente, a mais saudável de todas as grandes economias democráticas. Gás de xisto, Silicon Valley: há muitas fontes de crescimento e inovação. Apenas acho que o sistema político não vai bem. Mas a sociedade americana é sempre um pouco mais o setor privado do que o setor público.
Voltando a ‘O fim da história’, qual é a sua previsão para os próximos 10 ou 20 anos?
Acho que nós estamos a passar por um período difícil, em que tanto a Rússia como a China se expandem. Mas estou convencido de que é um fenómeno limitado, que, a longo prazo, só existe uma ideia organizadora importante: a ideia de democracia numa economia de mercado. Portanto, a longo prazo, continuo otimista.

Ecos da blogosfera - 30 jun.

Um extrato de mais uma história (revista) à portuguesa…

"Bom dia Dona Inércia. O que é que a senhora acha desta confusão no BES?"
"Ó filho, sei lá, são coisas de família."
"É só isso?"
"Sabes filho, quando o assunto é dinheiro até nas melhores famílias estala o verniz. Olha, eu tenho uma prima que por causa de um faqueiro de prata que a minha avó me deixou, deixou de me falar até hoje. O que até não foi mau porque me poupa o trabalho de ter que a ver."
"A Dona Inércia acha, portanto, aquilo tudo normal?"
"Normalíssimo, filho. No fim vai ficar tudo na mesma. Ou parecido. Afinal o BES tem a Inércia do seu lado."
"Acredita mesmo nisso?"
"Ó filho, eu acredito no que me dá menos trabalho."
"Então a Dona Inércia não está preocupada com o seu dinheiro?"
"Não. Se tivesse de me preocupar já tinha ouvido qualquer coisa e dizia-te. E com certeza que os senhores do Banco de Portugal ou os senhores dos jornais já tinham falado do assunto."
"Acha mesmo que o seu dinheiro está em boas mãos?"
"E em que outras mãos poderia estar? Aquilo são pessoas experientes, há muito tempo que têm a mão na massa, filho. Estão habituadas. E ainda por cima moram cá. Vais ver que aquilo resolve-se."
"E como é que se resolve, Dona Inércia?"
"Então filho, deixando andar, que andando as coisas resolvem-se."
"Já vi que a Dona Inércia não tem nenhuma preocupação."
"Deus me livre! Preocupações são uma trabalheira. Prefiro não ter. Dão quase tanto trabalho como mudar de banco."
"E a Dona Inércia acha que os outros clientes são como a senhora?
"Ó meu querido, os outros clientes não são como eu, os outros clientes são eu. Ainda não percebeste que eu sou um arquétipo?"
"Claro que percebi, Dona Inércia, por isso a estou a entrevistar."
"E olha que eu não sou só um arquétipo dos clientes do BES, sou de todos os portugueses em geral. A gente não muda, filho, dá uma trabalheira."
"Olhe que não é assim, Dona Inércia, às vezes é preciso mudar qualquer coisa; e às vezes muda-se."
"Pois é filho, e quando é preciso mudar qualquer coisa, aqui a Inércia vai ao cabeleireiro. E sabes que mais? Quando chego a casa todos dizem, 'Ai a Inércia está diferente' e eu rio-me porque estou igual: há anos que faço o mesmo penteado."
"Já o Ronaldo muda muito."
"E olha no que deu... Eu sou a favor de deixar as coisas estar como estão. Gosto de estar parada quando estou parada e de estar em movimento quando estou em movimento. Alterar o estado das coisas é que me parece muitíssimo desagradável."
"Mas agora no BES há muita movimentação..."
"Então se as coisas estão em movimento, é deixar estar em movimento. Olha filho, eu é que não me mexo. Se as coisas tiverem que mudar, que mudem."
"Ó Dona Inércia, não consigo entender. Se está tudo a mexer porque é que a senhora não se mexe também?"
"Porque se as coisas estão em movimento e eu me movimentar também, então nada muda. Agora se eu me deixar estar quietinha, enquanto tudo se movimenta, as coisas à minha volta mudam. Está a entender a Inércia, filho?"
Pedro Bidarra

Contramaré… 30 jun.

O banco liderado por Nuno Amado divulgou o prospecto do aumento de capital, onde explica que "no segundo semestre de 2015 haverá eleições legislativas e, em seu resultado, poderá suceder a descontinuação do processo de implementação de políticas económicas com vista à restauração da sustentabilidade da dívida pública e ao necessário ajustamento orçamental que vigorou durante o período de vigência do PAEF".
O BCP refere, que caso existam essas alterações de política económica isso poderá "ter um impacto nas condições de acesso aos mercados de financiamento internacionais, quer para a República Portuguesa, quer para o Banco, o que poderá resultar num 2.º resgate".

domingo, 29 de junho de 2014

Para não esquecermos que somos europeus e (in)dependentes

Por maioria, o Conselho Europeu decidiu na última sexta-feira propor ao Parlamento Europeu Jean-Claude Juncker como presidente da Comissão Europeia. Votaram a favor 26 dos estados da UE, tendo o Reino Unido e a Hungria votado contra. A decisão final sobre a indigitação de Juncker para aquele cargo cabe agora ao Parlamento Europeu, que sufragará sem dificuldades a proposta.
Azeredo Lopes
A história parece simples. Foi uma escolha coletiva, foi escolhido um candidato, a maioria foi esmagadora, houve dois estados que votaram contra mas, democraticamente, prevaleceu a vontade dos demais, porque eram mais.
A realidade é no entanto mais complexa e com feridas que vão demorar a cicatrizar.
O processo de designação do presidente da Comissão Europeia, como se saberá, foi alterado. Atualmente, o Conselho Europeu deve ter "em conta as eleições para o Parlamento Europeu".
Como se vê, o Conselho Europeu não está sujeito a uma obrigação automática, e muito menos está obrigado a um nome. Mas os principais partidos concorrentes às eleições europeias de 25 de maio (o PPE e o grupo socialista) perceberam que ali estava a sua oportunidade. Que, se apresentassem cada um seu candidato, a pressão sobre o Conselho Europeu - em termos concretos, sobre os governos dos estados-membros - aumentaria sobremaneira. E assim fizeram, e bem fizeram. O PPE apresentou Jean-Claude Juncker, os socialistas o alemão Martin Schulz. Ficou Juncker, uma vez que o PPE foi o grupo que agregou mais mandatos: foi o mais votado.
Se não queriam ficar sujeitos a esta modificação nem sequer muito subtil das regras do jogo e do que dispõe o Tratado da UE, os estados-membros tinham bom remédio. Logo deveriam ter anunciado (e mantido) que não ficavam vinculados a este processo e que, quando muito, na escolha do candidato por que optassem olhariam aos resultados das eleições para definir o perfil e a família ideológica do escolhido. Mas, calaram: e, mesmo se alguns falaram, exprimiram-se de forma tão ambígua e contraditória que ficaram sem margem de manobra. Por mim, no entanto, ainda bem - porque este processo reforça a legitimidade do presidente da Comissão e sujeita-o, ainda que indiretamente, ao voto dos europeus.
Estávamos nisto quando David Cameron, primeiro-ministro britânico, decidiu entrar em liça e contestar, em termos virulentos e muito agressivos, a escolha de Juncker. Fê-lo, no essencial, declarando que este é demasiado "europeu" e que até padece de uma doença perigosa: tem convicções federalistas.
Não é fácil compreender o motivo pelo qual Cameron, de forma pouco britânica e muito sanguínea, decidiu fingir que era o D. Quixote que vinha das ilhas. Depois de uma tareia das antigas nas eleições europeias às mãos do UKIP e dos Trabalhistas, Cameron terá porventura congeminado que, para reconquistar um eleitorado eurocético (que se transferiu em massa para o UKIP), tinha que fazer voz grossa e mostrar que a Union Jack ainda tem um poder decisivo - nem que seja para dizer não - nos territórios estranhos e hostis do continente europeu.
Enganou-se redondamente, porque subestimou duas variáveis determinantes. Lançou um ultimato público que imediatamente extremou os campos, apenas tendo a seu lado peões da brega (como a Hungria). E, com avanços e recuos sucessivos, expôs até à náusea que as suas convicções eram levezinhas e puramente táticas e nunca lhe permitiriam bater com a porta. Ameaçou de forma pouco velada submeter a referendo a saída do Reino Unido da EU, lançou uma série de ataques ad hominem contra Juncker, fez bluff. Azar dos Távoras, tudo lhe correu mal.
Cameron está agora muito pior do que quando se lançou nesta cavalgada pouco sensata. Fica com Juncker, goste ou não goste, alcançando até a "proeza" de fazer os restantes estados cerrarem fileiras e unirem-se em torno daquele nome (de que vários não gostam). Cristaliza, no plano interno como no da União Europeia, a imagem do perdedor. Reforça a Alemanha, que agradece a prenda, reforça os radicais do UKIP e demonstra, se necessário fosse, faltar-lhe envergadura como estadista. Deve ser difícil fazer melhor.
Cameron é mais ou menos como alguns de nós. Bravata quanto baste, agarrem-me que eu mato-o, e no fim acaba tudo a beber uns copos. E ele a pagar uma rodada geral.

Ecos da blogosfera - 29 jun.

As primárias já estão ganhas, “transparentes, claras e abertas”

Com 26 votos a favor e 2 contra, cimeira da UE aprova a candidatura do ex-primeiro-ministro de Luxemburgo para a presidência da Comissão Europeia. Apenas o Reino Unido e a Hungria são contra a escolha.
A votação no Parlamento Europeu, que confirmará ou não o político conservador como novo presidente da Comissão, está marcada para 16 de julho e Juncker precisará de, no mínimo, 376 dos 751 votos parlamentares.
"Decisão tomada." Foi assim que o presidente do Conselho Europeu, Herman Van Rompuy, divulgou esta sexta-feira no Twitter que os líderes dos 28 decidiram propor Jean-Claude Juncker para a presidência da Comissão Europeia. Pela primeira vez, o presidente da Comissão foi escolhido através de uma votação e não por consenso - Hungria e Reino Unido votaram contra.
Quem é o homem escolhido para suceder a Barroso?
É extensa a lista de acusações contra Jean-Claude Juncker nos jornais britânicos: é pró-federalista; é anti-democrático; fala muito durante as reuniões; está sempre a beber álcool; tem origens dos bancos; nunca teve um "emprego verdadeiro"; é desonesto. A "Economist" escreve mesmo que ninguém o quer e chama-lhe "presidente acidental".
Entre os argumentos contra Juncker há considerações falsas, contraditórias, ou apenas parcialmente verdadeiras. A acusação de que o pai era nazi baseia-se no facto de Joseph Juncker, operário de profissão, ter combatido na Wehrmacht (o exército alemão) durante a II Guerra Mundial. Tendo o Reich ocupado o seu país, quantos homens jovens considerados alemães podiam recusar o alistamento? Igualmente sem sentido parece a acusação de alcoolismo, em especial quando feita pela extrema-direita que detesta a Europa. Afinal, o herói dessa fação é Nigel Farage, muitas vezes fotografado no pub com uma enorme cerveja na mão. Farage costuma dizer que a cerveja não o impede de começar a trabalhar de madrugada e acabar já noite dentro. Juncker dirá o mesmo.
Juncker pode ser fã do seu cognac, mas isso dificilmente o torna uma raridade entre os políticos europeus. Quanto aos relatos sobre uma ou outra cena de fúria - um tabloide conseguiu descobrir que certa vez gritou com um alto funcionário durante 5 minutos - também não bastam para o distinguir.
Há um verdadeiro escândalo durante o seu mandato como primeiro-ministro do Luxemburgo, que envolve escutas ilegais e o levou a demitir-se em 2013 após 18 anos no cargo. Mas esse escândalo tem que ver com ações de outras pessoas. Da parte de Juncker, a culpa principal, oficial, reconhecida, foi falta de atenção. Terá negligenciado o governo do seu próprio país porque estava demasiado ocupado como presidente do Eurogrupo durante a crise financeira.
Larga experiência nacional e internacional... e algumas gaffes
Jean-Claude Juncker tem atualmente 59 anos. Nasceu e cresceu no Luxemburgo, estudou lá e na Bélgica, fez o curso de Direito em Estrasburgo. Registou-se como advogado em 1980, mas nunca exerceu. Nessa altura já era membro do Partido Cristão Social Popular há 6 anos e tinha iniciado a carreira política. Secretário parlamentar, deputado, ministro do Trabalho... Estava tudo bem caminhado quando teve um acidente de automóvel que o deixou em coma durante duas semanas. A recuperação seria completa e em 1989 Juncker recebeu a pasta das finanças. Em 1995 passaria a acumulá-la com a chefia do governo.
Enquanto membro do executivo, começara cedo a presidir a reuniões na União Europeia, a vários títulos. Teve alguma proeminência no processo de formação do euro. Ao mesmo tempo, era governador no Banco Mundial e depois no FMI. E ocupou sempre mais que uma cadeira no governo, quer antes de ser primeiro-ministro quer depois. Ministro de Estado, do Tesouro, do Emprego...
Presidente do Conselho europeu em 1997, tentou combater o desemprego na UE. Voltou a ocupar o cargo em 2005 e venceu o referendo sobre a constituição da União. Os seus esforços valeram-se diversos prémios europeus. Tirando uma ou outra gaffe - em 2004, anunciou prematuramente a morte de Yasser Arafat -, Juncker só ficou gravemente embaraçado quando se descobriu que os serviços secretos do seu país andavam a fazer escutas ilegais. O escândalo também metia corrupção e abusos de dinheiros públicos. Junker tentou minimizar (não é surpresa que no mundo dos serviços secretos haja segredos, disse), mas acabou por se demitir.
Ocasionalmente, a sua franqueza tem-lhe arranjado problemas. Por exemplo, quando afirmou que a política monetária deve ser debatida fora dos olhares públicos. Ou quando admitiu que já tem mentido quando os assuntos são sérios. Dadas as acusações de arrogância anti-democrática que esses deslizes têm gerado, não deixa de ser irónico que a sua candidatura agora vencedora tenha sido contestada pelo Reino Unido com o argumento de que não deve ser o Parlamento Europeu, e sim os chefes de governo dos Estados, a escolher o presidente da Comissão Europeia. Afinal quem é que quer tomar as decisões à porta fechada?
Se Cameron realmente pretendia evitar a nomeação de Juncker e não apenas obter dividendos internos, terá cometido o erro de tornar a sua oposição demasiado pública, encostando Merkel e outros líderes à parede. Juncker aproveitou. Garantiu que não ia ajoelhar perante os britânicos. Queixou-se da campanha contra ele na imprensa, contou que lhe andavam a chatear os vizinhos e a remexer no lixo. Lembrou que era importante resistir a esse tipo de pressões. 26 dos 28 chefes de governo da UE, pelos vistos, concordaram.