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terça-feira, 19 de novembro de 2013

Uma amostra das ricas tabelas salariais na pobre UE…

O Fundo Monetário Internacional acredita que as medidas de austeridade tomadas até agora são suficientes para cumprir as metas do défice para este ano e para o próximo, mas antecipa mais cortes para 2015, escreve o Diário de Notícias.
Num relatório divulgado a 13 de novembro, a instituição diz que Portugal, em 2015, terá de reduzir ainda mais os salários e as pensões para conseguir um equilíbrio sustentável de pagamento das contas públicas.
O FMI acredita que a atividade económica portuguesa se manterá estável até ao fim de 2013, começando a recuperar gradualmente em 2014, mas avisa que ainda existem “riscos significativos” pela frente, entre eles, a possibilidade de o Tribunal Constitucional rejeitar algumas medidas do orçamento do Estado para 2014.
As negociações entre o Governo grego e a troika deverão ser retomadas a 18 de novembro, em Atenas. As conversações foram suspensas na semana passada, sem que tenha havido um acordo, mas são essenciais para desbloquear uma nova tranche de ajuda à Grécia.
As duas partes deverão chegar a um acordo sobre a redução do défice orçamental, com um mínimo estimado de 1.300 milhões de euros, até à próxima reunião do Eurogrupo, a 9 de dezembro.
O Governo elaborou uma lista de medidas de austeridade adicionais que permitirá, segundo ele, chegar a esse objetivo, noticia o Eleftherotypia: A redução das despesas do Estado, a fusão e a supressão de algumas agências do Estado e cortes nas despesas de outras, e a luta contra as fraudes fiscais e da segurança social.
O valor mínimo de hora de trabalho deverá ser introduzido na Polónia como forma de ajudar milhões de pessoas que recebem pelo seu trabalho um pagamento que é “uma violação da dignidade humana”, escreve o jornal Gazeta Wyborcza, que aponta o exemplo da Grécia, um país muito atingido pela crise, onde os trabalhadores ganham um mínimo de 4 euros por hora. Na Polónia, alguns empregadores estão a oferecer empregos “atraentes” pagos a 50 cêntimos de euro por hora. Segundo o diário, os empregadores polacos preferem pagar à hora para contornarem a legislação sobre o salário mínimo bruto, que é atualmente de 1600 PLN (€400).
Segundo estimativas do Ministério do Trabalho, na Polónia, mais de 900.000 pessoas, incluindo estudantes e aqueles que não conseguem encontrar melhores empregos, estão a trabalhar à hora e, como tal, não estão protegidos pela regulamentação do mercado de trabalho.

Contramaré… 19 nov.

A fixação das notas do primeiro período de aulas pode ser feita, este ano, mais tarde do que o normal. Isto porque a prova de avaliação de conhecimentos dos docentes contratados a prazo está marcada para o dia da primeira reunião de avaliação de notas. O dia 18 de Dezembro poderá ser ainda mais conturbado, uma vez que os sindicatos admitem fazer greve nesse dia para que o exame não seja realizado.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Contestar dialogando dá outra categoria e é mais fixe!

A EDP não gostou das alterações à contribuição sobre o sector energético. Foram conhecidas na quinta-feira. António Mexia, acompanhado pelo presidente da EDP Renováveis, João Manso Neto, foi na sexta de manhã ao grupo parlamentar do PSD reclamar as alterações à contribuição sobre o sector energético para 2014, que o Governo entregou na véspera aos deputados da maioria para serem introduzidas no debate na especialidade do Orçamento de Estado.
Luís Montenegro confirmou ter sido uma audiência a pedido do gestor.
Para a empresa, e sobretudo para os seus maiores accionistas, que são os chineses da China Three Gorges (CTG), as novas contas são piores do que as anteriores, elevando a contribuição de 17.900.000 de euros para 62.900.000 de euros. A Endesa, que estava isenta de pagamento de taxa, também não gostou, já que passou a ter de contribuir com 1.500.000 de euros pela sua central de gás natural, apesar de estar praticamente parada por falta de consumo. Os novos critérios não alteraram os 35.000.000 de euros da Galp, embora a petrolífera proteste contra o facto de a nova contribuição incluir as refinarias. A REN é a única das grandes operadoras de energia a ver diminuir o esforço de 35.000.000 para 24.500.000 de euros.
Para o advogado de uma das empresas abrangidas, “é uma questão de repartição do esforço, de justiça e respeito contratual”.
Uma eventual batalha jurídica andará à volta de argumentos sobre a constitucionalidade, o carácter discriminatório ou não da medida e a sua natureza fiscal (num momento em que o IRC e a derrama descem).
Esta sexta-feira está a ser marcada pelo debate do Orçamento do Estado e do Grandes Opções do Plano para o próximo ano, pelos vários partidos, no Parlamento. Por sua vez, a CGTP e os estivadores estiveram frente à Assembleia da República a demonstrar o seu descontentamento contra as medidas que deverão ser postas em prática.
Enquanto os deputados estiveram em debate para aprovação do Orçamento do Estado e o Grandes Opções do Plano para 2014, à porta da Assembleia da República ecoaram gritos de revolta contra as medidas previstas nos documentos.
Entretanto, o Orçamento do Estado para 2014 foi aprovado na generalidade, em plenário na Assembleia da República.
Algumas centenas de professores, a maioria contratados, concentraram-se, este sábado, junto da Assembleia da República para protestar contra a prova de acesso à carreira docente.
O Largo de São Bento está a abarrotar de manifestantes. A manifestação marcada pela CGTP destina-se a criticar o Orçamento do Estado para 2014 junto à Assembleia da República, onde os deputados votam o documento na generalidade esta sexta-feira.
Cerca de 2.000 pessoas estavam às 18:00 concentradas junto à Assembleia da República, depois de terem participado na manifestação promovida pelo movimento "Que se lixe a 'troika'".
Nestas andanças das contestações há táticas e táticas, tudo depende de quem depende e de quem é dependente.
Ao fim de 2 anos e uns meses, eis que a EDP é chamada a entrar na repartição do esforço para pagar a dívida, por uma questão de justiça e de não discriminação. E até lógico que a reação do presidente da empresa seja igual à de todos os contribuintes, que tem contribuído para pagar a dívida de terceiros, contestando a decisão do governo. O que se regista é a forma diferente da contestação e o tratamento dado aos contestatários…
Mexia pede uma audiência ao presidente do grupo parlamentar do PSD e é recebido, naturalmente.
Quando são outros, sejam grupos de cidadãos ou representantes de associações profissionais, nem sempre o processo é idêntico, o que leva, naturalmente, a manifestações de rua como alternativa.
Poder-se-á concluir que as portas do Parlamento não estão abertas para todos os cidadãos contestatários?
E nestas contestações, algumas até pegam, como parece ser o caso da REN, que viu reduzida a sua repartição do esforço, sem que o bolo global entre as empresas do ramo tenha diminuído.
No caso, não deixa de ser irónico que uma das empresas abrangidas pelo aumento da comparticipação a conteste por a considerar uma má repartição do esforço, injusta e falta de respeito pelos contratos, como se não fossem, exatamente, os mesmos que os contribuintes alegam há mais tempo... As tentativas de cortes na Função Pública e dos roubos nas pensões dos Reformados e Pensionistas, não se trata de uma alteração unilateral dos contratos com o Estado?
E ainda no caso, se as coisas forem para os tribunais, não é também irónico argumentar-se com a inconstitucionalidade e a discriminação, 2 anos e uns meses depois de o Zé andar a ser espoliado discriminatoriamente?
Já chegava a deferência com que são tratados estes contestatários, que comparativamente com os “baixinhos” ficam fora das escadarias de S. Bento, sujeitam-se a apanhar porrada e “pagam mesmo bufando”.
Que os efeitos sejam os mesmos, mesmo que a atitude seja mais “civilizada” e que se repitam estes comportamentos dialogantes, com os contestatários e os contestados a imitarem o processo.
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Ecos da blogosfera - 18 nov.

O 1.º e 2.º setor incumprem e o 3.º Setor leva “negas”…

Mais de 1.000.000 de pessoas participam em ações de voluntariado, 600.000 integradas em organizações. Segunda carreira, desemprego e maior sensibilidade face à crise aumentam vontade de ajudar
Está a aumentar o número de pessoas que em Portugal fazem voluntariado e a crise e o desemprego estão a contribuir para essa subida. Em 2012, estima-se que foram doadas mais de 368.000.000 de horas. Os cálculos foram feitos pelo INE, no âmbito de um inquérito-piloto ao trabalho voluntário realizado no último trimestre de 2012.
Os resultados apontam para que 11,5% da população residente, com 15 ou mais anos, tenha participado numa atividade formal ou informal de trabalho voluntário, o que equivale a quase 1.040.000 voluntários em Portugal. 
O inquérito do INE aponta que foram doadas mais de 368.200.000 de horas no ano passado, o que corresponde a 4,1% do total de horas trabalhadas. E, fazendo um cálculo pelo salário/médio/hora associado à ocupação profissional equivalente, estima em mais de 1.700.000 de euros o valor das horas de trabalho, o que corresponde a mais de 1% do PIB.
Cerca de metade destes voluntários (535.000) fazem trabalho formal em instituições, o que bate certo com o resultado de um outro estudo, feito em 2011 para o Conselho Nacional para a Promoção do Voluntariado, que estima em 600.000 os voluntários portugueses formalmente envolvidos em organizações, o que corresponde a um aumento de 20% face a um inquérito de 2001.
Ainda aquém da Europa
Rogério Roque Amaro, coordenador do estudo, explicou que a taxa absoluta de voluntariado (pessoas que alguma vez participaram numa ação de voluntariado) terá aumentado de 16% em 1999 para cerca de 18 a 20% em 2011, o que corresponde a uma inversão de tendência. Mas "ainda está muito aquém do que se passa na maior parte dos países da União Europeia", como a Holanda e a Suécia onde as taxas são superiores a 50%.
Contudo, o professor do ISCTE aponta vários fatores que contribuíram para este aumento. Por um lado, uma maior valorização social e até uma maior visibilidade científica do fenómeno (com grupos organizados nas universidades), encarar o voluntariado como uma espécie de 'segunda carreira' para quem já se reformou, os jovens desempregados que olham para o voluntariado como uma aprendizagem complementar e potencial rampa de lançamento e uma maior sensibilidade face à pressão da crise na sociedade.
Quando o 1.º setor, o Estado, não cumpre com as suas obrigações sociais e o 2.º setor, as Empresas fazem o mesmo, há que arranjar alguém que colmate essas necessidades, fazendo o que pode em favor dos que nada podem, em nome da solidariedade. É mais uma inovação sociológica do neoliberalismo…
E a este truque chamou-se “economia social”, que até chega a dar lucro, quando surgem empresas que exploram a exploração, como se vê no caso português, embora aqui se refira apenas o papel das IPSS, que mesmo assim tem dificuldade em arranjar algum, com a maior indiferença dos primeiros e únicos responsáveis, o Estado e as Empresas.
Mas nem com esta poupança (isto é que é poupança) o Estado dá conta do recado…
Para outros comentários sobre o tema, vá até aqui: 
É a subversão e  exploração do voluntariado!
Com o Estado sem dinheiro e os fundos europeus quase esgotados, poucos são os apoios a que a economia social pode acorrer em caso de emergência financeira ou para investir.
As linhas de ajuda à economia social têm-se sucedido, ao longo dos anos, mas o volume de pedidos depressa as esgota. Hoje, quem quer investir ou necessita de apoio de emergência tem poucas alternativas.
"Vai havendo linhas de financiamento, mas não cobrem as necessidades", assegurou José Baptista, presidente da união do Porto das IPSS. Manuel Lemos subscreve. "Só conheço alguns apoios da CASES (Cooperativa António Sérgio, uma espécie de direção-geral do setor), mas são marginais e chegam através da Banca". Para o presidente da União das Misericórdias, "tirando a mutualista - Crédito Agrícola e Montepio -, a Banca vê a economia social como qualquer outro setor".
De acordo com pessoas ligadas ao Instituto da Segurança Social, de uma longa lista recebida, apenas 2 estão, de facto, em vigor.
Primeiro, o Fundo de Socorro Social, que está a chegar apenas aos casos de emergência financeira extrema, uma vez que depende da existência de dotação. Segundo, o Estado comparticipa a despesa de utentes das entidades, através de acordos de cooperação, mas fontes ligadas a IPSS asseguram que não estão a ser assinados novos acordos. "O Governo não diz não, aceita os pedidos, aprova-os até, mas depois diz que ficam a aguardar dotação", disse uma fonte.

Contramaré… 18 nov.

O BCE deve efetuar os testes de resistência em 2014 e pode encontrar algumas necessidades de financiamento.
As regras que se aplicam caso seja necessário refinanciar alguns bancos da zona euro.
Em primeiro lugar deverão dirigir-se "aos mercados" para se refinanciarem ou…
Se for necessário, os Estados podem intervir, em conformidade com as regras europeias sobre ajudas estatais ao setor financeiro.
Se os recursos nacionais forem insuficientes, os da zona euro podem ser ativados por intermédio do Mecanismo Europeu de Estabilidade, como foi o caso de Espanha.

domingo, 17 de novembro de 2013

Na blogosfera, nas redes sociais e também nos media!

Nunca gostei do mundo da blogosfera e das “redes sociais”, que é um repositório de iliteracia e de irresponsabilidade, sem direcção e sem lei.
Mas não imaginava que politicamente as coisas se pudessem passar como as conta um cavalheiro que a revista Visão entrevistou esta semana. Esse cavalheiro, que se descreve a si próprio como “consultor de comunicação”, gaba com enorme orgulho as patifarias que por aí se fazem para distorcer os resultados de várias espécies de eleições (por exemplo, as que Passos Coelho ganhou no PSD) e para “derreter” a imagem pública de pessoas que um pequeno grupo de facciosos considera inconvenientes (por exemplo, Paulo Rangel e Manuela Ferreira Leite). Estas “campanhas negras”, como são conhecidas, gozam segundo ele diz do apreço e da ajuda de algumas “notabilidades” públicas.
Verdade que certos governos meteram a colher na sopa, definindo as “linhas gerais” da sua propaganda e fornecendo informações secretas por “e-mail fechado” (um requinte que francamente não consigo perceber). Isto, a ser verdade, já é de si gravíssimo. Mas, sobre isto, os “consultores de comunicação” inventam “perfis falsos” (por outras palavras, personagens imaginárias) para o Facebook, a que dão uma “vida” (“fotografias de família”, preferências particulares, clube de futebol e por aí fora) e que depois põem a espalhar calúnias sobre o indivíduo ou o partido que pretendem abater. Durante a campanha de Passos no PSD, o “consultor de comunicação” que os jornalistas da Visão confessaram, aliás sem grande dificuldade, passou uma noite a trabalhar em 3 computadores (fora o telemóvel) para virar a audiência contra Rangel e a favor de S. Exa. o actual primeiro-ministro.
Pior ainda: estes extraordinários peritos em “novas profissões” intervêm, sob nomes fictícios, nos chamados “fóruns” de opinião da TSF e da SIC. Ou para vexar um político particular (no caso, parece que Sócrates) ou para “defender” a gente para quem trabalham. Ao que alega o “consultor” da Visão as “Juventudes” fornecem muitos “voluntários” para esta meritória obra. E, mais tarde, acabam por receber a sua recompensa. Lugares no Estado, evidentemente, lugares nos gabinetes dos ministros, até contratos de um teor obscuro. Mesmo que o benfeitor que a Visão desencantou exagere a sua importância e as suas proezas, não fica a menor dúvida que existe um bas-fonds na “net”, a pedir uma boa limpeza. É para isso que existe a polícia e a Procuradoria-Geral da República. Ou não é?
Para quem anda nesta “coisa” sabe de experiência feita, que a iliteracia, a irresponsabilidade, com direção definida e contornando a lei, se passa na blogosfera, nas redes sociais, mas também, ou sobretudo nos meios de comunicação social. Só há uma diferença, é que na internet só lê quem procura ou encontra por acaso, enquanto nos media tudo nos entra pela casa dentro e ainda pagamos… E VPV não deve ser tão inocente que se tenha esquecido da gente que utiliza a sua mesma ferramenta…
Mas o mais paradoxal é ter verificado em vários blogues a mesma indignação que VPV exteriorizou, quando muitos deles no passado recente e pelas mesmas razões, usaram os mesmos meios, sobretudo na blogosfera, contra outros alvos e ao serviço de outros amos, com os mesmos objetivos…
E o mesmo se passou no passado na comunicação social, impune e militantemente, com a mira apontada a outros atores, à margem da ética e da lei…
Mudam-se os tempos, mudam-se os atores, mudam-se os moços de recados.

Ecos da blogosfera - 17 nov.

A ARTE - mensageira do passado e delatora de culpas

Os 1.400 quadros roubados pelos nazis, encontrados em casa de Cornelius Gurlitt, não são apenas uma grande descoberta artística. Através da história deste filho de um colecionador de arte da época do regime nazi, é a questão da relação da Alemanha com o seu passado que, em parte, se recoloca.
Aí está, encontraram o idoso mais procurado do país. A Paris Match fotografou-o num centro comercial de Schwabing [bairro de Munique]. Cabelo branco bem tratado, porte elegante. Ficou a olhar de lado, com um ar desconfortável, de boca entreaberta, como se quisesse dizer algo, mas as palavras não saíssem.
Eis, pois – com toda a probabilidade –, Cornelius Gurlitt, filho do negociante de arte nazi Hildebrand Gurlitt. Há uma semana, a revista Focus revelava que a polícia já em 2012 tinha feito uma busca ao seu apartamento de Munique, onde se acumulavam obras sobretudo reunidas durante o regime nazi. Enquanto o Ministério Público não procura Gurlitt, por não saber ainda o que se lhe pode imputar juridicamente, muitos há que o vêm investigando desde segunda-feira passada: detetives contratados por herdeiros de colecionadores judeus, jornalistas, fotógrafos, representantes de museus.
A história não tem nada de divertida: o que aqui se passa, atrás das persianas fechadas de um edifício moderno, é nada menos do que um concentrado do capítulo mais negro da história alemã. Um homem solitário guarda ali o legado do seu pai, um indivíduo do mais alemão que é possível. Hildebrand Gurlitt colaborou com o regime nazi e tirou partido dele, desapossando colecionadores judeus dos seus meios de existência e privando museus de joias da arte moderna. Paralelamente, para além do facto de ter ele próprio uma parte de sangue judeu, era também um mecenas e defensor dos artistas de vanguarda, cujas obras revendia ou guardava, conforme os casos.
Entrincheirado no segredo de família
São os paradoxos da nossa história comum e nem todos os descendentes se acomodam a eles com facilidade. Cornelius Gurlitt considerou manifestamente que não tinha opção a entrincheirar-se no segredo de família. Podia ter transmitido a herança paterna a uma fundação, quando a mãe morreu, em finais dos anos de 1970, ou cedê-la ao Estado, para fins de pesquisa e restituição.
Mas Cornelius Gurlitt não tinha o livre-arbítrio nem o recuo necessários em relação às suas origens, e nada aponta para que os tenha hoje, quando o cerco aperta. A conclusão de um acordo seria hoje a única saída airosa possível, porque, no final da guerra, ninguém revogou a lei sobre o desvio de obras de arte. A Lei de 1938 sobre a “arte degenerada” continua, pois, em vigor. No plano legal, instalou-se na Alemanha a noção de que o saque dos museus foi um ato administrativo extracontratual, e daí que nenhum museu tivesse podido reivindicar nada no pós-guerra. Além disso, colecionadores particulares, como a família Gurlitt, foram excluídos de todos os acordos mais tarde efetuados sobre as obras de arte confiscadas a judeus.
Estas falhas graves são conhecidas e há questões jurídicas mais escaldantes que têm vindo a lume nos últimos anos. Porquê tanto barulho agora, em torno do caso Gurlitt?
A atração sinistra que exerce reside no duplo jogo de escondidas, primeiro de Cornelius Gurlitt e, em seguida, do procurador-geral atual, que continua lamentavelmente sem publicar a lista exaustiva das obras sonegadas.
Cornelius Gurlitt, na casa dos 80 anos, sem dúvida que sentiu que as ações dos seus pais, apesar de legais, eram ilegítimas. Dedicou a sua vida à ocultação da mentira familiar, renunciando a qualquer atividade profissional e a formar família, votando a sua existência a preservar a reputação do pai.
Talvez não passe de um inadaptado como tantos outros – na semana passada, houve quem visse na sua timidez perante a objetiva a prova de que seria um monstro semilouco, capaz de tudo. Ora o homem é tão pouco combativo que nem arranjou advogado. Aquele que aparentava, à primeira vista, ser um marginal no meio da sua caverna de Ali Babá não despertou grande compaixão – os alemães procuraram sobretudo tranquilizar-se, dizer que, ao contrário dele, estamos noutra, curados dos crimes nazis e das suas consequências. Mas estamos mesmo?
Velhas feridas
Quem, como Cornelius Gurlitt, nasceu na Alemanha em 1933, não foi, na sua grande maioria, nem carrasco nem vítima. Acomodou-se a um regime arbitrário; em 1945, ainda criança, deparou-se com o surgimento de novos valores, antes de se tornar parte do povo que construiu a nova República Federal. Só agora, no momento em que a sua geração atinge uma idade avançada, a sua conceção da existência vacila e velhas feridas reabrem. A história de Cornelius Gurlitt pode ser uma oportunidade para aprendermos mais e talvez pôr a falar este filho da Alemanha – ou, se não for ele, pelo menos os seus quadros, desenhos e arquivos zelosamente escondidos.
Hoje, o Governo alemão anunciou que vai apostar na transparência e publicar na Internet uma lista, dentro dos limites previstos na lei. Uma boa iniciativa. Ocultando a natureza das obras, submeteu os nervos da opinião pública a uma dura prova. O duplo jogo de escondidas que esta descoberta desencadeou agita as mentes. Porque toda a gente pressente as desagradáveis surpresas que pode abrigar um passado tão cruel: fantasmas de ontem, que não conhecemos realmente ou não conseguimos entender, mas que podem voltar a visitar-nos a qualquer hora.
A morte de todos os que cederam ao oportunismo e à crueldade não põe um fim à história. Porque as obras de arte sobrevivem aos homens – são a nossa memória. A sensação difusa sentida por muitos alemães toma forma com esta descoberta: de repente, pinturas genuínas reaparecem em casa de um genuíno filho de nazi. Hoje, podemos optar por apontar o dedo a este mensageiro do passado e debitar novamente a questão da culpa; ou aceitar Cornelius Gurlitt como um de nós, com as suas angústias. Chegou a hora de encontrar, com ele, uma forma de ficarmos melhor.

Contramaré… 17 nov.

A receita de IRS disparou mais de 30% nos primeiros 9 meses de 2013, devido ao “enorme” aumento de impostos decretado por Vítor Gaspar. O IRC rendeu mais 16% do que nos primeiros 3 trimestres de 2012. Já o IVA caiu 1,3% nos primeiros 9 meses do ano, uma queda menos intensa do que o verificado até Agosto, já que em Setembro se verificou um aumento de 5%.