(per)Seguidores

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Na Europa de que sabe pouco e não lhe agrada muito

Pela primeira vez em 13 anos, o Papa vem de outro continente que não a Europa, e de uma cultura que não partilha obrigatoriamente os mesmos valores. Será um sinal de declínio do Velho Continente?, interroga-se o “Corriere della Sera” enquanto o Papa Francisco se reúne com o ortodoxo Vladimir Putin.
Pobreza! E austeridade! Os dogmas dos jesuítas, que praga!
A 25 de novembro, Vladimir Putin virá a Roma, ao Vaticano, para se reunir com o Papa. Para além dos outros significados que essa visita possa ter, sobretudo para as futuras relações entre o catolicismo e o cristianismo ortodoxo, será também um encontro entre 2 homens que, no ano passado, deram consigo na posição de aliados contra os Estados Unidos (e contra a França), na questão da Síria. Enquanto o indeciso Obama desfolhava o malmequer para decidir se iria ou não intervir militarmente para castigar Assad pelo uso de armas químicas, Putin e Francisco agiam em plena sintonia para bloquear a intervenção norte-americana. O Papa levou a polémica ao ponto de levantar a hipótese de a guerra civil na Síria ser deliberadamente alimentada por aqueles que tinham a ganhar com a venda de armas. Referia-se sobretudo ao Ocidente, sedento de lucros.
É urgente que a Europa reflita sobre o que significa, não só para a Europa mas também para todo o Ocidente, o facto de haver um Papa oriundo de um mundo muito diferente do nosso. Um Papa que, no que se refere à Europa, alia paradoxalmente diversidade cultural e uma grande capacidade de despertar atenção, atração e mesmo entusiasmo.
A relação entre o Papa e o seu rebanho, e a sua tentativa de reformar em profundidade a Igreja de Roma, são questões que interessam ao mundo católico e devem ser observadas com respeito por aqueles que não pertencem a esse mundo. Mas a relação do Sumo Pontífice com a Europa é uma questão que interessa a todos os europeus. Tal como lhes interessam as mudanças geopolíticas em curso. E um dos aspetos dessas mudanças, talvez um dos mais importantes, é precisamente a chegada de Jorge Mario Bergoglio à Santa Sé.
A Europa já não é a Respublica Christiana
Pode dizer-se que a chegada de um Papa oriundo da América Latina saneou uma anomalia que, década após década, se tornara cada vez mais evidente e também mais gritante. Ao mesmo tempo que se difundia e consolidava fora da Europa, o catolicismo recuava aparatosamente naquele que foi em tempos o coração da Respublica Christiana.
A Europa é sem dúvida o continente onde, década após década, a secularização (sob a forma de descristianização) atingiu maior profundidade.
Desse ponto de vista, a Europa é a exceção, em comparação com o resto do mundo (Estados Unidos incluídos). O vigor e a vitalidade persistente do catolicismo, e do cristianismo em geral, nas regiões exteriores à Europa, vieram contrabalançar o seu recuo no Velho Continente. Ao ponto de alguns sociólogos das religiões colocarem a hipótese de, se a tendência se mantiver, o cristianismo poder passar em breve a ser quase exclusivamente uma religião extraeuropeia. É nesse sentido que a eleição de Bergoglio veio sanar uma anomalia.
Mas, naturalmente, essa eleição teve também um significado geopolítico mais vasto. Foi um sinal, e uma ilustração, do drástico redimensionamento em curso do peso do mundo ocidental nos equilíbrios mundiais. Em benefício dos mundos não ocidentais emergentes. É normal que um homem da Igreja, seja ele Papa ou um simples padre, radique também a sua visão cristã nos valores e nas ideias próprias da sociedade da qual provém. E é um facto que a terra onde Bergoglio se formou tem uma tradição muito diferente da tradição da Europa liberal. Essa circunstância poderá, ao longo do tempo, criar alguns problemas na relação entre este Papa e a Europa: um mundo do qual sabe pouco e, pelo que se depreende das suas palavras, esse pouco não lhe agrada muito.
As Igrejas da “periferia”
A grande força do catolicismo sempre foi aliar o poder da sua mensagem universalista de salvação à capacidade de valorizar as experiências e as especificidades locais. Quando os Papas eram italianos, as outras Igrejas católicas europeias conciliavam sabiamente a fidelidade ao Bispo de Roma com a valorização das especificidades nacionais. Na presença dos Papas europeus, as Igrejas de fora da Europa faziam a mesma coisa, como era justo que fosse.
Isso acontecia ainda durante o pontificado de João Paulo II, cujo carisma não ficava nada a dever ao de Bergoglio. Mas, então, o centro do catolicismo continuava solidamente ancorado na Europa e as Igrejas extraeuropeias constituíam a “periferia”. Hoje, é a Europa que desliza para a periferia e é travada apenas pelo facto de a sede física do Papado continuar em Roma. Uma situação inédita para os católicos europeus (e, na realidade, para todos os europeus).
Cabe às diferentes Igrejas nacionais, incluindo à italiana, valorizar, aos olhos do Sumo Pontífice, aquilo que a tradição europeia tem de bom e de característico, e que não pode ser redutível a outras experiências. Sem isso, é difícil imaginar, no futuro, entendimentos duradoiros e harmonia entre a Igreja e a Europa. E a primeira não encontrará facilmente os caminhos para travar a secularização da segunda. Independentemente da simpatia que este Papa suscita hoje, a sua mensagem universalista poderá, a longo prazo, quebrar-se contra as barreiras e os fossos, forjados pela História, que separam a Europa dos outros mundos.

Contramaré… 26 nov.

O Governo israelita aprovou uma série de medidas destinadas a expulsar os milhares de imigrantes africanos que vivem e entram no país. "Estas medidas, aprovadas por unanimidade, são proporcionais e necessárias para manter o caráter judaico e democrático do Estado", defendeu Benjamin Netanyahu. Simultaneamente, o Ministério da Administração Interna está a preparar um projeto de lei que autoriza a detenção de imigrantes em situação irregular durante um ano, sem julgamento.
Segundo as organizações de defesa dos direitos humanos, a maioria dos imigrantes africanos em Israel, oriundos sobretudo de Sudão e Eritreia, correm risco de vida se regressarem aos seus países de origem.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Um homem mais Maduro tem alternativas ao rapinanço

Aumento da receita fiscal reduz défice até Outubro. Famílias estão a pagar mais 30% de IRS e empresas mais 9% de IRC.
A factura ainda agora começou a chegar, mas já começa a dar sinais da dimensão que irá tomar: o empréstimo internacional a que Portugal recorreu em meados de 2011, e que começou a ser cobrado já em 2012, custou até Outubro deste ano 2.546 milhões de euros aos contribuintes em juros e outros encargos. E se em todo o ano de 2012 a factura atingiu os 1.081 milhões de euros, este ano, e só até Outubro, os juros cobrados pela troika já atingiram os 1.466 milhões, mais 35,7% quando faltam 2 meses para o fim do ano.
Este salto justifica-se pelo aumento da exposição da troika à dívida portuguesa, já que os credores têm vindo a assumir grande parte da dívida do Estado português de forma gradual. No total, e considerando todo o tipo de credores, o Estado teve custos líquidos - juros, encargos e aplicações recebidas - de 6.849 milhões de euros com a dívida directa do Estado em 2012, valor que entre Janeiro e Outubro deste ano já chega aos 6.408 milhões de euros.
Os custos do Estado com os diversos instrumentos de dívida a que tem recorrido foram ontem publicados pela Direcção-Geral do Orçamento (DGO), no boletim de execução orçamental de Outubro. Segundo os dados, o défice das contas públicas até Outubro, calculado pelos critérios da troika, ascendeu a 6.409 milhões de euros, uma redução de 1.659 milhões face aos mais de 8.000 milhões de défice apurados entre Janeiro e Outubro do ano passado.
Esta melhoria das contas veio dos impostos, cuja receita, de Setembro para Outubro, deu o maior salto do ano. "A receita fiscal líquida mensal do mês de Outubro aumentou 18,5% face à receita mensal de Outubro de 2012, o que representa o crescimento mensal mais expressivo do ano de 2013", salienta a DGO no boletim. Entre Janeiro e Outubro deste ano os residentes em Portugal pagaram 28.300 milhões de euros em impostos, valor que compara com os 26.100 milhões no mesmo período do ano passado, um crescimento acumulado de 8,4%.
É no cerco montado por Vítor Gaspar ao IRS que o ajustamento português continua assente: as receitas com este imposto estão a subir 30% este ano - ou seja, um aumento de 2.200 milhões de euros.
Maior contributo vem do IRC e do IRS e receita de IVA regista crescimento acumulado de 0,4%.
O Estado arrecadou até outubro mais 2.200 milhões de euros em impostos, comparado com os primeiros 10 meses do ano passado, sendo que só em IRS conseguiu mais 2.190 milhões de euros.
O presidente e editor-chefe do grupo Forbes Media, Steve Forbes, defendeu que Portugal tem condições para crescer economicamente e realizar as reformas estruturais, mas precisa de “se livrar das garras da troika” e “reduzir impostos”.
O presidente da revista que costuma fazer a relação das principais fortunas mundiais lembrou os exemplos da Alemanha e do Japão no período pós II Guerra Mundial para mostrar como Portugal teria vantagens em “reduzir o mais possível os impostos” para atrair investimento.
Steve Forbes considerou que o IVA na restauração a 23% “é um grande erro” e sublinhou que Portugal deve “fazer tudo para criar incentivos fiscais que possam atrair o investimento estrangeiro”. “Há uma forma de fazer as reformas e ao mesmo tempo fazer crescer a economia. Não se excluem uma à outra. Mas entretanto devem ir fazendo o que podem para dar incentivos fiscais para o capital estrangeiro vir para cá e para as pessoas poderem vir cá”, afirmou.
Forbes, de nacionalidade norte-americana, deu como exemplo a área do turismo, onde já Portugal se destaca, mas que é praticamente desconhecida nos Estados Unidos.
O presidente do grupo Forbes Media defendeu a aposta na criação de sites de Internet, de blogs, com informação correta, que permitam promover e dar a conhecer as ofertas do turismo português a nível internacional.
“O apetite pelo Turismo de Saúde está a crescer em muitas áreas do globo. E nunca sabemos quando vamos precisar de uma operação”, afirmou, frisando a necessidade de apostar no “turismo especializado”, também na área “das empresas que precisam de locais para realizar congressos, reuniões e que têm operações em várias partes do mundo”. Steve Forbes disse que muita da divulgação do seu grupo já é feita online, o que permite a utilização de um meio que é cada vez mais utilizado e que “é barato”, sendo necessário produzir conteúdos fidedignos que levem as pessoas a aderir e a passar a palavra uma às outras.
O presidente do grupo Forbes lembrou que Alemanha e o Japão não se recuperaram economicamente no pós guerra devido a austeridade, mas à aposta numa política de redução fiscal que, aliada à criação de uma moeda, permitiu contrariar a hiperinflação que se sentia no país e promover taxas de crescimento económico elevadas.
Por isso, mostrou-se confiante nas potencialidades de Portugal, cuja primeira prioridade deve ser “livrar-se das garras da troika” e encetar uma política de redução e incentivos fiscais para alavancar o crescimento.

Ecos da blogosfera - 25 nov.

Quando a ignorância é reconhecida como uma virtude

Há 2.500 anos, o filósofo grego Sócrates foi julgado por corromper a juventude ateniense e desrespeitar os deuses. Por esses crimes, foi condenado à morte.
Neil Bearden
Nassim Taleb
A verdadeira motivação por trás das acusações, contudo, parece ter sido o facto de Sócrates ter exposto a ampla corrupção intelectual dos detentores do poder. Foi morto devido à sua preocupação com a verdade, mostrando que as elites de Atenas não partilhavam dessa preocupação e sabiam muito menos do que afirmavam saber.
Há umas semanas, aqui em Singapura, conheci um homem que me recordou Sócrates: Nassim Taleb (autor de “The Black Swan” e, mais recentemente, “Anti-Fragile”). Sócrates expôs as pretensões de conhecimento dos seus contemporâneos e Taleb tem, hoje em dia, uma função similar. Acredito que ele é, como Sócrates, um raro homem honesto.
Na noite em que fui ouvir Taleb falar, esperava aborrecer-me profundamente — achava que ia ouvi-lo arengar ofensivamente acerca dos impactos perniciosos da indústria financeira moderna, um dos seus temas favoritos. Os seus escritos tinham-me parecido muitas vezes arrogantes, diatribes pouco concisas contra caricaturas de grupos (tipicamente economistas, banqueiros e professores das escolas de gestão), e era esse género de discurso que receava ouvir essa noite.
Em vez disso, encontrei o que acredito ser um raro homem honesto, alguém para quem a verdade é mais importante do que gostarem dele. Foi invulgar ouvir alguém responder à maioria das perguntas que lhe faziam com um, “Não sei. Como posso saber?” Arengou, de facto, acerca dos professores das escolas de gestão, que professam ter respostas para tudo mas que, afirmou, sabem frequentemente muito pouco (revelação: sou professor numa escola de gestão). Eu estava mesmo ao lado dele durante essa parte e a coincidência agradou-me, porque concordei com ele e foi bom ouvir alguém dizer a verdade.
Mas os professores das escolas de gestão são apenas parcialmente culpados das suas pretensões de conhecimento. As pessoas para quem falam - a sua audiência - querem respostas às perguntas. Responder “Não sei” é, julgo eu, quase sempre visto como sinal de incompetência ou negligência do dever (dar respostas). Os nossos hipotéticos professores das escolas de gestão podem estar a dar às suas audiências o que elas querem, não necessariamente o que precisam. A audiência quer respostas, mas do que precisa é de verdade. (Não me porei aqui a fazer filosofia barata, tentando apresentar uma definição de verdade.) E essa verdade desejada pode não estar disponível para toda a gente: até os melhores e mais honestos interrogatórios podem ser inconclusivos. É uma verdade, calculo eu.
Na “Apologia de Sócrates”, Platão conta-nos que Querofonte perguntou ao oráculo de Delfos se Sócrates era o homem mais sábio de Atenas, ao que este respondeu que sim. De acordo com a lenda, Sócrates deu por si confrontado com um paradoxo: ele era profundamente ignorante e, contudo, era o mais sábio dos homens. Para tentar resolver o paradoxo, atribuiu a si mesmo o projeto de perceber o que as outras pessoas de Atenas sabiam. Interrogou homens de Estado, generais e outras elites, e concluiu que, apesar das suas afirmações em contrário, sabiam muito pouco. Finalmente, decidiu que o Oráculo talvez tivesse razão, porque ele sabia que não sabia muito, ao passo que os outros, que também sabiam pouco, julgavam saber muito. Saber que era ignorante tornou-o sábio.
Sócrates é agora uma figura histórica respeitada, cujo nome quase toda a gente que me está a ler conhece. O que é fácil esquecer é que a sua história tem sido sempre contada por ele ser um homem honesto que, acima de tudo, sabia não ter as respostas. Em Sócrates, vemos a sua ignorância reconhecida como uma virtude. Curiosamente, no nosso mundo atual, radicalmente mais complexo, parecemos querer que os “peritos” tenham sempre as respostas. Proponho que, em vez disso, nos negócios, na política e na vida em geral, consideremos seriamente respeitar os nossos contemporâneos sempre que eles demonstrem uma humildade socrática e nos permitam saber que não sabem.
Pode parecer um exagero adulador dizer que vi em Taleb (que, tal como o filósofo grego, é uma figura sólida e atarracada, com uma grande barriga) um Sócrates dos tempos modernos. Mas ele pareceu-me um homem que valoriza mais a verdade do que entrar numa qualquer lista Top 10 ou ter partilhas ou “likes” nas redes sociais. Infelizmente, esta honestidade parece-me muito rara. Espero que ele continue a corromper a juventude e a desrespeitar os deuses durante muito tempo.
Entretanto, pense sempre que a pessoa sem respostas - aquela que diz “Não sei!” - pode ser a mais responsável e respeitável que se encontra à mesa de reuniões.
Neil Bearden é professor associado de Ciências da Decisão na escola de economia INSEAD, onde também ensina e investiga julgamento.

Contramaré… 25 nov.

3 associações socioprofissionais de militares convocaram para segunda-feira um protesto simbólico dentro dos quartéis, na véspera da votação final global do Orçamento do Estado para 2014. O "protesto simbólico" visa "dar um sinal de preocupação e mal-estar que grassa" dentro da instituição militar face aos cortes orçamentais que atingem os salários, reformas e face a alterações em curso no estatuto dos militares, disse Lima Coelho, presidente da Associação Nacional de Sargentos (ANS).
Segundo o presidente da ANS, o convite para assistir à cerimónia do arriar da bandeira "estende-se aos militares na reserva e na reforma", que podem "visitar os seus camaradas de armas nas instalações onde prestam serviço". Os militares que participam no protesto pretendem demonstrar que "não aceitam a continuada degradação das condições de vida económica, social e profissional".

domingo, 24 de novembro de 2013

Posições convergentes sobre a “(in)Convergência”…

O Presidente da República requereu este sábado a fiscalização preventiva da constitucionalidade do regime de convergência de pensões entre o sector público e privado, que reduz cerca de 10% as pensões superiores a 600 euros pagas pela Caixa Geral de Aposentações.
Cavaco Silva pediu ao Tribunal Constitucional para verificar "a conformidade destas normas" com a Lei Fundamental, "designadamente com os princípios da unidade do imposto sobre o rendimento, da capacidade contributiva, da progressividade e da universalidade, e com o princípio de protecção da confiança, quando conjugado com o princípio da proporcionalidade".
O persistente confronto do Governo com os princípios básicos da Constituição da República e a sua conivência objectiva com as deploráveis pressões externas sobre o Tribunal Constitucional estão a gerar uma incomodidade manifesta em sectores relevantes da própria direita.
Pedro Silva Pereira 
E percebe-se porquê: a direita que nos governa não é aquela que nos habituámos a conhecer. Para impor a sua agenda neoliberal, Passos Coelho mostra-se claramente disposto a tudo, incluindo uma ruptura com o contrato social e com os valores mais elementares do nosso Estado de Direito. Ao fazê-lo, porém, está a romper definitivamente com o que ainda restava da tradição social-democrata do PSD e a arrastar o seu parceiro de coligação para uma governação ao arrepio de todas as suas bandeiras tradicionais - tornando o CDS num partido irreconhecível. As vozes respeitáveis de protesto que se ouvem na direita portuguesa são, pois, uma resposta natural em legítima defesa do património de ideias e de valores que está a ser ostensivamente traído pela liderança do Governo e pela doutrina económica que o capturou.
Veja-se o caso da proposta dita de "convergência das pensões". Como é evidente, está em clara rota de colisão frontal não apenas com os compromissos eleitorais dos partidos do Governo mas também com a visão social-democrata da segurança social e com a proclamada identidade do CDS como "partido dos pensionistas". Mas, pior do que isso, a proposta do Governo parece desenhada em forma de desafio aos princípios constitucionais do nosso Estado de Direito, que as constantes pressões e chantagens sobre o Tribunal Constitucional apenas acentuam.
Na verdade, como já aqui expliquei, apesar de saber que a sua iniciativa será constitucionalmente escrutinada do ponto de vista do princípio da confiança, o Governo avançou para o corte das pensões já atribuídas da Caixa Geral de Aposentações (CGA) sem estabelecer um calendário definido para a duração dessa medida (dita excepcional e transitória) e fazendo até depender a cessação da sua vigência de níveis duradouros de crescimento económico e de défice público tão inusitados que dificilmente poderão ser aceites como caracterização do termo do actual período de excepcionalidade financeira.
Por outro lado, embora sabendo que a sua iniciativa vai ser avaliada constitucionalmente do ponto de vista do princípio da igualdade proporcional, o Governo não só optou por atingir pensionistas logo a partir de rendimentos muito baixos, como assume pretender fazer recair sobre uma categoria determinada de pessoas, os pensionistas da CGA, os encargos com a sustentabilidade da Caixa Geral de Aposentações cujo desequilíbrio financeiro, acumulado ao longo de muitos anos, se deveu essencialmente a sucessivas decisões de política orçamental (não capitalização da CGA; criação de regimes especiais de aposentação; corte nas remunerações dos funcionários; controlo das admissões na função pública; fecho do sistema da CGA a novas admissões; transferência de fundos de pensões...), medidas que, prejudicando a CGA, resultaram em benefício geral das políticas públicas e/ou dos contribuintes, tornando-se um problema indissociável do equilíbrio geral das contas públicas para o qual todos devem contribuir em condições de igualdade, de acordo com a sua capacidade contributiva. Mais: ao sobrecarregar desta forma acrescida os pensionistas da CGA, o Governo pura e simplesmente ignora a pesada acumulação de medidas de austeridade que já impendem sobre os pensionistas: o congelamento das pensões; a redução do Complemento Solidário para Idosos; a redução das deduções específicas em sede de IRS; o corte dos subsídios de férias e de Natal (em 2012); o "enorme" aumento do IRS e a respectiva sobretaxa (que transitam de 2013 para 2014); o aumento das contribuições para a ADSE e a violenta Contribuição Extraordinária de Solidariedade (que igualmente se mantém).
A atitude do Governo parece uma provocação ao Tribunal Constitucional. E, como muitas vezes sucede em política, o que parece é. É por isso que quem, à esquerda ou à direita, preza o Estado de Direito e o Estado Social faz ouvir a sua voz e reage a esta tentativa de agressão. Numa resposta que é, cada vez mais, uma legítima defesa colectiva.
Presidente da República já chamou a convergência de "imposto extraordinário".
– “Irei receber 1.300 euros por mês, não sei se ouviu bem: 1.300 por mês. (…) Tudo somado, o que irei receber do fundo de pensões do Banco de Portugal e da Caixa Geral de Aposentações quase de certeza que não vai chegar para pagar as minhas despesas, porque, como sabem, eu também não recebo vencimento como Presidente da República." 20 de Janeiro 2012
 – "Pedi informações ao Governo, ele forneceu-me todas as informações que foram solicitadas e, face às razões de interesse nacional que me apresentou, entendi que não devia obstar à entrada em vigor do diploma." 10 de Abril de 2012 (sobre a promulgação do diploma que congela reformas antecipadas voluntárias até 2014)
 – "Um qualquer ‘estado de necessidade’ financeiro ou fiscal não parece autorizar que as pensões de nível médio ou superior, por se reportarem a uma minoria (embora expressiva) de pensionistas, possam ser submetidas a um agravamento tributário profundamente desigual e até exorbitante." 2 de Janeiro de 2013 (In documento do pedido de fiscalização do OE ao TC)
 – "A informação que me foi dada é que tudo será feito para não penalizar novamente os pensionistas e reformados. Este grupo tem sido duramente atingido duramente nos últimos tempos no nosso país.” “Há limites de dignidade que não podem ser ultrapassados." 14 de Maio de 2013 (a respeito da taxa de sustentabilidade que poderia vir a ser aplicada aos pensionistas)
 – "A criação de um novo imposto extraordinário sobre o rendimento dos pensionistas da Caixa Geral de Aposentações vai entrar ou acaba de entrar na Assembleia da República, onde será objecto de debate, é assim que deve ser." (a propósito da convergência das pensões da CGA e da Segurança Social) 16 de Setembro de 2013
 – “Se tomar a decisão de enviar [para o TC] a convergência de pensões dos 2 sistemas, Caixa Geral de Aposentações e Segurança Social, eu farei um comunicado para delícia dos senhores jornalistas.” 22 de Novembro de 2013

Ecos da blogosfera - 24 nov.

A alta fatura de uma energia que dizem “barata”…

A empresa responsável pela central nuclear de Fukushima deu o primeiro passo no longo e perigoso processo de desativação da instalação, extraindo um bastão de combustível do seu recipiente para posterior remoção.
A Tepco disse ter transferido o bastão para uma caixa de aço dentro da mesma piscina de arrefecimento no edifício altamente danificado em que fica o reator, dando início ao delicado procedimento sem precedentes de remoção das 400 toneladas de combustível usado altamente radioativo de dentro do reator.
Enquanto combate o vazamento de água contaminada com radiação ao redor da central, a Tepco focaliza-se na desativação de 4 reatores na planta de Fukushima Daiichi. A tarefa pode levar décadas (cerca de 40 anos) e custar dezenas de milhares de milhões de dólares.
A retirada dos bastões é urgente porque estão localizados a 18 metros de altura do solo, num edifício tombado e escorado que pode ruir se for atingido por um novo tremor de terra. Caso os bastões sejam expostos ao ar ou quebrarem, grandes quantidades de gases radioativos podem ser libertados na atmosfera. Há entre 50 e 70 bastões em cada recipiente, pesando em torno de 300 kg e medindo 4,5 metros de comprimento cada.
A Companhia de Energia Elétrica de Tóquio (Tepco), operadora da central nuclear Fukushima, está a considerar cortar cerca de 1.000 postos de trabalho através da reforma voluntária no ano fiscal de 2014, reduzindo a sua força de trabalho em 3.600, ficando com 36.000 no total até ao fim do ano fiscal de 2013.
Os últimos exames médicos detectaram 26 casos de crianças com cancro da tiroide na cidade de Fukushima, no Japão, embora seja cedo para saber se estão relacionados com a crise nuclear.
O comité encarregado de realizar os testes regulares em Fukushima analisou, desde outubro de 2011 até o momento, cerca de 226.000 moradores na região.
Além dos casos de cancro da tiroide já diagnosticados, outros 32 menores de idade da cidade apresentaram sintomas da doença. O número é superior ao apresentado em agosto, quando o estudo detectou 18 casos de crianças diagnosticadas com a doença e outros 25 casos suspeitos.
Um grupo de especialistas locais disse que é breve demais para determinar que estes casos estejam ligados à catástrofe nuclear, visto que o cancro da tiroide se desenvolve com "grande lentidão".
O iodo radioativo tende a acumular-se nas glândulas tiroides provocando a doença, que afeta especialmente crianças pequenas. O número de crianças afetadas por câncer de tireoide entre os 10 e 14 anos em Fukushima é consideravelmente maior que o da média do país, embora esses dados não sejam facilmente comparáveis porque não foi feito nenhum estudo tão exaustivo em outras áreas do Japão.
Após o desastre de Chernobyl foram diagnosticados mais de 6.000 casos de crianças com cancro da tiroide, atribuído principalmente ao consumo de leite contaminado, de acordo com o Comité Científico das Nações Unidas.
Para além de todos os gastos já feitos e não contabilizados, acrescente-se os perigos potenciais, as mortes, as doenças cancerosas, os gastos astronómicos do desmantelamento, os despedimentos, etc…
Já sabemos que estas minudências não entram nos estudos económicos dos custos da energia nuclear com que nos querem convencer que é a mais barata…
Barata era a minha tia e já se foi…

Contramaré… 24 nov.

É a 2.ª semana consecutiva de aumento dos preços nas bombas. Como factores que justificam estes movimentos, os analistas referem o aumento da procura de gasolina nos EUA, a diminuição do desemprego nos EUA e o acidente na refinaria da Total em Antuérpia.
De acordo com o último relatório de Bruxelas, depois dos impostos, o preço médio da gasolina 95 octanas praticado em Portugal é o 11º mais caro em toda a UE. Já o gasóleo ocupa a 15ª posição entre os 27 países do espaço comunitário.